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terça-feira, julho 30, 2019

Um ano quente na Albânia


Ultimamente os Balcãs não têm sido notícia na comunicação social portuguesa, e a Albânia menos ainda. O pequeno país encravado pela Grécia, pelo que restou da ex-Jugoslávia (incluindo um prolongamento étnico chamado Kosovo) e pelo Adriático raramente é referido em Portugal. Era-o quando os partidos maoístas o viam como "farol do socialismo", quando houve a rebelião de 1997, a guerra no Kosovo ou quando a sua selecção de futebol venceu Portugal em Aveiro, em 2014, no arranque da qualificação para o Europeu de França, causando ondas de choque que levaram à demissão de Paulo Bento e à contratação de Fernando Santos (e consequentemente, à vitória no Euro, por isso, um agradecimento especial à equipa albanesa).

Apesar de continuar a ser um pouco obscuro, o país tem uma localização geográfica de relevo (nos vários sentidos da palavra, já que grande parte do território é montanhoso), nos Balcãs ocidentais, e a uns cem quilómetros, do outro lado do Adriático, a Itália. Aquele território, à primeira visto discreto, dividido anteriormente entre o Epiro e as tribos Ilírias, tornou-se uma peça importante do Império Romano, do ocidente como do oriente, antes de se dividir entre vários pequenos potentados, ocasionalmente unidos. Seguiu.se a invasão turca, apesar da furiosa oposição de Skandeberg, e a rivalidade com Veneza no litoral. Durante séculos, os albaneses ocuparam importantes cargos administrativos no império otomano, chegando a vice-reis e depois a reis do Egipto, só sendo destronados por Nasser. Até 1912 foram possessão dos turcos, ano em que alcançaram a independência, na guerra dos Balcãs, com a hostilidade dos vizinhos sérvios, montenegrinos e gregos, já que eram o único país de maioria muçulmana. Seguiram-se a Primeira e Segunda Guerra Mundiais, muita instabilidade, república e depois monarquia, a invasão italiana e o auxílio alemão e a expulsão de ambos pelos partisans comunistas, que tomaram o poder. O novo regime, liderado por Enver Hoxha, embora não dependesse da URSS, exaltava Estaline, e aquando da desestalinização de Krushov rompeu com os soviéticos, virando-se para a China, a qual também abandonou depois desta estabelecer ligações com os EUA. Era absolutamente dependente da liderança dogmática de Hoxha e tornou-se um estado isolado e empobrecido, quase sem relações diplomáticas, repressivo e nacionalista ao máximo, mantido pela paranóia da hipotética invasão jugoslava ou grega, o que levou à construção de milhares de mini-bunkers por todo o país. Tornou-se também num estado oficialmente ateu, em que qualquer demonstração religiosa era severamente punida.

Hoxha morreu em 1985, e o regime começou a amolecer, mas só depois das grandes manifestações de 1991 é que caiu definitivamente, tornando-se numa democracia parlamentar. Mas sofreu inúmeros sobressaltos, com a complicada passagem de um sistema comunista maoísta rural para uma economia de mercado, o colapso da economia em 1997, que levou a dois meses de guerra civil e ao domínio de vastas partes do território por gangues e milícias várias, e a guerra do Kosovo, com milhares de kosovares albaneses a fugir para lá e o temor de uma invasão sérvia. A partir do ano 2000, a situação política e social melhorou consideravelmente, e o país pediu a adesão formal à UE.

Mas as suas particulares circunstâncias têm agitado a política local. Dois partidos dividem a chefia de governo: o Partido Democrático, de centro-direita, europeísta, que surgiu como alternativa quando o regime comunista ruiu, mais popular no Norte, e o Partido Socialista, de centro-esquerda, herdeiro directo do antigo partido único convertendo-se à pressa á social democracia, com mais apoio no Sul. É este que se encontra actualmente no poder, desde 2013, com Edi Rama como primeiro-ministro. Rama teve um percurso pouco usual para um político de carreira: formou-se em belas-artes, viveu como pintor e escultor em Paris, expondo algumas vezes as suas obras, e jogou basket (mede perto de dois metros). Entrou depois para a política, e como presidente da câmara de Tirana mudou a cidade, com novos planos urbanísticos e ordenando que se pintassem os deprimentes prédios dos tempos comunistas com cores garridas. Acabou por perder a cidade para Lulzim Basha, mas, como líder do Partido Socialista, ganhou as legislativas seguintes, tornando-se primeiro-ministro, e voltou a ganhá-las há dois anos. Quanto a Basha, tornou-se por sua vez líder da oposição.

Foram precisamente as eleições de 2017 que ajudaram a despoletar as manifestações que desde o início do ano se organizam contra o governo. Acusam Rama de estar mancomunado com o tráfico de cannabis (cujas plantações abundam no país) e de ter falsificado boa parte dos votos que lhe deram a vitória, em conluio com os grupos de traficantes. Mas acusam-no igualmente de estar a recuar naquilo que fora uma das suas promessas mais veementes: o cumprimento de metas para a adesão futura à União Europeia, por pressões de Vladimir Putin.

Um dos grandes objectivos de Putin é o de impedir novas adesões à UE, se não puder enfraquecê-la e desagregá-la, como com o Brexit. Assim, tem feito pressão ou usado subterfúgios para adiar ou impedir novas entradas. Tendo em conta que os estados que pediram a adesão se encontram nos Balcãs, incluindo a sua tradicional aliada Sérvia (que alguns temem que possa ser um cavalo de Tróia da Rússia), Putin tudo fará para não perder a sua influência naquela zona, sobretudo nos países ortodoxos, com os quais tem uma estreita ligação cultural.

Por isso mesmo a oposição tem-se manifestado não somente com as bandeiras da Albânia mas também com as da UE, Estados Unidos e Alemanha, para realçar o seu sentimento pró-ocidente. As eleições municipais de fins de Junho foram boicotadas e só o Partido Socialista é que participou. As manifestações na rua, muito concorridas, sobretudo em Tirana, tanto têm sido pacíficas como têm alguns picos de violência, como aconteceu em Maio. Além das bandeiras, exibem-se cartazes apelando à demissão do governo, com imagens comparando Rama a Enver Hoxha ou colocando-o entre os líderes comunistas clássicos. Basha, o líder da oposição, costuma liderar estes movimentos e discursar aos manifestantes. Têm como grito de guerra "Rama Ik (fora, ou sai)", clamado até à exaustão exigindo a demissão do governo, que acusam de ser ilegítimo, e a convocação de novas eleições. Mas Rama não cede, acusa a oposição de conspirar e de produzir calúnias contra ele, e usa as suas armas, como a de que em alguns relatórios da UE consideraram o sistema judicial albanês, com inúmeros juízes colocados pelo Partido Democrático, altamente corrupto e viciado.

