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terça-feira, julho 30, 2019

Um ano quente na Albânia


Ultimamente os Balcãs não têm sido notícia na comunicação social portuguesa, e a Albânia menos ainda. O pequeno país encravado pela Grécia, pelo que restou da ex-Jugoslávia (incluindo um prolongamento étnico chamado Kosovo) e pelo Adriático raramente é referido em Portugal. Era-o quando os partidos maoístas o viam como "farol do socialismo", quando houve a rebelião de 1997, a guerra no Kosovo ou quando a sua selecção de futebol venceu Portugal em Aveiro, em 2014, no arranque da qualificação para o Europeu de França, causando ondas de choque que levaram à demissão de Paulo Bento e à contratação de Fernando Santos (e consequentemente, à vitória no Euro, por isso, um agradecimento especial à equipa albanesa).

Apesar de continuar a ser um pouco obscuro, o país tem uma localização geográfica de relevo (nos vários sentidos da palavra, já que grande parte do território é montanhoso), nos Balcãs ocidentais, e a uns cem quilómetros, do outro lado do Adriático, a Itália. Aquele território, à primeira visto discreto, dividido anteriormente entre o Epiro e as tribos Ilírias, tornou-se uma peça importante do Império Romano, do ocidente como do oriente, antes de se dividir entre vários pequenos potentados, ocasionalmente unidos. Seguiu.se a invasão turca, apesar da furiosa oposição de Skandeberg, e a rivalidade com Veneza no litoral. Durante séculos, os albaneses ocuparam importantes cargos administrativos no império otomano, chegando a vice-reis e depois a reis do Egipto, só sendo destronados por Nasser. Até 1912 foram possessão dos turcos, ano em que alcançaram a independência, na guerra dos Balcãs, com a hostilidade dos vizinhos sérvios, montenegrinos e gregos, já que eram o único país de maioria muçulmana. Seguiram-se a Primeira e Segunda Guerra Mundiais, muita instabilidade, república e depois monarquia, a invasão italiana e o auxílio alemão e a expulsão de ambos pelos partisans comunistas, que tomaram o poder. O novo regime, liderado por Enver Hoxha, embora não dependesse da URSS, exaltava Estaline, e aquando da desestalinização de Krushov rompeu com os soviéticos, virando-se para a China, a qual também abandonou depois desta estabelecer ligações com os EUA. Era absolutamente dependente da liderança dogmática de Hoxha e tornou-se um estado isolado e empobrecido, quase sem relações diplomáticas, repressivo e nacionalista ao máximo, mantido pela paranóia da hipotética invasão jugoslava ou grega, o que levou à construção de milhares de mini-bunkers por todo o país. Tornou-se também num estado oficialmente ateu, em que qualquer demonstração religiosa era severamente punida.

Hoxha morreu em 1985, e o regime começou a amolecer, mas só depois das grandes manifestações de 1991 é que caiu definitivamente, tornando-se numa democracia parlamentar. Mas sofreu inúmeros sobressaltos, com a complicada passagem de um sistema comunista maoísta rural para uma economia de mercado, o colapso da economia em 1997, que levou a dois meses de guerra civil e ao domínio de vastas partes do território por gangues e milícias várias, e a guerra do Kosovo, com milhares de kosovares albaneses a fugir para lá e o temor de uma invasão sérvia. A partir do ano 2000, a situação política e social melhorou consideravelmente, e o país pediu a adesão formal à UE.

Mas as suas particulares circunstâncias têm agitado a política local. Dois partidos dividem a chefia de governo: o Partido Democrático, de centro-direita, europeísta, que surgiu como alternativa quando o regime comunista ruiu, mais popular no Norte, e o Partido Socialista, de centro-esquerda, herdeiro directo do antigo partido único convertendo-se à pressa á social democracia, com mais apoio no Sul. É este que se encontra actualmente no poder, desde 2013, com Edi Rama como primeiro-ministro. Rama teve um percurso pouco usual para um político de carreira: formou-se em belas-artes, viveu como pintor e escultor em Paris, expondo algumas vezes as suas obras, e jogou basket (mede perto de dois metros). Entrou depois para a política, e como presidente da câmara de Tirana mudou a cidade, com novos planos urbanísticos e ordenando que se pintassem os deprimentes prédios dos tempos comunistas com cores garridas. Acabou por perder a cidade para Lulzim Basha, mas, como líder do Partido Socialista, ganhou as legislativas seguintes, tornando-se primeiro-ministro, e voltou a ganhá-las há dois anos. Quanto a Basha, tornou-se por sua vez líder da oposição.

Foram precisamente as eleições de 2017 que ajudaram a despoletar as manifestações que desde o início do ano se organizam contra o governo. Acusam Rama de estar mancomunado com o tráfico de cannabis (cujas plantações abundam no país) e de ter falsificado boa parte dos votos que lhe deram a vitória, em conluio com os grupos de traficantes. Mas acusam-no igualmente de estar a recuar naquilo que fora uma das suas promessas mais veementes: o cumprimento de metas para a adesão futura à União Europeia, por pressões de Vladimir Putin.

Um dos grandes objectivos de Putin é o de impedir novas adesões à UE, se não puder enfraquecê-la e desagregá-la, como com o Brexit. Assim, tem feito pressão ou usado subterfúgios para adiar ou impedir novas entradas. Tendo em conta que os estados que pediram a adesão se encontram nos Balcãs, incluindo a sua tradicional aliada Sérvia (que alguns temem que possa ser um cavalo de Tróia da Rússia), Putin tudo fará para não perder a sua influência naquela zona, sobretudo nos países ortodoxos, com os quais tem uma estreita ligação cultural.

