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sexta-feira, maio 24, 2019

O que me ficou da campanha para as europeias


Antes das eleições de Domingo não resisto a um pequeno apanhado do que me ficou desta pobre campanha eleitoral

A campanha dos "grandes"

As melhores campanhas foram feitas por partidos em que não tenciono votar (e quase do espectro oposto um do outro). Dos grandes, achei que a da CDU cumpriu bem os seus propósitos com o seu eleitorado, sem grandes ataques pessoais e falando realmente de questões europeias.   João Ferreira tem uma imagem ambivalente do trintão a entrar no bar da moda conservando uma linguagem ortodoxa, mas é impossível negar-lhes competência e sobriedade. Desfia a cassete, mas fá-lo bem.

No Bloco, Marisa manteve-se genuína e muito activa, monopolizando toda a campanha do seu movimento, e bem: quando o resto do Bloco se lhe juntava, estragava tudo.

Nuno Melo passou o tempo a falar de Sócrates e muito pouco de Europa (gostava de saber o que ainda pensa do caso da Hungria, por exemplo), com uma postura de forcado que não deixou espaço a outros nomes da lista. Só Cristas falou ao lado dele, fora umas palavrinhas de Mota Soares.

Paulo Rangel conteve-se mais do que o costume, embora falando também demasiado do PS. Ainda assim, uma campanha menos feroz do que há cinco anos, mas menos substantiva do que há dez, quando então ainda era um pouco novidade para o grande público, como quando presidiu à primeira blogotúlia de que tenho memória (mas quem teve aulas com ele sabe como tem o dom da palavra).

Por fim, Pedro Marques. Como praticamente toda a gente reconheceu, revelou-se um candidato desastroso, quase escondido por António Costa, que ainda teve o desplante de atacar a entrada em campanha de Passos Coelho enquanto Pedro Silva Pereira, a sombra de José Sócrates e terceiro candidato da lista do PS, era estrategicamente escondido atrás da cortina. A propósito. alguém ouviu mais algum candidato da lista? A também ex-Ministra Leitão Marques, Zorrinho, ou qualquer outro que teria sido um melhor cabeça de lista?

A campanha dos "pequenos"

O seu liberalismo puro não é propriamente o meu campo, pelo que não terão o meu voto, mas preencheu um espaço vazia na partidocracia portuguesa. A Iniciativa Liberal teve de longe a campanha mais imaginativa e inteligente, sem nunca descer o nível.

Paulo Morais, pelo Nós, Cidadãos, teve menos impacto do que merecia. O discurso da corrupção é importante, mas gostava de ter ouvido melhor o que ele disse sobre questões ambientais (tendo em conta que o seu nº 2 é José Inácio Faria, eurodeputado do MPT).

Paulo Almeida Sande, do Aliança, uma boa surpresa, achei-o convincente e preparado, e não faria má figura no PE. O mesmo se diga de Rui Tavares, do Livre, já com experiência em Bruxelas, assim como Marinho e Pinto, mas este espero bem que fique de fora e que aquela coisa chamada PDR desapareça quanto antes; partidos unipessoais e demagógicos, não, por favor.

O Basta revelou-se a fraude que se supunha, quando André Ventura trocou um debate na RTP por conversas de bola na CMTV. Esta coligação de um cocktail de direitas parece quase uma resposta áqueloutro cocktail de esquerdas das legislativas de 2015, o Agir, com Joana Amaral Dias (a surgir despida e grávida na capa da revista Cristina), o Mas e o PTP. Aqui tínhamos o nóvel Chega, de Ventura, o histórico PPM, ainda que dividido (sim, há lá militantes suficientes para criar divisões, tal como no MPT, aliás, que à mercê disso nem se apresentou nesta eleição depois de há cinco anos ter eleito dois eurodeputados; Gonçalo Ribeiro Telles não teria certamente isto em mente quando os fundou), o Portugal pró Vida e o Democracia 21, que julgo não ser sequer um partido.

PNR, PTP, PAN e PURP poucas surpresas mostraram, para além das suas agendas habituais e de um certo folclore, sobretudo da parte dos reformados e dos trabalhistas (aqui aconselhava a decorarem melhor o teleponto)

Já o MRPP, agora órfão de Arnaldo Matos, nem por isso deixou de ser menos lunático, mas ao menos não escondeu ao que vinha: saída do Euro e mesmo da UE. Para quem há pouco tempo anunciava "Morte aos Traidores" não se podia esperar menos. Quanto ao MAS, na campanha televisiva o cabeça de lista fazia lembrar uma árvore de Natal, tal a profusão de cores, tranças e adereços ideológicos; as propostas eram ligeiramente mais contidas do que as do MRPP - 70% de impostos sobre as grandes fortunas, por exemplo.

segunda-feira, julho 16, 2018

Os Verdes do Bloco


O frentismo, ou se preferirem, a criação de vários grupos, partidos ou organizações sob a mesma orientação ideológica é, como se sabe, uma das tácticas preferidas do PCP. Desde 1976 que o decano dos partidos portugueses não concorre sozinho, indo sempre à luta eleitoral "coligado" com outras formações, seja o já extinto MDP/CDE, sejam Os Verdes ou a associação política Intervenção Democrática, uma cisão do MDP cujo único membro conhecido é o sempre disponível Corregedor da Fonseca. E depois há as inúmeras actividades extra-parlamentares desenvolvidas pela CGTP, pelo CPPC, e restantes organizações satélite.

Aparentemente, na interessante luta pela hegemonia da esquerda mais radical em Portugal, o BE resolveu utilizar as armas do PCP e recorrer ao frentismo como forma de influenciar a sociedade. Para isso, tem também ele uma espécie de Verdes, que se distinguem da formação de Heloísa Apolónia por sempre terem concorrido sozinhos e porque na sua génese não tinham grandes afinidades com o Bloco. Chama-se ele PAN - sigla de Pessoas, Animais e Natureza - e tem um deputado no Parlamento chamado André Silva.

