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quarta-feira, abril 17, 2019

Esperança entre pedras fumegantes


Vi e ouvi o mais belo coro mais belo coro de que tenho memória na Catedral de Notre Dame, há já demasiados anos. Quando se calou, houve um breve silêncio até alguns visitantes orientais desatarem a aplaudir, perante algum espanto e divertimento dos que assistiam à missa.

Com as imagens do último dia vieram-me outras recordações à memória, como a do Emmanuel, o grande sino  da Catedral, que vejo agora ser da época de Luís XIV, e que apenas levemente tocado já soava respeitosamente alto. Ver a "Igreja mãe de França", que resistiu miraculosamente a guerras mundiais e revoluções, deixa-nos num desespero impotente. Quando é que será novamente possível ouvir o seu coro divino?

Mas logo as primeiras imagens do interior de Notre Dame faziam adivinhar que nem tudo está perdido. O fogo não consumiu todo o interior, mas o centro da nave, por baixo do coruchéu que ruiu, está severamente danificado. Salvaram-se algumas das relíquias mais preciosas e até marcantes, como a suposta coroa de espinhos e o manto de S. Luís, mas o destino de boa parte é ainda incerto. Em todo o caso, o altar-mor resistiu. A cruz que o encima, essa, está lá. Como sempre.

O desastre afectou severamente a catedral, mas não a vergou. Parece até ter criado uma certa união e um novo espírito de esperança aos franceses. E Paris já passou por outras provações. Em 1871, depois de um cerco de meses, de ter perdido a guerra com a Prússia, de ver o seu próprio Imperador prisioneiro dos germânicos e da república ser proclamada, a Comuna pôr a cidade do Sena a ferro e fogo, destruindo numerosos edifícios antes de ser violentamente esmagada. A França estava de rastos. Pois em dez anos pagou todas as imensas indemnizações de guerra, reconstruiu os edifícios destruídos (à excepção do Palácio das Tuilleries, do qual ficaram os jardins, por razões políticas) e ainda organizou a exposição Mundial de 1878, como prova da sua vitalidade. Notre Dame de Paris voltará a ser a Igreja Mãe dos franceses.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e interiores

sexta-feira, novembro 30, 2018

Um desporto francês


Muita gente fica admirada com a "violência" das manifestações dos "Coletes Amarelos" em França, como se fosse um fenómeno raro por aqueles lados. O caso é sério, mas não é exactamente o Maio de 68 e menos ainda a Revolução Francesa. Manifestar-se com certa agressividade é uma velha tradição no hexágono: desde a Jacquerie da Idade Média, continuando com a Fronda, a Comuna, e claro, as referidas Revolução Francesa, que realmente mudou o país, e o Maio de 68, e muitíssimas outras pelo meio, é quase um desporto nacional, ao lado do ciclismo e do futebol.
Aí em meados da década passada assisti a uma manifestação bem no centro de Paris., perto da Ópera Garnier Eram bombeiros, com umas exigências quaisquer. Vinham de uniforme, capacete, e em alguns casos de machado em punho. A impedir a sua marcha, barreiras policiais e camiões de água. Quando se lançaram os jactos de água actuaram e conseguiram travá-los por uns momentos. Mas logo os bombeiros voltaram à carga e aí a polícia não esteve com meias medidas e usou o gás lacrimogêneo. Eu andava a fotografar os acontecimentos e apanhei em pleno com aquilo. Garanto-lhes que a experiência não é nada aconselhável. Refugiado no átrio de um edifício vizinho, a lavar a cara num bebedouro que julguei na altura oportuno (pior a emenda que o soneto), junto a uns japoneses atemorizados, ouvia ao lado um veterano com ligeiro ar tardo-anarquista, desdenhoso: "isto não é nada, jeunne homme. Eu estive no Maio de 68, e aí é que era".

Os jornais do dia seguinte deram umas breves notícias ao acontecimento. Era mais um entre tantos outros semelhantes.


sexta-feira, julho 20, 2018

Vitórias e derrotas simbólicas no Mundial


Acabou há dias o Mundial da Rússia. Vai deixar saudades, até porque o próximo vai decorrer no Qatar, sabe-se lá em que condições. Aparentemente o Mundial correu bem aos país anfitrião. Houve transportes terrestres de graça para os adeptos, tal como prometido quando a Rússia ganhou a organização do evento, grandes festas e animação, e hooligans e pancadaria nem vê-los, como também já se previa. O país ficou mais bem visto e até a equipa russa, envelhecida e sem novos grandes talentos, progrediu para além do que se esperava, tendo deixado a candidata Espanha pelo caminho. O presidente da FIFA disse mesmo que tinham sido "o melhor Mundial de sempre", mas pode ser uma daquelas frases feitas que se usam sempre nestas ocasiões (na altura também disseram que Portugal tinha organizado "o melhor Euro de sempre"). De qualquer das maneiras, Vladimir Putin tem razões para sorrir, mas os fundos gastos por vezes com grande derrapagem orçamental haviam de produzir frutos. Os únicos espinhos foram os mais simbólicos: as quatro selecções semifinalistas foram de países cujos regimes - os de Londres, Paris, Bruxelas e Zagreb - não se dão particularmente bem com o de Moscovo, seja por razões conjunturais, políticas ou históricas. Assim, fico a pensar por quem é que os russos terão torcido, ou querido mais que perdesse. Mas talvez se tivesse havido um Rússia-Inglaterra, tendo em conta o momento presente, essa dúvida seria provavelmente desfeita.

Mas nisto do simbolismo houve um país que ficou mesmo a ganhar - além de reconquistar o troféu principal e voltar a vencer finais: a França. É que depois de tantas piadas à Alemanha pela sua eliminação prematura na fase de grupos (das quais a mais corriqueira era "Pela segunda vez na história, a Alemanha volta a ir mal preparada para a Rússia"), havia que relembrar o óbvio: que a França triunfou enfim em Moscovo, sem precisar de bater em retirada, e fogo, se o houve, foi só o de artifício - aparentemente houve mais chuva. Tinha de ser no Verão, claro. Lá do seu enorme túmulo, Napoleão pode repousar em paz.
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quinta-feira, dezembro 21, 2017

Os Habsburgos na RTP2


Apesar das séries de TV - ou agora até da net, ou de um híbrido entre as duas - estarem em grande, suplantando mesmo o cinema, não sou grande seguidor. A oferta é imensa, tem inúmeras categorias, e a obrigatoriedade de seguir os episódios, sobretudo quando há várias épocas, implica um esforço de fidelidade que tem os seus custos. 

