quarta-feira, julho 05, 2006

França? Oh, não!

Os meus desejos momentâneos concretizaram-se, e a "velha" França recambiou aquela imitação de "futebol de samba", com avançados gordos, extremos cansados e laterais recauchutados, de volta para férias, a ver se reaprendem a jogar como sabem. Nada mais justo e óbvio. Só que para nossa desgraça, vão jogar conosco. Já todos se devem ter dado contade de que este Mundial, além de ser o comprovativo da experiência sobre a juventude, não serve definitivamente para desforras. A França estragou os planos à "fúria" espanhola e ao escrete. Nós voltamos a tramar a Holanda e a Inglaterra pela enésima vez, sendo que os últimos já nem devem poder ouvir falar em penalties e limitam-se a verberar o Cristiano Ronaldo (?) nos seus Mirrors e Suns. E a Argentina não se vingou igualmente da Alemanha. Por isso, temo que as memórias pobres de 84 e 2000 regressem.
É caso para apreensão, sem dúvida. E eu, que nãovi o jogo dos Galos contra os Canarinhos, fiquei ainda mais temeroso ao ver Zidane regressar aos tempos de glória. Está tudo aqui. Mete medo. Mas, há que reconhecê-lo: ele merece. Apesar de ser o nosso próximo adversário, não deixa de ser emocionante ver este jogador de 34 anos em dribles sucessivos, como se jogasse nas ruas de Marselha, ao som desta música de Rod Stewart (autor muito longe das minhas preferências). Mesmo à beira do fim da carreira, Zizou continua a ser o maior.
Freitas

A substituição pecou por tardia, dizem uns? Nunca devia ter entrado no governo, atalham outros? Será uma perda contra o "imperialismo norte-americano", prefere lembrar fulano? É uma pena ir-se agora, lamenta-se sicrano? Entre todas estas análises encontram-se provavelmente os fundamentos da mais correcta. Para mim, e apesar dos vários erros cometidos, das precipitações e de algumas afirmações precipitadas e desbocadas, tenho uma certa pena de ver o ex-MNE a saír. Além de um bom académico e de revelar interesses multifacetados, seja pela poesia, pelas biografias de figuras históricas e pelo teatro, nos quais se mostrou bastante activo, a defesa de uma certa diplomacia e de uma certa Europasão dignas de registo. E num tempo em que se passao tempo a falar do "politicamente correcto", com o qual, curiosamente, ninguém se identifica, teve a sua graça ver Freitas saír-se com declarações demasiado "incorrectas", provocando a ira quase geral e os anátemas de "esquerdista" e "pró-terrorista".


Para o seu lugar, Luís Amado, homem já conhecedor dos cantos à casa e com experiência nos assuntos externos. Sai igualmente Fernando Neves e entra Manuel Lobo Antunes. Para o lugar de Amado na Defesa, Severiano Teixeira. Tudo em família. Não parece que futuramente vá haver choques no Conselho de Ministros por causa dos dois novos membros

sábado, julho 01, 2006

Ah, Leão!














Derrotou de novo a Selecção dos "Three Lions" e quase alcançou o recorde do mítico Ducadam. O herói maior (mas não único, pense-se na defesa) de um jogo chato e sem graça, em que tivemos a sorte toda do nosso lado. Não importa. Quarenta anos depois, estamos de novo nas meias-finais de um Mundial, sendo que desta vez fomos nós a acabar com as esperanças inglesas. Apenas lamento pelo grande Eriksson, mas se acreditasse no destino diria que estava escrito que ele acabaria os seus dias à frente da Selecção inglesa com uma derrota perante a sua bête noire: Scolari.

PS: acabo de saber que Ricardo bateu mesmo um novo recorde em Mundiais. Já podem repôr aquela faixa que os adeptos boavisteiros há anos envergavam no Bessa: "Ricardo, o maior do mundo".

quarta-feira, junho 28, 2006

De que Richardson se trata?

