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sexta-feira, julho 26, 2019

Mad Boris is going to Downing Street


Da primeira vez que ouvi falar em Boris Johnson ele estava a caminho de ser Mayor de Londres, derrotando o velho "Red" Ken Livingstone e dando pela primeira vez a metrópole aos tories. Na altura li declarações dele, como "votar conservador aumentará os seios das vossas mulheres e as vossas oportunidades de terem um BMW". Um tipo assim não se leva a sério, mas diverte (excepto para as inquisidoras do "heteropatriarcado branco", ao qual Boris comprovadamente pertence, e eu também, já agora). Depois seguiu o seu rumo, sempre com confusões à mistura, como quando venceu um concurso para o poema mais ofensivo a Erdogan, presidente turco (que entretanto já o felicitou no seu novo cargo, que remédio), onde tem também raízes, além da Rússia. Tornou-se depois no rosto do apoio ao Brexit, ganhando imenso capital político nessa barricada, que caiu por terra com a traição de Michael Gove, impossibilitando a sua ascensão à liderança dosconservadores e do governo britânico, deixando o caminho aberto a Theresa May. Até aí, eu julgava que ele seria inexoravelmente primeiro-ministro; depois fiquei convencido do contrário, mesmo quando o nomearam para os Negócios Estrangeiros. Afinal chegou mesmo lá.


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Boris Jonhson é uma personagem interessante e rica, digno de um biopic, muito diferente do vendedor de carros de beira da estrada que preside aos EUA, apesar do cabelo. Mas sinceramente preferia que não tivesse alcançado o posto que tanto ambicionou, para mais no delicadíssimo momento que o Reino Unido atravessa.

Um pormenor interessante, relembrado por Frederico Lourenço nas redes sociais: Boris é talvez o único, ou dos raríssimos, chefes de governo actuais com formação em Estudos Clássicos - grego e latim - pelo Balliol College da universidade de Oxford, o que pode ser uma boa notícia para todos os que lamentam o declínio do ensino das humanidades. Seja como for, é sempre bom um estadista de primeira linha que tenha aprendido grego clássico - e até que tenha aprendido com uma grega clássica.

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       Boris Johnson levando uma rabecada de Melina Mercouri nos anos oitenta, quando ainda usava pente

sexta-feira, março 16, 2018

A triste ironia de Salisbury


A confirmarem-se todas as suspeitas do envenenamento por parte de agentes russos (uma velha tradição, bem anterior a Litvinenko) do antigo agente Sergei Skripal, um exilado russo no Reino Unido (outra tradição, embora o inverso também o seja, como Kim Philby bem demonstrou), e da sua filha, haverá com toda a certeza um sério incidente diplomático entre o Reino Unido e a Rússia, que aliás tem este fim de semana uma tranquilas eleições onde por coincidência o principal opositor a Putin não concorre por estar preso (e ainda teve sorte: outros acabaram baleados no meio da rua).


Mas mais que isso, restará uma ironia amarga: é que o crime deu-se em Salisbury, uma pequena e bonita cidade inglesa com uma imponente catedral onde repousa um dos quatro exemplares - e o mais bem conservado, pelo que podemos dizer que é o principal - da Magna Carta. E assim, numa cidade que guarda um documento fundamental do moderno estado de direito terá ocorrido uma crime mais próprio de tiranias e de estados totalitários.
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segunda-feira, junho 12, 2017

Desconclusões das eleições no Reino Unido


Incrível como no espaço de um ano os líderes conservadores ingleses (e primeiros-ministros no cargo) conseguem convocar actos eleitorais quem à partida fortaleceriam a sua posição e saem deles muito mais fracos. O caso de David Cameron é evidentemente muito mais grave, porque para consolidar a sua posição face aos contestatários internos e marginalizar o UKIP abriu caminho ao terramoto do Brexit, que pela primeira vez retirou à União Europeia um dos seus membros e isolou um Reino Unido já sem império. Depois da sua retirada, e da rocambolesca sucessão de candidatos à liderança do partido e do governo, acabou por sobrar Theresa May, então ministra da administração interna, e até ali favorável à permanência na União europeia.
 
May fartou-se de meter os pés  pelas mãos e de dar uma série de tiros nos primeiros, desde prometer uma "saída dura" (ela que até fora semi-europeísta) até jurar que não convocaria eleições antecipadas, passando pelos seus cortes nos efectivos policiais numa altura em que o país é fustigado pelo terrorismo. Semanas depois, anunciava mesmo eleições gerais, para aproveitar o momento, em que as sondagens davam uma maioria ainda mais forte aos tories e previam uma derrota bisonha ao Labour de Jeremy Corbyn, comparando o momento do partido ao do tempo de Michael Foot, o mais esquerdista líder de que havia memória. Pensou, tal como Cameron, que se legitimaria através de eleições e ganharia assim força para prosseguir com o Brexit. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Perdeu incrivelmente a maioria absoluta e viu os trabalhistas registarem um grande avanço, coisa impensável semanas antes. E ainda os liberais-democratas a recusarem-se a fazer parte do governo, ao contrário do que sucederam em 2010. Não lhe restou alternativa senão ir a Belfast procurar o apoio dos unionistas norte-irlandeses da DUP para conseguir um frágil governo.
 
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Não há conclusões claras a tirar deste processos. A principal será a de que os políticos britânicos demasiado calculistas e gananciosos acabam por ser castigados nas urnas. Os trabalhistas sobem, os conservadores e os independentistas escoceses descem, os liberais-democratas registam um ligeiro avanço e o UKIP é arrasado, o que não espanta depois da lamentável luta - em sentido literal - pela liderança do partido e o descrédito do bufão Nigel Farage. Mas não se confirma o tal arrependimento dos eleitores em relação ao Brexit, já que os trabalhistas tinham tido uma atitude dúbia e os maiores defensores do Remain tinham sido os lib-dem e os escoceses. e já agora, com o desaire destes últimos, a possibilidade de novo referendo à indpendência da Escócia deve ficar por ora afastada.
 
