terça-feira, junho 20, 2006

Frankfurt - a cidade

 

Qualquer pessoa que viaje com mediana regularidade já passou com certeza pelo aeroporto de Frankfurt am Main, quase sempre fazendo escala, podendo entrever a cidade apenas ao nível das nuvens. O que se vê é uma cidade correndo ao longo de um rio, com um conjunto de arranha-céus à americana, antes de uma parte central já mais "tipicamente alemã".
É uma imagem redutora, claro, mas a realidade não anda muito longe disso. Com os seus seiscentos e poucos mil habitantes, tem o aeroporto mais movimentado da Europa, a maior Feira do Livro do Mundo (e de têxteis, automóveis, etc), é a sede das instituições financeiras da UE e é uma encruzilhada nas vias férreas, rodoviárias e fluviais do país. Pesada responsabilidade, portanto.

Os arranha-céus, quase todos de instituições bancárias (o Commerz Bank é omnipresente e até patrocinou a estádio), lembram vagamente a skyline de Chicago. São rasgados por avenidas longilíneas, que depois de uns parques e de um visível red-light district, se transformam em ruas com largo movimento velocipédico. Os edifícios de média estatura dão lugar a construções mais barrocas, ostentando muitas vezes o brasão do Hesse, estado federal onde nos encontramos. Segue-se um conjunto de praças, com inúmeras esplanadas, cada qual com o seu ecrã mostrando o jogo da hora aos espectadores atentos e às respectivas canecas de cerveja. A mais central de todas, a Roemerberg, em grande parte reconstruída depois da 2ª Guerra, ostenta típicas casas alemãs seiscentistas, as Fachwerhauses, e tem no centro uma fonte com uma estátua da Justiça. Pululam as lojas de recordações, desde o merchandising do Mundial às canecas bávaras de cerveja. Escusado será dizer que o grosso dos turistas se concentra ali. No dia em que cheguei, os argentinos comemoravam efusivamente a goleada sobre a Sérvia.
A dois passos, a Catedral, a Kaiser Dom, com certa imponência, embora longe da de Colónia. A sua importância mede-se por ter acolhido a eleição de vários imperadores do Sacro Império Romano Germânico durante quatrocentos anos, se bem que a coroação se desse em Aix-la-Chapelle, a exemplo de Carlos Magno.
A alguns quarteirões, a casa de Goëthe, talvez a máxima referência da língua alemã. Tal como outros vestígios históricos da cidade, a morada onde o autor de Werther nasceu e viveu até aos 26 anos teve de ser quase totalmente reconstruída depois da guerra. Com tempo disponível, deve merecer a visita, para se conhecer melhor o espírito do autor e poeta alternadamente romântico e clássico.
A parte monumental da cidade completa-se com os inúmeros museus (do Dinheiro, Judaico, etc) e a Alt Oper, mais a norte, aparentada com a ópera de Dresden, e contemporânea à de Paris. Em redor estendem-se alamedas pedonais plenas de esplanadas, lojas de prestígio, bancas de fruta e vegetais. Em sentido perpendicular a este movimento são as artérias que vão dar ao rio e às suas inúmeras pontes, cruzadas pelas muitas barcaças que fazem do Meno uma imensa estrada fluvial, antes de se juntar ao Reno, em Mainz. Ladeado por parques e ciclovias, foi esta a área escolhida para se instalar a "Fan Arena" durante o Mundial, com a tela gigante dos jogos assente no meio do rio.

quinta-feira, junho 15, 2006

Ainda sobre o Papa em Auschwitz

Não tinha escrito nada sobre a importante visita do Papa a Auschwitz, há já quinze dias. Muito se falou sobre o testemunho de Bento XVI, principalmente da classificação que deu aos nazis, um "grupo de criminosos que abusou do povo alemão... na sua sede de destruição e poder". Estas palavras provocaram alguma celeuma e muitos franzires de sobrolho. Vasco Pulido Valente, por exemplo, atribui a culpa aos alemães em geral "e à sua nobreza" em particular, esquecendo-se talvez da oposiçãoda família real bávara ao avanço nacional-socialista. Mas foram os líderes judaicos que, de forma contida, mais criticaram o Papa, entendendo que a responsabilidade cabia ao povo alemão por inteiro e não apenas aos dirigentes e ideólogos nazis.

Não afastando totalmente este tese, há muita inverdade neste pequeno ajuste de contas moral. Afinal de contas, o partido Nazi não teve uma maioria esmagadora quando ganhou as eleições de 1933. As restantes formações políticas foram severamente reprimidase os seus apoiantes presos ou liquidados. E afinal de contas, os judeus que aí viviam não deixavam de ser alemães.
Além disso,esse pensamento é perverso porque pode ser invertido para outra óptica. É que o sentimento anti-semita, contra os "pérfidos judeus", que durante séculos vigorou no cristianismo e que levou a tantos autos-de -fé, baseava-se precisamente na ideia dos descendentes de Abraão serem, no seu todo, um povo deicida. Considerar todos os alemães como culpados do Holocausto não é uma ideia muito longínqua de confundir os membros do Sinédrio com os judeus de todos os tempos e lugares. Não seria pior que os religiosos e líderes de comunidades judaicas reflectissem bem antes de lançar críticas com uma pontinha de veneno. Merkel não tem culpa dos crimes de Hitler, assim como Olmert não é Caifás.
Mundial

A magra vitória de Portugal sobre os inexperientes Palancas, depois de um começo que prometia arrasar, revelou não só ausência de risco mas também algumas debilidades já temidas, sobretudo defensivas. Nunca se sabe também se os golos marcados podem ou não fazer falta. Contra Mantorras, Zé Kalanga, Figueiredo e companheiros esperava-se mais.