Quando não são extensas acompanho uma ou outra. E há algumas que não sendo especialmente mediáticas têm o seu interesse. É o caso de uma produção que passou na RTP2 até há cerca de duas semanas, com o título português Maximiliano: Poder e Amor (no original Maximilian: Das Spiel von Macht und Liebe), que narra o encontro do herdeiro do trono do Sacro Império que dá nome à série com a duquesa da Borgonha. Centrando-se na particular relação entre os dois, com as habituais sub-tramas de romances pelo meio, a série mostra-nos um período charneira da história da Europa, entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento. Constantinopla caíra poucos anos antes, na mesma altura em que findava a Guerra dos Cem Anos, e Portugal tinha iniciado a expansão africana. A história começa com a notícia da morte de Carlos, o Temerário, na batalha de Nancy, e das atribulações que a sua filha Maria teve de passar, em particular com a burguesia flamenga (a duquesa da Borgonha tinha a sua corte na então próspera Gand), pouco afecta à casa ducal e mais próxima da França de Luís XI, inimigo jurado do Temerário, com cujo filho (quase uma criança) pretendia casar Maria, anexando o velho ducado e seus territórios, que então se estendiam da Borgonha propriamente dita até à actual Holanda, aos territórios franceses. Dando a volta a estas maquinações, Maria casar-se-ia com Maximiliano.

Não querendo fazer demasiadas revelações caso a série volte a passar na TV um dia destes, compreende-se melhor assim o fim de uma potência, a Borgonha, que a ter sobrevivido como estado (e como reino, como pretendia o Temerário) mudaria bastante a geopolítica da Europa como a conhecemos, e a ascensão de outra. O Sacro Império passava por inúmeros problemas, numa altura em que os exércitos eram sobretudo constituídos por mercenários, para cuja manutenção era preciso dinheiro, que não abundava nos cofres dos Habsburgos. Para mais, estavam rodeados de poderosos inimigos - a França a oeste e a leste a Hungria do poderoso Matias Corvino e seus estados vassalos, como a Valáquia do célebre Vlad, o Empalador. Ironicamente, a coroa da Hungria seria mais tarde ostentada pelos Habsburgos. Mas todos esses problemas são retratados na série, onde começa a formar-se a dinastia que dominaria a Europa no futuro próximo. Se então a Borgonha passava por uma crise dinástica, Castela passava por outra, que acabou com o triunfo de Isabel, a Católica, sobre a pretendente apoiada por Portugal, Joana, a Beltraneja. A resolução das duas acabaria por ficar umbilicalmente ligada: o filho de Maximiliano e de Maria, Filipe, o Belo, casar-se-ia com a filha dos Reis Católicos (de Castela e de Aragão), Joana, a Louca, e o filho de ambos, que a História recorda como Carlos V, herdaria os títulos de Imperador do Sacro-Império, Duque de Borgonha (embora a região com esse nome tivesse sido anexada pela França) e Rei de Castela e Aragão, com todos os territórios inerentes e ainda os do Novo Mundo. O seu filho Filipe seria também, a partir de 1580, Rei de Portugal, como se sabe.

Claro que grande parte destes acontecimento não vêm narrados na série, que decorre num período de cinco anos. Nela cabem o romance, a intriga, a traição, a desobediência e a guerra, num ambiente algo pesado e penumbroso. Tem também uma excelente fotografia e alguns aspectos curiosos, como o facto de todos falarem na respectiva língua e em mais nenhuma - o austríaco falava com a borgonhesa em alemão e esta respondia-lhe em francês, ao passo que em Gand se falava flamengo. Nem uma palavra em inglês. Só é pena que não tenha sido referido um pormenor: o de Maximiliano e Maria, que antes do casamento nunca se tinham visto (e casam mesmo por procuração) serem já primos, uma vez que a mãe dele, já morta na altura dos acontecimentos, e a avó dela eram sobrinha e tia, ambas portuguesas, ambas da casa de Aviz (filha de D. Duarte e de D. João I, respectivamente). Tirando a omissão lusa e outras de menor importância, e só lamentando não haver mais cenas de batalha, a série cumpre perfeitamente a função didáctica. Que haja mais.

terça-feira, julho 25, 2017

A França depois das legislativas (e uma nota final cinéfila)


Já foram há mais de um mês, mas talvez pela segunda volta ter coincidido com o grande incêndio de Pedrógão passaram algo despercebidas entre nós. As eleições legislativas francesas quebraram o habitual panorama partidário francês, afundaram algumas das forças políticas mais tradicionais e deram uma maioria legislativa ao novo presidente Emanuel Macron e ao seu En Marche, que, recordemos, é um movimento centrista com pouco mais de um ano e de que até há pouco tempo se duvidava que fosse sequer apresentar-se às legislativas, dadas as dificuldades organizativas e em arranjar candidatos. Mas na senda da robusta vitória presidencial de Macron, o agora denominado Republique en Marche posicionou-se ao centro, baralhando os equilíbrios ideológicos, e pescou ao centro-esquerda e ao centro-direita, para além de ter recebido o apoio do MoDem de François Bayou, um experiente nestas lides que transporta consigo parte do legado da antiga UDF. Sem eleger a enormidade de deputados que se chegou a prever (algumas sondagens davam-lhe mais de 400), conseguiu ainda assim uma maioria absoluta de 350 lugares em 577. Depois do Eliseu, Macron ganhou o Palais Bourbon e pode seguir com o seu projecto para a França.

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Quanto aos outros partidos, a direita tradicional dos Republicains, depois da desilusão Fillon, aguentou-se a custo e permanece como segundo partido parlamentar. Mas a temível máquina partidária sofreu algumas pannes, e vários foram os elementos que trocaram o partido gaullista pelo de Macron, a começar pelo novo primeiro-ministro, Édouard Philippe. Terá o papel algo ingrato de  principal oposição a Macron quando há matérias em que provavelmente até estarão de acordo, e de manter o legado do  mais forte ideário político francês do último meio século.

A Frente Nacional confirmou a estagnação. Depois do terço de votos conquistado nas presidenciais,  Le Pen não está muito certa do caminho e só espera que as coisas não corram bem a Macron, numa arriscada estratégia de "quanto pior, melhor". Não pode fazer muito mais. Apesar disso sempre conquistou oito lugares no parlamento, incluindo o da própria Le Pen, o que é um progresso tendo em conta os eternos um ou dois que obtinha normalmente, tendo em conta o sistema uninominal francês.

A France Insoumisse do agora principal representante da esquerda radical, Jean Luc Mélenchon, está numa situação idêntica. Não tendo tido um resultado extraordinário, obteve dezassete lugares numa eleição em que concorreu separado dos comunistas, seus habituais aliados. O velho PCF, que ganhou as primeiras eleições do pós-guerra, ficou-se pelos dez deputados e por uma votação baixinha.