Theresa May perdeu quase toda a credibilidade que lhe restava, formará um governo frágil que poderá não durar muito tempo, e a possibilidade de Jeremy Corbyn, o velho esquerdista que propõe nacionalizações, chegar ao governo, é bem real. E o processo do Brexit prossegue. Tal como a confusão no momento político.

domingo, julho 31, 2016

Boris at the Foreign Office


Uma das situações mais bizarras das últimas semanas, que permitiu um mínimo de discussão mas que acabou submergido na torrente de acontecimentos simultâneos, foi a nomeação de Boris Johnson para Secretário de Estado dos Assuntos Estrangeiros. Ele, que quase se guindou à liderança dos conservadores - e do governo da Rainha - com as portas escancaradas, na sequência do referendo do Brexit, tinha fugido da luta, aparentemente destruindo a sua carreira política quando estava tão perto do topo, dando uma imagem de fuga às responsabilidades e desiludindo quem nele tinha apostado. Esta promoção não deixa de ser surpreendente, porque é dos mais inesperados e rápidas regressos à ribalta depois de uma travessia no deserto, também ela das mais rápidas. O ex-editor da Spectator ocupa um cargo que lhe dá ainda mais visibilidade do que o de mayor de Londres. Terá oportunidade de fazer valer as suas reais capacidades executivas, e já agora, a sua bagagem da História e a sua percepção dos acontecimentos. O seu maior problema é a irreverência - paradoxalmente também a causa da sua grande popularidade - que lhe deixou um rasto de declarações muito pouco diplomáticas sobre variados estadistas ou candidatos, como Hillary Clinton, Donald Trump, e sobretudo, Erdogan. Os encontros bilaterais com qualquer desses parceiros serão previsivelmente tensos, e talvez por isso o seu ministério tenha ficado despojado da questão do Brexit, entregue a outro órgão criado de propósito.

Apesar de conhecida a propensão de Johnson para a irreverência (ou para o puro disparate), algumas das reacções à sua nomeação revelaram bem o grau de arrogância e de ressabiamento com que alguns responsáveis da UE lidaram com o referendo britânico, a começar pelos responsáveis da política externa dos dois países que julgam dever ser eles a controlar a UE, a França e a Alemanha. Ayrault disse tratar-se de "um mentiroso", o medíocre Steinmeier afirmou que a nomeação era "escandalosa". Música para os defensores do Brexit, que ganham mais pretextos contra a intromissão em assuntos exclusivamente reservados ao Reino Unido, neste caso a escolha dos membros do governo. E vindo da França e da Alemanha, ainda mais desconfiança provocam no lado de lá da Mancha. Sim, o Brexit também é por culpa de gente desta. Repito: foram reacções à sua nomeação de uma pessoa com quem forçosamente se terão de encontrar, não meras críticas antes de se saber que ia ser nomeado, o que diz bem da qualidade de alguma euroburocracia reinante. E não, não eram do tão criticado PPE, antes dois socialistas, como aliás o é Dijsselbloem. Estou curioso para ver os primeiros encontros de Boris com esta gente.

Entretanto, a Grécia tem voltado ao ataque para que os frisos do Pártenon que Lord Elgin levou para o Museu Britânico há duzentos anos sejam devolvidos à proveniência. É um pedido justo, que teve o apoio recente do Parlamento Europeu. Será mais um pretexto para o Brexit. Boris tem sido um fervoroso defensor da manutenção dos mármores em Londres, e as pressões europeias podem tê-lo ajudado a optar definitivamente pela saída da UE. Certo é que o pedido dos gregos é antigo e que o próprio Boris sabe-o bem, já que na sua juventude em Oxford teve de encarar a máxima defensora do regresso dos frisos, a mítica Melina Mercouri. como se sabe,  não se deixou convencer, mas pela expressão não deixou de se sentir intimidado pelos argumentos da combativa ministra grega da cultura.
 

sábado, julho 09, 2016

O terramoto partidário do Reino Unido



Se em França uns desaparecem fisicamente, no Reino Unido outros desaparecem politicamente. Os resultados do referendo não só trouxeram um terramoto para a Europa (e possivelmente para a própria União britânica, com a possível secessão da Escócia), mas também sacudiram totalmente a classe partidária dirigente local.

David Cameron pediu de imediato a demissão do governo e do partido, como se sabe. Boris Johnson, o seu grande adversário e um dos grandes vencedores da votação, que todos imaginavam já em Downing Street daqui a meses, sentiu-se com a chão a fugir depois do seu aliado Michael Gove, responsável governamental pela justiça, lhe ter puxado o tapete e anunciado a sua própria candidatura, e deixou tudo boquiaberto quando em conferência de imprensa na semana passada, quando todos achavam que ia anunciar a previsível corrida à liderança torie, declarou que o homem que governaria o Reino Unido não seria ele. Fica-se sem saber se Boris teria aquela ambição ou se é demasiado fraco para avançar à menor dificuldade. Em todo o caso, a sua carreira política ficou seriamente comprometida, a sua popularidade caiu a pique e provavelmente caiu um mito na política britânica. Em todo o caso, a facada nas costas de pouco serviu a Gove, já afastado da corrida à liderança por duas senhoras. Do mal o menos: com a sua face meio ET meio criança de colo, não seria certamente Gove a restaurar o prestígio britânico..

Entretanto, entre os Trabalhistas, a coisa está também a ferro e fogo. Já se sabia que Corbyn não reunia grande simpatia por parte da maioria dos deputados Labour, mas as suas posições europeias algo ambíguas e as acusações de que terá entrado na campanha a favor do "remain" tarde e com pouca convicção (fazendo com que muitos eleitores trabalhistas optassem pela saída) causaram furor no partido, tendo perdido um voto de confiança dos membros da câmara dos Comuns. contam-se espingardas, já há candidaturas à liderança a ser lançadas, como a de Angela Eagle (que bem parece uma espécie de Boris Johnson em versão feminina).

E no partido que mais ganhou o  referendo, o UKIP, Nigel Farage está de saída, considerando a sua missão como cumprida. Desta vez parece ser a sério, não uma falsa partida como em 2015. Não se sabe o que acontecerá ao partido, agora que a sua razão de existir se eclipsou. Mas sabe-se o que acontecerá a Farage nos próximos tempos: mantém o seu lugar no Parlamento Europeu, numa instituição com a qual quer acabar, mas que lhe paga o seu avultado salário (ou "o gasto mais inútil da União Europeia", como disse Guy Verhofstadt). O representante do "little people" continua a mostrar todas as suas virtudes e o seu grande sentido de estadista. é duvidoso que lhe tenha passado pela cabeça sair do PE, mostrando uma réstia de dignidade.

Parece que só entre os liberais-democratas, os verdes e os nacionalistas é que as lideranças estão postas em sossego, a salvo dos terramotos que varrem a classe política dominante. Tudo isto numa semana em que o relatório Chilcot arruinou ainda mais a imagem de um dos primeiros-ministros mais duradouros da história do país, Tony Blair.

sexta-feira, junho 24, 2016

Onde estavávamos no dia do Brexit


Há datas marcantes em que nos lembramos dos sítios onde estávamos e do que fazíamos na altura. Há datas que marcam colectivamente uma época por mais do que uma razão, em que um acontecimento de monta se dá num dia fácil de memorizar.

