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quinta-feira, junho 13, 2019

A cultura em dois homens de esquerda e direita


Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo. 



Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Rúben.




sexta-feira, abril 05, 2019

Os nazis, esses esquerdistas


Segundo Jair Bolsonaro, esse grande pensador político, o nazismo era de esquerda porque "tinha socialismo no nome". Pois tinha, provém do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. E a República Democrática Alemã e a República Popular Democrática da Coreia do Norte sempre foram modelos de democracia porque tinham "democrática" no nome. Se calhar vêm daí as dúvidas de Bernardino Soares sobre a Coreia do Norte. Vai-se a ver, Bolsonaro e Bernardino até têm ideias parecidas.

Mas há quem tenha ideias fixas. Muitos dos apoiantes desta tese continuam a defendê-la nas redes sociais, como Maria Vieira, actriz convertida em comentadora política, que aparentemente descobriu agora que nazi é abreviatura de nationalsozialismus (ou nem tanto, porque também diz que "os nacionais-socialistas depois ficaram nazis) e sente-se defraudada "pelos historiadores comunistas" que "andaram a passar a ideia de que o nazismo era de extrema-direita" (confirmar isto na página de Facebook da senhora).

Esta estranha ideia de rever a posição do nazismo no espectro político mostra bem como as massas hoje em dia se deixam arrastar pelas redes sociais e por demagogos, tanto os messiânicos como os de caixa de comentários. Houve uma discussão idêntica, há uns anos, entre José Rodrigues dos Santos, que jurava a pés juntos que o fascismo provinha do marxismo, e António Araújo (longe de ser marxista), que o contradisse com sólida argumentação. Ao menos aí houve polémica nos jornais; quase que me atrevo a dizer "como antigamente", só que sem os numerosos pontos de exclamação e a ameaça de bengaladas. 

Mas só para dar uma pequena ajuda à ideia revisionista de que o nazismo era de esquerda e que o fascismo "era marxista", lembrei-me de um livro meio esquecido mas que ainda tenho num estante qualquer, o Testamento de Mussolini com prefácio de Alfredo Pimenta (não é meu parente, asseguro). Mais do que a herança da Duce, interessam aqui as palavras do historiador português fundador da Acção Realista, monárquico tradicionalista e com ideias próximas do Integralismo Lusitano. Pimenta eleva Mussolini aos píncaros, apesar de "não se considerar feixista" (podíamos usar o aportuguesamento do termo, como fazem os galegos), considera-o restaurador do império romano" como Hitler tinha restaurado "o império germânico" e Salazar "o império lusitano". Mussolini começou no socialismo, como se sabe, mas as suas convicções mudaram com os anos. Alfredo Pimenta, tal como António Sardinha, o ideólogo do Integralismo, também teve um percurso de extremos: começou no anarquismo, passou pelo republicanismo moderado e acabou na tradicionalismo anti-liberal e anti-democrata. É um bom exemplo de como há mudanças profundas em certos percursos políticos, e uma testemunha óbvia de que os compagnons de route dos fascistas por esta altura eram os tradicionalistas e não os marxistas e que o nacional-socialismo era uma doutrina da direita revolucionária e nunca da esquerda.


segunda-feira, janeiro 14, 2019

O equívoco Mário Machado


A famigerada entrevista de Mário Machado por Manuel Luís Goucha (isto dito assim seria digno de um jornal satírico), além de levantar celeuma pela qualidade do entrevistado, dividiu um pouco as hostes da micropolítica. Parece que pelo facto de alguma esquerda bramir contra a entrevista, alguma direita pespega com exemplos aparentemente equivalentes que tiveram honras de entrevistados ou até de colunistas, como Camilo Mortágua, Isabel do Carmo ou Otelo Saraiva de Carvalho. Nuno Melo, cabeça de lista pelo CDS às europeias, por exemplo, é um dos que cai nessa armadilha, mais digna de conversas de rede social. É que tirando talvez Otelo, pela sua ligação às tenebrosas FP-25, é difícil equiparar Machado a qualquer um dos outros, e muito menos a Mariana Mortágua, que surge à baila. O equivalente directo seriam as redes bombistas dos anos setenta, também com crimes nas mãos, como o da morte do Padre Max (já depois do 25 de Novembro), cujos autores nunca foram punidos nem sequer condenados. Um dos prováveis autores morais, aliás, teve um elogio póstumo do mesmo Nuno Melo, o que talvez ajude a explicar  o esquecimento.

A ver se nos entendemos: Mário Machado não é um político, nem representante de um sector político, tirando uma dúzia de neonazis. É um delinquente e um psicopata, preso por associação a grupos de criminosos e assassinos, posse de arma, ameaças, etc. Ultimamente tem arquitectado planos para dirigir a Juve Leo, depois da bela operação  criminosa que as cúpulas da claque sportinguista protagonizaram, e de uma facção de motards, Los Bandidos, não  exactamente conhecidos  por actos de beneficência. Talvez a indignação de alguma esquerda por lhe darem a palavra, desde que não lance mensagens de ódio, seja contraproducente e oportunista. Mas a defesa, ou pelo menos a ausência de crítica de alguma direita, fazendo equiparações abusivas, dá a impressão de que tolera Machado, ou que não se incomoda grandemente com ele, passando a ideia de que ele é o radical do "seu lado". Dar importância política a quem tem somente importância criminal, eis o profundo erro dos que recordam eventuais equivalências do outro espectro.

Mas há ainda outra aspecto esta história toda que me deixa espantado: é a pergunta "acha que faz falta um novo Salazar", e sobretudo que Mário Machado ache que sim, É que com o currículo de desordeiro que tem, o mais provável é que no tempo de Salazar ele fosse posto na masmorra ainda mais anos.
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quinta-feira, maio 11, 2017

Diferenças e comparações entre os antigos e modernos movimentos políticos franceses


Outro dos factos curiosos nas presidenciais francesas é a percentagem de pessoas mais novas que votaram em Marine Le Pen, o que reduz a pó a ideia de que os "jovens" não votam na direita, ou não têm grande atracção pelos fascismo, etc. Não deixa de espantar que a geração que mais beneficiou do programa Erasmus pretenda agora em boa parte votar nas forças que o querem restringir ou suprimir. E que aqueles que passam o tempo a atacar a globalização o façam através do meio que é o símbolo maior dessa mesma globalização e a sua grande impulsionadora- a internet.