O maior derrotado da contenda é, como já o tinha sido nas presidenciais, e como todas as sondagens indicavam, o PSF. O partido de Mitterrand, de Delors e de Hollande passou de primeira para quinta força política, perdeu mais de 20% dos votos e mais de 280 lugares. Os seus rostos principais não conseguiram sequer ser eleitos. É uma derrota estrondosa de um partido histórico a que muitos já vaticinavam a decadência, e que, tal como o PASOK grego, parece ir a caminho da irrelevância. A atestá-lo está o facto de Benoit Hamon, o candidato socialista das presidenciais de Abril último, ter anunciado a saída do partido para fundar um novo movimento. Se Manuel Valls pretendia o fim do velho PS e o surgimento de algo novo, então parece ter acertado em pleno.  

E só para demonstrar como a velha ordem partidária se desmoronou, assinale-se que nos anos oitenta o PS e o PCF, quando socialistas e comunistas se coligaram, tinham mais de 50% dos votos. Agora, em conjunto, não chegam aos 10%.

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Mas nem tudo são rosas para o novo poder executivo de Macron: logo a seguir à segunda volta das legislativas, e quando o governo tinha apenas um mês, quatro ministros foram exonerados por causa da velha questão de aproveitamento de dinheiros europeus para financiamentos partidários. Entre eles encontrava-se François Bayrou, ministro da justiça, líder do MoDem e aliado preferencial do En Marche.

Uma nota curiosa: felizmente para os cinéfilos que a primeira sangria governamental se ficou por aqui e que não atingiu o ministro do ambiente, o carismático Nicolas Hulot, antigo apresentador do programa de televisão Ushuaia. O apelido pode parecer familiar, e não é por acaso: é que o avô de Nicolas, um arquitecto ao que parece distraído, que provavelmente fumava cachimbo e envergava sobretudo e chapéu, era vizinho do realizador Jacques Tati, que nele se terá inspirado para compôr a famosa personagem Monsieur Hulot, o inesquecível protagonista de Playtime, Mon Oncle e As Férias do sr. Hulot, interpretado pelo próprio. Assim, o governo francês conserva um traço de um dos monstros do cinema do Hexágono, e logo no campo da comédia. Sempre ajuda a aliviar futuras tensões governamentais, embora seja duvidoso que Macron se tenha lembrado desta.

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quinta-feira, maio 11, 2017

Diferenças e comparações entre os antigos e modernos movimentos políticos franceses


Outro dos factos curiosos nas presidenciais francesas é a percentagem de pessoas mais novas que votaram em Marine Le Pen, o que reduz a pó a ideia de que os "jovens" não votam na direita, ou não têm grande atracção pelos fascismo, etc. Não deixa de espantar que a geração que mais beneficiou do programa Erasmus pretenda agora em boa parte votar nas forças que o querem restringir ou suprimir. E que aqueles que passam o tempo a atacar a globalização o façam através do meio que é o símbolo maior dessa mesma globalização e a sua grande impulsionadora- a internet.

A linguagem que observamos nestes apaniguados de LePen e da maioria das forças populistas de direita que vão fazendo caminho por essa Europa fora é a de uma aparente raiva tudo quanto os rodeia, ou pelo menos áquilo que acham que podem ser os perigos latentes: os muçulmanos (ainda que em grande parte dos casos não conheçam nenhum), as "elites financeiras" e "globalistas", a maçonaria, os gays, o "sistema corrupto", e por vezes, numa revisitação ao velho anti-semitismo, a "finança judaica". Aliás, a linguagem que se observa é tantas vezes semelhante à que se ouvia nos anos trinta, se bem que na maior parte dos casos se substitua judeus por muçulmanos. À conspiração "judaico-maçónica" sucede a conspiração "islamo-globalista", ou derivações parecidas. Num continente há muitas décadas em paz e que tende a perder as suas memórias, com a passagem das gerações que viveram os horrores dos anos 30/40, a vigilância cai, desenterram-se os fantasmas e esquece-se o clima que se viva antes do maior conflito mundial de sempre. Não que a Europa esteja nas mesmas condições, longe disso. Mas alguns sentimentos, sobretudo os mais exacerbados, não andam muito longe.

Justamente, podemos traçar alguns paralelos entre movimentos que existiam  na França dos anos trinta e os de hoje e os seus dirigentes. A Frente Nacional, com outra roupagem, outra linguagem e outros objectivos, é, em muito, devedora do legitimismo que dominou boa parte da direita francesa. Parece longe da Action Française de Charles Maurras, que nos anos trinta era provavelmente a associação política com mais militantes (embora não fosse um partido, até porque era explicitamente antidemocrática), corroborada pela sua agressiva ala juvenil Camelots du Roi, e que inspira outros movimentos actuais, mas no fundo é a legítima herdeira dessa parte da direita - a liberal, ou orleanista, divide-se entre os Republicanos e o partido de François Bayrou, ao passo que a outra família", a bonapartista/gaullista, cabe nos Republicanos e uma pequena parte no movimento de Dupont-Aignan. Era precisamente essa direita legitimista a responsável pelo discurso anti-semita que péssimas implicações deixou depois com o regime de Vichy.
 
Depois dos motins de Fevereiro de 1934, onde por pouco a Action Française e outros movimentos de direita radicais, pré-fascistas ou aparentados, não cometeram um golpe de estado, as esquerdas aliaram-se para fortalecer a sua posição. A SFIO de Leon Bloum, antecessora do Partido Socialista, o partido radical e o partido comunista aliaram-se na Frente Popular, que ganhou as eleições de 1936 e que deixou algumas marcas nunca revertidas, como as férias pagas. O PCF de Thorez e a SFIO eram ferozes adversários pela hegemonia da esquerda, mas ordens expressas do Komintern levaram a que os comunistas aceitassem a aliança para travarem a direita mais radical. Por aí se ficam as semelhanças: como se sabe, o actual líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, recusou apelar ao voto em Macron para travar Marine LePen. Macron não precisou dos seus votos para vencer esmagadoramente, mas é bem provável que a alta abstenção e os votos nulos e brancos se tenham devido ao eleitorado de Mélenchon. Aliás, dá-se como certa a separação entre o PCF e o ex-candidato "insubmisso". Mas fica a grande diferença: o PCF obediente a Estaline cedeu para travar a extrema-direita; a frente de esquerda de Mélenchon não o soube fazer, e embora isso tenha tido resultados nulos, não deixa de ser uma marca vergonhosa no seu currículo político.
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terça-feira, maio 09, 2017

Nem Joana D´Arc valeu a LePen

 
As sondagens em França lá falharam de novo, como tem acontecido no último ano. Afinal de contas, Emmanuel Macron teve uma percentagem mais alta do que as previsões mais optimistas faziam prever, levando até alguns apaniguados de Marine Le Pen a pensar que era possível chegar ao Eliseu.
Olhando para alguns resultados locais das eleições em França, encontram-se números curiosos. Na Vendeia, por exemplo, esse bastião contra-revolucionário e da "reacção", Emmanuel Macron venceu com quase 70%, acima da média nacional, ainda que, pelos resultados da primeira volta, a histórica região continue preferencialmente à direita. Já em Colombey-les-Deux-Églises, terra que se confunde com Charles De Gaulle - que aqui está, aliás, sepultado - a Frente Nacional sai vencedora, talvez pelo trocadilho atribuído ao próprio general, onde numa hipotética islamização, a terra se passaria a chamar "Colombey-les-Deux-Mosquées". Também aqui, na primeira volta, a direita ficou claramente em maioria.
 
