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sábado, junho 16, 2012

Pólvora seca




Era daqueles jogos ditos de alt(íssim)o risco. Um Polónia-Rússia, em Varsóvia, no dia em que os russos festejam o nascimento da Federação, é motivo para qualquer pessoa sensata se afastar da capital polaca, a não ser que seja repórter de guerra. Uma marcha com colunas de russos em direcção ao estádio prometia represálias de fanáticos polacos, evocando o retalhamento do seu país, a repressão czarista e o pesado controlo soviético, que obrigou ao estádio de sítio permanente. Mas o empate e a divisão de pontos serenaram os ânimos, a polícia cumpriu o seu papel, e o saldo final acabou em quinze feridos e cinquenta detidos. Muito positivo, diga-se. Qualquer resultado que não causasse mortos nem feridos muito graves seria sempre bom. Os maiores receios não se verificaram, apesar de algumas escaramuças de rua.

Mas se o empate acalmou as hostes (se tivesse ganho alguém, não sei), traria resultados desportivos negativos a curto prazo. A favorita Rússia perdeu com a sofrível Grécia e os checos impuseram uma derrota à Polónia (em Wroclaw, antiga cidade prussiana de Breslau, muito perto aliás da fronteira checa, pelo que estavam muitos milhares de adeptos desse país). O anfitrião e a talentosa selecção da Federação Russa, que tantas desgraças evocavam e que tanto receio causavam pelo choque dos seus adeptos, ficaram fora do torneio. A pólvora seca entre adeptos contagiou os jogadores. Quem diria...

segunda-feira, abril 12, 2010

Uma nação trágica

O desastre aéreo que vitimou Lev Kaczynski, a sua mulher, o estado-maior polaco, o presidente do Banco da Polónia e inúmeras figuras de relevo, entre as 98 que pereceram, é mais uma das muitas tragédias que ensombram aquele país. Desaparecida por várias vezes, retalhada pelos vizinhos, local de campos de extermínio e pogroms, planície esmagada pela invasão nazi e a contra-invasão soviética, a Polónia sempre sofreu os maiores horrores a que a humanidade se dedicou. A comitiva polaca ia homenagear as vítimas de Katyn, setenta anos após essa outra desgraça polaca, em que os soviéticos assassinaram a tiro mais de vinte mil oficiais e civis polacos. Um erro humano, alguma inadvertência e as condições climatéricas consumaram o desastre. Assim desapareceu boa parte da elite da Polónia, muito perto do local onde iam homenagear esses outras membros de outra elite, de outro tempo. Como disse o ex-presidente Knaswievski, Katyn e a sua envolvente são malditos para os polacos.


Não era admirador de Kaczynski, da sua política de caça às bruxas (em conjunto com o seu gêmeo Jaroslav), que persrguiu gente tão insuspeita como Bonislw Geremek, ele próprio desaparecido recentemente num desastre de viação, e até Walesa, e do seu eurocepticismo, olhando sempre para a Europa (sobretudo a Alemanha) e a Rússia como inimigos, embora a história a isso aconselhasse. Mas um fim assim, em tais circunstâncias e naquele lugar, não deixa de chocar pela coincidência. Como é óbvio, já surgiram as teorias de conspiração apontando para a Rússia. Não creio que os russos estivessem minimamente envolvidos nisto. Mas o contexto e os envolvidos ajudam. Os caçadores de teorias conspirativas devem esfregar as mãos de contentes. E a Polónia soma mais uma tragédia à sua história, da qual, mais do que qualquer outro país, sobejam tragédias humanas.