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quinta-feira, junho 13, 2019

A cultura em dois homens de esquerda e direita


Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo. 



Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Rúben.




domingo, fevereiro 17, 2019

Um actor imortalizado pelo Youtube


Morreu Bruno Ganz, actor suíço com larga filmografia, que incluiu passagens por Portugal (protagonizou A Cidade Branca, de Allain Tanner) e pelo cinema americano, e sobretudo com alguns dos maiores cineastas alemães, como Werner Herzog e sobretudo Wim Wenders. Curiosamente, os seus dois papeis mais memoráveis tinham a sua acção em Berlim. Num era um anjo apaixonado ("As Asas do Desejo", de Wenders); noutro, um "demónio" tresloucado ("Das Untergang - A queda"). E é sem dúvida mais por este último que será recordado, pela cena que se tornou num fenómeno do Youtube: um ditador acossado, enraivecido e ignorando a sua real situação, cujas reações dão para todo o tipo de legendas. Aqui está um bom exemplo, com Sócrates e as principais figuras políticas portuguesas à mistura.
E no entanto, Ganz merece ser recordado por bem mais coisas. Como o anjo que vela sobre os telhados de Berlim, e que revela sentimentos mais próprios dos mortais.





domingo, março 18, 2018

Os limites de Stephen Hawking


Na semana em que desapareceu Stephen Hawking, falou-se, entre outras coisas, da sua relação com a religião, e na sua descrença em Deus, ou mais precisamente, acreditava que Deus não existia, segundo o próprio, o que faz supôr que não tinha certezas sobre isso. Lá está, o mistério de Deus é tão grande e o entendimento da metafísica tão complexo que nem  mais prodigiosa inteligência humana o consegue atingir.

Mas entre a sua obra, a vida e as ideias, tão faladas nos últimos dias, uma das últimas imagens que guardei de Hawking era diferente e mais leve, e levava um toque de classe, além de demonstrar o seu sentido de humor.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

Calou-se a voz dos Cranberries


O súbito desaparecimento de Dolores O´Riordan causou comoção por esse mundo fora. Não é para menos: era a voz e a alma dos Cranberries, um dos grupos rock mais populares das últimas décadas. Não era propriamente fã da banda irlandesa, mas quem passou a adolescência em meados dos anos noventa não pôde ficar indiferente a músicas como Zombie ou Ode to my Family, que se ouviam por toda a parte e que os tornaram estrelas globais. Para além de ser das canções mais populares dos anos noventa, Zombie teve ainda um importante papel social, como relembra o Diogo Noivo. No Need to Argue, o álbum dessas duas canções, tinha o icónico sofá na capa e vendeu cerca de 17 milhões de cópias. Curiosamente, quando o sofá deixou de aparecer na face dos álbuns, o sucesso começou a resvalar, levando mesmo à separação dos membros da banda durante alguns anos, até se reunirem novamente.



Os Cranberries vieram várias vezes a Portugal, entre festivais e concertos em nome próprio. Curiosamente, a primeira vez que actuaram em solo português seria, à partida, para fazer a primeira parte - juntamente com os Oasis - dos REM, num espectáculo que teria lugar em Alvalade. Mas o grupo de Athens, por problemas de saúde vários, teve de cancelar o concerto (só se estreariam anos mais tarde no Pavilhão Atlântico, numa actuação a que tive a sorte de assistir), pelo que o grupo irlandês entrou em cena no Coliseu dos Recreios, dando ao público um concerto memorável e vibrante, segundo os testemunhos. Seria o primeiro de vários, concluído com uma actuação no festival Marés Vivas, no cabedelo de Gaia, em 2011.
No ano passado chegou a estar anunciada nova vinda dos Cranberries a Portugal, à feira industrial anual de Cantanhede, o que me levou a pensar que o grupo estaria algo decadente (quando bandas consagradas começam a ir a Queimas das Fitas e festivais industriais é sinal disso mesmo). Acabariam por cancelar, dados os problemas de saúde de Dolores. sem imaginar que não teríamos nova oportunidade de os e de a ver.


segunda-feira, novembro 20, 2017

Os últimos vilões


Este fim de semana morreram Charles Manson e Toto Riina, dois assassinos sinistros (o primeiro um perfeito psicopata, o segundo o mais impiedoso dos mafiosos), sem quaisquer barreiras morais. Ao mesmo tempo, assistimos à morte política de Robert Mugabe, um dos ditadores mais lunáticos das correntes décadas. Os últimos dias foram arrasadores para os grandes vilões que ainda sobravam do século XX.

sexta-feira, setembro 22, 2017

D. António Francisco dos Santos

 Como não tenho escrito muito nos últimos dias, não posso deixar assinalar, e ainda sobre o Porto, a morte inesperada e abrupta de D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto. Esteve apenas três anos e meio à frente da diocese, tempo suficiente para deixar a sua marca. Ainda me lembro da sua entronização, com o terreiro da Sé coberto de gente, com as cores de todo o tipo de ordens e confrarias, e D. António Francisco a vir às portas da catedral cumprimentar as pessoas. Entre outras medidas que implementou, há uma particularmente visível e bem vinda: a abertura do Paço Episcopal ao público. Visitá-lo será sempre gratificante e uma forma de aproveitar um legado que nos deixou. Não teremos é de novo a oportunidade de nos cruzarmos com ele nos corredores do Paço, como era usual. E assim a antiquíssima Diocese do Porto permanece em sede vacante.