Daqui a uns anos, recordaremos, provavelmente com mágoa, que o Reino Unido decidiu deixar a União Europeia num dia de S. João. E eu lembrar-me-ei onde estava e o que fazia: em Miragaia, à espera que me servissem uma bifana ao som de música de baile, quando soube que a BBC dava já o "leave" como irreversível. A grande maioria das pessoas que me rodeava não se apercebeu, embalada pelos festejos de S. João, mas houve quem soubesse e não escondesse a surpresa (mais desagradada que outra coisa).

Esperemos que daqui a uns dez, vinte anos, quando recordarmos esse S. João como recordamos o de 1996 como o do "chapéu do Poborsky", ainda exista UE, de preferência menos burocratizada e mais solidária. Veremos se o Reino Unido ainda existirá como tal, com a pulsão independentista da Escócia, que votou "remain", a ganhar novo e fortíssimo alento mas é pouco provável. E assim, desmembrada, fora da UE, sem indústria nem império, perdida a importância estratégica e de parceria com os EUA, com o marcado financeiro da City desvalorizado e ultrapassado, tornar-se-á uma país europeu de segunda categoria?

David Cameron jogou a sua liderança, e o seu oportunismo pode ser o despoletar de acontecimentos gravíssimos. As grandes mudanças na história nascem por vezes de decisões banais, omissões que parecem inócuas ou acasos imprevisíveis. Cameron tinha ganho as últimas eleições gerais com surpreendente maioria, ganhara a manutenção da Escócia, mas desperdiçou o seu capital político neste gesto imprudente e irresponsável. Ficará na história com uma marca trágica, não longe de um Neville Chamberlain. Boris Johnson e Jeremy Corbyn apanharão os cacos de uma mudança para a qual contribuíram. E Nigel Farage poderá a ficar na história como uma personalidade nefasta na história do seu país, um dos arquitectos da sua desagregação, num tempo em que pululam políticos radicais e inquietantes, como Putin, LePen e Trump, todos adeptos do Brexit e do fim da UE em geral.

Esperemos que os tempos futuros não sejam tão negros como parecem neste solarengo dia de hoje. E que tenhamos sempre S. João.

                             
                                                   Alvorada de S. João, 2016. O dia do Brexit.

domingo, junho 19, 2016

Uma semana que se prevê quente


A semana que amanhã começa promete ser quente. De facto, a meteorologia prevê a subida acentuada das temperaturas, consentâneas com o início deste Verão adiado. Em vésperas de S. João não se pedia menos. Mas espera-se que suba ainda mais em Londres, Edimburgo e Madrid. E por arrasto, em toda a Europa.

Chegou a semana tão nervosamente aguardada pelo referendo à permanência do Reino Unido na UE. As sondagens falharam redondamente nas legislativas do ano passado, mas ainda assim são um indicador a ter em conta. Até há dias davam uma crescente preferência pelo "não", o tão badalado Brexit, mas o assassínio brutal da deputada trabalhista pró-europeia Jo Cox por um alucinado de extrema-direita parece ter invertido as coisas e dado alento ao "sim" à permanência. As causas emocionais não ganharão eleições, mas podem ajudar a baralhá-las. Nunca se despreze as ondas de choque que podem provocar - e quanto mais perto dos actos, mais levantam. Mas o risco do "não" e do consequente Brexit continua a ser bem real. É-me para mim difícil perceber o  porquê desta opção, salvo, lá está, por razões emocionais, nacionalistas, e de uma mistura da velha desconfiança britânica do "continente" com os anticorpos provocados nos últimos anos pelas instituições europeias. Os britânicos têm muito a perder caso saiam mesmo da UE: irrelevância da City, fim ao livre trânsito de mercadorias, pessoas e capitais, isso numa altura em que o velho império está há muito perdido (e em muitos casos o suplanta) e os Estados Unidos já não têm o mesmo interesse em ver o Reino Unido como aliado preferencial (preferem vê-lo na UE). Pior: pode significar o fim da união. A Escócia por certo não perderá a oportunidade de reivindicar a adesão à UE e de convocar novo referendo. E neste, a independência ganharia com toda a certeza. É portanto com o espectro do declínio (e futura desagregação?) da UE e com o fim do Reino Unido que nos deparamos.


Aqui ao lado, em Espanha, preparam-se novas eleições, cujos resultados prometem não ser substancialmente diferentes dos de Dezembro, salvo pela troca de esquerdas: o PSOE poderá ficar em terceiro, atrás da coligação de esquerdistas radicais com comunistas Unidos Podemos. Ou seja, mais uma vez não haverá maioria para ninguém. O PP, sempre enredado nos seus incontáveis casos de corrupção e num conjunto de dirigentes gasto e ultrapassado (note-se que em trinta anos o partido teve apenas 3 líderes), permanece à frente, mas longíssimo da maioria, e o Ciudadanos, que poderia ser um fiel da balança com gente nova e propostas arejadas, também não parece ganhar muito. A tragédia maior é o afundamento do PSOE em detrimento do Juntos Podemos, em que não faltam militantes que publicamente usam slogans como "(as igrejas) ardereis como em 1936". Isto a semanas de se passarem oitenta anos do pronunciamento que levou à horrível Guerra Civil.

Gozemos o calor e os santos populares, enquanto nos é permitido. Talvez o Verão seja quente mas não insuportável.

                        (Campanha eleitoral em Baeza, Andaluzia, Dezembro 2015)

PS: e claro está, como hoje lembra um dos nossos periódicos na sua versão online, para subir ainda mais, temos o decisivo confronto da Selecção Portuguesa contra a surpreendente Hungria, sem margem sequer para empatar. Se houver alguma competência no ataque e não aparecer o espírito dos "invencíveis magiares" dos anos 50, a qualificação é possível. A alternativa, depois de se cair num dos grupos mais acessíveis do torneio, é demasiado humilhante.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Brexit?