Nesta legislatura, raras são as ocasiões em que o Bloco e o PAN não votam nos mesmos projectos, ou em projectos próprios similares, como os sobre a eutanásia. Estiveram juntos na aprovação de animais domésticos em cafés, na mudança de género aos 16 anos, na legalização do cultivo de cannabis, e mais recentemente na tentativa de proibição das touradas, entre muitas outras. De facto, difícil é descobrir um assunto em que não tenham estado de acordo. Desconfio que Os Verdes estiveram mais em desacordo com o PCP do que o Bloco e a formação animalista. 

Claro que o PAN corre riscos, apesar da grande vaga actual para os animais: é que as pessoas tendem a preferir o original à cópia, e como tal a novidade PAN pode-se esgotar. Talvez por isso, é notório que o BE é mais assertivo nas questões mais fracturantes e de costumes, ou as económicas, e o PAN manifesta-se mais ruidosamente no que toca aos animais; na prática, estão quase sempre do mesmo lado.

Não sei se tudo isto é combinado ou coincidência, mas a verdade é que quase nada os distingue. É claro que o partido mais antigo e mais abrangente tende a dominar o mais pequeno, por isso o BE ficará sempre a ganhar. Veremos se continuam a concorrer separadamente, mas não me admiraria se para o ano já houvesse um qualquer acordo nas europeias. Se o PAN estagnar, o Bloco tem aqui uma oportunidade de explicitamente juntar mais um movimento ao seu agregado de partidos, substituindo desse modo a ausência da FER, e a formação de André Silva terá sempre alguns lugares assegurados. Cada partido tem Os Verdes que merece. E será mais um motivo para seguir o particular duelo do domínio da esquerda à esquerda do PS.

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quarta-feira, março 07, 2018

O pleonasmo italiano


Parece que depois das eleições de Domingo a Itália ficou "ingovernável", há pouca esperança de que haja um "governo estável" e fala-se em "coligações improváveis". Não é uma situação confortável, mas sendo Itália não é uma tragédia nem propriamente uma novidade. Antes pelo contrário.


A Itália da primeira república, de 1946 a 1993, teve perto de 50 governos, o que mostra bem a instabilidade governativa do país. No entanto, mesmo com esse e outros problemas (terrorismo, máfia, corrupção), o país desenvolveu-se e prosperou. Os dois grandes partidos eram a Democracia Cristã, que formava sempre governo com os liberais, os republicanos e os sociais democratas, e o Partido Comunista, o maior da Europa ocidental, inicialmente apoiado pelos socialistas. De fora ficavam os neofascistas, os monárquicos, os radicais e as formações regionais. A dada altura os socialistas passaram a suportar os democratas cristãos e tiveram até acesso à chefia do governo, com o célebre Bettino Craxi. Sendo sempre os mesmos a governar, e com o fim do perigo comunista, a partidocracia acabou por quebrar com o processo mãos limpas e os partidos tradicionais caíram como um castelo de cartas.


Com este cenário, em 1992/1993 surge a segunda república italiana. O Partido Comunista tinha entretanto alterado completamente a ideologia e a imagem e tornara-se no Partido Democrático de Esquerda, de ideologia social-democrata, excepto uma cisão mais saudosista que criou a Refundação Comunista. A Democracia Cristã acabou e a sua ala esquerda juntar-se-ia aos antigos inimigos agora do PDS. Outros dispersaram-se por pequenas formações centristas e "populares", mas a maioria do seu eleitorado, bem como dos partidos que a apoiavam, incluindo o socialista, seria absorvido por um novo partido que tinha como mentor o grande empresário e dirigente desportivo Silvio Berlusconi, pela crescente Liga Norte, de Umberto Bossi, até aí acantonada na Lombardia, e aos quais se juntaram os ex neofascistas de Gianfranco Fini, que num processo semelhante ao do PCI/PDS se tinham metamorfoseado na conservadora Aliança Nacional. Contra as expectativas iniciais, Berlusconi, aliado a Bossi e Fini, venceu as eleições gerais de 1994 ao PDS chefiado por Massimo D´Alema (que tinha um discurso pouco de esquerda, na opinião de Nani Moretti no seu filme Aprile). Seguiram-se anos em que ora vencia Berlusconi e as suas coligações (agora no Povo da Liberdade), ora o PDS e respectivos aliados ecologistas e centristas, com líderes como Romano Prodi, Rutelli e Veltroni, e que acabaria por se transformar no actual Partido Democrático. Pelo meio sucederam-se os inúmeros casos judiciais que envolviam sobretudo Berlusconi e até a entrada dos juízes na política, como Di Pietro.


Entretanto também esse cenário mudou. O Partido Democrático, chefiado pelo florentino Renzi, um Macron mais à italiana, prometeu reformar o país, mas a pressa e as mudanças de estratégia voltaram a adiar os planos. Fini retirou-se de cena, a Liga Norte expandiu-se para sul, agora com Matteo Salvini, e até Berlusconi regressou, em versão vegetariana e com mais cabelo, com a renascida Forza Italia, propondo-se a ser o árbitro das eleições e dos governos. Mais do que tudo, o Movimento Cinco Estrelas, primeiro com o histriónico Beppe Grillo e o cibernético Casaleggio, entrou de rompante na política italiana, conquistando em 2016 grandes cidades como Roma e Turim, e tornando-se no partido mais votado nas legislativas de há dias, agora como o jovem e quase licenciado Luigi di Maio à sua frente para lhe dar uma face mais institucional. Mas não se quer aliar a ninguém, tal como os outros partidos não se querem aliar uns com os outros.

