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segunda-feira, janeiro 31, 2011

A linha interrompida

Como se não bastassem as centenas de quilómetros de caminho de ferro fechados nos últimos vinte e tal anos, deparamos-nos agora com esta indigente história do cancelamento do metro (que já não vai haver) no antigo ramal da Lousã. Parece que se chegou ao fundo da incompetência e do desrespeito do Estado pelas pessoas.

A falta de respeito materializa-se na ideia peregrina de se alterar toda uma linha de quarenta quilómetros que servia vários concelhos da região de Coimbra (e a própria Coimbra), encerrando-a durante anos, mesmo com dúvidas levantadas pelos utentes e pelas autarquias, e trocando-a por autocarros. A incompetência é chegar-se perto do termo dos trabalhos na linha e vir-se com o argumento de que afinal o projecto é "megalómano", custa balúrdios na sua execução e na sua manutenção, e que foi sobrevalorizada em "estudos anteriores". Lê-se e não se acredita que uma coisa destas possa ser afirmada sem o menor pedido de desculpas por aqueles que tiveram a brilhante ideia da conversão total da linha. Ou seja, os responsáveis pelo serviço que as populações nunca pediram abandonam-no a meio como se não fosse nada com eles, sem assumir a mínima responsabilidade.


Nunca andei no ramal da Lousã, mas numa altura da vida ia muito à Lusa Atenas e vi muita gente a despachar-se na estação de Coimbra-A para ir apanhar o comboio para a Lousã na estação do Parque (cheguei a ver uma composição a ir de uma estação para a outra, atravessando o parque e o largo das Ameias, a meio da madrugada, única hora em que tal acontecia). Por isso, o argumento da escassez de gente parece-me pouco sustentável. Mais a mais, os concelhos atravessados pelo comboio, Lousã e Miranda do Corvo, ao contrário do que acontece na maior parte das terras do interior (i.e. para leste de Coimbra) têm visto a sua população aumentar ao longo dos anos.

Já se sabe que o governo e boa parte das "elites" querem, antes de mais, a modernização do país a toda a força, e não hesitam em acabar com qualquer custo superviniente nas linhas férreas secundárias apenas para construir o utópico TGV, esse "cavalo de ferro" branco utópico que se tornou no novo desígnio nacional, mesmo que seja um sorvedouro de recursos. Nos últimos vinte anos foram destruídos centenas de quilómetros de caminho de ferro, muitas vezes sem prévio aviso, com os vagões a serem levados pela calada da noite. Agora, acabam com um serviço, começam a construir um sucedâneo, e deixam as obras em três quartos por culpa de contas mal feitas.


O ministro António Mendonça, um dos maiores erros de casting num executivo onde eles abundam, já veio dizer que não se trata da suspensão das obras, mas da sua "recalendarização" e alteração do programa de trabalhos. é bom que seja apenas isso. Porque se isto significar fim efectivo da linha da Lousã, por pura incompetência dos poderes públicos, será a sua cabeça a rolar. A sua e outras, porque nem pode haver culpas solteiras nem salteadores travestidos de autoridades dos transportes que não saibam assumir as suas culpas.

sexta-feira, junho 04, 2010

O TGV também se pinta de vermelho

 

As manifestações sindicalistas do passado fim de semana, em Lisboa, tiveram o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda, ou não fossem as mesmas organizadas pela CGTP, pelo que estranho seria que os citados partidos não as apoiassem, em especial o primeiro (se bem que o Bloco também tivesse as suas razões, até porque pelo meio andou um grupo de radicais anarquistas, mais preocupados em atirar objectos à polícia). A manif destinava-se a protestar contra as recentes medidas de austeridade do Governo.

Entre as reivindicações do costume neste tipo de eventos contavam-se o aumento de salários, a manutenção "dos direitos que Abril nos deu", a não privatização de empresas públicas, etc, etc. Mas quando se trata de saber como há de o governo diminuir o défice, a resposta ou é uma evasiva lírica para demonstrar que isso é um assunto "secundário", ou fala-se logo na diminuição de proveitos de políticos ou administradores de empresas, pelo menos a avaliar por um recente outdoor bloquista, que aponta uma série de empresários, mesmo que alguns sejam do sector privado (que curiosamente são os que auferem menores rendimentos, se as contas do Bloco baterem certas).

