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sexta-feira, maio 17, 2019
Festivais, petições e artistas parvos
Ao contrário do que se chegou a vaticinar por algum público prematuramente eufórico e por alguns músicos demasiado convencidos do seu poder intuitivo, Conan Osíris ficou pelo caminho na sua primeira actuação no festival da Eurovisão, em Telavive, e nem à final vai. Não era difícil imaginar que aqueles requebros com uma música que não destoaria dos saudosos Cebola Mol só por delírio poderia ganhar o certame, por muito freak que o espectáculo se tenha tornado (vide a vencedora do ano passado). Além de que os israelitas desconfiam dos egípcios, pelo que um concorrente com o nome "Osíris" não teria muitas facilidades. Mas passado o infortúnio (ou a salvação da honra da pátria, não sei), lembrei-me de um episódio recente que data da escolha do representante português no festival.


Em carta aberta, quarenta "artistas portugueses" pediram a Conan Osíris que não fosse actuar em Israel porque isso seria "ignorar o cerco ilegal que Israel mantém em Gaza". Pelo meio, falavam de como Osiris "conseguiu deslumbrar Portugal com a sua música e honestidade".
Não sei o que é que era mais delirante na carta: se acharem que a música do vencedor do festival da canção "deslumbrou Portugal", se toda a inflamação contra Israel. Entre os subscritores encontrava-se um ou outro nome mais respeitável, como Afonso Cruz ou Pedro Lamares, que dificilmente se percebe o que faziam ali, mas outros, como Alexandra Lucas Coelho, eram tão previsíveis que só de se ler o conteúdo da missiva se imagina que tais pessoas tinham alguma coisa a ver com aquilo.
Não que o estado de Israel não tenha as suas responsabilidades na desgraça que é Gaza. Já não estamos exactamente nos anos cinquenta para referir sempre as ameaças externas ao estado judaico. O Egipto e a Jordânia têm relações diplomáticas com Israel, e a Síria tem bem mais com que se preocupar internamente. A norte, é certo, há sempre as preocupações com o Hezbollah, amparado pelo Irão, e também de Gaza constantemente voam rockets para território israelita. A política de colonatos, que serve sobretudo para atender ao crescente número de ortodoxos, não ajuda a apaziguar a situação. E a forma como muitas vezes os soldados tratam os palestinianos de Gaza, da Cisjordânia, a começar pela circulação entre territórios, não é digna de um país de cultura ocidental. A reeleição do oportunista e revisionista Bibi Netanyahu, que parece ter mais vidas que um Macabeu, entre acusações de corrupção, aliados desavindos e coligações adversárias potencialmente perigosas, agrava ainda mais as coisas.
O problema é que se Israel abusa da sua posição de força, os povos que os rodeiam conseguem fazer pior. Os palestinianos não têm grandes razões para elogiar o Hamas e a Fattah. Justamente há dias voltaram a lançar rockets contra povoações israelitas, provocando vítimas (a que as forças armadas de Israel responderam com ainda mais vítimas). E convém lembrar que entre 1948 e 1967 os judeus foram todos expulsos da Cidade Velha de Jerusalém e não se podiam aproximar sequer do Muro do Templo, o seu lugar mais sagrado. Os muçulmanos continuam a poder circular por toda a parte e não consta que a Cúpula do Rochedo e a Mesquita Al Aqsa lhes tenham sido vedadas.
Por isso, toda essa verborreia contra o festival em Israel não passou de um aproveitamento político mal disfarçado. Aliás, já antes um conjunto de associações tinha feito igual pedido, e entre elas figurava o patusco colectivo Panteras Rosa, um grupo que combate a "LesBigay transfobia", e que provavelmente ignora que Israel é o único país da zona que respeita os direitos LGBT (sim, há mesmo uma parada gay anual em Jerusalém). Mas tendo em conta que o porta-voz desse grupo é um dos 25 que abandonou recentemente o Bloco de Esquerda por considerá-lo "pouco radical", percebe-se um pouco melhor esta aparente esquizofrenia.
Pelo meio, uma voz um pouco mais conhecida e com uma velha e conhecida obsessão por Israel tinha entrado em cena: a de Roger Waters. O antigo Pink Floyd e autor de The Wall enviou uma carta ao "jovem e talentoso cantor português", cuja canção traduziu e achou "bastante profunda", pedindo-lhe para ser "o finalista que seria lembrado por se ter colocado do lado certo da história", o do "amor, paz verdadeira e justiça". Como se sabe, Osíris nem sequer chegou à final, pondo em causa a carreira de áugure de Waters, mas também lhe deu uma resposta evasiva, depois de dias sem lhe responder.
A verdade é que as escolhas políticas de Roger Waters são muito duvidosas. Por essa altura, reafirmou o seu entusiástico apoio ao regime da Venezuela, acusando a oposição de fazer parte da "agressão norte-americana, e surgiu num vídeo, elogiando "a experiência socialista bolivariana", com umas palavrinhas em espanhol, decerto para melhor demonstrar a sua fraternidade com Maduro, e uma guitarrada medíocre, terminando com um "viva la revolucion". E de onde falou, o intrépido artista? Da Suíça, esse farol de rebeldes e de defensores dos desvalidos. Apoiar o bolivarianismo sim, mas só nos intervalos dos desportos de Inverno, entre idas ao banco para inspecionar as contas que aumentaram com a venda de dezenas de milhões de discos e digressões ciclópicas.
