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quinta-feira, junho 13, 2019

A cultura em dois homens de esquerda e direita


Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo. 



Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Rúben.




sexta-feira, setembro 28, 2018

Eu puritano etário me confesso


Passei finalmente pela tão afamada como polémica exposição de Robert Mapplethorpe, em Serralves - embora estivesse até mais interessado em acabar de ver a de Anish Kapoor, espalhada por todo o parque. Sempre achei que este polémicas só mereciam que se opinasse sobre elas depois de se comprovar o seu grau de relevância, dado que muitas vezes são meros tiros de pólvora seca. Mas aqui eram verdadeiros tiros de bombarda.

Mapplethorpe era no mínimo ousado. Escandaloso era também um adjectivo que lhe colavam. Com razão. E o choque sempre esteve ligado às artes, pelo que a polémica à volta da obra do artista americano de novidade não tem nada. Resta saber se o choque pode ser levado a toda a gente, sem distinções. A tal parte reservada e com restrições a menores de 18 anos (que creio que no início lhes estava pura e simplesmente vedada) é bastante mais ousada do que pensava. Pode-se afirmar, sem medo de exageros, que é realmente hardcore. Não são exactamente apenas nus artísticos, mas imagens mais que explícitas e muito agressivas. Demasiado agressivas sobretudo se estivermos a falar de crianças. Restringir aquela parte por razões de idade nem devia ser discutível. Afinal de contas, se temos limites de idade no cinema, por exemplo - e nesse caso nem sequer é suprível pelo acompanhamento de um adulto - onde se passam coisas bem mais pacíficas, porque é que não há de haver restrições pela mesma razão noutras áreas, como exposições? Sim, eu sei, hoje em dia a net e os seus conteúdos vieram complicar esta questão. E que 18 anos talvez seja um pouco demais. Mas nem por isso devemos adoptar aquele tom relativista de que é uma causa ultrapassada e de que agora qualquer pessoa deve estar exposta a todo o tipo de imagens. 

Chamem-me puritano, moralista, censor, etc. Um dos limites à livre expressão é o incitamento ao ódio. Mas era bom que nos lembrássemos de outro: o limite etário. Esta coisa de expôr uma criança a um ambiente que não é para a sua idade, e de aos poucos estarmos a sexualizar completamente a infância, é prova não só de um niilismo muito pouco saudável como de um egoísmo quase inconsciente, como se os filhos fossem carteiras de tiracolo que pudessem acompanhar os adultos em todas as ocasiões. Quanto à questão de "cada um educa os filhos como quiser" e de instituições como Serralves serem um espaço de liberdade e de debate, nada em contrário; mas remeto para situações análogas, como a supracitada dos cinemas, que até são privados; Serralves também é uma fundação em boa parte patrocinada pelo Estado, e tem uma administração que tem o dever e o direito de tomar decisões deste calibre, mesmo que desagradem aos trinta manifestantes que vieram indignar-se há dias à entrada do museu, quando os contornos da coisa ainda bem nebulosos. Parece que é "interferência nas escolhas do curador" e que nada da lei fala explicitamente em exposições. Pois não, mas as lacunas legais colmatam-se com recurso à analogia de situações idênticas; e que eu saiba a liberdade do curador também se submete a regras gerais. Sim, eu sei, condenámos o moralismo e o puritanismo, permitimos a liberdade de expressão e artística quase sem limites e vivemos numa era perigosa em que qualquer ofensa se pode tornar numa proibição e numa censura. Mas se achamos que a água suja deve ficar, lembremo-nos também do bébé que lá está. E desculpem lá a ousadia aparentemente contraditória, mas um tudo de nada de puritanismo nestes casos só  faz bem.
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Quanto ao resto, demissão de Ribas, acusações à direcção (incluindo a micro-manifestação dos indignados culturais), resposta desta, contradições do curador, declarações de funcionários anónimos e tudo o mais, pertencem ao grupo da eterna novela das polémicas culturais e das invejas mesquinhas dos "agentes culturais". Talvez daqui a um tempo se possa falar melhor disso. Até lá, Serralves merece bem uma visita. E se por acaso forem ver a obra de Kapoor, cuidado com a "Descida para o Limbo".

sábado, abril 07, 2018

A overdose de encómios a Manuel Reis


Passada a Páscoa, voltemos ao quotidiano. Das coisas mais exageradas que vi nos últimos tempos foram as laudes a Manuel Reis, como se ele tivesse inventado algo que melhorou incrivelmente a vida da humanidade. Na realidade, alguma elite d Lisboa - cultural, económica e jornalística, como se depreendeu pelo amplo destaque nos jornais - julga-se A própria humanidade, e isso justifica todas as parangonas e artigos a recordar o grande dinamizador da movida lisboeta. Era decerto alguém com imenso talento e iniciativa, e inegável mérito, que fazia acontecer coisas, mas haja alguma moderação. O Luz é uma fantástica discoteca numa fantástica localização, o Rive Rouge tem a sua piada, e nunca cheguei a ir ao Frágil (até pela diferença geracional que me separa dos seus apaniguados e frequentadores), nem ao Teatro Thalia nem ao Papa Açorda original (este por uma arreliadora coincidência, e a oportunidade gorou-se), pelo que não posso testemunhar toda a obra e legado de Reis. Só que todas essas criações não foram exactamente a chegada à Índia. Acreito que muitos tenham sentido a sua falta, mas dizer que ele "mudou o país" é um bocadinho demais. Ou acharão que em Bragança, no Faial ou em Mértola  - ou até mesmo nos arredores de Lisboa - a sua obra mudou minimamente a vida das pessoas? João Miguel Tavares tem toda a razão no artigo que escreveu para o Público sobre isto mesmo. Destaque para a incrível comparação com Salgueiro Maia (!).