Se é certo que a prática da corrupção e do banditismo são correntes no país, já é mais difícil saber se o actual governo tem sabotado os seus próprios esforços para a aproximação à UE. Rama viveu em França e um dos objectivos que tomou a cargo é o de uma futura adesão, apoiando também a entrada na NATO, entretanto já concretizada (quem diria há uns anos, a Albânia na NATO...). À partida, todos deveriam querer esse rumo. Mas as jogadas e chantagens dos russos são infindas, como já se viu, e embora a Albânia não seja o parceiro privilegiado nos Balcãs (até porque há o Kosovo, na prática uma criação americana), não é de excluir que tenham sido utilizados métodos menos claros. Pelo menos são essas as acusações da oposição, que disso se aproveita para vincar os seus galões pró-ocidentais. Em todo o caso, o clima político no país está bastante tenso, quase de insurreição. Os próximos meses poderão revelar se as coisas acalmam ou se se complicam ainda mais, mas até ver, só prejudicam o cumprimentos dos critérios de adesão à UE.








sexta-feira, julho 20, 2018

Vitórias e derrotas simbólicas no Mundial


Acabou há dias o Mundial da Rússia. Vai deixar saudades, até porque o próximo vai decorrer no Qatar, sabe-se lá em que condições. Aparentemente o Mundial correu bem aos país anfitrião. Houve transportes terrestres de graça para os adeptos, tal como prometido quando a Rússia ganhou a organização do evento, grandes festas e animação, e hooligans e pancadaria nem vê-los, como também já se previa. O país ficou mais bem visto e até a equipa russa, envelhecida e sem novos grandes talentos, progrediu para além do que se esperava, tendo deixado a candidata Espanha pelo caminho. O presidente da FIFA disse mesmo que tinham sido "o melhor Mundial de sempre", mas pode ser uma daquelas frases feitas que se usam sempre nestas ocasiões (na altura também disseram que Portugal tinha organizado "o melhor Euro de sempre"). De qualquer das maneiras, Vladimir Putin tem razões para sorrir, mas os fundos gastos por vezes com grande derrapagem orçamental haviam de produzir frutos. Os únicos espinhos foram os mais simbólicos: as quatro selecções semifinalistas foram de países cujos regimes - os de Londres, Paris, Bruxelas e Zagreb - não se dão particularmente bem com o de Moscovo, seja por razões conjunturais, políticas ou históricas. Assim, fico a pensar por quem é que os russos terão torcido, ou querido mais que perdesse. Mas talvez se tivesse havido um Rússia-Inglaterra, tendo em conta o momento presente, essa dúvida seria provavelmente desfeita.

Mas nisto do simbolismo houve um país que ficou mesmo a ganhar - além de reconquistar o troféu principal e voltar a vencer finais: a França. É que depois de tantas piadas à Alemanha pela sua eliminação prematura na fase de grupos (das quais a mais corriqueira era "Pela segunda vez na história, a Alemanha volta a ir mal preparada para a Rússia"), havia que relembrar o óbvio: que a França triunfou enfim em Moscovo, sem precisar de bater em retirada, e fogo, se o houve, foi só o de artifício - aparentemente houve mais chuva. Tinha de ser no Verão, claro. Lá do seu enorme túmulo, Napoleão pode repousar em paz.
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sexta-feira, março 16, 2018

A triste ironia de Salisbury


A confirmarem-se todas as suspeitas do envenenamento por parte de agentes russos (uma velha tradição, bem anterior a Litvinenko) do antigo agente Sergei Skripal, um exilado russo no Reino Unido (outra tradição, embora o inverso também o seja, como Kim Philby bem demonstrou), e da sua filha, haverá com toda a certeza um sério incidente diplomático entre o Reino Unido e a Rússia, que aliás tem este fim de semana uma tranquilas eleições onde por coincidência o principal opositor a Putin não concorre por estar preso (e ainda teve sorte: outros acabaram baleados no meio da rua).


Mas mais que isso, restará uma ironia amarga: é que o crime deu-se em Salisbury, uma pequena e bonita cidade inglesa com uma imponente catedral onde repousa um dos quatro exemplares - e o mais bem conservado, pelo que podemos dizer que é o principal - da Magna Carta. E assim, numa cidade que guarda um documento fundamental do moderno estado de direito terá ocorrido uma crime mais próprio de tiranias e de estados totalitários.
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sábado, fevereiro 04, 2017

Estaline como nova moda

 
Nos últimos dias, e por toda a parte, podemos encontrar a cara laroca de Estaline. Biografias distribuídas pelo Expresso, livros sobre os seus últimos dias, documentários na televisão, séries, ensaios, filmes (com o Depardieu a protagonizar e realização de Fanny Ardant tendo como cenário de fundo...o Buçaco)...Mas se não há nenhuma efeméride a comemorar - excepto os cem anos das revoluções russas - porque é que se desatou de repente a recordar tanto o "pai dos povos"? Para contrapô-lo a Hitler? Já passou demasiado tempo e é uma figura meramente histórica? Ou por causa desta vaga de autoritarismo? Estaline pode estar de certa forma na moda, mas nada explica o porquê deste interesse súbito pelo paranóico georgiano que dominou o Kremlin e o maior país do Mundo durante 30 anos.
 
 

quarta-feira, dezembro 02, 2015

O neo-czar e o neo-sultão


Sobre a actual tensão entre a Rússia e a Turquia por causa do abate do avião daquela por esta entre as fronteiras turca e síria, e a morte de um dos pilotos russos, supostamente responsabilidade de uma milícia pró-turca que combate Assad (e por isso a Rússia), para lá das violações de espaço aéreo, de um eventual crime de guerra, da troca de acusações, das sanções russas - que se poderão repercutir no turismo - e dos interesses de cada um dos países no teatro sírio, retém-se sobretudo uma confirmação: Putin e Erdogan são dois autocratas que admitem muito pouca oposição e que têm ambições nacionalistas que pretendem restaurar, na devida medida e com as devidas adaptações, os tempos gloriosos dos antigos impérios russo e otomano. Sem se expandirem territorialmente mas alargando a área de influência. E apoio popular nos respectivos países não lhes falta. O neo-czar há muito que o demonstra, e a crise da Ucrânia é a melhor prova. O neo-sultão, afirmando-se progressivamente como a potência mais sólida no Médio-Oriente, a par do Irão, também tem dado provas sobejas, e o alargamento dos poderes presidenciais deverá ser o próximo passo. Recordar também que a Crimeia, anexada pela Rússia no ano passado, mantém uma importante minoria de tártaros aos quais a Turquia dá um discreto apoio. E que a saída dos russos do Mar Negro passa necessariamente pelo estreito do Bósforo e pela velha Constantinopla. 