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Como se vê, governos precários, falta de entendimento e posteriores alianças que antes pareciam impossíveis (ex-comunistas e democratas-cristãos, socialistas e ex-neofascistas, etc) são a regra em Itália. Daí que a preocupação imediata talvez não seja assim tão grave. Instabilidade governativa e coligações improváveis em Itália, mais do que a regra, são autênticos pleonasmos.

domingo, outubro 08, 2017

Ainda as autárquicas - e os maoístas que recebem dinheiro do estado?


Ainda gostava de saber como é que um partido cujo líder nunca aparece e que escreve missivas ameaçadoras a insultar os adversários e a enaltecer o terrorismo islâmico, não raras vezes sob pseudónimos ridículos, que organiza congressos clandestinos, que nunca atende a chamadas telefónicas nem a toques de campainha na sede, que chama "traidores" a todos os adversários e que, sendo contra a democracia e clamando pela "revolução operária", recebe mais de 180 mil euros anuais de subvenção do estado, participa nas autárquicas sem que ninguém lhes pergunte nada. Não haveria nenhum jornalista que perguntasse aos candidatos do MRPP o porquê de Arnaldo Matos se esconder, quais os seus propósitos para as autarquia, e já agora, o que era feito de tal subvenção que pelos vistos coincidiu com a tomada do poder do partido por dementes?

quinta-feira, setembro 28, 2017

Catarina Portas e o Livre, uma hipotética candidatura para Lisboa


A campanha das autárquicas caminha para o fim. Temo-nos debruçado sobre o que se passa em Lisboa e Porto. Observemos a capital: um sem número de candidatos, de todos os partidos e coligações possíveis, que só não ultrapassa Oeiras em número de candidaturas por aí haver três listas "independentes". Em Lisboa há várias senhoras na luta, a começar por Assunção Cristas, do CDS (mais PPM e MPT) e Teresa Leal Coelho, a escolha tardia do PSD. Há ainda a candidata do PAN e a frenética Joana Amaral Dias, que avança desta vez pelo Nós, Cidadãos, numa das escolhas mais estranhas destas autárquicas, sendo que ela provém da esquerda radical e o movimento tem a encabeçá-lo elementos ligados aos sectores monárquicos.

Mas talvez ainda houvesse espaço para mais uma candidata. Reparei que Fernando Medina, além de ser apoiado, obviamente, pelo PS e pelos movimentos de Helena Roseta e Sá Fernandes (já agora, o que será feito deles?), conta também com o apoio do Livre. Bizarro, numa câmara longe de ser transparente, mas pode ser nova tentativa do movimento de Rui Tavares de conseguir futuras alianças com o PS à esquerda, caso a "Geringonça" gripe. E talvez o Livre tivesse outras opções melhores.

Aqui há ano e tal, numa extensa entrevista ao Público, Catarina Portas criticou várias escolhas da actual CM de Lisboa. Depois de elogiar opções passadas de António Costa, considerou Fernando Medina "uma desilusão", que Lisboa estava "num momento crítico", com um decréscimo da "qualidade da vereação" e com uma "preponderância do urbanismo", cujas opções "não eram as mais inteligentes a longo prazo". E reafirmou-se tendencialmente mais de esquerda, ainda que diferente da que fora do irmão Miguel Portas.

Se o Livre estivesse para aí virado e tentasse um golpe de audácia, e caso Catarina Portas se resolvesse a experimentar a política autárquica, seria uma candidatura alternativa interessante. Ao contrário de Amaral Dias, Portas não chama freneticamente as atenções nem procura o mediatismo como um fim em si mesmo, e tem um projecto interessante e coerente baseado no artesanato e na produção portuguesa dos últimos cem anos. Sendo conhecida do grande público, e com os quiosques, A Vida Portuguesa e os recentes programas televisivos sobre marcas portuguesas tradicionais a trazerem ainda mais atenção, talvez conseguisse votos suficientes para ser eleita vereadora e ter alguma actuação na câmara de Lisboa. Nesse caso, ficaria a curiosidade de ser a terceira Portas a candidatar-se à capital, sendo que Nuno Portas chegou a ser uma forte hipótese para o PS em 1989, que, como se sabe, acabou por avançar vitoriosamente com Jorge Sampaio em coligação com o PCP. Para isso, seria preciso que ultrapassasse as suas hesitações, que como se vê pela entrevista, eram imensas. E que o Livre pelo menos tentasse, em lugar de se juntar a Medina. Eis uma boa oportunidade desperdiçada, e uma hipotética candidatura que seria mais interessante do que a maioria das que são apresentadas aos lisboetas.
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terça-feira, junho 06, 2017

O estado da situação no Porto, um mês depois do cisma Moreira-PS

 
Já se passou mais de um mês desde que Rui Moreira declinou o apoio do PS à sua candidatura. A minha percepção da coisa não mudou muito desde então, mas preferi esperar que o pó dos acontecimentos políticos assentasse. E não faltaram outra novidades autárquicas, até o regresso de Valentim Loureiro às batalhas eleitorais. Ou do caso Selminho, que voltou como arremesso de lama eleitoral e que promete continuar a dar que falar.
 
Como alguns leitores se lembrarão, votei em Rui Moreira em 2013 e tenciono voltar a fazê-lo. Aliás, andei a fazer campanha nas ruas, por vezes sob a intempérie, onde a alguns dias da eleição já se notava uma notória tendência de voto no candidato que venceu (não há como a campanha porta a porta para se perceber isso, mais do que os comícios que hoje em dia são sobretudo encontros gastronómicos com presença maciça de militantes arregimentados). Pese a parcialidade, tudo isto resulta do que observei nestes 4 anos e no que retiro do momento político actual.
 