Por isso mesmo a oposição tem-se manifestado não somente com as bandeiras da Albânia mas também com as da UE, Estados Unidos e Alemanha, para realçar o seu sentimento pró-ocidente. As eleições municipais de fins de Junho foram boicotadas e só o Partido Socialista é que participou. As manifestações na rua, muito concorridas, sobretudo em Tirana, tanto têm sido pacíficas como têm alguns picos de violência, como aconteceu em Maio. Além das bandeiras, exibem-se cartazes apelando à demissão do governo, com imagens comparando Rama a Enver Hoxha ou colocando-o entre os líderes comunistas clássicos. Basha, o líder da oposição, costuma liderar estes movimentos e discursar aos manifestantes. Têm como grito de guerra "Rama Ik (fora, ou sai)", clamado até à exaustão exigindo a demissão do governo, que acusam de ser ilegítimo, e a convocação de novas eleições. Mas Rama não cede, acusa a oposição de conspirar e de produzir calúnias contra ele, e usa as suas armas, como a de que em alguns relatórios da UE consideraram o sistema judicial albanês, com inúmeros juízes colocados pelo Partido Democrático, altamente corrupto e viciado.

Se é certo que a prática da corrupção e do banditismo são correntes no país, já é mais difícil saber se o actual governo tem sabotado os seus próprios esforços para a aproximação à UE. Rama viveu em França e um dos objectivos que tomou a cargo é o de uma futura adesão, apoiando também a entrada na NATO, entretanto já concretizada (quem diria há uns anos, a Albânia na NATO...). À partida, todos deveriam querer esse rumo. Mas as jogadas e chantagens dos russos são infindas, como já se viu, e embora a Albânia não seja o parceiro privilegiado nos Balcãs (até porque há o Kosovo, na prática uma criação americana), não é de excluir que tenham sido utilizados métodos menos claros. Pelo menos são essas as acusações da oposição, que disso se aproveita para vincar os seus galões pró-ocidentais. Em todo o caso, o clima político no país está bastante tenso, quase de insurreição. Os próximos meses poderão revelar se as coisas acalmam ou se se complicam ainda mais, mas até ver, só prejudicam o cumprimentos dos critérios de adesão à UE.








quinta-feira, dezembro 13, 2018

E uma greve de chico-espertos?


Este ano a época natalícia confunde-se com a época grevista. Há dias, um noticiário começou falar das greves em curso e só aos vinte minutos é que mudou de assunto. Havia-as de enfermeiros, estivadores, guardas prisionais, oficiais de justiça, bombeiros, funcionários da RTP, transportes públicos (como não podia deixar de ser), etc, etc, etc. Para além desta vaga grevista toda ao mesmo tempo - depois da aprovação do Orçamento, note-se -  reparei que a maior parte era às sextas e segundas-feiras, e nalguns casos em dias de ponte. Caros grevistas, bem sei que esse é um direito que lhes assiste, mesmo que que por vezes abusem dele. Mas logo nesses dias? Isso já ultrapassa largamente a falta de vergonha. Para quando uma greve ao chico-espertismo?

sexta-feira, novembro 30, 2018

Um desporto francês


Muita gente fica admirada com a "violência" das manifestações dos "Coletes Amarelos" em França, como se fosse um fenómeno raro por aqueles lados. O caso é sério, mas não é exactamente o Maio de 68 e menos ainda a Revolução Francesa. Manifestar-se com certa agressividade é uma velha tradição no hexágono: desde a Jacquerie da Idade Média, continuando com a Fronda, a Comuna, e claro, as referidas Revolução Francesa, que realmente mudou o país, e o Maio de 68, e muitíssimas outras pelo meio, é quase um desporto nacional, ao lado do ciclismo e do futebol.
Aí em meados da década passada assisti a uma manifestação bem no centro de Paris., perto da Ópera Garnier Eram bombeiros, com umas exigências quaisquer. Vinham de uniforme, capacete, e em alguns casos de machado em punho. A impedir a sua marcha, barreiras policiais e camiões de água. Quando se lançaram os jactos de água actuaram e conseguiram travá-los por uns momentos. Mas logo os bombeiros voltaram à carga e aí a polícia não esteve com meias medidas e usou o gás lacrimogêneo. Eu andava a fotografar os acontecimentos e apanhei em pleno com aquilo. Garanto-lhes que a experiência não é nada aconselhável. Refugiado no átrio de um edifício vizinho, a lavar a cara num bebedouro que julguei na altura oportuno (pior a emenda que o soneto), junto a uns japoneses atemorizados, ouvia ao lado um veterano com ligeiro ar tardo-anarquista, desdenhoso: "isto não é nada, jeunne homme. Eu estive no Maio de 68, e aí é que era".

Os jornais do dia seguinte deram umas breves notícias ao acontecimento. Era mais um entre tantos outros semelhantes.


quinta-feira, maio 18, 2017

13 de Maio de 2017


O dia 13 de Maio último, dia do centenário das Aparições de Fátima, vai ficar gravado na memória dos portugueses por muitos e bons anos. Afinal de contas, conjugaram-se os famosos "3 Fs", na sua melhor verão, e não na caricatura depreciativa com que normalmente são chamado à baila.

Mas essa conjugação só se tornou possível uns três dia antes. Se todos os momentos das comemorações de Fátima estavam previstos, e se não houvesse surpresas, tudo correria bem, já a possibilidade do Benfica conquistar o inédito tetra já neste Sábado, precisamente no 13 de Maio, só se colocou quando acabou o jogo em Vila do Conde, no Domingo anterior. E na quarta-feira, a meio da semana, Salvador Sobral qualificou-se para a final do Eurofestival da canção, com as apostas a darem-lhe boas hipóteses. Começou-se a prever que poderia ser um 13 de Maio especial, mesmo para além de Fátima.

Das celebrações pouco há a dizer, já que as palavras não descrevem suficientemente as emoções. As diversas manifestações de Fé, a chegada do Papa a Portugal, celebrada nos ecrãs espalhados no santuário como se fosse um golo marcado num estádio, a chegada ao recinto, o silêncio que se instalou por momentos quando Francisco se encontrava frente a frente com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, e que se repetiria à noite na feérica e lindíssima Procissão das Velas. E no dia 13, volvidos exactamente cem anos sobre os primeiros acontecimentos naquele local, a canonização de Jacinta e Francisco (com a feliz coincidência, mas só mesmo isso, de terem apelidos iguais aos do actual Bispo de Leiria-Fátima, o anfitrião e meu antigo professor de Mundividência Cristã), a a Procissão do Adeus, com o Papa visivelmente comovido, antes do regresso a Roma. a chuva, que tinha parado na véspera, voltou a cair mal sua Santidade deixou solo português.