Fechadas as negociações com a UE, que dão vantagens inigualáveis ao Reino Unido para se manter dentro da Europa dos 28, e marcada a data do referendo que vai decidir se sai ou se fica, ver uma tão grande quantidade de adesões ao "não" surpreende sempre um pouco, mesmo tendo em conta o proverbial eurocepticismo britânico com tudo o que vem do "continente". Já se sabia que o Partido Conservador esteve sempre dividido nesta matéria ( mas surgirem seis ministros e o sempre imprevisível mayor Boris Johnson pelo nega dá ao Brexit possibilidades acrescidas. Junte-se a isso alguns trabalhistas envergonhados (a começar pelo actual líder, Jeremy Corbyn), seguindo a tradição da esquerda Labour  ser também eurocéptica, e claro, o antieuropeu UKIP, e mais alguns movimentos radicais de direita e de esquerda (como o National Front e o Respect, do esquerdista George Galloway). Pelo sim haverá boa parte dos conservadores (a começar por David Cameron, que joga aqui o seu futuro político) e dos trabalhistas, sobretudo a ala moderada, os liberais-democratas, os Verdes e o Partido Nacional Escocês (SNP), que em tempos era mais eurocéptico.
 Para além dos partidos, e a propósito da posição do SNP, vale a pena estar atento aos votos tácticos regionais. Os escoceses são mais europeístas e votarão em massa na continuidade. Ou não. Por mera táctica, poderão votar em grande número pela saída: se os seus votos contarem decisivamente para o resultado final, o Brexit seria o pretexto ideal para forçar novo referendo pela independência, que a causa separatista ganharia certamente movida pelo temor do isolamento do resto da Europa. Por outro lado, esse mesmo receio pode levar a que muitos eurocépticos ingleses votem a contragosto pela continuidade na UE para evitar a dolorosa separação da Escócia. Assim, muitos poderão votar mais com a cabeça do que com o coração. E ainda há que contar com vários movimentos irlandeses unionistas, adeptos da saída.
O mais provável é a manutenção do Reino Unido na UE. Mas é uma probabilidade curta: algumas sondagens dão a vitória ao "não", os votos tácticos poderão ter algum peso e os economistas preocupados com uma fuga em massa da City podem não ser suficientes para convencer os seus compatriotas da bondade da permanência nem de os demover de escaparem à "submissão a Bruxelas". Isto apesar da ideia da parceria com o Estados Unidos já não ser assim tão sólida e de os próprios americanos preferirem um Reino Unido na UE. O espectro do Brexit não é assim tão descabido.

segunda-feira, setembro 21, 2015

Corbyn e o isolacionismo britânico



Há inúmeras razões para se ficar espantado com a eleição de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista britânico. Desde logo, porque já com Ed Miliband o partido tinha virado mais à esquerda, com os resultados que se conhecem. A anterior grande deriva esquerdista, da autoria de  Michael Foot, em 1983, teve resultados calamitosos, e grandes líderes trabalhistas, como Atlee, Wilson, e porque não dizê-lo, Blair, não eram especialmente radicais. Depois, porque várias questões mais "esquerdistas" tinham sido tomadas por novos partidos, como os Verdes, o mais radical Respect, e até o SNP da Escócia ou mesmo os liberais-democratas pré-coligação governamental. E acima de tudo porque boa parte da base em que assentava o "velho" Labour mudou completamente, como as chamadas "classes trabalhadoras", ou quase desapareceu, como a indústria mineira, da qual existem uns rudimentos saudosos.

Mas o que me espanta mais são algumas opiniões de Corbyn do que devem ser as relações internacionais do Reino Unido (que provavelmente preferiria que fosse república unida). Simpatia pelo Hamas e Hezbollah, apoios ao desaparecido Hugo Chávez, defesa do IRA, recusa em qualquer intervenção contra o chamado "Estado Islâmico", e um sentimento isolacionista eurocéptico e anti-NATO (agora já o disfarça, mas em anteriores discursos pronunciou-se tanto contra a UE como contra a NATO, com o desejo de as deixar). Nesse aspecto, o país seria efectivamente uma ilha, a não ser que planeasse algum projecto comum com a Venezuela ou outros estados com igual credibilidade. Sair da UE já traria custos económicos elevados (que opinião apoiará no referendo anunciado de 2017?). Sair da NATO, então quebraria o elo com os Estados Unidos que já dura há décadas - e que segundo McMillan e todos os que se lhe seguiram, era a melhor forma de substituir o império perdido - e com outros aliados e tornaria o Reino Unido irrelevante e à mercê de qualquer ameaça, a começar pelos territórios ultramarinos, embora o novo líder da oposição britânica pareça suficientemente lunático para considerar que as  Falklands deveriam ir para a Argentina mesmo contra parecer dos seus habitantes. Se o futuro do Labour com Corbyn já seria incerto, com estas ideias de política externa não é mesmo de crer que vá muito longe. Cameron e os Lib-Dem devem andar a correr todos os pubs para festejar a nova liderança trabalhista.

domingo, setembro 06, 2015

Mais hipocrisias e o peso da história



Ainda reportando ao post anterior, se há coisa que me irrita profundamente é a eterna tentativa de culpabilizar ocidente por tudo quanto se mau há no mundo, como se outras civilizações fossem compostas por seres celestiais e amigáveis, onde não há maldade nem cobiça. Ao mesmo tempo, reconheça-se que o ocidente, muito embora seja motivo de inveja para outros, teve sérias responsabilidades (não equitativas entre os vários estados) nalguns dos piores problemas que o Mundo atravessa hoje.


Nesta crise de refugiados do Médio Oriente, há um país, em particular, que teve seríssimas responsabilidades e que é o primeiro a fugir delas: o Reino Unido. Em 1920, prometeu, pelo Tratado de Sèvres, um estado ao povo curdo, anulado pelo Tratado de Lausanne, de 1923, que riscou essas aspirações. No Mandato Britânico sobre a Mesopotâmia, até praticamente aos anos 40, juntaram sunitas, xiitas, assírios, curdos e outros no mesmo território que se tornaria no Iraque. Mais uma vez, a ideia de um estado do Curdistão ficou anulada. Muito mais tarde, os britânicos foram um dos esteios da invasão do Iraque de 2003, com os resultados conhecidos, e da Líbia, em 2001, e que indirectamente é uma das causas do êxodo de populações para a Europa. Verifica-se entretanto que é precisamente o Reino Unido um dos países mais renitentes e até hostis a receber refugiados, aproveitando-se talvez da sua condição semi-insular para os rechaçar, o que levou ao enorme acampamento em Calais. Depois de todas as suas responsabilidades nesta fuga em massa de África e do médio Oriente, as autoridades do pais que ergueu o maior império ultramarino de sempre, com possessões em todos os continentes, fecham-se a todos os que procuram auxílio, ao passo que os alemães, sempre tidos como os maus da fita europeus, perpetuamente recordados pelo seu papel funesto nas Guerras Mundiais, mas que não tiveram grande responsabilidade na actual situação, são os que mais lhes abrem os braços. Dá que pensar.