O rompimento entre o movimento de Rui Moreira e o PS deu-se após alguns sinais de nervosismo por parte do primeiro, com a discussão de lugares e depois de Ana Catarina Mendes considerar que a eventual vitória de Moreira seria contabilizada como sendo do PS. Pelo meio, já tinha havido o desacordo de inúmeros elementos do PS, do Porto e não só (Francisco Assis, por exemplo), a contestação à liderança distrital de Manuel Pizarro e as acusações sibilinas de Manuel dos Santos, lá da sua prateleira dourada no Parlamento Europeu, para além de algumas divergências de Manuel Correia Fernandes, que detinha o importante pelouro do urbanismo. Mas o acordo firmado em 2013 corria bem, e Pizarro tinha a confiança de Moreira. Não era por ele que as coisas dariam para o torto. Como muitas vezes acontece, os movimentos subterrâneos e as intrigas partidárias acabaram por resultar, com a preciosa ajuda da cúpula política. Não sei se era intencional, mas a verdade é que Ana Catarina Mendes conseguiu implodir o acordo e deixou Pizarro numa situação complicadíssima. Alguns socialistas agradeceram. Outros sentiram-se traídos.
 
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Quem ganhou e quem perdeu? À primeira vista, Moreira ficou sem algumas cruzes no boletim e a quase certeza da maioria absoluta. Mas provavelmente ganhou mais do que perdeu. Ficará com menos votos do que os que teria se o PS o apoiasse, mas conseguiu manter a independência formal do seu movimento e afastar a ideia do "domínio da câmara" por parte do PS (cujos vereadores, de resto, renunciaram aos respectivos pelouros). Mantém o apoio do CDS, que conseguiu sempre manter-se no grupo vencedor de forma sabiamente discreta, e agora do MPT e do Nós, Cidadãos, além do grupo que já o apoiava e que tem várias origens políticas. O grande problema, que afectou o executivo nestes quatro anos, é que o núcleo duro se enfraqueceu com os desaparecimentos de Paulo Cunha e Silva e Manuel Sampaio Pimentel (e outros, infelizmente), ou a partida de Azeredo Lopes. Será esse o principal desafio de Moreira, que até agora só prometeu conservar o pelouro da cultura nas suas mãos. De resto, o plano para a cidade tem-se cumprido, com ênfase nos pilares a que deu maior importância (a cultura, na economia e a coesão social), e a saúde financeira não se afasta muito do rigor dos tempos de Rui Rio. E nalguns casos, como a resolução do problema da Feira do Livro, provou-se que pode haver apostas públicas na cultura sem necessidade de enormes gastos. Mas há mais problemas a resolver, como o do trânsito.
 
Quanto ao PS, fica numa situação muito complicada: não pode criticar o executivo de que fazia parte, não pode apresentar um programa demasiado parecido com o da lista de Moreira, com o risco de se secundarizar, nem afastar-se totalmente, sob pena de ser acusado de oportunismo. Pizarro e os seus camaradas têm aqui um quebra-cabeças difícil de resolver. Até porque se Moreira voltar a ganhar sem maioria, poderá muito bem voltar a precisar da confiança do cabeça de lista do PS (não necessariamente dos outros).
 
O PSD perde também o argumento de que a câmara era "controlada pelo PS (ou, numa deriva incompreensível, pela "extrema-esquerda")". Tem como candidato alguém que parece ser a antítese de Luís Filipe Menezes: o independente, discreto e pouco conhecido Álvaro de Almeida. Mas talvez por falta de experiência e de tacto político, ou por total ausência de ideias, Almeida tem levado a cabo uma campanha absurda, em que acusa Moreira de "não ter cumprido nenhuma promessa" (lembrou-se provavelmente das escadas rolantes para o Palácio de Cristal) e de ser um "traidor", "déspota", "populista", etc. Só falta mesmo chamar-lhe terrorista ou jiadista, mas já não deve faltar muito.
 
À esquerda, o regresso do PS a uma candidatura própria pode ser impeditivo de uma maior capitalização de votos nesse espectro. Nesse sentido, a aposta em nomes conhecidos pode não ser a melhor jogada. A CDU volta a lançar Ilda Figueiredo como candidata à câmara, vinte anos depois da sua última candidatura, e para a assembleia municipal o seu sucessor na vereação, Rui Sá, gabado pelo seu trabalho enquanto vereador com pelouro no primeiro mandato de Rui Rio, numa daquelas improváveis coligações "vodca-laranja". O Bloco de Esquerda jogava forte, com a candidatura de João Semedo, ex-"coordenador" do movimento, com larga experiência política e há muito a viver na cidade (e um dos raros bloquistas do Porto que não é nem actor nem sociólogo). Mas hoje mesmo, por razões de saúde, Semedo desistiu da candidatura à câmara e trocou de lugar com João Teixeira Lopes, passando assim a candidato a deputado municipal. A infeliz circunstância pode diminuir as hipóteses do Bloco conseguir pela primeira vez um lugar na vereação do município, até porque Teixeira Lopes por mais do que uma vez experimentou a mesma candidatura e teve sempre resultados bisonhos.
 