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PS: entretanto outro antigo bispo relacionado com a Diocese do Porto deixou-nos. D. Manuel Martins, o primeiro bispo de Setúbal, entronizado numa altura crítica, em 1975, enfrentou grandes adversidades políticas (e não necessariamente com os comunistas) e sociais. Nunca deixou de denunciar a fome e a pobreza da sua diocese em momentos críticos, e ganhou grande notoriedade por isso. Recordo que depois da sua resignação ao cargo, já bispo emérito, serviu durante algum tempo o cargo de pároco da ilha do Corvo, segundo ele próprio, por espírito de missão mas também por grande curiosidade em conhecer aquele meio tão isolado.

quarta-feira, junho 21, 2017

Helmut Kohl


A tragédia que varreu o interior centro do país acabou por fazer esquecer o desaparecimento de um dos maiores estadistas alemães e europeus dos últimos cem anos, Helmut Kohl. O antigo chanceler esteve 16 à frente dos destinos da RFA (e 8 de toda a Alemanha unificada), substituindo Helmut Schmidt e pondo cobro a mais de uma década de governos do SPD, com apoio dos liberais do FDP, que passaram a apoiar a sua CDU. Numa década em que coincidiram nos respectivos cargos Reagan, Gorbachov, João Paulo II e Mitterand, constituiu com este último a continuidade do eixo Paris-Bona na liderança da CEE, que permitiu a adesão a países como Portugal e Espanha. Permitiu a entrada de mísseis em território alemão, mas estendeu a mão a Gorbachov, que retirou as tropas soviéticas dos países do Pacto de Varsóvia, e com isto assistiu à queda do Muro de Berlim, e contra todas as crenças e boa parte das opiniões, conseguiu juntar as duas Alemanhas. A reunificação teria um custo social e económico elevado, mas acabou com uma cicatriz profunda e com uma divisão meramente ideológica. Para além do seu papel nos assuntos europeus, no fim da Guerra Fria e na criação da moeda única, o grande legado de Kohl é de facto a reunificação da Alemanha, o que lhe deu um estatuto semelhante ao de Bismarck. O fim do seu mandato de 16 anos acabou manchado pelas acusações de desvios de dinheiro para fins partidários, mas é uma mácula que não o impedirá de ficar na História como um enorme estadista (literalmente, e o seu tamanho gargantuesco de gros gourmand será outra das coisas por que será recordado), um pacificador e indubitavelmente um vencedor.

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quarta-feira, janeiro 11, 2017

Outros desaparecimentos


E enquanto se carpia Mário Soares, partiam também Guilherme Pinto e Daniel Serrão. A notícia maior eclipsou um pouco as suas mortes, talvez por não serem muito inesperadas. Pinto tinha justamente renunciado ao cargo de presidente da câmara de Matosinhos, que só teria efeitos a parir de Fevereiro, e não resistiu a ma doença cancerígena que já o afectava há anos. Anda conseguiu refiliar-se no PS, ele, que em 2013 tinha reconquistado a câmara com maioria absoluta e estatuto de independente, depois de uma lamentável jogada do aparelho socialista local. Conheço pessoas que lhe devem a sua (boa) situação habitacional e que certamente não o esquecerão. Um bom autarca que parte cedo demais.
Também a morte de Daniel Serrão não constituiu propriamente surpresa. Estava bastante fragilizado desde o estúpido atropelamento de que fora vítima, há dois anos. Serrão, que era de Vila Real com a minha família e vivia no Porto tal como eu, será sobretudo recordado como o grande pioneiro e divulgador da bioética em Portugal e até a nível internacional, e um exemplo de como se pode reunir harmoniosamente a ciência e a fé religiosa.

E para além disso, desapareceu também Zygmunt Bauman, um pensador que bem merece ser lido na época efémera e precária em que vivemos. E para além de Mário soares, também morreram outros dois ex-chefes de estado dos anos 80-90: Roman Herzog, antigo presidente da Alemanha, e Rafsanjani, o antigo presidente iraniano que ajudou a desanuviar a regime dos ayattolahs. Fará provavelmente falta aos sectores mais contestatários da teocracia iraniana. Para já, 2017 não deve nada a 2016.

terça-feira, janeiro 10, 2017

Mário Soares 1924 - 2017


Nunca é fácil resumir o epitáfio do político que representa o regime em que vivemos e o mais representativo do nosso país no último meio século. Mas para começar, Mário Soares é daquelas personalidades que faz parte do meu imaginário desde sempre e que não me lembro de não conhecer. Era ainda pequeno mas soletrava os políticos que conhecia e que eram na altura os mais relevantes do país: Soares (o "bochechas"), Eanes (o "rameanes"),  Balsemão (o "balsas"), o Freitas e o Cunhal. Destes cinco, três ainda estão vivos. Recordo-me ainda de outros, como Mota Pinto, mas os principais eram mesmo aqueles.