Mas isto também nos devia trazer de volta à terra para nos lembrarmos que a equipa nacional é boa mas não é excepcional. É certo que somos vice-campeões da Europa e que o nosso técnico é campeão do Mundo, mas a França era campeã dos dois há 4 anos e no entanto soçobrou. Se olharmos para o nosso registo de participações em Mundiais verificamos que é muito pobre. A Suécia, por exemplo,tem muito melhor palmarés e nunca os vemos como candidatos a vencedores da prova. Nem a Espanha, ou a própria Holanda. Dos países mais pequenos, só o Uruguai lá chegou, em circunstâncias muito especiais, e a Hungria esteve quase - depois disso caíu na irrelevância. Lembro-me aliás que o último outsider a ser dado como candidato foi a Colômbia de Asprilla e Valderrama, em 1994, e nem passou da fase de grupos.

É também por isso que odeio todas estas manifestações e programas intermináveis das Tvs, promoções de supermercados, bandeiras à janela (caramba, o Mundial não é cá!), bandeiras gigantes formadas pelas "mais belas mulheres do mundo(!!!), "diários da Selecção" com as soporíferas conferências de imprensa, as entrevistas "de choque" do sr. Scolari, as revistas cor-de-rosa discutindo se o jogador A está separado ou não usa aliança, etc, etc. Valha-nos o Mundial propriamente dito, porque ouvia-se falar de tudo menos de futebol.
Por isso mesmo, no Sábado estarei em Frankfurt a apoiar a Selecção nacional. Será também uma óptima forma de apanhar bom tempo e escapar ao temporal desfeito que se tem abatido sobre Portugal. E de ver uma coisa destas ao vivo, que já estava curioso. Vamos lá então ver como se portam as Quinas perante a armada persa.

segunda-feira, junho 12, 2006



Todo o que mata pela espada, pela espada morrerá.

Em geral, quando morre uma pessoa, são prestadas as respectivas condolências, mesmo que não tivesse sido o mais encantador dos seres. Abro porém uma breve excepção para Abu al-Zarqawi. Um assassino fanático, dissimulado, sem a menor piedade pela espécie humana, só podia acabar desta forma, mais cedo ou mais tarde. O terrorista número um do Iraque, autêntico mestre do disfarce, está morto, e, espera-se, enterrado. Mas não se aguardam abrandamentos imediatos no ferro e no fogo em que a Bagdad está envolta. Cortou-se uma cabeça à Hidra, mas sobraram muitas mais.

sábado, junho 10, 2006

Chuvada

Depois de um tempo seco e a atingir os limites caniculares, desabou hoje dos céus de Coimbra uma imensa queda de água. Só agora que voltei ao Porto é que me apercebi, pelas notícias, da autêntica borrasca que se abateu sobre a Lusa Atenas, enquanto o resto do país se contentava com uns pingos. Houve ruas inundadas e torrentes pela Alta abaixo - passe o paradoxo.
Vi a chuva, mas ignorava completamente os seus efeitos, e ainda mais que apenas se tivessem produzido somente em Coimbra. É que escapei por segundos de pura sorte ao temporal, e diverti-me a observá-lo do pátio da faculdade de Direito, enquanto as caleiras quase rebentavam com a água e os Gerais se iam enchendo de largas poças. O momento mais refrescante e contemplativo da semana. No Verão ou nas suas proximidades sabe bem ver a chuva a apaziguar os espíritos. Não há melhor lavagem de alma do que uma boa chuvada.

E poucas horas depois, sob o sol do fim de tarde, o Quebra-Costas, que antes tinha sido uma cascata, não revelava traço de água.

quarta-feira, junho 07, 2006

Périplo



Vi o novo programa de Miguel Portas, "Périplo - Histórias do Mediterrâneo". Sabia que era um projecto na forja há já algum tempo. Lembrava-me do "Mar das Índias", do mesmo autor, e tinha fortes expectativas. O programa não me desiludiu, como já esperava; achei-o bem estruturado, e os saltos súbitos na geografia acabam por se interligar sem grandes quebras. Revi a porta da Babilónia, inscrustada no museu Pérgamo, de Berlim ( na localização original está uma réplica, mandada erigir por Saddam), com os seus leões de guarda. Ponto de partida para uma viagem entre a antiga Mesopotâmia, o Egipto, o Líbano dos fenícios e a Tunísia dos cartagineses e romanos.
Depois deste começo auspicioso, fico à espera dos próximos episódios. E só tenho pena que Miguel Portas não abandone a actividade política e se dedique exclusivamente a este tipo de trabalhos, para os quais tem um notório talento.

segunda-feira, junho 05, 2006

Liberdade absoluta? Ou absolutíssima?

Uma inocente pergunta a todos os que acham que a liberdade de expressão não pode ter quaisquer limites, em ocasião alguma, sejam mais ou menos liberais: concordam com a criação de um movimento que defenda a pedofilia livre (além da zoofilia), como o que surgiu agora nos Países Baixos? Não têm nada a opôr? Ou afinal sempre há limites à livre expressão que se justificam perante casos de força maior?

sábado, junho 03, 2006

Saffron Burrows

Parece que na blogoesfera lusa alguém se lembrou finalmente da longilínea Saffron Burrows. Acto louvável, sem dúvida, se bem que a chamada de atenção não tenha partido de uma fonte inesperada. Mas acho que a ilustração não faz justiça à actriz, pelo que achei por bem mostrá-la de outra forma, ainda que menos sorridente. Pena é que em nenhum motor de busca tenha conseguido encontrar uma fotografia decente de Burrows como a lendária Andrómaca (no filme Troy), mulher do troiano Heitor.


segunda-feira, maio 29, 2006

Montenegro



Nunca cheguei a ir ao Montenegro. E contudo tive essa oportunidade, há alguns anos, quando se organizou em Budva a convenção bi-anual de uma associação de estudantes europeus de que fazia parte. Só que precisamente na mesma altura marcaram o meu último exame do meu curso, e optei por concluí-lo em lugar de me deslocar aos Adriático. Não mais tive ocasião de lá ir, fazendo o percurso que idealizara na altura: a rota Veneza-Budva, sempre por terra.

