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sexta-feira, abril 05, 2019

Os nazis, esses esquerdistas


Segundo Jair Bolsonaro, esse grande pensador político, o nazismo era de esquerda porque "tinha socialismo no nome". Pois tinha, provém do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. E a República Democrática Alemã e a República Popular Democrática da Coreia do Norte sempre foram modelos de democracia porque tinham "democrática" no nome. Se calhar vêm daí as dúvidas de Bernardino Soares sobre a Coreia do Norte. Vai-se a ver, Bolsonaro e Bernardino até têm ideias parecidas.

Mas há quem tenha ideias fixas. Muitos dos apoiantes desta tese continuam a defendê-la nas redes sociais, como Maria Vieira, actriz convertida em comentadora política, que aparentemente descobriu agora que nazi é abreviatura de nationalsozialismus (ou nem tanto, porque também diz que "os nacionais-socialistas depois ficaram nazis) e sente-se defraudada "pelos historiadores comunistas" que "andaram a passar a ideia de que o nazismo era de extrema-direita" (confirmar isto na página de Facebook da senhora).

Esta estranha ideia de rever a posição do nazismo no espectro político mostra bem como as massas hoje em dia se deixam arrastar pelas redes sociais e por demagogos, tanto os messiânicos como os de caixa de comentários. Houve uma discussão idêntica, há uns anos, entre José Rodrigues dos Santos, que jurava a pés juntos que o fascismo provinha do marxismo, e António Araújo (longe de ser marxista), que o contradisse com sólida argumentação. Ao menos aí houve polémica nos jornais; quase que me atrevo a dizer "como antigamente", só que sem os numerosos pontos de exclamação e a ameaça de bengaladas. 

Mas só para dar uma pequena ajuda à ideia revisionista de que o nazismo era de esquerda e que o fascismo "era marxista", lembrei-me de um livro meio esquecido mas que ainda tenho num estante qualquer, o Testamento de Mussolini com prefácio de Alfredo Pimenta (não é meu parente, asseguro). Mais do que a herança da Duce, interessam aqui as palavras do historiador português fundador da Acção Realista, monárquico tradicionalista e com ideias próximas do Integralismo Lusitano. Pimenta eleva Mussolini aos píncaros, apesar de "não se considerar feixista" (podíamos usar o aportuguesamento do termo, como fazem os galegos), considera-o restaurador do império romano" como Hitler tinha restaurado "o império germânico" e Salazar "o império lusitano". Mussolini começou no socialismo, como se sabe, mas as suas convicções mudaram com os anos. Alfredo Pimenta, tal como António Sardinha, o ideólogo do Integralismo, também teve um percurso de extremos: começou no anarquismo, passou pelo republicanismo moderado e acabou na tradicionalismo anti-liberal e anti-democrata. É um bom exemplo de como há mudanças profundas em certos percursos políticos, e uma testemunha óbvia de que os compagnons de route dos fascistas por esta altura eram os tradicionalistas e não os marxistas e que o nacional-socialismo era uma doutrina da direita revolucionária e nunca da esquerda.


segunda-feira, janeiro 14, 2019

O equívoco Mário Machado


A famigerada entrevista de Mário Machado por Manuel Luís Goucha (isto dito assim seria digno de um jornal satírico), além de levantar celeuma pela qualidade do entrevistado, dividiu um pouco as hostes da micropolítica. Parece que pelo facto de alguma esquerda bramir contra a entrevista, alguma direita pespega com exemplos aparentemente equivalentes que tiveram honras de entrevistados ou até de colunistas, como Camilo Mortágua, Isabel do Carmo ou Otelo Saraiva de Carvalho. Nuno Melo, cabeça de lista pelo CDS às europeias, por exemplo, é um dos que cai nessa armadilha, mais digna de conversas de rede social. É que tirando talvez Otelo, pela sua ligação às tenebrosas FP-25, é difícil equiparar Machado a qualquer um dos outros, e muito menos a Mariana Mortágua, que surge à baila. O equivalente directo seriam as redes bombistas dos anos setenta, também com crimes nas mãos, como o da morte do Padre Max (já depois do 25 de Novembro), cujos autores nunca foram punidos nem sequer condenados. Um dos prováveis autores morais, aliás, teve um elogio póstumo do mesmo Nuno Melo, o que talvez ajude a explicar  o esquecimento.