Mas não resisti a ver quais tinham sido os resultados em Domrémy-la-Pucelle. Macron ganhou, com um resultado próximo da média. Mas porquê esta curiosidade em saber a votação desta pequena localidade perdida nos confins dos Vosges? É que Domrémy-la-Pucelle é precisamente a terra de Joana D´Arc, a heroína e padroeira de França ("pucelle", ou donzela, é um sufixo em honra da própria), que Marine LePen e a Frente Nacional tanto evocam, ao ponto de se tentar colar a ex-candidata presidencial à donzela martirizada em Rouen. De pouco serviu a inspiração. E na hora de votar, os descendentes de Joana D´Arc acabaram por preferir a original a escolher a cópia falsificada.
 
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terça-feira, abril 25, 2017

O regime vigente de França continua a depender dos partidos.


É verdade que Vª República francesa sofreu o maior abanão desde a sua criação, em 1958. Um candidato gaullista ficar de fora da segunda volta é absolutamente inédito, tirando os anos Giscard D´Estaing, entre 1974 e 1981. Um candidato socialista obter menos e 7% seria impensável até há poucos anos, e note-se que o candidato dos socialistas ganhou as últimas presidenciais e ainda está no Eliseu. Para os socialistas, fica a pequena consolação de ver um seu ex-militante e ministro ganhar a 1ª volta e muito provavelmente a segunda. Ainda assim, Benôit Hamon colhe um resultado humilhante e fica muito abaixo, mais de dez pontos, de Jean-Luc Mélenchon, representante da esquerda radical, e ligeiramente à frente do conservador Dupont-Aignant, outsider da corrida. Como se o PS francês tivesse recuado quase 50 anos, já que só nos anos sessenta é que vemos pela última vez o partido comunista (principal frça apoiante de Mélenchon) a obter mais votos que os socialistas.

Para os gaullistas (prefiro chamar-lhes assim porque o agora Les Republicains passa o tempo a mudar de nome), é um resultado desolador, para quem há poucos meses era dado como vencedor antecipado, mas esperado, dada a queda de Fillon, a partir de Fevereiro, depois de sabidos os esquemas em que estava envolvido. O candidato ficou em terceiro lugar, relativamente próximo de LePen mas apenas umas décimas à frente de Mélenchon.

Para a candidata da Frente Nacional é um resultado histórico, mas um pouco aquém do que se chegou a prever (perto de 30% e a vitória na primeira volta). Fica longe de poder disputar a 2ª volta até ao último momento. Ainda assim, fortaleceu-se em zonas onde tem obtido votações muito altas, como o sudeste (Provença e Côte d´Azur) e o noroeste industrial. Em compensação , em Paris obteve uma votação fraquíssima: apenas 5%; metade, por exemplo, da votação de Hamon.
E para Emmanuel Macron é a quase chegada ao topo de um político que, ao contrário da maior parte dos representantes da classe, não tem uma longa carreira atrás de si. Com menos de 40 anos, será provavelmente os mais jovens líderes executivos no activo, no que apenas se pode comparar a Matteo Renzi, que já nem sequer está em funções. E olhando para os antecessores, reparamos que apenas Giscard chegou ao Eliseu com menos de 50 anos (tinha 48 em 1974). Sarkozy e Hollande, na casa dos 50 quando ganharam os seus mandatos, também eram considerados relativamente novos.

Se Macron for, como tudo indica, eleito no dia 7 de Maio, será um presidente em partido. Mesmo que LePen ganhasse, a sua Frente Nacional teria escassíssima representação nas câmaras legislativas. E em Junho há legislativas, que continuam a decorrer sob o método de círculos uninominais. É pouco provável que o movimento En Marche de Macron concorra, com um tal método que exige tantos candidatos. E a Frente Nacional, mesmo que obtenha muitos votos, tem a crónica dificuldade de eleger deputados. Assim, veremos as máquinas partidárias em movimento e os tais partidos "tradicionais em crise" ocupar a maioria dos lugares parlamentares, embora as presidenciais possam influenciar as escolhas (dando mais votos ao movimento de Mélenchon, por exemplo). E tudo isso influenciará o novo executivo e obrigará Macron a procurar apoios em várias bancadas da Assembleia Nacional. As presidenciais são apenas o começo: o futuro da Vª República francesa dependerá, e muito, das legislativas que se seguem.

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domingo, abril 02, 2017

O drama da direita tradicional francesa


Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correlegionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.
 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trostquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.

O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

sexta-feira, março 03, 2017

As improbabilidades das presidenciais francesas


As eleições presidenciais francesas estão cada vez mais animadas, ou mais confusas, se preferirem. Aqui há meses, os socialistas estavam arrumados, Hollande em cheque, Marine LePen em alta e esperava-se que o seu adversário, e mais que provável futuro presidente, fosse Allain Juppé, vencedor antecipado das primárias de direita. Mas os votantes, surpreendentemente, preferiram eleger como candidato o antigo primeiro-ministro (cargo em tempos exercido também por Juppé) François Fillon, não sem antes dar uma votação humilhante a Nicolas Sarkozy. Fillon, tido como íntegro e sério, tornou-se por sua vez no "futuro presidente", até rebentar a história do emprego atribuído à própria mulher, como sua assessora, sumptuosamente pago e comprovadamente pouco exercido, que resultou num tremendo golpe no seu favoritismo. Emanuel Macron, ex-ministro de governos socialistas, mas sem o apoio do PSF, que preferiu Benoit Hamon, e que lançara o movimento social-liberal En Marche, viu-se assim guindado à preferência na segunda volta, embora as sondagens continuassem a pôr Marine LePen como vencedora da primeira. Entretanto, a própria LePen viu-se metida num caso de atribuição abusiva de fundos, embora, tal como Fillon, invoque supostas conspirações contra a sua candidatura.
Com apoios à esquerda e à direita, colhendo simpatias na Europa e sendo uma lufada de ar fresco na classe política francesa, tudo indicava, até hoje, que Macron seria mesmo o próximo ocupante do Eliseu, mas entretanto, uma sondagem indicou que caso Fillon desistisse e Juppé fosse repescado, seria este o grande favorito à vitória, tanto na primeira volta como na segunda, além de que LePen ficaria em terceiro lugar. A acontecer, o que é duvidoso, porque Fillon mantém-se inflexível e até convocou uma manifestação de desagravo, apesar das deserções nas hostes, seria uma enorme reviravolta em todo este atribulado processo eleitoral, e faria com que o favorito de há meses, entretanto descartado, voltasse subitamente às preferências dos franceses, além de que a decisiva luta abandonaria os extremos e centrar-se-ia no centro, passe a redundância.
 