terça-feira, março 24, 2015

Um ano depois de Maidan, a Rússia ainda ficou mais voraz

 
Há coisa de um ano, a Rússia concretizava o plano de se reapoderar da Crimeia. Através da ocupação de pontos-chave por parte das tropas estacionadas em Sebastopol, com a ajuda de reforços vindos da Rússia (que tacticamente escondiam a identificação) e de milicianos locais, cercaram as forças ucranianas estacionadas na península, proclamaram a autonomia da região e organizaram um "referendo" (ou antes, um plebiscito) que resultou na "independência" e posterior anexação pela Rússia. Com pompa e circunstância, e discursos nacionalistas, proclamou-se que "a Crimeia tinha voltado a casa". A Ucrânia reagiu, a maior parte dos países condenou a manobra e não reconheceu a Crimeia como parte integrante da Rússia, mas o certo é que nada mudou e até já avançam os planos para a construção da ponte sobre o estreito de Kerch, que ligará a Crimeia ao resto da Rússia.

 Meses depois, iniciou-se a operação que visava subtrair à Ucrânia as suas regiões orientais. As regiões de Luhansk e Donetsk foram em grande parte ocupadas (incluindo as cidades-sede) por rebeldes separatistas, com apoio mal dissimulado das forças russas, e o resto é o que se sabe. Guerra sem fim à vista, apenas intervalada por efémeros cessares do fogo. As regiões permanecem ocupadas pelos separatistas, mais de um milhão de pessoas fugiu para os países da sua preferência, conforme fossem russófonos ou leais à Ucrânia, morreram mais de cinco mil, e destruíram-se infraestruturas quase novas e que tinham tido um custo avultado, como o recentíssimo e moderno aeroporto de Donetsk. E enquanto os combates, que na realidade nunca pararam, não aumentam de intensidade, com a mais que previsível carga dos separatistas sobre a cidade portuária de Mariupol (cuja conquista lhes facilitaria a ligação terrestre à Crimeia), permanece um tensão pouco tranquilizadora.

Entretanto, a Rússia assinou um acordo de integração com a Ossétia do Sul, o que na prática significa a anexação daquele território arrancado à Geórgia.

Ou seja, os efeitos da Revolução de Maidan resultaram não no reforço da Ucrânia, apesar da expulsão dos governantes pró-russos, mas na expansão da Rússia e dos seus títeres, na Crimeia, na bacia do Don e no Cáucaso. Bem pode a NATO condenar todos estes avanços: sem prova de força, nada obsta a que a Rússia efective estas ocupações. Se bem que pode ver a Ucrânia escapar-se ainda mais e tornar-se, a prazo, um membro da NATO. Eis como os despojos daquele país serão divididos.

Enquanto isso, em Moscovo, no último mês, assassinaram o líder político da oposição, Boris Nemtsov, antigo vice-primeiro ministro, junto ao Kremlin, em mais um acto nebuloso e sangrento envolvendo tiros. As suas exéquias fúnebres levaram à maior manifestação contra o governo, bastante superior à que uma semana antes tinha levado à rua os apoiantes de Putin na sua guerra contra a Ucrânia. Nunca antes se tinha visto uma tal demonstração de força contra o "czar" republicano de quase todas as Rússias. Este, embora garantisse que iria proceder a um inquérito para a averiguar a morte de Nemtsov, condecorou poucos dias depois o principal suspeito do assassínio de Alexander Litvinenko, em Londres, em 2006, por envenenamento. Que ocorreu quase ao mesmo tempo e nos mesmos lugares que a tentativa de fazer o mesmo a Yegor Gaidar, o antigo primeiro ministro liberal da Rússia, que escapou por pouco. Ingenuidade ou uma provocação grosseira de Putin?

Assim vão as Rússias e os seus antigos apêndices.

quarta-feira, dezembro 31, 2014

Curiosidades e ironias que 2014 nos mostrou



Ao cair do ano olhemos rapidamente para outros pontos do globo. Para a Ucrânia, por exemplo, um dos países mais falados em 2014. E para a Rússia dos últimos tempos. Por muito hábil que seja o jogo de Vladimir Putin, a verdade é que os dias do presidente russo não estarão a ser muito calmos (ninguém sabe o que está para vir). E certamente não foram nada agradáveis naquele fim de semana de 22-23 de Fevereiro, em que viu o governo do seu aliado Viktor Yanukovitch a cair na Ucrânia. É certo que lhe permitiu anexar de facto a Crimeia e espalhar a desordem no Leste e Sul dos vizinhos, mas provavelmente preferiria, para já, que o anterior presidente se mantivesse em funções.

A verdade é que o derrube do anterior presidente coincidiu com o encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, para os quais a Rússia não se poupou a gastos nem dispensou espectáculos visuais impressionantes nem uma segurança apertadíssima, por causa dos recentes atentados em Volgogrado. Até então, a vida corria bem a Putin: a Rússia marcara pontos e ganhara legitimidade moral internacional no conflito da Síria, as Pussy Riot e Mikhail Khodorkovsky foram indultados, amaciando a dureza do regime russo, e os jogos correram bem, sem nenhum incidente e com comemorações em grande. Só uma pedra no sapato: naquele preciso fim de semana, o amigo Yanukovitch era derrubado e substituído por um governo interino adverso à Rússia. E as coisas começaram a descambar precisamente aí. O período de graça de Putin acabou aí (fora da Rússia, porque lá dentro a sua popularidade só aumentou).


Mas o aspecto simbólico que gostava de mostrar é outro, e permaneceu na festa de Sochi. Nas cerimónias de abertura, destacou-se o conhecidíssimo Coro do Exército Vermelho, a cantar uma divertida versão de Get Lucky, dos Daft Punk, uma das músicas mais tocadas dos últimos anos nas pistas de dança de todo o Mundo. Um espectáculo com piada, e que é um hino à globalização: um grupo de rapazes russos a cantar, numa cerimónia internacional no litoral do Cáucaso, uma música em inglês da autoria de um duo francês, um dos quais com apelido português.

E é precisamente daqui que vem a outra curiosidade: o elemento de origem lusitana é Guy-Manuel de Homem-Christo, francês de terceiro geração, trineto do jornalista e polemista republicano Homem-Cristo (pai), reconhecido na toponímia aveirense, e bisneto de Francisco Homem Cristo (filho), que se destacou por ter sido o primeiro grande intelectual e propagandista do fascismo em Portugal, e cuja biografia política, Do Anarquismo ao Fascismo, e da autoria de Miguel Castelo Branco. De tal maneira ganhou a confiança de Mussolini que se tornou logo um dos principais "embaixadores" do duce para espalhar a nova doutrina pela Europa, e mesmo para organizar um congresso do fascismo em Itália. Morreu em 1928, em Roma, num desastre de automóvel, no decurso dessas actividades políticas, quando já vivia e tinha família em França.

