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quarta-feira, abril 17, 2019

Esperança entre pedras fumegantes


Vi e ouvi o mais belo coro mais belo coro de que tenho memória na Catedral de Notre Dame, há já demasiados anos. Quando se calou, houve um breve silêncio até alguns visitantes orientais desatarem a aplaudir, perante algum espanto e divertimento dos que assistiam à missa.

Com as imagens do último dia vieram-me outras recordações à memória, como a do Emmanuel, o grande sino  da Catedral, que vejo agora ser da época de Luís XIV, e que apenas levemente tocado já soava respeitosamente alto. Ver a "Igreja mãe de França", que resistiu miraculosamente a guerras mundiais e revoluções, deixa-nos num desespero impotente. Quando é que será novamente possível ouvir o seu coro divino?

Mas logo as primeiras imagens do interior de Notre Dame faziam adivinhar que nem tudo está perdido. O fogo não consumiu todo o interior, mas o centro da nave, por baixo do coruchéu que ruiu, está severamente danificado. Salvaram-se algumas das relíquias mais preciosas e até marcantes, como a suposta coroa de espinhos e o manto de S. Luís, mas o destino de boa parte é ainda incerto. Em todo o caso, o altar-mor resistiu. A cruz que o encima, essa, está lá. Como sempre.

O desastre afectou severamente a catedral, mas não a vergou. Parece até ter criado uma certa união e um novo espírito de esperança aos franceses. E Paris já passou por outras provações. Em 1871, depois de um cerco de meses, de ter perdido a guerra com a Prússia, de ver o seu próprio Imperador prisioneiro dos germânicos e da república ser proclamada, a Comuna pôr a cidade do Sena a ferro e fogo, destruindo numerosos edifícios antes de ser violentamente esmagada. A França estava de rastos. Pois em dez anos pagou todas as imensas indemnizações de guerra, reconstruiu os edifícios destruídos (à excepção do Palácio das Tuilleries, do qual ficaram os jardins, por razões políticas) e ainda organizou a exposição Mundial de 1878, como prova da sua vitalidade. Notre Dame de Paris voltará a ser a Igreja Mãe dos franceses.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e interiores

segunda-feira, abril 09, 2018

La Lys: uma mortandade há cem anos.


Há cem anos acontecia o desastre (quase anunciado) de La Lys. Nas trincheiras da Flandres, a IIª Divisão do CEP - Corpo Expedicionário Português - sofria uma humilhante e enormíssima derrota. Num só dia, sete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros pela poderosa máquina de guerra prussiana, superior em número, em treino e em equipamento. O CEP, a que alguns previdentes chamaram Carneiros Exportados de Portugal, era composto por soldados mal treinados e armados, com pouca experiência de combate, comandados por uma oficialidade medíocre, habituada aos quartéis, a África (poucos) e à pancada de rua tão comum nesses tempos atribulados. Estavam enfraquecidos pelo tempo e pelas condições a que eram sujeitos, desmotivados e sem os reforços previstos, apesar de se anunciar uma rendição de contingentes para as horas seguintes. Tinham ido em grande parte contrariados, obrigados pela República, que pretendia a todo o custo uma qualquer glória que a legitimasse a nível internacional. Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães, "a importância portuguesa no mundo" e até que Portugal seria invadido. Ou seja, um conjunto de desculpas esfarrapadas para legitimar tal intervenção para além da estrita defesa das colónias, e que aliás era desaconselhada pela Inglaterra, que apenas aí via um estorvo.

O resultado de Afonso Costa, João Chagas e Jaime Cortesão andarem a brincar às guerras é conhecido. Em quatro horas dessa madrugada de 9 de Abril, milhares de mortos abatidos pela artilharia germânica na forte ofensiva comandada pelo lendário Erich Von Ludendorff, pânico generalizado entre as hostes portuguesas, e o avanço rápido dos alemães entre o vazio provocado pelas brechas da 2ª divisão. Houve alguns actos de heroísmo sobre-humano, como o do "soldado Milhões", outro de entre muitos que tinham sido levados da sua aldeia para as trincheiras, mas a maioria daqueles homens a quem chamaram soldados sem lhes ensinar esse estatuto debandou ou lá ficou.

Os portugueses foram carne para canhão nesse desgraçada aventura, uma das maiores derrotas lusas a par de Alcácer-Quibir ou Alcântara. Portugal ficou entre os vencedores da Guerra, mas pouco recebeu por isso. Pelo contrário, os gastos deixaram as finanças públicas em estado lastimável, escassearam os bens de primeira necessidade e deram-se revoltas populares, violentamente rechaçadas. Curiosamente, morreram quase tantos soldados como em toda a Guerra Colonial. Invoca-se o nacionalismo do Estado Novo para justificar a pesada operação mantida em África. Mas as menos aí defendíamos o que era nosso e a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente. Em La Lys, defendíamos apenas uma noção republicana de nacionalismo, enviando uns pobres coitados que mal sabiam disparar uma arma para as horríveis trincheiras, fazer frente a forças imensamente superiores. Uma triste memória e um crime que a República em vão tentou apagar, mas que seria mais um motivo para a sua impopularidade e subsequente queda, em 1926, curiosamente às mãos do comandante dessa desafortunada 2ª divisão do CEP: Gomes da Costa.