Lembrei-me que aqui há uns anos estive tentado a ir ver o concerto The Wall Live ao pavilhão Atlântico. Mas depois achei que o custo não vali o esforço e que aquilo era demasiado maçador. Depois de ouvir as opiniões políticas de Waters, e mesmo fazendo a destrinça entre o artista e a sua obra, concluo que foram os trinta euros (só do concerto) mais bem poupados da minha vida.
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quarta-feira, março 27, 2019
Acre, cobiçada por todos, pertencente a muitos
Não sendo imune ao chamamento das grandes metrópoles, tenho uma particular atracção pelas cidades médias ou pequenas, que tantas vezes fogem ao roteiro dos guias turísticos e às campanhas das agências e das companhias aéreas. E sobretudo as que têm uma amálgama de influências culturais diversas e uma historia respeitável.
Acre cumpre totalmente esses requisitos. Está ali na ponta da baía de Haifa, com essa cidade portuária do outro lado, dominada pelo monte Carmelo, e o Líbano a poucos quilómetros a norte. Vem de tempos imemoriais, e desde a Antiguidade que é um dos principais portos do Levante. Por ela passaram fenícios, persas, egípcios, judeus, gregos, macedónios, romanos, bizantinos, árabes, cruzados europeus, turcos, ingleses e de novo judeus. Sofreu inúmeros cercos e conquistas. O mais famoso terá sido o de 1291, quando era o último bastião do Reino Latino de Jerusalém, e caiu nas mãos dos mamelucos egípcios. Os vestígios cruzados nunca desapareceram totalmente, mas a arquitectura e a configuração da cidade alteraram-se bastante com os seus novos ocupantes, e sobretudo com os turcos, que se lhes seguiram. Napoleão também tentou apoderar-se daquele ponto estratégico, no seguimento da campanha no Egipto, mas o seu cerco não surtiu efeito e os otomanos resistiram. Acre passaria ainda para as mãos dos ingleses, no decorrer da Grande Guerra, que a mantiveram durante o Mandato Britânico da Palestina, e estava incluída no território palestiniano projectado com a divisão do território planeada pela ONU, mas o primeiro conflito entre os países árabes e o novo estado de Israel determinaria que ficasse no território deste.
A cidade novo de Acre, moderna e sem graça, é habitada por judeus. Ultrapassada a primeira cintura de muralhas, já do tempo dos turcos, entra-se numa cidade quase exclusivamente árabe e turca. Mas os vestígios do passado pré-muçulmano estão lá. A antiga cidadela dos Hospitalários impõe-se e recebe os visitantes no seu comprido refeitório, nas suas torres e na praça de armas desta ordem que depois de andar séculos entre ilhas do Mediterrâneo com a "casa às costas, converteu-se na actual Ordem de Malta. O edifício serviu já no século XX de prisão de rebeldes judeus que combatiam o Mandato Britânico da Palestina.
A partir daí começa a cidade árabe, com a esplendorosa mesquita turca El Jazzar, e segue-se o miolo urbano formado por ruelas serpenteantes que se desdobram em mais ruelas, num labirinto interminável e algo espantoso numa cidade de dimensão reduzida. Ao contrário do resto do país, as placas estão quase todas em árabe, não em hebreu, nem são bilingues. Sucedem-se pequenos souks ou lojas de rua. Mas mais uma vez a herança cruzada (já) não está totalmente escondida. Nos anos noventa, um banal problema de terrenos levou à descoberta de um túnel subterrâneo, com centenas de metros de extensão, pertencente aos antigos templários, que se acolhiam do lado ocidental da cidade, quase junto ao mar. O túnel começa precisamente junto às muralhas já a tocar na água e desemboca num dos muitos becos do centro. Nalgumas extensões não ultrapassa o metro e meio de altura e naturalmente a humidade invade-o. Nas paredes de blocos graníticos, e entre os arcos de ligação, podem-se ver algumas explicações gráficas da obra, enquanto uma gravação nos tenta explicar os contornos daquela construção. Hélas, está em hebraico e os esforços são inúteis. Mas imagina-se o afã dos cavaleiros do Templo em tempo de cerco.
Pelo bairro, pelas muralhas batidas pelas ondas, no pequeno ancoradouro, outros nomes trazem-nos as memórias de antigos detentores do burgo: praça dos genoveses, praça dos venezianos, bairro dos templários, porto pisano, etc. Os baluartes defensivos são já quase todos do tempo dos turcos, mas pode-se imaginar, até em pequenos troços do seu tempo, os cruzados a defender tenazmente o último bastião do condenado Reino Latino. Será mais fácil pensar que aqueles mesmos muros resistiram às tentativas inúteis de Bonaparte de tomar a cidade. Os canhões que ainda lá estão decerto testemunharam este episódio. Agora são testemunhas de um belíssimo pôr-do-sol, com a silhueta de Haifa do outro lado da baía.
Se os templos são quase todos muçulmanos, avista-se também uma ou outra igreja, como a maronita encostada à muralha. E além da arquitectura militar e religiosa, há outros edifícios notáveis, como o Khan al-Umdan, o único caravançarai em território israelita que se pode arrogar desse título, uma construção imensa com um amplo terreiro rodeado de arcos, e rematada por uma torre do relógio, que domina a vizinha Praça dos Venezianos. Diz-nos a sempre prestável Wikipedia que neste edifício é que Bahá 'u`lláh, refugiado da Pérsia, começou a divulgar as suas ideias religiosas numa escola para o efeito, começando aí a pregação da fé Bahai, cujos principais templos podem ser encontrados à volta de Acre e sobretudo em Haifa. Nas redondezas há ainda os banhos turcos e a Khan al Sawarda, uma praça mercantil rectangular com uma curiosa fonte no meio, de arquitectura indiscutivelmente otomana. Tudo isto a dois passos do porto, outrora comercial e de guerra, hoje mais ligado à pesca e ao turismo, a única parte que não está rodeada de muralhas. Acre, a antiga cidade dos cruzados que pertence a Israel mas que permanece árabe/turca; a comprová-lo, a voz do muezzin ouve-se nos altifalantes das mesquitas ao fim da tarde e ecoa sobre todas aquelas memórias.