PS: exemplo flagrante do que escrevo no início do post é a recusa de outros países mais a Sul, sobretudo na Península Arábica, em receberem refugiados. Enquanto que no Líbano e na Jordânia esgota-se a capacidade de receber mais gente, os árabes do Golfo continuam a sua política de egoísmo extremo, ao fechar as suas fronteiras a quem foge da guerra (na qual esses mesmos estados têm evidentes responsabilidades). Se esta gente exigir algum tipo de solidariedade no futuro, para eles ou para outrém, que isto sirva de memória posterior.

sexta-feira, maio 15, 2015

O Reino Unido (?) depois das surpreendentes eleições


Como quase todos, fiquei surpreendido com os resultados das eleições britânicas. É fácil tirar conclusões agora, mas todos apontavam para a enorme dificuldade que seria formar governo. Afinal, David Cameron permanece em Downing Street sem precisar de coligações com ninguém.

Bem vistas as coisas, as sondagens nem se enganaram por aí além nos números. Mas o sistema uninominal britânico permite coisas destas, e a distribuição de lugares saiu completamente furada, salvo talvez para o SNP e para os liberais-democratas. Por isso, algumas alusões à "falta de isenção" dos media lusos, como a de Helena Matos ao Público, é injusta e descabida. À hora de tiragem dos jornais, eram impossível saber os resultados, até porque as urnas fecharam às dez da noite. Só mesmo na manhã seguinte é que se começaram a tornar claros, e mesmo assim, só à tarde é que os conservadores confirmaram a sua maioria.

Mas a verdade é que as esperanças dos trabalhistas saíram absolutamente furadas, como já sucedera, e alguns recordaram, em 1992, quando Neil Kinnock, dado como favorito à vitória depois de 13 anos de thatcherismo, acabaria por ser derrotado por John Major. O New Labour que se lhe seguiria teria bem mais êxito. Desta vez, Cameron nem sequer precisa da muleta dos liberais -democratas, que tiveram um desaire tremendo, em votos e em lugares nos Comuns. De resto, as expectativas goradas destas eleições fizeram cair rês líderes partidários: Ed Miliband, dos trabalhistas, que tinha apostado numa viragem à esquerda (e recorde-se ascendido à liderança vencendo surpreendentemente o seu irmão David, havendo quem se pergunte agora se não escolheram o irmão errado); Nick Clegg, dos liberais-democratas, segunda figura do governo de coligação, mas cujas questões com Cameron e o síndrome de "partido menor" levaram a um péssimo resultado; e o muito mediatizado Nigel Farage, que alcançou apenas um lugar, ainda que tenha ficado em terceiro nas votações. Do outro lado, os Verdes ganharam algum alento e o SNP escocês, talvez catapultado pelo referendo de Setembro último, teve uma vitória imensa, varrendo os trabalhistas e os liberais da Escócia (os conservadores há muito que lá não são representativos). Aliás, este aparente paradoxo do sistema uninominal tem sido muito discutido: como pode um partido de 12%, como o UKIP, conquistar apenas um lugar, e o SNP, com 4,5%, arrebanhar mais de 50? A força local e em certos círculos ajuda a perceber, mas continuo a preferir o modelo proporcional e a pensar que o melhor sistema é mesmo o misto.




De resto, aqui temos David Cameron com maioria absoluta nos Comuns, dominando a Inglaterra, ao passo que os independentistas do SNP dominam a Escócia. Questões prementes dos próximos anos serão o referendo à permanência na UE (onde apesar de tudo parece-me os britânicos quererão continuar, pese a sua habitual desconfiança dos "continentais"), a economia e a diminuição de impostos, saber o que conseguirá Cameron fazer sem coligações, qual o futuro do Labour e que caminho irá tomar, assim como os liberais-democratas, e se o UKIP continua a ser o partido da moda ou se sem Farage, vai cair. E claro, se o independentismo escocês esvaziará, ou se, como parece, será uma ameaça permanente sobre o Reino Unido. 
Wait and see.

quinta-feira, maio 07, 2015

A semana mais emocionante de que há memória no UK



A semana no Reino Unido não podia ser mais excitante: primeiro, o nascimento da princesa e a enorme expectativa à volta do nome (ficou Charlotte Elizabeth Diana, honrando as ancestrais); pelo meio, o Chelsea de José Mourinho a sagrar-se campeão inglês; e agora, as eleições mais confusas de que há memória, em busca da maioria impossível, com a perspectiva de poder haver outras daqui a muito pouco tempo (ou como dizia um votante, we are voting tf rthe next five years...or the next five days). Ainda vai ganhar o Raving Looney Party. God save the Kingdom.

domingo, abril 12, 2015

O digno enterro de Ricardo III, com cinco séculos de atraso.



Antes da festa da Ressurreição, um enterro definitivo. Depois da surpreendente descoberta no subsolo de um parque de estacionamento (onde outrora existira uma igreja), em Leicester, dos restos mortais de Ricardo III, último monarca da dinastia dos Plantagenetas, vilipendiado por Shakespeare na peça que leva o seu nome (e que daria máximas tão conhecidas como "Este é o Inverno do nosso descontentamento", que teria o seu aproveitamento político nos anos 1970, e "Um cavalo, um cavalo, o meu reino por um cavalo") como usurpador e autor moral do assassínio do seu sobrinho Henrique V, e por isso pouco popular na história de Inglaterra, comprovada por investigações científicas do seu ADN, teve lugar a cerimónia de colocação das suas ossadas no repouso definitivo  - a catedral de Leicester - e mais digno do que a anterior moradia. Certamente que terão mais sossego com uma certa recuperação da sua imagem e sem carros a passar por cima.
Cereja em cima do bolo, entre os dignatários, como o Arcebispo de Cantuária, encontrava-se o ubíquo Benedict Cumberbatch, longínquo parente do rei morto e que até já o representou na peça de Shakespeare. Na Catedral, e entre a solenidade respeitada por toda a audiência, o actor leu um poema que reconciliou a memória do Ricardo III anos com a Inglaterra. O rei morto há mais de 500 anos tão tristemente celebrizado por Shakespeare pôde assim repousar em paz depois de cinco séculos atormentados pela fraca tumba e por uma reputação destruída.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Apanhar com um helicóptero em cima


Mas o que se passa com os helicópteros na Grã-Bretanha? Em Janeiro, um destes aparelhos chocou contra uma grua usada para a construção de um arranha-céus em Vauxhall (do outro lado do rio fica a sede do MI-5, pelo que se pensou na hipótese de atentado), em plena Londres a dirigir-se para o trabalho, matou o ocupante e um transeunte e feriu mais umas quantas pessoas cá em baixo.

No fim de semana passado, um helicóptero da polícia desabou sobre um bar em Glasgow, junto ao rio Clyde, onde decorria um concerto de ska, e o telhado por sua vezes desabou sobre o público, matando os três ocupantes do aparelho, mais cinco pessoas no bar, e provocando dezenas de feridos (e no mesmo dia caiu um avião das linhas aéreas moçambicanas, vitimando todos os ocupantes, incluindo alguns portugueses).