À tarde, o nervosismo com a recepção ao Vitória de Guimarães. Sem razões para isso. Exibição imperial do Benfica e o inédito tetracampeonato. Mas disso falarei à parte.

À noite, ainda com as comemorações do título, a notícia do triunfo de Salvador Sobral, a primeira vez que uma música de Portugal ganhou a Eurovisão. Cinquenta anos de fiascos e ténues esperanças vingados com a maior pontuação de sempre. Confesso que há já largos anos que não ligava ao evento. Mais: a primeira vez que vi Sobral a cantar Amar pelos Dois não gostei nem da música nem da interpretação, e achei o intérprete estranhíssimo, com aquele visual homeless-chic e aqueles gestos que davam ideia de graves problemas motores. Ou seja, estive longe de "sempre ter acreditado que ele ia ganhar". Com o tempo, vieram as revelações sobre os seus problemas de saúde, as suas preferências musicais, e a sua ainda incipiente carreira, e aos poucos conciliei-me. Na noite da Eurovisão vi a sua entrada, mas já não assisti em directo à notícia da sua vitória, mais embrenhado nas comemorações do Tetra (consegui ver a tempo o seu dueto, aliás muito justo, com a irmã Luísa, autora da música). Obviamente não pude deixar de aplaudir e agora até ouço a música com gosto, vejam lá.
Mas houve um momento incrível que juntou as vitórias do Tetra e dos Sobrais: quando no Marquês de Pombal o speaker de serviço interrompeu a algazarra para anunciar que "o grande benfiquista Salvador Sobral" tinha grande a Eurovisão. e depois dos aplausos, puseram Amar pelos Dois como música de fundo. E o Marquês, mais habituado a manifestações ruidosas, e que ainda há dois anos testemunhou (tal como eu, aliás) cenas de pancadaria e violência, calou-se para ouvir aquela suave melodia. Minutos inolvidáveis, esses de ouvir uma música tão delicada a pôr em silêncio milhares e milhares de adeptos eufóricos.
 
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PS: outra coincidência: é que a estátua do Marquês de Pombal foi inaugurada precisamente a um 13 de Maio, de 1934. Algum adepto não benfiquista que passasse pela imensa praça naquela noite poderia repetir o velho queixume dos republicanos sobre o regresso dos jesuítas: " Desce daí, ó Marquês, que eles já cá estão outra vez".

segunda-feira, maio 30, 2016

A rua é de amarelos, vermelhos e o que mais houver



Esta polémica toda sobre as escolas públicas vs privadas, os subsídios e os contratos já começa a chatear. Não tenho grande opinião sobre isto, mas em princípio defendo que o estado deve apenas financiar estabelecimentos privados em regime supletivo, quando não houve alternativas na escola pública.Ou seja, é uma matéria de tratamento casuístico.
 Mas agora pergunto: não foram os mesmos, com algumas excepções, que agoram acham que o estado não deve financiar quaisquer estabelecimentos privados, que defenderam o financiamento total dos abortos "porque sim"? Se os impostos não servem para colégios privados porque raio servirão para abortos quando não há aí qualquer caso de saúde? Não me digam que agora o aborto é não só permitido como obrigatório, tal como o ensino...

E apesar de saber que certamente nunca iria entrar na manifestação "amarela", espanto-me com a fúria e a reprovação que colheu. É sabido que "amarelos" são, para os sindicalistas e sobretudo para os grevistas, os fura-greves, os que vão trabalhar em dia de greve. Numa perspectiva politicamente "vermelha", um amarelo é pois um traidor. Julgo que é com esta atitude colectivista (e que denuncia um certo totalitarismo laboral) que muitos se atiram aos "amarelos". Aliás esta cor tem sido utilizada nos últimos tempos por vários movimentos que se opõem a outros que se revestem de vermelho - na Tailândia, há uns anos, e na Venezuela, por estes dias. Como se o direito à manifestação e à "rua" pertencesse apenas a alguns, que veriam com desagrado a "usurpação" por parte de outros do "seu" espaço.
A rua é de todos, por muito que custe a quem se julgue seu dono. Aos "amarelos", aos vermelhos que já convocaram manifestações em sentido contrário, e a quantas mais cores se lembrarem de criar para colorir as respectivas ideias. Porque para mitos, de  lado e de outro, isto é mais uma questão ideológica do que outra coisa qualquer.

terça-feira, novembro 17, 2015

Saint-Denis, dez anos depois



Em 2004 encontrei-me por breves dias em Paris. Passei no Champ de Mars, base do monumento mais famoso de França, e ao olhar para as medidas de segurança à volta, imaginei que um atentado em larga escala na cidade teria fortes probabilidades de acontecer no futuro. Esses pensamentos não eram fortuitos ou obra de qualquer imaginação mórbida: uma semana antes tinham ocorrido os terríveis atentados na estação de Atocha, em Madrid, com mais de cem vítimas mortais, e ainda andava tudo horrorizado e desconfiado. Escusado será dizer que as medidas de segurança eram mais que muitas, nos aeroportos, nas estações de metro ou junto aos pontos mais notórios da cidade.


Paris não era propriamente virgem em atentados e tem uma longa e sinuosa história de violência. Basta pensar na Revolução Francesa, nas comunas ou na 2ª Guerra. Na repressão aos manifestantes argelinos em 1961 e nas tentativas de atentados nos últimos vinte anos, alguns com êxito, como os ataques ao metro em 1995, da autoria dos salafistas argelinos, e em Janeiro deste ano a matança do Charlie Hebdo e num supermercado judeu.