Paz às suas almas, desses pobres soldados tombados a 9 de Abril de 1918. Há cem anos.


* Texto escrito há dez anos neste mesmo blogue, e devidamente actualizado.











terça-feira, janeiro 16, 2018

Como se não bastassem os fogos dos últimos meses


Recordando a tragédia de (Vila Nova da Rainha, concelho de) Tondela do último fim de semana, é estupidamente irónico como aquela terra é vítima de incêndios fora da época dos fogos (Outubro e Janeiro), sendo que o último se deu numa noite gélida e chuvosa. Já não bastava o braseiro de há três meses, que arrasou parte do economia do concelho e causou dois mortos, e agora isto. O que mostra como a negligência pode originar desastres nas alturas em que menos contamos com eles. Fossem quem fossem os culpados pelo estado do edifício, é terrível pensar que várias pessoas perderam a vida por estarem a conviver numa noite de inverno num torneio de sueca, na colectividade da terra, que deveria ser um lugar seguro e acolhedor.
Já agora, como vão os planos de protecção contra incêndios a ser postos em prática daqui a uns meses?

terça-feira, outubro 24, 2017

Dias de inferno na terra.


Não escrevi muito nos últimos dias. Nesse tempo, meio país ardeu, 45 pessoas morreram, um ministério caiu sem contemplações e houve uma moção de censura contra o Governo, que sem surpresas não passou. Desde as horas tardias de Sábado, dia 14, com uma noite em que a temperatura alta já era motivo de conversa, até terça, às primeiras horas de madrugada, quando a chuva veio finalmente pôr termo ao inferno que tantas populações viviam, o fogo destruiu quase todo o centro e uma pequena parte do Norte do país. É impossível que ninguém tenha notado - excepto nas ilhas, e não sei se no Algarve - quando a coluna de fumo afectou mesmo o Reino Unido. A atmosfera era pesada e cinzenta. De manhã, algumas estradas à volta de Braga ainda estavam fechadas, viam-se colunas de fumo que se levantavam e a estrada para Guimarães ainda tinha amplos espaços a fumegar, com a supervisão dos bombeiros. Sorte a minha, que não tive de passar o que outros passaram. Todo o vale do Dão ardeu, além de boa parte de Lafões, do Pinhal Interior e da mancha verde perto da Marinha Grande conhecido em todo o país como Pinhal de Leiria, essencial na aprendizagem da história na escola. Dezenas de pessoas morreram, outras ficaram feridas, centenas de casas, algumas de primeira habitação, arderam, bem como dezenas de empresas, sustento de tantos municípios. As imagens de desolação e do horror após esse inferno terrestre estão por toda a parte. O rasto de destruição é incomensurável. Para mais, calhou-nos um primeiro-ministro insensível que só soube gaguejar desculpas burocráticas, uma ministra do Interior sem condições psicológicas, sapiência ou competência para o cargo, e uma protecção civil aos papéis, sem dispor de meios nem de aviões para combater os fogos. 
Ficam relatos na primeira pessoas, como o do José Maria Montenegro, que felizmente conseguiu que a casa de família, em Tourais, Seia, se mantivesse. Menos sorte tiveram os meus primos Henriques Simões, de Poiares, que viram a sua centenária casa dos Moinhos, onde ainda havia arquivos dos primórdios do concelho, e onde tinha nascido o meu tio-avô Augusto Henriques Simões, arder quase por completo, restando as paredes, alguns anexos e a capela. Também as velhas casas perecem. Ironia das ironias, Poiares é precisamente o município de onde é originário e ao qual presidiu durante quase 40 anos Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. 

Foto de João Pedro Pimenta.
Guimarães, 16 de Outubro de 2017- A estátua do Conquistador parece curvar-se à bandeira a meia haste.

quinta-feira, junho 29, 2017

Ribeiro Telles e a floresta


Na sequência dos terríveis incêndios de triste memória no Pinhal Interior, e no meio de todas as críticas e recriminações, surgiram nas redes sociais uns textos a recordar as casas dos guardas florestais construídas no Estado Novo, a passar a ideia de que no Estado Novo quase não havia incêndios por causa das políticas seguidas,  e no fundo a louvar Salazar e a recriminar o regime actual.
É verdade que havia mais vigilância florestal. Mas também havia mais população no interior, que começou a abandoná-lo precisamente nas décadas do Estado Novo, levando ao abandono dos campos e de parte importante do território e à desertificação. E sobretudo iniciou-se nesse período uma política florestal que levou ao abandono de campos e de baldios (como descreve Aquilino Ribeiro no romance Quando os Lobos Uivam), à diminuição drástica da pastorícia e ao avanço de espécies arbóreas que muito contribuiriam para os futuros incêndios, em especial o pinheiro bravo e o eucalipto, por razões industriais e económicas. A herança florestal do Estado Novo acabou por ser uma bomba ao retardador.

Em boa hora a Visão recordou uma entrevista de 2003 a Gonçalo Ribeiro Telles. As respostas que dá são como sempre actualíssimas e muito à frente do tempo. Já que algumas das suas ideias foram postas em prática nas cidades, convinha que também o fizessem no campo, e em especial nas florestas.
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segunda-feira, junho 19, 2017

Os culpados e as razões


Eu sei que a tragédia que tem arrasado o Pinhal Interior gera revolta e vontade de culpar algo ou alguém. Mas nada justifica os milhares de moralistas de ocasião que aproveitam a oportunidade para vir com as teorias da conspiração, a sabedoria saloia, apontando os dedos aos "culpados" e aos "perito que nunca fazem nada" - embora me pareça que os peritos são os que mais fazem, ou seja, estudam as situações, divulgam os seus relatórios e esperam que quem de direito actue devidamente.