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Mário Soares era uma personagem de paixões, e que provoca ele mesmo paixões e ódios. E é, ao mesmo tempo, uma personagem atípica: foge à austeridade que caracteriza boa parte dos políticos portugueses (desde os da 1ª república e da "ética republicana", passando por Salazar, até Cunhal, Cavaco, Eanes e mesmo Passos Coelho), era um bon-vivant, um optimista, não era um mouro de trabalho nem nunca se preocupou em dar essa imagem, nunca se destacou como um aluno brilhante nem por trabalhos académicos e intelectuais, apesar de ter uma enorme bagagem literária, e teve sempre grande empatia com as massas.

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Todas essas características fazem dele uma personagem à parte na política portuguesa. A isso será sempre obrigatório juntar-lhe Maria Barroso, que esteve quase setenta anos ao seu lado, que se tornaria na Primeira Dama mais popular entre os portugueses, e cuja perda, há ano e meio, contribuiu visivelmente para o seu declínio.

Resumamos o seu percurso: filho de um ministro republicano católico, fundador do Colégio Moderno, ainda hoje pertencente à família, chegou a pertencer ao PCP, participou nas campanhas do MUD, conheceu Norton de Matos, Humberto Delgado e Jaime Cortesão, esteve preso várias vezes (casou-sena prisão, por procuração), chegou a ser deportado para S. Tomé e acabou por se estabelecer em Paris, onde conheceu inúmeras figuras internacionais ligados à Internacional socialista, como Mitterand, Willy Brandt, Felipe González e Olof Palme. Pelo meio fundou a Acção Socialista Portuguesa, que daria origem, em 1973, ao Partido Socialista. Voltou a Portugal na sequência do 25 de Abril, conseguiu tornar o PS num dos principais actores políticos do momento, e depois de algum tempo de manifestações comuns, dá-se o afastamento em relacção ao PCP, agravado com a radicalização da situação, o 11 de Março e o caso do jornal República, ligado ao PS. Realizam-se as eleições para a Assembleia Constituinte, que o PS ganha claramente, deixando o PCP e restantes satélites com resultados muito abaixo do esperado, mas nem por isso abrandando o PREC. Soares encarna a resistência na rua ao governo de Vasco Gonçalves e ao crescente domínio do PCP e dos militares esquerdistas, com grandes comícios como o da Alameda, em Lisboa, e das Antas, no Porto, que mostraram que nem todo o país pretendia uma "democracia popular", como aliás as urnas o demonstraram. Ainda em Novembro, com garantias de protecção dos Estados Unidos (onde Kissinger achava que Portugal seria a "Cuba da Europa"), Soares realiza novos comícios antes da tentativa de golpe da extrema-esquerda, sufocada pela reacção dos comandos e dos militares moderados a 25 de Novembro. com a situação normalizada, Soares assumiu o cargo de Primeiro-Ministro depois de ganhar as eleições de 1976. Com a economia de rastos e sem maioria parlamentar, teve chamar o FMI e de ensaiar várias soluções governativas, antes das iniciativas presidenciais o tirarem do governo. Seguiram-se os conflitos internos por causa da sua recusa em apoiar Eanes para novo mandato, a derrota perante a AD de Sá Carneiro, até ao regresso às vitórias em 1983, e a necessidade do acordo do bloco Central, de nova vinda do FMI e de dois anos de pesada austeridade, culminando na adesão à CEE, um dos grandes objectivos de Soares. A esse triunfo seguiu-se a derrota mais pesada, com o PS a obter apenas 20%, pouco mais que o novo PRD inspirado por Eanes, e que permitiram a Cavaco Silva e ao PSD formar o seu primeiro governo. Depois, o combate mais condenado à partida que já houve em Portugal nas últimas décadas: Soares lançou-se às presidenciais de 1986 com apenas 8% de intenções de voto, contra Freitas do Amaral, apoiado pelo CDS e PSD, que congregava toda a direita, o seu velho ex-amigo Salgado Zenha, apoiado por PCP e PRD, e Maria de Lurdes Pintassilgo, apoiada por parte da esquerda. Acabou por suplantar os dois últimos, obrigou Freitas a ir à segunda volta, obrigou Cunhal a engolir um "sapo" e a votar nele, e venceria com ligeiro avanço, transformando uma derrota certa numa vitória quase impossível. Vieram depois os dez anos presidenciais, a coabitação nem sempre fácil com Cavaco (a quem de certo modo deu a sua primeira maioria absoluta), o estilo régio combinando com à vontade nos meios populares, e uma imensa popularidade que levou a que o próprio PSD o apoiasse na reeleição onde ganhou com incríveis 70%. Acabada a presidência, Soares tornou-se um senador sempre interventivo, voltando ao combate político como cabeça de lista pelo PS ao Parlamento Europeu nas europeias de 1999, que venceria, e já mais tarde, depois de aos oitenta anos pronunciar um sonoro "basta de política", resolveu lançar-se numa inglória corrida de novo à presidência da república, aos 81 anos e contra o apoio da família e amigos, contra Cavaco Silva e o anteriormente amigo Manuel Alegre, culminando num modesto terceiro lugar. Seguiram-se anos de intervenção política, os últimos já penosos, em que verificou uma guinada à esquerda e severas contradições com o que tinha defendido em tempos. Mas a importância política de Soares tinha ficado lá atrás.

