Mostrando postagens com marcador Instituições. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Instituições. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

God Save the Queen



Poucos monarcas reinaram durante tanto tempo. A Rainha Vitória esticou de tal forma o seu reinado - quando a Grã-Bretanha era o maior império à face da Terra - que o tempo em que viveu e as regras sociais cunharam o seu nome. A sua trineta não teve anos tão esplendorosos. Vitória viu o Império crescer, Isabel II viu-o desaparecer e o Reino Unido perder a sua hegemonia, com simbolismo máximo no desastre do Suez. Ainda assim, agarrou ainda muito nova a coroa, com a morte de seu pai Jorge VI, depois de ter assistido à Segunda Guerra bem acima da sua cabeça e de conduzir ambulâncias, sem sair de Londres, devastada pelas bombas. viu, como se disse, o Império cair, mas a sua figura manteve-se como chefe de estado em muitas antigas colónias através da Commonwealth, prova do seu prestígio. Doze primeiros-ministros passaram por ela, começando em Sir Winston Churchill, passando por Eden, MacMillan, Wilson, Thatcher e Blair. Assistiu a todas as mudanças no mundo desde os anos cinquenta. Aguentou a decadência económica e militar britânica, o punk que fazia dela o bombo da festa, o thatcherismo que liquidou boa parte do que restava da Revolução Industrial, e o annus horribilis de 1992, que teria um prolongamento em 1997, com a morte da Princesa Diana. Passou por isso tudo e mantém-se como uma figura reverencial, uma espécie de mãe distante dos britânicos e dos povos da Commonwealth.


Isabel II tornou-se soberana há 60 anos. Faltam apenas três para suplantar a sua mítica antepassada. Mais antigo do que ela só Rama IX, da Tailândia. Durante esses sessenta anos, tem reinado com a dignidade a que está obrigada e a que as circunstâncias a obrigam. A sua figura inspirou mesmo um filme, The Queen, de Stephen Fears, e deu um Óscar de interpretação a Helen Mirren, que na cerimónia em que ganhou o prémio não deixou de a invocar e de a homenagear.
O reinado de Isabel I, um período de ascensão da Inglaterra, ficou conhecido como o período Isabelino. O de Vitória, outra época de apogeu britânico, como se disse, a época vitoriana. Não sei como ficarão conhecidos estes largos anos em que Isabel II reinou. Não foram anos brilhantes para o seu reino, agora chegado às Bodas de Diamante. Mas isso apesar dela, e nunca, nunca , por culpa de quem cumpriu o seu dever de forma irrepreensível. Pudessem os súbditos dizer o mesmo.
God Save the Queen.

terça-feira, junho 23, 2009

Outro S. João perdido

Esta noite, de 23 para 24, tem lugar um dos mais grandiosos e genuínos festejos populares: o S. João. O profeta do Jordão, primo de Jesus, que segundo as escrituras vestia-se de pele de camelo, comia gafanhotos e mel e foi supliciado sob os caprichos de Salomé, tornou-se um santo popular e "rapioqueiro", ao qual são dedicadas as mais brejeiras quadras. É em Braga, Vila do Conde, Gaia (menos a Afurada, que prefere S. Pedro) e principalmente no Porto, além de outras localidades, que o santo é mais festejado. Nem sequer é o padroeiro portuense oficial (lugares ocupados por Nossa Senhora da Vandoma e pelo quase anónimo S. Pantaleão), mas nem por isso deixa de ser o patrono de uma das noites mais longas do ano.

Pelo quarto ano consecutivo, e por razões diferentes, não vou poder ir ao santo do meu nome e da minha cidade. Mais uma vez adio as sardinhas, o convívio, o martelo de plástico com o seu som característico, o espectáculo dos balões de ar quente a salpicar o céu e os bailaricos de rua, que nos últimos tempos acabavam em Nevogilde. Ou a repetição da única vez que do muro da Ribeira vi o fogo de artifício da meia-noite, lançado da ponte e do rio, fazendo depois o percurso pedestre até à Foz (parando em todos os arraiais), onde já no Molhe se via sempre o dia a nascer. E nem terei enfim a oportunidade de ver como são as Fontainhas nesta noite mágica, com a cascata sanjoanina e a sua vista para o Douro. E tantas, tantas tradições que vêm de longe e se mantêm.

(Fotos tiradas do Cidade Surpreendente).

A quem puder ir, que se divirta o mais que puder e um bom S. João!

segunda-feira, março 03, 2008

Asquith e as instituições


Isso de ligações familiares tem muito que se lhe diga. Helena Bonham Carter, por exemplo, é bisneta de HH Asquith, Primeiro Ministro britânico durante oito anos, e que ocupava o cargo quando rebentou a 1ª Guerra Mundial.
O post de Pedro Mexia ajudou-me a recordar este político liberal inglês e uma máxima que deixou, e que descobri num livro que me ocupou durante o último verão. Trata-se dos Diários de Paris, do Embaixador Marcello Mathias (filho), onde relata a sua passagem pelo UNESCO entre 2001 e 2003, no seu último posto de Carreira. Não faltam considerações sobre pintura, literatura, história, alusões oportunas, o ponto da vista sobre os acontecimentos do dia-a-dia, a luta contra a doença e uns pós da vida de um diplomata perto da reforma. O livro acaba com as memórias da capital francesa no pós-guerra, quando o seu pai lá foi colocado como o primeiro embaixador português em França.
Mas a frase que me interessa é que vem ao caso. Teria Asquith dito que só havia três instituições eternas: a Câmara dos Lordes, a Academia Francesa e o Estado-Maior Prussiano. Não sei de quando data tão solene afirmação, mas é decerto anterior À 1ª Guerra Mundial.
Como se sabe, o Estado-Maior da Prússia (durante décadas uma inspiração para tantos oficiais, como Spínola) não sobreviveu muitos mais anos. Caiu em desuso depois do Grande Guerra, reemergiu como Wehrmacht sob os nazis, antes de desaparecer por completo com a própria designação Prússia e o seu território original, que numa reviravolta da história sobrou para os polacos e russos, separado do território alemão.
A Câmara dos Lordes também já teve outra importância. Perdeu de forma drástica o seu carácter hereditário e poderá também perder brevemente os seus poderes judiciais, como última instância de apelação de recursos. Ou seja, está longe da relevância que sem dúvida tinha nos tempos de Asquith.
A Academia Francesa, instituída pelo Cardeal Richelieu, permanece imutável, com uma breve interrupção durante a Revolução, mas que Bonaparte reabriu. Os seus membros, os Immortels, são vitalícios, são eleitos pelos mais velhos, ocupam cada um o seu Fauteill, devidamente numerado, e representam a nata da francofonia, em todas as áreas. Podem ser expulsos por motivos excepcionais, como o Marechal Pétain ou o integralista Chales Maurras, o que é raro acontecer. Apenas uma grande alteração nas últimas décadas: a primeira eleição de uma mulher como para a imortal galeria, no caso Marguerite Yourcenar.
O irónico disto é que a "revolucionária" França, o país menos referido quando toca a instituições centenárias, ao contrário do que acontece com a Grã-Bretanha, é que soube conservar o seu símbolo institucional mais antigo, ao passo que outros as viram desaparecer ou perder o peso e a importância tradicionais. Um caso a ser avaliado com mais atenção pelo Centro de Estudos Políticos da UCP.
Mas numa nação de tão grandes paradoxos como é o hexágono, acaba por fazer algum sentido.