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sábado, fevereiro 25, 2017

Almada em Moledo


Em 1934, Almada Negreiros e Sarah Afonso passaram férias de Verão em Moledo, em casa de António Pedro, antes deste se mudar definitivamente para a aldeia minhota, onde morreria em Agosto de 1966. Entre idas ao areal e convívios vários entre outras figuras das artes e das letras, criaram-se numerosos programas. Um deles consistiu numa ida de barca à Ínsua (para quem não saiba, é uma ilhota entre a desembocadura do rio Minho e a praia de Moledo, face a o início de Espanha) e um piquenique. À vinda, as condições do mar, que ali tem correntes traiçoeiras, iam provocando sérios problemas ao barco, mas tudo se resolveu. Isso inspirou Almada a criar um pequeno filme animado, em formato "lanterna mágica", com 64 desenhos em papel de seda, mudo e com legendas, recriando o quase-naufrágio, e produzido pela efemeramente inventada "Moledo Filmes", para animar os serões de convívio. "O Naufrágio da Ínsua" esteve todos estes anos escondido do público e dos especialistas, até ser reencontrado e exibido agora na monumental exposição na Gulbenkian, até 2 de Junho, e que mostra 400 obras de Almada, das mais icónicas e reconhecíveis às até agora desconhecidas, como este simpático inédito de animação que pode ser visto no piso de baixo. Um aviso: a exposição não se despacha numa simples hora. Vale a pena visitá-la com calma. Permite-nos revisitar Almada e os seus estilos diversos, conhecer novas obras e até saber que já nos anos trinta Moledo era destino de férias e de encontros entre as gentes das artes e das letras, muito antes de se tornar a praia conhecida que é hoje, tantas vezes caricaturada como apenas um local ventoso e elitista.








quinta-feira, dezembro 22, 2016

Bisalhães, Património Cultural da Humanidade


Sabiam que os barros negros de Bisalhães, arredores de Vila Real, são desde há dias Património da Humanidade, classificação da UNESCO? A notícia passou algo despercebida, mas é verdade. Esta louça transmontana, que data de há séculos e que hoje em dia tem apenas meia dúzia de artesãos envelhecidos, que vendem a sua arte à entrada da cidade, tem agora estatuto de Património cultural da Humanidade e goza de maior protecção, nomeadamente de incentivos e formação na arte (embora a verdadeira instrução passe de pai para filho, ou de mestre para aprendiz). As noites de S. Pedro vão poder continuar a exibir a feira dos pucarinhos, com a louça negra a bordejar o largo da barroca Capela Nova. Pode parecer exagerado tanto património mundial, o que a prazo levará a um igualitarismo inconsequente, mas a verdade é que este país não é só fado, cante ou chocalhos.

quarta-feira, agosto 31, 2016

Ainda António Pedro


Voltando a António Pedro e ao cinquentenário da sua morte, aqui está a reposição de um programa de 1992, que passou o então Canal 2, apresentado por Castro Guedes, e onde se revisita a vida e a obra de António Pedro, centrada em Moledo, e aqueles que com ele conviveram, com diversos testemunhos (como Ruy de Carvalho e Júlio Cardoso, de resto também presente na exibição desta peça). Note-se, aos 19:09, nas imagens do seu enterro, em 1966, Eunice Muñoz, em primeiro plano, cuja carreira António Pedro ajudara a incrementar.
 
A imagem e o som não são famosos, mas tratou-se de uma gravação directa da exibição pela Companhia de Dança de Lisboa.
 
 

quarta-feira, agosto 17, 2016

António Pedro, cinquenta anos depois da sua partida


Há exactamente 50 anos, a 17 de Agosto de 1966, morria aos 56 anos o artista António Pedro da Costa na sua casa de Moledo do Minho, vítima de asma. António Pedro, como era simplesmente conhecido, nasceu em Cabo Verde, veio para a metrópole aos 4 anos, onde estudou no colégio jesuíta de La Guardia, e depois nas universidades de Coimbra e Lisboa. Nunca concluiu os seus cursos. Era um autodidacta tremendo que não podia ficar agarrado somente a uma área. Esteve ligado ao Nacional Sindicalismo, de Rolão Preto, dirigindo o jornal do movimento, o Revolução, mas rapidamente deixou a política e dedicou-se mais às artes. A todas as artes.