Mais do que apontar o dedo para toda a parte, cumpre antes de mais actuar no presente e pensar no futuro, que no caso dos incêndios é já amanhã. Diz-se sempre que "isto só muda quando houver uma tragédia". Pois já está a haver uma, ainda pior e mais mortífera do que a que vimos há menos de um ano. Não há mais margem para adiamentos. Os diagnósticos estão feitos, cumpre agir. E todo este pesadelo leva-nos a dois assuntos muito discutidos ultimamente: a prevenção e combate aos incêndios, pois claro, mas também o ordenamento do território. Sim, a coesão territorial não é só levar organismos de Lisboa para o Porto, como muitos julgam. Há que prestar atenção a territórios como Pedrógão Grande, Vimioso, Figueira  de Castelo Rodrigo, Pampilhosa da Serra, Monforte ou Alcoutim, que perderam população, recursos e capacidade de se renovar ao longo das últimas décadas. Que me lembre, já não ouvia notícias da região do Pinhal Interior desde que fizeram a praia artificial de Castanheira de Pêra. Não são só os eucaliptos e o pinheiro bravo os responsáveis por este inferno. A falta de população, que abandonou estas terras em direcção às capitais de distrito e aos subúrbios do litoral, é dos casos mais graves do nosso país nas últimas décadas. Retiram-se das aldeias, dos lugares e dos campos e deixam-nos ao abandono, sob a anarquia do mato e de espécies arbóreas que crescem mais rapidamente. Perdem-se os corta-fogos e os vigilantes da terra. Qualquer relação entre isto e o aumento proporcional dos fogos ao longo dos anos não é mera coincidência.

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segunda-feira, maio 08, 2017

Cristofobia, essa palavra de raro uso

 
Hoje em dia encontramos fobias por toda a parte. Não me refiro a doenças clinicamente determinadas, mas às fobias sociais, sobretudo no que à sexualidade e religião dizem respeito. Entre outras, encontramos a homofobia (que se tende a exagerar nuns casos e a ignorar noutros), a islamofobia, e, já sem o sufixo mas usado pelas mesmas razões, o anti-semitismo, normalmente reduzido à sub-espécie anti-judaísmo ou mesmo anti-sionismo.
É precisamente no caso das religiões que fico mais perplexo quando vejo palavras usadas por tudo e por nada. Quando se fala da islamofobia na Europa por exemplo. Não que não a haja (e por vezes passa despercebida, como o atentado recente num centro islâmico de Zurique), mas tende não raramente a ser sobrevalorizada. Ou o anti-semitismo, outro fenómeno inegável. Mas é raro, raríssimo, encontrarmos referências à cristofobia.
Vimos, recentemente, um atentado na principal igreja copta do Egipto que vitimou inúmeros fiéis, cancelou as celebrações da Páscoa e motivou uma atenção especial do Papa na sua visita recente ao país. Vemos o número de cristãos no Médio-Oriente, ali presentes desde os tempos bíblicos, a diminuir constantemente, seja porque fogem para outras paragens, seja porque são simplesmente liquidados pelas maiorias. Boa parte dos seus mosteiros e igrejas são agora ruínas ou meras recordações. No Iraque, na Síria, no Egipto (há pouco mais de meio século, os cristãos de Alexandria, contando também com as comunidades italianas, gregas e britânicas, seriam mais de metade da população da cidade), noutras paragens do norte de África e do Sahel, mesmo no Líbano, a percentagem tem diminuido drasticamente.
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Apesar disso, é raríssimo encontrarmos a palavra cristofobia para dar nome a essa trágica mudança demográfica e cultural. Quando qualquer gesto menos simpático para com os muçulmanos na Europa, por exemplo, dá logo azo a acusações de islamofobia, não se compreende porque é que em situações bem mais graves não se fala de actos cristófobos. A palavra deve soar desconhecida a muitos, mas não é nenhuma invenção de última hora. Na realidade, ocasiões houve em que se a usou, mas para garantir que era "uma invenção" e um pretexto para a vitimização.
 
Não deixa de ser estranho que a religião que, juntando todas as suas igrejas, reúne mais fiéis no Mundo, não tenha grandes referências vocabulares para as perseguições de que é alvo. A explicação pode estar, para além da secularização da sociedade ocidental, nos medos e mentalidades pós-coloniais, ligadas a uma certa ideia de politicamente correcto, em que o cristianismo seria a religião do "ocupante" ocidental, pelo que a perseguição dos cristãos tratar-se-ia de uma justiça histórica e da expulsão dos antigos dominadores. Uma ideia peregrina, já que as populações que mais sofrem são minorias há muito estabelecidas no terreno, ou pelo menos evangelizadas sem ser à força (no  extremo-oriente, por exemplo). O que é certo é que as perseguições cristãs não só provocam menos eco como raramente se ouve a palavra que lhes devia estar associada.
 