Mas foram precisamente estes partidos que ainda há dias reiteraram o seu apoio ao avanço das grandes obras públicas, a começar pelo TGV, de entre todas a de rentabilidade mais que duvidosa. Para mais, os que irão utilizar tal transporte serão certamente aqueles que têm mais posses, e não os que participaram nas manifestações. Não é por haver TGV que as chusmas de pessoas que viajam em Intercidades entre Lisboa e Porto o vão deixar de fazer - caso contrário, fá-lo-iam de avião (o Alfa foi pensado para fazer as vezes do transporte aéreo, em versão um pouco mais vagarosa). Será que os dirigentes comunistas e bloquistas estariam a pensar em exclusivo neles próprios? Nesse caso, trata-se de uma inapelável traição aos valores colectivistas que apregoam e a rendição ao consumo puro. E uma coisa é certa: eles, que apontam sempre o dedo ao PS, PSD e CDS pelos males do país ficam a partir de agora co-responsáveis pelas futuras crises orçamentais e pelos atascanços nas finanças que tivermos. Quem se lança em aventuras deste calibre, contrariando descaradamente a sua doutrina, só tem que ser responsabilizado pelos seus actos. Ao lado dos partidos do "arco governamental", os partidos de esquerda radical e autoritária têm desde já a sua quota parte quando o défice nos voltar a bater à porta. é bom que ninguém se esqueça disso, na hora em que se pedir contas.
 

terça-feira, abril 20, 2010

Pare, Escute, Olhe




O cinema documental português está de boa saúde e recomenda-se. Depois de Ruínas chegou agora às salas Pare, Escute, Olhe, de Jorge Pelicano, que realizou anteriormente outra-longa metragem, Ainda Há Pastores, entre as serranias e as ovelhas da Serra da Estrela. Mas enquanto Ruínas era estático, este tem uma dinâmica muito própria. O filme, que ganhou o prémio de melhor documentário em longa metragem no DocLisboa de 2009, volta ao interior profundo, desta vez para revelar a morte lenta da Linha do Tua, desde o fecho do troço entre Mirandela e Bragança, em 1990, as atribulações e desesperos da população e as vacuidades do discurso político e das suas promessas.

Faz-se uma cronologia desde os anos oitenta, em que o problema do fecho da linha se colocou, vê-se o habitual ardil das "suspensões nocturnas" sem aviso, ao ponto de se roubar as locomotivas. Passa-se em revista as promessas de desenvolvimento com barragens, os diálogos entre governantes e altos quadros de empresas públicas, discutindo betão, as contradições, a incúria e as tragédias ferroviárias, quando não as havia antes, os estratagemas para se diminuir o número de utentes do comboio, servindo assim de pretexto ao seu encerramento, a submissão dos representantes eleitos que se submetem aos interesses partidários em lugar de defender os locais.
Pelo meio, o testemunho de um rio, de uma paisagem única, a junção de um património humano e natural únicos, ameaçados pela albufeira de uma barragem que não dará nem empregos nem desenvolvimento à região. E vê-se um povo entre o conformismo e a revolta. Nas conversas de café (como no surreal Lucky Luck), nas viagens na automotora, ou nas reuniões com os seus representantes, o trasmontano está lá bem plasmado: rude, directo, frontal, com alguma comicidade à mistura. Personagem transversal ao filme é o Sr. Abílio, antigo funcionário da CP, que goza os dias de velhice à sombra do apeadeiro de Ribeirinha, testemunha do caminho de ferro, do rio e do que se passa pela linha fora, não se fazendo de rogado a dizer o que pensa, por gestos ou palavras.
Também a fotografia e os cenários naturais são magníficos, e há algumas cenas de antologia, como o discurso de Sócrates, falando no "desenvolvimento", quando atrás da sua imagem desfocada e rebaixada se vêm as escavadoras em movimento. contrapondo ao progresso do betão, usa-se mesmo a arma preferida dos seus apologistas: mostra-se o que se passa "lá fora", nos "países civilizados", em que o comboio é usado como meio de transporte e turístico, e faz-se a terrível comparação com o que se passa no Tua. O contraste é coisa para deixar todos os portugueses corados de vergonha.
As minhas expectativas antes de ver Pare, Escute, Olhe eram razoáveis, mas fiquei agradavelmente surpreendido com esta obra melancólica, séria e irónica, tudo ao mesmo tempo. Além de ser um autêntico serviço público e de mostrar mais uma vez a tendência dos portugueses para abandonarem o que é seu em detrimento do que é "novo". Ainda está em exibição. É bom que o apanhem. Mais difícil será apanhar um comboio da linha do Tua. Mas quem sabe...