Passou por Paris, Brasil e Londres, privando com figuras gradas das artes e ligando-se a movimentos vanguardistas. Em Portugal criou a primeira galeria de arte, a U.P., e mais tarde envolver-se-ia com o grupo surrealista, com o qual é mais conotado, embora não possa ser colocado apenas nas redomas oníricas do surrealismo. Era pintor, caricaturista, ceramista, encenador, dramaturgo, poeta, contista, ensaísta, etc. Um artista total, um pouco como Almada, com quem também se deu. Incrementou o Teatro Experimental do Porto, e as carreiras de actores que ganhariam nome no palco, como Eunice Muñós e José Viana, ou de pintores, como Vieira da Silva. Por toda a parte, mas sobretudo na região Norte, e em particular no Minho, deixou a sua marca, fosse em programas das RTP (muitos dos quais desapareceram, com o reaproveitamento das suas bobines), em guiões para cinema e curtas-metragens, nos seus contos e poemas, nas casas que projectou, nos azulejos que desenhou (como os que podem ser vistos na garrafeira Baco, em Caminha), no símbolo do Ínsua Clube, que fundou, e que se assemelha ao peixe paleocristão, e nos vestígios do teatro que tentou construir em Moledo, que ficou a meio, popularmente conhecido como "as ruínas", e que hoje em dia alberga um conhecido bar e um auditório com o seu nome. Seria em Moledo que morreria, há 50 anos. E é em Moledo, em Caminha e Viana que a sua memória é recordada por estes dias, em inúmeras e diversificadas iniciativas. Para recordar este talentoso multi-artista e re-divulgar a sua figura, que bem o merece.





Neste pequeno trecho podemos ouvir António Pedro e acompanhar um pouco do seu trajecto, incluindo o testemunho de Joaquim Guardão, ainda vivo, e que tive a honra de conhecer. Há mais, no site da Companha de Dança de Lisboa.

sábado, maio 07, 2016

Paulo Varela Gomes


Há poucos dias morreu Paulo Varela Gomes. A notícia entristece, mas não surpreende, já que o seu estado de saúde era público. Aliás, o texto que escreveu na Granta do Verão passado (uma coisa tocante e comovente, um autêntico murro no estômago), tão inclassificável como o seu autor, seria amplamente divulgado e espalhado na net.
Impressiona talvez um pouco por sobreviver ao seu pai, que completara 90 anos dias antes. Mas melhor será invocar a sua vida multifacetada e generosa. Varela Gomes fora um revolucionário ligado à extrema-esquerda, primeiro ao PCP, e depois, como tantos outros, "dissidentou" e com Miguel Portas ajudou a fundar o Política XXI, aquele grupo político que constituiria depois a ala moderada do Bloco. Não ficou muito tempo na política. A sua área era a história da arte e da arquitectura, que lecionou, primeiro no liceu, depois na universidade, tendo-se doutorado pelo meio em Coimbra em História e Teoria da Arquitectura. Teve também duas séries documentais de televisão, O Mundo de Cá e Malta Portuguesa (sobre a ilha no Mediterrâneo, que desconhecia até agora e que gostava de ver). Viveu por duas vezes em Goa, nos anos noventa e em fins dos anos 2000, como delegado da Fundação Oriente, e se não me engano, a sua colaboração com o jornal Público começou (que costumava ler, todas as semanas) nessa segunda experiência goesa. De volta a Portugal, resolveu ir viver para o campo, na Beira interior, e essa vida campestre surgia muitas vezes nas suas crónicas. Depois, a descoberta da doença levou-o a acelerar uma nova faceta, a de ficcionista, e a publicar quatro romances, o último dos quais, Passos Perdidos, com poucos semanas desde que saiu do prelo. Dele ressalvo, para além das crónicas dominicais no Público (ultimamente quase exclusivas sobre história da arte, com um cunho contemplativo), algumas intervenções televisivas, como aquele sobre Lisboa em que defendeu publicamente o trabalho de Duarte Pacheco, ou um programa de debate que teve em tempos com Carlos Abreu Amorim.

Quem o lia ou às suas ideias podia ficar algo confusa. Um pedagogo, que se dizia "comunista reacionário", ou seja, alguém que supostamente crê na marcha imparável do comunismo e no determinismo histórico, e que ao mesmo tempo descrê do progresso e se guia por elementos do século XVIII e pelas estações do ano, não era fácil de perceber. Essas aparentes contradições apenas revelavam um espírito crítico, dinâmico que não caia em compartimentos estanques. Para mais, nos últimos tempos, Paulo Varela Gomes parecia ter-se aproximado da fé religiosa, como o próprio deu a entender. Ao que tudo indica, a começar pelo supracitado artigo na Granta, isso deu-lhe outra serenidade e outra coragem para enfrentar a doença. Mas perdeu-se um dos mais interessantes, imaginativos e pedagógicos cronistas portugueses.

segunda-feira, maio 02, 2016

Finalmente o "Sequeira"


Um dos grandes momentos culturais do ano: a conclusão do processo de juntar dinheiro - 600 mil euros, mais precisamente - para adquirir o quadro A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira, que estava na posse dos Palmela desde meados do séc. XIX, para o espólio do Museu Nacional de Arte Antiga. Graças a um enorme e dinâmico processo de crowdfunding, conseguiu-se juntar a "vaquinha" necessária antes do término do prazo, graças ao apoio de bancos como o BCP, de instituições como a Fundação Agha Khan, de jornais como o Público, de algumas (poucas) empresas, autarquias (a CM do Porto doou 15 mil euros, 2,5% do valor, correspondentes à percentagem da população portuguesa que vive no Porto), e de muitos doadores voluntários - eu próprio ofereci uma migalha simbólica, correspondente, penso eu, a uma parte da orelha do elefante que aparece ao fundo.
O que interessa é que a magnífica obra do pintor neoclassicista fica em Portugal, no MNAA, graças ao esforço colectivo da sociedade, a tal "sociedade civil" de que tantos falam, e que se manifestou em força neste caso, dando boas indicações para eventos semelhantes no futuro. Na próxima Noite dos Museus, a 21 de Maio, todos poderão ir livremente admirar a obra às Janelas Verdes.