Está nas salas de cinema um thriller chamada Asylum. História da mulher de um psiquiatra, a trabalhar num asilo de alienados, que se apaixona por um dos doentes, um indivíduo que a seduz mas que, todos a avisam e logo o demonstrará, é um perfeito psicopata.
Não é que tenha especial interesse em ver o filme. Mas depois de ver uma ou outra sinopse, fiquei confuso com o elenco: a protagonista era Natasha ou Miranda Richardson? Os dois nomes surgiram-me em publicações diferentes. Até que consegui tirar a dúvida a limpo, mas ainda assim fica o esclarecimento: a protagonista é Natasha Richardson (à esquerda), mulher de Liam Neeson e filha de Vanessa Redgrave, e interpretou igualmente há pouco tempo A Condessa Russa. Miranda (à direita) é uma consagrada actriz britânica, que entrou em séries como Black Adder e em filmes como Jogo de Lágrimas e Sleepy Holow. Deixo aqui igualmente o tira-teimas visual, para uma melhor fixação das respectivas fisionomias.
















Oitavos/quartos
Pois é. O desprezo castelhano (e catalão, andaluz e galego, porque a sua seleção é a única coisa que une o país vizinho) voltou a saír furado. "La Furia" teve uma entrada a todo o gás, previu que ia reformar Zidane, e, ironia das ironias, acabou por ser o craque francês a mandá-los para casa. Para mais, a Ucrânia, a quem tinham dado quatro secos na primeira jornada, ganhou a disputa das grandes penalidades à Suíça e segue em frente. A equipa helvética era a imagem do país: não tinha grandes figuras, mas era bem cronometrada; acabou por se despedir sem sofrer um único golo, fiel à sua neutralidade. A turma de Shevchenko tem agora a cinicíssima e aliviada Itália pela frente. Seria uma surpresa se os azzurri não ganhassem, mas quem sabe se os ucranianos não resolvem imitar os vizinhos Bulgária e Roménia, revelações no Mundial de 1994.
Já o Brasil, com uma mistura de sorte, eficácia, experiência e desacerto na finalização africana, lá seguiu em frente, com o vidrão ambulante outrora conhecido por Ronaldo, o Fenómeno, ultrapassando a marca do Bombardeiro Muller.
Emocionante será, espero, o regresso aos históricos Alemanha- Argentina. Maradona e Matthaus vêem apenas de fora, mas há craques para todos os gostos, desde a dupla atacante de origem polaca até às revelações como Maxi Rodriguez, que não conhecia.
E, claro, a reedição do nosso combate com os ingleses, provavelmente o povo mais fanático por futebol, e aqueles que mais convencidos estão da sua superioridade com o esférico, muito embora a realidade lhes seja adversa e cruel. Já se sabe que nas bancadas e nas ruas eles ganham por goleada. E por muito que nos digam que a maior parte deles pertence agora à midclass, temem-se sempre os hooligans e os bêbedos, seja de que classe forem (podem muito bem não ser das workers). Dentro do campo, "Big Phil" saberá certamente como vencer Eriksson, aguardando-se que não haja novo confronto guerreiro como contra os laranjas. A classificação de "Batalha de Nuremberga", que promete ficar imortalizada, tem um tom bem mais épico e historicamente mais memorizável, que "batalha de Gelsenkirchen", tanto pela pronúncia desta última como pelo carácter mineiro da cidade do Rhur. Até porque minas de carvão é matéria bem mais conhecida dos ingleses...
Ainda a propósito da refrega de Domingo, além da intencionalidade dos holandeses em querer acertar nos nossos jogadores, como aquele "Moulin Rouge" e das desculpas esfarrapadas que deram, parece que ainda temos de aturar com (má) vontade dos britânicos em penalizar Figo, as pressões de pasquins do tipo Sun e a total crença da sua parte na passagem às meias finais. Se perdem, Scolari tornar-se à no seu eterno pesadelo.
No fundo, estes países mais não fazem que demonstrar os seus genes, revelando-se dignos dos seus antepassados corsários, que no Séc. XVII atacavam as feitorias lusas nas costas de África, Brasil e Oriente. Certamente que os descendentes de Salvador Correia de Sá e de Henrique Dias não deixarão o crédito português por mãos alheias. Não é à toa que ninguém fala holandês em territórios com mais de duzentos metros de altitude.