A linguagem que observamos nestes apaniguados de LePen e da maioria das forças populistas de direita que vão fazendo caminho por essa Europa fora é a de uma aparente raiva tudo quanto os rodeia, ou pelo menos áquilo que acham que podem ser os perigos latentes: os muçulmanos (ainda que em grande parte dos casos não conheçam nenhum), as "elites financeiras" e "globalistas", a maçonaria, os gays, o "sistema corrupto", e por vezes, numa revisitação ao velho anti-semitismo, a "finança judaica". Aliás, a linguagem que se observa é tantas vezes semelhante à que se ouvia nos anos trinta, se bem que na maior parte dos casos se substitua judeus por muçulmanos. À conspiração "judaico-maçónica" sucede a conspiração "islamo-globalista", ou derivações parecidas. Num continente há muitas décadas em paz e que tende a perder as suas memórias, com a passagem das gerações que viveram os horrores dos anos 30/40, a vigilância cai, desenterram-se os fantasmas e esquece-se o clima que se viva antes do maior conflito mundial de sempre. Não que a Europa esteja nas mesmas condições, longe disso. Mas alguns sentimentos, sobretudo os mais exacerbados, não andam muito longe.

Justamente, podemos traçar alguns paralelos entre movimentos que existiam  na França dos anos trinta e os de hoje e os seus dirigentes. A Frente Nacional, com outra roupagem, outra linguagem e outros objectivos, é, em muito, devedora do legitimismo que dominou boa parte da direita francesa. Parece longe da Action Française de Charles Maurras, que nos anos trinta era provavelmente a associação política com mais militantes (embora não fosse um partido, até porque era explicitamente antidemocrática), corroborada pela sua agressiva ala juvenil Camelots du Roi, e que inspira outros movimentos actuais, mas no fundo é a legítima herdeira dessa parte da direita - a liberal, ou orleanista, divide-se entre os Republicanos e o partido de François Bayrou, ao passo que a outra família", a bonapartista/gaullista, cabe nos Republicanos e uma pequena parte no movimento de Dupont-Aignan. Era precisamente essa direita legitimista a responsável pelo discurso anti-semita que péssimas implicações deixou depois com o regime de Vichy.
 
Depois dos motins de Fevereiro de 1934, onde por pouco a Action Française e outros movimentos de direita radicais, pré-fascistas ou aparentados, não cometeram um golpe de estado, as esquerdas aliaram-se para fortalecer a sua posição. A SFIO de Leon Bloum, antecessora do Partido Socialista, o partido radical e o partido comunista aliaram-se na Frente Popular, que ganhou as eleições de 1936 e que deixou algumas marcas nunca revertidas, como as férias pagas. O PCF de Thorez e a SFIO eram ferozes adversários pela hegemonia da esquerda, mas ordens expressas do Komintern levaram a que os comunistas aceitassem a aliança para travarem a direita mais radical. Por aí se ficam as semelhanças: como se sabe, o actual líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, recusou apelar ao voto em Macron para travar Marine LePen. Macron não precisou dos seus votos para vencer esmagadoramente, mas é bem provável que a alta abstenção e os votos nulos e brancos se tenham devido ao eleitorado de Mélenchon. Aliás, dá-se como certa a separação entre o PCF e o ex-candidato "insubmisso". Mas fica a grande diferença: o PCF obediente a Estaline cedeu para travar a extrema-direita; a frente de esquerda de Mélenchon não o soube fazer, e embora isso tenha tido resultados nulos, não deixa de ser uma marca vergonhosa no seu currículo político.
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domingo, abril 02, 2017

O drama da direita tradicional francesa


Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correlegionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.
 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trostquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.

O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

segunda-feira, julho 04, 2016

Big-Bang político, o legado de Michel Rocard


Os obituários deste fim de semana estiveram completamente sobrecarregados: Camilo de Oliveira, Elie Wisel, Michael Cimino, todos eles foram objecto de artigos e de atenção mediática. Incrivelmente, parece ter passado despercebido o desaparecimento de Michel Rocard, um dos políticos franceses e europeus mais importantes dos anos oitenta-noventa, de que só soube pela capa do I.

Rocard, que exerceu o cargo de primeiro-ministro de França no fim dos anos oitenta, era um dos poucos no PSF a declarar-se social-democrata, isso quando a palavra era tabu num partido que anos antes tinha governado em coligação com o PCF de Marchais. Aliás, até há bem pouco tempo, o PSF continuou agarrado a fórmulas esquerdistas e jacobinas antigas e só recentemente começou a descolar. Manuel Valls, que tem protagonizado essa mudança, é um seguidor confesso do antigo estadista e das suas ideias. No início dos anos 90, Rocard, à frente do partido, propôs uma mudança radical que teve algum eco, com o seu célebre "Big-Bang" político. A ideia era fazer um amplo movimento reformista que incluísse não apenas socialistas mas também ecologistas, comunistas renovadores, centristas, católicos progressistas ou defensores dos direitos humanos tout court. Estavam reunidas as componentes da Deuxième Gauche de que era figura de proa, e que se opunha à esquerda marxista e jacobina.

O PS francês sofreu duros reveses eleitorais durante a sua liderança, e as ideias do Big-Bang foram postas de lado. Só recentemente Valls tentou levá-las avante, e apenas em parte. O Big-Bang permaneceu como uma das ideias políticas dos anos noventa que não chegou a ser levada avante, e que caso o fosse, teria talvez regenerado a esquerda reformista francesa e dado capacidade para se bater com a direita unida da ex-UMP, e quem sabe, travado o passo à Frente Nacional. Agora, o PSF está pelas ruas da amargura, os Republicanos (ex-UMP) colam os cacos e reorganizam-se, e a FN permanece na crista da onda. Rocard era um homem de visão. Há tempos, previu o Brexit e as razões para a saída do Reino Unido (coisa que desejava). Não foram pois os resultados do referendo que provocaram a sua morte. Seria bom por isso que se olhasse para as suas ideias e se tentasse aproveitar um pouco. Porque o centro político e as forças democráticas só ganharão nova força renovando-se, olhando para os problemas e enfrentando-os com coragem e realismo. Michel Rocard sabia disso. Os que fizeram ouvidos de mercador terão agora forçosamente de interpretar bem o seu legado político.


