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sexta-feira, maio 17, 2019

Festivais, petições e artistas parvos


Ao contrário do que se chegou a vaticinar por algum público prematuramente eufórico e por alguns músicos demasiado convencidos do seu poder intuitivo, Conan Osíris ficou pelo caminho na sua primeira actuação no festival da Eurovisão, em Telavive, e nem à final vai. Não era difícil imaginar que aqueles requebros com uma música que não destoaria dos saudosos Cebola Mol só por delírio poderia ganhar o certame, por muito freak que o espectáculo se tenha tornado (vide a vencedora do ano passado). Além de que os israelitas desconfiam dos egípcios, pelo que um concorrente com o nome "Osíris" não teria muitas facilidades. Mas passado o infortúnio (ou a salvação da honra da pátria, não sei), lembrei-me de um episódio recente que data da escolha do representante português no festival.

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Em carta aberta, quarenta "artistas portugueses" pediram a Conan Osíris que não fosse actuar em Israel porque isso seria "ignorar o cerco ilegal que Israel mantém em Gaza". Pelo meio, falavam de como Osiris "conseguiu deslumbrar Portugal com a sua música e honestidade".

Não sei o que é que era mais delirante na carta: se acharem que a música do vencedor do festival da canção "deslumbrou Portugal", se toda a inflamação contra Israel. Entre os subscritores encontrava-se um ou outro nome mais respeitável, como Afonso Cruz ou Pedro Lamares, que dificilmente se percebe o que faziam ali, mas outros, como Alexandra Lucas Coelho, eram tão previsíveis que só de se ler o conteúdo da missiva se imagina que tais pessoas tinham alguma coisa a ver com aquilo. 

Não que o estado de Israel não tenha as suas responsabilidades na desgraça que é Gaza. Já não estamos exactamente nos anos cinquenta para referir sempre as ameaças externas ao estado judaico. O Egipto e a Jordânia têm relações diplomáticas com Israel, e a Síria tem bem mais com que se preocupar internamente. A norte, é certo, há sempre as preocupações com o Hezbollah, amparado pelo Irão, e também de Gaza constantemente voam rockets para território israelita. A política de colonatos, que serve sobretudo para atender ao crescente número de ortodoxos, não ajuda a apaziguar a situação. E a forma como muitas vezes os soldados tratam os palestinianos de Gaza, da Cisjordânia, a começar pela circulação entre territórios, não é digna de um país de cultura ocidental. A reeleição do oportunista e revisionista Bibi Netanyahu, que parece ter mais vidas que um Macabeu, entre acusações de corrupção, aliados desavindos e coligações adversárias potencialmente perigosas, agrava ainda mais as coisas.

O problema é que se Israel abusa da sua posição de força, os povos que os rodeiam conseguem fazer pior. Os palestinianos não têm grandes razões para elogiar o Hamas e a Fattah. Justamente há dias voltaram a lançar rockets contra povoações israelitas, provocando vítimas (a que as forças armadas de Israel responderam com ainda mais vítimas). E convém lembrar que entre 1948 e 1967 os judeus foram todos expulsos da Cidade Velha de Jerusalém e não se podiam aproximar sequer do Muro do Templo, o seu lugar mais sagrado. Os muçulmanos continuam a poder circular por toda a parte e não consta que a Cúpula do Rochedo e a Mesquita Al Aqsa lhes tenham sido vedadas. 

Por isso, toda essa verborreia contra o festival em Israel não passou de um aproveitamento político mal disfarçado. Aliás, já antes um conjunto de associações tinha feito igual pedido, e entre elas figurava o patusco colectivo Panteras Rosa, um grupo que combate a "LesBigay transfobia", e que provavelmente ignora que Israel é o único país da zona que respeita os direitos LGBT (sim, há mesmo uma parada gay anual em Jerusalém). Mas tendo em conta que o porta-voz desse grupo é um dos 25 que abandonou recentemente o Bloco de Esquerda por considerá-lo "pouco radical", percebe-se um pouco melhor esta aparente esquizofrenia. 

Pelo meio, uma voz um pouco mais conhecida e com uma velha e conhecida obsessão por Israel tinha entrado em cena: a de Roger Waters. O antigo Pink Floyd e autor de The Wall enviou uma carta ao "jovem e talentoso cantor português", cuja canção traduziu e achou "bastante profunda", pedindo-lhe para ser "o finalista que seria lembrado por se ter colocado do lado certo da história", o do "amor, paz verdadeira e justiça". Como se sabe, Osíris nem sequer chegou à final, pondo em causa a carreira de áugure de Waters, mas também lhe deu uma resposta evasiva, depois de dias sem lhe responder.

A verdade é que as escolhas políticas de Roger Waters são muito duvidosas. Por essa altura, reafirmou o seu entusiástico apoio ao regime da Venezuela, acusando a oposição de fazer parte da "agressão norte-americana, e surgiu num vídeo, elogiando "a experiência socialista bolivariana", com umas palavrinhas em espanhol, decerto para melhor demonstrar a sua fraternidade com Maduro, e uma guitarrada medíocre, terminando com um "viva la revolucion". E de onde falou, o intrépido artista? Da Suíça, esse farol de rebeldes e de defensores dos desvalidos. Apoiar o bolivarianismo sim, mas só nos intervalos dos desportos de Inverno, entre idas ao banco para inspecionar as contas que aumentaram com a venda de dezenas de milhões de discos e digressões ciclópicas.