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Improvável, sim. Mas improbabilidades é o que não tem faltado nesta campanha pré-eleitoral francesa.

terça-feira, novembro 22, 2016

O futuro presidente de França...?


Talvez a presidência de França se tenha começado a definir agora com as primárias dos Republicains, como se chama agora a ex-UMP. Quando se pensava que o candidato da direita tradicional sairia de entre Allain Juppé e Nicolas Sarkozy, eis que os eleitores voltaram a confundir as sondagens, tirando o tapete ao ex-presidente, que se ficou pelo terceiro lugar, e dando destacado triunfo ao ex-primeiro-ministro (da presidência Sarkozy) François Fillon. Agora a luta será unicamente entre Fillon e Juppé, também ele antigo primeiro-ministro. Se o primeiro representa uma direita economicamente mais liberal e socialmente mais conservadora, reunindo, na tipologia das direitas francesas, a ala liberal/orleanista e um punhado da gaullista/bonapartista, já Juppé, muito próximo de Jacques Chirac, é o lídimo representante do gaullismo que caracterizava o antigo partido RPR, que liderou, e como acontece em certos políticos de longa carreira, é maire de Bordéus há tempos ininterruptos (também Chaban-Delmas o fora) e já respondeu em tribunal por razões monetárias. Resta saber em quem vão votar as outras correntes minoritárias, como os radicais de direita, os centristas e os democratas-cristãos, sendo certo que toda a "direita republicana" se revê nos dois candidatos. E o mais provável é que o vencedor da contenda seja mesmo o próximo presidente francês. Marine LePen (que agrupa as restantes facções de direita, uma espécie de neolegitimismo e o poujadismo, tem subido gradualmente de eleição para eleição, e os recentes acontecimentos no Reino Unido e nos EUA deram-lhe ainda mais força, mas passando à segunda volta, como parece certo, conseguirá mais de metade dos votos?
 
 
 
A esquerda, enfraquecida, desacreditada e dividida entre um Partido Socialista agónico (que pode nem levar às urnas o actual presidente Hollande, tão desacreditado está), a Front de Gauche do trânsfuga Melanchon, que inclui o outrora influente PCF, e uns candidatos trotsquistas e ecologistas menores, não parece mesmo em condições de passar sequer a uma segunda volta. Assim, o próximo presidente de França seria o candidato da direita tradicional, que a avaliar pelas votações será François Fillon. Parece ser o mais lógico e o mais consentâneo com as sondagens, mas este último ano tem-se encarregue de fintar todas as previsões e toda a lógica e de desacreditar todas as intenções de voto. 
 
Certo, certo, é que estas primárias tiveram um resultado certo e muito positivo: o fim político de Nicolas Sarkozy, um dos maiores bluffs que apareceram na Europa na última década. Ver tal criatura outra vez no Eliseu seria o descalabro (apesar de Bruni), depois da sua presidência de enganos e fachada e das suspeitas graves que caíram sobre ele. A política francesa ganha assim um tudo de nada de credibilidade.
 
 

quinta-feira, setembro 01, 2016

Burkinis e comparações impossíveis


A polémica internacional da silly season é inevitavelmente a do "burkini". A dada altura, a polícia francesa começou a multar e a repreender as mulheres que andam de fato de banho integral adaptado à moral islâmica. A proibição acabou por ser revertida por decisão administrativa do Conselho de Estado, mas não impediu que a polémica continue, sobretudo nas inevitáveis "redes sociais". Ainda agora um qualquer autarca dizia que as mulheres que se queriam vestir assim podiam ir "para a Arábia Saudita".
 
Este tipo de declarações mais ou menos parvas não ajuda muito a qualquer debate. A verdade é que, ao contrário do que o ilustre autarca defende, uma qualquer comparação entre a França e a Arábia Saudita seria sempre perversa, porque poria o país da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" no mesmo plano que a terra dos wahabitas integristas. E um país de real liberdade não condiciona, à partida, o traje que as pessoas envergam. Claro que haverá excepções, no que toca à segurança (e em muitos casos a proibição de niqab integral é perfeitamente recomendável) ou ao pudor - embora haja quem exija o "direito" de andar pela rua como Deus a pôs ao mundo, como se fosse assim tão simples. Mas pôr polícia a condicionar o traje que se usa na praia lembra precisamente as brigadas contra o vício que existem em certos países islâmicos, obrigando as mulheres a "vestirem-se decentemente". Neste caso, será mais aconselhável a andarem "indecentemente", como defendia o atarantado Manuel Valls, ao fazer referência aos seios da Marianne como "símbolo da liberdade".
 
Como já se tinha visto anteriormente, para alguns a liberdade é a imposta por eles, e não a determinação individual de cada um. Poder-se-á perguntar legitimamente se as mulheres usam o "burkini" porque foram a isso obrigadas ou porque o querem. Se se tratar do segundo caso, uma situação de assunção de um dever ou de uma consciência, há que respeitá-lo. Os tão apressados defensores da liberdade que multam e repreendem as mulheres tornam-se homólogos das brigadas islâmicas da virtude.
 
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Na realidade, é mais um exemplo do jacobinismo francês, em que a tão afamada "laicidade" é na realidade uma atitude anti-religiosa disfarçada. A França é um país soberbo, a que devo boa parte da minha educação e uma língua admirável, mas tem destas grandiloquências incoerentes, em que se proclama campeã da liberdade sendo na realidade profundamente restritiva e impositiva. A imposição da um jacobinismo mal disfarçado de laicidade é um desses exemplos. De há muito que os poderes públicos convivem mal com a religião e as suas demonstrações, substituindo-as por um culto laico com o seu quê de religioso. As restrições aos "burkini" e as explicações moralistas são disso o melhor exemplo.
Preocupações estéticas? Todos as temos, mas a mim incomoda-me tanto o "burkini" como uma mulher disforme em bikini, ou a malta de tanga pele de leopardo. Claro que todos nós puxamos à memória o ditador que há em nós, e se pudéssemos apagávamos certas figuras. Mas tanto quanto sei, em países pluralistas, não é o estado que determina a estética. A solução é simples: desviar os olhos.
 