segunda-feira, junho 26, 2006

Drama e glória
Contra uma equipa holandesa sobrevalorizada (cheguei a pensar que seria uma das revelações da prova) e sem classe, e um árbitro desvairado que pensava impôr autoridade com expulsões, a experiente e abnegada equipa portuguesa conseguiu levar a melhor, uma vez mais. Para além da satisfação óbvia pela vitória e pela passagem aos quartos de final (objectivo mínimo), alegra-me que estes campeões da falta de desportivismo tenham ido de vela. Foram eles, e não nós, que demonstraram esperteza saloia. E as palavras de Van Basten no final foram de uma hipocrisia atroz - justificou o miserável acto de Heitinga com um imaginário"anti-jogo português"!
Segue-se a nossa velha conhecida Inglaterra, uma equipa que normalmente promete muita parra mas sai pouca uva. Têm uma fabuloso meio-campo e uma defesa sólida, mas o ataque não é dos melhores e na baliza é o que se sabe. Há esperança, portanto. Mesmo sem Deco e Costinha. E vamos lá ver em que estado ficaram Ronaldo, Figo e Ricardo Carvalho. Mas os sucedâneos serão certamente dignos da camisola.
Vencê-los de novo, é o que se pede.

sexta-feira, junho 23, 2006

Adieu, Zizou?

Cruz, credo! Esperemos que não.

PS: interrompo por um fim de semana a crónica sobre o Mundial em Frankfurt. Quando a completar, com a parte relativa ao jogo propriamente dito, espero que Portugal esteja já nos quartos de final, ultrapassando a sempre complicada Laranja Mecânica.

quarta-feira, junho 21, 2006

Frankfurt - o Mundial


Na minha estreia em Mundiais de futebol já esperava encontrar um ambiente fervilhante, parecido com o do EURO-2004, mas em versão maior e globalizada. Além disso, os metereologistas apontavam bom tempo para a Alemanha, ao contrário das nossas trovoadas pré-estivais. Assim era. O tempo tépido (realmente quente no Domingo) aliado à profusão de nacionalidades contribuía para o bom ambiente que se vivia. Logo depois da chegada ao aeroporto, onde me cruzei com Eusébio, depois de ter viajado com parte do PSD-Porto, e ainda antes da necessária instalação no hotel, quase paredes meias com a Selecção, deu para ficar com uma ideia do entusiasmo local. Na plataforma das chegadas um ecrã gigante mostrava o calvário dos sérvios. Uma hora depois, já os argentinos estavam, se assim se pode dizer, euforicamente contidos. Em relação ao desastre de 2002, é um avanço. Já os eslavos deviam ter bebido para esquecer, a avaliar pela forma como conduziam, saltando bermas e passeios, quase chocando com os croatas, compreensivelmente alegres.
Respirava-se futebol em toda a parte. Setenta por cento dos transeuntes envergava uma camisola alusiva à bola. Algumas eram de clubes - vi vários alemães com a do Benfica, por exemplo, mais do que do Eintracht Frankfurt. Aliás os alemães, com o seu tímido patriotismo que lá se vai libertando das amarras da Segunda Guerra, usavam um pouco de tudo, além do equipamento da mannschaft. Fartei-me de ver famílias inteiras, de um louro elucidativo, com a camisola portuguesa e as cores verde-rubra na cara. Outros apostavam mais no Irão, e havia mesmo os que usavam camisola de um país e bandeira do outro. Também não faltavam postos de venda do evento, com equipamentos para todos os gostos, menos para o meu, que não arranjei a camisola do Eintracht e tive de me contentar com a mais parecida, a alternativa da Alemanha.
Mais do que nas praças, a festa fazia-se na Main Arena e na fan area, nas duas margens do Meno. A tela gigante dos jogos estava, como já disse, a meio do rio. Jamais consegui lugar nas cadeiras, sempre ocupadas; tive de me contentar em assistir aos desafios de pé, excepção feita à segunda parte do Holanda-Costa do Marfim, que vi num simpático bar flutuante.
Uma das grandes diferenças entre os eventos lusos e o deste país de bebedores de cerveja é que se devolviam os copos da dita, evitando-se assim um cenário desolador de plástico esmagado. Na devolução,tinha-se o reembolso de dois euros. A parte chata é que nunca se podia circular para longe com a bebida.
Durante o dia, a fan area parecia um parque de diversões, com uma roda gigante, pequenos campos para se jogar futebol de cinco, diversões típicas de feira, barracas de pipocas, cachorros e cerveja, etc. Tal era o movimento que numa dada altura, creio que depois do Gana - República Checa, enquanto os africanos festejavam, se impediu por uns largos momentos que entrasse mais gente. As entradas eram mais rigorosas que nos estádios, com revistas que seriam certamente apreciadas por ninfomaníacas. Pelo que eu visse, não houve cenas muito conturbadas, a não ser talvez uma discussão entre namorado(a)s italianos.
De noite, aquelas margens transmutavam-se numa festa ao longo do rio. Como havia barracas de diversos países, as festas nacionais faziam-se aí. Havia, claro, os não representados, como o Egipto ou a Turquia. Noutros, como na de Portugal, a animação era rija, mas talvez menor em número que a do Irão. Havia mesmo uma barraca de Trinidad e Tobago, com naturais das ilhas que me recordaram que o Latapy tinha também jogado na Académica.
A afluência de gente era grande, mas variava consoante fosse dia de jogo na cidade ou qual era a equipa que jogava nesse dia. Por exemplo, dos milhares de mexicanos que se viam em Frankfurt na noite em que jogaram com Angola, e contra quem gritávamos o nome da ex-colónia, de Zé Kalanga e de Mantorras, restava no dia seguinte um número diminuto, sendo substituídos por vagas de italianos e americanos, e depois por coreanos e croatas. A transumância dos povos é impressionante em tempos de Mundial. Mas há sempre uns ilustres representantes que ficam no mesmo local.