quinta-feira, março 26, 2009

Traição contínua
As linhas do Corgo (Régua a Vila Real) e do Tâmega (Livração a Amarante) estão encerradas "por tempo indeterminado" desde ontem à noite, numa ordem dada em cima da hora pela administração da Refer que, em segredo, acordou com a CP um serviço de substituição rodoviário. O motivo oficial é a reabilitação daquelas linhas, mas a empresa não tem qualquer calendarização para iniciar os trabalhos, não dispõe dos projectos para tal e não abriu qualquer concurso público.Ontem à noite, o maquinista da automotora que costuma ficar na estação de Vila Real recebeu ordens para a trazer de volta à Régua antes da meia-noite, numa operação que faz recordar a forma como há 16 anos encerrou a linha do Tua (entre Mirandela e Bragança) com as composições a regressarem vazias durante a noite para evitar a contestação das populações.O PÚBLICO apurou que a Refer e a CP preparavam esta operação há já alguns meses, mas decidiram não a divulgar, preferindo fazê-lo em cima da hora. Ontem, às 21h, os sites das duas empresas não traziam ainda qualquer informação sobre esta suspensão. A ordem apanhou de surpresa os ferroviários da estação da Régua e da Livração que, subitamente, ficaram a saber que hoje já não haveria comboios para Vila Real e Amarante. Para a CP, que também omitiu estas alterações aos seus clientes, esta situação é vantajosa visto que o serviço é deficitário e poupa agora no combustível e no desgaste das composições, com a vantagem de ser a Refer a pagar os autocarros de substituição.


Mais uma prova da absoluto desrespeito da CP e da REFER pelos seus utentes, uma atitude que se está progressivamente a tornar rotineira. Depois de encerramentos contínuos de inúmeros troços de linha férrea, desde o fabuloso Sabor até vários percursos alentejanos, e quando se prepara, embora ainda não o admita, para eliminar a linha do Tua, um património único na Europa, a notícia da "suspensão" das linhas do Tâmega e do Corgo caiu que nem uma bomba entre os habituais utilizadores. Pela calada da noite, como quaisquer vulgares bandoleiros, aqueles que tinham obrigação de velar pelos caminhos de ferro acabaram com eles num ápice. A história da "suspensão indeterminada" é truque velho, demasiado datado para que alguém acredite, fora os desonestos.


Enquanto isso, discute-se o traçado do TGV, se entra em Lisboa pelo Norte ou pelo Sul, se passa ou não no aeroporto, se vai a Vigo ou a Ayamonte. O TGV é um dos Bezerros de Ouro do regime, tal como o EURO 2004 era "o desígnio nacional". Promete o futuro radioso à mão de semear por meros 40 Euros, depois de milhares de hectares expropriados, incontáveis discussões e projectos, milhões de Euros gastos nisto tudo e nas inevitáveis derrapagens.


E o ambiente, as energias renováveis, o cumprimento dos protocolos de redução das emissões de CO2, tudo alardeado com ar beatífico e de aluno cumpridor, quando o interior e o miolo das grandes cidades se esvazia inexoravelmente para os subúrbios dos blocos de betão de má qualidade decorados a marquises ensebadas no meio de campos semi-agrícolas. Para isso, constroem-se barragens concessionadas previamente à EDP, que podiam ser evitadas caso se aumentasse a potência de outras, destruindo-se património humano e natural, com a falsa promessa de que vão atrair turismo e emprego (isto é, construção civil), quando na realidade apenas "secam" tudo à sua volta, quais eucaliptais.


As linhas férreas foram uma forma de vencer as barreiras entre o litoral e o interior, penetrar nas serranias e nos planaltos, quebrar o isolamento de populações desde tempos imemoriais confinados ao seu horizonte montanhoso. Um projecto ambicioso, levado a cabo desde o Fontismo até aos últimos anos da Monarquia, em que os Reis iam pessoalmente à inauguração destes novos troços que mudaram o país para melhor, fosse no Carregado ou nas Pedras Salgadas. Agora, a república em que vivemos resolve unilateralmente e por interposta empresa pública acabar com meios de transporte, que além de ligarem populações carentes de outros meios de comunicação, eram já um património histórico testemunhando a vontade intrépida de ultrapassar obstáculos, como o haviam sido os Descobrimentos e o Douro vinhateiro. A isto tudo a CP obedece sem pestanejar, traindo o compromisso com os seus utentes, continuando a prestar-lhes maus serviços pelos mesmos preços sem sequer ouvir-lhes as queixas (o Intercidades não tem serviço de bar há seis meses). É bem o exemplo do que não deve ser uma empresa pública. Infelizmente, é a regra, e não a excepção.