Nota: talvez o muezzin fosse novo, já que ocorreu há pouco tempo uma curiosa história: o responsável pelo chamamento dos fieis da mesquita El-Jazzar era reconhecido como tendo uma voz "que nem em Meca se encontrava uma tão bela". Mas dedicava-se também à musculação e ao bodybuilding, e tinha até representado Israel em competições internacionais da modalidade. Ora o responsável ministerial pelos assuntos religiosos considerou que tal prática não era compatível com a de muezzin, até pela exposição pública com pouca roupa, e determinou a sua demissão do posto. A decisão despoletou vários protestos entre os muçulmanos de Acre, que consideraram que as duas coisas não eram incompatíveis, e que pediam ao menos uma segunda oportunidade, mas tudo leva a crer que será em vão. Resta ao inconformado ex-muezzin dedicar-se agora em exclusivo ao seu próprio ginásio.
terça-feira, maio 15, 2018
Isto era mas é tudo para "branquear"
Sem querer passar por áugure, a fraca votação da canção portuguesa do Eurofestival da Canção não era propriamente imprevisível. Quem achou que tinha alguma hipótese de ganhar que se acuse. Porque para isso, em primeiro lugar, seria bom saber cantar. A música nem era má de todo - não era pior do que muitas das que se apresentaram a concurso, incluindo a vencedora, a que Salvador Sobral se referiu sabiamente como sendo "horrível" - mas a interpretação, com miados e sem conseguir chegar ao fim das notas, era sofrível.

Mas escapam-me os critérios para apurar os vencedores: em primeiro lugar ficou uma canção pop cantada em inglês, de uma israelita gordinha vestida de gueixa (deve ser por isso que estavam sempre a falar de "diversidade"), que parece que versava sobre a igualdade das mulheres, e os direitos sociais, e em segundo uma cantiga fogosa (tanto que o título era Fuego), de uma cipriota com silhueta agradável e uma coreografia a tentar passar por uma Shakira do Levante, talvez por ser proveniente da "Ilha de Afrodite". Fosse eu a decidir e ficavam mais cá para o fim, ao contrário das músicas candidatas de Itália, Áustria ou Letónia, mas como sou um leigo na matéria tenho de me render às evidências. Não há como uma vitória portuguesa para nos dar algum interesse pelo evento.
Entretanto, e como o Luís já recordou, alguns "activistas", entre os quais o sempre pronto Bloco de Esquerda, encetaram uma campanha de boicote à música de Israel, porque esta, apesar de apelar a valores que à partida seriam caros aos bloquistas, era "uma forma de branquear a opressão do povo palestiniano e a acção terrorista de Israel a nível internacional". Para além disso, consta que a autora esteve na marinha israelita (previsivelmente no tempo obrigatório de serviço das forças armadas israelitas), cuja missão parece que é "manter a Faixa de Gaza sob um bloqueio cerrado, manter o porto de Gaza bem fechado, manter a economia de Gaza totalmente paralisada e a população à beira do desastre humanitário total". Pior: a cantora entretinha os marinheiros com as suas músicas (o que já de si é um indício à notória cultura patriarcal e machista), em especial de um barco que anos mais tarde dispararia sobre palestinianos em Gaza, o que a torna cúmplice, por conhecimento prévio, desses crimes futuros.
A música, como se sabe, ganhou com os votos do público, indiferente à vileza da cantora, ao branqueamento dos crimes de Israel e aos sábios avisos dos pupilos de Catarina Martins (perdão, pupilxs, que como se sabe ali não há diferenças de género). Felizmente que se tratava do Bloco, feroz adversário de todos os preconceitos e fobias, senão poder-se-ia pensar que se tratava de puro anti-semitismo. Nunca a amálgama dos movimentos que em tempos aclamavam Mao, a Albânia e Trostky, esse judeu, poderia ser anti-semita.
O problema é que a vitória de Israel no eurofestival dá-se numa altura em que o país atacou posições iranianas em plena Síria e nas vésperas de completar setenta anos. Teme-se que o entusiasmo e os festejos provoquem mais fogo de artifício que transborde de novo para lá da fronteira com a Síria. E Benjamin Netanyahu, como já se percebeu, é um grande apreciador deste tipo de fogo de artifício.
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sábado, junho 17, 2017
Seis Dias que abalaram o Médio Oriente
Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.
Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, que arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscada, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.


A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.
A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel conseguia o velho sonho de se apoderar de toda a Jerusalém, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes superiores em número e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia permanecem na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.