Por estes dias falou-se muito no Bataclan e nos cafés e restaurantes em Paris, como seria de esperar. Os momentos mais violentos viveram-se lá, e a maioria das vítimas também estava nesses locais. Já dos atentados e demais tentativas falhadas junto ao Stade de France (que vitimaram um desditoso português) falou-se um pouco menos. No entanto, que me recorde, é a primeira vez que se tenta uma acção de grande escala contra um grande recinto, num jogo importante. Estavam oitenta mil pessoas lá dentro, a começar pelo Presidente, e jogavam as equipas da França e da Alemanha. Isto a meio ano do campeonato europeu de futebol que se vai desenrolar precisamente em França. O mais provável é que este caso servisse precisamente para torpedear o evento. Mas há outro aspecto que merece atenção. O Stade de France fica no subúrbio de Saint-Denis, a Norte de Paris, perto da basílica com o mesmo nome onde está também o panteão dos Reis de França. Há exactamente dez anos, esta zona, entre outras dos subúrbios norte e leste de Paris, era amplamente noticiada na comunicação social pelos motins que aí rebentaram, onde bandos de desenraizados sub-20 - a quem Sarkozy, à época ministro do Interior, apelidou de racaille - queimaram centenas de carros, afrontaram a polícia com coktails molotov e fizeram trinta por uma linha. A morte de dois eles por mero acidente, numa fuga à polícia, deixou a zona em chamas (e os carros literalmente). É bem possível que muitos deles tenham passado do vandalismo de rua à prática armada da Jihad com passagem nos campos da Síria, da Líbia (não esquecer) e do Iraque.










Os subúrbios guetizados e descaracterizados das grandes capitais europeias criaram os vândalos, os clérigos fanáticos e o submundo da net radicalizaram-nos doutrinalmente e os campos de treino armaram-nos. Muitos ficaram por lá, outros voltam e não hesitam em obedecer quando o Daesh apela à guerra "contra os infiéis" em toda a parte. Mas por muito mal que esses europeus de segunda geração se tenham sentido tratados, foram eles que decidiram o seu destino, que infelizmente o será também intermitente para algumas cidades europeias: a guerra.



PS: nem de propósito, a operação especial que durou sete horas de tiroteio, envolveu mais de cem homens e teve como resultado dois mortos, várias prisões e a apreensão de inúmeras armas aconteceu em Saint-Denis.



terça-feira, outubro 08, 2013

Facciosismo opinativo ou incompetência jornalística?

 
A questão da falta de isenção jornalística e da ausência de critérios voltou a marcar os últimos dias, e a blogosfera não tem deixado o caso por mãos alheias: segundo Ribeiro e Castro, a Caminhada pela Vida, uma manifestação em defesa da Vida contra as regras actuais que regulam o aborto, teve a participação de perto de duas mil pessoas, mas ao que parece, exceptuando a Renascença, nenhum órgão de comunicação social se lembrou de noticiá-la, optando por um pedregoso silêncio. Ao mesmo tempo, a manifestação dos "Que se lixe a Troika" teve ampla difusão dos media, embora só tenha tido trinta participantes, mas como ululavam, pugnavam por "causas justas", gritavam slogans circunstancialmente correctos e ainda tiveram a benesse de um deles ser detido. Depois fica a ideia sempre abusiva de que uns falam em nome "do Povo" (como se houvesse um grupo específico que pudesse representar toda a população) e que outros nem sequer existem. Critérios...
 
Mais patético ainda parece ser esta situação descrita no Corta-Fitas: o Diário de Notícias mostrando uma vintena de saudosistas da 1ª República a homenagear os revolucionários de 1910, enquanto que lá atrás passa a Marcha pela Vida...que não tem a menor referência no jornal (ainda por cima a redação é mesmo ali em frente). Os repórteres estariam demasiado distraídos ou não falaram da marcha voluntariamente? Em qualquer uma das hipóteses, incompetência ou facciosismo, trata-se de jornalismo de novela, sem critérios editorais que o guie e que nem ao menos sabe disfarçar as  gaffes. Mais do que tendencioso, é puramente anedótico.
 
 

domingo, junho 30, 2013

O exemplo dos brasileiros


 O tiki-taka espanhol está a levar uma séria abada da técnica brasileira, em pleno Maracanã. O Brasil está próxima de ganhar a Taça das Confederações (se pensarmos que ganhou as duas anteriores edições, nem é grande augúrio para o Mundial), no renovado Maracanã. Lá fora, e mesmo lá dentro, houve novos protestos.
 
Os brasileiros saíram à rua em força, puseram Dilma Roussef a gaguejar e até conseguiram fazer com que o anunciado aumento do preço dos transportes fosse cancelado. As razões são mais que justas: apesar de todo o crescimento económico, os gastos públicos em estádios e outros luxos em detrimento do que deveriam ser as suas funções primordiais são obscenos e incompreensíveis. É verdade que, como noutras situações semelhantes, aparecem os bárbaros de sempre, com ideia de incendiar, pilhar e destruir; tivemos oportunidade de ver isso em Brasília (que diria o revolucionário Niemeyer?), e noutras "badernas". Nesses é que a polícia deve aplicar a sua vontade latente de utilizar os meios que lhe põem à disposição (e nestes incluo o cassetete). Mas na sua maioria, os protestos têm toda a razão de ser. O Brasil é até dos poucos países que se pode dar ao luxo de organizar eventos destes e ainda acumulá-los com os Jogos Olímpicos de 2016 - nada contra, desde que se aproveitem estruturas comuns e se façam as necessárias reformas urbanas no Rio. Mas também sabemos que são antes de mais uma afirmação de potências emergentes, e que em países onde a corrupção é toda uma cultura, os custos tendem a multiplicar-se, como tem acontecido. Os protestos visam também as altas instâncias desportivas que lucram com tudo isto, como a FIFA.
 