Ainda me posso dar por feliz por ter conhecido a linha do Corgo, mesmo que amputada da sua metade até Chaves. Tinha planos para conhecer as do Tâmega e do Tua, mas infelizmente essas esperanças goram-se agora. Já não poderei conhecer essas velhas composições, as paisagens únicas que atravessam, nem os rostos das pessoas traídas pelos seus governantes, para quem não passam de pormenores do seu feudo de "progresso" e inimputabilidade.
PS: ver igualmente a Origem das Espécies
(Publicado em simultâneo no Estado Sentido)

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Aparição em Santa Apolónia?

Manuel Pateta vem para mim com os seus passinhos de arame. Soergue o boné, os olhos chorosos escorrem aguardente(...)dou-lhe a mala, ele põe-se a andar adiante, dobrado em compasso, como se lhe doesse o ventre, as calças de ganga pelo meio da canela, os pés sem meias em alpercatas brancas".

Virgílio Ferreira, Aparição

Já quase não se vêem carregadores nas estações de comboio. Alguns subsistem, porém, na estação lisboeta de Santa Apolónia. Acorrem aos comboios que param junto às plataformas, oferecendo os seus préstimos a quem chega dos Alfas e dos Intercidades carregado de malas e malões. Não sei exactamente quem lhes paga e que tipo de gorjeta lhes dão, porque nunca usufruí dos seus carrinhos ferrugentos.

São quase todos homens de idade. Um deles, o mais velho, com o seu boné identificativo de fazenda, tem um andar esquisito e um olhar choroso, ferido, alcoólico. Lembra-me exactamente Manuel Pateta, o apoucado carregador de malas da estação de Évora que aconselha Alberto Soares/Virgílio Ferreira à sua chegada. Com aquela idade, aquele olhar, "a escorrer aguardente", aquele andar estranho, pergunto-me se afinal Manuel Pateta não seria uma personagem real, que Virgílio (que leccionou em Évora) incluiu na sua obra maior, e que por acasos da vida tivesse vindo parar a Lisboa, à centenária e movimentada estação ribeirinha de Santa Apolónia, com o seu trabalho de sempre. É bem possível, é. Para a próxima peço para me levar a mala e dou-lhe uma gorjeta. Talvez lhe faça aquelas perguntas de quem chega pela primeira vez áquele destino, como a de há quantos anos exerce o mester, e mesmo como se chama. Quem sabe se a minha mala não será mesmo carregada pela pitoresca figura imortalizada em Aparição.

domingo, outubro 12, 2008

Dia chato

De manhã, carta a anunciar recusa de emprego. Depois, notícia de que os fundos de investimento retirados há dias para a conta à ordem desceram ainda mais do que se esperava (mais do que o dia da ordem de venda). À tarde, confusões bancárias e saldo negativo na conta, o que durante meia hora espalhou o desnorte no cérebro até o erro estar resolvido e conseguir enfim comprar o bilhete de comboio para o Porto (a uma Sexta à tarde e com 2 Euros no bolso, acreditem que é desagradável). Finalmente, no Intercidades a abarrotar, sentado num daqueles bancos virados para o de trás, sem mesa ou qualquer objecto a dividir os passageiros, ouço o anúncio de que o serviço de bar "está suspenso". Três horas com fome e sede sem sair do lugar custam, mas já agora, e tendo em conta outros problemas ferroviários, ouso perguntar aos senhores da CP: não se justifica uma ligeira descida dos preços como compensação à falta de serviços básicos? Ou andarão a poupar para a futura alta velocidade?