As eleições para a câmara do Porto prometiam ser uma maçadoria, mas afinal aqueceram com estes pequenos terramotos políticos. Será mais uma querela autárquica a seguir, a merecer atenção em algumas matérias importantes para a cidade, embora preveja que a ordem dos resultados vá ser a mesma de 2013. Aliás, não faltam motivos de entretenimento no distrito do Porto: temos os regressos de Valentim Loureiro, de Narciso Miranda (que anuncia a candidatura, mesmo a calhar, no dia do Senhor de Matosinhos), de Avelino Ferreira Torres, e até o filho de Vieira de Carvalho está concorre à Maia. Vá lá que Fátima Felgueiras e Luís Filipe Menezes resistiram à tentação de ver as suas fotos novamente nos cartazes.

quinta-feira, maio 11, 2017

Diferenças e comparações entre os antigos e modernos movimentos políticos franceses


Outro dos factos curiosos nas presidenciais francesas é a percentagem de pessoas mais novas que votaram em Marine Le Pen, o que reduz a pó a ideia de que os "jovens" não votam na direita, ou não têm grande atracção pelos fascismo, etc. Não deixa de espantar que a geração que mais beneficiou do programa Erasmus pretenda agora em boa parte votar nas forças que o querem restringir ou suprimir. E que aqueles que passam o tempo a atacar a globalização o façam através do meio que é o símbolo maior dessa mesma globalização e a sua grande impulsionadora- a internet.

A linguagem que observamos nestes apaniguados de LePen e da maioria das forças populistas de direita que vão fazendo caminho por essa Europa fora é a de uma aparente raiva tudo quanto os rodeia, ou pelo menos áquilo que acham que podem ser os perigos latentes: os muçulmanos (ainda que em grande parte dos casos não conheçam nenhum), as "elites financeiras" e "globalistas", a maçonaria, os gays, o "sistema corrupto", e por vezes, numa revisitação ao velho anti-semitismo, a "finança judaica". Aliás, a linguagem que se observa é tantas vezes semelhante à que se ouvia nos anos trinta, se bem que na maior parte dos casos se substitua judeus por muçulmanos. À conspiração "judaico-maçónica" sucede a conspiração "islamo-globalista", ou derivações parecidas. Num continente há muitas décadas em paz e que tende a perder as suas memórias, com a passagem das gerações que viveram os horrores dos anos 30/40, a vigilância cai, desenterram-se os fantasmas e esquece-se o clima que se viva antes do maior conflito mundial de sempre. Não que a Europa esteja nas mesmas condições, longe disso. Mas alguns sentimentos, sobretudo os mais exacerbados, não andam muito longe.

Justamente, podemos traçar alguns paralelos entre movimentos que existiam  na França dos anos trinta e os de hoje e os seus dirigentes. A Frente Nacional, com outra roupagem, outra linguagem e outros objectivos, é, em muito, devedora do legitimismo que dominou boa parte da direita francesa. Parece longe da Action Française de Charles Maurras, que nos anos trinta era provavelmente a associação política com mais militantes (embora não fosse um partido, até porque era explicitamente antidemocrática), corroborada pela sua agressiva ala juvenil Camelots du Roi, e que inspira outros movimentos actuais, mas no fundo é a legítima herdeira dessa parte da direita - a liberal, ou orleanista, divide-se entre os Republicanos e o partido de François Bayrou, ao passo que a outra família", a bonapartista/gaullista, cabe nos Republicanos e uma pequena parte no movimento de Dupont-Aignan. Era precisamente essa direita legitimista a responsável pelo discurso anti-semita que péssimas implicações deixou depois com o regime de Vichy.
 
Depois dos motins de Fevereiro de 1934, onde por pouco a Action Française e outros movimentos de direita radicais, pré-fascistas ou aparentados, não cometeram um golpe de estado, as esquerdas aliaram-se para fortalecer a sua posição. A SFIO de Leon Bloum, antecessora do Partido Socialista, o partido radical e o partido comunista aliaram-se na Frente Popular, que ganhou as eleições de 1936 e que deixou algumas marcas nunca revertidas, como as férias pagas. O PCF de Thorez e a SFIO eram ferozes adversários pela hegemonia da esquerda, mas ordens expressas do Komintern levaram a que os comunistas aceitassem a aliança para travarem a direita mais radical. Por aí se ficam as semelhanças: como se sabe, o actual líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, recusou apelar ao voto em Macron para travar Marine LePen. Macron não precisou dos seus votos para vencer esmagadoramente, mas é bem provável que a alta abstenção e os votos nulos e brancos se tenham devido ao eleitorado de Mélenchon. Aliás, dá-se como certa a separação entre o PCF e o ex-candidato "insubmisso". Mas fica a grande diferença: o PCF obediente a Estaline cedeu para travar a extrema-direita; a frente de esquerda de Mélenchon não o soube fazer, e embora isso tenha tido resultados nulos, não deixa de ser uma marca vergonhosa no seu currículo político.
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terça-feira, maio 09, 2017

Nem Joana D´Arc valeu a LePen

 
As sondagens em França lá falharam de novo, como tem acontecido no último ano. Afinal de contas, Emmanuel Macron teve uma percentagem mais alta do que as previsões mais optimistas faziam prever, levando até alguns apaniguados de Marine Le Pen a pensar que era possível chegar ao Eliseu.
Olhando para alguns resultados locais das eleições em França, encontram-se números curiosos. Na Vendeia, por exemplo, esse bastião contra-revolucionário e da "reacção", Emmanuel Macron venceu com quase 70%, acima da média nacional, ainda que, pelos resultados da primeira volta, a histórica região continue preferencialmente à direita. Já em Colombey-les-Deux-Églises, terra que se confunde com Charles De Gaulle - que aqui está, aliás, sepultado - a Frente Nacional sai vencedora, talvez pelo trocadilho atribuído ao próprio general, onde numa hipotética islamização, a terra se passaria a chamar "Colombey-les-Deux-Mosquées". Também aqui, na primeira volta, a direita ficou claramente em maioria.
 