Claro que os helicópteros não são imunes a acidentes, que acontecem facilmente quando se perde o seu controlo. Mas o que assusta mais aqui é ver a vida quotidiana, seja na ida para o trabalho, nas manhãs em que já apetece tão pouco, ou no lazer do fim de semana, interrompida brutalmente por acidentes imprevisíveis com máquinas infernais vindas do ar. Para além das vítimas, quem estava nos locais não ganhou para o susto e para o trauma.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Gibraltar ou os telhados de vidro espanhóis

 
A polémica internacional deste Verão é o regresso à questão de Gibraltar. Espanha decidiu apertar o controlo fronteiriço ao "rochedo" em resposta a uma barreira de blocos de cimento que impedirá a passagem dos barcos de pesca espanhóis. Agora, filas e filas de carros esperam para sair de Gibraltar. O Reino Unido já reagiu, e o habitual desbocado Boris Johnson, Mayor de Londres e possível futuro líder do Partido Conservador, atroou aos espanhóis um Hands out of our rock, com o seu peculiar estilo, através do Telegraph.
 
A verdade é que Gibraltar é uma zona franca, que domina a entrada do Mediterrâneo e ocupa uma posição estratégica de relevo (passe a piada com a altura do rochedo), como se verificou na Segunda Guerra. Não é muito cómodo para Espanha e para todos os que pretendem acabar com o colonialismo, uma vez que se trata de uma autêntica colónia. Mas nunca percebi esses ímpetos anti-colonialistas quando os próprios "colonizados" não pretendem mudar de situação. No caso particular de Gibraltar, tratou-se da cedência daquele espaço à Grã-Bretanha no culminar da Guerra da Sucessão de Espanha, (muito embora as pretensões espanholas tivessem vencido, com ascensão de Filipe de Anjou ao trono), a título perpétuo, excepto por vontade britânica, há precisamente trezentos anos. O Direito Internacional retira por isso qualquer fundamento a Espanha, e mesmo que nos anos sessenta (numa época em que muitos estados do Terceiro Mundo alcançaram a independência e dirigiam o seu voto contra os antigos colonizadores) a ONU tenha feito aprovar uma declaração sobre a necessidade de rever o estatuto de Gibraltar, o certo é que os locais decidiram, por um quase consenso, em conservar-se tal como estavam. Alguém se atreve a contrapor os princípios da contiguidade dos estados e do anti-colonialismo ao do primado do Direito e da autodeterminação?
 
Pelos vistos, Espanha atreve-se, como se fosse um país recente do Terceiro Mundo e não uma das maiores potências coloniais de sempre. Para mais, resolveu pedir a colaboração da Argentina, lembrando-se das pretensões de Buenos Aires sobre as ilhas Falklands, que estão numa posição semelhante à de Gibraltar (ou seja, a população local não tem a menor ideia de trocar a jurisdição de Londres pela da Argentina). Pena que não se tenha lembrado que os argentinos já fizeram uma manifestação de força que redundou em humilhação e derrota, levada a cabo pela sinistra ditadura militar, numa fuga para a frente de nacionalismo para ganhar popularidade. Em diferente situação, mas também a precisar de balões de oxigênio de popularidade como de pão para a boca. o Governo de Mariano Rajoy, escaldado pela caso Barcenas, precisa de uma pequena trica internacional. Não se lembrou que os argentinos acabaram da pior forma. Claro que ninguém está à espera de uma batalha naval, de uma invasão do rochedo pelos Tercios, nem por um novo Drake e destruir a armada espanhola. O que a Espanha pode ganhar é uma nota de rodapé de ridículo na história deste Verão, já que nada parece sustentar as suas pretensões, e muito menos o caso argentino. Para mais, têm telhado de vidro de sobra: Ceuta, ali em frente, e Melila, também são exigidos por Marrocos (já viram se os espanhóis controlassem ambas as portas do Mediterrâneo, Gibraltar e Ceuta?). E a isso ainda podíamos acrescentar o caso da "nossa" Olivença, onde ainda há réstias de língua portuguesa e que os tratados internacionais nunca atribuíram aos vizinhos. Problemas de sobra para quem exige um território como se fosse um pobre país explorado por todos. Até os mitos estão contra Espanha, neste caso: diz a tradição que Gibraltar, território onde coexistem espanhóis e ingleses, judeus e marroquinos, portugueses e genoveses, pertencerá à Grã-Bretanha enquanto houver macacos (os únicos da Europa em liberdade)  no rochedo. Se Espanha não estiver disposta a fazer um crime ambiental...
 
 

quinta-feira, abril 11, 2013

O adeus esperado de Thatcher

 
 
Os jornais dos últimos dias, como era esperado, deram destaque à morte de Margaret Thatcher (que também não surpreendeu, dado o estado de saúde era menos de ferro do que a Dama tinha sido). O desaparecimento de uma das figuras-chave dos anos oitenta, senão das últimas décadas, de um dos últimos grandes líderes europeus, não podia passar despercebida. Até porque, apesar de há já muito estar retirada do espaço público, nunca passou ao esquecimento. Todos os seus sucessores foram condicionados pelos seus anos de governo, e no ano passado voltou mesmo aos escaparates dos jornais com o filme-biopic que deu o Óscar de Melhor Actriz a Meryl Streep, na sua superior interpretação da Primeira-Ministra britânica.

Thatcher estava longe de ser das minhas figuras preferidas. Mas ser popular ou amada não lhe dizia nada. Até é crível que, pelo seu gosto pelo confronto, preferisse os apupos e às manifestações sindicais e da oposição trabalhista (liderada por Michael Foot, que estava tão à esquerda como ela estava à direita), sinal de que a sua política tinha sucesso. A uns ignorou, a outros venceu frequentemente nos Comuns. O choque ideológico, as discussões, a capacidade de comando estavam-lhe no sangue. Na cabeça, trazia as ideias de Hayek e uma vontade de gerir a Grã-Bretanha como uma mercearia, contra os "inimigos internos", sobretudo os sindicatos, que em fins dos anos setenta faziam o que queriam do país, levando-o à estagnação e à ruína. Thatcher aplicou as suas políticas de choque, a que podemos chamar com alguma propriedade de neoliberalismo, com resultados controversos: por um lado criou uma nova classe de pequenos empresários, fomentou o sector terciário, tornou a City londrina numa grande praça financeira; por outro arruinou a indústria e os sectores mineiros que fizeram a Revolução Industrial, com o crescimento do desemprego, da mendicidade e da criminalidade. Era popular no Sul e impopular no Norte e no Merseyside. Pelo meio afrontou a Europa e no caso das Malvinas impôs uma derrota humilhante à clique militar argentina, levando à sua queda.
 