sábado, maio 14, 2016

Outras ameaças que não o fascismo


Rui Tavares (com quem ainda há pouco falei durante breves momentos, não sobre o post que se segue, depois da conferência que moderou com Claudio Magris no âmbito do LeV - Literatura em Viagens), escreveu um interessante texto no Público desta semana intitulado Uma Europa contra o fascismo. Não tenho muito a objectar. Apenas que nem todos os nomes que refere se podem considerar "fascistas": Orbán, por exemplo, é acima de tudo um oportunista autoritário; Kaczinsky é um reacionário excitado, e Farage um eurocéptico convencido. Mesmo Putin e Erdogan não são exactamente aquilo que poderíamos considerar "fascismo", atendendo às circunstâncias especiais e à cultura dos seus países. E o brasileiro Eduardo Cunha é outro oportunista, com problemas com a justiça.
O que eu tenho mesmo de fazer é acrescentar coisas ao texto. Não é só a recordação fascista que ameaça a Europa: do outro lado do espectro temos outras tantas ameaças. Não esquecer que durante meio século tivemos uma Cortina de Ferro a dividir a Europa livre da controlada pela URSS e da sua ideologia opressora e burocrática. E que na Guerra de Espanha se opunham acima de tudo duas ideologias que resvalaram para o totalitarismo. Hoje em dia vemos o sr. Pablo Iglesias e o seu movimento, onde há gente que recentemente invadiu capelas em trajes menores com cartazes dizendo "Ardereis como em 1936" (recordando as igrejas incendiadas antes e durante a guerra), unindo-se com os restos de comunistas da IU e alguns independentistas radicais a querer o poder de qualquer forma, vemos as derivas de Jeremy Corbyn no Partido Trabalhista, o Linke da Alemanha que tem entre si elementos que fizeram parte da STASI, e mais uns quanto movimentos radicais à esquerda que querem acabar com a Europa e "derrubar o capitalismo", muitas vezes com saudosismos do Pacto de Varsóvia ou admirando o lunático sr. Maduro e o seu regime que está a destruir a Venezuela. Por isso, a crítica de Rui Tavares, não sendo destituída de verdade e senso, peca por defeito. As ameaças não vêm só de um lado, e não é por ser de esquerda que . E a experiência que teve com o BE e o modo como Louça o tratou deviam fazê-lo reflectir.

sábado, outubro 31, 2015

Nas legislativas elegem-se governos



As eleições legislativas servem para eleger os deputados, ouve-se incessantemente em toda a parte. Um equívoco formal. Se assim fosse, o poder executivo não estaria condicionado pelo Parlamento nem os líderes partidários se apresentariam como candidatos a primeiro-ministro.


Se até à revisão constitucional de 1982 podia haver governos de maioria presidencial, como aconteceu em fins dos anos setenta, a partir daí essas hipóteses esvaziaram-se. Caso algum PR tivesse essa veleidade, ela seria imediatamente chumbada no parlamento, tal como o governo que agora tomou posse deverá ser. Apenas Eanes nomeou governos por sua iniciativa. Todos os outros depois dessas experiências saíram directamente de eleições, com excepção do de Santana Lopes, em 2004. Todos os governos minoritários viram passaram o seu programa quando apresentado na AR.


É precisamente a nomeação de Santana de que me recordo quando vejo tantos adeptos da "maioria de esquerda" dizerem que "a maioria parlamentar é o único garante dum governo estável". Será? Quando o presidente Jorge Sampaio tomou a decisão em mãos, tinha toda a legitimidade para dissolver o Parlamento e convocar eleições. Durão Barroso tinha saído abruptamente, com a popularidade em baixa e o pretexto perfeito, e impôs para o seu lugar o então presidente da câmara de Lisboa, que nem eleito deputado tinha sido, ao invés de propor Manuel Ferreira Leite, Ministra de Estado e das Finanças e nº2 daquele governo. A solução mais avisada e que colhia mais apoios era a convocação de eleições, mas Sampaio preferiu chamar o actual responsável pela SCM de Lisboa para formar governo. Uma solução controversa e duvidosa, mas ainda assim legítima. Boa parte da esquerda, acusou-o de traição (à esquerda), Ferro Rodrigues demitiu-se furioso com a decisão, e ouviram-se coisas como "a democracia está em perigo", ou "o 25 de Abril acabou" (desse vulto da liberdade chamado José Saramago), para não falar de tiradas de mau gosto relacionando a morte súbita de Maria de Lurdes Pintassilgo (horas depois) com a decisão presidencial. Porquê? Porque, segundo diziam, aquele governo não tinha sido sufragado pelo povo, ainda que o fosse por uma maioria parlamentar (além da "traição" de Sampaio, aos ideais de esquerda). Precisamente o argumento oposto ao que utilizam hoje. Isso e o de que Cavaco teve um discurso de "líder de uma seita de direita". O discurso do PR revelou-se muito longe de quem pretende ser o chefe de estado de todos os portugueses, é verdade. Mas muitos dos que o criticam hoje queriam que Sampaio tivesse tido idêntica atitude no sentido inverso.

A ideia de que um governo é efectivamente eleito não só resulta de uma convenção tácita mas também da própria CRP, que impede na prática a constituição de governos de iniciativa presidencial e dispõe que eles são formados com base nos resultados eleitorais. Acresce o facto do sistema eleitoral português ser pouco favorável a maiorias absolutas. Como defende a direita agora e defendeu a esquerda há onze anos, o governo resulta das eleições e sobretudo da formação mais votada. É pela ambição desmesurada de poder a todo o custo que se dão estas crispações políticas. Não que elas não sejam necessárias e por vezes desejáveis. Mas escusavam de surgir no meio destes golpes palacianos. Ao menos em momentos como a questão do aborto defendiam-se valores a sério, por maior que fosse a discussão. Aqui, vemos o cinismo da direita, à beira de perder o escasso poder  que ganhou nas eleições, embatendo na hipocrisia da esquerda, que já acha que as maiorias parlamentares têm valor absoluto e que se permite que pessoas como Catarina Martins façam declarações como "este governo acabou", como se fosse a ela que lhe competisse dizer isso. Pelo meio, a extraordinária declaração de que "empossar um governo de Passos Coelho é uma perda de tempo", contrastando com o tão apregoado respeito pelo parlamento, como se estivesse tudo definido antes do programa de governo ir a plenário, e demonstrando um total desrespeito pelas instituições, o que só demonstra que a esquerda radical permanece igual a si própria, e que na luta pelo poder, não é melhor do que a direita a que tanto se atira (nalguns casos até é pior, como quando vem a sua "superioridade moral").

Ironicamente, a primeira prova de uma estranha união das esquerdas foi a eleição para Presidente da AR de Ferro Rodrigues, exactamente o homem que se demitiu das suas funções partidárias por entender que o presidente da República de então o tinha traído e aos seus princípios ideológicos.

quarta-feira, outubro 21, 2015

O regresso ao futuro com o "Grande Educador"



Hoje, 21 de Outubro de 2015, é o célebre dia em que Marty Mcfly chegou ao futuro, vindo dos longínquos anos oitenta. Não há os carros voadores, skates propulsores, alimentos cozinhados por hidratação previstos pelo filme, e a saga Tubarão há muito que acabou. Pelo contrário, se esteticamente e nos elementos superficiais as coisas nem mudaram assim tanto, a revolução das comunicações e da net mudou a forma de nos interligarmos, como seria impossível, à data, de prever.


O que certamente não se imaginaria nos anos oitenta é que trinta anos depois Arnaldo Matos, o "grande educador da classe operária", estaria de volta para liderar (ou educar?) o MRPP, que quase não mudou nos últimos quarenta anos, a não ser pela saída de militantes que entretanto ganharam notoriedade.