Mas não resisti a ver quais tinham sido os resultados em Domrémy-la-Pucelle. Macron ganhou, com um resultado próximo da média. Mas porquê esta curiosidade em saber a votação desta pequena localidade perdida nos confins dos Vosges? É que Domrémy-la-Pucelle é precisamente a terra de Joana D´Arc, a heroína e padroeira de França ("pucelle", ou donzela, é um sufixo em honra da própria), que Marine LePen e a Frente Nacional tanto evocam, ao ponto de se tentar colar a ex-candidata presidencial à donzela martirizada em Rouen. De pouco serviu a inspiração. E na hora de votar, os descendentes de Joana D´Arc acabaram por preferir a original a escolher a cópia falsificada.
 
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sábado, julho 09, 2016

O terramoto partidário do Reino Unido



Se em França uns desaparecem fisicamente, no Reino Unido outros desaparecem politicamente. Os resultados do referendo não só trouxeram um terramoto para a Europa (e possivelmente para a própria União britânica, com a possível secessão da Escócia), mas também sacudiram totalmente a classe partidária dirigente local.

David Cameron pediu de imediato a demissão do governo e do partido, como se sabe. Boris Johnson, o seu grande adversário e um dos grandes vencedores da votação, que todos imaginavam já em Downing Street daqui a meses, sentiu-se com a chão a fugir depois do seu aliado Michael Gove, responsável governamental pela justiça, lhe ter puxado o tapete e anunciado a sua própria candidatura, e deixou tudo boquiaberto quando em conferência de imprensa na semana passada, quando todos achavam que ia anunciar a previsível corrida à liderança torie, declarou que o homem que governaria o Reino Unido não seria ele. Fica-se sem saber se Boris teria aquela ambição ou se é demasiado fraco para avançar à menor dificuldade. Em todo o caso, a sua carreira política ficou seriamente comprometida, a sua popularidade caiu a pique e provavelmente caiu um mito na política britânica. Em todo o caso, a facada nas costas de pouco serviu a Gove, já afastado da corrida à liderança por duas senhoras. Do mal o menos: com a sua face meio ET meio criança de colo, não seria certamente Gove a restaurar o prestígio britânico..

Entretanto, entre os Trabalhistas, a coisa está também a ferro e fogo. Já se sabia que Corbyn não reunia grande simpatia por parte da maioria dos deputados Labour, mas as suas posições europeias algo ambíguas e as acusações de que terá entrado na campanha a favor do "remain" tarde e com pouca convicção (fazendo com que muitos eleitores trabalhistas optassem pela saída) causaram furor no partido, tendo perdido um voto de confiança dos membros da câmara dos Comuns. contam-se espingardas, já há candidaturas à liderança a ser lançadas, como a de Angela Eagle (que bem parece uma espécie de Boris Johnson em versão feminina).

E no partido que mais ganhou o  referendo, o UKIP, Nigel Farage está de saída, considerando a sua missão como cumprida. Desta vez parece ser a sério, não uma falsa partida como em 2015. Não se sabe o que acontecerá ao partido, agora que a sua razão de existir se eclipsou. Mas sabe-se o que acontecerá a Farage nos próximos tempos: mantém o seu lugar no Parlamento Europeu, numa instituição com a qual quer acabar, mas que lhe paga o seu avultado salário (ou "o gasto mais inútil da União Europeia", como disse Guy Verhofstadt). O representante do "little people" continua a mostrar todas as suas virtudes e o seu grande sentido de estadista. é duvidoso que lhe tenha passado pela cabeça sair do PE, mostrando uma réstia de dignidade.

Parece que só entre os liberais-democratas, os verdes e os nacionalistas é que as lideranças estão postas em sossego, a salvo dos terramotos que varrem a classe política dominante. Tudo isto numa semana em que o relatório Chilcot arruinou ainda mais a imagem de um dos primeiros-ministros mais duradouros da história do país, Tony Blair.

quarta-feira, maio 18, 2016

O fim anunciado do PDR


A detenção de um dos dirigentes principais do PDR seria para rir se não envolvesse a suspeita de um homicídio. É o último caso (e seguramente o mais grave) a envolver aquela formação que mais parece uma seita evangélica feita à pressa, com o seu "bispo" tronitruante. O Partido Democrático Republicano começou, como se sabe, com a saída de Marinho "e" Pinto do Partido da Terra onde queria impôr a sua vontade demagógica, para formar "o seu" partido, convencendo pelo caminho algumas pessoas estimáveis, como Eurico de Figueiredo e Fernando Condesso. Mas as polémicas já tinham surgido, com as críticas ao salário dos eurodeputados, quando o próprio Marinho, que já fora o primeiro Bastonário da Ordem dos Advogados a ser remunerado, não renunciou a esse mesmo salário porque segundo o próprio tinha uma filha a estudar fora. Não demorou muito tempo até que Eurico de Figueiredo (que depois voltou ao MPT, como aqui se relatou), batesse com a porta, com graves acusações ao líder do PDR. Na campanha eleitoral para as legislativas, Marinho "e" Pinto voltou às denúncias à corrupção e aos "luxos dos políticos", sempre auferindo do salário de deputado ao europeu, onde os relatórios indicavam que era dos menos activos. Depois das eleições, em que não elegeu um único lugar, o balão do PDR começou a esvaziar. Há tempos, as notícias diziam que havia uma debandada geral do partido, incluindo Fernando Condesso e Sousa e Castro, mas Marinho afirmava estar meramente a "reflectir e a reorganizar o partido". A reorganização não correu bem, até porque um dos detidos de Braga se tinha alçado a um dos lugares principais do PDR. O próximo passo é, espera-se, a extinção deste ridículo partido unipessoal que conseguiu um rumo ainda mais meteórico que o do PRD de Eanes. Até porque assim poupavam-se ao estado os 170 mil euros de subvenção estadual, o único proveito que esta coisa conseguiu ganhar nas eleições.

sexta-feira, abril 01, 2016

Brasil, oportunismos e soundbytes


A trapalhada institucional, judicial e político-partidária que se está a passar no Brasil mostra bem até que ponto se leva a hipocrisia ao extremo para se alcançar o poder. Ou para o defender. Cá e lá.