Este homem teve inúmeras qualidades, como a coragem, o optimismo, a determinação inquebrantável, o à vontade e a absoluta recusa em agradar a gregos e troianos, o apego à liberdade e a lealdade aos amigos. E também muitos defeitos, como a arrogância política e imenso sentido de superioridade (para não ir mais atrás recordo os debates com Cavaco em 2006), inabilidade executiva, desconhecimento de dossiers, desprezo pela coisa pública, com se viu com os montantes gastos na pós-presidência e na sua fundação, e...excessiva lealdade aos amigos, alguns deles de duvidosa credibilidade (Craxi, Sócrates, Andrez Perez, mesmo Mitterand). Este homem não deixou ninguém indiferente, e é talvez o político mais amado e odiado dos últimos cinquenta anos. Se por um lado teve inúmeros amigos, por outro arranjou outros tantos inimigos - Marcelo Caetano, Cunhal, Eanes (com quem faria as pazes), Cavaco, e, a mais dolorosa, Salgado Zenha, outrora um amigo inseparável e com quem nunca conseguiu reconciliar-se. O que significa que deixou uma forte marca e que era realmente um político total, em todo o sentido da palavra. Pôde-se ver agora, por um lado nas imensas cerimónias de estado, nas declarações de líderes estrangeiros e na imprensa internacional, na emoção das pessoas à passagem dos restos mortais; mas também nas redes sociais, com o seu habitual lavar de roupa suja, declarações de ódio e acusações de toda a sorte, algumas completamente absurdas - culpas totais na descolonização (coisa aliás desmentida por pessoas como D. Duarte de Bragança, que afirmou que Soares merecia ir para o Panteão Nacional, ou Ribeiro e Castro, no caso particular de Moçambique), morte de Sá Carneiro, e até uma verdadeira e feliz - o fim da revolução - e outras que provavelmente só com o tempo poderão ser validadas ou descredibilizadas.

Este homem com imensos defeitos é provavelmente o principal responsável por Portugal ser um país livre e pertencente por direito próprio à União Europeia. Mesmo por todas as questões em que discordei dele, e nos últimos anos foram quase todas, não deixarei de lhe agradecer. Se discordo dele publicamente, a ele sobretudo se deve.

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Soares entrou justamente na História de Portugal com um relevantíssimo papel. Está para a 3ª República como Afonso Costa para a 1ª e Salazar para o Estado Novo. Com uma diferença essencial, para além de outras também importantes: ganhou esse papel com o voto dos portugueses e não impondo-se a eles. Eis o que diferencia o "Bochechas" dos outros. E isso é realmente fixe.
 
Que descanse em paz.

sábado, dezembro 31, 2016

2017, um ano arrasador para realizadores de cinema


Nas habituais revistas do ano, é sempre exibida a necrologia. Este ano, como era de esperar, ressalta o desaparecimento de músicos de vulto, como David Bowie, Prince, Leonard Cohen, e agora, já no dia de Natal, para o qual ironicamente tinha escrito uma celebérrima e orelhudíssima música, George Michael, de quem nunca fui especialmente fã mas que era sem qualquer dúvida um músico talentoso e inteligente. E ainda poderíamos acrescentar Pierre Boulez ou mesmo o Coro do Exército Vermelho, desparecido na sua maioria há dias num desastre de aviação no Mar Negro, e a quem referi aqui precisamente no último dia de 2014.

Mas se na música tivemos um ano negro, o cinema não tem menos razões de queixa. Talvez tenha passado mais despercebido, mas a quantidade de realizadores que morreu em 2016 é considerável. Assim, lembro-me de Michel Cimino, Abbas Kiarostami, Jacques Rivette, Hector Babenco, Curtis Hanson,  e até Gary Marshall (o realizador de Pretty Women). E nestes últimos dias, desapareceu Carrie Fisher seguida da sua mãe, Debby Reynolds.

Torçamos para que 2017, em termos cinematográficos, seja melhor. E noutras áreas também. Para começar, já aí está o último do bom e velho Kusturica, com a presença suplementar e sempre apreciada da nóvel cidadã lisboeta Monica Bellucci. Já é um bom começo.


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segunda-feira, novembro 28, 2016

Fidel 1926 - 2016


As notícias sobre a morte de Fidel são tantas e tão variadas, assim como as discussões nas redes sociais, que não haverá muito mais a dizer, pelo menos no que à sua biografia diz respeito. O essencial: um jovem cubano formado em direito comandou uma revolução que derrubou a anterior ditadura, tornou-se um ícone revolucionário (ao lado de Che Guevara e outros, como Camilo Cienfuegos), aliou-se à URSS contra os Estados Unidos, tendo-se tornado o principal escolho dos americanos, resistiu no poder mesmo com o fim da União Soviética e manteve-se à frente dos destinos da ilha durante quase cinquenta anos, retirando-se aos oitenta, tendo vivido mais dez (e, pormenor importante, tendo recebido a visita de Marcelo Rebelo de Sousa, que por acaso também estava em Berlim na altura da queda do Muro...).
 