E depois, pergunto-me quantas destas mulheres serão realmente árabes de nascimento. O mais provável, respondendo ao boçal e populista "se queres usar isso vai para a tua terra", como se não houvesse mais do que uma geração de emigrantes,será "eu estou na minha terra". Valha-nos o Conselho de Estado e a sua sensatez, que anulou esta estúpida proibição. Até à próxima polémica.
 
 

quarta-feira, julho 27, 2016

Um mártir




...porque o é, realmente. Porque morreu a cumprir as obrigações para com Deus e a comunidade e honrar os seus votos. Coincidência pouco alegre: o seu martírio ocorreu ao lado da mesma cidade, Rouen, onde morreu outra mártir e a padroeira de França, Joana D ´Arc. E como já notaram, na Igreja de Saint Etienne (Estêvão), o primeiro mártir cristão.
Aquilo que ouvíamos acontecer na Síria e no Iraque acontece agora na Europa. Temíamos que pudesse suceder, mas no fundo com esperança que não, que ficasse lá longe, aquém Mediterrâneo. O Padre Jacques Hamel é afinal um mártir da Igreja tal como são muitos outros que morreram nos últimos anos às mãos de uma horda que não respeita religiões, idades ou qualquer outra condição.
 
Falava no último post de alguns apressados, de autores de frases banais. Nas redes sociais de hoje, voltam a aparecer. Mas até por respeito para com Jacques Hamel, podia-se evitar lançar tiros para todo o lado, sobretudo para os refugiados, como já vi muitos fazer, como se já soubessem de quem se tratou e precisassem de um culpado à mão, como acontecia no velho Oeste.
 
Mas entretanto aparecem mais grupos particularmente irritantes. Os que vêm com pacifismos patéticos ou oportunistas, afirmando que "a culpa é do racismo e da austeridade", como o fazem alguns idiotas úteis. Ou pior, os que por ser um padre, lançam piadinhas ou até encolhem os ombros porque, segundo eles, "também houve as cruzadas e a Inquisição". Pois, e também houve a cultura ocidental de mil e quinhentos anos, também houve o espírito de acolhimento e de caridade, também houve o fim dos jogos de circo e a escravatura (que infelizmente voltou), também houve a capela Sistina, a regra de S. Bento e as missões a acolher os pobres deste mundo. A esses, perdoemos, e se voltarem a insistir, talvez um balde de água fria pela cabeça abaixo seguido de uma sabatina de estudos sobre a matéria lhes faça bem. O Mal paga-se com o Bem, sabemo-lo desde aquela última Ceia.

segunda-feira, julho 25, 2016

Frases ocas, perigos imprevisíveis e a ferida de Nice

Fico sempre de pé atrás quando, mal surge a notícia de mais um atentado terrorista, aparecem logo as vozes a dizer que "é preciso tomar medidas drásticas", que "o Ocidente está de novo sob ataque" ou que "a Europa não percebeu que está em guerra" conjugado com um "o Daesh continua a crescer no Iraque a na Síria". Ouvi estas quatro frases depois dos atentados de Nice, e retive-as porque são uma súmula das declarações-tipo de rede social feita à pressa, com uma qualquer pretensão a que os outros as ouçam comko expressões de altíssima sabedoria.
 

Não sei de que medidas drásticas se fala; geralmente, os autores da frase nunca dão exemplos, mas calculo que seja a expulsão de toda a população com origem étnica de uma maioria muçulmana, ou a proibição da prática do Islão, nas opiniões mais radicais, ou a expulsão de clérigos. Mas em casos em que não se percebe bem a motivação, de que serviria (além de que a expulsão de populações inteiras nunca traz grande resultados)?
 
O ocidente está de novo sob ataque". Sim, é verdade. O terrorismo não poupa a Europa e um pouco os Estados Unidos e a Austrália. Mas que dirão os iraquianos, sírios, afegãos, turcos, indianos, bengalis, inúmeros países africanos, etc, que apanham com o grosso dos ataques e que são as primeiras vítimas do propalado Daesh? O eurocentrismo de muitos continua a não perceber que a Europa já não é o centro do Mundo.
 
 
"A Europa não percebeu que está em guerra". Percebeu sim. Aliás, aquando dos atentados de Novembro em Paris, François Hollande usou imediatamente essa frase desde então, e com ele, muitos outros. Sim, a Europa e não só está numa guerra atípica e fora das habituais normas do direito internacional contra uma organização terrorista e maléfica que tem base territorial e serve de inspiração a uma quantidade não desprezível de assassinos escondidos. Mas que é que isso implica? Que as pessoas se fechem em casa, andem mais ou menos armadas, cavem bunkers? Ou tentem fazer a sua vida da forma mais natural possível? E se os autores dessa frase dessem o exemplo e se dessem como voluntários para combater o Daesh no Médio Oriente? Por outro lado, dizer que o Daesh continua em grande na Síria e no Iraque prova que não têm estudado os mapas de guerra nos últimos tempos. Fallujah, Palmira, Sinjar, tudo nomes que não lhes dizem nada.
 
Frases ocas à parte, a verdade é que nos últimos tempos nos temos confrontado com uma data de actos trágicos que só variam no grau (que pode ir até às centenas de mortes de uma penada, como há dias em Bagdad), quase todos com a marca do Daesh. Pior: das células terroristas conectadas com a organização-mãe passou-se os lobos solitários muitíssimo difíceis de detectar, que se declaram soldados do Daesh", ou que se não o fazem, imediatamente vem a organização declará-lo como tal (caso de Nice). E agora temos todos os alienados e sociopatas que, inspirados pelos atentados do dia anterior, tentam fazer algo de semelhante, como tem acontecido na Alemanha nos últimos dias. E mesmo não sendo adeptos do Daesh, como o atirador de Munique, a psicose instalada leva a que se fale logo em terrorismo islâmico. Pergunto-me até que ponto as notícias em barda e os directos intermináveis não potenciam ainda mais ataques, de forma similar à que as imagens de incêndios provocam aos pirómanos.
 
Os tempos que se avizinham vão ser muito complicados. Não sei se se instalará a paranoia ou a banalização. Qualquer uma delas é perigosa.
 
Uma coisa é certa: não voltaremos a ver a bela Promenade des Anglais, observada do châteaux de Nice, bordejada pela Baie des Anges, pelo Negresco e pelos casinos e palácios de verão, com a mesma disposição. Nice, emblema maior da Côte d´Azur e do savoir-vivre daquela região, é a ferida mais pungente em todo este Verão perigoso. E vai demorar a passar.