sábado, abril 09, 2016

Revelações de um ex-Ministro da Cultura


A demissão de João Soares do Ministério da Cultura é daquelas notícias que não apanha ninguém desprevenido. O lamentável episódio das bofetadas dirigidas a Augusto M. Seabra e a Vasco Pulido Valente revelou mais uma vez, depois da demissão trauliteira de António Lamas do CCB, que Soares tem mesmo uma pulsão autoritária e usa-a se detiver um cargo que lhe permita tais abusos. Esteve menos de seis meses no governo, mas ficou mais conhecido pelas polémicas deste tipo do que por qualquer iniciativa que tivesse tomado. Ainda houve quem achasse muita gracinha à ameaça por causa dos "insultos" dos cronistas, não se lembrando que, para além de haver uma coisa chamada liberdade de expressão, um ministro está numa posição que não lhe permite tomar atitudes como se estivesse na tasca (e mesma "à mesa do café", como disse António Costa, tem de se lembrar quem é e do que deve ser o sentido de estado). Aparentemente, Soares pediu umas desculpas irónicas, o que parece revelar que não se conformou nem se arrependeu. Tanto pior para ele: podia ter feito um trabalho interessante na cultura, mas preferiu dar azo aos seus autoritarismos e birras pessoais. Já pode pôr no currículo que passou por uma cadeira ministerial, como magro consolo

De qualquer maneira, talvez Costa não fique seriamente aborrecido pela sua saída da Ajuda: é bom recordar que o mesmo João Soares apresentou, no próprio lançamento, e com rasgadíssimos elogios, o livro de Domingos Névoa, da Bragaparques, conhecido pela sua questão com José Sá Fernandes, que gravou as suas comprometedoras conversas sobre trocas de terrenos e que envolviam o Parque Mayer, de Lisboa. Como se sabe, o empresário seria condenado por corrupção activa, com sentença transitada em julgado. Apesar disso, João Soares apadrinhou um livro em que Sá Fernandes e outros são furiosamente atacados, ao passo que o ele próprio tem direito a entusiasmados elogios, aliás recíprocos, como se viu atrás. Para além de toda esta situação, já de si insólita pelo grau de amiguismo descarado, é impossível não ver nisto tudo uma afronta indirecta de Soares a António Costa e ao seu executivo camarário, corporizado por Sá Fernandes.
 
Mas já que está fora do governo, o filho do ex-presidente terá agora oportunidade de dar azo à sua faceta mais desconhecida e provavelmente mais burlesca: a da escrita de ficção erótica. Quando pela primeira vez ouvi no programa Governo-Sombra excertos de textos escritos por um certo John Sowinds, ou Hans Nurlufts, pensei que fosse uma brincadeira dos membros residentes, em especial de Ricardo Araújo Pereira. Mas depois confirmei no Observador e em artigo já de há alguns anos do CM que era mesmo verdade: após a sua saída da Câmara de Lisboa, João Soares dedicou-se à escrita, com especial propensão para o erotismo duvidoso (também conhecido como pornochachada), para o romance político com laivos de biografia ficcionada e pelo thriller de espionagem de denúncia a certos regimes, como o de Angola, do adversário do seu antigo amigo Savimbi. A fotografia do autor não deixa margem para dúvidas, e combinado com narrativa dos livros, revela-nos duas qualidades desconhecidas de João Soares: imaginação sentido de humor.
 
 

quinta-feira, novembro 12, 2015

Paulo Cunha e Silva 1962 - 2015


Se ontem fiz um curto epitáfio de uma pessoa que morreu com quase cem anos, hoje faço de outra que desapareceu com pouco mais de cinquenta. Paulo Cunha e Silva deixou-nos de repente, sem se despedir, tão subitamente que ainda estão no ar, sem tempo para cair ao chão, todos os seus projectos pendentes, todas as ideias que lançou recentemente, todos os eventos a cujo lançamento presidiu e que estão aí, a ser realizados.

Cunha e Silva andava a mil à hora. Estava em toda a parte, em todos os eventos, falava de tudo e a tudo acorria, sempre com ideias novas. Talvez por isso o coração o tenha traído depois de mais uma ronda em que tinha acabado de inaugurar o ciclo de toda a filmografia de Manoel de Oliveira, logo ele, que era médico de formação e professor de anatomia, tendo sido o aluno mais brilhante do seu curso (Eurico de Figueiredo conta que foi o único 20 que atribuiu a um seu aluno, embora não tenha sido o único que Cunha e Silva recebeu). Enveredou pelas artes, tornou-se colaborador de Serralves e acabaria por ser o programador cultural do Porto 2001. Com a aversão de Rui Rio à cultura (não entrou na CM do Porto entre 2011 e 2013), presidiu ao Instituto das Artes do Ministério da Cultura, foi conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Roma, antes de regressar a Portugal e de ser eleito vereador na lista de Rui Moreira. Lembro-me de na campanha eu ter levado um oleado para a chuva que caía abundante por esses dias com a marca do Porto 2001, e dele me dizer que tinha perdido o seu e que aquele devia ser o único exemplar existente, e de na noite da vitória, há dois anos, quando estávamos cá fora, em plenos Aliados,  de o ouvir já a traçar planos para quando tomasse posse, começando pelo Rivoli. O tempo comprovou que não esta simplesmente a divagar, como se pôde ver pelo sucesso que teve na maneira como reorganizou a Feira do Livro.