Ao olhar para isso, não posso deixar de pensar que os brasileiros mostram mais maturidade que os portugueses: andámos a fazer caminhadas de protesto de meio em meio ano, com "cantigas de intervenção" à mistura, mas onde andavam os simpáticos contestatários quando trazíamos alegremente para Portugal o Euro-2004 e os dez estádios (lembram-se de dizerem que a UEFA impunha esse número: pois no evento da Polónia/Ucrânia só ergueram oito recintos), quando os custos do CCB e Casa da Música derraparam, quando se construíram autoestradas para pouquíssimo movimento, quando levantaram barragens regiões classificadas pela UNESCO, etc. Agora andamos "intervencionados", pois andamos, mas a culpa é antes de mais de todo, e não apenas da "classe política", que de resto gastou o que gastou porque isso trazia mais votos.
 
Sim, digam o que disserem, mas as razões dos protestos dos brasileiros são uma lição para os portugueses, que não souberam tratar do que era seu na devida altura. E nem ao menos ganharmos aos espanhóis...

segunda-feira, junho 17, 2013

Os telhados de vidro dos herdeiros de Ataturk


Regressado de uns dias a explorar o Sul do país, onde felizmente havia sol, pouco dei pelas actualidades nacionais e internacionais. Entre a greve das professores em dia de exames, a apresentação de Paulo Fonseca como treinador do Porto e as eleições no Irão, parece que o impasse na Turquia continua, embora com algum diálogo à mistura.
 
Falar sobre um país do qual não se tem conhecimento profundo é sempre arriscado. O que eu vi nas enormes manifestações contra Erdogan foram reivindicações aparentementes justas contra a destruição de uma praça ajardinada em Istambul, a agora célebre Praça Thaksim,para a construção de um enorme e kitsch centro comercial, e creio, uma mesquita. A Turquia neo-otomana de Erdogan, próspera e orgulhosa, com pretensões extra-fronteiras, caracteriza-se em boa parte por isso mesmo: centros comerciais espaventosos e mesquitas. Novo-riquismo e religiosidade. São os símbolos da nova burguesia piedosa, proveniente da Anatólia, que apoia maciçamente o partido no poder. Contra eles estão os manifestantes, a tal elite jovem e urbana, devedora do laicismo de Ataturk, e ainda curdos, esquerdistas, anarquistas, comunistas, tudo o que não se revê em Erdogan e o seu partido. Curiosidade maior é ver adeptos dos três grandes clubes de Istambul (Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas) e unirem-se sob a designação de "Istambul United", brandindo os seus símbolos em prol do protesto comum.
 

 Mas o que é irónico é vê-los a protestar contra a falta de democracia, a imposição de algumas normas moralistas, como as que restringem o comércio e consumo público de álcool, e que "se pretendem imiscuir nas vidas privadas". É que a maioria dos manifestantes são "kemalistas", revê-se em Kemal Ataturk; e que se saiba, o antigo líder da nova Turquia, embora a tenha feito dar um enorme salto em frente, não era propriamente um democrata exemplar, bem pelo contrário: era antes um perfeito autocrata, que governou com mão de ferro e teve algumas implicações na matança dos arménios. Além do mais, Ataturk (em português, Pai dos Turcos, nome que adoptou e que mostra bem o seu pendor de "querido líder"), em nome do laicismo e da ocidentalização, proibiu alguns costumes, como o uso do fez e do véu islâmico em público. Também os regimes comunistas dispuseram sempre das vidas de todos aqueles que tiveram a pouca sorte de viver sob eles. Ou seja, aqueles que se queixam de que o governo quer interferir nas suas vidas apoiaram regimes que fizeram isso mesmo. Agora, Erdogan, escudado em sólidas maiorias eleitorais, retribui-lhes com a mesma moeda. Para mais, o perigo "islâmico" não parece fazer muito sentido na Turquia, que cultiva sobretudo o misticismo sufi, pouco dado a extremismos, e que mesmo nos tempos em que era um império e um califado tinha milhões de cristãos e judeus vivendo dentro das duas fronteiras, em harmonia com a maioria muçulmana. Haverá certamente razões para protestar, começando na brutalidade policial, mas os kemalistas e comunistas, que quando puderam dominaram a seu bel-prazer, deveriam ser os últimos a vir para a rua com tais reivindicações.

terça-feira, março 05, 2013

O futuro não pode passar por ali

 
Houve certamente muitas razões para as manifestações de Sábado passado. Não participei porque não acho que se deva mandar a Troika embora, e muito menos que recuperaríamos "as nossas vidas" se tal acontecesse, como se não dependêssemos do exterior, ou estivesse tudo bem antes da chegada dos três emissários. E porque não podemos voltar a cometer os mesmos erros que nos trouxeram a esta situação (havemos de repeti-los, como temos feito ao longo da história, mas espero que muito lá para a frente).
 
Mas ver aquela tribuna no Terreiro do Paço, com uma data de gente e agitar o punho, de cravo vermelho ao peito, e com bandeiras do PCP a esvoaçar, enquanto gritavam slogans revolucionários, levou-me logo a recordar as imagens que vi do PREC. E ainda dizem que são "progressistas" e que os "jovens" estavam com a manifestação. O futuro é aquilo? Tinham mesmo de recuar aos anos setenta? Será que não arranjam nada de mais actualizado e optimista? Se assim é, os organizadores da manif não dão mais esperança que o governo ou a Troika.

segunda-feira, outubro 15, 2012

A esquizofrenia cultural


 
Os fins de semana foram transformados em jornadas contínuas de protestos contra a política de apertar o cinto do governo. Manifestações convocadas por vastos sectores da sociedade, como as de 15 de Setembro, pela CGTP e variados sindicatos, pela polícia, pelos enfermeiros, etc. Neste último  tivemos a manifestação de protesto dos "artistas" e da "gente da cultura", ou mais precisamente, pessoas ligadas ao teatro e à música, sob o lema, emprestado de outras caminhadas, "Que se lixe a Troika".
 