Há dias os montenegrinos escolheram em referendo a independência, por escassos 55,4% de votos, quando a percentagem mínima era de 55%. É pouco provável que não haja algum ranger de dentes e má vontade, com a quantidade de pessoas a viver no mesmo território que votou pela continuidade. Mas tratou-se de um acto pacífico, como pacíficas (e algo conformistas) foram as reacções do lado sérvio. Não se verificaram os mesmos horrores como quando a Croácia ou a Bósnia declararam a sua secessão, talvez porque o processo estava controlado, os sérvios não estão virados para guerras e têm mais afinidades com os montenegrinos, ou porque este território esteve à margem da violenta guerra dos anos noventa.

A decisão é soberana, e o Montenegro será a próxima nação independente da Europa. No fundo, é um retorno à realidade existente até 1918. Os montenegrinos têm, como disse atrás, fortes ligações aos sérvios, pela língua, pela religião - são ambos ortodoxos - e etnicamente. O que não quer dizer que sejam rigorosamente a mesma coisa, como o não são portugueses e galegos. A sua história está longe de ser comum. Enquanto os sérvios viveram totalmente subjugados pelo império Otomano, o Montenegro conseguiu sempre manter alguma autonomia, desde que em 1516 o Príncipe Jorge V retirou-se para Veneza e renunciou aos seus poderes de soberano a favor do Metropolita montenegrino. Os bispos escolhiam o seu sucessor na própria família (Petrovic), até ao Séc. XIX, altura em que se tornaram príncipes e puderam contrair matrimónio. Seguiu-se a total independência dos otomanos, juntamente com a Bulgária, em 1878, e a tranformação do principado em Reino, em 1910. Que não durou muito, já que depois da 1ª Guerra Mundial, num processo apressado e enviesado, o Montenegro, até aí um pequeno estado de pastores, uniu-se ao Reino dos Sérvios, Croatas, e Eslovenos. A capital mudou-se da histórica Cetinje, à sombra do monte Locven, para a incaracterística Podgorica. Permaneceu ligado à Sérvia depois da desintegração da Jugoslávia. Até agora.

Os problemas que advêm desta independência anunciada prendem-se mais com o Kosovo do que com a Voivodina. Como se sabe, o primeiro é uma parte da Sérvia habitado esmagadoramente por albaneses. A solução podia ser a divisão do território entre os dois povos, hipótese já rejeitada pelos kosovares, que apenas aceitam criar um segunda Albânia (ou quem sabe, constituir uma Grande Albânia). Parece-me que a divisão seria a mais ajustada, mas é também a mais improvável. E o pior é que os direitos dos sérvios têm sido tudo menos acautelados. Para evitar novos ressentimentos e novas escaladas de violência, seria bom que se deixasse de ver Belgrado como a má da fita em todas as questões balcânicas.

Quanto ao Montenegro, é um país de uma beleza estarrecedora, e se tudo correr bem, terá um belo futuro à sua frente. Façamos figas.

domingo, maio 28, 2006

O regresso anunciado


Tanto diziam que ele voltava que voltou mesmo, justificando assim o velho provérbio da "Água mole em pedra dura..."
Que seja bem vindo. Homens como ele fazem sempre falta no glorioso. E se não tivermos arranjado um número dez disponível para todo o jogo, não haja dúvida que o balneário tem agora mais alguma Alma. Uma Alma que faz passes de morte para golo.

quinta-feira, maio 25, 2006

Punk Cabaret Show

Há coisa de uns dois anos encontrei nas prateleiras da FNAC uns discos com um estranho par na capa, com a cara pintada de branco, à Mimo, e uns trajes de época. Pelo nome do duo pensei logo que fossem alemães. Ouvi um pouco da música deles, que me soou entre a pop infantil, rock inclassificável e teatralidade de cabaret. Estranheza e um pouco de enlevo foram as sensações do momento. Ao contrário do que pensava, não eram alemães, mas americanos, de Boston.

E só desse lado do Atlântico, a uns bons quilómetros a Oeste de Boston, nas margens geladas do Michigan, é que adquiri enfim o disco homónimo dos Dresden Dolls. Fi-lo não só porque até aí ainda andava desconfiado da sua música mas também porque o preço era substancialmente menor, o que diminuía o risco da compra. Só algum tempo depois do regresso à pátria é que me dispus a ouvir o resultado do "brechtian punk cabaret" de Amanda Palmer e Brian Viglione. Uma música que não é para qualquer altura, mas que ouvida com a disposição e o despreendimento necessários tem laivos de incandescência e estupefaciência. Ao vivo deviam ser um espectáculo digno de nota, se algum dia me cruzasse com eles.


Pois assim sucedeu. O duo passou por Portugal, on tour, para promover o segundo trabalho, que ainda não tinha ouvido. Mais precisamente em Famalicão. A escolha do local pode soar estranha, mas faz todo o sentido. A pequena cidade industrial, da qual só me lembrava da câmara municipal com uma espécie de campanário de granito e de uma rotunda com a estátua de Bernardino Machado, cresceu a olhos vistos, e não apenas em edifícios. Uma zona que há trinta anos era uma miséria cultural tem agora a famosa Casa das Artes, um edifício amplo e de linhas sóbrias, no meio de um parque, com um cartaz de espectáculos respeitável (e tem também algumas editoras, não esquecer). Os Dolls actuavam no âmbito do aniversário da Casa, e diga-se que foi uma escolha acertada. Depois da primeira parte ser preenchida com Thomas Truax, a sua guitarra e o seu Hornicator, e que provocou momentos hilariantes, com o músico a atravessar as coxias e a surpreender alguns espectadores que entravam na sala, o duo surgiu enfim. Não defraudaram o as esperanças, embora tivessem menos maquilhagem do que o costume. conservando no entanto as muito emblemáticas meias de riscas horizontais. Passaram o seu repertório quase todo, dos dois álbuns, como a mais conhecida Coin Operated Boy, mostrando a teatralidade do costume e a voz invulgar, com tons loucamente variáveis, de Palmer. Ainda houve tempo para alguns semi-diálogos entre eles e com o público, e para uma canção de Jaques Brel, no francês original, por escolha democrática.

