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terça-feira, julho 30, 2019

Um ano quente na Albânia


Ultimamente os Balcãs não têm sido notícia na comunicação social portuguesa, e a Albânia menos ainda. O pequeno país encravado pela Grécia, pelo que restou da ex-Jugoslávia (incluindo um prolongamento étnico chamado Kosovo) e pelo Adriático raramente é referido em Portugal. Era-o quando os partidos maoístas o viam como "farol do socialismo", quando houve a rebelião de 1997, a guerra no Kosovo ou quando a sua selecção de futebol venceu Portugal em Aveiro, em 2014, no arranque da qualificação para o Europeu de França, causando ondas de choque que levaram à demissão de Paulo Bento e à contratação de Fernando Santos (e consequentemente, à vitória no Euro, por isso, um agradecimento especial à equipa albanesa).

Apesar de continuar a ser um pouco obscuro, o país tem uma localização geográfica de relevo (nos vários sentidos da palavra, já que grande parte do território é montanhoso), nos Balcãs ocidentais, e a uns cem quilómetros, do outro lado do Adriático, a Itália. Aquele território, à primeira visto discreto, dividido anteriormente entre o Epiro e as tribos Ilírias, tornou-se uma peça importante do Império Romano, do ocidente como do oriente, antes de se dividir entre vários pequenos potentados, ocasionalmente unidos. Seguiu.se a invasão turca, apesar da furiosa oposição de Skandeberg, e a rivalidade com Veneza no litoral. Durante séculos, os albaneses ocuparam importantes cargos administrativos no império otomano, chegando a vice-reis e depois a reis do Egipto, só sendo destronados por Nasser. Até 1912 foram possessão dos turcos, ano em que alcançaram a independência, na guerra dos Balcãs, com a hostilidade dos vizinhos sérvios, montenegrinos e gregos, já que eram o único país de maioria muçulmana. Seguiram-se a Primeira e Segunda Guerra Mundiais, muita instabilidade, república e depois monarquia, a invasão italiana e o auxílio alemão e a expulsão de ambos pelos partisans comunistas, que tomaram o poder. O novo regime, liderado por Enver Hoxha, embora não dependesse da URSS, exaltava Estaline, e aquando da desestalinização de Krushov rompeu com os soviéticos, virando-se para a China, a qual também abandonou depois desta estabelecer ligações com os EUA. Era absolutamente dependente da liderança dogmática de Hoxha e tornou-se um estado isolado e empobrecido, quase sem relações diplomáticas, repressivo e nacionalista ao máximo, mantido pela paranóia da hipotética invasão jugoslava ou grega, o que levou à construção de milhares de mini-bunkers por todo o país. Tornou-se também num estado oficialmente ateu, em que qualquer demonstração religiosa era severamente punida.

Hoxha morreu em 1985, e o regime começou a amolecer, mas só depois das grandes manifestações de 1991 é que caiu definitivamente, tornando-se numa democracia parlamentar. Mas sofreu inúmeros sobressaltos, com a complicada passagem de um sistema comunista maoísta rural para uma economia de mercado, o colapso da economia em 1997, que levou a dois meses de guerra civil e ao domínio de vastas partes do território por gangues e milícias várias, e a guerra do Kosovo, com milhares de kosovares albaneses a fugir para lá e o temor de uma invasão sérvia. A partir do ano 2000, a situação política e social melhorou consideravelmente, e o país pediu a adesão formal à UE.

Mas as suas particulares circunstâncias têm agitado a política local. Dois partidos dividem a chefia de governo: o Partido Democrático, de centro-direita, europeísta, que surgiu como alternativa quando o regime comunista ruiu, mais popular no Norte, e o Partido Socialista, de centro-esquerda, herdeiro directo do antigo partido único convertendo-se à pressa á social democracia, com mais apoio no Sul. É este que se encontra actualmente no poder, desde 2013, com Edi Rama como primeiro-ministro. Rama teve um percurso pouco usual para um político de carreira: formou-se em belas-artes, viveu como pintor e escultor em Paris, expondo algumas vezes as suas obras, e jogou basket (mede perto de dois metros). Entrou depois para a política, e como presidente da câmara de Tirana mudou a cidade, com novos planos urbanísticos e ordenando que se pintassem os deprimentes prédios dos tempos comunistas com cores garridas. Acabou por perder a cidade para Lulzim Basha, mas, como líder do Partido Socialista, ganhou as legislativas seguintes, tornando-se primeiro-ministro, e voltou a ganhá-las há dois anos. Quanto a Basha, tornou-se por sua vez líder da oposição.

Foram precisamente as eleições de 2017 que ajudaram a despoletar as manifestações que desde o início do ano se organizam contra o governo. Acusam Rama de estar mancomunado com o tráfico de cannabis (cujas plantações abundam no país) e de ter falsificado boa parte dos votos que lhe deram a vitória, em conluio com os grupos de traficantes. Mas acusam-no igualmente de estar a recuar naquilo que fora uma das suas promessas mais veementes: o cumprimento de metas para a adesão futura à União Europeia, por pressões de Vladimir Putin.

Um dos grandes objectivos de Putin é o de impedir novas adesões à UE, se não puder enfraquecê-la e desagregá-la, como com o Brexit. Assim, tem feito pressão ou usado subterfúgios para adiar ou impedir novas entradas. Tendo em conta que os estados que pediram a adesão se encontram nos Balcãs, incluindo a sua tradicional aliada Sérvia (que alguns temem que possa ser um cavalo de Tróia da Rússia), Putin tudo fará para não perder a sua influência naquela zona, sobretudo nos países ortodoxos, com os quais tem uma estreita ligação cultural.