Lembrei-me que aqui há uns anos estive tentado a ir ver o concerto The Wall Live ao pavilhão Atlântico. Mas depois achei que o custo não vali o esforço e que aquilo era demasiado maçador. Depois de ouvir as opiniões políticas de Waters, e mesmo fazendo a destrinça entre o artista e a sua obra, concluo que foram os trinta euros (só do concerto) mais bem poupados da minha vida.

quarta-feira, março 06, 2019

Sobre o festival e a criatura vencedora


Posso dizer, com elevadíssimo grau de probabilidade, que não vou mudar a opinião que tenho do vencedor do último festival da canção, essa grande instituição. Desde o início que embirrei severamente com Conan Osíris, desde o nome até à figura, contando obviamente com a música. Aos primeiros acordes achei logo que aquilo não era nada. E a crescente popularidade sempre me pareceu um hype exageradíssimo com fortes suportes externos (como por exemplo, actuar na Casa da Música em plena noite de visita livre. Não havia mais ninguém?). Depois de ouvir a "canção" vencedora fiquei ainda mais com essa impressão (e ainda não tinha ouvido o discurso "bué da cool" da criatura). Não, aquilo não é música, não tem piada, a letra não é subtil, e podendo ser original, é o exemplo cabal do que é original mas não é bom.
É verdade que à partida não gostei da música de Salvador Sobral, que a interpretação e imagem me causavam estranheza, e que depois mudei de opinião. Mas aí estamos a falar de um músico a sério, cuja imagem era prejudicada por graves problemas de saúde. Aqui, ou o tipo está a gozar com o pagode - a começar pela "classe artística" que o anda a incensar e a compará-lo com o Variações (há mesmo um que diz que "é parecido mas mais afinado"!!!) e que demonstrará quão ridícula pode ser - ou é um dos actos de propaganda mais estranhos de que tenho memória. Em todo o caso, a mim não me convencem, nem que ganhe o festival. E se aquela israelita a cacarejar vestida de japonesa ganhou, não é impossível que este consiga fazer o mesmo.

sábado, dezembro 29, 2018

Nomes tradicionais


Ele há coisas esquisitíssimas: então não é que os nomes próprios mais atribuídos em 2018 foram João e Maria? As pessoas lembram-se de cada uma…

Mas felizmente ainda há pessoas normais. Segundo as últimas notícias, a filha recém-nascida da actriz Rita Pereira chama-se Lonô, nome de uma divindade havaiana. Haja quem preserve as boas e velhas tradições portuguesas.

quarta-feira, novembro 21, 2018

O inclusivo



Pedro Filipe Soares, o infeliz líder parlamentar do Bloco, escreveu ontem no Público um artigo a louvar a "linguagem inclusiva", sendo exemplo disso a expressão que ele usou na convenção do seu partido: "camaradas e camarados". A esse tipo de linguagem, para "mudar mentalidades", já George Orwell lhe deu um nome no "1984": chamou-lhe novilíngua. Seja como for, não deixa de ser estranho vermos alguém afirmar-se "inclusivo" dias depois de afirmar que "não fala da direita porque esta não conta para o futuro do país". E Pedro Soares, conta para o quê, para além da invenção de novos termos?

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sexta-feira, outubro 12, 2018

Um esclarecimento e três reflexões


Considerando que é digna de reflexão por mais do que um motivo, não resisto a escrever sobre uma das notícias que, entre um turbilhão de outras mais, varreu os noticiários e as páginas da net. Falo do questionário feito a alunos do ciclo preparatório da escola Francisco Torrinha, que tanta celeuma deu.

Antes de mais, há que dizer que o questionário não é uma "fake new", como já ouvi dizer.  O tal documento foi mesmo distribuído como "ficha sociodemográfica" a alunos do 5º ano (ou 1ª ano do ciclo preparatório, como quiserem), com 9 a 10 anos, perguntando logo à cabeça o sexo e a identidade de género (homem, mulher ou "outro"), se namorava actualmente ou se já tinha namorado antes e se se sentiam atraído/as por "homens, mulheres ou ambos". Repito, isto era o questionário a crianças de 9 e 10 anos. Por acaso sei quem são os pais da criança em questão, e sei também como começou e se espalhou a notícia: numa mera conversa de Whatsapp de amigos, em que se discutem os mais variados assuntos, na sequência da qual o amigo que tinha revelado o questionário a colocou na sua página de Facebook, explicando o seu contexto. O post teve imensos comentários, começou a ser partilhado de forma crescente, qual bola de neve, e no dia seguinte já tinha centenas de partilhas, algumas aproveitadas abusivamente por forças políticas. Não demorou muito até que os jornais se referissem ao assunto, as televisões fizessem directos em frente ao Torrinha, o Ministério da Educação "apurasse informação" e as redes sociais prolongassem a discussão (como quase nenhuma aprovação do documento). A notícia chegou mesmo à Catalunha, com uma breve notícia no La Vanguardia. 
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Mas o caso merece reflexão por três razões: a primeira é saber porque que é que estas perguntas foram feitas nesta fase escolar a alunos desta idade que previsivelmente nunca namoraram e que não fazem ideia do que é a "identidade de género" ou "atracção por ambos". Qual é a finalidade do mesmo? Para que serve? E que dados ou resultados práticos se podem extrair daqui? Se é para confundir as crianças, provavelmente acertaram no alvo; se o propósito é mais ideológico, então é caso para preocupação; falava aqui há dias desta tendência para a sexualização da infância, como se se estivesse a formar um exército de autómatos programados e não a tratar de pessoas cujas fases etárias deviam ser acauteladas; e a propósito, é caso para pedir que o Torrinha não organize, no âmbito da "estratégia nacional para a Cidadania e Igualdade de Gênero", visitas guiadas dos alunos do 5º ano ou de outro à exposição de Mapplethorpe, em Serralves, ali a poucas centenas de metros, na outra ponta da "Marechal". A demonstração prática do questionário teria certamente efeitos desastrosos.