Não há nenhuma razão para que o termo cristofobia não seja usado como merece. Quando há perseguições a cristãos e tentativas de eliminar a sua cultura é disso mesmo que se trata. A cristofobia existe, é constante e reiterada e infelizmente não tende a desaparecer. O pior mesmo é ser ignorada e escondida. Se não ajudamos os que são perseguidos, ao menos não escondamos que o são nem neguemos as palavras certas para o denunciar.
 
(Também publicado no Delito de Opinião)

quinta-feira, agosto 11, 2016

A tragédia do Verão e a discussão costumeira



Ao fim da tarde lá consegui ver um esboço de céu azul por entre este manto de fumo pesado e sufocante e as microcinzas que caem. Não sei se a causa vem de Gondomar, de Águeda, de Arouca ou dos Arcos, mas o mais provável é que seja uma conjugação de tudo.
Com todos estes fogos horrorosos, sobressaem duas características bem portuguesas: a solidariedade, evidente entre todos os que vão ajudar os que têm as suas casas em perigo, e a maledicência, que se espalha em milhares de milhares de comentários das redes sociais, sempre com um culpado em mira: o governo (tanto o actual como os anteriores), as autarquias, os bombeiros, os "interesses instalados", os madeireiros, as celuloses, os turistas, etc. E inevitavelmente fala-se sempre na prevenção. Certíssimo, a prevenção, mas seria bom que se falasse disso não apenas em Agosto, à vista das chamas, mas em Janeiro ou Fevereiro (falo da discussão entre a sociedade civil, porque ignoro os planos do MAE e restantes organismos responsáveis). E mesmo uma pessoa como eu, que não percebe grande coisa do assunto, já conseguia prever que com uma vegetação enorme devido a uma Primavera chuvosa, temperaturas anormalmente altos, ventos fortíssimos e a nossa "bela" floresta constituída por esse grande combustível chamado eucalipto, só mesmo por muita sorte é que não haveria fogos. Mas a sorte não aparece sempre.
Todos os anos se repete a mesma discussão sobre fogos. E estes variam devido a um e só um factor: o clima. Há dois anos, choveu nos primeiros dias de Agosto e quase não se falou do assunto. A diferença entre haver ou não incêndios parece resumir-se à maior ou menor pluviosidade de verão. É disso mesmo que estamos a precisar: de uma boa chuvada. 

A meteorologia anuncia chuva para a semana. Oxalá acerte.

quarta-feira, julho 27, 2016

Um mártir




...porque o é, realmente. Porque morreu a cumprir as obrigações para com Deus e a comunidade e honrar os seus votos. Coincidência pouco alegre: o seu martírio ocorreu ao lado da mesma cidade, Rouen, onde morreu outra mártir e a padroeira de França, Joana D ´Arc. E como já notaram, na Igreja de Saint Etienne (Estêvão), o primeiro mártir cristão.
Aquilo que ouvíamos acontecer na Síria e no Iraque acontece agora na Europa. Temíamos que pudesse suceder, mas no fundo com esperança que não, que ficasse lá longe, aquém Mediterrâneo. O Padre Jacques Hamel é afinal um mártir da Igreja tal como são muitos outros que morreram nos últimos anos às mãos de uma horda que não respeita religiões, idades ou qualquer outra condição.
 
Falava no último post de alguns apressados, de autores de frases banais. Nas redes sociais de hoje, voltam a aparecer. Mas até por respeito para com Jacques Hamel, podia-se evitar lançar tiros para todo o lado, sobretudo para os refugiados, como já vi muitos fazer, como se já soubessem de quem se tratou e precisassem de um culpado à mão, como acontecia no velho Oeste.
 
Mas entretanto aparecem mais grupos particularmente irritantes. Os que vêm com pacifismos patéticos ou oportunistas, afirmando que "a culpa é do racismo e da austeridade", como o fazem alguns idiotas úteis. Ou pior, os que por ser um padre, lançam piadinhas ou até encolhem os ombros porque, segundo eles, "também houve as cruzadas e a Inquisição". Pois, e também houve a cultura ocidental de mil e quinhentos anos, também houve o espírito de acolhimento e de caridade, também houve o fim dos jogos de circo e a escravatura (que infelizmente voltou), também houve a capela Sistina, a regra de S. Bento e as missões a acolher os pobres deste mundo. A esses, perdoemos, e se voltarem a insistir, talvez um balde de água fria pela cabeça abaixo seguido de uma sabatina de estudos sobre a matéria lhes faça bem. O Mal paga-se com o Bem, sabemo-lo desde aquela última Ceia.

domingo, agosto 16, 2015

Recordações da política vilarrealense numa semana amarga





As confusões com a campanha do PS custaram a cabeça ao responsável pela mesma, Ascenso Simões. Por coincidência, outro acontecimento, também nos últimos dias, levou-me a recordar os primórdios da carreira política do ex-Secretário de Estado de António Costa.