terça-feira, junho 20, 2006

Frankfurt - a cidade

 

Qualquer pessoa que viaje com mediana regularidade já passou com certeza pelo aeroporto de Frankfurt am Main, quase sempre fazendo escala, podendo entrever a cidade apenas ao nível das nuvens. O que se vê é uma cidade correndo ao longo de um rio, com um conjunto de arranha-céus à americana, antes de uma parte central já mais "tipicamente alemã".
É uma imagem redutora, claro, mas a realidade não anda muito longe disso. Com os seus seiscentos e poucos mil habitantes, tem o aeroporto mais movimentado da Europa, a maior Feira do Livro do Mundo (e de têxteis, automóveis, etc), é a sede das instituições financeiras da UE e é uma encruzilhada nas vias férreas, rodoviárias e fluviais do país. Pesada responsabilidade, portanto.

Os arranha-céus, quase todos de instituições bancárias (o Commerz Bank é omnipresente e até patrocinou a estádio), lembram vagamente a skyline de Chicago. São rasgados por avenidas longilíneas, que depois de uns parques e de um visível red-light district, se transformam em ruas com largo movimento velocipédico. Os edifícios de média estatura dão lugar a construções mais barrocas, ostentando muitas vezes o brasão do Hesse, estado federal onde nos encontramos. Segue-se um conjunto de praças, com inúmeras esplanadas, cada qual com o seu ecrã mostrando o jogo da hora aos espectadores atentos e às respectivas canecas de cerveja. A mais central de todas, a Roemerberg, em grande parte reconstruída depois da 2ª Guerra, ostenta típicas casas alemãs seiscentistas, as Fachwerhauses, e tem no centro uma fonte com uma estátua da Justiça. Pululam as lojas de recordações, desde o merchandising do Mundial às canecas bávaras de cerveja. Escusado será dizer que o grosso dos turistas se concentra ali. No dia em que cheguei, os argentinos comemoravam efusivamente a goleada sobre a Sérvia.
A dois passos, a Catedral, a Kaiser Dom, com certa imponência, embora longe da de Colónia. A sua importância mede-se por ter acolhido a eleição de vários imperadores do Sacro Império Romano Germânico durante quatrocentos anos, se bem que a coroação se desse em Aix-la-Chapelle, a exemplo de Carlos Magno.
A alguns quarteirões, a casa de Goëthe, talvez a máxima referência da língua alemã. Tal como outros vestígios históricos da cidade, a morada onde o autor de Werther nasceu e viveu até aos 26 anos teve de ser quase totalmente reconstruída depois da guerra. Com tempo disponível, deve merecer a visita, para se conhecer melhor o espírito do autor e poeta alternadamente romântico e clássico.
A parte monumental da cidade completa-se com os inúmeros museus (do Dinheiro, Judaico, etc) e a Alt Oper, mais a norte, aparentada com a ópera de Dresden, e contemporânea à de Paris. Em redor estendem-se alamedas pedonais plenas de esplanadas, lojas de prestígio, bancas de fruta e vegetais. Em sentido perpendicular a este movimento são as artérias que vão dar ao rio e às suas inúmeras pontes, cruzadas pelas muitas barcaças que fazem do Meno uma imensa estrada fluvial, antes de se juntar ao Reno, em Mainz. Ladeado por parques e ciclovias, foi esta a área escolhida para se instalar a "Fan Arena" durante o Mundial, com a tela gigante dos jogos assente no meio do rio.