Por isso mesmo a oposição tem-se manifestado não somente com as bandeiras da Albânia mas também com as da UE, Estados Unidos e Alemanha, para realçar o seu sentimento pró-ocidente. As eleições municipais de fins de Junho foram boicotadas e só o Partido Socialista é que participou. As manifestações na rua, muito concorridas, sobretudo em Tirana, tanto têm sido pacíficas como têm alguns picos de violência, como aconteceu em Maio. Além das bandeiras, exibem-se cartazes apelando à demissão do governo, com imagens comparando Rama a Enver Hoxha ou colocando-o entre os líderes comunistas clássicos. Basha, o líder da oposição, costuma liderar estes movimentos e discursar aos manifestantes. Têm como grito de guerra "Rama Ik (fora, ou sai)", clamado até à exaustão exigindo a demissão do governo, que acusam de ser ilegítimo, e a convocação de novas eleições. Mas Rama não cede, acusa a oposição de conspirar e de produzir calúnias contra ele, e usa as suas armas, como a de que em alguns relatórios da UE consideraram o sistema judicial albanês, com inúmeros juízes colocados pelo Partido Democrático, altamente corrupto e viciado.

Se é certo que a prática da corrupção e do banditismo são correntes no país, já é mais difícil saber se o actual governo tem sabotado os seus próprios esforços para a aproximação à UE. Rama viveu em França e um dos objectivos que tomou a cargo é o de uma futura adesão, apoiando também a entrada na NATO, entretanto já concretizada (quem diria há uns anos, a Albânia na NATO...). À partida, todos deveriam querer esse rumo. Mas as jogadas e chantagens dos russos são infindas, como já se viu, e embora a Albânia não seja o parceiro privilegiado nos Balcãs (até porque há o Kosovo, na prática uma criação americana), não é de excluir que tenham sido utilizados métodos menos claros. Pelo menos são essas as acusações da oposição, que disso se aproveita para vincar os seus galões pró-ocidentais. Em todo o caso, o clima político no país está bastante tenso, quase de insurreição. Os próximos meses poderão revelar se as coisas acalmam ou se se complicam ainda mais, mas até ver, só prejudicam o cumprimentos dos critérios de adesão à UE.








sexta-feira, maio 24, 2019

O que me ficou da campanha para as europeias


Antes das eleições de Domingo não resisto a um pequeno apanhado do que me ficou desta pobre campanha eleitoral

A campanha dos "grandes"

As melhores campanhas foram feitas por partidos em que não tenciono votar (e quase do espectro oposto um do outro). Dos grandes, achei que a da CDU cumpriu bem os seus propósitos com o seu eleitorado, sem grandes ataques pessoais e falando realmente de questões europeias.   João Ferreira tem uma imagem ambivalente do trintão a entrar no bar da moda conservando uma linguagem ortodoxa, mas é impossível negar-lhes competência e sobriedade. Desfia a cassete, mas fá-lo bem.

No Bloco, Marisa manteve-se genuína e muito activa, monopolizando toda a campanha do seu movimento, e bem: quando o resto do Bloco se lhe juntava, estragava tudo.

Nuno Melo passou o tempo a falar de Sócrates e muito pouco de Europa (gostava de saber o que ainda pensa do caso da Hungria, por exemplo), com uma postura de forcado que não deixou espaço a outros nomes da lista. Só Cristas falou ao lado dele, fora umas palavrinhas de Mota Soares.

Paulo Rangel conteve-se mais do que o costume, embora falando também demasiado do PS. Ainda assim, uma campanha menos feroz do que há cinco anos, mas menos substantiva do que há dez, quando então ainda era um pouco novidade para o grande público, como quando presidiu à primeira blogotúlia de que tenho memória (mas quem teve aulas com ele sabe como tem o dom da palavra).

Por fim, Pedro Marques. Como praticamente toda a gente reconheceu, revelou-se um candidato desastroso, quase escondido por António Costa, que ainda teve o desplante de atacar a entrada em campanha de Passos Coelho enquanto Pedro Silva Pereira, a sombra de José Sócrates e terceiro candidato da lista do PS, era estrategicamente escondido atrás da cortina. A propósito. alguém ouviu mais algum candidato da lista? A também ex-Ministra Leitão Marques, Zorrinho, ou qualquer outro que teria sido um melhor cabeça de lista?

A campanha dos "pequenos"

O seu liberalismo puro não é propriamente o meu campo, pelo que não terão o meu voto, mas preencheu um espaço vazia na partidocracia portuguesa. A Iniciativa Liberal teve de longe a campanha mais imaginativa e inteligente, sem nunca descer o nível.

Paulo Morais, pelo Nós, Cidadãos, teve menos impacto do que merecia. O discurso da corrupção é importante, mas gostava de ter ouvido melhor o que ele disse sobre questões ambientais (tendo em conta que o seu nº 2 é José Inácio Faria, eurodeputado do MPT).

Paulo Almeida Sande, do Aliança, uma boa surpresa, achei-o convincente e preparado, e não faria má figura no PE. O mesmo se diga de Rui Tavares, do Livre, já com experiência em Bruxelas, assim como Marinho e Pinto, mas este espero bem que fique de fora e que aquela coisa chamada PDR desapareça quanto antes; partidos unipessoais e demagógicos, não, por favor.

O Basta revelou-se a fraude que se supunha, quando André Ventura trocou um debate na RTP por conversas de bola na CMTV. Esta coligação de um cocktail de direitas parece quase uma resposta áqueloutro cocktail de esquerdas das legislativas de 2015, o Agir, com Joana Amaral Dias (a surgir despida e grávida na capa da revista Cristina), o Mas e o PTP. Aqui tínhamos o nóvel Chega, de Ventura, o histórico PPM, ainda que dividido (sim, há lá militantes suficientes para criar divisões, tal como no MPT, aliás, que à mercê disso nem se apresentou nesta eleição depois de há cinco anos ter eleito dois eurodeputados; Gonçalo Ribeiro Telles não teria certamente isto em mente quando os fundou), o Portugal pró Vida e o Democracia 21, que julgo não ser sequer um partido.