Depois de inúmeros agradecimentos e de recomendações ao restaurante ao lado do auditório, abriram garrafas de vinho, serviram um bolo e posaram para fotografias, sem esquecer os costumeiros autógrafos. Um espectáculo de semi-cabaret terminado com o encontro entre os artistas e os seus fãs. E Miss Palmer esteve inexcedível a responder a perguntas sobre a banda e as suas inspirações, como as que me lembrei de lhe perguntar apesar do seu ar cansado mas próprio de missão cumprida.

terça-feira, maio 23, 2006

O Engenheiro Técnico
Fernando Santos não seria a minha primeira escolha para treinador. Esperava alguém mais motivador, sem o ar algo cinzento do engenheiro. Camacho, por exemplo, embora tacticamente inferior, ganha-lhe por KO na arte de entusiasmar os pupilos e na vontade de vencer. Mas o espanhol vai voltar ao Real Madrid como director, e outras opções, como Eriksson ou Scolari, seriam demasiado dispendiosas. Zaccheroni era uma incógnita. Podiam talvez pensar no factor surpresa, alguém como Michael Laudrup. Assim como assim, sempre é preferível a Carlos Queirós - que há dois anos, salvo erro no Aviz, ficou à frente de Santos como "pior treinador do ano".
O engenheiro tem no entanto algum currículo (além da curiosa experiência de , e nas duas últimas épocas conseguiu o milagre de deixar a equipa do AEK de Atenas, um clube à beira da falência e que viu os melhores jogadores rescindir contrato por salários em atraso, em segundo lugar no campeonato grego. É, sabe-se há muito, benfiquista assumido. E quem pode dizer se não será esta característica a dar-lhe outra energia e vontade de vencer? Vamos confiar.

PS: quanto ao tão falado regresso de Rui Costa, só acredito quando o vir na sala de imprensa da Luz, de cachecol, com a águia Vitória nas mãos e os adeptos em festa. Sabe-se lá depois de se desvincular do Milan ele não pretende ficar mais uns temos na Toscana...

PS2: faz um hoje ano que voltámos a ser campeões. Um ano, já, desde aquela inolvidável noite no Bessa. Que muitas assim se repitam, de preferência sem a dose de nervosismo que durou até ao minuto 89.

domingo, maio 21, 2006

O toque dos extremos

Centos de vezes têm sido exploradas situações em que, por puro oportunismo ou causa comum, os extremos se tocam. Ainda esta semana pudemos ver apoiantes de extrema-esquerda e de extrema-direita lado a lado, a pugnar ruidosamente contra a reabertura da praça de touros do Campo Pequeno.
Por razões menos voluntárias, é interessante verificar nas semelhanças físicas entre alguns seres que se odeiam, ou que odeiam o que o outro representa. Desde há algum tempo que tinha achado que Richard Butler, o líder histórico da organização americana neonazi Aryan Nation, e que, soube agora, morreu há já ano e meio, tinha algumas parecenças físicas com um qualquer estadista. Não demorei muito a perceber que era o comatoso ex-primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon. Não sei se este sabia da existência daquele, mas tendo em conta os inimigos do país e a eficiência da Mossad, parece-me improvável que o desconhecesse. É fácil de imaginar o adivinhada frustração e raiva do "cristão ariano", ao comparar a sua cara com a do chefe do governo do seu detestado "estado sionista" e dos "impuros judeus". Quanto a Sharon, também deve ter tido frémitos de horror e fúria, certamente prejudiciais à sua instável saúde, ao perceber as semelhanças físicas com o neonazi. Mas elas existem, e são notórias, até pela proximidade de idades entre os dois homens, tão diferentes nas suas ideias, a ponto de se odiarem, e tão parecidos no que mais salta à vista: a face.
Teria a sua ironia escrever aqui "separados à nascença", mas fico-me pelas evidências fotográficas.







Tirando as rugas de Butler, as semelhanças são evidentes.






quinta-feira, maio 18, 2006

Vae Victis

O Arsenal, equipa não favorita para a vitória na final da Liga dos Campeões, acabou por ser cruelmente vencida em cinco impensáveis minutos pelos adversários blaugranas. A Taça seguiu assim para Barcelona, onde ao que parece, houve estranhas comemorações, com montras partidas e objectos a arder.
Mas nem por isso o mérito lhes deve ser negado. Uma equipa que, reduzida a dez desde os vinte minutos, consegue contrariar os negros vaticínios durante quase uma hora, e que só pecou por não ter aumentado o marcador quando teve a(s) oportunidade(s), merece todos os elogios. Não ganharam? É-me irrelevante. Hoje estou com os vencidos, culpo o árbitro e defendo a razão de ser das vitórias morais. Se não levaram a Taça, mereciam levá-la. Parabéns aos "Gunners" e à sua fantástica equipa. Continuam a ser, para mim, o maior clube que jamais conseguiu ganhar o troféu dos Campeões Europeus.