O PMBD, partido que sustentava a maioria no congresso, resolveu retirar o apoio ao governo de Dilma Roussef e abriu caminho para a aprovação de um eventual impedimento (vulgo impeachment), que destituiria a presidente do seu lugar e que colocaria no seu lugar o vice-presidente, Michael Temer...que é o próprio presidente do PMBD. Para a vice-presidência, iria o presidente da câmara de deputados, Eduardo Cunha, que seria substituído pelo presidente do Senado, Renan Calheiros. Todos membros da cúpula do PMBD e todos implicados nas investigações da operação Lava Jato e por diversos casos de corrupção. O PMBD é, aliás, o maior covil de baixa política e casos obscuros, num sistema partidário onde por si só isso já abunda. O herdeiro do antigo MBD - o movimento que agregava os opositores à ditadura militar que vigorou entre 1964 e o início dos anos 80 contra o partido do regime, a ARENA, no sistema bi-partidário então existente - já gozou de um mínimo de respeitabilidade e já teve figuras de relevo. Actualmente é a maior formação parlamentar, tanto no congresso dos deputados como no senado, e tem uma fortíssima implantação local, com inúmeras prefeituras e governos estaduais, assentes num vasto caciquismo. À imagem de outros congéneres sul-americanos é um partido "pega-tudo" do centrão, de fraca ideologia, com o objectivo único do poder, que nunca tem candidato próprio à presidência do Brasil e que se alia ora a um ora a outro para garantir a manutenção do seu próprio poder. Já esteve com Fernando Henrique Cardoso, depois com Lula e Dilma, e provavelmente apoiará quem estiver na calha para a presidência. Agora rompeu com o PT, alegando as suspeitas do caso Lava-Jato, quando os seus dirigentes são exactamente os mais implicados. Terão uma oportunidade de se guindar ao poder e assim obter a imunidade necessária para escapar às acusações. Tudo gente honesta e altruísta, como se vê.


Por cá temos os nosso velhos conhecidos PCP e Bloco de Esquerda a protestar contra o "golpe" supostamente urdido pela "direita". Se os bloquistas ainda criticam a nomeação de Lula para o seu novo cargo (de forma a protegê-lo de investidas judiciais) e as jogadas do PT, o PCP nem isto admite e reafirma mesmo que o "golpe" tem por trás a mão da CIA. O radicalismo ideológico leva a picos de ridículo como estes, mas do PC, que continua a viver numa qualquer dimensão temporal pré-1989, tudo se espera. O "impeachment" pode ser uma jogada política eticamente reprovável e obscura, combinada por movimento políticos sem a menor moral para o fazer, mas a sua legalidade só poderá ser observada pela comissão de deputados, e portanto, poderá ser um acto absolutamente legal. A teoria do "golpe", e ainda mais patético, as teorias de que a CIA estaria por trás ou que se prepararia um golpe a sério promovido pelas forças armadas, podem parecer delirantes, mas o soundbyte que fica no ouvido é das armas mais utilizadas pelas nossas sociedades altamente dependentes da tecnologia e da informação ao segundo. Vermos dois partidos que apoiam um governo constituído por um partido que perdeu as eleições e que volta e meia dizem que "a direita está raivosa e ressabiada" porque "o governo é constitucionalmente legítimo" estarem agora com a conversa do "golpe" mostra até que ponto este assunto os deixa ainda mais raivosos e ressabiados, como se as manobras políticas ao abrigo de regras formais só fossem admissíveis para um espectro político.

Eis a hipocrisia política no seu estado mais descarado com a mesma disputa como fundo. Cá e lá.

segunda-feira, março 14, 2016

O partido de Assunção Cristas

 
Ainda não sei muito bem o que será Assunção Cristas no CDS. A sucessão de Portas será sempre complicada, se bem que aqui, ao contrário da anterior saída, tenha o apoio do ex-líder, e por isso não passará pelas dificuldades por que passou Ribeiro e Castro. Lançou algumas propostas que devem ser estudadas, como a reforma de segurança social e as regras de nomeação do governador do Banco de Portugal, reiterou o apoio a Rui Moreira nas próximas autárquicas e declarou que o CDS se vai lançar sozinho à câmara de Lisboa. São pontos importantes. Mas ideologicamente falando, se é que isso ainda conta para alguma coisa, Cristas ainda deixa dúvidas. Sendo democrata-cristã, é muito duvidoso que queria voltar aos tempos do CDS original e "rigorosamente ao centro" de Freitas, Amaro da Costa e Basílio. Mas também não pode seguir a linha tão pragmática de Portas, nem voltar ao conservadorismo eurocéptico de Manuel Monteiro, até porque os "monteiristas" no partido se devem contar pelos dedos. E o facto de ter chamado para o núcleo duro alguns nomes tidos como mais liberais, como Adolfo Mesquita Nunes e João Rebelo, ainda complica mais qualquer previsão.
 
Será interessante seguir o percurso do CDS de Cristas, tanto na sua parte ideológica como na programática. Sem esquecer, apesar de tudo, que pretende fazer um caminho com mais autonomia do PSD, agora "social-democrata sempre", com intuitos de apanhar o centro, o que liberta espaços à direita.
 