Nas autárquicas de 1993 (em que o actual líder socialista concorreu à câmara de Loures, sem êxito, com a célebre campanha do burro e do Ferrari), o jovem Ascenso era a aposta do PS para a conquista da câmara de Vila Real, dominada pelo PSD e cujo único presidente desde os anos setenta, Armando Moreira, se retirava. Pelo partido dominante apresentou-se o vereador Manuel Martins, tido como titubeante e pouco popular. Previa-se um combate renhido entre o candidato inexperiente e o homem do PSD. Lembro-me de ver Ascenso, numa tarde de chuva, com uma mini-comitiva atrás, de cabelo cuidadosamente penteado com gel e pesados óculos a entrar no estabelecimento semi-rural onde a minha família se abastecia, com ar simpático mas rígido, claramente pouco à vontade com a função.
Apesar disso, e dado o candidato laranja também não estar à vontade, acreditou-se que o PS conseguiria mesmo roubar aquele bastião laranja, até porque o CDS apresentava uma boa candidatura e tinha as suas ambições. Até António Guterres se deslocou a Vila Real para ajudar o candidato, que acabou o comício com lágrimas de emoção. No fim, o PSD manteve a câmara por uma unha negra, o PS contentou-se em dividir os vereadores com a maioria e o CDS conquistou apenas um lugar na vereação, ficando como fiel da balança (seria a última vez, até hoje, a conquistarem um lugar no executivo local).
Manuel Martins revelar-se-ia um muito razoável presidente da câmara, lançando obras de vulto, como o teatro, uma rede de museus e o parque fluvial, e moderando um pouco o caos urbanístico de que Vila Real sofria - e ainda sofre. Nas autárquicas seguintes, reeditou-se o combate entre Martins e Ascenso, mas o autarca em funções venceria sem dificuldades, arrasando o CDS e tirando votos ao PS. Depois, a história é conhecida: Ascenso tornou-se líder do PS vilarrealense, passou pelo parlamento e chegou ao Governo de José Sócrates tendo António Costa como ministro, até à saída deste para a CM de Lisboa (ficaram célebres as pancadas amigáveis que o transmontano desferiu sobre Costa, com a emoção, na tomada de posse). Tornou-se uma figura respeitada e ouvida nos órgãos nacionais do partido, de tal forma que o escolheram para coordenador geral da campanha eleitoral que se avizinha. Manuel Martins permaneceu na câmara de Vila Real durante vinte anos, até 2013, em que não se recandidatou por atingir o limite de mandatos. O PS aproveitou e conseguiu por fim conquistar um município que havia quase quarenta anos estava nas mãos do PSD, pelas mãos de Rui Santos.


Lembrei-me dos dois antigos adversários por causa da semana nefasta que os apanhou. Ascenso Simões teve de se demitir do cargo de coordenador da campanha depois dos imensos casos que surgiram, com destaque nas pessoas que apareceram nos outdoors sem terem dado autorização. A sua carreira, que indicava até que seria "ministeriável", sofreu agora um rombo enorme. Mas pode não ser o seu fim. Pior só mesmo Manuel Martins, que morreu subitamente a meio da semana, com apenas 73 anos, quando se encontrava de férias. Ninguém poderia adivinhar que tantos anos depois os dois antigos adversários de Vila Real seriam notícia na mesma semana por tão más razões.

terça-feira, junho 30, 2015

Um fim de semana com duas desgraças

 
Fim de semana para cima e para baixo, cansativo, enervante, apenas atenuado por um bom e velho jantar em casa de amigos, neste início de Verão. Mas além de tudo, notícias negras relacionadas com senhoras respeitáveis.
No sábado, já sabia da notícia do internamento de Maria Barroso, mas não imaginava a gravidade. Vi então que tinha dado uma queda, e depois de observações inconsequentes no hospital, uma hemorragia deixá-la-ia em estado crítico, até ao dia em que escrevo. Vi essa notícia precisamente num tasco da rua em que mora, ao Campo Grande. Minutos depois, sob um sol abrasador, passava na entrada do prédio onde imaginei que morasse, e decorridos segundos, reparei que saía de lá João Soares, cabisbaixo, provavelmente depois de visitar o pai. Não pude deixar de sentir pena por aquela família que de repente fica privada da sua matriarca. Tanto se tem falado de quão caído e envelhecido está Mário Soares, e afinal de contas pode sobreviver a Maria Barroso. Resta saber se conseguirá durante muito tempo.
Por essa altura também já sabia do terrível atentado em Sousse, na Tunísia, onde um psicopata sob mando do chamado "Estado Islâmico" baleou todos os que encontrou na praia, matando dezenas de turistas. Entre elas, estava a senhora portuguesa que lá tinha ido recordar outras visitas ao país. A notícia e os pormenores já impressionavam e emocionavam, mas à noite soube por um amigo de quem se tratava e cheguei à conclusão de que eu próprio a conhecera em tempos, salvo erro na feira de Vila Real, que era amiga da minha família e que costumava andar pelos mesmos circuitos, entre o Porto e Trás os Montes. Aliás, um jantar em casa de primos vilarealenses ficou cancelado por serem bastante próximos de Glorinha, como era conhecido por todos. Custa a crer como é que pessoas que conhecemos desses meios e locais, que parecem tão longínquos em tudo dos horrores da maior praga da actualidade, e que não tinham o menor envolvimento com questões religiosas ou políticas, possam ser vítimas dessa violência diabólica. O que só prova a globalidade e a proximidade dessa ameaça. O terrorismo dos jiadistas atingiu-nos agora, ainda que fora de Portugal, na pessoa de Glorinha, que desgraçadamente acreditou como tantos outros que na Tunísia podia fazer umas férias tranquilas.