Na última campanha, o MPT tinha algumas ideias arrojadas para uma acção com visibilidade que chamasse a atenção para o esquecimento e a inutilidade a que está votada a Ponte Dona Maria Pia, mas infelizmente ficou-se por uma faixa na base (e acreditem que colocar uma coisa em lona de 15 metros demora as suas horas, sobretudo quando só está duas pessoas a fazê-lo).



 A ideia seria aproveitar a visibilidade para depois discutir com a CM do Porto diferentes formas de a reabilitar. Nos próximos dias iríamos contactar Paulo Cunha e Silva, que aliás já estava a par da ideia. Há coisa de duas semanas vi-o a abrir a conferência sobre o centenário da morte de Alfredo d´Andrade, no consulado de Itália, organizado por uma querida amiga minha. No fim do seu discursos, em que falou da sua paixão por Itália e da sua alma dividida entre Itália e Portugal (considerando-se ali como que um "agente duplo"), despediu-se, já que tinha de estar naquela mesma hora noutro evento. Na altura queria falar-lhe da acção da ponte, mas pensei que ficaria para breve. Não imaginava que não teria outra oportunidade nem que o não veria mais.

Ironicamente, a última fotografia na página oficial do facebook de Rui Moreira antes da morte do seu vereador é exactamente da ponte Dona Maria, em contraluz. A que colocou a seguir mostra Paulo Cunha e Silva com a condecoração de Chevalier des Arts que lhe tinha sido atribuída em Outubro pelo governo francês. A última e justa homenagem a um homem que ainda tinha imenso para dar e que deixa o Porto e a cultura nacional tremendamente mais pobres.





sábado, maio 09, 2015

O povo que canta: a televisão portuguesa a gostar dela própria


A RTP-2 está um portento de canal, e isso já vem de antes da mudança de direcção da estação. Séries de qualidade, documentários, programas de história, como o de Fernando Rosas (que puxa um pouco a brasa à sua sardinha, mas em compensação tem imagens fabulosas colhidas por drones), espaços de debate e informação como o já clássico Sociedade Civil, programas de desporto, religião, literatura, natureza, etc. Em suma, um autêntico serviço público televisivo que eu só espero que não alterem.


Um dos programas mais sugestivos e originais do canal, e talvez o melhor que anda por aí, é O Povo que Ainda Canta, uma espécie de braço televisivo do projecto de recolha de música tradicional A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (o site está parado, mas tem imensas coisas dignas de ser vistas e ouvidas, e há sobretudo a página do Facebook). Sob a direcção do seu mentor, Tiago Pereira, e de um conjunto de incansáveis colaboradores, o programa corre o país de lés a lés, quais Giacomettis do século XXI (que tinha uma emissão chamado Povo que Canta, vendo-se aqui uma homenagem explícita no actual programa, e em que por acaso até são entrevistadas pessoas que tiveram contacto e que deram elementos preciosos ao célebre etnógrafo corso), gravando, filmando e entrevistando tudo quanto seja música tradicional portuguesa.


Desde o fado da Mouraria até às tradições musicais do Nordeste transmontano, das chamarritas do Faial e Pico ás concertinas e castanholas do Alto Minho (com grande destaque à romaria de são João d ´Arga e conversas com o sr. Joaquim Barreiros, de Âncora, pai do famosíssimo Quim Barreiros, e que não sabia se seria ainda vivo), passando pelos gaiteiros da região de Coimbra, os adufes da Beira Baixa, os grupos musicais da Beira interior, o fandango ribatejano, o cante alentejano, e o que ainda mais virá, é todo um país que se descobre nas suas riquíssimas e variadas facetas musicais, algumas quase desconhecidas e que poderiam estar condenadas à extinção não fosse este enorme trabalho de recolha e divulgação. Um povo que ainda canta e que se redescobre. Para ver na RTP-2, nas noites de Quinta-Feira, com repetição ao Domingo. E se perderem algum episódio, podem-no descobrir e ver aqui. Acima de tudo vejam e ouçam. É a expressão mais genuína e mais viva de Portugal que está contida nestes pequenos episódios de menos de meia hora.


quinta-feira, março 26, 2015

Orpheu, cem anos depois




Há cem anos surgia a revista literária que deixaria a já de si caótica 1ª República em estado de ebulição. O Orpheu surgiu com estrondo e desapareceu como um meteoro, com apenas dois números, suficientes, no entanto, para mostrar ao país a mais brilhante geração artística e literária daquele século que ainda estava no início. Por entre os ecos da Grande Guerra, em que Portugal ainda não se tinha envolvido, a "ditabranda" de Pimenta de Castro e o regresso ao poder dos "demagogos" republicanos, a Orpheu revelou o inclassificável Fernando Pessoa, na companhia de Caeiro, Reis e Campos, o genial Almada Negreiros, o efémero Santa-Rita Pintor, o derrotista Mário de Sá Carneiro, o autêntico louco Ângelo de Lima, e ainda Luís de Montalvor, José Pacheko, Alfredo Pedro Guisado, etc. O modernismo e o futurismo em Portugal sairiam desta revista e dos génios de todos estes artistas. Se a publicação duraria apenas mais um número, a sua influência perduraria pelas décadas fora, e alguns dos nomes que a compunham mais ainda.


Não deixa de ser curioso que exactamente cem anos depois desapareça Herberto Hélder, considerado o nome maior (ao lado de sophia, é certo) da poesia portuguesa desde o Orpheu, e particularmente, desde Pessoa.