A ver se nos entendemos: Mário Machado não é um político, nem representante de um sector político, tirando uma dúzia de neonazis. É um delinquente e um psicopata, preso por associação a grupos de criminosos e assassinos, posse de arma, ameaças, etc. Ultimamente tem arquitectado planos para dirigir a Juve Leo, depois da bela operação  criminosa que as cúpulas da claque sportinguista protagonizaram, e de uma facção de motards, Los Bandidos, não  exactamente conhecidos  por actos de beneficência. Talvez a indignação de alguma esquerda por lhe darem a palavra, desde que não lance mensagens de ódio, seja contraproducente e oportunista. Mas a defesa, ou pelo menos a ausência de crítica de alguma direita, fazendo equiparações abusivas, dá a impressão de que tolera Machado, ou que não se incomoda grandemente com ele, passando a ideia de que ele é o radical do "seu lado". Dar importância política a quem tem somente importância criminal, eis o profundo erro dos que recordam eventuais equivalências do outro espectro.

Mas há ainda outra aspecto esta história toda que me deixa espantado: é a pergunta "acha que faz falta um novo Salazar", e sobretudo que Mário Machado ache que sim, É que com o currículo de desordeiro que tem, o mais provável é que no tempo de Salazar ele fosse posto na masmorra ainda mais anos.
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sexta-feira, outubro 18, 2013

Mortes anunciadas de resvés

 
No meio dos epitáfios que todos os dias vemos de personalidades mais ou menos relevantes, saltaram-me à vista duas mortes de que só soube vários dias depois e que, embora noticiadas, passaram em modestas colunas dos jornais, sem grandes notas.

Um era António José de Brito, filósofo e professor da universidade do Porto, morto aos 85 anos. Era uma referência para grupúsculos de extrema-direita em Portugal, até porque seria o único fascista auto-classificado em Portugal. Considerava-se "fascista totalitário", ou um "funesto fascista", à original maneira italiana e mussoliniana, em parte monárquico (mas não tradicionalista, como já ouvi não sei onde, senão não seria da direita revolucionária), e publicou um conjunto de obras que fizeram doutrina entre a minúscula extrema-direita intelectual pensante (já que a maior parte, como sabemos, é absolutamente iletrada e bronca e passa mais tempo a com barras de ferro nas mãos do que com livros). Alguém que não tinha medo de se considerar aquilo que hoje em dia é um insulto seria no mínimo um espírito livre, por muito que o modelo político que defendia o negasse.
 
 
Do outro lado do mundo e da ideologia política, e também com uma carreira muito diferente, Vo Nguyen Gap foi um dos maiores cabos-de-guerra dos últimos cem anos. Mero professor de história, desde a juventude que fazia parte de organizações revolucionárias contra a presença francesa na Indochina. Desenvolveu como ninguém as técnicas de guerrilha, e assim combateu os japoneses na Segunda Guerra; mais tarde, comandou os vietnamitas na guerra da independência contra os franceses, que venceria em definitivo, em 1954, na batalha de Dien Bien-Phu, em que apesar de tecnologicamente estar em inferioridade, contava com voluntários em massa, e a sua táctica, que cortou o caminho a eventuais reforços. E nos anos 60 e 70, como comandante supremo das forças do Vietname do Norte e ministro da defesa, seria o mentor da guerrilha dos Vietcong, que apesar das enormes perdas humanas, venceria o muito mais poderoso exército norte-americano e o Vietname do Sul, num conflito que dispensa apresentações, tantas foram as vezes que o levaram às salas de cinema, até à unificação do Vietname sob o regime comunista que vigora até hoje, embora com óbvias diferenças na economia. Depois disso, comandou com êxito a intervenção no Cambodja, que acabou com o hediondo regime dos Khmers Vermelhos de Pol Pot, e ainda resistiu às posteriores retaliações da China. Há tempos vi um referência sua e perguntei-me que idade teria. Morreu há dias, aos 102 anos. Para além de ser um brilhante general (e várias vezes capa da revista Time), Giap, que nem formação militar de base tinha, merece ser também recordado, muito embora fosse a figura mais admirada de um regime tirânico, por ser um dos responsáveis pelo fim dos Khmers Vermelhos, dos mais genocidas que o mundo já conheceu.
 
 
 
Nem Brito nem Giap eram propriamente amigos da liberdade ou da exaltação do ser humano, colectivistas como eram. Ainda assim, paz às suas almas. 
 

quarta-feira, maio 13, 2009

O Fascismo de braços cruzados


Parece que agora estar de braços cruzados em outdoors de campanha eleitoral passou a ser uma forma de fascismo. Doravante, quem estiver em momento de pausa e de braços cruzados será imediatamente denunciado pela virtuosa União de Resistentes Anti-Fascistas. Acho muito bem: afinal de contas, é uma posição ligada ao ócio, e, por consequência, à burguesia exploradora e inimiga do trabalho. Espera-se que no seu próximo artigo Boaventura Sousa Santos desenvolva os tópicos sobre o novo Fascismo-Braçocruzadismo. Revolução sempre! Braços cruzados nunca mais!