PNR, PTP, PAN e PURP poucas surpresas mostraram, para além das suas agendas habituais e de um certo folclore, sobretudo da parte dos reformados e dos trabalhistas (aqui aconselhava a decorarem melhor o teleponto)

Já o MRPP, agora órfão de Arnaldo Matos, nem por isso deixou de ser menos lunático, mas ao menos não escondeu ao que vinha: saída do Euro e mesmo da UE. Para quem há pouco tempo anunciava "Morte aos Traidores" não se podia esperar menos. Quanto ao MAS, na campanha televisiva o cabeça de lista fazia lembrar uma árvore de Natal, tal a profusão de cores, tranças e adereços ideológicos; as propostas eram ligeiramente mais contidas do que as do MRPP - 70% de impostos sobre as grandes fortunas, por exemplo.

sexta-feira, março 31, 2017

Nos sessenta anos do Tratado de Roma


A propósito dos 60 anos do Tratado de Roma, celebrados a 25 de Março com alguma cerimónia e descrição (tirando o discurso de Donald Tusk), em pleno processo do Brexit, lembrei-me, a propósito das nuvens negras que a UE atravessa e da contestação que sofre sendo o ponto culminante precisamente o referendo que deu no Brexit, daquela célebre frase popularizada durante a ditadura militar brasileira: "Ame-o ou deixe-o". Se é certo que a actual UE não desperta exactamente grandes amores, mais certo é que os tempos em que os "soberanistas" e nacionalistas dominavam deram nos piores desastres no Velho Continente. Não será preciso amá-la para não a deixar. Basta que não se limite a ser uma burocracia internacional, apenas importada com os procedimentos de cumprimento dos défices (e de apenas alguns países), e com outras "magnas questões", como a eventual proibição de fumar na praia ou a curvatura dos pepinos.

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domingo, julho 31, 2016

Boris at the Foreign Office


Uma das situações mais bizarras das últimas semanas, que permitiu um mínimo de discussão mas que acabou submergido na torrente de acontecimentos simultâneos, foi a nomeação de Boris Johnson para Secretário de Estado dos Assuntos Estrangeiros. Ele, que quase se guindou à liderança dos conservadores - e do governo da Rainha - com as portas escancaradas, na sequência do referendo do Brexit, tinha fugido da luta, aparentemente destruindo a sua carreira política quando estava tão perto do topo, dando uma imagem de fuga às responsabilidades e desiludindo quem nele tinha apostado. Esta promoção não deixa de ser surpreendente, porque é dos mais inesperados e rápidas regressos à ribalta depois de uma travessia no deserto, também ela das mais rápidas. O ex-editor da Spectator ocupa um cargo que lhe dá ainda mais visibilidade do que o de mayor de Londres. Terá oportunidade de fazer valer as suas reais capacidades executivas, e já agora, a sua bagagem da História e a sua percepção dos acontecimentos. O seu maior problema é a irreverência - paradoxalmente também a causa da sua grande popularidade - que lhe deixou um rasto de declarações muito pouco diplomáticas sobre variados estadistas ou candidatos, como Hillary Clinton, Donald Trump, e sobretudo, Erdogan. Os encontros bilaterais com qualquer desses parceiros serão previsivelmente tensos, e talvez por isso o seu ministério tenha ficado despojado da questão do Brexit, entregue a outro órgão criado de propósito.

Apesar de conhecida a propensão de Johnson para a irreverência (ou para o puro disparate), algumas das reacções à sua nomeação revelaram bem o grau de arrogância e de ressabiamento com que alguns responsáveis da UE lidaram com o referendo britânico, a começar pelos responsáveis da política externa dos dois países que julgam dever ser eles a controlar a UE, a França e a Alemanha. Ayrault disse tratar-se de "um mentiroso", o medíocre Steinmeier afirmou que a nomeação era "escandalosa". Música para os defensores do Brexit, que ganham mais pretextos contra a intromissão em assuntos exclusivamente reservados ao Reino Unido, neste caso a escolha dos membros do governo. E vindo da França e da Alemanha, ainda mais desconfiança provocam no lado de lá da Mancha. Sim, o Brexit também é por culpa de gente desta. Repito: foram reacções à sua nomeação de uma pessoa com quem forçosamente se terão de encontrar, não meras críticas antes de se saber que ia ser nomeado, o que diz bem da qualidade de alguma euroburocracia reinante. E não, não eram do tão criticado PPE, antes dois socialistas, como aliás o é Dijsselbloem. Estou curioso para ver os primeiros encontros de Boris com esta gente.

Entretanto, a Grécia tem voltado ao ataque para que os frisos do Pártenon que Lord Elgin levou para o Museu Britânico há duzentos anos sejam devolvidos à proveniência. É um pedido justo, que teve o apoio recente do Parlamento Europeu. Será mais um pretexto para o Brexit. Boris tem sido um fervoroso defensor da manutenção dos mármores em Londres, e as pressões europeias podem tê-lo ajudado a optar definitivamente pela saída da UE. Certo é que o pedido dos gregos é antigo e que o próprio Boris sabe-o bem, já que na sua juventude em Oxford teve de encarar a máxima defensora do regresso dos frisos, a mítica Melina Mercouri. como se sabe,  não se deixou convencer, mas pela expressão não deixou de se sentir intimidado pelos argumentos da combativa ministra grega da cultura.
 