Nice 2005, numa foto de fraca qualidade mas muito pessoal

segunda-feira, julho 11, 2016

Campeões da Europa


 
Sim, a hora chegou. Eram dez e meia da noite, mais uns minutos, hora portuguesa, quando o apito final do árbitro nos deu a Taça que tanto e há tanto tempo queríamos. Ainda tenho as emoções de ontem cá dentro, não consigo deixar de ver imagens dos momentos mais importantes e sinto bem o cansaço da adrenalina liberta e das comemorações nas ruas do Porto, depois de ver o jogo com amigos, em casa de quem vi todos os "mata-mata". Como em todo o país, as ruas encheram-se de carros a apitar, de colunas de pessoas felizes e descontraídas, a baixa da cidade parecia reviver um fim de semana animado e colorido, e os Aliados estavam cobertos por uma multidão festiva e ordeira. O entusiasmo crescia quando nos ecrãs aparecia algum jogador como Éder, o herói da noite, cujo nome era ouvido e aclamado em toda a parte, e transformava-se em euforia quando o hino nacional era tocado, ou então uma música icónica da ocasião, como A Minha Casinha, versão Xutos.
 
É o culminar de um mês que começou com quase indiferença e falta de entusiasmo, que passou a ser de desespero, de aceitação, e por fim, de confiança numa vitória improvável. Nunca como agora vi as pessoas tão confiantes numa vitória da Selecção. Até eu, incorrigível pessimista, tinha uma enorme crença de que ia sair algo de memorável. A expectativa desceu, com a lesão indecente de Cristiano Ronaldo, o homem que mais queria pisar aquele relvado. Mas a sorte protege os audazes, e a glória os que têm decisões temerárias. e não podia haver escolha mais temerária do que lançar Éder; quando entrou em campo, dizia-se a brincar que o máximo seria ganhar com um golo de Éder. E aconteceu mesmo. Teve uma oportunidade, falhou, tentou de novo, e enfrentando sozinho a defesa francesa e a maioria dos espectadores do Stade de France, com um pontapé desengonçado, chutou um torpedo para a glória. O jogador cuja convocatória todos criticaram e zombaram tornou-se o herói de um país. Não mais o nome deste originário de Bissau que cresceu num lar nos arredores de Coimbra será esquecido. Nem o dos outros 22 companheiros, e muito menos de Fernando Santos. A Taça é deles, e consequentemente, nossa. Esta glória, esta alegria, ninguém nos tira.
 
 

segunda-feira, julho 04, 2016

Big-Bang político, o legado de Michel Rocard


Os obituários deste fim de semana estiveram completamente sobrecarregados: Camilo de Oliveira, Elie Wisel, Michael Cimino, todos eles foram objecto de artigos e de atenção mediática. Incrivelmente, parece ter passado despercebido o desaparecimento de Michel Rocard, um dos políticos franceses e europeus mais importantes dos anos oitenta-noventa, de que só soube pela capa do I.

Rocard, que exerceu o cargo de primeiro-ministro de França no fim dos anos oitenta, era um dos poucos no PSF a declarar-se social-democrata, isso quando a palavra era tabu num partido que anos antes tinha governado em coligação com o PCF de Marchais. Aliás, até há bem pouco tempo, o PSF continuou agarrado a fórmulas esquerdistas e jacobinas antigas e só recentemente começou a descolar. Manuel Valls, que tem protagonizado essa mudança, é um seguidor confesso do antigo estadista e das suas ideias. No início dos anos 90, Rocard, à frente do partido, propôs uma mudança radical que teve algum eco, com o seu célebre "Big-Bang" político. A ideia era fazer um amplo movimento reformista que incluísse não apenas socialistas mas também ecologistas, comunistas renovadores, centristas, católicos progressistas ou defensores dos direitos humanos tout court. Estavam reunidas as componentes da Deuxième Gauche de que era figura de proa, e que se opunha à esquerda marxista e jacobina.

O PS francês sofreu duros reveses eleitorais durante a sua liderança, e as ideias do Big-Bang foram postas de lado. Só recentemente Valls tentou levá-las avante, e apenas em parte. O Big-Bang permaneceu como uma das ideias políticas dos anos noventa que não chegou a ser levada avante, e que caso o fosse, teria talvez regenerado a esquerda reformista francesa e dado capacidade para se bater com a direita unida da ex-UMP, e quem sabe, travado o passo à Frente Nacional. Agora, o PSF está pelas ruas da amargura, os Republicanos (ex-UMP) colam os cacos e reorganizam-se, e a FN permanece na crista da onda. Rocard era um homem de visão. Há tempos, previu o Brexit e as razões para a saída do Reino Unido (coisa que desejava). Não foram pois os resultados do referendo que provocaram a sua morte. Seria bom por isso que se olhasse para as suas ideias e se tentasse aproveitar um pouco. Porque o centro político e as forças democráticas só ganharão nova força renovando-se, olhando para os problemas e enfrentando-os com coragem e realismo. Michel Rocard sabia disso. Os que fizeram ouvidos de mercador terão agora forçosamente de interpretar bem o seu legado político.


quinta-feira, junho 16, 2016

Conselhos com telhados frágeis


Curioso como depois dos avisos dos americanos de que havia um risco elevado de atentados jiadistas no Europeu de França se dá um atentado do género em Orlando, nos Estados Unidos, na altura em que decorre lá a copa América. às vezes convém olhar para a própria casa antes de se dar conselhos a outros, por muito bem intencionados que sejam.
Mas como a Copa América continuou a decorrer sem que ninguém pensasse em medidas especiais, conclui-se que o tal entusiasmo crescente dos americanos pelo "soccer" é mais aparente do que real. Ou alguém imagina que se algum jiadista tresloucado se pusesse a disparar numa discoteca gay em França isso não teria implicações na segurança (e histeria) do Euro?