A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes superiores em número e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia permanecem na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.
quinta-feira, setembro 29, 2016
Shimon Peres 1923 - 2016

Morreu Shimon Peres. Era o último grande sobrevivente da geração nascida na Europa que fundou o Estado de Israel, que o construiu e defendeu desde o início (teve logo responsabilidades na guerra de 1948), e que ainda estava ligada à imagem romântica da terra prometida de refugiados e sobreviventes que resistiam a todos os seus invasores. Exerceu os mais altos cargos da nação, e tendo dedicado uma vida inteira ao seu país, sendo um homem de combate, também o soube ser da paz. Negociou arduamente a pacificação com os palestinianos, tendo recebido o Nobel da Paz pelo seu trabalho nos Acordos de Oslo. Só saiu da presidência do país com mais de 90 anos. A última imagem que me recordo dele é a de plantar uma oliveira em Roma com o Papa Francisco, o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, e o Patriarca de Constantinopla. Poderá ficar como um símbolo dos seus esforços para a paz. No seu lugar ficaram os Netanyahu, os fanáticos nacionalistas ou ortodoxos e uma classe política incapaz sequer de lhe chegar aos calcanhares.
quinta-feira, junho 12, 2014
Passos para a paz
A oração conjunta entre Shimon Perez, Mamouhd Abbas e o Papa, que promoveu o encontro no Vaticano, não irá certamente trazer por si só a paz entre israelitas e palestinianos, nem acabar com todos os fanatismos da região. Mas é um exemplo de que líderes de povos desavindos se podem sentar lado a lado, orar em conjunto e até plantar as mesmas árvores - no caso, uma oliveira, símbolo da paz e da cultura mediterrânica que é comum nos participantes. A paz não se constrói de uma assentada, com decretos de aplicação imediata ou sob um punho de ferro, mas através de passos firmes, de gestos e de cedências, contrariando a irredutibilidade dos fanáticos. Era isso que Sua Santidade queria demonstrar com este encontro em Roma. É isso que doravante terão de continuar a fazer, para promover dois estados, lado a lado, com bases sólidas para que não sejam minados por todos aqueles que jamais querem perceber o outro lado.
sábado, abril 05, 2014
E um pouco mais abaixo, em Israel
Israel é um país sob críticas constantes. Algumas são justas e oportunas, sobretudo quando mais um colonato ocupa irregularmente uma terra pertencente a palestinianos. Outras são claramente abusivas e até aberrantes, como quando dizem que Israel tem "um regime nazi"(ou mais patético ainda, um regime "nazi-sionista"). Não haverá nenhum país nas proximidades de que se possa dizer da mesma forma que é um estado de direito.
Recentemente tivemos mais uma prova disso: o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert começou a semana condenado por um caso que remetia ao tempo em que presidia à câmara de Jerusalém, por um suborno que recebeu para dar luz verde a um enorme complexo residencial e que se tornou num dos maiores escândalos de corrupção no país. E o mais provável é que Olmert, que governou o país durante três anos depois do AVC do recentemente desaparecido Ariel Sharon e que enfrentou a crise do Líbano em 2006, dê mesmo entrada na prisão.
Mas já não é a primeira vez que uma alta figura de estado ouve uma sentença condenatória em Israel: em 2011 o ex-presidente Moshe Katsav (que protagonizou alguns segundos históricos ao falar com o então presidente iraniano, Kathami, no funeral do Papa João Paulo II) foi condenado em todas as instâncias a pena de prisão por violação. Registe-se que as primeiras acusações ainda vinham do tempo em que estava na presidência.
Pergunto-me se em países vizinhos poderia acontecer algo de semelhante. Houve o caso de Mubarak, claro, e agora o de Morsi, no Egipto, mas ambos resultaram da alteração da situação política por meio de revoluções ou golpes de estado, e não de um processo judicial apolítico que ninguém imagina que pudesse acontecer sem o seu derrube do poder. A maior parte dos dirigentes políticos do Médio Oriente tem uma condição financeira algo difícil de atingir com simples remunerações. A Arafat nunca se questionou a enorme fortuna que acumulou, na Síria o clã Assad tem um histórico de violação dos direitos humanos que veio até aos nossos dias. E mesmo na Turquia o primeiro-ministro Erdogan tem torpedeado os fortes indícios de nepotismo que se têm acumulado.
Por isso, a conversa de que Israel é "um estado ditatorial" deveria evaporar-se sempre que se apontar a incomparável diferença com que a justiça actua num e noutros países. Mesmo assim, haverá sempre obstinados que se recusam a olhar para isso e que, organicamente politizados, porão sempre em causa as evidências e dirão que se trata de "propaganda sionista".
sábado, março 30, 2013
Os trabalhistas na confusão eleitoral israelita
Israel ficou novamente perante o enorme quebra-cabeças de formar um governo, depois de novas eleições, em Janeiro, confirmarem uma enorme polarização dos votos em inúmeras formações populistas, centristas, e ortodoxos. Os tradicionais partidos que se revezaram a partir de certa altura no poder têm de se confrontar com novos adversários que lhes aliciam o eleitorado, e vêem-se obrigados a fazer concessões à esquerda e à direita, aos seculares e aos religiosos. O sistema eleitoral, muito proporcional, não ajuda.
Porém, e ao contrário do que vinha sendo observado nas votações mais recentes, os eleitores não se viraram tanto para as formações de direita e ortodoxas, à excepção do Casa Judaica, novo movimento criado sobre as cinzas do Partido Nacional-Religioso. O Likud de Benjamin Netanyahu falhou a tentativa de solidificar-se o poder e perdeu votos para todos. O único partido que teve uma sangria eleitoral superior foi o Kadima de Shaul Mofaz, que há poucos anos governou Israel, mas que com a saída de Tzipi Livni para formar o Hatnuah (depois de uma humilhante derrota interna), recuou para níveis quase irrelevantes, com apenas dois lugares no Knesset. Quem apanhou os votos directos do Likud e do Kadima foram o supracitado Hatnuah, o esquerdista Meretz e principalmente o novo partido centrista "da classe média" liderado pelo mediático jornalista Yaïr Lapid, que apareceu como um furacão e ficou em segundo lugar. E com toda esta dispersão de votos, Netanyahu viu-se obrigado a formar um governo altamente instável, com cinco partidos, composto por membros do Likud, ultra-ortodoxos e centristas seculares, entre os quais Lapid e Livni.