quinta-feira, junho 15, 2006

Ainda sobre o Papa em Auschwitz

Não tinha escrito nada sobre a importante visita do Papa a Auschwitz, há já quinze dias. Muito se falou sobre o testemunho de Bento XVI, principalmente da classificação que deu aos nazis, um "grupo de criminosos que abusou do povo alemão... na sua sede de destruição e poder". Estas palavras provocaram alguma celeuma e muitos franzires de sobrolho. Vasco Pulido Valente, por exemplo, atribui a culpa aos alemães em geral "e à sua nobreza" em particular, esquecendo-se talvez da oposiçãoda família real bávara ao avanço nacional-socialista. Mas foram os líderes judaicos que, de forma contida, mais criticaram o Papa, entendendo que a responsabilidade cabia ao povo alemão por inteiro e não apenas aos dirigentes e ideólogos nazis.

Não afastando totalmente este tese, há muita inverdade neste pequeno ajuste de contas moral. Afinal de contas, o partido Nazi não teve uma maioria esmagadora quando ganhou as eleições de 1933. As restantes formações políticas foram severamente reprimidase os seus apoiantes presos ou liquidados. E afinal de contas, os judeus que aí viviam não deixavam de ser alemães.
Além disso,esse pensamento é perverso porque pode ser invertido para outra óptica. É que o sentimento anti-semita, contra os "pérfidos judeus", que durante séculos vigorou no cristianismo e que levou a tantos autos-de -fé, baseava-se precisamente na ideia dos descendentes de Abraão serem, no seu todo, um povo deicida. Considerar todos os alemães como culpados do Holocausto não é uma ideia muito longínqua de confundir os membros do Sinédrio com os judeus de todos os tempos e lugares. Não seria pior que os religiosos e líderes de comunidades judaicas reflectissem bem antes de lançar críticas com uma pontinha de veneno. Merkel não tem culpa dos crimes de Hitler, assim como Olmert não é Caifás.
Mundial

A magra vitória de Portugal sobre os inexperientes Palancas, depois de um começo que prometia arrasar, revelou não só ausência de risco mas também algumas debilidades já temidas, sobretudo defensivas. Nunca se sabe também se os golos marcados podem ou não fazer falta. Contra Mantorras, Zé Kalanga, Figueiredo e companheiros esperava-se mais.

Mas isto também nos devia trazer de volta à terra para nos lembrarmos que a equipa nacional é boa mas não é excepcional. É certo que somos vice-campeões da Europa e que o nosso técnico é campeão do Mundo, mas a França era campeã dos dois há 4 anos e no entanto soçobrou. Se olharmos para o nosso registo de participações em Mundiais verificamos que é muito pobre. A Suécia, por exemplo,tem muito melhor palmarés e nunca os vemos como candidatos a vencedores da prova. Nem a Espanha, ou a própria Holanda. Dos países mais pequenos, só o Uruguai lá chegou, em circunstâncias muito especiais, e a Hungria esteve quase - depois disso caíu na irrelevância. Lembro-me aliás que o último outsider a ser dado como candidato foi a Colômbia de Asprilla e Valderrama, em 1994, e nem passou da fase de grupos.

É também por isso que odeio todas estas manifestações e programas intermináveis das Tvs, promoções de supermercados, bandeiras à janela (caramba, o Mundial não é cá!), bandeiras gigantes formadas pelas "mais belas mulheres do mundo(!!!), "diários da Selecção" com as soporíferas conferências de imprensa, as entrevistas "de choque" do sr. Scolari, as revistas cor-de-rosa discutindo se o jogador A está separado ou não usa aliança, etc, etc. Valha-nos o Mundial propriamente dito, porque ouvia-se falar de tudo menos de futebol.
Por isso mesmo, no Sábado estarei em Frankfurt a apoiar a Selecção nacional. Será também uma óptima forma de apanhar bom tempo e escapar ao temporal desfeito que se tem abatido sobre Portugal. E de ver uma coisa destas ao vivo, que já estava curioso. Vamos lá então ver como se portam as Quinas perante a armada persa.

segunda-feira, junho 12, 2006



Todo o que mata pela espada, pela espada morrerá.