A segunda é recordar que no ano em que entrou em vigor uma nova lei de protecção de Dados Pessoais - que deu origem, aliás, a um bombardeamento maciço de emails de tudo quanto era empresa ou associação, a pedir consentimento para o tratamento dos dados - possa haver uma interferência tão visível nestes dados, mais a mais sendo crianças e tocando em elementos absolutamente íntimos e que ainda nem sequer estão devidamente desenvolvidos.

A terceira é, mais uma vez, a velocidade a que certos assuntos se propagam nas redes sociais: este começou num grupo de whatssap que nem sequer é muito grande, e colocado no Facebook, formou uma vaga surfada depois pela comunicação social tradicional, até fora de Portugal. Tudo isto em menos de 24 horas. Não tinha testemunhado tão de perto estes efeitos, mas é suficiente para causar admiração, e porque não dizê-lo, alguma apreensão. De qualquer maneira, e ao contrário do que ouvi nalguns comentários, não é preciso nenhum Bolsonaro nem nenhum candidato a protoditador para se fazer ouvir: basta a sociedade civil reagir, sem notícias falsas, e colocar as questões devidas em casos de suspeitas de abuso de poder.

sábado, agosto 11, 2018

Setas vingativas


O PSD é uma instituição caótica desde a sua origem, com uma capacidade inesgotável de nos espantar. Quando tudo parecia ligeiramente pacificado, eis que surge Pedro Duarte com intenções de desalojar Rui Rio da liderança do PSD numa questão de meses (ou seja, às portas de um ano com duas eleições), deixando só uma pergunta por fazer: porque é que ele não avançou no tempo devido, nas primárias de Janeiro? A juntar a isto, Santana Lopes, com a ponderação que se lhe conhece, anuncia a saída do seu partido de sempre e a intenção de criar a tão esperada nova formação, o sempre adiado partido de Santana (será mesmo o PSL?). Não me vou alongar sobre os sucessos futuros desse partido, de que o Luís Menezes Leitão já falou há dias, com uma oportuna comparação à defunta Nova Democracia de Manuel Monteiro. Mas o processo de intenções de Santana traz dois desmentidos: a ele próprio, de que a história contada por Pacheco Pereira sobre a intenção de fundar um partido diferente era mentira; e aos seus indefectíveis, que juravam que "o Pedro" estava "diferente", mais maduro e mais estável. Isso antes de ele entrar na comissão de Rio, de sair da mesma, e de sair agora do próprio partido a cuja liderança concorreu há pouco mais de seis meses. Uma enorme estabilidade, como se vê, e Santana de novo a ser ele mesmo. Não é um novo Pedro, é mesmo o Pedro de sempre.

Alguém lembrou que no último Sábado, 4 de Agosto, se completaram 440 anos desde a batalha de Alcácer Quibir. O mesmo dia em que Santana anunciou a saída do PSD. Não sei se o gesto tinha algum cariz de efeméride ou de simbolismo, e se Santana quereria mostrar implicitamente que é o D. Sebastião da política portuguesa. Mas tendo em conta que o futuro lhe pode trazer sérios ferimentos políticos e o dardejamento de inúmeras "setas" (nem por acaso o símbolo do PSD) em forma de críticas e ataques, corre o risco é o de se transformar no S. Sebastião da política portuguesa.

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sexta-feira, julho 06, 2018

O Santana de sempre


Este tipo de assuntos desaparece dos radares em poucos dias, mas ainda estou a pensar nas últimas declarações de Santana Lopes e nas suas intenções, pela 145ª vez, de deixar o seu "PPD/PSD" e formar um novo partido. Para quem achava que "o Pedro" tinha mudado e ganho responsabilidade e maturidade, aí está a prova do contrário: é o Santana de sempre. O mesmo homem que ganhou a presidência do Sporting, garantindo que era para ficar, e que dez meses depois já tinha saído para concorrer à liderança do PSD. Ainda por cima a desmentir cabalmente aquilo que tinha negado há poucos meses - a intenção antiga de criar um novo partido. Afinal, aqueles que relembraram esta velha intenção tinham razão. E teve ele 40 e tal por cento dos votos dos militantes para liderar o partido de que diz estar farto. Há coisas que nunca mudam...

segunda-feira, abril 09, 2018

La Lys: uma mortandade há cem anos.