quarta-feira, junho 29, 2016

Um parasita descarado


Jean-Claude Juncker pode errar em imensas coisas e ser um rosto da euroburocracia. Mas é também o líder executivo da União Europeia e portanto seu guardião. A forma como se dirigiu a Nigel Farage em pleno Parlamento Europeu tem sido muito criticada por aparentemente demonstrar "arrogância" e outros pecados inomináveis. Já sabemos como Juncker não goza, nos dias que correm, de grande popularidade. Mas a verdade é que se limitou a responder a um provocador oportunista, xenófobo e insultuoso, que ataca a União Europeia e pretende a sua destruição, e no entanto há dezassete anos que é deputado no Parlamento Europeu, vivendo à custa dos que e das práticas que critica. Um parasita, portanto, descaradamente hipócrita. Nem é nenhuma novidade: este é o homem que depois da desilusão das eleições de 2015, anunciou a retirada da liderança do UKIP, para logo a seguir voltar atrás.
Juncker perguntou-lhe o que fazia ali e disse-lhe que era a última vez que ouvia os seus aplausos. Pena que não o tenha posto fora a pontapé. Um tipo que vive à custa dos que quer destruir merecia no mínimo isso. Não é sequer um Cavalo de Tróia ou uma quinta coluna: é um parasita puro e simples, que já que não tem a dignidade de renunciar ao lugar, merecia ser escorraçado, tal como ele gostaria de fazer aos refugiados que fogem das guerras e que nunca na vida imaginaram sequer o que é o salário de um deputado europeu.


sexta-feira, junho 24, 2016

Onde estavávamos no dia do Brexit


Há datas marcantes em que nos lembramos dos sítios onde estávamos e do que fazíamos na altura. Há datas que marcam colectivamente uma época por mais do que uma razão, em que um acontecimento de monta se dá num dia fácil de memorizar.

Daqui a uns anos, recordaremos, provavelmente com mágoa, que o Reino Unido decidiu deixar a União Europeia num dia de S. João. E eu lembrar-me-ei onde estava e o que fazia: em Miragaia, à espera que me servissem uma bifana ao som de música de baile, quando soube que a BBC dava já o "leave" como irreversível. A grande maioria das pessoas que me rodeava não se apercebeu, embalada pelos festejos de S. João, mas houve quem soubesse e não escondesse a surpresa (mais desagradada que outra coisa).

Esperemos que daqui a uns dez, vinte anos, quando recordarmos esse S. João como recordamos o de 1996 como o do "chapéu do Poborsky", ainda exista UE, de preferência menos burocratizada e mais solidária. Veremos se o Reino Unido ainda existirá como tal, com a pulsão independentista da Escócia, que votou "remain", a ganhar novo e fortíssimo alento mas é pouco provável. E assim, desmembrada, fora da UE, sem indústria nem império, perdida a importância estratégica e de parceria com os EUA, com o marcado financeiro da City desvalorizado e ultrapassado, tornar-se-á uma país europeu de segunda categoria?

David Cameron jogou a sua liderança, e o seu oportunismo pode ser o despoletar de acontecimentos gravíssimos. As grandes mudanças na história nascem por vezes de decisões banais, omissões que parecem inócuas ou acasos imprevisíveis. Cameron tinha ganho as últimas eleições gerais com surpreendente maioria, ganhara a manutenção da Escócia, mas desperdiçou o seu capital político neste gesto imprudente e irresponsável. Ficará na história com uma marca trágica, não longe de um Neville Chamberlain. Boris Johnson e Jeremy Corbyn apanharão os cacos de uma mudança para a qual contribuíram. E Nigel Farage poderá a ficar na história como uma personalidade nefasta na história do seu país, um dos arquitectos da sua desagregação, num tempo em que pululam políticos radicais e inquietantes, como Putin, LePen e Trump, todos adeptos do Brexit e do fim da UE em geral.

Esperemos que os tempos futuros não sejam tão negros como parecem neste solarengo dia de hoje. E que tenhamos sempre S. João.

                             
                                                   Alvorada de S. João, 2016. O dia do Brexit.

domingo, junho 19, 2016

Uma semana que se prevê quente


A semana que amanhã começa promete ser quente. De facto, a meteorologia prevê a subida acentuada das temperaturas, consentâneas com o início deste Verão adiado. Em vésperas de S. João não se pedia menos. Mas espera-se que suba ainda mais em Londres, Edimburgo e Madrid. E por arrasto, em toda a Europa.

Chegou a semana tão nervosamente aguardada pelo referendo à permanência do Reino Unido na UE. As sondagens falharam redondamente nas legislativas do ano passado, mas ainda assim são um indicador a ter em conta. Até há dias davam uma crescente preferência pelo "não", o tão badalado Brexit, mas o assassínio brutal da deputada trabalhista pró-europeia Jo Cox por um alucinado de extrema-direita parece ter invertido as coisas e dado alento ao "sim" à permanência. As causas emocionais não ganharão eleições, mas podem ajudar a baralhá-las. Nunca se despreze as ondas de choque que podem provocar - e quanto mais perto dos actos, mais levantam. Mas o risco do "não" e do consequente Brexit continua a ser bem real. É-me para mim difícil perceber o  porquê desta opção, salvo, lá está, por razões emocionais, nacionalistas, e de uma mistura da velha desconfiança britânica do "continente" com os anticorpos provocados nos últimos anos pelas instituições europeias. Os britânicos têm muito a perder caso saiam mesmo da UE: irrelevância da City, fim ao livre trânsito de mercadorias, pessoas e capitais, isso numa altura em que o velho império está há muito perdido (e em muitos casos o suplanta) e os Estados Unidos já não têm o mesmo interesse em ver o Reino Unido como aliado preferencial (preferem vê-lo na UE). Pior: pode significar o fim da união. A Escócia por certo não perderá a oportunidade de reivindicar a adesão à UE e de convocar novo referendo. E neste, a independência ganharia com toda a certeza. É portanto com o espectro do declínio (e futura desagregação?) da UE e com o fim do Reino Unido que nos deparamos.