 
É natural que num período tão incerto e duro se queira proporcionar a quem passa, num Sábado solarengo, uma ampla oferta musical ao ar livre e de borla, ainda que a lisboeta Praça de Espanha se preste pouco a que se pare lá (a nossa D. João I sempre é mais aconchegada). Menos natural, ou mais disparatado, se quiserem, é virem os ditos "agentes culturais" querer que "a Troika se lixe". Ainda não percebi se estas pessoas organizaram aquilo por lirismo de classe ou se vivem no planeta Marte. Sim, mandam-se os componentes da "Troika" embora, dizendo-lhes que "queremos as nossas vidas". Resta saber como vivê-las quando o Estado se vir sem dinheiro para pagar seja a quem for passados poucos meses e com os bancos a fechar-lhe a porta na cara. Da música de intervenção? Da cantiga que "é uma arma"? Do ar ou do vento que passa?

O mais espantoso é que ao mesmo tempo que querem que a "Troika" se vá e que gritam "FMI fora daqui" (logo a instituição mais aberta a um alívio das condições dos acordos), como se isso não tivesse as nefastas consequências atrás resumidas, protestam acima de tudo contra os cortes do Estado na cultura. Se já há dificuldade em cumprir tudo o resto, em pagar a nossa imensa dívida, em honrar os compromissos, em continuar sequer obras paradas, como o túnel do Marão, e se para mais protestam contra a subida dos impostos, como querem que o Estado subsidie a cultura, ou não faça cortes? Que esquizofrenia é essa de quererem expulsar quem nos financia e ao mesmo tempo exigirem o retorno aos subsídios? Que alternativas propõem? A ideia que passam, com slogans mais ou menos pueris como "não nos deixam sonhar" ou "querem matar a cultura", é a de que sem subsídios, ou seja, sem lhes pagarem, não há "cultura". Será que os tais sonhos estão a ser esboroados ou é mais uma fonte de rendimentos que seca?

Não que o Estado não possa ou não deva subsidiar as várias expressões de Arte, como aliás aconteceu ao longo dos séculos. Os Estados Pontifícios foram dos maiores fomentadores das obras do Renascimento, e não podem ser acusados de ser propriamente "socialistas", como diriam os nossos liberais mais dogmáticos. Nem tampouco o nosso D. João V, Frederico II ou os Filipes, nas suas encomendas a Velasquez. O risco é de o Estado e demais poderes públicos se tornarem nas únicas ou maioritárias fontes de financiamento dos artistas, que se tornam assim agentes políticos, ao serviço de uma dada ideologia ou interesse estatal, cerceando a sua criatividade e independência. É isso que se passa nos estados totalitários e autoritários, onde grandes artistas se puseram ao serviço do respectivo poder, como Eisenstein, na URSS de Estaline, Leni Riefenstahl na Alemanha Nazi, Pirandello na Itália fascista, Dali na Espanha franquista, e o grande Almada Negreiros, que tantos trabalhos criou para o Estado Novo. A lista é infinda.
 
Aparentemente, a nossa "gente das artes" não se lembra disso. Ontem, ouvi Camané falar "no medo que havia há um ou dois anos", e que agora parece que está a ser posto de parte pelas pessoas em manifestações como aquela. A ideia, encapotada, de que vivemos num  sucedâneo do Estado Novo é tão ridícula que merecia uma imensa pateada ao fadista. E enquanto observava os conjuntos musicais, aliás talentosos, a sucederem-se no palco, com intervalos em que uma criatura grotesca aparecia a fazer momices (haveria subsídios estatais para isso?), pensava na estranha esquizofrenia daquela gente toda, que quer mais apoios do Estado e ao mesmo tempo quer mandar embora quem o subsidia. Sim, em tempos de vacas gordas até se justificam. Mas estamos numa época de vacas magrérrimas, em que outros sectores são prioritários. Os criadores culturais terão de viver dos seus Mecenas e do público, trabalhando com criatividade, talento paciência e suor. A crise quando chega é para todos, e não é por se empunhar uma guitarra ou se criarem umas abstracções elogiadas por críticos amigos que se ganha o direito a ficar imune.

terça-feira, setembro 18, 2012

Lições a reter das manifs


 
Mandar a Troika lixar-se não será a opção mais sensata e mais aconselhável nos próximos anos. O mote das manifestações que sacudiram o país no último Sábado pareceu-me infeliz, mas havia mais do que razões para as pessoas o fazerem. A magnitude destes movimentos reuniu pessoas de esquerda e de direita, sindicalistas, comunistas, fascistas, anarquistas (esses mais em frente à AR), liberais, monárquicos, todas as camadas da sociedade portuguesa. Tinham razões diferentes, mas partilhavam de igual indignação de ver um governo fugir de novo às suas promessas (como era aquela história das gorduras do estado?), a sobrecarregar os contribuintes de impostos, a fazer os trabalhadores pagarem mais pela segurança social, em detrimento das empresas, com resultados mais que duvidosos, numa operação que Vítor Gaspar dissera em tempos ser uma experiência nunca testada.
 
O povo português, o que estava na rua e o que não esteve presente, apoiou na sua grande maioria esta enorme expressão de mal-estar. Isso mesmo se viu na blogoesfera, excepto nalguns blogues totalmente equivocados, completamente fora da realidade ou que resolveram muito simplesmente fazer-se (nos)de parvos (ou então trata-se de pura subserviência). Se o executivo se mantém nos seus gabinetes julgando tratar-se de um movimento passageiro, corre um seriíssimo risco de cair dentro de pouco tempo. não por culpa de uma revolução nas ruas, ou de uma intentona das forças armadas, que de resto preferem estar nos quartéis ou passear em protesto. Mas a pressão da sociedade, cujas manifestações são cada vez mais numerosas, pode provocar a exoneração do Governo por outros meios constitucionais, incluindo os que tenham fonte em Belém. E talvez aí apareça uma Mario Monti, se o houver, para tomar as medidas necessárias mas lembrando-se que sem equidade não há o mínimo suporte popular possível. Governar sem ser para as eleições é muito louvável, mas abstrair-se por completo da opinião pública, exasperando-a continuamente sem a ouvir, é em democracia pura loucura. As manifestações são um barómetro de importância crescente. Ignorá-las será sempre uma opção desastrosa.
 