No meio disto tudo, o histórico Partido Trabalhista recuperou um pouco das sucessivas tareias eleitorais que vinha levando nas votações anteriores. Com a saída, aos poucos, de líderes carismáticos como Shimon Peres, Barak ou Amir Peretz, o esboroamento do eleitorado tradicional (que escolhe partidos mais recentes) e o crescimento do números de judeus ultra-ortodoxos, e ainda com a incapacidade demonstrada em levar a cabo o processo de paz com os palestinianos, o velho Avoda, ou Labor, tornou-se dispensável e secundário. No entanto, este partido, anteriormente com o nome de Mapai, tem um enormíssimo peso histórico: governou Israel desde a sua fundação até aos anos setenta, e teve como líderes Ben Gurion (que declarou a independência de Israel em 1948) e Golda Meir.
Após a independência e a invasão árabe que se lhe seguiu, Israel teve as suas primeiras eleições legislativas. O Mapai ganhou-as, deixando em segundo lugar o Mapam, de tendência mais marxista. Os israelitas estavam na altura firmemente virados à esquerda. A maioria vivia em Kibbutzim, comunidades em que o colectivismo (voluntário e cooperativo) era levado quase ao extremo. Todos trabalhavam na agricultura e pesca, à cabeça, e noutros ofícios. As ferramentas eram comunitárias, assim como quase todos os bens, e até mesmo o nome das crianças que nasciam era por vezes decidido pelos membros do kibbutz, e não apenas pelos pais. E chegado o tempo de combater, todos, homens e mulheres, pegavam em armas para defender o Estado de Israel (ainda hoje todos, independentemente do sexo, têm de cumprir o serviço militar), lembrando as provações por que tinham passado. Com esse espírito radicalmente comunitário e de pertença à terra, o exíguo estado judaico conseguiu assim defender-se de inimigos à partida mais fortes, embora os seus comandantes militares e a tecnologia de guerra também ajudassem.
O Mapai era o principal impulsionador da política de kibbutz. O próprio Ben Gurion, assim como a maioria dos governantes israelitas, vivia num. A URSS chegou a apoiar Israel nos primeiros anos, na esperança de ali encontrar um estado soviético no medio Oriente e um aliado. Quando percebeu que a sua natureza era diferente, resolveu apoiar o Egipto, onde Nasser assumira o poder, e desde então o grosso dos estados e dos movimentos comunistas a mando da URSS tornou-se virulentamente anti-israelita. Outra das bandeiras do partido eram os serviços públicos, como a saúde e os transportes.
Nos anos sessenta, sofrendo de algum desgaste, o Mapai agregou alguns pequenos partidos de esquerda e tomou o nome de de Partido Trabalhista, mas nos anos setenta veria o seu principal adversário, o conservador e revisionista Likud-Herut, de Begin, chegar pela primeira vez ao poder. Pior que isso: seria Begin a assinar pela primeira vez um tratado de paz com um país árabe, o Egipto de Sadat. Durante 15 anos, o Likud permaneceu no governo e só em 1992 os trabalhistas conseguiriam afastá-los, com Yitzhak Rabin. Este assinaria os acordos de Oslo com Arafat, mas em 1995 acabaria assassinado numa manifestação pela paz, e pouco depois, sem que fosse previsível, o Likud, agora com Ariel Sharon, voltaria ao poder. Em fins dos anos noventa, os trabalhistas chefiaram pela última vez um governo. A partir daí, e com a sangria de quadros dirigentes, seria o declínio do partido. A sociedade dos kibbutzim era bem mais exígua do que nas origens do estado de Israel, as ambições dos israelitas eram outras, o número de ultra-ortodoxos, pouco receptivos às ideias dos trabalhistas, cresceu enormemente, e outras formações de esquerda e de centro levaram-lhe dirigentes e eleitorado e ocuparam em boa parte o seu lugar.
Agora, o Partido Trabalhista tem à sua frente um jornalista feminista, que conseguiu uma pequena inversão na tendência de queda. Mas para fazer frente aos novos movimentos de centro, parece insuficiente. O histórico movimento que representou o sionismo socialista deu um enorme contributo a Israel, começando na sua formação e continuando na sua defesa, mas parece não passar de uma instituição discreta e inofensiva nos dias que correm. Conserva algum peso histórico mas não diz muito às aspirações dos israelitas (que são aliás muito contraditórias, entalados entre seculares e religiosos, pacifistas e irredentistas). Provavelmente, com a sua romântica memória dos agricultores-soldados que se entregavam ao colectivismo dos kibbutzim e defendiam o estado tão arduamente conquistado com unhas e dentes, permaneceu algures no século XX.
segunda-feira, novembro 05, 2012
Uma mentira pouco notada
Uma das polémicas periféricas e condenada a ser esquecida numa questão de dias é a das declarações do Embaixador de Israel, Ehud Gol, na Gulbenkian, esta semana. O diplomata israelita disse que "Portugal tem uma nódoa que os judeus não esquecem", mesmo que "hoje não seja o mesmo do passado". E em que consiste principalmente essa nódoa? Na história de que " Portugal foi o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias", quando soube da morte de Adolf Hitler". E sublinho "história" porque de facto não corresponde à verdade. Sim, é certo que o governo português ordenou que se pusesse a bandeira a meia-haste quando se soube do morte/suicídio do Fuhrer, como aliás manda o protocolo em relação a todos os países com quem se mantém relações diplomáticas. Mas esteve longe de ser o único. Recordando o sempre oportuno Herdeiro de Aécio (que está de parabéns, por chegar ao sétimo aniversário), constata-se que as bandeiras a meia-haste não foram içadas apenas em território português: também a Espanha (neutral mas pró-eixo), a Irlanda, a Suécia e a Suíça o fizeram, e Éamon De Valera, o chefe de governo irlandês (Taioseach) e um dos fundadores da República da Irlanda, visitou mesmo a legação alemã e assinou o livro de condolências.