Em geral, quando morre uma pessoa, são prestadas as respectivas condolências, mesmo que não tivesse sido o mais encantador dos seres. Abro porém uma breve excepção para Abu al-Zarqawi. Um assassino fanático, dissimulado, sem a menor piedade pela espécie humana, só podia acabar desta forma, mais cedo ou mais tarde. O terrorista número um do Iraque, autêntico mestre do disfarce, está morto, e, espera-se, enterrado. Mas não se aguardam abrandamentos imediatos no ferro e no fogo em que a Bagdad está envolta. Cortou-se uma cabeça à Hidra, mas sobraram muitas mais.

sábado, junho 10, 2006

Chuvada

Depois de um tempo seco e a atingir os limites caniculares, desabou hoje dos céus de Coimbra uma imensa queda de água. Só agora que voltei ao Porto é que me apercebi, pelas notícias, da autêntica borrasca que se abateu sobre a Lusa Atenas, enquanto o resto do país se contentava com uns pingos. Houve ruas inundadas e torrentes pela Alta abaixo - passe o paradoxo.
Vi a chuva, mas ignorava completamente os seus efeitos, e ainda mais que apenas se tivessem produzido somente em Coimbra. É que escapei por segundos de pura sorte ao temporal, e diverti-me a observá-lo do pátio da faculdade de Direito, enquanto as caleiras quase rebentavam com a água e os Gerais se iam enchendo de largas poças. O momento mais refrescante e contemplativo da semana. No Verão ou nas suas proximidades sabe bem ver a chuva a apaziguar os espíritos. Não há melhor lavagem de alma do que uma boa chuvada.

E poucas horas depois, sob o sol do fim de tarde, o Quebra-Costas, que antes tinha sido uma cascata, não revelava traço de água.

quarta-feira, junho 07, 2006

Périplo



Vi o novo programa de Miguel Portas, "Périplo - Histórias do Mediterrâneo". Sabia que era um projecto na forja há já algum tempo. Lembrava-me do "Mar das Índias", do mesmo autor, e tinha fortes expectativas. O programa não me desiludiu, como já esperava; achei-o bem estruturado, e os saltos súbitos na geografia acabam por se interligar sem grandes quebras. Revi a porta da Babilónia, inscrustada no museu Pérgamo, de Berlim ( na localização original está uma réplica, mandada erigir por Saddam), com os seus leões de guarda. Ponto de partida para uma viagem entre a antiga Mesopotâmia, o Egipto, o Líbano dos fenícios e a Tunísia dos cartagineses e romanos.
Depois deste começo auspicioso, fico à espera dos próximos episódios. E só tenho pena que Miguel Portas não abandone a actividade política e se dedique exclusivamente a este tipo de trabalhos, para os quais tem um notório talento.

segunda-feira, junho 05, 2006

Liberdade absoluta? Ou absolutíssima?

Uma inocente pergunta a todos os que acham que a liberdade de expressão não pode ter quaisquer limites, em ocasião alguma, sejam mais ou menos liberais: concordam com a criação de um movimento que defenda a pedofilia livre (além da zoofilia), como o que surgiu agora nos Países Baixos? Não têm nada a opôr? Ou afinal sempre há limites à livre expressão que se justificam perante casos de força maior?

sábado, junho 03, 2006

Saffron Burrows

Parece que na blogoesfera lusa alguém se lembrou finalmente da longilínea Saffron Burrows. Acto louvável, sem dúvida, se bem que a chamada de atenção não tenha partido de uma fonte inesperada. Mas acho que a ilustração não faz justiça à actriz, pelo que achei por bem mostrá-la de outra forma, ainda que menos sorridente. Pena é que em nenhum motor de busca tenha conseguido encontrar uma fotografia decente de Burrows como a lendária Andrómaca (no filme Troy), mulher do troiano Heitor.


segunda-feira, maio 29, 2006

Montenegro



Nunca cheguei a ir ao Montenegro. E contudo tive essa oportunidade, há alguns anos, quando se organizou em Budva a convenção bi-anual de uma associação de estudantes europeus de que fazia parte. Só que precisamente na mesma altura marcaram o meu último exame do meu curso, e optei por concluí-lo em lugar de me deslocar aos Adriático. Não mais tive ocasião de lá ir, fazendo o percurso que idealizara na altura: a rota Veneza-Budva, sempre por terra.