Os cubanos da ilha e o respectivo regime choram a morte de Fidel, e dos seus apaniguados admiradores, de Maradona ao PCP, ouvem-se louvores ao "herói da libertação", ao passo que em Miami os exilados dançam e abrem garrafas de champanhe. Nada de inesperado. Já mais controversos serão os títulos de jornais que tratam Fidel como um ícone revolucionário e parecem esquecer o regime que prendeu, matou e obrigou ao exílio largos milhares de cubanos. Ou a posição do Bloco, para quem Fidel se limitou a "cometer erros"; sim, trata-se do mesmo Bloco que saiu à rua para defender Luaty Beirão, um preso como há tantos em Cuba, ou que é um feroz defensor das causas gay, tantas reprimidas por Fidel. No fundo, revela apenas a sua natureza, camuflada por roupas democráticas. Mas em Portugal, como noutros países, é comum trata-se Fidel nas palminhas: lembro-me, aquando da Cimeira Ibero-Americana no Porto, em fins dos anos noventa, de apenas uma vintena de pessoas, entre os quais amigos meus, ter ido protestar à porta da Alfândega, onde se desenrolava o encontro, com tarjas lembrando os direitos humanos censurados em Cuba. Já num comício que o "comandante" deu num armazém em Matosinhos acorreram milhares de apaniguados, embora algo desiludidos no fim com mais um dos intermináveis e soporíferos discursos com que Fidel brindava o público.
 
A grande diferença de Fidel em relação a outros ditadores, mais do que ter ele próprio derrubado uma ditadura sob o manto do guerrilheiro romântico, é que quase provocou uma guerra nuclear com a crise dos mísseis que seriam instalados na sua ilha, mesmo em frente aos Estados Unidos. A determinação de Kennedy e o acordo que posteriormente estabeleceu com Krushev provocou a ira de Fidel, mostrando assim toda a sua irresponsabilidade (ou fúria assassina?). Aparentemente, a Crise dos Mísseis de Cuba tem sido por estes dias tratado como um caso menor, apesar de na altura ter deixado o Mundo em suspenso com a possibilidade de uma guerra nuclear.
 
Apesar de todos os encómios que lhe possam dar, Fidel era um ditador anacrónico, que desapareceu agora, em paz. Que em paz possa ficar o seu país, agora que o imprevisível Donald Trump anuncia a animosidade com os laços que enfim se reestabeleceram entre a ilha e os EUA.
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quarta-feira, novembro 02, 2016

Mais um desaparecimento no Porto


No último ano parece que se abateu uma onda negra sobre a câmara do Porto, ou mais precisamente, sobre alguns dos apoiantes e responsáveis pela eleição de Rui Moreira. Em Novembro de 2015, está quase a fazer um ano, desapareceu abruptamente Paulo Cunha e Silva, deixando uma herança riquíssima que levara apenas 3 anos a formar, mas um espaço vazio a custo ocupado pelo próprio Moreira. Em Dezembro, na véspera de Natal, desapareceu o Pidas Espregueira, com apenas 45 anos, um elemento sempre activo na campanha de Moreira, membro da assembleia de freguesia da Foz-Nevogilde-Aldoar, ainda meu primo e meu homónimo. E agora, com pouco mais idade, Manuel Sampaio Pimentel, antigo nº 2 de Moreira, vereador já dos tempos de Rui Rio, com inúmeras competências, ex-director regional da Segurança Social e figura maior do CDS local. Todos, amigos, colegas, adversários políticos, foram unânimes em considerá-lo um político combativo, com feitio difícil, até, leal, directo e sério. E com ele é já a terceira personalidade ligada ao actual executivo a deixar-nos em apenas um ano, todos ainda relativamente novos. Mais um fim de ano tristonho. Dá vontade de ir à bruxa, com tão inimagináveis tragédias, só para se obter alguma paz terrena.

quinta-feira, setembro 29, 2016

Shimon Peres 1923 - 2016



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Morreu Shimon Peres. Era o último grande sobrevivente da geração nascida na Europa que fundou o Estado de Israel, que o construiu e defendeu desde o início (teve logo responsabilidades na guerra de 1948), e que ainda estava ligada à imagem romântica da terra prometida de refugiados e sobreviventes que resistiam a todos os seus invasores. Exerceu os mais altos cargos da nação, e tendo dedicado uma vida inteira ao seu país, sendo um homem de combate, também o soube ser da paz. Negociou arduamente a pacificação com os palestinianos, tendo recebido o Nobel da Paz pelo seu trabalho nos Acordos de Oslo. Só saiu da presidência do país com mais de 90 anos. A última imagem que me recordo dele é a de plantar uma oliveira em Roma com o Papa Francisco, o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, e o Patriarca de Constantinopla. Poderá ficar como um símbolo dos seus esforços para a paz. No seu lugar ficaram os Netanyahu, os fanáticos nacionalistas ou ortodoxos e uma classe política incapaz sequer de lhe chegar aos calcanhares. 