Nos últimos dias tem sido um corrupio no velho partido maoísta, que nestas últimas eleições se destacou pelo slogan "morte aos traidores!" e por ter o médico Pinto da Costa como mandatário nacional. Agora, os comunicados do seu site lamentam os fracos resultados eleitorais, suspendem os membros do Comité Central do partido e o secretário-geral por "incompetência, oportunismo e anticomunismo primário", e marcam um congresso extraordinário para breve. Tudo assinado pelo "camarada Espártaco" (o nome é de antologia) com auxílio da "camarada Marta", e rematado com o potente "Morte aos traidores!". Ao que tudo indica, Garcia Pereira será um dos dirigentes suspensos.

Entretanto, no jornal, agora online, do partido, o Luta Popular, os editoriais têm sido assinados pelo mítico Arnaldo Matos, que não se coíbe de comentar a actualidade política, e não é particularmente meigo com os partidos representados na AR, muito menos com a esquerda e com um eventual governo formado por PS, BE e PCP. Ao que tudo indica, as tumultuosas movimentações dentro de velho partido terão mesmo a ver com um eventual regresso do próprio Arnaldo Matos à liderança. Ou seja, se a linguagem, os propósitos e a estética e o grafismo já eram devedores dos anos setenta, só faltava mesmo lá recolocar o líder carismático que há muito se tinha afastado para se dedicar à advocacia. Definitivamente, a esquerda em Portugal movimenta-se.



Se a moda pega, poderemos ver Jorge Sampaio e Vítor Constância a enfrentarem-se para substituir António Costa, caso a este as coisas não lhe corram bem (só porque Soares talvez não esteja disponível); ou Cavaco, quando sair da presidência, disputar o PSD com Balsemão, se Passos também sair. Portas poderá ser substituído por Freitas do Amaral, enfim de regresso ao CDS, quiçá com a oposição de Adriano Moreira. Jerónimo pode estar ameaçado por Carvalhas, Catarina Martins por Louçã ou Mário Tomé, Paulo Estêvão (PPM) ou José Inácio Faria (MPT) por Gonçalo Ribeiro Telles, o general Eanes a reconstituir o PRD com Hermínio Martinho e Pedro Canavarro, e assim sucessivamente. Nada como os clássicos. É bem verdade quando dizem que o retro está na moda.

domingo, outubro 11, 2015

A "maioria de esquerda"


A propósito das negociações para formar governo e dos contactos que o PS tem mantido à sua esquerda, com a possibilidade real de fazer um acordo com os respectivos partidos representantes, refere-se a eleição de "uma maioria de esquerda" no Parlamento. A história dessa tal "maioria de esquerda" que supostamente vai votar em massa contra um governo de direita já enjoa. De que "maioria de esquerda" é que estão a falar? Da que ganhou a câmara de Lisboa entre 1989 e 2001? É a única que conheço. Basta ir a 1975 para perceber que tudo isso é uma ficção. Só talvez um partido como o Livre se poderia coligar com o PS, isto se tivesse tido apoio eleitoral para isso. A esquerda tem várias naturezas, completamente diferentes entre si, e por isso a apregoada "maioria" é uma história da carochinha. Senão, porque é que não haveria apelos para que o PSD e CDS chamassem também o PNR se este tivesse representantes no parlamento?


Também ouço falar de exemplos noutros países europeus, como o Luxemburgo, ou a Dinamarca, tão bem retratada na série Borgen, em que partidos que não ganham eleições têm uma maioria parlamentar, formando assim governo e deixando de fora o partido que as ganhou. Mas posso também ir buscar os dos países da UE mais falados deste ano, a Alemanha e a Grécia. A CDU/CSU de Angela Merckel ganhou as eleições alemãs sem maioria absoluta, e viu o parceiro favorito de coligações, os liberais do FDP, ficarem à margem do parlamento, com menos de 5%. O SPD ficou em segundo. No conjunto, a esquerda contava com maioria no Bundestag - além dos sociais-democratas, há ainda os Verdes, que até já estiveram no governo, o partido esquerdista Linke (passe a redundância). O SPD preferiu fazer uma grande coligação com a CDU, como já tinha acontecido antes, sem pensar em qualquer maioria de esquerda. 
Na Grécia, como é sabido, o Syriza voltou a ganhar as eleições de Setembro, já despojado da sua ala mais radical. Ficou a seis deputados a maioria absoluta. Tinha várias opções à esquerda, como a coligação onde está o PASOK, os comunistas ortodoxos do KKE, ou o centro-esquerda do To Potami, Preferiu reeditar a coligação com a direita nacionalista do ANEL, de Panos Kammenos, que entrou à justa no parlamento. Também aqui se estiveram a borrifar para uma qualquer "maioria de esquerda", quando teriam toda a legitimidade e força para o fazer. E claro, recordar que em França há um acordo tácito de que a Frente Nacional não receberá apoios da ex-UMP (a direita gaulista e "republicana", como aliás agora tem na designação), e o PSF também não parece inclinado a acordos com a Frente de Esquerda de Mélenchon.

Esquerda e direita continuam a fazer sentido. Mas melhor será falar em "esquerdas" e "direitas", porque são tantas e de tantas naturezas que é impossível falar-se em unidades ou convergências. Que é que liga o PSD e o CDS ao PNR? E o PS ao PCP, o seu velho inimigo, ou ao BE? A colocação num determinado espectro é insuficiente para se poder colar este ou aquele partido. À esquerda, então, ainda se notam mais essas diferenças. Por alguma razão os republicanos perderam a Guerra Civil de Espanha, ou não tivesse o PCE tentado eliminar os trostquistas e anarquistas que combatiam do mesmo lado. Mas ainda falando de Espanha, o recente exemplo da ida de Felipe González à Venezuela para defender opositores políticos presos, sob os insultos e os entraves do regime de Maduro, é bem um exemplo do que pode distinguir a esquerda democrática da radical. é bom lembrarmo-nos disto quando voltarmos a ver o PCP a justificar e defender o actual regime venezuelano.

segunda-feira, abril 27, 2015

As razões da nova AD




Entretanto, à direita, a ilusão dos nossos dias é a de permanecer no poder, coisa que parece pouco provável. Uma vez que hoje em dia as sondagens são permitidas e constantes (embora isso não agrade a Paulo Portas), não se afigura muito fácil. Por isso, o anúncio da coligação eleitoral para as legislativas aparece como fuga para a frente em resposta ao programa do PS. Pode-se perceber como mensagem cá para fora de que os partidos do governo estão unidos, e para aproveitar as sobras que o método de hondt concede. Mas tem os seus riscos, nomeadamente para o CDS, que nas listas conjuntas deverá perder deputados e que assim perde qualquer hipótese de ser uma hipotética muleta de um governo minoritário do PS. E sobretudo recorda-nos que nas duas vezes em que estes dois partidos fizeram uma coligação pré-eleitoral com a democracia já madura (ou seja, excluindo a AD original), nas Europeias de 2004 e 2014, os resultados foram muito pobres. Pode-se considerar o tudo ou nada dos partidos do actual governo. Se ganharem, vêem legitimado o rumo que traçaram e ganham solidez. Se perderem, terão de aguentar uma coligação parlamentar na oposição e fazer a respectiva travessia no deserto. 