O irónico disto tudo é que provavelmente o Coro do Exército Vermelho, surgido como o próprio nome indica, no tempo da União Soviética, não imaginaria sem dúvida estar a cantar uma música da autoria do bisneto de um notório propagandista do fascismo, inimigo mortal (ou outra cara da moeda?) da URSS. E com toda a certeza Homem Cristo Filho, admirador e defensor do fascismo italiano, jamais pensou que um seu descendente directo comporia músicas em inglês que seriam cantadas pelo coro do Exército Vermelho. Não seria essa, com certeza, a divulgação que pretenderia, mas o certo é que um seu descendente com o seu nome acabou por se tornar mundialmente conhecido pela sua música, e não certamente pela sua ideologia política 8nem pela sua cara, já que o duo há anos que só aparece em público mascarado).

Bom 2015 a todos.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Que 1939 não se repita em 2014


Aquelas imagens dos soldados ucranianos prisioneiros em Donetsk, seguindo numa parada organizada propositadamente para respnder às comemorações da independência da Ucrânia e para os humilhar, sob uma escolta de milicianos de baionetas em punho enquanto a populaça os insultava ou fotografava com os telemóveis, é bem demonstrativa dos valores dos separatistas e dos russos que os apoiam. Além de pouco consentâneas com as leis dos prisioneiros de guerra, evocam as paradas que Estaline realizou com prisioneiros alemães, com o expressivo acto de porem um camião a lavar as ruas atrás das suas pegadas, como se fossem sub-humanos. É uma boa expressão da cultura semi-bárbara da Rússia, cuja natureza continua igual ao que era há séculos. Não esquecer igualmente que têm o apoio de brigadas de sérvios e caucasianos, autores de crimes de guerra, e que o seu "ministro da defesa", Strelkov, é ele próprio um russo acusado de actos pouco limpos nesses cenários de guerra.




Em tempos de evocação de guerras, convém também lembrar que não só passaram cem anos do início da 1ª Guerra Mundial, mas também 75 da invasão da Polónia pela Alemanha. Depois do Anchluss da Áustria e da anexação da Checoslováquia com o pretexto dos povos dos Sudentenland estarem em perigo, uma falsa provocação deu o pretexto para que os panzer entrassem pela Polónia dentro. Isto sempre sob a premissa de que ou era por vontade dos povos germânicos anexados, ou que estes estavam ameaçados pelos seus vizinhos. Em 2014 verificámos, no seguimento da mudança do poder em Kiev, a anexação da Crimeia por parte da Rússia com um referendo muito pouco transparente (tal qual como na Áustria em 1938), a tomada de boa parte dos territórios das regiões da bacia do Don por separatistas pró-russos, auxiliados por mercenários estrangeiros e por tropas russas mal disfarçadas, e a ameaça da Rússia de intervir caso os "seus" fiquem em perigo ou as suas fronteiras sejam ameaçadas. Não por acaso a URSS assinou o pacto Molotov-Ribentropp com a Alemanha, permitindo que esta entrasse na Polónia, enquanto os soviéticos faziam o mesmo do outro lado e ainda atacavam a Finlândia. Claro que a Rússia de hoje não tem os níveis de fanatismo e demência do 3º Reich de 1939, nem procura criar um Super-Homem (a não ser que esse seja Putin). Mas prossegue na senda do seu sonho eurasiático, que inclui a "nova Rússia", no Sul, e por isso estende uma teia em que oficialmente não intervém no conflito da bacia do Don, mas de facto propaga-o e manobra os cordelinhos de uma parte. E trazendo, como se viu na estranha parada de Donetsk, recordações margs de tempos idos.

quarta-feira, maio 14, 2014

Quando os czares estavam virados a Oriente



Apesar de tudo o que atrás disse dos métodos da Rússia, não é por isso que vou deixar de aconselhar uma visita à Gulbenkian, a quem esteja ou passe por Lisboa até ao próximo dia 18 de Maio, para ver a exposição Os Czares e o Oriente. na sua primeira mostra na Europa fora do Kremlin. Entre os testemunhos das antigas relações da Moscóvia com o Império Otomano e a Pérsia, para estreitar as relações comerciais e permitir novas vias de comunicação entre a Europa mais a Leste e a Ásia, encontram-se objectos de beleza exótica, nunca antes vistos por aqui. Sabres, armaduras, escudos e outros utensílios de guerra, tecidos, paramentos, arreios, selas, caixas várias, e mesmo ícones antiquíssimos e valiosíssimos, muitas foram as ofertas das cortes otomana e persa aos senhores do Kremlin, entre os séculos XIV e XVII, testemunhando as boas relações que tiveram até Pedro, o Grande se virar para Ocidente. Um conjunto belíssimo de obras de arte e de ostentação de quem os possuía, revestidos de pedraria preciosa, obra de grandes artesãos tártaros, russos, turcos e persas. Quem não viu deve fazê-lo se puder, rapidamente. E aproveitar o fim de semana dos museus, em que muitos deles estarão abertos ao público.






sexta-feira, março 21, 2014

Depois do plebiscito



E pronto, está concretizada a separação da Crimeia depois do plebiscito (e não referendo, como insistem em chamar-lhe) instituído pela Rússia e pelos seus acólitos em Simferopol. As milícias sem emblema e os deputados do parlamento local cumpriram bem o seu papel. Impedindo, na prática, a campanha a favor da Ucrânia, intimidando todos os que a apoiassem, cortando o sinal aos canais televisivos ucranianos, enchendo aldeias e cidades de cartazes pró-russos, impedindo a fiscalização a observadores estrangeiros, levaram ao boicote do plebiscito por parte dos ucranianos e tártaros através da ameaça e de agit-prop maciço.  Agora, depois do resultado esmagador a seu favor, a Crimeia pede para se tornar uma república autónoma russa e a Grande Mãe, generosamente, acolhe-os no seu seio. Tanto a assembleia regional como a Duma não perderam tempo em "cumprir" as respectivas formalidades para que isso acontecesse, e Putin realizou um par de discursos irredentistas, um na Duma e outro na Praça Vermelha, para gáudio da multidão, falando no "regresso da Crimeia". Já na península, os apoiantes da nova situação festejavam nas praças, como se um festival se tratasse. Os opositores recolheram-se, temendo represálias.