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segunda-feira, julho 04, 2016

Big-Bang político, o legado de Michel Rocard


Os obituários deste fim de semana estiveram completamente sobrecarregados: Camilo de Oliveira, Elie Wisel, Michael Cimino, todos eles foram objecto de artigos e de atenção mediática. Incrivelmente, parece ter passado despercebido o desaparecimento de Michel Rocard, um dos políticos franceses e europeus mais importantes dos anos oitenta-noventa, de que só soube pela capa do I.

Rocard, que exerceu o cargo de primeiro-ministro de França no fim dos anos oitenta, era um dos poucos no PSF a declarar-se social-democrata, isso quando a palavra era tabu num partido que anos antes tinha governado em coligação com o PCF de Marchais. Aliás, até há bem pouco tempo, o PSF continuou agarrado a fórmulas esquerdistas e jacobinas antigas e só recentemente começou a descolar. Manuel Valls, que tem protagonizado essa mudança, é um seguidor confesso do antigo estadista e das suas ideias. No início dos anos 90, Rocard, à frente do partido, propôs uma mudança radical que teve algum eco, com o seu célebre "Big-Bang" político. A ideia era fazer um amplo movimento reformista que incluísse não apenas socialistas mas também ecologistas, comunistas renovadores, centristas, católicos progressistas ou defensores dos direitos humanos tout court. Estavam reunidas as componentes da Deuxième Gauche de que era figura de proa, e que se opunha à esquerda marxista e jacobina.

O PS francês sofreu duros reveses eleitorais durante a sua liderança, e as ideias do Big-Bang foram postas de lado. Só recentemente Valls tentou levá-las avante, e apenas em parte. O Big-Bang permaneceu como uma das ideias políticas dos anos noventa que não chegou a ser levada avante, e que caso o fosse, teria talvez regenerado a esquerda reformista francesa e dado capacidade para se bater com a direita unida da ex-UMP, e quem sabe, travado o passo à Frente Nacional. Agora, o PSF está pelas ruas da amargura, os Republicanos (ex-UMP) colam os cacos e reorganizam-se, e a FN permanece na crista da onda. Rocard era um homem de visão. Há tempos, previu o Brexit e as razões para a saída do Reino Unido (coisa que desejava). Não foram pois os resultados do referendo que provocaram a sua morte. Seria bom por isso que se olhasse para as suas ideias e se tentasse aproveitar um pouco. Porque o centro político e as forças democráticas só ganharão nova força renovando-se, olhando para os problemas e enfrentando-os com coragem e realismo. Michel Rocard sabia disso. Os que fizeram ouvidos de mercador terão agora forçosamente de interpretar bem o seu legado político.


sábado, maio 07, 2016

Paulo Varela Gomes


Há poucos dias morreu Paulo Varela Gomes. A notícia entristece, mas não surpreende, já que o seu estado de saúde era público. Aliás, o texto que escreveu na Granta do Verão passado (uma coisa tocante e comovente, um autêntico murro no estômago), tão inclassificável como o seu autor, seria amplamente divulgado e espalhado na net.
Impressiona talvez um pouco por sobreviver ao seu pai, que completara 90 anos dias antes. Mas melhor será invocar a sua vida multifacetada e generosa. Varela Gomes fora um revolucionário ligado à extrema-esquerda, primeiro ao PCP, e depois, como tantos outros, "dissidentou" e com Miguel Portas ajudou a fundar o Política XXI, aquele grupo político que constituiria depois a ala moderada do Bloco. Não ficou muito tempo na política. A sua área era a história da arte e da arquitectura, que lecionou, primeiro no liceu, depois na universidade, tendo-se doutorado pelo meio em Coimbra em História e Teoria da Arquitectura. Teve também duas séries documentais de televisão, O Mundo de Cá e Malta Portuguesa (sobre a ilha no Mediterrâneo, que desconhecia até agora e que gostava de ver). Viveu por duas vezes em Goa, nos anos noventa e em fins dos anos 2000, como delegado da Fundação Oriente, e se não me engano, a sua colaboração com o jornal Público começou (que costumava ler, todas as semanas) nessa segunda experiência goesa. De volta a Portugal, resolveu ir viver para o campo, na Beira interior, e essa vida campestre surgia muitas vezes nas suas crónicas. Depois, a descoberta da doença levou-o a acelerar uma nova faceta, a de ficcionista, e a publicar quatro romances, o último dos quais, Passos Perdidos, com poucos semanas desde que saiu do prelo. Dele ressalvo, para além das crónicas dominicais no Público (ultimamente quase exclusivas sobre história da arte, com um cunho contemplativo), algumas intervenções televisivas, como aquele sobre Lisboa em que defendeu publicamente o trabalho de Duarte Pacheco, ou um programa de debate que teve em tempos com Carlos Abreu Amorim.