Aqui ao lado, em Espanha, preparam-se novas eleições, cujos resultados prometem não ser substancialmente diferentes dos de Dezembro, salvo pela troca de esquerdas: o PSOE poderá ficar em terceiro, atrás da coligação de esquerdistas radicais com comunistas Unidos Podemos. Ou seja, mais uma vez não haverá maioria para ninguém. O PP, sempre enredado nos seus incontáveis casos de corrupção e num conjunto de dirigentes gasto e ultrapassado (note-se que em trinta anos o partido teve apenas 3 líderes), permanece à frente, mas longíssimo da maioria, e o Ciudadanos, que poderia ser um fiel da balança com gente nova e propostas arejadas, também não parece ganhar muito. A tragédia maior é o afundamento do PSOE em detrimento do Juntos Podemos, em que não faltam militantes que publicamente usam slogans como "(as igrejas) ardereis como em 1936". Isto a semanas de se passarem oitenta anos do pronunciamento que levou à horrível Guerra Civil.

Gozemos o calor e os santos populares, enquanto nos é permitido. Talvez o Verão seja quente mas não insuportável.

                        (Campanha eleitoral em Baeza, Andaluzia, Dezembro 2015)

PS: e claro está, como hoje lembra um dos nossos periódicos na sua versão online, para subir ainda mais, temos o decisivo confronto da Selecção Portuguesa contra a surpreendente Hungria, sem margem sequer para empatar. Se houver alguma competência no ataque e não aparecer o espírito dos "invencíveis magiares" dos anos 50, a qualificação é possível. A alternativa, depois de se cair num dos grupos mais acessíveis do torneio, é demasiado humilhante.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Brexit?


Fechadas as negociações com a UE, que dão vantagens inigualáveis ao Reino Unido para se manter dentro da Europa dos 28, e marcada a data do referendo que vai decidir se sai ou se fica, ver uma tão grande quantidade de adesões ao "não" surpreende sempre um pouco, mesmo tendo em conta o proverbial eurocepticismo britânico com tudo o que vem do "continente". Já se sabia que o Partido Conservador esteve sempre dividido nesta matéria ( mas surgirem seis ministros e o sempre imprevisível mayor Boris Johnson pelo nega dá ao Brexit possibilidades acrescidas. Junte-se a isso alguns trabalhistas envergonhados (a começar pelo actual líder, Jeremy Corbyn), seguindo a tradição da esquerda Labour  ser também eurocéptica, e claro, o antieuropeu UKIP, e mais alguns movimentos radicais de direita e de esquerda (como o National Front e o Respect, do esquerdista George Galloway). Pelo sim haverá boa parte dos conservadores (a começar por David Cameron, que joga aqui o seu futuro político) e dos trabalhistas, sobretudo a ala moderada, os liberais-democratas, os Verdes e o Partido Nacional Escocês (SNP), que em tempos era mais eurocéptico.
 Para além dos partidos, e a propósito da posição do SNP, vale a pena estar atento aos votos tácticos regionais. Os escoceses são mais europeístas e votarão em massa na continuidade. Ou não. Por mera táctica, poderão votar em grande número pela saída: se os seus votos contarem decisivamente para o resultado final, o Brexit seria o pretexto ideal para forçar novo referendo pela independência, que a causa separatista ganharia certamente movida pelo temor do isolamento do resto da Europa. Por outro lado, esse mesmo receio pode levar a que muitos eurocépticos ingleses votem a contragosto pela continuidade na UE para evitar a dolorosa separação da Escócia. Assim, muitos poderão votar mais com a cabeça do que com o coração. E ainda há que contar com vários movimentos irlandeses unionistas, adeptos da saída.
O mais provável é a manutenção do Reino Unido na UE. Mas é uma probabilidade curta: algumas sondagens dão a vitória ao "não", os votos tácticos poderão ter algum peso e os economistas preocupados com uma fuga em massa da City podem não ser suficientes para convencer os seus compatriotas da bondade da permanência nem de os demover de escaparem à "submissão a Bruxelas". Isto apesar da ideia da parceria com o Estados Unidos já não ser assim tão sólida e de os próprios americanos preferirem um Reino Unido na UE. O espectro do Brexit não é assim tão descabido.

terça-feira, maio 27, 2014

Balanço das europeias



Balanço. Se não fosse o formalismo de se esperar pelo fecho das urnas em Itália e os boicotes em murça (não isentos de razão, pelo que vi), já teríamos os resultados completos e a distribuição final dos eurodeputados portugueses. Assim, temos de esperar mais um pouco. Mais pelos eleitos do que pelos números.

A abstenção, como de costume nestas eleições, atingiu níveis estratosféricos. Desta vez passou os dois terços do eleitorado. Nada que espante. Mas é curioso que quanto mais periféricos são os estados-membros, maior é o número de eleitores que não se dão ao trabalho de ir às urnas. Vejam-se os 87% de abstenção na Eslováquia e os 90% de participação na Bélgica. Portugal é definitivamente um país periférico.


O PS ganhou, ponto. Só que ganhou com menos de 4% de avanço. tudo o que fosse menos de 5% seria pouco satisfatório. E sejamos francos, menos de 31% é um número fraquinho. O número de Seguro, proclamando a "grande vitória", é patético, sobretudo olhando para a assistência socialista, tepidamente sorridente, e às próprias declarações de António Costa e de outros, que reconheceram que não era um grande resultado. Na primeira fila via-se Eduardo Lourenço, candidato simbólico pelo PS. Ver um dos principais pensadores portugueses cabecear de sono durante o discurso de Seguro devia levar as pessoas "a tirar as suas próprias ilacções".