Entretanto, já duas bases ucranianas na Crimeia foram tomadas, o Comandante da marinha ucraniana detido (mas liberto pouco depois) e Kiev iniciou manobras na região leste do país, onde milícias pró-russas foram avistadas. Fala-se em desordens provocadas nessa zona, de forma a dar novos "pretextos" para intervenções. Putin é ambíguo, dizendo que não precisa que a Ucrânia se divida e que "Kiev é uma cidade sagrada para os russos".

O momento não é para graças. A NATO não que de forma alguma abrir hostilidades, mas não vai deixar que haja novas intervenções russas naquele território. Prometem-se sanções, mas no imediato as mais contendentes podem vir da própria Ucrânia, com a interrupção da energia à Crimeia. Tempos complicados, naquelas paragens.



Apesar de tudo há mais gente a querer ir para a Rússia, e nem todos têm lá raízes: André Villas Boas confirmou oficialmente que será treinador do Zenit de S. Petersburgo. Depois das passagens falhadas por Londres, era de esperar que fosse para um clube mais pequeno. Afinal, escolheu um clube com um balneário difícil e muito dividido, com várias estrelas de feitio complicado e com um patrocínio da maior companhia de fornecimento de gás do mundo, que por certo quer que os seus enormes investimentos financeiros se transformem em ganhos desportivos. Ou quebra a malapata dos últimos anos ou, o que é mais provável, acumula mais um fiasco e vê a carreira seriamente comprometida.

terça-feira, março 04, 2014

A 2ª guerra da Crimeia?



À crise na Ucrânia sucedeu a crise na Crimeia, que alguns já consideram como sendo estado de guerra. Com a alteração do estado de coisas em Kiev, boa parte da população da península, afecta aos russos, iniciou um contra-movimento, erguendo a bandeira russa onde podia, fazendo valer a sua maior ligação a Moscovo do que a Kiev. Na confusão que se seguiu, conseguimos ver manifestações e combates de rua entre tártaros da Crimeia, herdeiros do Kanato que ali reinou até ao século XVIII e que Estaline tentou exterminar, contra cossacos locais, que nos leva a perguntar se fomos transportados para a época de Catarina, a Grande ou o romance Miguel Strogoff.


As últimas notícias são confusas, mas muito pouco animadoras: grupos paramilitares a ocupar edifícios administrativos em Simferopol, com o governador local a declarar fidelidade ao "povo da Crimeia". A Duma de Moscovo a autorizar por unanimidade o emprego de tropas na região para "proteger os russos que aí habitam". Forças russas (não só da Marinha, da base naval de Sebastopol) a tomar posição, sendo já 22 mil - a Rússia pode ter efectivos até 25 mil homens na península, segundo os tratados que firmaram a concessão da base naval da frota do Mar Negro. Cerco dessas tropas a bases ucranianas, e mesmo um ultimato para se renderem (fontes russas já desmentiram). O comando naval ucraniano também a declarar a sua fidelidade ao "povo da Crimeia " (isto é, à Rússia). Manifestações pró-russas em várias cidades do Leste da Ucrânia, como Donetsk e Karkhov. Manifestações contra o envio das tropas em Moscovo, tendo resultado em trezentas prisões. Ou seja, a Rússia invocou o direito à protecção das suas populações para, de facto, ocupar militarmente a Crimeia. Não é muito diferente do que aconteceu em 2008, quando não hesitou em enviar os seus tanques e aviação para reprimir a Geórgia, sob o pretexto de proteger a Abkházia e a Ossétia do Sul. E se a Ucrânia se lembra de proteger os tártaros, esse povo das estepes asiáticas, tradicionalmente inimigo da Rússia, que já ali vivia há séculos e que em grande parte deportaram para a Sibéria depois da 2ª Guerra? 


Entretanto, os países da NATO ameaçam com sanções, a expulsão da Rússia do G-8, etc. Pouco poderão fazer mais, até porque além da França e Inglaterra, únicas nações europeias com real poder militar, e que decerto não quererão intervir, quem rechaçaria a Rússia? A Polónia? Roménia? Repúblicas bálticas? Claramente insuficiente. Obama e os ministérios dos negócios estrangeiros europeus devem estar a passar dias de angústia, só de pensar na hipótese de guerra. e não é para menos. 

Não é impunemente que se recorda a Guerra da Crimeia, em meados do século XIX, da invasão alemã da Checoslováquia para "proteger os Sudetas", do genocídio soviético ou da crise dos mísseis de Cuba. A Rússia assinou um tratado com a Ucrânia, em que se comprometia a respeitar a integridade territorial deste país em troca do arsenal nuclear que lá restava. Agora, prepara-se para rasgar esse acordo, para impedir a deriva dos ucranianos para o ocidente, depois de derrubarem o cleptómano Yanukovitch (que, coincidência, se refugiou em Rostov). Confiam no seu poderio militar e nos muito apoiantes que têm no leste e sul da Ucrânia, sobretudo na Crimeia. Mas também podem pôr o pé em falso. Aliás, ainda hoje a bolsa de Moscovo registou uma descida vertiginosa. O urso russo tem garras afiadas, mas algum barro nos pés.

Talvez o mais óbvio fosse a Crimeia  fazer parte da Rússia (assim como a Bielorússia, ou Kalininegrado/Konigsberg na Alemanha) mas a "dádiva" de Krushev nos anos cinquenta, quando a URSS parecia eterna, a confusão da desagregação em 1991 e a incompetência dos russos em conseguir mantê-la determinaram no mapa que pertenceria à Ucrânia. Esperemos que nos próximos dias não rebente um real conflito armado nessa zona balnear, habitual estância de Verão do Mar Negro, que teria consequências funestas. E ninguém sairia a ganhar, mesmo que vencesse militarmente.

Para acompanharmos a situação, podemos ler o blogue Da Rússia, de José Milhazes, e as reportagens de Paulo Moura na Crimeia, entrevistando russos e tártaros.


PS: uma dúvida importante era qual seria o papel da Turquia, membro da NATO e ocupante da margem Sul do Mar Negro, em todo este caso. Rui Tavares esclarece-nos, num artigo desta semana: os turcos estão solidários com os tártaros da Crimeia. muita atenção a esta potência que provavelmente, e na senda do "neo-otomanismo" de anos recentes, quererá dar uma palavrinha em todo este caso.