Quem o lia ou às suas ideias podia ficar algo confusa. Um pedagogo, que se dizia "comunista reacionário", ou seja, alguém que supostamente crê na marcha imparável do comunismo e no determinismo histórico, e que ao mesmo tempo descrê do progresso e se guia por elementos do século XVIII e pelas estações do ano, não era fácil de perceber. Essas aparentes contradições apenas revelavam um espírito crítico, dinâmico que não caia em compartimentos estanques. Para mais, nos últimos tempos, Paulo Varela Gomes parecia ter-se aproximado da fé religiosa, como o próprio deu a entender. Ao que tudo indica, a começar pelo supracitado artigo na Granta, isso deu-lhe outra serenidade e outra coragem para enfrentar a doença. Mas perdeu-se um dos mais interessantes, imaginativos e pedagógicos cronistas portugueses.

sábado, abril 23, 2016

Prince


O ano ainda não tem quatro meses completos e já viu partirem dois dos maiores gênios de sempre da música pop. Primeiro Bowie, agora Prince. É uma razia demasiado grande para tão pouco tempo.

Tal como o Camaleão, o Artista que durante algum tempo se fazia representar por aquele símbolo impronunciável não era das minhas grandes preferências musicais. Mas é impossível negar que era um geniozinho musical que conseguia misturar a pop, o soul, o funk, que mudava de rumo mesmo quando as coisas não pareciam correr bem, que estava constantemente a criar música, que serviu de inspiração a outros músicos, de Beck a Pedro Abrunhosa, passando por Sinead O´Connor e as Bangles (que lhe devem a escrita dos seus maiores êxitos), e que com Michael Jackson e Madonna, era uma das grandes estrelas pop legadas pela cultura norte-americana (na altura com suporte fundamental da MTV) dos anos oitenta, embora provavelmente mais talentoso do que os outros dois.
A prova do seu ecletismo e busca de outras formas musicais viu-se nos últimos anos, em que ainda experimentou o fado, na sua parceria com Ana Moura, o que o levou a tocar A Casa da Mariquinhas  acompanhando a fadista num festival em Portugal há não muito tempo.
Aí por 1993, na época dos grandes concertos de estádio, actuou em Alvalade, seguindo-se um concerto em Santiago de Compostela. Na altura estava de férias no Alto Minho, como sempre, e houve uma vaga ideia de gente mais graúda de ir vê-lo, no que teria sido o primeiro concerto pop a sério da minha vida. A coisa não se concretizou, mas lembro-me ainda de ver os cartazes a anunciar a vinda do músico de Mineappolis nas paredes de Vigo. Não o veria em concerto, mas fico com uma certa pena de não ter visto a sua actuação ao lado de Ana Moura.

terça-feira, março 15, 2016

Nicolau Breyner 1940 - 2016


Nicolau Breyner era daquelas personalidades de que não nos lembramos de não conhecer. Para além da sua participação em novelas (protagonizou a primeira novela portuguesa, "Vila Faia", como o camionista João Godunha), teatro, programas de humor, concursos, talk-shows, sitcoms desengraçadas e séries de humor engraçadas ("Gente Fina é outra Coisa", em que dirigiu Amélia Rey Colaço) e até uma breve passagem pela política - quando se candidatou à câmara da sua terra, Serpa, cometendo a proeza de levar o CDS ao segundo lugar em pleno Alentejo dominado pelo PCP - fica-nos acima de tudo a sua passagem pelo cinema, terreno onde demonstrava todo o seu valor e a sua versatilidade como actor, tanto em comédia como em drama. E resta-nos também essa obra e a imagem de um homem de fé - tal como este blogue, benfiquista, monárquico e católico - que parecia estar sempre bem com a vida.


sexta-feira, janeiro 15, 2016

Alan Rickman, outro "mau da fita" desaparecido



Apenas meio ano depois de escrever sobre os maus da fita no cinema e de enumerar alguns casos mais visíveis, um deles, Alan Rickman, desapareceu esta semana, com a mesma idade de David Bowie, 69 anos (à conta disto já começam a circular piadas sobre os 69 serem os novos 27, por causa da quantidade enorme de músicos que morreram com essa idade, ou da maldição de em cada golo de Aaron Ramsey morrer uma celebridade no dia seguinte).

Muitos lembraram-se dos seus papeis do temível Hans Gruber, o magnífico capo terrorista de Assalto ao Arranha Céus, ou do professor de Harry Potter (julgo que não era uma personagem lá muito simpática). Além de outras interpretações em que não era exactamente o mau da fita, como em Sensibilidade e Bom Senso ou Michael Collins, em que fazia de Eamon de Valera (que também não era apresentado propriamente como uma figura simpática), ou, já no ano que passou, um Luís XIV menos "solar" e emocional e "terra-a-terra", num filme simpático realizado pelo próprio, sobre a elaboração dos jardins de Versailles, mais destaco uma: a do Sheriff de Nottingham, de Robin Hood, Príncipe dos Ladrões, hoje não tão lembrado, um filme que à época teve grande sucesso comercial e que contava com Kevin Costner, na altura uma superstar do cinema, no papel principalNuma personagem que juntava comicidade à crueldade, Rickman "roubava" todas as cenas em que entrava, o que lhe deu um valente empurrão para poder ser considerado um dos actores de cinema mais especializados em fazer de (bons) maus da fita.