Já as reacções à notícia da coligação forma díspares e em certos casos infelizes: António Costa considerou que não trazia novidade nenhuma e que se trata de um casamento por conveniência, o que em certa medida é verdade. Catarina Martins, do Bloco, diz mais ou menos o mesmo, também falando do "casamento de conveniência". Não sendo mentira, não deixa de ser irónico que tenha sido afirmado pela coordenadora de um movimento que aglutinou grupos de esquerda (trotsquistas, maoístas, ex-comunistas, etc) que uns anos antes se odiavam de morte e se acusavam mutuamente das piores coisas. Aliás, com as saídas recentes, isso ainda se tornou mais cristalino. Se o BE não é ele próprio um casamento de conveniência, então não sei que será.

A reacção menos esperada mas sem dúvida mais sectária é a de Jerónimo de Sousa, que acha que o anúncio da coligação num 25 de Abril é "um insulto" à data, porque, no seu entender, é a força "que esteve contra o 25 de Abril". Mais uma vez, o PCP acha que só a esquerda (ou o que os comunistas entendem que é a esquerda) tem legitimidade política no pós-25 de Abril, que tudo o que está à direita é necessariamente salazarista, e que por isso não tem lugar no actual regime. Ou seja, acha-se dono do 25 de Abril, numa visão que transforma a data não na instauração de um regime democrático mas sim na de um revolucionário de esquerda, quando a intenção nem era essa. Concluindo, o PCP não mudou quase nada desde 1975 e ainda não se apercebeu que a grande maioria dos eleitores não vota nele. Deve ser por isso que cada eleição é sempre uma vitória. Já agora, a CDU também não é um casamento por conveniência? Tendo em conta que os Verdes são uma criação do PCP sem qualquer autonomia, aquilo nem é de conveniência, é mesmo um casamento forjado.

sexta-feira, abril 24, 2015

Os méritos do programa do PS


O programa - provisório, ao que parece - do PS para revitalizar a economia nacional nos próximos anos, com a reposição dos salários dos funcionários públicos, a descida do IRS e do IVA nas empresas de restauração e o aumento de alguns benefícios sociais pode ser demasiado optimista, demasiado despesista, um risco para a segurança social e levar-nos a situações em que já caímos noutras ocasiões, precisamente com o PS no poder (e Paulo Trigo Pereira, um dos autores do documento, alerta precisamente para isso). Mas tem o imenso mérito de separar as águas e de marcar de novo o debate político. Os partidos do governo tiveram uma reacção infantil, quando disseram que o plano não tinha credibilidade sem o terem lido. Podiam antes dizer que as linhas gerais eram diferentes do que aquilo que defendiam, e reservar críticas mais construtivas para mais tarde. Mas pelo menos há aqui uma diferença ideológica, entre os que pretendem revitalizar a economia por via do consumo e do aumento dos benefícios sociais e do rendimento, e os que preferem fazê-lo através da descida dos impostos e dos custos de trabalho às empresas. Não se poderá acusar os partidos do arco do poder de "proporem todos o mesmo". Pelo menos agora pode-se optar por mais do que uma visão, que dependerá de se considerar que o estado deve ser mais ou menos interventivo na economia. As divergências de opinião serão sempre de carácter ideológico, não tanto de tribalismo político ou de casos de corrupção o que só ajuda o debate político.

segunda-feira, março 31, 2014

As consequências das municipais francesas




Não vale a pena criar monstros e anunciar catástrofes onde não existem. A Frente Nacional conseguiu o seu melhor resultado de sempre nas municipais francesas, mesmo que tenha falhado o objectivo de conquistar Perpignan e Avignon. O PSF confirmou a extrema impopularidade de que vem gozando (sobretudo por causa de Hollande), mesmo que tenha conservado Paris, ganha sem surpresas por Anne Hidalgo, e a UMP reforçou-se com a conquista de numerosas cidades, além de conservar as já tradicionais Bordéus, com o eterno Allain Juppé, e Marselha (onde a FN também teve um resultado de respeito). Resultados? Hollande já substituiu o governo, colocando à sua frente o popular Manuel Valls - tal como Hidalgo, de origem espanhola - , a UMP canta vitória e reforça-se, amaciando o clima de tensão interna em que vivia depois da luta fratricida pela sua liderança, e o partido do clã LePen reforça-se e prepara agora o assalto às europeias, em que ficar atrás do segundo lugar é derrota. A extrema-esquerda, por sua vez, desaparece, e é bom lembrar que o Partido Comunista esteve à frente de importantes cidades. Se tudo isto terá consequências para o futuro da França para além das europeias, é coisa impossível de prever. Quem poderá responder a isso no futuro próximo serão os munícipes franceses. Tudo o resto é futurologia.

sábado, novembro 23, 2013

Vamos a ver o que resulta do "Livre"


À margem de assembleias "alternativas", manifestações com mais ou menos violência ou outras que tais, o pré-anúncio, de resto já com algum tempo, da criação de um novo movimento à esquerda, que tem como denominação (não sei se provisória) "Livre", é uma das notícias mais interessantes da vida política partidária dos últimos tempos. Tavares já "ameaçara", mas agora parece mesmo querer dar corpo a uma ideia que já há muito vinha expondo nos seus artigos jornalísticos.
 