Há cem anos acontecia o desastre (quase anunciado) de La Lys. Nas trincheiras da Flandres, a IIª Divisão do CEP - Corpo Expedicionário Português - sofria uma humilhante e enormíssima derrota. Num só dia, sete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros pela poderosa máquina de guerra prussiana, superior em número, em treino e em equipamento. O CEP, a que alguns previdentes chamaram Carneiros Exportados de Portugal, era composto por soldados mal treinados e armados, com pouca experiência de combate, comandados por uma oficialidade medíocre, habituada aos quartéis, a África (poucos) e à pancada de rua tão comum nesses tempos atribulados. Estavam enfraquecidos pelo tempo e pelas condições a que eram sujeitos, desmotivados e sem os reforços previstos, apesar de se anunciar uma rendição de contingentes para as horas seguintes. Tinham ido em grande parte contrariados, obrigados pela República, que pretendia a todo o custo uma qualquer glória que a legitimasse a nível internacional. Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães, "a importância portuguesa no mundo" e até que Portugal seria invadido. Ou seja, um conjunto de desculpas esfarrapadas para legitimar tal intervenção para além da estrita defesa das colónias, e que aliás era desaconselhada pela Inglaterra, que apenas aí via um estorvo.

O resultado de Afonso Costa, João Chagas e Jaime Cortesão andarem a brincar às guerras é conhecido. Em quatro horas dessa madrugada de 9 de Abril, milhares de mortos abatidos pela artilharia germânica na forte ofensiva comandada pelo lendário Erich Von Ludendorff, pânico generalizado entre as hostes portuguesas, e o avanço rápido dos alemães entre o vazio provocado pelas brechas da 2ª divisão. Houve alguns actos de heroísmo sobre-humano, como o do "soldado Milhões", outro de entre muitos que tinham sido levados da sua aldeia para as trincheiras, mas a maioria daqueles homens a quem chamaram soldados sem lhes ensinar esse estatuto debandou ou lá ficou.

Os portugueses foram carne para canhão nesse desgraçada aventura, uma das maiores derrotas lusas a par de Alcácer-Quibir ou Alcântara. Portugal ficou entre os vencedores da Guerra, mas pouco recebeu por isso. Pelo contrário, os gastos deixaram as finanças públicas em estado lastimável, escassearam os bens de primeira necessidade e deram-se revoltas populares, violentamente rechaçadas. Curiosamente, morreram quase tantos soldados como em toda a Guerra Colonial. Invoca-se o nacionalismo do Estado Novo para justificar a pesada operação mantida em África. Mas as menos aí defendíamos o que era nosso e a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente. Em La Lys, defendíamos apenas uma noção republicana de nacionalismo, enviando uns pobres coitados que mal sabiam disparar uma arma para as horríveis trincheiras, fazer frente a forças imensamente superiores. Uma triste memória e um crime que a República em vão tentou apagar, mas que seria mais um motivo para a sua impopularidade e subsequente queda, em 1926, curiosamente às mãos do comandante dessa desafortunada 2ª divisão do CEP: Gomes da Costa.

Paz às suas almas, desses pobres soldados tombados a 9 de Abril de 1918. Há cem anos.


* Texto escrito há dez anos neste mesmo blogue, e devidamente actualizado.











quarta-feira, março 14, 2018

Helénicos mas balcânicos


Se acham que o futebol português seja uma acumulação de indignidades, falta de desportivismo e fanatismo, o melhor será compará-lo com o futebol grego para nos animarmos um pouco. 
O campeonato grego é fértil em incidentes que de tão repetidos já são rotina. É o caso das invasões de campo. Ou das recepções violentas a equipas adversárias. Este ano, com a possibilidade do crónico campeão Olympiacos do Pireu ser derrubado, a disputa é entre estes, os seus vizinhos do AEK de Atenas e o PAOK de Salónica, na longínqua Macedónia grega. No encontro recente entre o PAOK e o Olympiacos o jogo teve de ser interrompido pelo arremesso de objectos (um deles acertou no treinador dos do Pireu) e implicou a derrota administrativa dos de Salónica. Agora, no mesmo estádio, no encontro entre PAOK e AEK que muita influência teria no título, a decisão do árbitro, com razão, em anular mesmo no fim um golo dos da casa levou a nova fúria, com a entrada em campo não só do público como do próprio presidente do clube, um grego-russo dono de meia cidade e que não achou nada melhor que interpelar o árbitro de pistola no coldre, fazendo menção de a utilizar. 


Depois disso as autoridades competentes já suspenderam o campeonato. Entrar em campo de pistola à cinta é demais até na liga grega. Mas esta imagem caracteriza ainda mais um país que, por romantismo ou atavismo, muitos ainda acham que conserva a pureza civilizacional da Antiguidade, como se os gregos fossem de pura raça helénica, nada tendo em comum com os povos vizinhos, esses autênticos bárbaros.
A ideia vem de longe, já que ingleses e franceses ajudaram a moderna Grécia a tornar-se independente dos turcos muito por causa do romantismo vigente. Mas a verdade é que o farol civilizacional dos gregos actuais é mais Constantinopla do que Atenas, o cristianismo ortodoxo do que o Olimpo dos deuses, ou o Basileus do que a ágora (neste último caso fazem mal, já agora).
Sim, o "berço da democracia" - esse conjunto de cidades estado e pequenos territórios - mudou muito desde então. Tirando a língua, os nomes e a situação geográfica (e também o facto de não terem ficado sob influência comunista na Guerra Fria), os gregos pouco se distinguem dos seus vizinhos sérvios e búlgaros. E dos macedónios da chamada FYROM, já agora, com quem mantêm um litígio por causa do nome que consideram ser exclusivamente seu.
O irónico da coisa é que os gregos da Antiguidade consideravam a Macedónia uma terra de bárbaros por causa do seu sistema social, político e económico. Agora reivindicam o seu legado e do conquistador Alexandre Magno. No fundo, é terra de balcânicos que não se entendem.


segunda-feira, novembro 13, 2017

O que me ficou do jantar do Panteão


É claro que fazer jantares no Panteão é patético e de gosto duvidoso. É claro que fait divers destes dão cada vez mais azo a oportunismos políticos, seja do Governo ou da oposição (a última pérola é de Gabriela Canavilhas, uma das mais notórias yes woman do PS). E é claro que é deste tipo de coisas que se alimentam as sempre insaciáveis redes sociais, sendo que esta polémica partiu precisamente de um blogue - o de Seixas da Costa (não sei se também terá publicado no Facebook).