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

O que se segue na Ucrânia


Afinal a Ucrânia não entrou em guerra. O descontrolo da situação e a ameaça de mais violência levaram a que as forças de segurança parassem por ali. E com a ocupação do parlamento, Ianukovitch resolveu fugir enquanto era tempo. Depois, a libertação de Yulia Timoshenko, as comemorações de vitória na praça Maidan (a Tahrir dos ucranianos), as homenagens aos mortos e a declaração de exoneração do presidente pelo parlamento. Não é uma Bósnia, mas tal como já tinha dito, assemelhou-se bastante à Roménia em 1989, com protestos em massa, inúmeros mortos provocados por atiradores do regime, a fuga do presidente de helicóptero (o meio de transporte de ditadores/estadistas de saída) e a descoberta do luxo asiático em que vivia, com casas de campo monstruosas, torneiras em ouro, frotas de carros de alta cilindrada, provas irrefutáveis de nepotismo em favor dos filhos, etc. A única coisa que difere da revolução romena é que desta vez não houve aquela parte mais sangrenta dos fuzilamentos.

Mas embora estejam eleições gerais previstas para Maio, a situação está muito, muito longe do fim. Outras partes do país não estão muito pelos ajustes. Na Crimeia, outrora dos russos, têm-se multiplicado manifestações contra a nova situação e a favor do grande vizinho. E embora o boato de que a Rússia já teria enviado tropas especiais para aquela península do Mar Negro seja pouco crível, há que não esquecer que a sua frota tem a principal base em Sebastopol, concessionada pela Ucrânia por mais trinta anos, e que certamente não vai deixar que a situação fique assim. Aliás, as últimas informações dizem-nos que Ianukovitch, depois de tentar apanhar um avião em Donetsk, teria embarcado num navio (ou seu iate ou um navio russo, não se percebe bem) nesta cidade-base naval.


Como se vê, o futuro da Ucrânia, apertada num colete de forças geopolítico, é mais incerto do que nunca. a única coisa mais ou menos pacífico é que Ianukovitch, expulso pela população que entretanto descobriu a sua "caverna de Ali babá", desprezado pelo próprio partido pela sua deserção e criticado pelos russos pela sua incompetência, não voltará certamente à cadeira presidencial

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Depois dos protestos, a guerra declarada


Há uns dias dedilhei um post sobre o discreto apagamento da crise ucraniana dos noticiários e jornais. Escrevi cedo demais. O conflito ressurgiu com violência inaudita, e a estas horas, o número de mortos, só os de hoje, chega aos 75, entre civis e polícias. Aquilo que eram protestos inflamados transformou-se numa pré-guerra civil, com barricadas, mortos e feridos e ocupações de edifícios governamentais por todo o país (ou melhor dizendo, pelo ocidente do país). A população de Kiev e do lado ocidental, pró-europeia e tradicionalmente desconfiada do grande vizinho russo, com activistas radicais à mistura a incendiar a situação, quer o derrube do governo e o afastamento da Rússia. Claro que o país de Putin, que pensa em restaurar a sua zona de influência no antigo espaço da URSS através de uma nova comunidade por si chefiada, nunca poderia permitir uma Ucrânia com relações especiais com a UE e a NATO. Bem lhe bastou perder as repúblicas bálticas e os antigos satélites do Pacto de Varsóvia (que exibem orgulhosamente a sua pertença àquelas duas organizações) para agora perderem também a Ucrânia, afinal o berço da Rússia, presidida por um notório pró-russo.

Entre os manifestantes há inúmeras milícias semi-armadas, militantes do partido radical Svoboda ou neonazis declarados, que queimaram edifícios governamentais e pilharam a sede do Partido das Regiões, no poder. Do lado governamental fala-se em snipers instalados nos telhados do centro de Kiev e de milícias formadas por arruaceiros e recrutadas na Crimeia, região pró-russa, onde o partido comunista local, nostálgico da URSS, defende a união com a Rússia e a Bielorrússia. Com todo esse caldo, não é difícil de imaginar que a situação só muito dificilmente se acalmará. Já houve previsões de que a Ucrânia seria "a nova Bósnia". Não é descabido. A Rússia seria neste caso a Sérvia (ainda para mais um país com quem tem fortes laços culturais), Kiev a nova Sarajevo, a parte russófona a República Sprska e a parte ocidental faria o papel de Bósnia muçulmana-croata. Com a diferença de que as dimensões seriam neste caso muitíssimo maiores e as baixas incontáveis. Além disso, estes protestos em massa e a reacção das forças policiais recordam também a violenta revolução da Roménia, em 1989.


Esperemos que nem Bósnia nem Roménia se repitam. No último século, a Europa já produziu mais horrores do que os que é capaz de assimilar. Uma guerra civil, nas fronteiras da União Europeia, teria resultados tremendos e incertos, para além das perdas de vidas. Sendo optimista, prefiro acreditar que é uma crise efémera, como a que aconteceu há uns vinte anos na Rússia, e que não durará muito mais. Podiam era aproveitar para dividir o país, como fizeram com a Alemanha, ou melhor ainda, com a Checoslováquia, e teríamos uma Ucrânia ocidental e outra oriental. Só que desta vez, e ao contrário do que aconteceu com os alemães, os respectivos habitantes até deviam aplaudir.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Já se esqueceram da Ucrânia?


Por falar na Europa e na UE, dir-se-ia que depois de dias de intensa cobertura jornalística a paz voltou a reinar na Ucrânia. Então e o braço de ferro entre Ianukovitch e os amotinados comandados por Klitschko e o seu partido, apropriadamente chamado Udar ("murro")? E as barricadas, desapareceram? Já se limparam as praças de Kiev? E os edifícios públicos tomados pelos revoltosos, já foram desocupados? A Rússia e o ocidente já chegaram a acordo sobre quem vai "influenciar" mais a Ucrânia? Ou será Rússia e EUA, já que para a diplomacia americana, e a julgar por um telefonema "informal" e privado da subsecretária de estado, a UE não conta?

É mais um dos assuntos que durante dias abre os telejornais e depois volta a cair no esquecimento ou a passar para as colunas mais escondidas das secções internacionais da imprensa. E no entanto devia preocupar toda a gente. O país está na linha de fractura da zona de influência União Europeia-Rússia, que a disputam como abutres sobre a carne morta. É vítima de chantagens, aliciamentos, experiências. Os russos não vão querer largar esta presa, antiga fatia de grande importância do seu território, que perderam com o estilhaçamento da URSS por culpa do seu plano chico-esperto em criar uma república autónoma que tivesse assento na ONU, ganhando assim mais um lugar. Os Estados unidos e a UE, com a Alemanha à cabeça, pensam cercar a Rússia e ganhar ali novo posto avançado em direcção à Ásia.