 

sábado, dezembro 31, 2011

O perigo dos Indignados


Acaba o ano, e eu com tantos posts em atraso, num conjunto de indolência (como nos acusam os chineses de ser), tempo mal organizado e desinspiração. Há um post que já leva quatro meses de atraso, mas que me parece que ainda não perdeu total pertinência. quem achar que vem a destempo, pode sempre ficar-se pelo primeiro parágrafo.
O acontecimento do ano, segundo todas as opiniões abalizadas, foi o conjunto de protestos globais que se fizeram sentir e que em alguns casos derrubaram regimes políticos. Não discordo nem um pouco da escolha. Mas já fico de pé atrás quando vejo meterem no mesmo saco os manifestantes da Praça Tahir, da Tunísia, da Rússia e do Iémen, os rebeldes da Líbia e os insurgentes da Síria, juntamente com os "indignados" de Madrid, os anarquistas da Grécia, os saqueadores de Londres e os "occupy" americanos. Pretender, como ouvi hoje numa rádio pública, que "nem só no ocidente se viram manifestações a favor da liberdade e contra a opressão" é insultuoso para os que verdadeiramente não gozam de liberdade e de um ridículo impróprio de um estação minimamente radiofónica decente. Haverá com certeza algumas razões para manifestações nas cidades americanas e europeias, mas que eu saiba aí não se está sujeito a que tanques de guerra nem a cargas aéreas.

Tudo isto vem a propósito das Jornadas Mundiais da Juventude, em meados de Agosto deste ano. Compareceram em Madrid mais de um milhão e meio de pessoas, ultrapassando as expectativas dos organizadores. Não estive lá, mas do que me contaram, e do que vi por imagens televisivas, o entusiasmo era mais que muito, mesmo quando numa vigília nocturna nos arredores da capital espanhola se levantou uma enorme tempestade e ninguém arredou pé. Mas vi também as imagens das manifestações de alguns "indignados" contra o evento. Fiquei logo abismado pelos dito terem decidido, dias antes, em "conselho", manifestarem-se contra os gastos públicos da visita. Ora esses gastos foram pagos pelos próprios peregrinos e pela Igreja. Ao Estado coube pagar a segurança e a limpeza, tal como faz com os próprios "indignados" e com imensos outros eventos, e nunca aí se viram protestos públicos. Mas as dúvidas desvaneceram-se: grande parte das manifs anti-Papa eram isso mesmo, demonstrações de anti-clericalismo primário, com malta de feições torcidas pelo ódio (não é figura de estilo, nunca vi tanta gente junta de olhos esbugalhados) a gritar, até a empurrar e agredir peregrinos, com cartazes a chamar ao Papa nazi, pedófilo, fascista, etc, bandeiras anarquistas e do PCE, aos pulos cantando "io soy, pecador, pecador...", enfim, toda uma amostra do anti-catolicsmo mais primário e grotesto. Será bom lembrar que a Espanha teve fortíssimas acções e grupos anti-clericais, como a CNT anarquista, sobretudo no período antes e durante a Guerra Civil de 1936-39, em que milhares de clérigos foram mortos, mosteiros e igrejas foram saqueados e queimados e havia quem se divertisse a revolver túmulos e a espalhar os ossos. Aqueles que se manifestavam de forma tão virulenta contra as Jornadas da Juventude eram apenas os descendentes dos "rojos", provavelmente impressionados com os relatos dos seus avós da luta contra os "fachas" e o "clero reaccionário". Os gastos públicos eram um pobre pretexto para espalharem o seu fervor laicista (reparem no -ista) e o seu fanatismo anti-clerical, em claríssima contradição com as exigências anteriores de "mais democracia". Manifestações e democracia sim, desde que sejam as nossas ideias (interesses?) a vingar, parecem dizer. Quando partem de outros, lá se vai o sentimento "democrático" e "tolerante".



Outras manifestações houve em sítios por onde o Papa passou, como Berlim, onde não há grande cultura católica. Custa-me a crer que a Igreja, que apesar da sua influência e dos seus seguidores, não tem propriamente poder político, possa causar tantos pruridos e controvérsias. Os casos de pedofilia em instituições católicas, muitas vezes abafados, são graves, mas não faltam crimes semelhantes noutras circunstâncias. A Igreja tem um passado turbulento, mas actualmente não persegue nem pune civilmente ninguém, e no entanto vemos cristãos, católicos e não católicos, perseguidos em várias partes do Mundo. Pode-se imaginar que protestos como os de Berlim, ou no ano passado, em Inglaterra, tendam a surgir como reacção em culturas fortemente anti-católicas (note-se que até agora o herdeiro do trono britânico não se podia casar com alguém que seguisse o catolicismo). Mas os de Espanha desenterram velhas questões e fazem aparecer em plena luz do dia os fantasmas do anti-clericalismo espanhol mais violento.
É certo que os acontecimentos de Agosto em Espanha não trouxeram grande mossa, e foram em parte exagerados por alguma comunicação social. A diferença de número entre os peregrinos e os "indignados" anti-católicos era abissal (qualquer coisa como cinco mil para mais de um milhão e meio), e serviu para mostrar a força de atracção e mobilização da Igreja, o que talvez enerve algumas mentes com preferência pelo jacobinismo. Mas isto serviu igualmente para revelar que entre muitos "indignados" e demais manifestantes corre uma imensa intolerância, o radicalismo próprio de revoltosos e o populismo que alimenta as massas. Fazer manifestações pretensamente justas e transversais à sociedade e desviá-las para objectivos políticos untados de fanatismo (neste caso, laicista, que não é pior que os religiosos) é um risco que as sociedades actuais correm se acharem que os problemas se resolvem todos na rua. As pessoas devem lutar pelos seus direitos, mas a fronteira entre isso e o revanchismo protegido pelas massas é muitas vezes ténue. Seria bom lembrar isso cada vez que se ouvem vozes apaixonadas por este tipo de movimentos, e pior ainda, a fazer comparações patéticas, como se os regimes políticos fossem todos iguais.
Tentarei na próxima semana actualizar assuntos em atraso (mas não passados). Bom 2012 a todos, ou que não seja pior do que 2011.