Mas duas coisas me ficaram: uma delas é, como escreveu o Rodrigo Adão da Fonseca, que os nossos governantes e os nossos organismos públicos reagem actualmente sobretudo sob a pressão das tais "redes sociais" e respectivos estados de humor, sobretudo quando estão indignadas, o que nos leva a uma caótica e mesmo degenerada noção de "democracia directa"; a outra é que se os tais web summiters, ou lá como lhes chamam, não perceberam minimamente onde estavam, é porque a sua visão somente apontada à tecnologia, a um certo tipo de empreendedorismo e ao culto da "informalidade" faz tábua rasa de qualquer conceito de sacralidade e de respeito pelo passado e pela memória. Ou seja, um caldo de economicismo e de modernidade a todo o custo baseada na tecnologia, que recorda os "progressistas" do século XIX, que não hesitavam em derrubar traços medievais existentes, como castelos, palácios ou igrejas, para construir as suas particulares visões de futuro e de "civilização". Não admira que as suas reuniões se tenham vindo a fazer em Portugal.

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terça-feira, fevereiro 14, 2017

Diz que sou um terrorista


Fiquei ontem a saber que sou um terrorista (sem aspas), um ultraconservador e um "manipulador de imagens chocantes" para "sujeitar maiores e menores a uma distorção obscena da realidade". Toda essa acusação consta do artigo de Alexandra Lucas Coelho no Público de segunda-feira. Já tinha reparado num certo radicalismo fracturante da colunista do diário (então ela não tinha sido despedida?), mas nunca tinha pensando que para ela, as pessoas que, como eu, defenderam o "não" nos referendos ao aborto - e eu fi-lo tanto em 1998 como em 2007 -  eram terroristas. Sem tirar nem pôr. Já agora, por esse critério, o actual Presidente da República e o SG da ONU também constam do rol. Para além da virulência dos termos, há outros dois aspectos que sobressaem: um é a não aceitação de resultados eleitorais que a desgostem, como prova ao dizer que a vitória do "não" em 1998 fazia crer que Portugal não era um estado democrático nem laico (ou seja, para Lucas Coelho se os resultados não forem os que pretende, então já não são democráticos, e o facto de as pessoas exprimirem valores de origem religiosa é em si mesmo um atentado à laicidade do estado); outro é a maneira como atira grosseiramente aos outros aspectos que mais depressa se colariam ao seu "lado": a tal manipulação de imagens chocantes", que se bem entendo, eram as diferentes formas de realizar abortos. As imagens podiam causar choque, mas não eram falsas nem sujeitas a alterações de fotoshop. Já inúmeros cartazes a favor do "sim" eram recriações grotescas, sobretudo os da autoria do PSR (pouco antes da formação do Bloco), com óbvios intuitos anticlericais (mas então a laicidade...?)

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O que resta é que, dez anos depois do referendo que lhes deu a vitória, e mesmo recusando absolutamente qualquer outra hipótese de tal instrumento de voto directo, alguns vencedores de então continuam a mostrar uma incrível raiva pelos que pensam de outra forma, ainda por cima com argumentos da mais primário desonestidade intelectual acompanhados de insultos infantis. Daqui não pode sair nenhuma discussão válida. E continuam, na sua arenga, sem fazer uma, mas uma que seja, referência ao cerne da questão: áqueles a quem tiram o direito de nascer.

sábado, dezembro 31, 2016

A praga das virtudes privadas


Entre o Natal (que espero que tenha sido bom para todos os leitores) e o Ano Novo, os "acontecimentos do ano" substituem as notícias. são um autêntico maná para muita comunicação social, porque permite algum descanso: não é preciso estar-se atento a todas as notícias e manchetes, basta ir-se fazendo uma síntese do ano que acaba nas suas várias dimensões. Se o trabalho de casa for feito ao longo dos meses, nem será um período muito trabalhoso.

Mas a verdade é que o país abranda mas não para. E assim temos também os habituais faits-divers da terra. Esta semana, tivemos as frases de Augusto Santos Silva numa confraternização do PS, comentando com Vieira da Silva, em tom jocoso, que o acordo de concertação social para o aumento do salário mínimo "parecia uma feira de gado". Bastou um jornalista mais manhoso (e ainda por cima o inefável Moura-Pinto) e um microfone suficientemente perto para a notícia ecoar e estalar a "polémica", onde não faltou até quem pedisse a demissão do ministro. Que não teve lugar, claro, mas qua ainda assim não escapou a um pedido de desculpas. E para efeitos de comparação, a situação é bem diferente da de João Soares, que proferiu as suas ameaças para todos os que o pudessem ler.