É difícil tomar partido por qualquer dos blocos, mesmo que de um lado pareça estar o bloco democrático e do outro um velho império autoritário, sustentado em gás natural. A parte oeste da Ucrânia, que em tempos constava do Império Austro-Húngaro, e Kiev estão vigorosamente do lado ocidental. Mas a parte leste, a bacia do Don e a Crimeia, lideradas pelos grupos de Donetsk, preferem o apelo da Rússia. São as duas Ucrânias que se enfrentam, a ocidental e a russa agora nas ruas, completamente divididas politicamente. A ironia trágica é que as duas principais potências que a disputam, a Alemanha e a Rússia, foram precisamente as que lhe trouxeram as maiores atrocidades no último século: os soviéticos nos anos vinte e trinta, nos quais milhões morreram de fome ou massacrados, os nazis nos anos quarenta, quando impuseram a sua brutalidade no avanço da Operação Barbarossa. Os ucranianos deviam fugir deles a sete pés, mas entalados que estão, só lhes resta ver qual a facção que vencerá, se é que tudo não passa de ciclos sucessivos e rotativos, em que ora ganha uma, ora ganha outra.

segunda-feira, julho 08, 2013

Para uma belíssima história de espionagem (real)


As histórias de espionagem têm sempre umas lascas de romance amoroso ou de humor. A da fuga de Edward Snowden para países pouco dados à liberdade de expressão, além de irónica, parece querer juntar uns pozinhos que a podem tornar ainda mais apetecível: agora é Anna Chapman, a "Mata-Hari russa", a sensualíssima espia presa nos Estados Unidos e recambiada para a Rússia numa troca de espiões, que se quer casar com Snowden para que este adquira cidadania russa que impeça qualquer extradição para os EUA. O americano, que está há vários dias na zona de trânsito do aeroporto de Moscovo, não se negou a este plano (e alguém o pode criticar?), que pode pôr fim à sua fuga. Chapman já tem uma história que seguramente dava um bom livro ou filme (rave partys e casamentos em Inglaterra, espionagem em Nova York, actividades na juventude do partido do poder na Rússia como recompensa, etc), e esta novidade promete um bom desenvolvimento. Espera-se que John Le Carré ou qualquer autor de semelhante gabarito se cheguem à frente para redigirem esta belíssima (como a protagonista) história de espionagem que já está praticamente escrita.
 
 
 
 
 

quinta-feira, março 21, 2013

Poderá Chipre ser o suicídio da União Europeia?


 

A insensata medida para taxar os depósitos bancários dos cipriotas sofreu um não consensual do parlamento da metade da ilha que pertence à União Europeia. Já era de esperar que não aceitassem essa imposição, mas a unanimidade na recusa de a acolher torna ainda mais visível o autêntico disparate que seria essa decisão do conselho de Ministros.

Não é só a medida em si, própria de um estádio totalitário que põe e dispõe das finanças dos seus cidadãos, que choca: a forma como a tomaram é quase patética, mas ilustra bem aquilo em que a UE se vem tornando. Uma decisão do que deveria ser um órgão colegial, na realidade tratou-se de uma imposição ao governo de Chipre dos ministros das finanças alemão e holandês, enquanto os outros membros homólogos do "Eurogrupo" entravam e saíam da sala, indiferentes (ou submissos?) à gravidade do que se estava a passar.

Sabe-se que Chipre deve o seu crescimento (ou a sua engorda) recente devido à zona franca, às condições fiscais e aos imensos depósitos que os oligarcas russos lá deixam. Um dos objectivos desta decisão era de diminuir a sua liberdade financeira, e ao mesmo tempo fazer pagar o resgate feito a Chipre através dos russos, sem consentimento da parte deles, claro está. O problema é que não somente se trata de uma imposição intolerável aos depositantes, que para além dos russos abrange os cipriotas com menos recursos, como vai contra resoluções anteriores que garantem depósitos até cem mil Euros. Cereja no cimo deste complicado bolo: Chipre acaba por pagar pelos danos colaterais que sofreu com o perdão parcial da dívida grega, outra decisão tomada pela UE. não somente é prejudicado por isso, como ainda de pagar os juros das decisões comunitárias.

A UE já está a arrepiar caminho, mas como se disse incessantemente nos últimos dias, o precedente está aberto. Com o autoritarismo que se verifica sobre os países com dívida excessiva e em dificuldades económicas, tudo se pode esperar. Chipre é uma meia ilha com menos de um milhão de habitantes, ali na ponta leste do Mediterrâneo, e o "Eurogrupo" pensou que podia impor as medidas que lhe surgissem na cabeça com a visão curta e burocrática e com a arrogância imensa que o caracteriza. Mais uma vez, não previu os perigos de contágio. De tal forma que os bancos da ilha continuam fechados, perante novas ameaças do BCE de fazer cessar a liquidez já para a semana se Chipre não aceitar ovo plano de resgate. O que a euroburocracia não previu, na sua completa incompetência e ignorância geostratégica, é que a mesmíssima posição geográfica e a afinidade cultural como a Grécia e com a Rússia podiam fazer a balança pender para esta última. De facto, com os depósitos dos seus oligarcas ameaçados, e com a guerra que se arrasta na Síria, cujo resultado desfavorável ao actual regime pode obrigá-los a retirar as suas bases navais que aí mantêm (as únicas que têm no Mediterrâneo), os russos podem aproveitar esta situação para ajudar economicamente Chipre em troca de aí instalarem novas bases, numa posição estratégica até mais favorável e estável do que a costa síria (estes dois posts no Estado Sentido explicam bem essa circunstância). E se a UE recusar e lançar novo ultimato (já que a Alemanha parece muito confiante na continuidade de fornecimento de energia por parte da Rússia)? Aí talvez se depare como um pequeno estado rebelde, que pode muito bem, em último caso, fazer a sua secessão do Euro e até da própria UE. A partir daí, seria o caos. Quem acende fogo de forma irresponsável acaba por se queimar.

 

É pela falta de de visão, conhecimentos e sensatez das classes políticas europeias que o entusiasmo com o Papa Francisco faz ainda mais sentido. Perdida a confiança na política e nas ideologias, será o cristianismo, contra algumas previsões, a salvar-nos uma vez mais.

sábado, junho 16, 2012

Pólvora seca




Era daqueles jogos ditos de alt(íssim)o risco. Um Polónia-Rússia, em Varsóvia, no dia em que os russos festejam o nascimento da Federação, é motivo para qualquer pessoa sensata se afastar da capital polaca, a não ser que seja repórter de guerra. Uma marcha com colunas de russos em direcção ao estádio prometia represálias de fanáticos polacos, evocando o retalhamento do seu país, a repressão czarista e o pesado controlo soviético, que obrigou ao estádio de sítio permanente. Mas o empate e a divisão de pontos serenaram os ânimos, a polícia cumpriu o seu papel, e o saldo final acabou em quinze feridos e cinquenta detidos. Muito positivo, diga-se. Qualquer resultado que não causasse mortos nem feridos muito graves seria sempre bom. Os maiores receios não se verificaram, apesar de algumas escaramuças de rua.