Ainda mais para o interior

Depois de Moncorvo, segue-se uma zona de planalto, onde assentam povoações como Carviçais, célebre pelo seu festival de Verão e pela restaurante "O Artur", mesmo ao lado da estrada, especialista em posta Mirandesa. A extinta linha do sabor passa rente à estrada; as estações e apeadeiros, agora abandonados, mantêm-se no lugar, quais marcos de numeração. A de Freixo de Espada à Cinta, a 15 kilómetros da vila, lá continua. E é logo depois que em lugar de prosseguir para Lagoaça, se faz um desvio à direita. A estrada está em obras. Passa-se por montes cobertos de urze, vêem-se ao longe as arribas do Douro, de onde sobressai o Penedo Durão. Dizem que é um promontório notável sobre o rio e a região selvagem que o envolve. Mas antes disso surge Freixo, sobre uma colina.


Freixo de Espada à Cinta ( há variadas histórias sobre a origem do nome ), no extremo sul do distrito de Bragança - que é o mesmo que dizer no mais recôndito e desconhecido canto do país - é tida como a vila mais Manuelina de Portugal. Por razões de vária ordem, as casas com aspectos do dito estilo arquitectónico abundam nas ruas mais vetustas, sobretudo nas janelas. A Igreja é um sólido monumento manuelino, com um belo portal e painéis no interior de autoria do maior pintor português do Séc. XVI: Grão Vasco.


O campanário está um pouco acima, separado do templo, tal como acontece em muitas igrejas de Itália. Na realidade, a Torre do Galo, mais do que sineira, era uma das cinco que existia no antigo castelo, e a sua única componente que chegou intacta aos nossos dias. Elegante, de forma octogonal, é o verdadeiro ex libris da vila. A vista lá do alto é espantosa: divisa-se toda a povoação, os montes em redor; adivinha-se a garganta por onde passa o Douro, e, do outro lado, a província de Salamanca, em cuja universidade estudaram muitos freixenistas - ou freixenses, como diria o seu deputado de círculo, Conde d ´Abranhos.

Quem olhar para a parte inferior da foto de cima distinguirá uma estátua a meio da praça. Como é sabido, Trás-os-Montes é terra de navegadores, e Freixo não foge à regra. Trata-se de Jorge Álvares, comerciante, explorador, e primeiro português a chegar ao sul da China, em cujos braços morreu S. Francisco Xavier, no fim da sua peregrinação.
Mas o outros ilustres vultos da nação nasceram nesta região agreste. O mais conhecido de todos é sem dúvida Guerra Junqueiro, poeta e escritor, um dos Vencidos da Vida e da Geração de Setenta. Filho de abastados lavradores, nasceu na vila, realizou os estudos em Bragança e Coimbra, viveu no Porto e Lisboa, e regressou mais tarde às suas terras do Douro, antes de ser nomeado para cargos políticos de relevo. A ele se deve, apesar de republicano feroz, o facto da nossa bandeira nacional não ter ficado ainda pior do que é hoje, mais concretamente sem as quinas e com um barrete frígio.

Foto, algo torta, da casa onde nasceu Guerra Junqueiro.

O resto da vila é algo incaracterístico. Perto há a freguesia de Mazouco, onde se vê uma nítida pintura rupestre, o Cavalinho de Mazouco, já perto do rio. A melhor estrada, quase a única, que estabelece contacto com a sede do concelho, é a que regressa ao cruzamento para Lagoaça. Para cima, ainda são umas dezenas de Quilómetros pelo planalto mirandês. O melhor é mesmo regressar a Moncorvo e apanhar o IP-2, em direcção a Mirandela

terça-feira, maio 16, 2006

Imagens do interior

O interior está envelhecido e perde gente a cada dia que passa. Mas nem por isso perde o encanto. Ou talvez seja por isso mesmo. Eis aqui a sede de um concelho referido no post anterior.

Torre de Moncorvo, Abril de 2006

A torre que dava nome à vila já não existe: ficava no local de onde se tirou esta fotografia, juntamente com um pano de muralha. Foi derrubada na segunda metade do Séc. XIX, para no seu lugar se construír a câmara municipal, e outros edifícios administrativos, com a justificação, perante os protestos populares, de que o "progresso" assim o exigia. Ficou a vista para a praça central da vila e para a imponente igreja seiscentista, de influência castelhana, a dois passos, rodeada de casas brasonadas ou de época.
As maternidades, a "falta de meios" e o interior

Toda esta história do fecho das maternidades faz-me algumas vertigens. Se por um lado, ouvindo as várias opiniões de técnicos conceituados e de relatórios credíveis, a resolução de fechar várias maternidades tem razão de ser, já as atabalhoadas explicações do ministro da Saúde em alguns casos concretos, como o de Lamego, não convencem.

A falta de obstetras é um problema? Sem dúvida. Mas não é certamente irresolúvel. Não será certamente impossível contratar alguns profissionais e colocá-los nos hospitais que deles precisem. Provavelmente não haverá muitos, por causa da falta de vagas e das médias altíssimas que impediram a formação de médicos durante tantos anos, lacuna que podemos agradecer a tantos lobbies de medicina mais preocupados com a concorrência que com o futuro do país.