Talvez fosse conveniente ao representante hebraico não enveredar por mitos históricos antes de fazer quaisquer críticas ao país onde apresentou credenciais. Além de deselegante e petulante, não lhe fica nada bem dizer mentiras em público, mesmo que poucos o soubessem. Até porque falando em nódoas, não há nação que não as tenha, e Israel não escapa à regra.
domingo, junho 06, 2010
A invocação civilizacional levada ao extremo
As notícias foram tantas que acabei por não ficar com uma opinião sólida sobre o caso do navio apresado pelas forças navais de Israel. Ou por outra, fiquei com a mesma: nesta questão não se pode ficar completamente de um lado. O navio era mais que suspeito, transportava armas e os soldados israelitas foram atacados por um bando de "activistas dos direitos humanos" também eles armados. O activismo a favor de Gaza é uma uma coisa muito estranha, porque parece contrariar os seus propósitos pacíficos. E todos sabem quem manda em Gaza e quem distribui a ajuda humanitária que lá chega.
Por outro lado, Israel normalmente reage sempre à bruta, matando dez por cada ferido do seu lado, lançando uma expedição ofensiva à sobrelotada faixa por cada rocket que cai no quintal de um colonato. Os resultados são pior emenda que o soneto. E com Netanyahu no poder, em coligação com os ultra-sionistas de origem russa, a coisa tende a piorar. Mas o que me faz mais espécie é que os defensores de toda e qualquer acção israelita invocam amiude que Israel, na sua luta contra vizinhos e árabes que os querem empurrar para o mar, está a "defender a civilização ocidental das hordas bárbaras dos sarracenos". Até certo ponto é verdade. Mas o argumento de "defensor da civilização ocidental" torna-se perigoso se levado ao extremo. A civilização que cresceu entre a Europa e os Estados Unidos, inspirada na antiguidade greco-romana, no Cristianismo e no Iluminismo é com certeza superior às outras pelos valores que defende, pelos ideais que inspirou e pelas vias que escolhe. Mas convém não exagerar na sua defesa a todo o custo: bem vimos os desmandos no Iraque sob esse argumento. Podemos também falar das Guerras Mundiais e de alguns exemplos miseráveis do colonialismo, como a destruição das sociedades pré-colombianas pelos espanhóis, ou a forma como os belgas dominaram o Congo. E recordar que também os nazis, ao invadir a URSS, diziam defender "a civilização ocidental" contra "as hordas mongólicas comunistas". Por isso, defendam-se os valores do Ocidente, mas não de uma forma sine qua non. Até porque o fanatismo acaba por ser a negação desses mesmos valores.
terça-feira, novembro 17, 2009
The Israel Sketchbook

No festival da BD da Amadora tive também oportunidade de conhecer uma obra tão interessante quanto recente, acabada de lançar. Ricardo Cabral, desenhador de BD, viajou por Israel em 2007, e montando base em Tel Aviv, partiu para o resto do país, percorrendo-o do Mar Morto a Eilat, passando por Jerusalém, o Neguev e Gaza (só ficou mesmo a faltar Haifa). Registou cada cidade ou cenário digno de nota, através de desenhos nos vários moleskines que levou consigo. Os mais impressivos são sem dúvida as do Mar Morto, pela alucinante paisagem de um vale de sal, água e rocha, e de Jerusalém, a Cidade Santa, sobretudo o friso onde se misturam soldados a cavaquear, turistas de mochilas e máquinas fotográficas a tiracolo, vendedores ambulantes árabes e frades de mais do que uma ordem. Todo esse trabalho ficou registado no álbum The Israel Sketchbook, obra de grafismo interessante e realista, num percurso que permite ir conhecendo o país do litoral para o interior, e das cidades para o deserto. Uma boa surpresa. O legado dos mestres da BD portuguesa está assegurado.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
10 de Fevereiro, comemoração do radicalismo?
10 de Fevereiro pode bem ficar como uma data funesta para o Médio Oriente. Há trinta anos, consumava-se a Revolução Iraniana. Contrariamente às revoluções clássicas, materialistas, a reacção ao regime autoritário do Xá Reza Phalavi, resguardado pela tenebrosa Savak e querendo modernizar à força o país, com gastos sumptuosos pelo meio (a comemoração dos 2500 anos do Império em Persépolis, por exemplo), foi conduzida pelo clero e deu origem a uma sociedade teocrática, uma república controlada pelos religiosos e submetida aos ditames do Islão Xiita, em que os vícios eram e são severamente reprimidos e as mulheres adquiriram um papel submisso. A situação ficou um pouco mais suave depois da morte de Khomeiny, e o que se debate hoje é a capacidade do país, liderado pelo rufia Ahmadinejad, produzir energia nuclear.

Agora, a 10 de Fevereiro de 2009, as sondagens indicam que o Likud de "Bibi" Netanyahu, amputado dos moderados que transitaram para o Kadima e mais radical do que nunca, é o partido favorito para vencer as legislativas de hoje. Segue-se o partido de Tzipi Livni, e em terceiro lugar os nacionalistas ashkenazis do Beiteinu, do ex-segurança Avigor Lieberman. O histórico Partido Trabalhista, fundador de Israel, queda-se no quarto. O pesadelo de um governo Likud-Lieberman é bem real e ameaça trazer ainda mais violência à região. Mas os israelitas sempre foram imprevisíveis nas eleições. Espera-se que esta data não continue a ser sinónimo de viragem para o radicalismo (em ambos os casos religioso) no próximo Oriente.