Uma das praga dos nossos dias é esta constante intromissão no que as pessoas dizem ou deixam de dizer ou de pensar fora do âmbito dos seus cargos públicos. Com a tecnologia e as redes sociais, ninguém está a salvo. E temos uma opinião pública muito pouco esclarecida, que cada vez mais confunde o público com o privado. A influência desta lamentável confusão é, muito provavelmente, fruto da cultura protestante anglo-saxónica (e não só: não é por acaso que os programas como o Big Brother nasceram na Holanda), e do seu puritanismo avassalador, procurando sempre os pecadilhos da vida privada. Vê-se no Reino Unido, com a imprensa tabloide e as revistas de mexericos, mas sobretudo nos Estados Unidos e a devassa total com laivos de moralismo exacerbado (quem não se lembra da perseguição enxovalhante a Bill Clinton em finais dos anos noventa?). Uma coisa que até há pouco tempo não tínhamos por cá. Mas com o telelixo, as redes sociais mais as suas frases "indignadas" e mal escritas de gente que acredita mais em sites manhosos de teorias da conspiração e uma espécie de moralismo para quem é indiferente o aborto mas que fica em brasa com piadas entre amigos, ninguém mais está seguro. O cúmulo aconteceu há pouco tempo, quando um qualquer grupo LGBT espanhol quis uma investigação para saber se um jogador do Atlético de Madrid tinha chamado "maricas" a Cristiano Ronaldo num habitual bate-boca a maio do jogo.
 
Bom seria que a próxima vítima apanhada numa fala mais politicamente incorrecta num momento privado e que seja apanhado por um qualquer microfone indiscreto admitisse não só o que disse, mas o reafirmasse a se recusasse a pedir desculpas. Só assim se pode travar esta mania sufocante, sinistra, da confusão entre vida privada e pública. Que em 2017 haja muitas reacções assim.

domingo, dezembro 04, 2016

O Bloco e a birrinha anti-monárquica


Aquela atitude imatura e parvinha dos tipos do BE não se levantarem com o Rei de Espanha presente no Parlamento (em contraste com os do PCP, que não aplaudiram mas se levantaram) recordou-me a homenagem feita às vítimas do regicídio, cem anos depois, a 1 de Fevereiro de 2008, no Terreiro do Paço. Estava presente uma multidão ainda numerosa, quando já para o fim surge, e pára a uma distância ainda "segura", uma trupe de mascarados com uma faixa que dizia em letras garrafais mais ou menos isto: "viva o Buiça, viva o Costa" (apelidos dos regicidas), enquanto iam gritando vivas aos mesmos. Ficaram ali uns minutos a guinchar, sempre de máscara, e quando sentiram demasiados olhares a virar-se para eles, bateram em retirada, espalhando panfletos com slogans anarquistas, ou coisa vagamente parecida. Mas na tal faixa grande que levavam à frente notavam-se ainda inscrições de uma qualquer campanha do Bloco, com símbolo e tudo. E certamente que o folclórico grupo de entusiastas dos regicidas não o encontrou no lixo. Aliás, entre os tipos que regularmente fazem uma romagem ao cemitério para homenagear os ditos assassinos, conta se o major Tomé, antigo líder da UDP e um dos fundadores do BE. Donde o antimonarquismo do Bloco, que incluiu louvores aos regicidas, já vem de longe, e portanto não será de ficar muito admirado com parvoíces no hemiciclo. Até porque, recordemos, há ali afinidades grandes com o Podemos, que não hesita em suspirar por esses "belos" tempos dos anos 30 e da efémera república espanhola, que tão bons resultados trouxe, e que o deputado Soeiro não deixou de relembrar.
 
No fundo, é uma velha tradição que o Bloco se esforça por proteger. O que não deixa de ser paradoxal, num movimento que se diz tão anti-tradicional.
 
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quinta-feira, fevereiro 04, 2016

A "voz" da TAP


Parece que o porta-voz da TAP, em resposta às críticas da CM do Porto ao fecho de algumas rotas com bastantes passageiros que serviam Pedras Rubras (milão, por exemplo, um destino importante para os empresas têxteis do norte do país), disse que o centro de operações era em Lisboa para se irem "queixar ao Salazar". Se era para ser malcriado então mais valia mandar áquela parte ou cometer um qualquer acto mais escatológico. Não admira que a TAP tenha chegado ao buraco a que chegou com patetas alegres em postos deste nível com respostas deste jaez. E depois ainda há quem ache que alguns gestores públicos ganham pouco. Vendam-na totalmente ou revertam-na para o estado, mas mudem de gente nos quadros superiores.

segunda-feira, setembro 21, 2015

Corbyn e o isolacionismo britânico



Há inúmeras razões para se ficar espantado com a eleição de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista britânico. Desde logo, porque já com Ed Miliband o partido tinha virado mais à esquerda, com os resultados que se conhecem. A anterior grande deriva esquerdista, da autoria de  Michael Foot, em 1983, teve resultados calamitosos, e grandes líderes trabalhistas, como Atlee, Wilson, e porque não dizê-lo, Blair, não eram especialmente radicais. Depois, porque várias questões mais "esquerdistas" tinham sido tomadas por novos partidos, como os Verdes, o mais radical Respect, e até o SNP da Escócia ou mesmo os liberais-democratas pré-coligação governamental. E acima de tudo porque boa parte da base em que assentava o "velho" Labour mudou completamente, como as chamadas "classes trabalhadoras", ou quase desapareceu, como a indústria mineira, da qual existem uns rudimentos saudosos.