O velho problema da constituição de maiorias estáveis em Portugal em caso de vitória do PS sempre se pôs. Ou o PS ganha com maioria absoluta, coisa que só aconteceu por uma vez, ou sujeita-se a governar em minoria, com acordos pontuais aqui e ali. A outra hipótese, mais improvável, é coligar-se com outros partidos. Até agora, fê-lo com o CDS, em 1978, e com o PSD, o célebre bloco Central dos anos oitenta. Nenhuma dessas experiências durou muito. Talvez por isso muitos colunistas se perguntem porque é que os entendimentos à esquerda nunca se fazem, ao contrário do que acontece À direita. A resposta é óbvia, mas parece que lhes escapa: a natureza política dos partidos à esquerda é absolutamente distinta. O PS é um partido da área social-democrata, que defende um regime parlamentar pluralista e a economia de mercado, com alguns limites. O PCP (o apêndice Verdes não conta para os números) é um velho partido marxista-leninista, que envia condolências pela morte do tirano da Coreia do Norte. Já o Bloco de Esquerda é um conjunto de capelinhas mais ou menos radicais, onde cabem trotsquistas, neo-maoístas, comunistas "renovadores", etc, que entre outras coisas pugna pela saída de Portugal da NATO. Só por oportunismo ou por pura ignorância é que alguém defende que o PS se pode aliar a nível nacional com qualquer destes partidos. Sim, é verdade, houve já coligações entre eles que nem correram mal, como em Lisboa, nos anos 80/90, sob a presidência de Sampaio. Mas uma coisa é fazer coligações locais (até o PSD e o PCP já as fizeram, depois das eleições), outra absolutamente diferente é dar ao país um governo PS/PCP/BE. Alguém imagina? O caso mais próximo é o da França aquando da primeira vitória de Mitterand: o PS francês estava mais à esquerda, o PCF era mais aberto que o "nosso" PCP, e mesmo assim nunca mais repetiram a graça.
 
Por isso, a nova formação pode ser uma espécie de CDS de esquerda. Um partido mais europeísta e pluralista, sem o sectarismo e o radicalismo irresponsável do Bloco, e evidentemente sem a férrea disciplina e a ideologia imutável do PCP. No fundo, pode ser para Portugal o que Os Verdes foram na Alemanha, e que permitiram ao SPD fazer coligações à esquerda. Com o tempo, o partido de Joschka Fischer passou de movimento de protesto a partido responsável. O "Livre", agrupando pessoas fartas do BE, nada receptivas ao PC, ecologistas que repudiem Os Verdes (e não se enquadrem no Partido da Terra ou no PPM) mas que não tenham grande vontade de entrar num partido tão "governamental" e pleno de interesses e jogos de poder como o PS, poderá vir a constituir uma alternativa interessante nesse campo. Adivinha-se que para além de Rui Tavares lá possam caber pessoas como Daniel Oliveira (os dois eram a espinha dorsal do blogue Barnabé), Joana Amaral Dias ou até elementos próximos do PS, como Inês Medeiros ou Ana Paula Victorino. Talvez já nas próximas europeias possamos ver o novo movimento apresentando-se às urnas, numa primeira prova de fogo (embora isso já tenha atraído as esperadas críticas a Rui Tavares, acusando-o de "estar atrás de um tacho", talvez esquecendo que o mesmo dispôs de parte do seu vencimento de eurodeputado para patrocinar algumas bolsas). Se poderá atrair algum eleitorado de esquerda desiludido com o que há, ou se não passará de uma formação efémera de algumas figuras semi-mediáticas, como infelizmente aconteceu ao MEP, é coisa que terá de provar. A escolha da papoila para símbolo é que já não parece muito feliz...
 
 

quarta-feira, junho 05, 2013

A impossível convergência das esquerdas


Acho muita piada a estas "convergências das esquerdas" que Mário Soares anda a tentar arranjar, na esteira do Congresso das Alternativas, depois de anos de tentativas falhadas, com o propósito de constituir novo governo depois de derrubar o actual. Esquece-se é de uns meros pormenores: o executivo em funções só pode cair ou por dissolução do parlamento por Cavaco Silva, ou se o CDS romper com a coligação e esvair-se a maioria parlamentar. Ou seja, não é pela esquerda que o Governo cai. Mais importante, quem iria ocupar o lugar? O PS? Com certeza, mas sem maioria? E que estas "convergências" esquerdistas são muito bonitas e muito utópicas, mas esquecem-se do magno problema da natureza de cada um dos partidos: como é que um partido como o PS, que assinou o memorando da "Troika" e apoia a NATO, pode convidar para um executivo elementos de um partido que manda condolências pela morte de Kim jong Il ao mesmo tempo que vota contra votos de pesar a Vaclav Hável, e outro que se diz "anticapitalista" e se que divide em facções de esquerda radical? Nem para as autárquicas se conseguem coligar, quanto mais a nível nacional. Se surgir um qualquer movimento mais moderado, como aconteceu na Alemanha, com pessoas como Daniel Oliveira, talvez o PS possa pensar em coligações à esquerda. Até lá, terá de se desenrascar e continuar a acenar discretamente a Paulo Portas.

terça-feira, maio 29, 2012

Sintomas relváticos (e socráticos)



O caso Relvas - Secretas - Público continua a dar que falar. Ao que parece, o ministro não se limitava a receber mails de Jorge Silva Carvalho, aos quais "não respondia". Mas na última semana assistiram-se a alguns episódios sintomáticos - diferentes mas todos com a mesma génese.

A ligação de Miguel Relvas a Silva Carvalho é já de si preocupante. Recorda-nos que as ligações do poder a sectores mais obscuros é quase uma (triste) inevitabilidade, e neste caso há todo uma rede que envolve um coktail explosivo de empresas de comunicação social, maçonarias e serviços secretos. Pior era difícil.

As pressões entre Relvas e o Público mostram-nos que os governos passam, mas a tentativa de controlar a comunicação social permanece. Já tínhamos assistido a um esboço de agência governamental de notícias com Santana. Nos governos de Sócrates, houve "bulliyng" sobre jornais, como o mesmo Público (caso da Universidade Independente), e a tentativa de abocanhar a TVI, entre outros. Agora é isto: novo ataque ao Público, com as pressões a Maria José Oliveira e as ameaças de revelações da vida privada. Na Madeira passam-se coisas ainda piores, e até a Câmara do Porto cede por vezes à tentação de encarar a comunicação social como uma qualquer força de bloqueio. Quando teremos um governo com menos vícios de controleiro?

Outro sintoma: haverá sempre quem defenda os superiores hierárquicos, dependendo do partido em que estiverem? A discussão entre o Estado Sentido e o 31 da Armada revelou algumas fracturas entre apoiantes dos partidos da maioria, ou seja, aqueles que a defendem até à medula, seja quem for a figura em causa, e os que não querem ver as medidas socráticas tornarem-se relváticas. Também no Insurgente houve algumas contribuições com interesse, em claro contraste dos que se apressaram a ver nesta questão uma conspiração "das esquerdas" para tramar Relvas, ou que resolveram fazer passar o Público como um orgão de comunicação socrático, esquecendo-se quem é que tomou a dianteira na investigação do caso da Independente. Como se vê, o vírus dos Abrantes espalha-se por todo o lado onde haja poderes incomodados com necessidade de se proteger a todo o custo. Felizmente, nem todos os que opinam nos blogues ficaram subitamente cegos com uma venda da sua cor política. É por isso que a blogoesfera continua a ser um espaço privilegiado de pluralismo, liberdade, discussão, e já agora, boa escrita, como não há mais nenhum...mesmo que seja parte da causa da crise que a imprensa escrita atravessa nos dias de hoje.

sábado, maio 05, 2012

Trincheiras ideológicas que as promoções escavam


Certos factos da sociedade portuguesa tornam-se objecto de combate ideológico curioso e acirrado, propositadamente ou não. O acontecimento mais discutido da semana, a promoção do Pingo Doce de Dia 1 de Maio, tornou-se uma autêntica trincheira de discussões politicas, sociais e económicas. O Insurgente (que alcançou máximos de visitas) e restantes blogues liberais aplaudem ruidosamente a "generosidade" de Soares dos Santos para com os desvalidos e lançam hurras à menor participação das festividades sindicalistas do dia em questão. À esquerda, acusa-se o Pingo Doce de tudo e meia alguma coisa, de concorrência desleal a pressões sobre os trabalhadores. Curiosamente, na esquerda mais lunática encontramos alguns pontos em comum com a direita libertária. Verbera os capitalistas, claro, como é seu dever ideológico, mas compreende o pobre povo que passa fome e que aproveita a oferta...