sábado, maio 30, 2015

Palmira



Quando era pequeno, lembro-me de ter ficado espantado com a fotografia que vinha na enciclopédia geográfica da Readers Digest de um enorme conjunto de colunas que se erguiam no deserto sírio. Ao lado explicava-se que se tratava da antiga cidade de Palmira, que chegara a ser centro de um império e que afrontara as legiões romanas sob a liderança da sua mítica rainha Zenóbia.
Imaginar uma grande cidade da Antiguidade reduzida a um conjunto de colunas e edifícios arruinados rodeados de palmeiras e implantados numa terra cor de ocre tinha algo de misterioso e quase inatingível, e só podia fazer despertar a imaginação. E a imagem de Palmira nunca mais me saiu da cabeça. Muitos anos mais tarde leria outras informações sobre a cidade. E na sua série de documentários sobre o Mediterrâneo, Miguel Portas andaria por Palmira, demarcando a fronteira entre o deserto e o Mediterrâneo. Onde acabavam as oliveiras, acabava a influência mediterrânica. Para diante, estendia-se o deserto sírio.

Agora que o diabólico Daesh, ou "Estado Islâmico", se apoderou da cidade e da região envolvente (coisa que já temia há algum tempo), é de esperar outra destruição patrimonial bárbara como as que têm sido efectuadas na planície de Nínive, ao destruir toda a herança dos povos assírios, medos e babilónios que encontram, em museus ou fora deles. Surpreendentemente, os comunicados do Daesh negam, afirmando que apenas as peças figurativas serão destruídas, deixando intocado o essencial de Palmira. Mas aquilo que poderia ser uma nesga de civilização da organização que agora controla metade do território sírio é absolutamente desmentida pelas notícias da "execução" de centenas de pessoas na região, incluindo crianças, até no recinto do teatro romano. É de esperar de quem mata assim civis desta forma que poupasse as pedras? O "estado Islâmico" só se confirma como a organização mais tenebrosa das últimas décadas, mais nefasta ainda do que os nazis ou os khmers vermelhos.

Palmira era daqueles sítios mágicos que queria conhecer desde que vi as suas fotografias. Talvez ainda seja possível, quando um dia a região estiver pacificada. Mas desconfio que com o que lá se passou agora, por estes dias, vai-me faltar a vontade ou a coragem.

terça-feira, abril 21, 2015

A tragédia do Mediterrâneo




Quase em continuação do último post, de outros massacres, estes a meio do Mediterrâneo, também tem falado o Papa. Há já muito tempo, aliás. Nestes últimos dias, chegou-nos a notícia de centenas de emigrantes desaparecidos em mais uma embarcação sobrelotada, e de mais um naufrágio em Rodes, o que levou a uma reunião extraordinária do Conselho Europeu. As vítimas deste autêntico tráfico sucedem-se. A Itália faz o que pode, mas não é por ser o objectivo imediato dos migrantes que tem de fazer tudo. E o problema está a montante, onde milhares de refugiados da África Subsariana arriscam-se ao deserto e depois ao mar para fugir da fome, da miséria e da guerra. Desde que o poder na Líbia se pulverizou que estes boat people aumentaram intensamente, por vezes trazendo com eles radicais islâmicos infiltrados. Mas seria algo cínico desejar que um regime totalitário dependente de uma família "controlasse" todo aquele tráfego. Não podendo fazer com que nos países de origem haja condições para os seus habitantes não fugirem de lá, podia-se ao menos tentar novos canais de migração, estabelecer um certo controlo no Norte de África - o que implicaria uma verdadeira força de intervenção na Líbia, o desbaratamento de grupos de bandoleiros/jiadistas e acordos com os outros estados vizinhos, e obviamente mais prevenção no mar. Haja mais atenção, força de vontade e organização e talvez se consigam evitar bem mais desastres neste Mediterrâneo que já assistiu a grandes feitos da humanidade e da civilização e que agora é o palco da tragédia desta gente em fuga. Que o Papa seja mais ouvido, que já vai sendo tempo.

quarta-feira, julho 23, 2014

Ainda mais tragédias, no já suspeito Médio Oriente



E mais tragédias observamos em Gaza. A trama é a do costume: elementos do Hamas (neste caso há dúvidas, já que os primeiros factos aconteceram na Cisjordânia) assassinam israelitas, Israel retalia com bombardeamentos aéreos, são lançados rockets de Gaza contra território israelita, o Tsahal entra em Gaza para liquidar elementos do Hamas e suas infraestruturas bélicas e acaba a matar centenas de civis...Como se nada mudasse, e fosse um filme repetido vezes sem conta. Culpados há muitos, claro, dos dirigentes do Hamas para quem Israel não tem qualquer direito a existir aos falcões asquenazis, que parecem considerar os palestinianos como sub-humanos (um pouco como os seus avós eram considerados pelo 3º Reich), passando pelo cinismo de colonos que se instalam em cadeiras a observar os bombardeamentos a Gaza, como se cinema ao ar livre se tratasse. Mas vítimas, infelizmente, há muitas mais.