Mas o que me espanta mais são algumas opiniões de Corbyn do que devem ser as relações internacionais do Reino Unido (que provavelmente preferiria que fosse república unida). Simpatia pelo Hamas e Hezbollah, apoios ao desaparecido Hugo Chávez, defesa do IRA, recusa em qualquer intervenção contra o chamado "Estado Islâmico", e um sentimento isolacionista eurocéptico e anti-NATO (agora já o disfarça, mas em anteriores discursos pronunciou-se tanto contra a UE como contra a NATO, com o desejo de as deixar). Nesse aspecto, o país seria efectivamente uma ilha, a não ser que planeasse algum projecto comum com a Venezuela ou outros estados com igual credibilidade. Sair da UE já traria custos económicos elevados (que opinião apoiará no referendo anunciado de 2017?). Sair da NATO, então quebraria o elo com os Estados Unidos que já dura há décadas - e que segundo McMillan e todos os que se lhe seguiram, era a melhor forma de substituir o império perdido - e com outros aliados e tornaria o Reino Unido irrelevante e à mercê de qualquer ameaça, a começar pelos territórios ultramarinos, embora o novo líder da oposição britânica pareça suficientemente lunático para considerar que as  Falklands deveriam ir para a Argentina mesmo contra parecer dos seus habitantes. Se o futuro do Labour com Corbyn já seria incerto, com estas ideias de política externa não é mesmo de crer que vá muito longe. Cameron e os Lib-Dem devem andar a correr todos os pubs para festejar a nova liderança trabalhista.

segunda-feira, maio 25, 2015

O lado negro do 34


Os lados negros da vitória do Benfica no outro domingo foram obviamente os casos de violência em Guimarães e em Lisboa. Vimos no primeiro caso aquele abjecto arraial de pancadaria no adepto do Benfica e na família por parte de um brutamontes cuja autoridade parece advir-lhe unicamente do cassetete, e a destruição e a pilhagem de equipamento desportivo no estádio do Vitória por claques e adeptos do Benfica, o que em nada engrandece o clube, mesmo que se tenha logo disposto a ressarcir os vimaranenses pelos prejuízos. E em Lisboa, aquelas cenas que estragaram a festa no Marquês, em que ao voo de garrafas se seguiram cargas policiais, detenções, e como consequência, o apressado fim de festa. Note-se que a garrafada começou ainda durante o hino do Benfica, o que mostra a falta de respeito para com o clube e os seus símbolos. Depois, a inevitável reacção da polícia à gangada que insistiu em transformar uma festa numa zaragata. Meço bem o que escrevo: gangada. Porque a malta que desatou a atirar pedras e garrafas mais não era do que um bando de gangues que não teve qualquer hesitação em estragar a noite às dezenas de milhares de pessoas que ali estavam a festejar com a equipe (incluindo o autor deste blogue, que estava lá e que por isso mesmo pode falar do que viu), desrespeitando o clube, a autoridade e todos quantos tiveram de se ir embora apressadamente.



O problema, evidentemente, está longe de ser dos benfiquistas. Aliás, felizmente desta vez não houve os habituais "guardiões" dos Aliados, protagonistas dos tristes acontecimentos de outras vitórias do Benfica, mas os meus correligionários conterrâneos estavam bem ocupados em Pedras Rubras a receber a equipa ou a encher a rotunda da Boavista. Já vimos portistas a invadir o relvado do estádio do vitória (precisamente) e a pilhar estabelecimentos em volta, sportinguistas a pegar fogo às bancadas da Luz, e outros desacatos de arsenalistas, vitorianos, boavisteiros, leixonenses, etc. Mas para além do clubismo, também não se pode resumir a problemas geracionais, com as habituais arengas sobre as "novas gerações sem valores", até porque alguns dos intervenientes no saque do material desportivo não eram propriamente miúdos. E menos ainda se pode atribuir apenas à "crise", como se a volúpia e o roubo circunstancial não viessem já de longe. É pensar nos motins de Londres de 2011 para nos lembrarmos de autênticas pilhagens em ambientes eufóricos. Lembro-me de ouvir relatos de naufrágios na costa portuguesa e das populações se precipitarem para levar os despojos das vítimas. Ou seja, tudo isso (clubite, fraca educação, crise) possa contribuir para estes casos, mas provavelmente talvez o problema da falta de valores seja afinal intemporal e interterritorial. Só o exemplo, a autoridade e a experiência podem combatê-los.

E entretanto, tivemos a verdadeira festa de consagração no estádio da Luz, com um público vibrante e alegre, um jogo intenso com vários golos e a homenagem aos bicampeões. Pena mesmo a lesão de Salvio, pior do que se esperava, a não entrada de Paulo Lopes e o roubo do golo de Jonas Pistolas", que lhe daria o título de melhor marcador. É a segunda jornada seguida em que anulam um golo ao Benfica, mas teremos sempre os idiotas inúteis a quererem a tudo o custo afirmar que o Benfica teve o beneplácito dos árbitros. Afirmar, não provar, bem entendido. Bom sinal: o desespero está a chegar.

quinta-feira, maio 07, 2015

Perderam a cabeça ou querem perder de propósito?