Leia-se, já agora, este artigo de António Valdemar, no Público, que menciona as discordâncias políticas no seio do Orpheu e o conflito que surgiu a propósito da célebre "fuga" de Afonso Costa de um eléctrico, (ao ouvir um estampido, julgando que era um atentado contra ele próprio)


Quem estiver por lá pode, até dia 29 de Março, ver a exposição Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve, no Museu da electricidade, em Lisboa. Não é bem, bem inédito, mas é sempre interessante e está situado no belíssimo edifício industrial da Central tejo.

terça-feira, abril 29, 2014

Vasco Graça Moura 1942 - 2014


Na torrente de mortes de figuras públicas dos últimos tempos, a de Vasco Graça Moura não surpreendeu, infelizmente. Sabia-se que estava doente há já bastante tempo, minado pelo cancro já metastizado. Na cerimónia de entrega da Grã-Cruz de Santiago e Espada, em Janeiro, na Gulbenkian, isso já era bastante visível.

Mas de entre todas as mortes recentes, esta é talvez a que sinto de mais perto. Embora só tenha falado uma vez com Vasco Graça Moura, o seu nome era uma referência muito presente na minha família e na geração dos meus pais, a que viveu intensamente os anos setenta e que se encontrava alegremente no bar do Hotel Boavista. Dizem-me que eu, que tão pacato era em tempos de que já não me lembro, me portei pessimamente na única vez que me levaram a sua casa. Mas ele não se importou minimamente. Provavelmente, politicamente incorrecto como era, não se importaria que as regras fossem quebradas por uma criança quase de colo. Mesmo em sua casa. Apesar de ao mesmo tempo dar uma enorme importância à ordem e à autoridade.


Esta faceta provocadora e frontal era das mais notórias, o que lhe granjeou imensos ódios. Isso e o empenho político. Era o puro intelectual engajado, só que ao contrário da grande maioria, não escolheu o lado dos "amanhãs que cantam" nem do "antifascismo" (o que lhe criou ódios suplementares). Aderiu ao PPD em 1975, e anos mais tarde tornar-se-ia o intelectual do cavaquismo (dizia-se "cavaquistíssimo"), embora sempre se tenha considerado de centro-esquerda. Também ocupou cargos políticos, como o de eurodeputado, e, brevemente, como Secretário de Estado nos governos provisórios. É verdade que era por vezes bastante sectário, e demonstrou alguns dos piores tiques do intelectual partidarizado. Mas seria sempre reconhecido muito para além disso. Era um tradutor notável, essa função tão desgastante e tão pouco reconhecida, que traduziu Shakespeare, Dante, Petrarca, autores franceses e alemães (e aprendia as línguas como uma autodidacta). Notabilizou-se como poeta, ensaísta e ficcionista (talvez a sua obra menor). Presidiu à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, à Fundação da Casa de Mateus,  comissariou o pavilhão português na Expo 92, de Sevilha, e ainda teve funções directivas na Gulbenkian, para além de outros cargos, sempre com assinalável competência. Era presidente do CCB e cumpriu funções até limiar das suas forças e ao último dia. Ganhou ainda um conjunto de prémios e distinções literárias de relevo, como o Prémio Pessoa. Ironicamente, sendo um portuense, foi um dos autores da ideia, juntamente com Mega Ferreira, de se organizar uma exposição mundial em Lisboa, que como sabe deu frutos e se tornou na majestosa e saudosa Expo-98. Para além das páginas, talvez seja esse o seu legado mais conhecido. A memória de um grande, de um autêntico Intelectual perdurará ainda durante bastantes anos, espero eu. E as cinzas regressaram ao seu Porto que em sua honra declarou dois dias de luto municipal, e que devia, imperativamente, imortalizá-lo na sua toponímia.

sexta-feira, outubro 25, 2013

O regresso da Casa das Artes (e de tudo o que tínhamos direito)


Ainda sobre o último post, há pelo menos uma razão para que possamos falar não tanto em "novo Porto", mas em Porto renovado, ou renascido, numa sua pequena fracção, ali ao Campo Alegre: a reabertura da Casa das Artes, quase uma década depois do fecho. E não só: além do edifício propriamente dito, da autoria de Souto Moura, que reabre de cara lavada e paredes pintadas com todos os seus espaços e algumas pequenas alterações, pouco perceptíveis, os jardins também foram arranjados e a própria casa Vilar D ´Allen, que em tempos serviu de sede da direcção Regional da Secretaria de Estado da Cultura e que, que me lembre, jamais fora aberta ao público, pode ser vista no seu piso térreo - um edifício Art Deco com uns pequenos traços de cottage inglesa. O conjunto reabre-se assim ao Porto, depois de anos de lamentável abandono e desperdício. Para além de conferências, que aliás já começaram, uma novidade: a parceira com o Cineclube do Porto - essa velha instituição, que já teve mais sócios que o FCP, e que andava bastante deprimida - que passará doravante exibições regulares num dos auditórios. Uma excelente novidade, numa cidade de onde os cinemas saíram quase todos, na mesma sala onde há muitos anos, ainda quase pré-adolescente, vi o filme Aniki Bóbó e a homenagem presencial a Manoel de Oliveira e a vários actores.