PS: claro que o brutal assassínio do polícia e da sua mulher, com o filho ao lado, nos arredores de Paris, por mais um desvariado islamita como muitos outros que por aí andam camuflados, tem de ser contabilizado como atentado.

terça-feira, dezembro 15, 2015

Águias que são fénix


 E quase um mês depois do terror nas ruas e nas casas de espectáculo, Paris regressa à vida e retoma-a no ponto em que estava quando os terroristas entraram em cena. Os U2, que tinham cancelado o concerto em que actuariam no dia a seguir aos tentados, realizaram-no agora, e com convidados especiais. A meio do concerto, Bono Voz recorda aqueles a quem tiraram o palco na noite fatídica e a quem pretende devolvê-lo. De imediato, entram os Eagles of Death Metal e começam com People Have the Power, de Patti Smith. Como sou um dos muitos que só ouviram falar dos Eagles... e das sua incrível e irónica existência pela triste circunstância dos atentados (embora já conhecesse bem o grupo-irmão, os Queen of Stone Age, ambos expoentes da cena musical de Palm Desert), deixo a palavra a quem sabe mais disto do que eu e as imagens do regresso do grupo aos palcos parisienses, desafiando o terror e a submissão.


terça-feira, novembro 17, 2015

Saint-Denis, dez anos depois



Em 2004 encontrei-me por breves dias em Paris. Passei no Champ de Mars, base do monumento mais famoso de França, e ao olhar para as medidas de segurança à volta, imaginei que um atentado em larga escala na cidade teria fortes probabilidades de acontecer no futuro. Esses pensamentos não eram fortuitos ou obra de qualquer imaginação mórbida: uma semana antes tinham ocorrido os terríveis atentados na estação de Atocha, em Madrid, com mais de cem vítimas mortais, e ainda andava tudo horrorizado e desconfiado. Escusado será dizer que as medidas de segurança eram mais que muitas, nos aeroportos, nas estações de metro ou junto aos pontos mais notórios da cidade.


Paris não era propriamente virgem em atentados e tem uma longa e sinuosa história de violência. Basta pensar na Revolução Francesa, nas comunas ou na 2ª Guerra. Na repressão aos manifestantes argelinos em 1961 e nas tentativas de atentados nos últimos vinte anos, alguns com êxito, como os ataques ao metro em 1995, da autoria dos salafistas argelinos, e em Janeiro deste ano a matança do Charlie Hebdo e num supermercado judeu.




Por estes dias falou-se muito no Bataclan e nos cafés e restaurantes em Paris, como seria de esperar. Os momentos mais violentos viveram-se lá, e a maioria das vítimas também estava nesses locais. Já dos atentados e demais tentativas falhadas junto ao Stade de France (que vitimaram um desditoso português) falou-se um pouco menos. No entanto, que me recorde, é a primeira vez que se tenta uma acção de grande escala contra um grande recinto, num jogo importante. Estavam oitenta mil pessoas lá dentro, a começar pelo Presidente, e jogavam as equipas da França e da Alemanha. Isto a meio ano do campeonato europeu de futebol que se vai desenrolar precisamente em França. O mais provável é que este caso servisse precisamente para torpedear o evento. Mas há outro aspecto que merece atenção. O Stade de France fica no subúrbio de Saint-Denis, a Norte de Paris, perto da basílica com o mesmo nome onde está também o panteão dos Reis de França. Há exactamente dez anos, esta zona, entre outras dos subúrbios norte e leste de Paris, era amplamente noticiada na comunicação social pelos motins que aí rebentaram, onde bandos de desenraizados sub-20 - a quem Sarkozy, à época ministro do Interior, apelidou de racaille - queimaram centenas de carros, afrontaram a polícia com coktails molotov e fizeram trinta por uma linha. A morte de dois eles por mero acidente, numa fuga à polícia, deixou a zona em chamas (e os carros literalmente). É bem possível que muitos deles tenham passado do vandalismo de rua à prática armada da Jihad com passagem nos campos da Síria, da Líbia (não esquecer) e do Iraque.










Os subúrbios guetizados e descaracterizados das grandes capitais europeias criaram os vândalos, os clérigos fanáticos e o submundo da net radicalizaram-nos doutrinalmente e os campos de treino armaram-nos. Muitos ficaram por lá, outros voltam e não hesitam em obedecer quando o Daesh apela à guerra "contra os infiéis" em toda a parte. Mas por muito mal que esses europeus de segunda geração se tenham sentido tratados, foram eles que decidiram o seu destino, que infelizmente o será também intermitente para algumas cidades europeias: a guerra.



PS: nem de propósito, a operação especial que durou sete horas de tiroteio, envolveu mais de cem homens e teve como resultado dois mortos, várias prisões e a apreensão de inúmeras armas aconteceu em Saint-Denis.



sábado, novembro 14, 2015

Paris sous l ´attaque



A noite de horror que se tem feito sentir nas últimas horas em Paris tem, como seria fácil de imaginar, origem em gente que grita "Allah Akbar". O autoproclamado Estado Islâmico já terá reivindicado a série de atentados cometidos hoje na capital francesa. Não se sabe se assim é, mas a probabilidade é mais que muita.
Stade de France, restaurantes cambojanos no centro, um teatro com nome boémio, Les Halles...o centro nevrálgico da rive droite e o maior recinto desportivo francês (quando decorria um jogo entre as selecções alemã e francesa, com a presença do próprio François Hollande, imediatamente evacuado) foram alvos escolhidos a dedo. Note-se que a França organiza o campeonato Europeu de futebol no próximo Verão. E repare-se também que um dos alvos era a Avenue Voltaire. Não será certamente coincidência o nome da artéria e o facto de ter sido por ela que desfilou a manifestação de repúdio aos tentados de Janeiro deste ano.

A França, pela sua centralidade e pelas intervenções contra os jiadistas, é um alvo previsível. Paris é talvez o mais parecido com o que há de "capital da Europa", mais do que a cosmopolita mas insular Londres, a eterna mas estagnada Roma, a libertária Berlim, a administrativa Berlim, a burocrática Bruxelas ou a autoritária e euroasiática Moscovo. E essa centralidade acaba de ser atingida de forma brutal, pelo maior cancro do mundo actual: o jiadismo militante e o seu habitual rasto de terror e sangue. É um ataque à França, à europa e à Liberdade, com dezenas de vítimas como alvo concreto. Pode ser um sinal de desespero da besta acossada, mas será algo de muito perigosos com que teremos de viver nos próximos tempos. Os atentados em Beirute, também com dezenas de mortos, e o possível atentado ao avião russo no Sinai poderão também ser mostras disso.

A esta hora contam-se cerca de 140 mortos, mais os feridos em estado muito grave, o que indicia que número de baixas vai aumentar. A França está em estádio de sítio, as tropas estão nas rua e as pessoas em casa, receosas de sair. Terá de haver uma reacção firme contra os terroristas e quem os apoiar (por exemplo, clérigos que pregam a Jihad nas mesquitas, manifestações de rua com a bandeira do Daesh, além da caça aos criminosos), e ao mesmo tempo evitar bodes expiatórios ou aproveitamentos políticos de grupos xenófobos, que não hesitarão em mais uma vez apontar o dedo aos refugiados da Síria.

Mas até lá, há que enterrar os mortos, cuidar dos vivos, evitar "réplicas" e reflectir. E acima de tudo, mostrar de novo que o medo não vai ser o legado de vermes travestidos de religiosos.


PS: a iniciativa Porte Ouverte é um dos melhores sinais de solidariedade perante o horror: pessoas que dão abrigo a quem andar desorientado nas ruas, sem saber onde se abrigar.