Só mesmo a falta de condições poderá explicar que se feche a maternidade de Barcelos, um concelho jovem e populoso. E casos como este, o de Santo Tirso, ou de Oliveria de Azemeis, nem são particularmente graves: com tantas ligações viárias, e a proximidade de grandes centros urbanos, a dificuldade será em decidir se querem ir ao Porto, a Braga ou a Esposende ( no caso dos "jesuítas" nem faz muita falta: posso dar como exemplo o meu pai, que nasceu em Santo Tirso, numa casa, e não teve qualquer problema, ou ainda de várias pessoas, na casa dos vinte, nascidas sob as mesmas condições).
O problema dá-se com localidades como Lamego, Elvas ou Mirandela. Se as condições para as populações no interior não são de si fáceis, com estas decisões ainda pioram. Não tanto pelas cidades em si, mas por outros concelhos da mesma região. Será fácil para alguém de Penedono ir para Vila Real em trabalho de parto? Ou de Monforte? Ou De Torre de Moncorvo, em direcção a Bragança?
É por isso que quando ouço opinion makers, como o director do JN, afirmar que "não é possível para todos ter o hospital, o correio e a escola à mão de semear", imagino qual seria a opinião se em lugar de Lisboa, Porto, u qualquer média cidade litoral, vivessem num concelho envelhecido e com parcos acessos no interior. O discurso da descentralização é muito bonito, mas só tem alguma utilidade prática se o pusermos ao serviço de quem dela realmente necessita. De outro modo torna-se num simples artifício de retórica para vitimizações de quem não tem moral para as encenar.
A questão é sempre a mesma: o interior continua a desertificar-se e a perder importância, e o governo não tem ajudado a inverter a situação, excepto nalguns casos pontuais, como a do anúncio da reabertura das minas de Aljustrel. É certo que nem só ao Estado cabe promover o necessário equilíbrio territorial: os cidadãos têm também uma palavra a dizer, se bem que alguns só compliquem, como os rapazes de extrema-direita que como passatempo de Sábado se lembraram de ir protestar contra os emigrantes de Vila de Rei. Mas não ficaria mal ao poder executivo promover algumas condições para a fixação de meios e pessoas no interior, coisa que manifestamente não fz. Basta comparar as tabelas mostrando as diferenças de população em 1960 e agora. População essa que foge para "paraísos urbanos" como o Cacém, Ermesinde ou a Amora.
Se pudesse responder áquela enfermeira de Lamego que perguntou se acaso eram eles portugueses de segunda, responder-lhe-ia, sem hesitar, que sim: são portugueses de segunda, terceira, ou mesmo sem classificação.

sexta-feira, maio 12, 2006

As grandes preocupações ecológicas de Monteiro de Barros

O negócio da mega refinaria de Sines, a ser concretizado entre o governo e Patrick Monteiro de Barros, já não vai ter seguimento, pelo menos nos moldes em que fora acordado. Justificações? O dito projecto de transformação de petróleo teria emissões de co2 muito mais elevadas do que o inicialmente previsto (mais do dobro). Para efeitos do protocolo de Quioto, seria uma falta considerável. Monteiro de Barros não perdeu tempo a lançar críticas ao Secretário de Estado do Ambiente, por causa dos "deveres de confidencialidade das negociações".
Só que o mesmíssimo Patrick é o promotor da ideia de construír uma central nuclear em Portugal. Para tanto, alega razões ecológicas e as necessidades de cumprir as metas de Quioto. A hipotética central teria de ficar próxima de um rio, ao que parece, e fora da área sísmica. E que rio seria esse? O Douro. Só não explica se seria no Douro vinhateiro, Património da Humanidade, ou no Parque Natural do Douro Internacional. Ou nos arredores do Porto. Talvez porque o sr. Patrick não mora para esses lados. E não deixa de ser estranho que um homem que demonstra tais preocupações ecológicas não se importe minimamente de pôr em risco um dos maiores patrimónios naturais (e humanos) do território português, nem use o mesmo critério da emissão de gases no caso da refinaria de Sines. Ao que parece, as preocupações fora do âmbito das suas negociatas são perfeitamente ultrapassáveis - ou mesmo fictícias. Quem não conhecer estes actos de mercearia que feche o negócio.

quinta-feira, maio 11, 2006

D. António Ferreira Gomes 1906 - 2006

O antigo Bispo do Porto, que pagou com o exílio de dez anos a sua coragem e a o seu sentido de justiça, nasceu há cem anos.
A sua vida está a ser homenageada, entre outros eventos, pela Seiva Trupe, no espectáculo "António, Bispo do Porto"; no papel do prelado (e quase irreconhecível) está Alexandre Falcão, em tempos meu professor de expressão dramática. É de ir ver. Até 12 de julho, no Teatro do Campo Alegre.
O adeus de Koeman

Ronald Koeman deixou de ser o treinador do Benfica. Mudou-se para Eindhoven, para dirigir o PSV, onde em tempos venceu uma Taça dos Campeões precisamente contra o SLB, numa fatídica disputa de grandes penalidades. Não sei se ganharemos ou não com a sua saída (além de uns milhares de Euros da Philips). No campeonato tivemos períodos de incompreensível depressão, logo no início, depois entre Outubro e Novembro (fruto também de uma maré de lesões) , até ao penoso fim de época. Na Taça aconteceu o que se viu, embora aí os nossos algozes tenham sido duramente castigados. Só na Liga dos Campeões é que a folha de serviços do holandês se manteve imaculada.
Talvez a sua partida fosse inevitável. Não sei se teria grande capacidade de galvanização da equipa, e os seus erros tácticos eram facilmente perceptíveis, como o de pôr Beto em tarefas flanqueadoras. Como se diz por aí, corria o risco de se tornar o nosso Peseiro. Ainda assim, prevejo-lhe bons momentos no clube dos electrodomésticos. Que tenha sucesso, lá. Não serei eu a esquecer os momentos de glória que nos proporcionou, em especial a grandiosa noite de Liverpool.

segunda-feira, maio 08, 2006

Erros fatais

O Inimigo Público (suplemento satírico de Sexta-feira do jornal Público) perdeu duas oportunidades de fazer bom humor, ou então, de "estar calado", conforme os pontos de vista. Ao colocar John Galbraight como "economista do liberalismo económico" (coisa que manifestamente não era) e, numa piada a O Jogo, Francisco Sousa Tavares entre os portistas ferrenhos (e não o filho Miguel), não só induziu os leigos na matéria em erro como falhou claramente os alvos. Ser rigoroso não se presta apenas aos negócios, ao Direito ou à geo-estratégia: aplica-se também em assuntos mais sérios, em especial o humor.
Acabou o campeonato

O campeonato acabou da pior forma para o Benfica. Jogadores fora da sua posição normal, outros sem ritmo, outros às aranhas, num vendaval de erros e de azelhice, o que permitiu ao Paços de Ferreira safar-se categoricamente. Suspiram de alívio também a briosa e a Naval. Os vilacondenses, já se sabe, desceram sem apelo nem agravo. Assim como os vimaranenses, numa descida do pano trágica mas esperada, depois de cinquenta anos na divisão maior. Mais dramática ainda, a descida do Belenenses, vítimas maiores da redução da liga para dezasseis equipas. José Couceiro não é, definitivamente, um homem para os momentos finais.