 

segunda-feira, maio 27, 2013

Do apocalipse civilizacional à morte desesperada


O inquietante caso do ensaísta e historiador francês ligado à extrema-direita que se suicidou esta semana em plena Catedral de Notre-Dame tem muito mais que se lhe diga do que uma mera acção espectacular de protesto desesperado contra a aprovação do casamento/adopção gay em França.
Olhando para as suas ideias e para o seu currículo, parece ser o típico militante da extrema-direita identitária e nacionalista, anti-semita e anti-emigração, com poucas ligações ao cristianismo e à mensagem cristã mas que admira a estrutura e autoridade da Igreja Católica, embora neste caso a acuse de "patrocinar a imigração afro-magrebina". Ou seja, um representante contemporâneo da Action Française, que dominou a intelectualidade e os meios universitários com as suas campanhas virulentas nos anos vinte e trinta.
 
 
A escolha de Notre Dame parece ajudar a essa ideia: o templo maior de França, símbolo, juntamente com Chartres e Reims, da cristandade e ao mesmo tempo do poder real centralizado, como guardião dos valores da "velha" França, bastião contra a invasão estrangeira e a degradação dos costumes. O símbolo de uma ideia de ordem e de autoridade, mesmo que depurada da mensagem do Cristianismo, inspiração que já vem desde os tempos de De Maistre e continuou com Maurras e outros ideólogos legitimistas.

O editor de Venner, comentando a sua morte, aludiu ao suicídio de Mishima. Como se sabe, o escritor japonês, também ele defensor dos valores tradicionais japoneses pré-Guerra (e que curiosamente era homossexual, tendo elevado a figura de S. Sebastião martirizado a ícone homoerótico), suicidou-se cometendo sepukku ao falhar um levantamento militar destinado a devolver os poderes de semi-divindade ao Imperador. Para Mishima, o passado glorioso e tradicional do Japão não voltaria, pelo que preferia abandonar o mundo através do terrível e "glorioso" ritual de morte próprio dos samurais. As declarações finais de Venner, prevendo a "substituição" da população francesa, e um novo sistema de valores no qual não se reconhecia de todo, em boa parte contraditório, e o seu suicídio carregado de simbolismo, são em tudo parecidas com a do escritor japonês. Mais do que "um acto tresloucado de ódio", como vi escrito, tratou-se de um fim desesperado, de alguém que já não se reconhecia num mundo emergente (que ninguém sabe dizer qual será), e cujo fim violento e público é consequente com as ideias mais radicais que defendia.
 
 
 
Outro caso similar, provocado também pela ideia angustiante do fim de um certo modelo civilizacional, neste caso muito diferente dos anteriores, é o de Stefan Zweig. O escritor, ensaísta e biógrafo austríaco, quase esquecido durante décadas e hoje de novo editado, suicidou-se no Brasil, em plena Segunda Guerra, assistindo ao segundo suicídio da Europa, crendo que o seu mundo, construído na faiscante Viena dos Habsburgos pré-Grande Guerra, tinha sido esmagado pelo totalitarismo. As suas ideias eram em boa parte opostas às de Mishima e Venner, mas a assunção de que o seu modelo de civilização tinha acabado, que os valores que defendia estavam a ser espezinhados e extintos, é exactamente a mesma. A sensação de fim de uma ideia de mundo, aliada a acontecimentos preocupantes, pode em muitos casos levar ao desespero e a colocar um fim à vida. Sejam quais forem os valores que se defende. e o suicídio tumultuoso de Venner deve ser entendido mais como um último acto de revolta contra um estado de coisas, ainda que tresloucado, do que mera acção radical de propaganda.
A prova infalível de que o francês não era realmente cristão é que atentou contra a própria vida, dádiva de Deus, diante do altar que O celebra.

terça-feira, outubro 16, 2012

Os noventa anos de Agustina


Já estamos a 16. Mas associo-me a vários blogues que não deixaram passar em branco o 15 de Outubro, dia em que Agustina Bessa-Luís completou 90 anos. Mesmo com a saúde bastante debilitada, a senhora de Amarante (hoje talvez mais do Porto, ali tão perto dos Caminhos do Romântico) é um dos grandes vultos da nossa literatura que ainda nos restam. As homenagens foram discretas, mas dignas, e contaram com o lançamento de alguns textos inéditos e de um círculo literário debruçado na sua obra. Será que os "agentes culturais" que tanto se manifestaram no sábado contra a "morte da cultura" se lembraram da data?

segunda-feira, outubro 15, 2012

A esquizofrenia cultural


 
Os fins de semana foram transformados em jornadas contínuas de protestos contra a política de apertar o cinto do governo. Manifestações convocadas por vastos sectores da sociedade, como as de 15 de Setembro, pela CGTP e variados sindicatos, pela polícia, pelos enfermeiros, etc. Neste último  tivemos a manifestação de protesto dos "artistas" e da "gente da cultura", ou mais precisamente, pessoas ligadas ao teatro e à música, sob o lema, emprestado de outras caminhadas, "Que se lixe a Troika".
 
 
É natural que num período tão incerto e duro se queira proporcionar a quem passa, num Sábado solarengo, uma ampla oferta musical ao ar livre e de borla, ainda que a lisboeta Praça de Espanha se preste pouco a que se pare lá (a nossa D. João I sempre é mais aconchegada). Menos natural, ou mais disparatado, se quiserem, é virem os ditos "agentes culturais" querer que "a Troika se lixe". Ainda não percebi se estas pessoas organizaram aquilo por lirismo de classe ou se vivem no planeta Marte. Sim, mandam-se os componentes da "Troika" embora, dizendo-lhes que "queremos as nossas vidas". Resta saber como vivê-las quando o Estado se vir sem dinheiro para pagar seja a quem for passados poucos meses e com os bancos a fechar-lhe a porta na cara. Da música de intervenção? Da cantiga que "é uma arma"? Do ar ou do vento que passa?