Há dias os montenegrinos escolheram em referendo a independência, por escassos 55,4% de votos, quando a percentagem mínima era de 55%. É pouco provável que não haja algum ranger de dentes e má vontade, com a quantidade de pessoas a viver no mesmo território que votou pela continuidade. Mas tratou-se de um acto pacífico, como pacíficas (e algo conformistas) foram as reacções do lado sérvio. Não se verificaram os mesmos horrores como quando a Croácia ou a Bósnia declararam a sua secessão, talvez porque o processo estava controlado, os sérvios não estão virados para guerras e têm mais afinidades com os montenegrinos, ou porque este território esteve à margem da violenta guerra dos anos noventa.

A decisão é soberana, e o Montenegro será a próxima nação independente da Europa. No fundo, é um retorno à realidade existente até 1918. Os montenegrinos têm, como disse atrás, fortes ligações aos sérvios, pela língua, pela religião - são ambos ortodoxos - e etnicamente. O que não quer dizer que sejam rigorosamente a mesma coisa, como o não são portugueses e galegos. A sua história está longe de ser comum. Enquanto os sérvios viveram totalmente subjugados pelo império Otomano, o Montenegro conseguiu sempre manter alguma autonomia, desde que em 1516 o Príncipe Jorge V retirou-se para Veneza e renunciou aos seus poderes de soberano a favor do Metropolita montenegrino. Os bispos escolhiam o seu sucessor na própria família (Petrovic), até ao Séc. XIX, altura em que se tornaram príncipes e puderam contrair matrimónio. Seguiu-se a total independência dos otomanos, juntamente com a Bulgária, em 1878, e a tranformação do principado em Reino, em 1910. Que não durou muito, já que depois da 1ª Guerra Mundial, num processo apressado e enviesado, o Montenegro, até aí um pequeno estado de pastores, uniu-se ao Reino dos Sérvios, Croatas, e Eslovenos. A capital mudou-se da histórica Cetinje, à sombra do monte Locven, para a incaracterística Podgorica. Permaneceu ligado à Sérvia depois da desintegração da Jugoslávia. Até agora.

Os problemas que advêm desta independência anunciada prendem-se mais com o Kosovo do que com a Voivodina. Como se sabe, o primeiro é uma parte da Sérvia habitado esmagadoramente por albaneses. A solução podia ser a divisão do território entre os dois povos, hipótese já rejeitada pelos kosovares, que apenas aceitam criar um segunda Albânia (ou quem sabe, constituir uma Grande Albânia). Parece-me que a divisão seria a mais ajustada, mas é também a mais improvável. E o pior é que os direitos dos sérvios têm sido tudo menos acautelados. Para evitar novos ressentimentos e novas escaladas de violência, seria bom que se deixasse de ver Belgrado como a má da fita em todas as questões balcânicas.

Quanto ao Montenegro, é um país de uma beleza estarrecedora, e se tudo correr bem, terá um belo futuro à sua frente. Façamos figas.

domingo, maio 28, 2006

O regresso anunciado


Tanto diziam que ele voltava que voltou mesmo, justificando assim o velho provérbio da "Água mole em pedra dura..."
Que seja bem vindo. Homens como ele fazem sempre falta no glorioso. E se não tivermos arranjado um número dez disponível para todo o jogo, não haja dúvida que o balneário tem agora mais alguma Alma. Uma Alma que faz passes de morte para golo.

quinta-feira, maio 25, 2006

Punk Cabaret Show

Há coisa de uns dois anos encontrei nas prateleiras da FNAC uns discos com um estranho par na capa, com a cara pintada de branco, à Mimo, e uns trajes de época. Pelo nome do duo pensei logo que fossem alemães. Ouvi um pouco da música deles, que me soou entre a pop infantil, rock inclassificável e teatralidade de cabaret. Estranheza e um pouco de enlevo foram as sensações do momento. Ao contrário do que pensava, não eram alemães, mas americanos, de Boston.