Pode-se dizer que muito embora o Reino Unido precisasse de um valente tratamento ao estado em que estava em finais de setenta, Thatcher exagerou na dose. Libertou o país de uma doença para lhe trazer outras maleitas. Com isso, era admirada até à idolatria e odiada de morte. Mesmo agora, na sua partida, mais de vinte anos depois de deixar o poder, isso se nota: os defensores querem fazer-lhe um funeral de estado, apenas reservado à Família Real, mesmo contra a sua vontade expressa; os detractores festejaram e dançaram à notícia da sua morte, numa atitude reles mas ilustrativa (em Bristol, por exemplo, onde me recordo de ver, na primeira metade dos anos 90, inúmeros pedintes). Thatcher, líder convicta mas errática, incansável mas implacável, partiu, mas o seu simbolismo e o seu legado ficaram. Mesmo que esteja longe de ser positivo, reconheça-se que era uma figura carismática, com alguma grandeza, e que faz as actuais classes políticas da Europa parecer um bando de gnomos.
 

quinta-feira, agosto 02, 2012

A nova afirmação de Londres (com a sua Torre Eiffel)


Londres está em polvorosa. Depois do Jubileu de Isabel II, temos aí os Jogos Olímpicos, abertos com competência, criatividade, bom gosto. E, como em todos os grandes eventos, não faltaram as grandes infra-estruturas emblemáticas, que neste caso, não se ficaram pelos recintos desportivos.

Há poucas semanas ficou completa a London Bridge Tower, mais conhecida como de The Shard, um edifício-pirâmide de vidro com trezentos e dez metros nascido de um esboço de Renzo Piano. O novo arranha-céus, o mais alto do Reino Unido e da União Europeia, fica situado no centro da capital britânica e é mais um marco da Londres do século XXI a par do London Eye, da Tate Modern, do edifício Gherkin e da Millenium Bridge. Abrigará hotéis, restaurantes, escritórios e apartamentos, que a avaliar pelo preço serão provavelmente para conterrâneos do seu grande patrocinador. Como não podia deixar de ser, a fatia de leão dos custos foi assegurada por árabes, no caso, do Qatar.


A inauguração teve lugar a poucos dias da abertura dos Jogos, obviamente com esse propósito. A nova silhueta londrina, que dividiu opiniões, até por estar numa zona central da cidade, veio preencher ainda mais os festejos. Este tipo de afirmação a par de eventos grandiosos não é propriamente original. Em Portugal, por exemplo, a Expo-98 era ladeada pela Estação do Oriente e pela Torre Vasco da Gama. O Porto-Capital Europeia da Cultura pretendia inaugurar a Casa da Música (lamentavelmente isso só aconteceu em 2005).
Mas o exemplo que me ocorreu, até pela forma e pela altura do novo arranha-céus londrino, foi a da inauguração da Torre Eiffell, em 1889. A célebre estrutura metálica parisiense, que se tornou um ícone incontornável da cidade, era a porta de entrada e o símbolo da Exposição Universal de Paris, no ano em que se comemorava o centenário da Revolução Francesa. A época era dominada pela indústria pesada, pelo aço e pela dominação colonial, após a Conferência de Berlim de 1885. A França pretendia reafirmar-se como grande potência internacional, passada que estava a humilhação da guerra contra a Prússia, menos de vinte anos antes, e não hesitou em erguer um gigante de aço pelo seu mais competente engenheiro de pontes, responsável pela estrutura da Estátua da Liberdade e por várias pontes em Portugal, muitas ainda em uso.


A afirmação através de grandes construções e de eventos simbólicos e faraónicos é uma característica dos países que pretendem mostrar o seu estatuto ao Mundo, como vimos com a China há quatro anos, com o Terceiro Reich nos jogos de Berlim em 1936. Mas também podem ser uma forma de re-afirmação e manutenção de um certo estatuto, mostrando que ainda têm um papel internacional de relevo. Paris quis mostrar o quanto estava pujante, na cultura como no domínio da técnica, em 1889. O Reino Unido pretende fazer o mesmo, e a influência parisiense é mais que notória, como se a Shard quisesse ser a Torre Eiffel dos novos tempos, desafiando a velha construção de além-Mancha; aliás, um dos ícones destes Jogos é a Torre Olympic Orbit, uma estrutura metálica da autoria do conhecido artista Anish Kapoor, a fazer lembrar uma Torre Eiffel torta e desengonçada. Referência mais descarada não pode haver.


Não faço ideia se a Shard se vai tornar num ícone londrino, numa cidade que não tem falta deles. Mas pela altura e pela forma, é bem possível. Até porque será o miradouro por excelência da metrópole. Se o Reino Unido está muito longe de ser a grande potência que era até à Segunda Guerra (ou no papel, até à Crise do Suez), Londres pretende afirmar-se como a grande metrópole europeia e até mundial do Século XXI, enfrentando Nova York, Moscovo, Xangai e São Paulo. Está no bom caminho. Mas este novo símbolo de afirmação londrina não deixa de transparecer os sinais do tempo de novos actores da cena internacional: o patrocínio essencial dos fundos do Qatar, um dos novos Tigres Árabes que olham para além do petróleo.

quarta-feira, junho 06, 2012

Pompa, circunstância e popularidade



O Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II, comemorando os seus 60 anos de reinado, saldou-se numa colossal manifestação de apreço pela soberana. Ao longo de seis décadas desde que sucedeu a Jorge VI, a Rainha assistiu à queda do Império Britânico, à sucessão vertiginosa de acontecimentos, estadistas, modas, mudanças sociais, até a filmes sobre a sua pessoa. Mesmo em anos difíceis passou incólume sobre tudo. Hoje, a sua popularidade é inquestionável, e a Monarquia é uma instituição sólida e perene, sem a qual os britânicos nem saberiam o que fazer. Nas festividades do Jubileu, recebeu a homenagem da sua família, de artistas pop, e do povo, que acorreu de todas as partes da Commonwealth para a aplaudir, em massivas concentrações de multidão, juntando o marketing mais plastificado à pompa mais majestosa, que incluiu a maior regata dos últimos três séculos. Dificilmente algum outro país faria a mesma vénia a qualquer outro chefe de estado. Certamente que república alguma conseguiria sequer chegar perto.

quinta-feira, abril 05, 2012

A Dama de Ferro e o regresso da questão Falklands


O filme A Dama de Ferro, tentativa de biopic sobre Margareth Thatcher, ainda se exibe nalgumas salas de cinema. Consegui vê-lo já depois da esperada consagração da grande Meryl Streep na última sessão de Óscares. De facto, e tal como diziam inúmeras críticas, não é tanto uma "biografia filmada" mas mais um filme sobre a caminhada para o topo de uma self made woman, a posterior perda desse mesmo poder e a cruel comparação com a decadência física e mental de quem o assumiu. É um pouco também uma afirmação feminista.
 