A coligação PSD/CDS deve o seu paupérrimo resultado não apenas ao desgaste e à impopularidade do governo mas também à fraca campanha de constante disparo sobre o PS e sobre Sócrates. Uma campanha em busca de fantasmas, no fundo, e que surpreendeu pela negativa. Paulo Rangel é capaz de muito melhor. Provavelmente não se lembrou que em 2009 Vital Moreira recorreu ao mesmo cacete argumentativo e teve o resultado que se viu. A pomposa "Aliança Portugal" só não teve um resultado desastroso por comparação com o do PS.

Depois do reforço das autárquicas, a CDU teve mais um bom resultado. Não é estrondoso e ainda lhe falta confirmar o terceiro eurodeputado, mas conseguiu passar os dois dígitos numa eleição nacional. Depois de anos e anos a reclamar vitória com resultados fraquinhos, os vermelho/verdes conseguiram enfim acertar o discurso com a performance. Conseguiram cavalgar a onda de protesto com muito mais competência que o Bloco e estão aparentemente a ganhar com a renovação progressiva de quadros. Até onde é matéria que se deverá seguir.

O Bloco continua em queda livre. Por pouco Marisa Matias não conseguia ser eleita. A sangria de elementos conhecidos (Joana Amaral Dias é o último exemplo), o vazio das causas fracturantes, a falta de carisma na estranha liderança bicéfala (ou "paritária"), a intolerância a oposições internas e a pura e simples incompetência ditaram mais este fraco resultado. Desconfia-se que não fique por aqui.

O Partido da Terra, ou melhor dizendo, Marinho Pinto, surpreenderam ainda mais do que as sondagens mais favoráveis previam. Havia a hipótese de elegerem um deputado. Agora há a hipótese de elegerem dois. Perguntava há tempos qual seria o peso eleitoral do ex-Bastonário da OA. Está visto que o tem, e não é assim tão pouco. Agora vamos ver o que vale a sua acção no Parlamento Europeu, se mantém o seu populismo verbal e manual (que não de substância do discurso, bem mais moderado do que o estilo faz aparentar), como irá defender as suas ideias. E já agora, se o MPT ganha alguma coisa com isso. De qualquer maneira, está de parabéns: conseguiu ser a primeira figura pública candidata por um pequeno partido a ser eleita para Estrasburgo (Esteves Cardoso, Laurinda Alves e Victorino de Almeida já o tinham tentado, sem sucesso).

Os "pequenos" conseguiram um resultado global mais alto do que o costume. De entre as habituais décimas, ressalva-se de novo o MRPP e o Partido dos Animais, e sobretudo o novíssimo Livre. Um jornal qualquer, creio que o Público, classificava o seu resultado como uma derrota, com seta para baixo e tudo. Parece-me um erro prematuro. Afinal de contas, o Livre teve 2,2%, longe de servir para reeleger Rui Tavares, claro. Mas ainda assim, permitiria uns dois ou três deputados em legislativas. E convém recordar que o Bloco teve ainda menos nas primeiras eleições a que concorreu, precisamente umas europeias, em 1999, com outra máquina partidária, outro mediatismo e com apoiantes já com larga experiência política. Sem figuras públicas (apesar do apoio de algumas, como Ricardo Araújo Pereira) e sem grandes meios de campanha, pode-se dizer que os primeiros números do Livre são promissores. Afirmar que são uma desaire e uma desilusão é uma leviandade própria de quem não quis perder muito tempo com o assunto.

As consequências imediatas parecem estar a atingir, antes de mais, o PS. Quando é que um partido vencedor registou tal convulsão interna?


No resto da europa, o previsto: reforço dos eurocépticos e da direita radical no Reino Unido, Itália, França e Dinamarca, reforço da esquerda radical na Grécia (onde saiu vencedora) e em Espanha (além da Esquerda Unida, o novo movimento dos "Indignados", de inspiração chavista, teve quase 8%). Em Itália, as reformas de Mateo Renzi parecem estar a agradar aos italianos: o seu Partido Democrático obteve mais de 40%, o que num país tão politicamente instável e fragmentado é notável. Beppe Grillo voltou a conseguir números elevados, mas roubados directamente a Berlusconi e à refundada Forza Itália. É provavelmente a maior esperança para os partidos europeus mainstream.


sexta-feira, maio 23, 2014

A campanha acabou. Deram por ela?


A campanha eleitoral para as europeias acaba hoje. Eu, que até me interesso por estas coisas (sim, estou a falar dos cartazes, arruadas e comícios), quase nem dei por ela. Se não fossem alguns outdoors e as notícias, dificilmente me lembraria que no dia 25 temos eleições. Mas ainda assim pude formar a minha pequena opinião do pouco que vi.

A Aliança Portugal, nome pomposo para a coligação dos partidos no governo, quase que se limitou a zurzir no PS, a perguntar por Sócrates e a fazer de Assis e Seguro os bombos da festa. Substância e questões europeias? Se falaram nelas, ninguém ouviu. Provavelmente para disfarçar as grandes divergências do federalista Rangel e do "eurocalmo" Melo. Uma campanha pobre e com alguns momentos pimba, digna de um partido de oposição, e que provavelmente contribuirá para os levar para lá.

O PS começou bem, com uma boa lista e a falar de questões europeias  prementes. Depois, caiu na crítica pela crítica e acabou com declarações patéticas (Alegre falando no perigo do nazismo, Soares escrevendo que sempre "abominou a direita" para justificar uma birra). Ainda assim, uma campanha melhorzinha que a da aliança.

A CDU usou a cassete do costume, sem demasiado azedume, mas aproveitou bem a onda de descontentamento, mostrou sempre que pôde as suas caras novas e não se entusiasmou demasiado com as sondagens. Uma boa gestão para o eleitorado comunista, e a aposta em mais alguns votos, que provavelmente terá.