Muito francamente, não fiquei muito sensibilizado com a piedade miserabilista pelos desvalidos. Não que não haja gente que legitimamente quis adquirir bens prioritários a mais baixo custo. Mas alguém acha que pessoas que gastam logo centenas de euros estejam assim em tão má situação económica? que compras de enormes valores sejam apenas de bens de primeira necessidade? Como se explica que pessoas de poucas posses tenham rapidamente desencantado dinheiro para gastos imensos? E aqueles que passam mesmo dificuldades e que não tinham cem euros para gastar, ou que não tiveram oportunidade de se servir por causa das torrentes de multidão?  Baseio-me não apenas em juízos de valor, mas em situações que me foram contadas. Pior ainda, é a volúpia das compras, as cenas indignas de estalo, ameaças, autênticos (e literais) casos de polícia que se verificaram em vários supermercados. Fala-se agora em concorrência desleal, dumping, enganos aos fornecedores, ameaças aos trabalhadores da cadeia (também há quem fale em benesses a estes, como três dias de folga, mas na realidade é apenas mais, como estipula a Lei, e uma semana com alguns descontos especiais: nem oito nem oitenta), em "afronta ao Dia do Trabalhador". Desconheço se houve irregularidades, embora tal seja provável. O que choca é mesmo a imagem do que o pior do consumismo desenfreado nos trouxe: gente a atirar-se às prateleiras como se não houvesse amanhã, lutas com naifas por desodorizantes, filas de sete horas, pessoas a garantir que "nunca mais se metiam noutra", congelados a descongelar-se...isto é a tão propalada liberdade económica, os mercados a funcionarem por si, a milagrosa auto-regulação? Então é mais uma razão para que existam mesmo regras que nos poupem a comportamentos tão abjectos, por muito que isso horrorize os liberais/libertários. E que relembrem que liberdade implica responsabilidade, o que a distingue da pura anarquia. Acham mesmo que houve "caridade" do Pingo Doce? Mas será essa a função dos retalhistas? E a Caridade, como sempre me ensinaram, não implica respeito pelo próximo? Leiam a esse propósito o excelente artigo de Pacheco Pereira de ontem no Público. Distribui as críticas e os elogios de forma equitativa e certeira. Sempre se aprende alguma coisa nesta sociedadezinha ultra-materialista e sectária.

quinta-feira, abril 26, 2012

Os votos da Frente Nacional vão para quem?


As presidenciais francesas, como se percebeu, vão ser uma guerra até à sua segunda volta, apesar do favoritismo de que goza Hollande. O que fica como maior curiosidade é que o fenómeno Mélenchon acabou por se revelar muito menor do que se previa, e que Marine LePen ficou próxima do que as sondagens há uns tempos lhe atribuíam. conclusão: a Frente Nacional continua a agregar os votos do operariado (ou ex-operariado) que roubou ao Partido Comunista nos anos oitenta e a gerir os receios dos franceses. Desta vez, com a tónica no "perigo islâmico", e aparentemente com sucesso, porque colhe votos entre luso-descendentes e até de africanos subsarianos, quem sabe se com medo do Islão, dados os acontecimentos recentes na Nigéria. Não são votos de direita clássica, nem ideológicos, mas de empregados precários, semi-reformados, operários, pequena burguesia que deixou de acreditar nos comunistas. E é por isso mesmo que muitos deles preferirão votar em Hollande na segunda volta, a não ser que este se exceda em declarações amorosas multiculturais e a mensagem de Sarkozy passe mesmo. E vamos a ver o que fazem os votantes de Bayrou.

domingo, abril 22, 2012

Eleições no hexágono


E agora? Cinco anos depois de ter chegado ao Eliseu com pompa e circunstância, sob um enorme manto de esperança, Sarkozy desiludiu os seus apoiantes e afastou mesmo muitos deles. Não abriu a economia francesa, antes prometeu mais proteccionismo, não consegui levar avante o projecto de "afrancesar" o Islão vigente, apenas proibiu o véu nos espaços públicos, e ficou aquém nas suas promessas reformistas, apenas cumpriu o aumento da idade da reforma, e mesmo assim como um elefante numa loja de porcelanas. Tentou, isso sim, o seu famigerado directório europeu e reaproximou-se dos Estados Unidos. E só. O seu estilo frenético, a sua proximidade com os muito ricos, o modo de vida ostentatório, mesmo a sua filha recente, que soou a jogada eleitoralista, a pressa na invasão da Líbia quando se falava em apoios de Kadhafi na sua campanha eleitoral de 2007, tornaram-no impopular aos olhos dos franceses. Está agora prestes a ser derrotado nas urnas. Será o segundo caso na V república francesa de um presidente em exercício ser apeado eleitoralmente, depois de Giscard D´Estaing.

François Hollande será muito provavelmente o próximo presidente de França, o primeiro de esquerda desde 1995 (se virmos bem, no actual regime, que data de 1958, só houve um socialista na presidência, por sinal o que lá ficou mais tempo). Há cinco anos era o marido de Segoléne Royal, a adversária eleitoral de Sarkozy, e discreto líder do PS francês. Separado de Royal, que falhou a liderança partidária, Hollande conseguirá chegar ao topo graças ao sentido de oportunidade e sobrevivência que muitos líderes sem carisma têm, à imagem de Durão Barroso e Mariano Rajoy. Não arrebata multidões, as suas ideias são duvidosas ou mesmo populistas (o regresso da reforma aos 60 anos, por exemplo), mas o contraste da sua imagem banal com o frenesi de Sarko favorece-o.