Para a próxima época pede-se um médio pensador/construtor de jogo, um ponta-de-lança corpulento para fazer dupla com Nuno Gomes e que Moretto não seja titular. Também já fui mais adepto da continuidade de Koeman. José Veiga é que podia ir arrumando a secretária.

terça-feira, maio 02, 2006

Blogs urbanos

Em tempos já aqui escrevi sobre alguns "blogues urbanos", que tratavam de questões sobre Porto e Lisboa, nos seus mais variados aspectos. Chamo agora a atenção para outro: o magnífico Cidade Surpreendente. Não só tem fotografias fabulosas do Porto, como nunca vi, pela luz, pela oportunidade do momento, pelo enquadramento, como ainda nos revela a sua Outra Face, imagens de decrepitude, desleixo, solidão, tudo na mesma cidade. O constraste entre os dois blogs de Carlos Romão é avassalador. De comum só mesmo o cinzento granítico.
Outro blog, de cujo fim (há seis meses) só agora me dei conta, era o (No) Bairro do Aleixo. Histórias na vida daquele conjunto de torres degradadas, ora singelas, ora pungentes, por vezes reais, outras produto da imaginação. Uma forma de atenuar as misérias urbanas que o maior ghetto de Lordelo do Ouro exibe.

Mas como há mais cidades no país, vale pena destacar este blogue da cidade-berço: 4800Guimarães. Os seus autores (todos de apelido Guimarães) dissertam sobre a condição vimaranense, a "vimaranensidade", o desejo imenso de ver a ver transformada numa urbe cosmopolita (bem expresso em posts com o título Guimarães 4 800 000), as falsas lendas, o Vitória e os costumes locais. Absolutamente aconselháveis são os projectos para levar o mar à cidade, as diversas "cartilhas 4800" (tantas quantas as letras do alfabeto), os ditadores de passagem ou descrições do tunning vimaranense, Mas porque é que não há um 2460 Alcobaça, um 5100 Lamego, um 6400 Pinhel ou um 7350 Elvas?

PS: o Desejo Casar voltou à actividade. Não é um blog especificamente urbano, mas é daqueles que vale a pena acompanhar diariamente. Sigamo-lo, pois.

sexta-feira, abril 28, 2006

Velhos hábitos

Por vezes temos uma necessidade premente de regressar a alguns velhos hábitos. Pode ser por qualquer causa inexplicável, ou por qualquer motivo facilmente compreensível. Essa segunda hipótese preencheu os requisitos que me levaram à prática de um acto esquecido: fui ao cinema, num Domingo à tarde, sozinho, a uma sessão que durava mais de três horas. Só é pena (até por causa da duração completamente proibitiva nos tempos que correm) que não houvesse intervalo e tempo para um café. Mas já não há Nun Álvares como antigamente, e o espaço não tinha a nobreza de antanho.

O filme que me levou a esconder-me de uma tarde de sol para ficar frente a frente à tela? Uma coisa antiga, que resolveram repôr, chamada Il Gatopardo, ou em português, o Leopardo. Como ainda não o tinha visto, resolvi pôr a cinefilia em dia. Merece as suas quatro ou cinco estrelas, claro está.

domingo, abril 23, 2006

O seu a seu dono

Para demonstrar o meu fair-play e para não dizerem que não sei reconhecer o mérito alheio, dou os parabéns ao FC Porto pela conquista do campeonato que agora termina, por ter sido a equipa mais regular, com a melhor defesa e o melhor ataque, mesmo que sem grande rasgo. Isto apesar de o ter conseguido num jogo ganho com um penalti duvidoso e com uma invasão de campo feita pelos meliantes do costume.

Ainda assim, repito, parabéns pelo título deste ano.


quinta-feira, abril 20, 2006

O que retive destes dias de Páscoa

- Dez anos depois, o Benfica voltou a ganhar em casa do Boavista. Por azar das datas, não estava no Porto, e não pude ir ver o Glorioso ao Bessa, como faço habitualmente. Ainda me lembro da última vitória antes do interregno, há dez anos: apertado entre os No Name Boys e os Diabos Vermelhos, pude ver uma exibição fabulosa de João Vieira Pinto (agora na equipa adversária), que à sua conta marcou dois golos, num grande jogo, com um público esfuziante, em bancadas sem cadeiras e sem cobertura. Parece que este ano se viu um desafio mal disputado, com muitos erros arbitrais para os dois lados, e pouco público entre frias e modernas bancadas. Salvou-se a vitória e os três pontos.

- a vergonhosa ausência dos deputados, que não permitiu inclusivé a votação de umas quantas propostas, é exactamente isso: uma vergonha, por muito que Vasco Pulido Valente o negue. Sabendo-se que a popularidade dos componentes do orgão legislativo já anda pela hora da morte, é de perguntar o que é que estes indivíduos terão na cabeça, e se não perceberão a triste figura dada por aqueles que deveriam ser os mais resposnáveis dos cidadãos.