O BE não joga a sua sobrevivência, mas quase. Uma campanha modesta, com um slogan quase futebolístico (o "de pé" lembra o "tudo a saltar" dos adeptos benfiquistas) e uma Marisa Matias voluntarista, a fazer os possíveis para que mais alguém do Bloco a acompanhe a Estrasburgo. Tarefa complicada.

Depois, os outros. O Livre teve uma campanha pouco visível, o que é natural, dados os poucos meios de uma formação acabada de nascer. Ainda assim, conseguiu alguma notoriedade com o apoio de figuras públicas, como Ricardo Araújo Pereira ou Conh "le Rouge" Bendit. Rui Tavares terá dificuldades em voltar ao Parlamento Europeu, onde teve um desempenho interessante, mas é possível que marque o seu território e que arranque um projecto de esquerda interessante e menos sectário do que o habitual (ou não, basta ver exemplos de bons resultados em europeias que se revelaram ilusões, como o PPM e o MES).

O Partido da Terra conseguiu um bom trunfo eleitoral com Marinho Pinto, a quem algumas sondagens dão a possibilidade de ser eleito, e ainda lhe juntou o eterno dissidente do PS Eurico Figueiredo. Mas alguém o ouviu falar em ecologia,  ruralismo, agricultura (já nem falo na monarquia) na sua habitual crítica constante e quase gritada? Dão-se alvíssaras a quem descobrir. E caso o improvável aconteça e Marinho troque Coimbra por Estrasburgo, que grupo de deputados integrará?

A Nova Democracia afinal não contou com Nicolau Breyner e lançou o madeirense Eduardo Welsh. Sei que são a favor da saída do euro e pouco mais. Sempre deu para ouvir GNR nos seus tempos de antena.

O velho MRPP revelou-se igual a si próprio, com uma falta de subtileza gritante. "Fora o euro, venha o escudo" era o que se lia nos outdoors que pendurou por aí (as novas subvenções do estado permitem esse luxo burguês). O grafismo não mudou em quarenta anos, e aplica-se melhor aos murais. Também falaram na necessidade de um "governo patriótico e de esquerda". Mas essa não é uma reivindicação, sem tirar nem pôr, dos "sociais-fascistas" do PCP?

O PPM pareceu apresentar algumas ideias interessantes, mas francamente, a imagem de alentejano acabado de acordar da sesta de Gonçalo da Câmara Pereira e a expressividade nula de Nuno Correia da Silva não ajudaram nada. Longe vão os tempos gloriosos de Miguel Esteves Cardoso e das suas campanhas provocatórias e irreverentes, que quase o levaram ao PE.

O PTP volta a mostrar o trunfo algo gasto de José Manuel Coelho. O madeirense não faz a coisa por menos e diz que quer ser "um novo mestre de Aviz". Falta-lhe algum cabelo, uma prole meio britânica e algumas invasões ao norte de África. Nem quero imaginar o quer teria inventado se tivesse ido a novos debates.

O MAS, cisão da ala mais à esquerda do Bloco e reencarnação da antiga FER, com o mesmo líder e tudo, Gil Garcia, também ergueu outdoors, clamou pela saída do euro e pela "prisão dos traidores" Talvez este novo agrupamento trotsquista supere em relevância a FER, mas não muito mais.

O PNR mostrou algum aprumo, para tentar minimizar a imagem de movimento de skinheads. Lançou a cabeça de lista o presidente dos Amigos de Olivença, Humberto Nuno Oliveira, com um discurso um pouco mais suave, mas esta marinelepenização não lhe deverá servir de muito. É improvável que consigam um lugar ao lado das FNs desta Europa.

O Partido dos Animais falou da crise do euro e de soluções económicas mas também de propostas bizarras como a criação de um Tribunal Europeu dos Direitos dos Animais. O animalismo de novo a equiparar pessoas e animais. Se isso pegasse, lá nos obrigavam a ser todos vegetarianos. Não, obrigado.

O Portugal Pró Vida é um partido simpático e que releva questões que mereciam mais importância para além do ostracismo a que o votaram. Mas partido algum pode defender apenas dois ou três tópicos, por mais importantes que sejam. É de todo improvável que o seu cabeça de lista, um senhor com sotaque transmontano, seja eleito.

O PDA, que julgava extinto, saiu dos Açores, e tanto quanto me disseram, tinha um discurso substantivo. Infelizmente não pude comprovar. Apenas sei que o cabeça de lista é um ex-eurodeputado do PS, Paulo Casaca, que nem conhecia.

O POUS...é o POUS. Um partido formado por Carmelinda Pereira e por Aires rodrigues e que se apresenta a todas as eleições, com o seu punho preparando-se para bater em alguém, porque sim. 

Pronto, aqui está um resumo de todos os movimentos concorrentes. Não é preciso agradecer. Alternativas não faltam. Pouca vontade de votar num deles sim. Mas algum terá de ser. Para abstenção já basta que que se adivinha.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Já se esqueceram da Ucrânia?


Por falar na Europa e na UE, dir-se-ia que depois de dias de intensa cobertura jornalística a paz voltou a reinar na Ucrânia. Então e o braço de ferro entre Ianukovitch e os amotinados comandados por Klitschko e o seu partido, apropriadamente chamado Udar ("murro")? E as barricadas, desapareceram? Já se limparam as praças de Kiev? E os edifícios públicos tomados pelos revoltosos, já foram desocupados? A Rússia e o ocidente já chegaram a acordo sobre quem vai "influenciar" mais a Ucrânia? Ou será Rússia e EUA, já que para a diplomacia americana, e a julgar por um telefonema "informal" e privado da subsecretária de estado, a UE não conta?