E ainda no Médio Oriente, o novo califado entre a Síria e o Iraque consolida-se, perante a fragilidade e inoperância das forças regulares iraquianas e a teimosia do chefe de governo Maliki, que quer a todo o custo conservar o poder sem o dividir. Restam as milícias xiitas e as forças curdas, que, avisadas, protegem um território independente de facto, que isolado de toda aquela guerra permanente, progride e não pretende ficar de novo sob a alçada de Bagdad. Ao fim de tantos massacres e combates, os curdos vêem finalmente o seu estado a ser erguido com êxito. Já os cristãos que vivem naquele território, pré-muçulmanos, que já foram a maioria, são forçados a abandonar as cidades incluídas no califado, sob pena de serem massacrados se não se converterem. Eis um drama que não comove os furiosos humanistas que tanto bradam pelas vítimas palestinianas e alertam para a terrível islamofobia na Europa (esquecendo-se da autêntica na Índia e na Birmânia).



PS: indispensável deixar aqui a fabuloso e eloquente (em todos os termos) video This Land is Mine, que nos últimos dias tem rodado na net com particular (e justificada) existência.

sexta-feira, julho 18, 2014

O essencial depois de uma tragédia



Desconfio que depois da tragédia do avião da Malasyan Airlines, ontem, nos céus do complicado território entre a Ucrânia e a Rússia, apenas quatro meses depois do misteriosíssimo desaparecimento de um avião daquela companhia, poucos se atreverão a subir para um avião da mesma, embora as culpas não lhe devam ser imputadas. E o ambiente naquelas paragens promete ficar ainda mais quente. Tudo indica tratar-se de mísseis anti-aéreos disparados pelos rebeldes pró-russos, confundindo-o com um avião militar ucraniano, o que só tende a agravar a coisa. De qualquer forma, e sabendo-se que as responsabilidades terão de ser apuradas (e mandar a caixa negra do aparelho para Moscovo não abona muito a favor de quem o faz), urge antes de mais prestar auxílio às vítimas colaterais - as famílias - e interditar aquele espaço aéreo. Ou como dizia o outro, enterrar os mortos e cuidar dos vivos. No meio disto tudo, histórias trágicas, como a daquele australiano, que depois de perder o irmão no voo desaparecido em Março, perdeu agora uma enteada. Há vidas que não são nada invejáveis.

quinta-feira, julho 10, 2014

Depois do Mineirazo

 

Depois do terramoto que ontem se abateu sobre o Brasil, em Belo Horizonte, ficaram as palavras de choque, terror, espanto e também admiração pela proeza da Mannschaft germânica. O risco de perder este segundo mundial caseiro era real, como em tempos cheguei a prever, e o fantasma de novo Maracanazo esteve presente. O que ninguém podia certamente adivinhar era uma derrota desta dimensão avassaladora, mostrando uma selecção totalmente desgarrada, com uma atitude mental na lama, desfazendo-se psicologicamente como um castelo de cartas. Scolari não perdeu nova final mas não chegou lá da forma mais escandalosa. Todo o futebol brasileiro sofreu uma humilhação inaudita, que o abalou de alto a baixo, e terá de largar muito lastro e mudar muito se não quiser empenhar o futuro. Afinal de contas, também o futebol alemão se renovou depois de uma pesada humilhação frente a Portugal, em 2000. Mas as consequências podem ser ainda piores, para além do fim da carreira de Scolari e dos dirigentes federativos brasileiros. Os arrastões e as cenas de violência verificadas após o jogo demonstram isso mesmo. O futebol é um dos traços mais vincados da sociedade brasileira, e a selecção um dos factores de união nacional. O desastre pode ter implicações mais sérias, sobretudo em ano de eleições. Ainda por cima, muitos consideram o Mineirazo de 2014 pior que o Maracanazo de 1950,  que era aliás tido como uma das maiores tragédias da história do Brasil. É impossível prever o futuro, mas a humilhação terá com certeza repercussões extra-futebol, a começar em todos os erros e gastos da organização da prova. Convém lembrar que daqui a dois anos haverá jogos olímpicos no Rio.
E para a coisa ser pior, um dia depois do Mineirazo, os brasileiros ainda viram a Argentina chegar à final do "seu" mundial. Talvez a morte, dois dias antes, do mítico Alfredo Di Stéfano os tenha inspirado (embora fosse mais ligado a Espanha do que à Argentina), ou as orações do Papa fossem mais fortes. Os vizinhos não deixarão por certo de aproveitar esta ocasião para troçar ainda mais do velho rival, invadindo o Rio de Janeiro, mesmo que corram a risco de serem igualmente trucidados pela Alemanha (com a qual repetirão uma final). que será pior para o Brasil, afinal? Perder no confronto do 3º e 4º lugar com a Argentina ou vê-lo chegar à final, com o risco (mínimo) de a ver campeão da Mundo em pleno Maracanã?


terça-feira, abril 15, 2014

O grande fogo de Valparaíso


A magnífica Valparaíso, a maior  pérola da América do Sul no Pacífico, segunda cidade chilena e sede da respectiva assembleia nacional, uma espécie de S. Francisco do hemisfério Sul, com uma extensa baía e bairros de casas coloridas a despenhar-se das colinas, unidas por eléctricos e funiculares, está por estes dias sob chamas e sob fumo. Quinze pessoas morreram, várias ficaram gravemente feridas, quase três mil casas foram destruídas, e milhares de pessoas foram desalojadas. Não se conhecem ainda as causas do fogo, que trepou e desceu pelas colinas, sem dar grande oportunidade de o apagar. A zona da baía e o centro terão ficado incólumes, bem como o parlamento, mas muitos bairros mais modestos foram completamente destruídos, deixando milhares sem nada. Ainda há dias "viajei" por Valparaíso, no âmbito de um trabalho de pesquisas baseada na net, e descobri que não só é uma cidade encantadora como tem uma vida cultural intensa e vibrante. Apeteceu-me na altura fazer as malas e voar, ou mais ainda, navegar até lá. Se o tivesse feito estaria provavelmente a apagar fogos e a ajudar no rescaldo. Valparaíso bem merecia.