Mas se o empate acalmou as hostes (se tivesse ganho alguém, não sei), traria resultados desportivos negativos a curto prazo. A favorita Rússia perdeu com a sofrível Grécia e os checos impuseram uma derrota à Polónia (em Wroclaw, antiga cidade prussiana de Breslau, muito perto aliás da fronteira checa, pelo que estavam muitos milhares de adeptos desse país). O anfitrião e a talentosa selecção da Federação Russa, que tantas desgraças evocavam e que tanto receio causavam pelo choque dos seus adeptos, ficaram fora do torneio. A pólvora seca entre adeptos contagiou os jogadores. Quem diria...

sábado, março 10, 2012

Degelo

Depois da derrota em Guimarães, do nulo em Coimbra (este injusto e condicionado) e de mais uma habitual proençada no jogo contra o Porto que pode muito bem ter sido decisivo para o título, o Benfica lá se redimiu e eliminou o Zenit de S. Petersburgo, acabando com a malapata de resultados que tinha começado precisamente sob o frio da cidade dos czares. Os russos, praticando um puro cattenacio, não tinham plano b, e depois de sofrerem o golo de Maxi não souberam minimamente reagir. Na segunda parte nem esboçaram um gesto de ataque, enquanto o Benfica ia desperdiçando ocasiões de golo, até que a fechar a esperança Nelson Oliveira pôs fim ao pouco nervosismo que ainda subsistia. Não houve Medvedev, Bruno Alves ou Gazprom que valessem aos russos. A alegria voltou à Luz, recuperou-se prestígio europeu e ganharam-se mais uns milhões de euros. Para os quartos, Jesus queria uma equipa inglesa, mas como é improvável ficaria contente com o vencedor da contenda Inter-Marselha (o Apoel traz menos emoção e com o Basel já jogámos esta época). Com sorte, chegamos às meias e depois seja o que Deus quiser (desde que se caia de pé).

Medvedev, o presidente cessante da Rússia vendo abismado a sua equipa a levar um banho de bola na Luz. Como se não bastassem os protestos públicos e a saída do cargo...

sábado, fevereiro 25, 2012

Tesouros inesperados 2

Podem-se encontrar tesouros de grande valor material, ou então outros que não sendo tão comparáveis à caverna de Ali Babá, oferecem uma perspectiva comercial (ou estética, ou museológica) interessante, como os referidos no post anterior. E ainda há os que, a despeito do seu valor em dinheiro, ainda espantam pela sua utilidade, ao fim de anos e anos de protecção.

Houve uma notícia do ano passado que me deixou a sorrir pela perenidade de certos tesouros. Nas profundezas do mar Báltico, entre a Suécia e a Finlândia, uma equipa de mergulhadores descobriu um navio afundado, contendo uma carga de garrafas protegidas por trapos. Desarrolhadas, revelaram um champanhe de primeira ordem, que depois de várias amostras, e por não ser possível identificar o rótulo, se provou ser da Veuve Clicquot. Mais ainda, seriam uma oferta de Luís XV (ou XVI, depende do ano do naufrágio) a Catarina a Grande, da Rússia, o que só aumenta o valor da descoberta. Ao que parece, a temperatura ambiente a escassa luminosidade permitiram que a bebida se conservasse em perfeito estado. Assim, as garrafas com o néctar permaneceram intactas no fundo do Báltico sem que nunca tivessem chegado ao destino. Dificilmente chegarão, porque a carga, pela sua propriedade, deve pertencer a França, a não ser que algum dos habituais multimilionários russos compre alguma garrafa, o que é bem possível.

É verdade que descobrir preciosidades em ouro e pedras preciosas deve ser emocionante. Mas e descobrir uns invólucros com um líquido desconhecido dentro? À primeira ideia não parece ser grandemente divertido. Mas saber-se depois que é um champanhe do século XVIII, da melhor categoria e perfeitamente conservado talvez cause alguma emoção. Fica a dúvida se quereria uma gratificação monetária pela descoberta ou se preferia ficar com algumas garrafas em proveito próprio, que se não fosse um naufrágio naqueles mares tempestuosos, estas primeiras amostras de Veuve Clicquot teriam sido consumidos por boiardos russos e amantes da imperatriz.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Mais um disparate ultrapassado


A famosa "candidatura ibérica" suportada pelas federações futebolísticas de Espanha e Portugal perdeu. Ainda bem. Quando ouvi o nome do vencedor pela rádio fiquei satisfeito (mas não surpreso, porque nos corredores da FIFA já se sussurava que a Rússia tinha ganho). Como já aqui escrevi há mais de um ano, estava totalmente contra este projecto, pela mentira inicial - a de que serviria para aproveitar os estádios menos usados construídos para 2004 - pela subserviência a Espanha, como atesta a pouca importância votada aos recintos de Portugal, que nem o jogo inicial receberiam, e até o termo "ibérico", que conduz directamente ao país vizinho - e também pela razão moral de que se um país (neste caso, dois) atravessa uma grave crise financeira e económica, não se deve lançar em mega projectos desta natureza para o futuro. Além de que assim o TGV já pode ficar adiado sine die (o Mundial seria um bom pretexto para se avançar com a sua construção).


Ao mesmo tempo, já tinha tomado partido pela Rússia. A candidatura da Bélgica/Holanda já estava de fora, e os ingleses, como é tradição desde Francis Drake, fizeram uma autêntica acção de pirataria mediática, lançando através dos seus influentes jornais suspeitas sobre todos os outros candidatos. No fim, saíram pela porta pequena, e nem a presença do cómico Boris Johnson lhes valeu para que o football comes home. Terão de esperar mais uns anos antes de tentarem repetir a proeza concedida em 1966.

Assim, a velha pátria dos czares vai ser a anfitriã em 2018. Embora tenham organizado os Jogos Olímpicos de 1980 (os do ursinho Mischa, boicotados por meio mundo), não têm grande experiência na matéria, mas julgo que, ao contrário do que imaginam os perspicazes Zapatero e Sócrates, a causa da sua vitória é mesmo a possibilidade de um grande país ter a oportunidade de organizar um evento destes partindo do zero e erguendo novas infra-estruturas. Não precisaram de Putin nem de Medvedev na cerimónia para nada, e por via disso houve quem suspeitasse logo de subornos e rublodólares por baixo da mesa, não se sabe se com informações fidedignas ou se por inveja. Certo é que novos e grandiosos estádios surgirão em Moscovo, São Petersburgo e Kazan, com o apoio da Gazprom, e circular-se-à pelas imensas estepes entre estas cidades em comboios gratuitos (promessa da organização). Se não for antes, até pode ser um bom motivo para conhecer finalmente o país de Pedro O Grande.