É mais um dos assuntos que durante dias abre os telejornais e depois volta a cair no esquecimento ou a passar para as colunas mais escondidas das secções internacionais da imprensa. E no entanto devia preocupar toda a gente. O país está na linha de fractura da zona de influência União Europeia-Rússia, que a disputam como abutres sobre a carne morta. É vítima de chantagens, aliciamentos, experiências. Os russos não vão querer largar esta presa, antiga fatia de grande importância do seu território, que perderam com o estilhaçamento da URSS por culpa do seu plano chico-esperto em criar uma república autónoma que tivesse assento na ONU, ganhando assim mais um lugar. Os Estados unidos e a UE, com a Alemanha à cabeça, pensam cercar a Rússia e ganhar ali novo posto avançado em direcção à Ásia.


É difícil tomar partido por qualquer dos blocos, mesmo que de um lado pareça estar o bloco democrático e do outro um velho império autoritário, sustentado em gás natural. A parte oeste da Ucrânia, que em tempos constava do Império Austro-Húngaro, e Kiev estão vigorosamente do lado ocidental. Mas a parte leste, a bacia do Don e a Crimeia, lideradas pelos grupos de Donetsk, preferem o apelo da Rússia. São as duas Ucrânias que se enfrentam, a ocidental e a russa agora nas ruas, completamente divididas politicamente. A ironia trágica é que as duas principais potências que a disputam, a Alemanha e a Rússia, foram precisamente as que lhe trouxeram as maiores atrocidades no último século: os soviéticos nos anos vinte e trinta, nos quais milhões morreram de fome ou massacrados, os nazis nos anos quarenta, quando impuseram a sua brutalidade no avanço da Operação Barbarossa. Os ucranianos deviam fugir deles a sete pés, mas entalados que estão, só lhes resta ver qual a facção que vencerá, se é que tudo não passa de ciclos sucessivos e rotativos, em que ora ganha uma, ora ganha outra.

quinta-feira, março 21, 2013

Poderá Chipre ser o suicídio da União Europeia?


 

A insensata medida para taxar os depósitos bancários dos cipriotas sofreu um não consensual do parlamento da metade da ilha que pertence à União Europeia. Já era de esperar que não aceitassem essa imposição, mas a unanimidade na recusa de a acolher torna ainda mais visível o autêntico disparate que seria essa decisão do conselho de Ministros.

Não é só a medida em si, própria de um estádio totalitário que põe e dispõe das finanças dos seus cidadãos, que choca: a forma como a tomaram é quase patética, mas ilustra bem aquilo em que a UE se vem tornando. Uma decisão do que deveria ser um órgão colegial, na realidade tratou-se de uma imposição ao governo de Chipre dos ministros das finanças alemão e holandês, enquanto os outros membros homólogos do "Eurogrupo" entravam e saíam da sala, indiferentes (ou submissos?) à gravidade do que se estava a passar.

Sabe-se que Chipre deve o seu crescimento (ou a sua engorda) recente devido à zona franca, às condições fiscais e aos imensos depósitos que os oligarcas russos lá deixam. Um dos objectivos desta decisão era de diminuir a sua liberdade financeira, e ao mesmo tempo fazer pagar o resgate feito a Chipre através dos russos, sem consentimento da parte deles, claro está. O problema é que não somente se trata de uma imposição intolerável aos depositantes, que para além dos russos abrange os cipriotas com menos recursos, como vai contra resoluções anteriores que garantem depósitos até cem mil Euros. Cereja no cimo deste complicado bolo: Chipre acaba por pagar pelos danos colaterais que sofreu com o perdão parcial da dívida grega, outra decisão tomada pela UE. não somente é prejudicado por isso, como ainda de pagar os juros das decisões comunitárias.

A UE já está a arrepiar caminho, mas como se disse incessantemente nos últimos dias, o precedente está aberto. Com o autoritarismo que se verifica sobre os países com dívida excessiva e em dificuldades económicas, tudo se pode esperar. Chipre é uma meia ilha com menos de um milhão de habitantes, ali na ponta leste do Mediterrâneo, e o "Eurogrupo" pensou que podia impor as medidas que lhe surgissem na cabeça com a visão curta e burocrática e com a arrogância imensa que o caracteriza. Mais uma vez, não previu os perigos de contágio. De tal forma que os bancos da ilha continuam fechados, perante novas ameaças do BCE de fazer cessar a liquidez já para a semana se Chipre não aceitar ovo plano de resgate. O que a euroburocracia não previu, na sua completa incompetência e ignorância geostratégica, é que a mesmíssima posição geográfica e a afinidade cultural como a Grécia e com a Rússia podiam fazer a balança pender para esta última. De facto, com os depósitos dos seus oligarcas ameaçados, e com a guerra que se arrasta na Síria, cujo resultado desfavorável ao actual regime pode obrigá-los a retirar as suas bases navais que aí mantêm (as únicas que têm no Mediterrâneo), os russos podem aproveitar esta situação para ajudar economicamente Chipre em troca de aí instalarem novas bases, numa posição estratégica até mais favorável e estável do que a costa síria (estes dois posts no Estado Sentido explicam bem essa circunstância). E se a UE recusar e lançar novo ultimato (já que a Alemanha parece muito confiante na continuidade de fornecimento de energia por parte da Rússia)? Aí talvez se depare como um pequeno estado rebelde, que pode muito bem, em último caso, fazer a sua secessão do Euro e até da própria UE. A partir daí, seria o caos. Quem acende fogo de forma irresponsável acaba por se queimar.

 

É pela falta de de visão, conhecimentos e sensatez das classes políticas europeias que o entusiasmo com o Papa Francisco faz ainda mais sentido. Perdida a confiança na política e nas ideologias, será o cristianismo, contra algumas previsões, a salvar-nos uma vez mais.