segunda-feira, janeiro 11, 2016

Bowie






Embora acompanhasse com interesse a carreira de David Bowie, não era um seguidor fervoroso. Mas reconheço-lhe não só a genialidade, visão e coragem estética e musical como a evidência de que, para além de um músico de referência, Bowie era um autêntico ícone pop dos últimos quarenta anos, um perfeito mito vivo - até ontem. Popularizou o glam rock, criou personas que se tornaram elas próprias ícones do rock, cunhou a expressão "fase berlinense", do seu período em fins da década de setenta, etc. A sua influência do "camaleão" deu-se mais nos anos setenta e oitenta, em partes bastante distintas, mas estendeu-se às seguintes. Para além da música teve também uma carreira intermitente no cinema , com algumas incursões interessantes, em especial o oficial prisoneiro dos japoneses em Merry Christmas, Mr. Lawrence, num filme de mágicos de há meia dúzia de anos, ou a fazer de Andy Warhol, que até conheceu pessoalmente, em Basquiat.

O mais notável é que até ao fim se entregou à arte e às experiências estéticas. Tinha lançado o seu último álbum, Blackstar (com um single premonitório intitulado Lazarus), na sexta-feira, dia em que fazia 69 anos, apenas dois antes da sua morte. Já gravemente doente, conseguiu ainda completar o seu legado musical. Desaparece fisicamente um dos grandes ícones artísticos do último meio século, deixando uma imensa obra que certamente não se perderá nem será esquecida tão cedo.




quinta-feira, novembro 12, 2015

Paulo Cunha e Silva 1962 - 2015


Se ontem fiz um curto epitáfio de uma pessoa que morreu com quase cem anos, hoje faço de outra que desapareceu com pouco mais de cinquenta. Paulo Cunha e Silva deixou-nos de repente, sem se despedir, tão subitamente que ainda estão no ar, sem tempo para cair ao chão, todos os seus projectos pendentes, todas as ideias que lançou recentemente, todos os eventos a cujo lançamento presidiu e que estão aí, a ser realizados.

Cunha e Silva andava a mil à hora. Estava em toda a parte, em todos os eventos, falava de tudo e a tudo acorria, sempre com ideias novas. Talvez por isso o coração o tenha traído depois de mais uma ronda em que tinha acabado de inaugurar o ciclo de toda a filmografia de Manoel de Oliveira, logo ele, que era médico de formação e professor de anatomia, tendo sido o aluno mais brilhante do seu curso (Eurico de Figueiredo conta que foi o único 20 que atribuiu a um seu aluno, embora não tenha sido o único que Cunha e Silva recebeu). Enveredou pelas artes, tornou-se colaborador de Serralves e acabaria por ser o programador cultural do Porto 2001. Com a aversão de Rui Rio à cultura (não entrou na CM do Porto entre 2011 e 2013), presidiu ao Instituto das Artes do Ministério da Cultura, foi conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Roma, antes de regressar a Portugal e de ser eleito vereador na lista de Rui Moreira. Lembro-me de na campanha eu ter levado um oleado para a chuva que caía abundante por esses dias com a marca do Porto 2001, e dele me dizer que tinha perdido o seu e que aquele devia ser o único exemplar existente, e de na noite da vitória, há dois anos, quando estávamos cá fora, em plenos Aliados,  de o ouvir já a traçar planos para quando tomasse posse, começando pelo Rivoli. O tempo comprovou que não esta simplesmente a divagar, como se pôde ver pelo sucesso que teve na maneira como reorganizou a Feira do Livro.

Na última campanha, o MPT tinha algumas ideias arrojadas para uma acção com visibilidade que chamasse a atenção para o esquecimento e a inutilidade a que está votada a Ponte Dona Maria Pia, mas infelizmente ficou-se por uma faixa na base (e acreditem que colocar uma coisa em lona de 15 metros demora as suas horas, sobretudo quando só está duas pessoas a fazê-lo).



 A ideia seria aproveitar a visibilidade para depois discutir com a CM do Porto diferentes formas de a reabilitar. Nos próximos dias iríamos contactar Paulo Cunha e Silva, que aliás já estava a par da ideia. Há coisa de duas semanas vi-o a abrir a conferência sobre o centenário da morte de Alfredo d´Andrade, no consulado de Itália, organizado por uma querida amiga minha. No fim do seu discursos, em que falou da sua paixão por Itália e da sua alma dividida entre Itália e Portugal (considerando-se ali como que um "agente duplo"), despediu-se, já que tinha de estar naquela mesma hora noutro evento. Na altura queria falar-lhe da acção da ponte, mas pensei que ficaria para breve. Não imaginava que não teria outra oportunidade nem que o não veria mais.

Ironicamente, a última fotografia na página oficial do facebook de Rui Moreira antes da morte do seu vereador é exactamente da ponte Dona Maria, em contraluz. A que colocou a seguir mostra Paulo Cunha e Silva com a condecoração de Chevalier des Arts que lhe tinha sido atribuída em Outubro pelo governo francês. A última e justa homenagem a um homem que ainda tinha imenso para dar e que deixa o Porto e a cultura nacional tremendamente mais pobres.