O mais espantoso é que ao mesmo tempo que querem que a "Troika" se vá e que gritam "FMI fora daqui" (logo a instituição mais aberta a um alívio das condições dos acordos), como se isso não tivesse as nefastas consequências atrás resumidas, protestam acima de tudo contra os cortes do Estado na cultura. Se já há dificuldade em cumprir tudo o resto, em pagar a nossa imensa dívida, em honrar os compromissos, em continuar sequer obras paradas, como o túnel do Marão, e se para mais protestam contra a subida dos impostos, como querem que o Estado subsidie a cultura, ou não faça cortes? Que esquizofrenia é essa de quererem expulsar quem nos financia e ao mesmo tempo exigirem o retorno aos subsídios? Que alternativas propõem? A ideia que passam, com slogans mais ou menos pueris como "não nos deixam sonhar" ou "querem matar a cultura", é a de que sem subsídios, ou seja, sem lhes pagarem, não há "cultura". Será que os tais sonhos estão a ser esboroados ou é mais uma fonte de rendimentos que seca?

Não que o Estado não possa ou não deva subsidiar as várias expressões de Arte, como aliás aconteceu ao longo dos séculos. Os Estados Pontifícios foram dos maiores fomentadores das obras do Renascimento, e não podem ser acusados de ser propriamente "socialistas", como diriam os nossos liberais mais dogmáticos. Nem tampouco o nosso D. João V, Frederico II ou os Filipes, nas suas encomendas a Velasquez. O risco é de o Estado e demais poderes públicos se tornarem nas únicas ou maioritárias fontes de financiamento dos artistas, que se tornam assim agentes políticos, ao serviço de uma dada ideologia ou interesse estatal, cerceando a sua criatividade e independência. É isso que se passa nos estados totalitários e autoritários, onde grandes artistas se puseram ao serviço do respectivo poder, como Eisenstein, na URSS de Estaline, Leni Riefenstahl na Alemanha Nazi, Pirandello na Itália fascista, Dali na Espanha franquista, e o grande Almada Negreiros, que tantos trabalhos criou para o Estado Novo. A lista é infinda.
 
Aparentemente, a nossa "gente das artes" não se lembra disso. Ontem, ouvi Camané falar "no medo que havia há um ou dois anos", e que agora parece que está a ser posto de parte pelas pessoas em manifestações como aquela. A ideia, encapotada, de que vivemos num  sucedâneo do Estado Novo é tão ridícula que merecia uma imensa pateada ao fadista. E enquanto observava os conjuntos musicais, aliás talentosos, a sucederem-se no palco, com intervalos em que uma criatura grotesca aparecia a fazer momices (haveria subsídios estatais para isso?), pensava na estranha esquizofrenia daquela gente toda, que quer mais apoios do Estado e ao mesmo tempo quer mandar embora quem o subsidia. Sim, em tempos de vacas gordas até se justificam. Mas estamos numa época de vacas magrérrimas, em que outros sectores são prioritários. Os criadores culturais terão de viver dos seus Mecenas e do público, trabalhando com criatividade, talento paciência e suor. A crise quando chega é para todos, e não é por se empunhar uma guitarra ou se criarem umas abstracções elogiadas por críticos amigos que se ganha o direito a ficar imune.

domingo, janeiro 22, 2012

Guimarães é enfim capital



Guimarães está de parabéns. É finalmente Capital Europeia da Cultura e brindou os presentes com um belo espectáculo de abertura. Pelo ano fora haverá uma extensa agenda de eventos à escolha do freguês. Se na hipótese improvável nenhum agradar a quem visitar o velho burgo, o centro histórico da cidade (distinguido pelo UNESCO, não esquecer) e zonas vizinhas são razão mais do que suficiente para justificar a deslocação.


Claro que a preparação da Capital Europeia da Cultura não ficou isenta de polémicas, discussões e pequenos choques de egos (ainda assim numa dimensão muito mais pequena que a do Porto 2001, e presumo que a de Lisboa 1994 também). É impossível evitá-lo. Mas numa região (entre Cávado e Ave) há muito economicamente deprimida pela crise da indústria têxtil, mas com enorme património histórico, e num ano bastante difícil, pode vir a ser muito importante para alguma reabilitação da economia regional, juntando a isso o facto de Braga também ser Capital Europeia da Juventude deste ano, mostrando que a rivalidade entre as duas cidades está presente em todas as dimensões. Além disso, nada como alguma festa e distracção para desanuviar as mentes dos tempos mais sombrios que atravessamos.


O facto de uma cidade média do nosso país ostentar essa distinção europeia deve ser motivo para orgulho nacional. Pena é que a generalidade dos blogues, ao menos pela rápida revista que tenho feito, se tenha alheado quase por completo do acontecimento. O provincianismo endémico de pretensas elites é algo a que já nos habituámos. E também os canais privados, que preferiram abrir os seus noticiários com uma refrega entre grupos de extremistas de esquerda e direita em Lisboa. Mais um bom exemplo para justificar a existência de um serviço público de televisão, nem que se resuma a um canal.