segunda-feira, setembro 15, 2008

A ferrovia a saque

Interessante artigo de ontem, no Público, sobre a linha férrea em Trás-os-Montes e no Douro. Interessante mas inquietante, também. As perspectivas não eram nem são nada agradáveis. E o pouco que resta desse fantástico património ferroviário e do esforço de imensos trabalhadores e técnicos em ultrapassar as barreiras naturais da região pode vir a ser eliminado nos próximos anos.
Da linha mãe, a do Douro, que ia até Barca de Alva e seguia por Espanha (hoje acaba no Pocinho), saíam várias outras, correspondentes a alguns afluentes do rio. A do Tâmega desviava-se em Livração, no Marco, e ia até Arco de Baúlhe, depois de passar por Celorico e Amarante. Hoje para nesta última, e só tem poucos quilómetros. A do Corgo saía da Régua, trepava (e trepa) pelos socalcos do Douro acima, passava por Vila Real, Vila Pouca, Pedras Salgadas e Vidago, e acabava em Chaves. Tinha grande relevância no transporte para as termas. Depois da amputação, ficou-se pela capital de distrito. A do Tua, como se sabe, sobretudo pelos vários e suspeitos acidentes que tem sofrido nos últimos meses, parte da estação com o nome do rio, passa por fragas e depois por olivais até Mirandela (onde cessa actualmente a sua marcha), e seguia por Macedo, até Bragança. A do Sabor, porventura a mais entusiasmante em termos de paisagem, e a única integralmente abandonada, subia do Pocinho em direcção a Moncorvo, passava ao largo de Freixo e de Mogadouro e ia morrer em Duas Igrejas, a poucos quilómetros de Miranda. Ainda houve projectos para uma linha do Varosa, que seguiria para sul, atravessando do Douro, até Viseu, via Lamego. Ainda se construíram viadutos e até uma ponte metálica, que faz parte hoje em dia da paisagem reguense, nunca tendo servido realmente para nada. Caso o projecto da linha tivesse sido concretizado, o mais provável é que ela já estivesse encerrada.


Os erros de alguns projectos iniciais, como a interrupção abrupta das linhas em relação ao plano original ou o traçado que não aproveitava às povoações mais importantes, e a falta de visão de alguns dirigentes políticos e responsáveis ferroviários, levaram ao corte brutal destas vias. A concorrência rodoviária, apoiada em fortes lobis, e normalmente de qualidade inferior ao comboio, muito contribuíram para esse fim. Transformou o que delas restava numa mera atracção turística de Verão, ou num transporte para um ou outro lugar mais inacessível. Destruiu um património único, literalmente deixado às urtigas, e desperdiçou todo o trabalho de construção e manutenção efectuado antes.


Agora que parte do declínio das linhas é irreversível, convém salvar o que resta e aproveitar o que ainda pode ser utilizado. Há pressões das câmaras de toda a região para que se reactive a parte desactivada da Linha do Douro, a partir do Pocinho. Os espanhóis estão a fazer o mesmo no seu lado, e seria uma monumental asneira não aproveitar o ocasião de se levar de novo o comboio a Barca de Alva, evitando que tantos visitantes voltem para trás ou apanhem um autocarro, e ligar o Porto a Salamanca (duas cidades classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade).


Por outro lado, a Linha do Tua, que tantas desditas tem sofrido nos últimos tempos, algumas bastante suspeitas, desde que se soube dos planos da construção de uma barragem no seu vale, que destruiria a velha e histórica linha férrea. Se se conseguir impedir tão inútil projecto(principalmente para as populações locais), tarefa que se afigura hercúlea tendo em conta a ganância da EDP, seria uma oportunidade de ouro para se requalificar a linha e restaurar a sua parte inactiva, levando-a a Bragança, e cumprindo o projecto original de atingir Puebla de Sanabria, já em Espanha. A ideia tem agora ainda mais cabimento já que na dita cidade haverá uma estação de paragem da linha de alta velocidade entre Madrid e a Galiza, equidistante de Zamora e Ourense. Ligava-se assim o douro ao TGV espanhol. Tal é o projecto da petição que andou aí a circular para a salvação da linha do Tua.




Quanto ao Corgo, ao menos que fique como está. a passagem pelas vinhas, quase a resvalar nos precipícios, é notável. O futuro da linha do Tâmega é mais incerto, até pela sua escassa distância. O fantástico percurso do Sabor, esse, já não tem qualquer remédio, mas ao menos que se aproveite o património que deixou disseminado, como algumas estações ao abandono (a do Freixo, a 14 quilómetros da vila, é paradigmática).