Além do mais, deverá beneficiar na segunda volta dos votos de Jean-Luc Mélenchon, o candidato da esquerda radical, uma espécie de Manuel Alegre francês (parece-me a mim, que não o conhecia até há pouco), que deixou o PS para formar o seu próprio movimento de esquerda radical e colher o apoio do Partido Comunista, outrora pujante, que vê aqui uma forma de retomar a antiga importância, perdida com a sangria de votos para a Frente Nacional. Ao mesmo tempo, deverá roubar o voto útil das formações trotsquistas e anticapitalistas que pululam, embora já não contem com Arlette Laguiller, a Carmelinda Pereira lá do sítio.Mais dificuldade terá em captar o voto ecologista, até porque em França não se situa apenas à esquerda.

Ao centro, Bayrou, legatário da antiga UDF, engolida pela UMP de Sarkozy, tenta obter votos para ser o fiel da balança na segunda volta. Consta que poderá ser o primeiro-ministro de Sarko ou ministro de um governo nomeado por Hollande, o que revela bem como se podem vender votos.

À direita, Marine LePen perdeu um pouco do gás que lhe dava possibilidades de passar à segunda volta, à frente de Sarkozy. Nas intenções de voto, passou do segundo para o quarto lugar, mas as últimas indicações dão-lhe agora o terceiro, à frente de Melenchon. Conseguiu virar o discurso mais contra o islamismo do que contra a emigração tout court. Veremos se servirá para ultrapassar os votos do seu pai.
Ainda há direita, um dissidente da UMP, Dupont-Aignan, tenta agarrar as sobras do gaullismo e os votos dos tradicionalistas com dúvidas em votar na Frente Nacional dos LePen. O seu francesíssimo apelido deve ajudar, e será interessante observar se uma franja importante da eleitorado, o das direitas soberanistas e tradicionalistas, aposta nele.

Os habituais campos políticos franceses estão aqui representados, apesar de haver candidatos de ideologia duvidosa. A primeira volta servirá sobretudo para saber que hipóteses terão os dois principais candidatos, principalmente Sarkozy, mais tremido, se a terceira força em França pende para o extremo esquerdo ou direito, e em que ponto está o centro. Porque é destas forças que irão os votos para o vencedor e os acordos para futuros executivos. Em todo o caso, terá sempre muita dificuldade em devolver o Triplo A a França.


sexta-feira, novembro 25, 2011

Mudança num vinte de Novembro

 
Como acontece fatalmente em qualquer país europeu ameaçado pela crise financeira, também o partido do governo em Espanha acabou por cair. Era tão previsível que Rodriguez Zapatero já tinha dado à sola, entregando o problema a Rubalcaba, um bom ministro do interior que ainda teve a compensação de ver a ETA renunciar à luta armada a um mês das eleições. Mas a Espanha deve estar mesmo em baixo, porque esse êxito não lhe serviu de nada: o PSOE foi corrido sem apelo nem agravo do poder, com o pior resultado desde os anos setenta.

Mariano Rajoy, um incrível sobrevivente político (lembra-me por isso mesmo Durão Barroso, o que não é grande cartão de visita), chega ao poder oito anos depois deste lhe ter escapado entre os dedos por causa dos atentados de Atocha e das estúpidas autorias com que o PP então as justificou. Ganhou com larga maioria, em quase todas as províncias, mesmo nos bastiões socialistas da Andaluzia e das Astúrias, numa altura em que a Espanha está sob o turbilhão dos juros crescentes, do desemprego assustador e da convulsão social. Não é decerto a melhor altura para se assumir a presidência do governo. Depois, Rajoy tem um ar simpático (é galego e tudo, o que para mim aumenta a simpatia) e até conhece e aprecia o Norte de Portugal, mas tem uma imensa falta de carisma e não se lhe conhecem ideias para comandar a nau espanhola, limitando-se a balbuciar descidas de impostos sobre as pequenas empresas. Não parece ser, manifestamente, o líder mais capaz de que os nossos vizinhos precisam nesta altura, mas por vezes podem vir dali surpresas. E além da crise financeira e económica, podia já agora desfazer algumas das medidas "fracturantes" que Zapatero, por irresponsabilidade ou canalhice, implementou para afrontar a Espanha mais conservadora. Aquela incrível lei do aborto, em que meninas podem abortar livremente sem autorização dos pais a partir dos 16 anos, ou as aulas de "educação cívica", em que censores ensinam aos alunos que dizer que fulano é "gordo" ou "feio" pode ser motivo de punição, ou ainda aquela treta do baptismo cívico e laico, um acto formal para rivalizar com os baptizados católicos, bem podiam ir à vida, até porque desenterram velhos fantasmas e lembram as tensões pré-1936.

Outra razão para a vitória clara do PP podem ser as recentes manifestações dos "indignados". Desde o Maio de 68 que grandes acções de rua mais ou menos ligadas à esquerda radical levam o eleitorado, por temor e necessidade de ordem, a votar à direita. Verificou-se isso mais uma vez, o que não impediu a Izquierda Unida (misto de PC e Bloco) de crescer bastante, assim como a União para o Progresso, de Savater, que quer quebrar o bipartidarismo. Outra subida esperada: a coligação Amaiur, que reúne a esquerda nacionalista basca, que tolerava ou representava mesmo a ETA, parece que beneficiou do fim do terrorismo e conseguiu interessantes resultados no País Vasco, ultrapassando em número de votos o tradicional Partido Nacionalista Vasco. Uma curiosidade, que provavelmente terá a sua resposta sociológica: os radicais nacionalistas de esquerda ganham na província de Guipuzkoa, ou seja, na bela, aristocrática, cinematográfica San Sebastian, cuja municipalidade tinham igualmente conquistado há meses (e onde começaram com escândalo, retirando o retrato do Rei). E na mais operária Biscaia, sediada na laboriosa Bilbao, ganhou o PNV, partido de ideologia conservadora e católica.

Toda esta macedónia partidária não afectará o futuro governo nas Cortes, mas pode tentar influenciá-lo na rua, como agora parece ser moda. Será interessante verificar o choque entre o novo governo conservador, resguardado numa sólida maioria parlamentar, e as acções dos "indignados".

A Espanha permanece politicamente fracturada, também por culpa de Zapatero, embora longe da tensão dos anos 30, quando só se podia ser facha ou rojo. Os mais extremistas ainda usam essa terminologia felizmente ultrapassada pela maioria. Para a esquerda radical, o PP é ainda um agrupamento de fachas e de franquistas. Ora muitos não deixaram de reparar na coincidência destas eleições se terem realizado num dia vinte de Novembro, que por sinal é uma espécie de dia santo para os falangistas e saudosistas do Caudillo. A vinte de Novembro morreram precisamente José António Primo de Rivera (1936) e Francisco Franco (1975). A data em questão, agora temperada com a vitória dos populares, não deixará de ser invocada em novos "No pasaran" de rua por todos os que quiserem impedir reformas mais dolorosas no Reino de Espanha. Aí sim, saberemos do que Rajoy é capaz.