 

domingo, janeiro 31, 2016

As apressadas previsões de "declínio" do PCP


No último post escrevi que as previsões de declínio do PCP eram precipitadas. Entretanto, já ouvi mais alusões ao mesmo, agora insufladas por filo-feministas ainda escaldados com a expressão de Jerónimo na noite eleitoral "podíamos ter escolhido uma candidata mais engraçadinha". Ou seja, o PCP começou o declínio definitivo até ficar ao nível do MRPP, o Bloco consolidou-se e prepara-se para quebrar o PS como o Syriza ao PASOK, etc. Convinha alguma calma. Afinal de contas, o PC já teve o seu declínio acentuado durante anos, até à queda do comunismo na URSS e à desastrosa colagem ao golpe de estado contra Gorbatchov, e desde então tem-se aguentado. Aliás, dizia-se precisamente o contrário há ano e meio, dois anos: que o PCP tinha renovado as suas caras e revelado a sua "experiência política" de muitos anos, e que o Bloco se afundava no seu saco de gatos ideológico, perdia gente valorosa e estava condenado ao desaparecimento a prazo, face ao mais sólido vizinho da esquerda e ao menos sectário Livre. Não aconteceu assim há muito tempo...

Qualquer previsão pontual do declínio de qualquer partido (também se ouve constantemente que "o CDS vai voltar a ser o grupo do táxi, como se isso não tivesse ocorrido quando o PSD teve as suas maiorias mais robustas) corre o risco de ser refutada pouco tempo depois. É bom relembrar que o PCP tem um fortíssimo braço sindical chamado CGTP (e nem o disfarça, como se viu numa manifestação recente em que acabou tudo a cantar a Internacional) e os sectores dos transportes, uma implantação autárquica coesa e reforçada nas eleições de 2013, com as reconquistas de Évora, Beja e Loures, um grande número de militantes fiel ao "partido", e continua a fazer parte do imaginário da "resistência antifascista" e a ser a voz ou até a família de muita gente, particularmente na Margem Sul do Tejo e no Alentejo, mais do que em Itália, França ou Espanha (onde teve a "concorrência" dos anarquistas, coisa que nunca aconteceu realmente por cá). E tem tido uma renovação de quadros lenta mas consistente. Ainda terá muitas palavras a dizer no apoio a este governo...ou na sua queda. Por isso, cuidado com essas precipitações.



Distrito de Beja presente na Festa do Avante
PS: como não podia deixar de ser, Vasco Pulido Valente também se meteu ao barulho, com um artigo que começa com esta espantosa frase: "O prestígio do Partido comunista Português começou a diminuir depois da Guerra...". A partir daí, desenvolve-se um rol de piadas involuntárias, como se o PC tivesse sido uma organização menor durante o Estado Novo e no pós-25 de Abril. Melhor do que isso, seria dizer que o movimento comunista internacional e a URSS perderam prestígio depois da Guerra. Por muito previsível que VPC seja hoje, tem momentos em que consegue surpreender. E no entanto, já teve escritos de bom rigor e invejável lucidez.

quarta-feira, outubro 21, 2015

O regresso ao futuro com o "Grande Educador"



Hoje, 21 de Outubro de 2015, é o célebre dia em que Marty Mcfly chegou ao futuro, vindo dos longínquos anos oitenta. Não há os carros voadores, skates propulsores, alimentos cozinhados por hidratação previstos pelo filme, e a saga Tubarão há muito que acabou. Pelo contrário, se esteticamente e nos elementos superficiais as coisas nem mudaram assim tanto, a revolução das comunicações e da net mudou a forma de nos interligarmos, como seria impossível, à data, de prever.


O que certamente não se imaginaria nos anos oitenta é que trinta anos depois Arnaldo Matos, o "grande educador da classe operária", estaria de volta para liderar (ou educar?) o MRPP, que quase não mudou nos últimos quarenta anos, a não ser pela saída de militantes que entretanto ganharam notoriedade.

Nos últimos dias tem sido um corrupio no velho partido maoísta, que nestas últimas eleições se destacou pelo slogan "morte aos traidores!" e por ter o médico Pinto da Costa como mandatário nacional. Agora, os comunicados do seu site lamentam os fracos resultados eleitorais, suspendem os membros do Comité Central do partido e o secretário-geral por "incompetência, oportunismo e anticomunismo primário", e marcam um congresso extraordinário para breve. Tudo assinado pelo "camarada Espártaco" (o nome é de antologia) com auxílio da "camarada Marta", e rematado com o potente "Morte aos traidores!". Ao que tudo indica, Garcia Pereira será um dos dirigentes suspensos.

Entretanto, no jornal, agora online, do partido, o Luta Popular, os editoriais têm sido assinados pelo mítico Arnaldo Matos, que não se coíbe de comentar a actualidade política, e não é particularmente meigo com os partidos representados na AR, muito menos com a esquerda e com um eventual governo formado por PS, BE e PCP. Ao que tudo indica, as tumultuosas movimentações dentro de velho partido terão mesmo a ver com um eventual regresso do próprio Arnaldo Matos à liderança. Ou seja, se a linguagem, os propósitos e a estética e o grafismo já eram devedores dos anos setenta, só faltava mesmo lá recolocar o líder carismático que há muito se tinha afastado para se dedicar à advocacia. Definitivamente, a esquerda em Portugal movimenta-se.



Se a moda pega, poderemos ver Jorge Sampaio e Vítor Constância a enfrentarem-se para substituir António Costa, caso a este as coisas não lhe corram bem (só porque Soares talvez não esteja disponível); ou Cavaco, quando sair da presidência, disputar o PSD com Balsemão, se Passos também sair. Portas poderá ser substituído por Freitas do Amaral, enfim de regresso ao CDS, quiçá com a oposição de Adriano Moreira. Jerónimo pode estar ameaçado por Carvalhas, Catarina Martins por Louçã ou Mário Tomé, Paulo Estêvão (PPM) ou José Inácio Faria (MPT) por Gonçalo Ribeiro Telles, o general Eanes a reconstituir o PRD com Hermínio Martinho e Pedro Canavarro, e assim sucessivamente. Nada como os clássicos. É bem verdade quando dizem que o retro está na moda.