E só desse lado do Atlântico, a uns bons quilómetros a Oeste de Boston, nas margens geladas do Michigan, é que adquiri enfim o disco homónimo dos Dresden Dolls. Fi-lo não só porque até aí ainda andava desconfiado da sua música mas também porque o preço era substancialmente menor, o que diminuía o risco da compra. Só algum tempo depois do regresso à pátria é que me dispus a ouvir o resultado do "brechtian punk cabaret" de Amanda Palmer e Brian Viglione. Uma música que não é para qualquer altura, mas que ouvida com a disposição e o despreendimento necessários tem laivos de incandescência e estupefaciência. Ao vivo deviam ser um espectáculo digno de nota, se algum dia me cruzasse com eles.


Pois assim sucedeu. O duo passou por Portugal, on tour, para promover o segundo trabalho, que ainda não tinha ouvido. Mais precisamente em Famalicão. A escolha do local pode soar estranha, mas faz todo o sentido. A pequena cidade industrial, da qual só me lembrava da câmara municipal com uma espécie de campanário de granito e de uma rotunda com a estátua de Bernardino Machado, cresceu a olhos vistos, e não apenas em edifícios. Uma zona que há trinta anos era uma miséria cultural tem agora a famosa Casa das Artes, um edifício amplo e de linhas sóbrias, no meio de um parque, com um cartaz de espectáculos respeitável (e tem também algumas editoras, não esquecer). Os Dolls actuavam no âmbito do aniversário da Casa, e diga-se que foi uma escolha acertada. Depois da primeira parte ser preenchida com Thomas Truax, a sua guitarra e o seu Hornicator, e que provocou momentos hilariantes, com o músico a atravessar as coxias e a surpreender alguns espectadores que entravam na sala, o duo surgiu enfim. Não defraudaram o as esperanças, embora tivessem menos maquilhagem do que o costume. conservando no entanto as muito emblemáticas meias de riscas horizontais. Passaram o seu repertório quase todo, dos dois álbuns, como a mais conhecida Coin Operated Boy, mostrando a teatralidade do costume e a voz invulgar, com tons loucamente variáveis, de Palmer. Ainda houve tempo para alguns semi-diálogos entre eles e com o público, e para uma canção de Jaques Brel, no francês original, por escolha democrática.

Depois de inúmeros agradecimentos e de recomendações ao restaurante ao lado do auditório, abriram garrafas de vinho, serviram um bolo e posaram para fotografias, sem esquecer os costumeiros autógrafos. Um espectáculo de semi-cabaret terminado com o encontro entre os artistas e os seus fãs. E Miss Palmer esteve inexcedível a responder a perguntas sobre a banda e as suas inspirações, como as que me lembrei de lhe perguntar apesar do seu ar cansado mas próprio de missão cumprida.

terça-feira, maio 23, 2006

O Engenheiro Técnico
Fernando Santos não seria a minha primeira escolha para treinador. Esperava alguém mais motivador, sem o ar algo cinzento do engenheiro. Camacho, por exemplo, embora tacticamente inferior, ganha-lhe por KO na arte de entusiasmar os pupilos e na vontade de vencer. Mas o espanhol vai voltar ao Real Madrid como director, e outras opções, como Eriksson ou Scolari, seriam demasiado dispendiosas. Zaccheroni era uma incógnita. Podiam talvez pensar no factor surpresa, alguém como Michael Laudrup. Assim como assim, sempre é preferível a Carlos Queirós - que há dois anos, salvo erro no Aviz, ficou à frente de Santos como "pior treinador do ano".
O engenheiro tem no entanto algum currículo (além da curiosa experiência de , e nas duas últimas épocas conseguiu o milagre de deixar a equipa do AEK de Atenas, um clube à beira da falência e que viu os melhores jogadores rescindir contrato por salários em atraso, em segundo lugar no campeonato grego. É, sabe-se há muito, benfiquista assumido. E quem pode dizer se não será esta característica a dar-lhe outra energia e vontade de vencer? Vamos confiar.

PS: quanto ao tão falado regresso de Rui Costa, só acredito quando o vir na sala de imprensa da Luz, de cachecol, com a águia Vitória nas mãos e os adeptos em festa. Sabe-se lá depois de se desvincular do Milan ele não pretende ficar mais uns temos na Toscana...

PS2: faz um hoje ano que voltámos a ser campeões. Um ano, já, desde aquela inolvidável noite no Bessa. Que muitas assim se repitam, de preferência sem a dose de nervosismo que durou até ao minuto 89.