Adenda (já em 2012): lembrei-me deste notável artigo de Mario Vargas Llosa, que nunca teve uma enorme simpatia pela Igreja, e que por isso mesmo me surpreendeu. Como se a Fé o tivesse tocado. Ou simplesmente visse naquele espectáculo uma imensa comunhão fraterna e alegre. no fundo, o que as JMJ eram.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Coisas que realmente indignam



Olho as imagens dos "indignados". São exactamente as que esperava: uma mescla de militantes do PCP (alguns deles com boinas que passaram seguramente pelo PREC) com o discurso na ponta da língua, uma data de gente com fisionomia de votantes do BE (piercings, tranças, roupas de saltimbancos, etc), e os habituais anarcas dos nossos dias, de bandeira negra e capuz. Pelo meio, algumas pessoas com ar normal, provavelmente funcionários públicos ainda atónitos pelas contas que têm de fazer.


Percebo que haja muita gente preocupada com o seu futuro e os seus empregos - eu também estou. Que haja funcionário públicos inquietos é óbvio. E percebo igualmente que as crises tragam a necessidade de alguma catarse. As manifestações podem servir para isso.


O que eu não admito é que venha um punhado de gente aparentando fobia à higiene falar em "democracias reais", organizar "assembleias populares" e dizer que representa "99% do povo". Mas quem é que deu àqueles aprendizes de artistas de circo legitimidade para representar o povo português? Eu não sou, não quero nem me sinto minimamente representado por aquela gente. Sim, isso a mim indigna-me. Já agora, por onde andavam eles quando as taxas de juro eram baixas e se consumia a crédito a torto e a direito? Julgarão eles que a culpa se resume apenas aos bancos e ao sistema financeiro? Pergunto-me que drogas circularão por ali quando vejo gente a falar num "novo 25 de Abril", como se este regime não fosse produto do original, ou numa "revolução mundial" (em Pequim também?). A representação popular está dentro do edifício que cerca, o palácio de S. Bento, e para os colocar lá houve eleições em Junho. Os partidos que apoiam estes "indignados" tiveram no total pouco mais de 15% dos votos. Agora querem ganhar na rua o que não ganharam nas urnas, falando em "maioria social" (ou seja, a maioria dos que andam nestas marchas). Acharão que os restantes eleitores, aqueles que fizeram outras escolhas e não se abstiveram, não se indignarão?

Entretanto, aparece um mancebo de grandes tranças, roupas largas e coçadas, tocando viola e "sonhando com outro futuro". Inquiro-me se aquele indivíduo trabalhará, se andará á procura de trabalho e se se atreverá a ir a alguma entrevista de emprego naqueles modos.

Depois, vemos as televisões a falar do "protesto global popular", e quando passam por Roma, vêem-se os habituais agentes do Black Block a incendiar carros, prédios, até a vandalizar uma igreja do século XVII. Encapuzados de cara escondida, como de costume. São referidos pelos locutores como "alguns jovens que protestaram de forma mais violenta". Porque raio não chamam os bois pelos nomes? De selvagens, membros da extrema-esquerda do submundo, ou mais precisamente, anarquistas? Ou terá a comunicação social medo de lhes chamar o que realmente são? Isto sim, é de deixar uma pessoa indignada.

terça-feira, março 15, 2011

O regresso da manifestação dos "rascas"


Estive na manifestação "apartidária, laica e pacífica" da "geração à rasca". Estive seriamente para não aparecer, pela mensagem vaga e ambígua, pela falta de substância já esperada nos protestos e por estar à espera de ver gente que tudo exige e nada quer dar.
Mas à última da hora compareci nos Aliados - porque a multidão já tinha transbordado do "ponto de encontro" inicial, na praça da Batalha. Fi-lo porque apesar de tudo a maior parte dos que protestavam faziam parte da "Geração Rasca", da qual sou membro de pleno e flagrante direito, uma vez que participei nas manifestações contra as provas globais no longínquo Maio de 1994, cujos excessos escritos e escatológicos levaram a que no dia seguinte Vicente Jorge Silva inventasse a classificação.


Estava realmente uma enorme multidão, de várias idades e aparências. Claro que o que se fazia notar eram os cartazes mais ousados ou originais, e, para não variar, os sempiternos anarquistas, que entre tranças e fumos duvidosos não perdem uma ocasião para reclamar pela "auto-gestão" e clamar contra a "exploração capitalista". Havia quem levasse animais de estimação, bandeiras, fatiotas bizarras e as suas reivindicações pessoais em cartaz. Havia também um microfone para que todos os que o desejassem pudessem falar. Aí percebia-se melhor o ecletismo da massa. Havia quem se queixasse de não arranjar emprego e andar a recibos verdes, e também quem carpia mágoas por não conseguir montar a sua própria empresa ("o simplex não passa de uma treta", ouvi a certa altura a um orador). Havia empresários desiludidos e ociosos exigentes. Provavelmente estariam ali ideias muito divergentes quanto às soluções para que a sociedade se "desenrascasse" (e também quem queria simplesmente acabar com a sociedade, como os anarcas). Por fim, havia os curiosos, a tirar fotografias, num misto de solidariedade e curiosidade sociológica.


Devo dizer que não me senti exactamente entre "os meus", até pelos poucos conhecidos que encontrei. Muito do que vi e ouvi nada tinha a ver comigo nem o defendia minimamente. Mas toda aquela multidão, a do Porto e de todas as outras cidades, por muito vaga e equívoca que estivesse, não pode ser ignorada nem menosprezada. Representa boa parte da sociedade civil activa (oportunismos das juventudes partidárias à parte), uma fatia de leão da faixa etária entre 20 e 35 anos, e personifica um mal-estar colectivo que se detecta em qualquer café de bairro ou transporte público. É a esse mal-estar que, embora pacífico, convém estar atento e dar-lhe muita atenção, sob pena de se tornar explosivo num futuro não muito longínquo e de uma geração inteira se perder. A ela e ao país.