 
 

As chamas à noite, com a Assembleia Nacional chilena em primeiro plano.




sexta-feira, dezembro 06, 2013

Apanhar com um helicóptero em cima


Mas o que se passa com os helicópteros na Grã-Bretanha? Em Janeiro, um destes aparelhos chocou contra uma grua usada para a construção de um arranha-céus em Vauxhall (do outro lado do rio fica a sede do MI-5, pelo que se pensou na hipótese de atentado), em plena Londres a dirigir-se para o trabalho, matou o ocupante e um transeunte e feriu mais umas quantas pessoas cá em baixo.

No fim de semana passado, um helicóptero da polícia desabou sobre um bar em Glasgow, junto ao rio Clyde, onde decorria um concerto de ska, e o telhado por sua vezes desabou sobre o público, matando os três ocupantes do aparelho, mais cinco pessoas no bar, e provocando dezenas de feridos (e no mesmo dia caiu um avião das linhas aéreas moçambicanas, vitimando todos os ocupantes, incluindo alguns portugueses).


Claro que os helicópteros não são imunes a acidentes, que acontecem facilmente quando se perde o seu controlo. Mas o que assusta mais aqui é ver a vida quotidiana, seja na ida para o trabalho, nas manhãs em que já apetece tão pouco, ou no lazer do fim de semana, interrompida brutalmente por acidentes imprevisíveis com máquinas infernais vindas do ar. Para além das vítimas, quem estava nos locais não ganhou para o susto e para o trauma.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Os refugiados e a Vergonha


E enquanto nos debruçamos sobre a nossa politicazinha interna, os ajustes de contas,os jogos de palavras, as "irrevogabilidades", e as "incorrecções factuais", passou-se mais de uma semana desde o horrível naufrágio de passageiros africanos no Mediterrâneo, a menos de um quilómetro de Lampedusa. Trezentas e cinquenta pessoas, sobretudo eritreus e somalis, grande parte mulheres e crianças, perderam-se no mar. Pelo meio, Barroso e responsáveis italianos deslocaram-se à ilha para prestar homenagens às vítimas, e foram apupados pelos que assistiram a tudo aquilo sem poder fazer nada, para grande surpresa sua. Quem raramente anda fora dos corredores climatizados de Bruxelas talvez fique surpreendido, mas a verdade é que a UE andou este tempo todo indiferente à tragédia repetida dos refugiados que se fazem ao mar - excepto quando Kadhafi lhes servia e fazia de barreira a esses refugiados, mas desde que o poder verde na Líbia se desintegrou que deixou de haver qualquer controlo.
 
 
 
O Papa já tinha chamado a atenção para este problema, em Julho, aquando da primeira visita oficial do seu pontificado, precisamente a Lampedusa. A oportunidade e o simbolismo não foram por acaso. Na altura, viu-se aquilo como uma visita de caridade e pouco se  ligou. Agora, face à magnitude da tragédia, é impossível virar os olhos. Parece que finalmente as autoridades europeias e italianas se decidiram a fazer alguma coisa. Acredito que a voz trémula de Durão depois de ver as urnas dos mortos (e nem todos foram encontrados) fosse sincera, mas tivemos de chegar a um acidente destas proporções para que alguma coisa fosse feita. Entretanto, houve novo naufrágio, igualmente com vítimas, embora bastante menos. Palavras e boas intenções, só por si, não auxiliam os náufragos.
 
O Papa voltou a falar, com a autoridade moral que tem para o fazer, ele que alertou antes de todos para o que se vivia ali. Quando disse que havia temas importantes mas que não podíamos viver obcecados com eles, era disto que estava a falar. Quantas pessoas que dissertaram e se manifestaram a propósito do casamento gay, por exemplo, escreveram alguma coisa sobre o drama dos refugiados?
A situação resumiu-se bem na palavra que o Santo Padre usou para a classificar: "Vergonha". Estamos demasiado ocupados para prestar atenção ao que se passa à nossa porta. Isso sim, devia ser razão de vergonha.
 

sexta-feira, julho 26, 2013

Santiago manchado


A tragédia aqui ao lado, em Santiago, impressiona não só pela proximidade e pelos números brutais (já iam em oitenta mortos, e ainda há vários feridos graves), mas também pelas aparentes causas do acidente - a passagem numa curva a mais do dobro da velocidade aconselhada, o que parece demonstrar que podia perfeitamente ser evitado. Mas impressiona também por acontecer logo na véspera do dia de Santiago, o dia nacional da Galiza. E u próprio estive para ir a um evento ligado ao Caminho Português de Santiago, propositadamente marcado para hoje. Um desastre destes é sempre atroz, mas não consigo imaginar época pior para acontecer. Durante os próximos anos, este dia, por norma de alegria e comemoração, e de grande afluência de peregrinos nos anos de Xacobeo (quando o dia 25 calha num Domingo), vai certamente empalidecer.
 


(Na foto acima, evocação de Santiago Matamouros, frontaria da Igreja de Santiago, Tavira).