Esperava esta obra há já alguns anos. A ideia se fazer um filme sobre Tatcher não era nova e já tinha bastante tempo. A de que o papel principal fosse interpretado por Streep também, e houve mesmo quem visse um ensaio em The Manchurian Candidate, de 2004, onde a podíamos encontrar como uma senadora fria e manipuladora (que no estilo, que não nas intenções, lembrava um pouco Thatcher).

Se a ideia era mostrar as fragilidade dos que em tempos assumiram um poder que parecia inexpugnável, então o resultado é satisfatório. Uma Thatcher de terceira idade, trôpega e semi-esquecida, atormentada pelo fantasma do marido Dennis, mas que ainda conserva parte da lucidez, necessária para as recordações de tempos idos e as comparações. Interessante, nesse ponto, para quem gosta do género da "biografia psicológica". Mas eu prefiro as clássicas, e nesse sentido senti-me um pouco defraudado pela insistência na "velha Thatcher", que aparece tantas vezes no filme como o restante percurso. Não que haja qualquer problema em construir uma biografia filmada com recurso a flashbacks e recordações, mas a insistência na senilidade da dama de Ferro, e sobretudo na obsessão com o marido torna-se cansativa.
Esperava, confesso, que o filme se debruçasse mais sobre a vida de Thatcher, em especial os anos oitenta. A política económica, que marcou o seu governo, quase nem aparece, assim como a crise social que se gerou (desemprego, hooliganismo, etc), e entre a Guerra das Malvinas e a saída provocada pelos adversários internos, ou seja, oito anos, limitam-se a colocar algumas fotografias e nada mais. E depois da demissão, passa-se directamente para o período da "Thatcher velha", num enorme salto sem que se perceba o que lhe aconteceu nos anos subsequentes aos seus governos. A minha semi-desilusão com o filme deve-se a esses saltos não explicados, às omissões graves e à escassa explicação dos factos. Para mim, uma verdadeira biografia não deve deixar buracos nem cenas que só lá estão porque sim (e que na realidade têm mais relevância do que aparentam). Preferiu-se enveredar pelos intrincados caminhos psicológicos do poder e da sua passagem. São opções...
 
Meryl Streep ganhou o Óscar pela sua interpretação da baronesa. Houve quem dissesse que era "o papel da sua vida", mas discordo, porque a maior parte das interpretações da actriz americana seriam a "da vida" de quase todos os actores de cinema. Este é soberbamente interpretado, de acordo, e mereceu o galardão, mas Streep já o merecia noutras ocasiões. Madison County, "I had a farm in Africa", só a título de exemplo.
 
É interessante verificar que o filme chegou aos cinemas em 2011 e 2012, e que precisamente por estes dias comemoram-se os trinta anos do início da Guerra das Malvinas, em Abril de 1982, um dos principais momentos de A Dama de Ferro (e no ano em que Streep recebia o primeiro Óscar de melhor actriz). Justamente, a Argentina, pela voz da presidente Cristina Kirchner, vem de novo reivindicá-las, com um discurso nacionalista e populista, apostando agora não na guerra militar mas na diplomática, apoiando-se nos vizinhos sul-americanos. O argumento é o da contiguidade territorial e a pouca distância das ilhas do continente sul-americano. Mas parecem esquecer-se do princípio da auto-determinação dos povos, e que a população das ilhas é exclusivamente composta por ingleses e escoceses que não têm a menor vontade de ficar sob domínio argentino.

É claro que Londres já respondeu que quanto à soberania das Malvinas/Falklands não havia qualquer conversa. Mas para além da onda de nacionalismo populista, Kirchner sabe que os mares a área à volta das ilhas escondem inúmeros recursos, incluindo petróleo e gás natural. As razões são mais compreensíveis do que em 1982, quando a junta militar, para fazer subir a sua popularidade, invadiu as ilhas, certas de que o Reino Unido não reagiria. Enganaram-se, e depois de semanas de combate, os britânicos afundaram o cruzador General Belgrano (as imagens constam do filme), cercaram as forças argentinas, na sua maioria compostas por soldados inexperientes, em contraste com os ingleses, habituados às emboscadas no Ulster, e forçaram-nas à rendição, hasteando de novo a Union Jack no território. A humilhação da derrota conduziu a grandes revoltas e à queda da junta, levando ao regresso da democracia no país das pampas. O grande jogo da Mão de Deus, no Mundial de 1986, entre os dois inimigos de 1982, tinha por isso uma carga política enorme.

Evidentemente que ninguém espera um confronto militar, nem Kirchner será tão obtusa e audaciosa como o ditador Galtieri, apesar de Londres estar a cortar nas despesas militares. Mas poderá ser um caso a seguir com interesse no futuro. Irónico é ver manifestações esquerdistas em Buenos Aires, queimando bandeiras britânicas em frente à embaixada, como se estivessem ao lado do brutal regime ditatorial e pró-fascista que então vigorava, durante o qual foram mortas e desapareceram milhares de pessoas, e que caiu precisamente graças à derrota militar. Nesse aspecto, os argentinos que não fossem apoiantes da ditadura deviam estar gratos à Dama de Ferro.


sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Tesouros inesperados


As histórias de descobertas de tesouros inesperados sempre me interessaram, pelo acaso da Fortuna poder estar ao virar da esquina, pela natureza dos objectos encontrados, e evidentemente, a parte glamourosa na novidade.
O famoso cozinheiro britânico Jamie Oliver encontrou na cave de um antigo banco que estava em obras de restauro para se transformar em restaurante, em Manchester, vários cofres, datados de 1935, com armas, jóias, dinheiro, e, mais importante, cassetes com gravações raras dos Joy Division e da sua metamorfose electrónica, os New Order. A descoberta levanta várias interrogações: a quem pertencem os bens ali guardados? Porque é que nunca os levantaram, quando o edifício mudou de funções? Qual a recompensa que caberá a Oliver? Os New Order farão ideia do material que ali estava? E a pergunta que mais pessoas farão, as cassetes estarão ainda em bom estado, de forma a que ainda se possa ouvir a voz de Ian Curtis em canções inéditas?
Nunca ninguém disse que um cozinheiro não podia ser editor de música.