É sabido que o actual governo dá mais ênfase ao "tecnológico"e não prima muito pela defesa do património. Por isso mesmo há que falar mais deste imenso património ferroviário como há poucos na Europa. O Douro não seria o que é sem o comboio. E não só. Por isso, que mil artigos como este sejam editados, que mais petições, manifestações, debates e chamadas de atenção floresçam, para que os senhores da REFER e da CP não fiquem surdos e promovam o que lhes cabe salvaguardar.

quarta-feira, maio 28, 2008

Linha do Tua ameaçada
Já há muito que devia ter postado isto, mas mais vale tarde do que nunca. Está online uma petição para impedir a destruição da histórica linha do Tua, uma das últimas de Trás-os-Montes, coisa que acontecerá se a barragem projectada para a zona, com uma cota planeada, for avante. É o próprio Douro, como património da humanidade, que se encontra em perigo.
Fica este aviso telegráfico, mas voltarei a este assunto brevemente e com mais pormenores.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Estação do Rossio

É realmente bonita, a correspondente à estação de S. Bento em Lisboa. Aquele neo-manuelino paredes meias com o Rossio lembra gestas heróicas, períodos conturbados (o assassinato de Sidónio, por exemplo) e chegadas triunfais de personalidades ilustres, via sud-express, por vezes a caminho do Estoril.

Será que é verdade a história de que comunica com o vizinho Hotel Avenida Palace?

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Alguém me sabe dizer qual a razão dos bares dos Intercidades serem bem mais espaçosos que os dos Alfas Pendular? Os primeiros têm bancos espalhados ao longo da carruagem e duas pequenas mesas com bancos corridos. Os segundos, incluídos em comboios melhores e mais espaçosos, não têm um único banco e, excepção feita a um pequeno vão, dificilmente cabem duas pessoas no corredor, que também é mais curto. É uma medida para poupar espaço? Então as carruagens-bar dos tão almejados TGVs devem ser pouco maiores que caixas de sapatos.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Projectos ferroviários portugueses esquecidos


Cortesia do Blog da Rua Nove

Este mapa das comunicações portuguesa, dos livros da 4ª classe dos anos 50 que descobri aqui, tem algumas particularidades curiosas, como alguns projectos de vias férreas nunca concretizados.
Vale a pena imaginar essa hipotética realidade ferroviária. E olhando atentamente, descobrimos uma linha do Lima, que iria até Ponte da Barca e inflectiria para Braga e Guimarães, assim como uma espécie de circular ferroviária do Minho. Dessa linha sairia outra até ao terminal da do Tâmega, Arco da Baúlhe, e daí ligaria à do Corgo, nas Pedras Salgadas.
Mais abaixo vê-se o traçado da linha do Varosa, que partia da Régua e atravessava o douro. Embora nunca tenho tido funcionamento, ainda se construíram algumas estruturas destinadas a suportá-la, como a grande e inútil ponte de ferro na Régua e alguns viadutos no caminho para Lamego. Mas a coisa nunca se chegou a fazer. É pena, porque dessa cidade ainda iria para sudeste e perto de Trancoso encontrar-se-ia com outra linha fictícia, que partiria de Viseu até ao Pocinho, fazendo a ligação com a linha do Tua, provavelmente para transportar os minérios de ferro explorados na serra de Reboredo, em Moncorvo. E já que estamos nessa zona, refira-se que também havia planos para se prolongar essa linha até Vimioso.
Mais para o centro observamos que se pretendia igualmente ligar o ramal da Lousã à já desaparecida linha do Dão, fazendo a ligação Serpins-Santa Comba. Outra circular fechada, desta vez no coração da Beira.
De Leiria também se queria fazer uma linha que passasse pela Batalha até à Nazaré. Estranho que não abrangesse Alcobaça, segundo parece, mas pela imagem não se percebe completamente.
Outra ideia nunca concretizada era ligar Peniche ao Cartaxo e, com mais envergadura, Alcochete a Ponte de Sôr, numa travessia por uma zona quase deserta e pelo norte do Alentejo. E ao que julgo, também nunca se chegou a ligar Portalegre a Sousel e Alcácer do Sal a Évora, e muito menos Lagos a Aljezur.
Já sobre os campos de aviação não me pronuncio, porque francamente as cores que os distinguem não ajudam.
No caso dos comboios, tenho bastante pena que não se tenham levado avante estes projectos. Mas será bom lembrar que caso tivessem sido construídas, estas linhas provavelmente já não existiriam, com a total falta de visão e de capacidade de defesa do património das empresas ferroviárias e do Estado, da concorrência das estradas e do sector rodoviário, que liquidaram tantos trajectos únicos e se propõem a acabar com mais um, insubstituível: a linha do Tua.