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Valsa com Bashir
Nem de propósito, um dos melhores filmes em exibição nas salas é Valsa com Bashir, do cineasta israelita Ari Folman. Com um buraco negro no lugar da sua memória de soldado do Tsahal na Guerra do Líbano, em 82, Folman reconstitui-a graças a variados testemunhos, até descobrir que tinha estado presente em Sabra e Shatila, os massacres de palestinianos efectuados pela falange libanesa, onde o Tsahal agiu com oportuna omissão. A revista da memória é simultaneamente tenebrosa e fascinante, e Folman resolveu colocá-la em documentário, mas em versão animada. O título deve-se a uma cena, em que um soldado israelita, no meio do tiroteio dos snipers em Beirute, desata numa desesperada fuzilaria para todos os lados, como se de uma dança com a metralhadora como par. Nas paredes, vêem-se grandes cartazes com a efígie de Bashir Gemayel. Líder do partido cristão Kataeb/Falange, fundado pelo seu pai, Pierre Gemayel, e das suas milícias paramilitares, Bashir tinha acabado de ser designado presidente do Líbano, com apenas 35 anos, mas seria assassinado à bomba antes de tomar posse. Toldados pelo ódio, com sede de vingança pela morte do seu carismático líder, os falangistas entraram nos campos palestinianos de Sabra e Shatila e mataram indiscriminadamente milhares de palestinianos, enquanto que os israelitas montavam cerco e esperavam pelo fim do massacre sem mover um dedo. O acto provocou a fúria na opinião pública em Israel e rolaram cabeça, tendo Ariel Sharon, na altura ministro da defesa, sido considerado responsável moral por inacção e exonerado de todos os cargos.
O filme tem um tom desencantado, mostrando a transição entre a figura romântica dos Israelitas que saídos do Holocausto defendiam o país contra o muito mais numeroso inimigo árabe, e a intervenção das suas tropas em países estrangeiros, por razões estratégicas. E tem também a virtude de mostrar a barbárie mas também a consciência e a responsabilidade daqueles que assumem as suas culpas e as expõem. Se é verdade que os israelitas não são santos e cometem inúmeros abusos, não é menos verdade que sabem muitas vezes reconhecê-lo e que só num estado de direito poderia existir um filme tão salutar como este. Será que para lá das suas fronteiras, naquele tórrido Médio Oriente, o mesmo poderia acontecer
PS: até pode, em parte, mas de forma clandestina e com a hostilidade das respectivas autoridades nacionais. Provou-o o também documentário animado Persépolis, sobre o Irão, baseado na BD com o mesmo nome, um filme irónico mas comovente.
PS: até pode, em parte, mas de forma clandestina e com a hostilidade das respectivas autoridades nacionais. Provou-o o também documentário animado Persépolis, sobre o Irão, baseado na BD com o mesmo nome, um filme irónico mas comovente.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Israel e o futuro próximo
Um dos magnos problemas com que Obama se deparará será com o intrincado e quase irresolúvel problema israelo-palestiniano. Décadas de ódio e ameaças não permitem ver uma solução à vista; sempre que se avista uma luz de um lado, do outro alguém se encarrega de criar problemas. Tem sido um pesadelo recorrente de qualquer presidente americano, pressionados que são por todo o tipo de lóbis.
Não falei da actual frente de batalha de Gaza, momentaneamente parada, que começou no fim de 2008. Os "foguetões" do Hamas faziam prever a ofensiva israelita, como muito bem sabiam os detentores de Gaza. Israel naturalmente tinha de ripostar e mostrar aos integristas islâmicos que controlam aquela faixa caótica que não estava disposta a aceitar o seu comportamento. O problema é o mesmo de sempre: as razões de direito e de facto assistem aos israelitas, o modus operandi é que é sempre discutível.
Ataques por ar, terra e mar provocariam sempre razias no caos humano e material que é Gaza. Sabendo-se que depósitos de armas são instalados em escolas e outros armazéns pouco ortodoxos, percebe-se logo que os custos humanos serão duros. Torna-se difícil aos israelitas evitá-los, e não são panfletos atirados do ar a avisar qual alvo dos bombardeamentos com meia hora de antecedência que vão permitir o contrário. Mais culpas terão de ser assacadas pelos responsáveis pela destruição de um hospital da ONU bem identificável, além de outros equipamentos. A legitimidade de Israel é por vezes levada ao exagero e provoca abusos nítidos, como já acontecera no Líbano, há dois anos.
Entretanto, viram-se as manifs do costume. Milhares de pessoas desfilando contra "o genocídio em Gaza", misturando anarco-libertários, radicais, pacifistas, comunistas (de protestar contra a repressão no Tibete é que estes nunca se lembram) e extremistas islâmicos, queimando bandeiras israelitas e americanas e ostentando cartazes com coisas tão edificantes como "God bless Hitler" ou "Islam will dominate the world". Uma mistura perigosíssima de fanáticos, que de comum têm esse mesmo fanatismo. Contra natura, pois claro, mas Hitler e Estaline também assinaram pactos de não-agressão.