Dá ideia que um vento de loucura percorreu a cúpula do PSD. Quando vi o vídeo com os elogios de Pedro Passos Coelho a Dias Loureiro, em Aguiar da Beira, pareceu-me um acesso de estupidez dificilmente ultrapassável. Quem é que dispararia um tiro de canhão no pé daqueles? Paulo Portas devia estar a trepar pelas paredes.
Com a publicação da biografia política de Passos, a desenterrar o caso "irrevogável" e a fazer o possível por deixar Portas mal na fotografia, uma escassa semana depois da oficialização da coligação PSD-CDS, a suspeita passa a ser a de loucura total. Ou é uma brincadeira de muito mau gosto no pior timing possível, ou é propositado, e nesse caso há que saber as razões. Não falamos de um movimento com aspirações à representação parlamentar: é a coligação dos dois partidos que estão no poder a ser posta em causa pelo actual primeiro-ministro.


Como diz um dirigente do CDS, "só se for para garantir que a coligação está coesa e motivada". Ou, como se sussurra, parece que querem perder as eleições. Pelo menos parecem fazer tudo para isso, sem grandes camuflagens. Se fosse de propósito, não fariam melhor Como é que se pode confiar num chefe de governo assim?

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

As prioridades da ONU


É claro que ser impedido de entrar no metro por um punhado de rufias racistas e bêbados, ainda por cima estrangeiros, como aconteceu há dias em Paris, é desagradável. Mas apesar da humilhação e da sensação de intimidação, o pior que acontece é entrar só no metro seguinte, uns minutos depois. Que o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos não entendeu assim e resolveu pronunciar-se sobre o acontecimento. Quem não vivesse neste Mundo poderia supor que isto está no grau mais alto da escala das violações dos direitos humanos. Bom seria que todos os problemas fossem esses, mas sinceramente, com todos os casos aberrantes que se passam no Mundo, é sobre coisas destas que os senhores Altos Comissários se debruçam? Pergunto-me se tiveram uma reacção tão pujante quando vinte e um coptas foram barbaramente assassinados (outra vez) por terroristas da Daesh nas praias da Líbia. Bem podem dizer que Paris é mais mediática e "mais perto" (dá ideia que tudo o que se passa na capital francesa é mais importante do que o resto), mas recordo-lhes que a Líbia é já ali do outro lado da Itália. E a  ONU, que eu saiba, tem carácter mundial. Se se vai pronunciar sobre cada caso de racismo, então vai precisar de umas dezenas de porta-vozes em discurso ininterrupto. Melhor faria se fosse tratar do que importa e deixasse os casos menores de lado. Depois, não admira que digam que se trata de uma ilustre inutilidade. Bizantinices como estas levam ao ridículo, e a prazo, à total irrelevância.


sábado, novembro 29, 2014

E ensinar a alguns jornalistas algumas noções de geografia política?

É curioso ver algumas gaffes ou omissões dos nossos jornalistas televisivos. Na última semana encontrei dois casos que mostram o incrível desconhecimento (de geografia política, sobretudo) da classe do que se passa no Mundo.
Achava que o nosso jornalismo desportivo era melhor, mas aparentemente enganei-me (o televisivo, pelo menos). Ainda sobre o Portugal-Argentina de há dias, um jogo maçador e frustrador das expectativas de quem ia ver um duelo de selecções entre Cristiano Ronaldo e Messi, era bom saber quem teve a ideia de marcar aquele jogo no estádio de Old Trafford, casa do Manchester United, à mesma hora de um Escócia-Inglaterra. Como era de prever, só esteve meia casa, e quase ninguém devia ser britânico, a avaliar pelas bandeiras e pelas feições do público. O que não admira. o confronto entre ingleses e escoceses é o mais antigo entre selecções, e ainda mantém alguma chama de rivalidade, provavelmente atiçada com o recente referendo sobre a autodeterminação na Escócia. Ou seja, os ingleses estavam todos a ver o jogo da sua equipa, que aliás até ganhou. Mas na maçadoria do jogo, e por causa das múltiplas nacionalidades presentes no estádio, sobressaiu a certa altura a entrada de um adepto pelo relvado dentro. Os stewards agarraram-no e a brincadeira acabou ali. Os jornalistas, entre gracejos, repararam que tinham uma camisola argentina, mas provavelmente por ignorâncias, não falaram da bandeira que adepto empunhava, que era simplesmente a do Curdistão. O que se percebe perfeitamente, numa altura em que os curdos, ao mesmo tempo que têm mais autonomia do que nunca, debatem-se com a ameaça do autodenominado "Estado Islâmico", ou califado do Levante. Aparentemente ninguém na imprensa portuguesa referiu isso. Caso fosse, por exemplo, um palestiniano, ou um catalão, com toda a certeza que não se esqueceriam. Mas como a causa curda não tem a mesma popularidade e provavelmente acharam que aquela bandeira tricolor com um sol no meio era apenas o distintivo de um qualquer clube de futebol, a coisa passou incógnita. Para uns será um pormenor de somenos. Para outros, e olhando para o que se passa na região do Curdistão, deveria ser uma falha digna de repórteres apenas e só da bola, como se demonstrou ser.


E ontem, mais uma falha, esta quase burlesca: aquela em que um jornalista, nos Emirados Árabes Unidos, relatava a visita de Cavaco Silva à federação da Arábia, dizendo que o chefe de estado português seria recebido pelo "príncipe herdeiro e presidente da república". Um paradoxo só explicável por se tratar de uma monarquia electiva, mas que nem por isso se trata de uma república, nem tem um "presidente".