Entretanto, a intervenção israelita em Gaza está interrompida. Os mísseis do Hamas pararam de silvar. Mas ninguém acredita que isto fique por aqui. Enquanto a ordem e os tratados não forem cumpridos no essencial, nada se pode esperar de bom. E o essencial é que Israel cumpra as disposições contidas nas tréguas, que o Hamas recue e seja dominado, e que se reconstrua Gaza. Tudo isso demorará tempo a fazer, se o fizerem, claro. Até porque os ódios não se apagam de um momento para o outro.
Importante será que o Likud não alcance a maioria nas próximas legislativas. Se o conseguir, a situação piorará inevitavelmente. Diz-se cinicamente que a intervenção no Líbano é uma campanha pré-eleitoral mais acirrada. Pode ser. Mas se servir para Tzipi Livni se mantenha no poder em coligação com os trabalhistas, até servirá para algo mais do que enfraquecer militarmente o Hamas. O regresso de Netanyahu ao poder significará uma posição intransigente e a expansão dos colonatos.
A União Europeia, que já treina a polícia palestianana e que tem sido generosa na ajuda financeira e na construção de infra-estruturas, teria aqui uma oportunidade de ouro de fazer valer os seus galões: a deslocação de uma força militar para Gaza, com mandato onusiano, que controlasse os radicais do Hamas e os impedisse de lançar rockets, fazendo com que Israel recuasse militarmente mostraria um Europa com mais do que soft-power. Mas isso, claro, é uma ideia peregrina. Para controlar o Hamas, que conta com bom armamento e milhares de voluntários prontos a matar-se, só mesmo uma força numerosa e que não se ficasse pelos disparos para o ar. Mas os tempos económicos são pouco favoráveis a projectos desse tipo. Para mais, subsistem os problemas do costume: a Europa não é um todo, e teria de haver disponibilidade e comum acordo entre os principais países, só que a Grã-Bretanha só pensa em retirar, a Alemanha só tem tropas de "vigia", proibidas de intervir activamente, em Espanha Sapatero é um ambíguo com que dificilmente se pode contar, a França enviaria um pequeno contingente excepto se fosse muito do seu interesse nacional, e a Itália, militarmente falando, pouco conta (os italianos são tão maus soldados!). A "nova Europa" poderia enviar uma força de algum peso, mas lá está, a crise financeira não o permite, e quanto ao resto, Portugal unido, tem pouco peso, sem contar com países neutrais, como a Suécia (longe vão os tempos de Gustavo Adolfo). Para mais, não se sabe o que diria a opinião pública, que, a avaliar pelas manifestações dos últimos tempos, tem imenso receio em afrontar os radicais islâmicos. Numa delas, aliás, ficou a imagem inquietante de uma turba em Milão, que, depois de queimar a bandeira de Israel na praça do Duomo, se deitou a rezar para Meca em frente às escadarias da Catedral. Uma demonstração do despeito de certos fanáticos, mas que entretanto já teve consequências: o governo italiano proibiu manifestações frente a templos religiosos. Berlusconi sempre serve para alguma coisa. Mas se alguém se lembrasse de fazer uma missa campal em frente a uma mesquita, nem digo na Arábia Saudita, mas no Paquistão ou na Argélia, o que sucederia?

quinta-feira, maio 22, 2008
Nas asas das Águias - o êxodo dos judeus iemenitas

Ao ler este post de A. Teixeira publicado no Herdeiro de Aécio sobre as tribos israelitas e as migrações de judeus provenientes da África ou de outros territórios do Médio Oriente, lembrei-me do caso particular dos judeus iemenitas.
Perdidos na colónia britânica do Iémen, no canto sudoeste da Arábia, a velha comunidade judia, ali existente desde tempos imemoriais, encontrava-se na sua grande maioria na zona de Aden, o maior porto da região. Com a proclamação do Estado de Israel (de que se comemoraram há dias sessenta anos), a maioria muçulmana iniciou com um processo de hostilização e de agressões aos judeus, que envolveu incêndios a casas e armazéns e algumas dezenas de mortes. Tendo também notícias da criação do novo estado hebraico, os judeus resolveram então fazer o seu Êxodo e rumar a Israel. Como viviam praticamente na Idade Média, sem quaisquer meios motorizados (só havia um automóvel em Aden) ou telecomunicações, formaram uma extensa caravana, de contornos bíblicos, disposta a atravessar os desertos das Arábias, que muito surpreendeu as autoridades britânicas colocadas na ainda colónia.
Quando souberam da intenção de tal façanha, os israelitas resolveram formar uma ponte aérea para trazer todos os que quisessem ir para a "terra prometida". Assim, recorrendo a aviões americanos e britânicos, realizaram várias centenas de voos no espaço de ano e meio, transportando quase 50 mil pessoas, entre as quais se contavam igualmente alguns judeus da Etiópia. Os voos eram secretos, para impedir eventuais sabotagens árabes e garantir a segurança dos refugiados.

Todo este esforço ficou conhecido como Operação Tapete Mágico, ou Operação nas Asas das Águias. Se a primeira se percebe bem, a segunda precisa de uma explicação: no seu primitivismo, os judeus iemenitas não conheciam o avião, e ficaram naturalmente atemorizados com a perspectiva de voar naquelas máquinas enormes e brilhantes. Todavia, os seus sacerdotes encorajaram-nos a embarcar, dizendo que era apenas o cumprimento das profecias bíblicas, segundo as quais alcançariam a Terra Prometida montados nas asas de águias (em Êxodo 19:4 e Isaías 40:31). As águias em questão eram DC 3 americanos. Ainda que amedrontados, ficaram convencidos e deixaram que a sua fé os levasse de avião para Israel, adaptando-se rapidamente ao novo meio de transporte. Cumpria-se assim a profecia e chegaram novas levas de judeus a Israel, originários do sul da Arábia.
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