- Recomendo a todos uma incursão por terras de Moncorvo e de Freixo de Espada- à -Cinta, que ainda não conhecia. O ideal seria fazer o percurso da extinta linha do Sabor, até ao planalto mirandês. Se a questão fôr conhecer os percursos ferroviários transmontanos, aconselho as linhas do Corgo e do Tua, antes que também essas fechem. Fiquei mas é com uma vontade imensa de conhecer a Terra Quente, com menos pressa e mais detalhe. Um percurso a repetir e a prolongar.

Memória de um dia negro

Quem acha que a literatura infanto-juvenil não ensina nada engana-se redondamente. A colecção Uma Aventura, da autoria de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, marcou a minha geração como Os Cinco (que também li) tinham marcado a anterior. E ao que parece, continua a marcar pontos, com novas histórias constantemente a saír e até uma série na televisão. As mesmas autoras criraram igualmente as Viagens no Tempo, em que um cientista, acompanhado por um casal de jovens irmãos, viajava para o passado numa máquina do tempo. No fim das referidas aventuras havia sempre numerosos dados e aspectos relativos à época da acção do livro. Tomei por aí conhecimento de um conjunto de factos da história portuguesa, alguns pouco divulgados nos bancos das escolas.
Só por aí é que conhecia o massacre dos cristãos-novos em Lisboa, faz hoje 500 anos. Um acontecimentos trágico, na senda da expulsão dos judeus e muçulmanos e da sua conversão forçada ao cristinaismo, em tempos de fome e peste. Algo permitido pela tibieza e afastamento de um D. Manuel I que não se coibiu depois de punir os autores da matança, mas cujos efeitos prosseguiriram com a criação da Inquisição, no reinado seguinte. Tudo isto lembrado pela Rua da Judiaria, na sua busca da memória, e secundado por muitos mais. Não moro em Lisboa nem tenho grande disponibilidade para manifestações a relembrar o nosso pequeno holocausto, mas tentarei ao máximo não esquecer, sobretudo hoje, que também na nossa terra de brandos costumes o ódio e a intolerância provocaram vítimas indiscriminadas. E que só a memória pode evitar que irracionalidades semelhantes se repitam.

quarta-feira, abril 12, 2006

Depois do fim da Quaresma, prometo colocar uns posts sobre o defunto CPE francÊs e outras considerações internacionais. Abrir-se-à também um novo capítulo dedicado a viagens, uma vez que o clima está a melhorar consideravelmente.

Até lá, não se desiludam com Basic Instinct II (já ficam avisados contra expectativas excessivas), tenham atenção relativamente a V de Vendetta ( e sobretudo a Natalie Portman, mas a chamada também é desnecessário) e aproveitem o sol de Abril. Cumprindo estritamente a Quaresma, claro. Bom, estritamente, estritamente, é complicado para o comum dos mortais, mesmo os que sofrem de fé cristã. Talvez seja bom relembrar que comer peixe à Sexta-Feira é a menor - e a mais fútil - regra da época.

Uma boa Páscoa para todos.

segunda-feira, abril 10, 2006

Desmemoriação vermelha

Nos cartazes e panfletos do PCP pode-se ler "Nem Bolonha, nem propinas", ou "Não a Bolonha". Que estranha ironia das coisas. É que Bolonha era precisamente conhecida como "La Rossa", por causa da enorme força que o maior partido comunista da Europa ocidental aí tinha. E mesmo agora, é uma cidade que continua com uma ampla tendência para votar à esquerda. Que extrema ingratidão, a do nosso PC. Ou serão talvez os sinais dos tempos.



PS: ao que parece, Berlusconi terá mesmo perdido as eleições. É um autêntico alívio ver o fim de um dos mais patéticos governos europeus, com os seus aliados separatistas e de ideias duvidosas. Vamos ver agora como se governará Prodi com a sua coligação-amálgama de democratas-cristãos, socialistas, republicanos, radicais, verdes, comunistas e tutti quanti.

domingo, abril 09, 2006

O dia em que o Acidental completa dois anos é também o da sua despedida. É o fim de um blogue de referência, mas a aventura parece ter continuação com a nova Atlântico. Com as leituras do costume, espera-se.
Igualmente fechado está o excelente Aforismos e Afins. Se a blogoesfera não acabou, como previam os Acidentais, está em reestruturação profunda. Mas como já provaram alguns suspeitos do costume, nesta área os criminosos voltam sempre ao local do crime, ou pelo menos ao teclado.

quarta-feira, abril 05, 2006

Nervos

O nervoso miudinho já percorre o corpo. Daqui a pouco vai dar-se o grande confronto entre o SLBenfica e a filial catalã do FC Basel suíço (vulgo "Barça"). Depois de um trepidante 0-0 na Catedral, pedem-se golos (nas redes culés, pois claro) e nova jornada gloriosa. Se não puder ser, alguma paciência forçada. Não percebo é a aparente tranquilidade de alguns boletins do clube de Barcelona camuflados em jornais desportivos da cidade condal. É que os blogues dedicados ao clube parecem-me bem menos temerários.

Força, Grande Benfica


domingo, abril 02, 2006

Sequela

É sabido que a actual indústria cinematográfica atribui a qualquer êxito a respectiva sequela (como se verá com o novo filme de Mrs Sharon Stone). Mesmo nos casos mais improváveis. Assim, depois de surpreender na bilheteira e entre a crítica (e de desiludir nos óscares), o famoso Western que revolucionou o gênero terá direito a uma continuidade paralela, segundo informação transmitida pelo Amor e Ócio


Ah, se estivéssemos noutro dia...

sexta-feira, março 31, 2006

Semana Ivory


A Condessa Russa, primeiro. O "velhinho" A Room With a View, depois. A minha "semana James Ivory", entre fleuma, elegância britânica e charme decadente decorre com sucesso.

segunda-feira, março 27, 2006

O estado do Douro e o regresso de Martins da "Cunha"

Convido-os a ler dois artigos. O primeiro é de António Barreto, veio no Público do último Domingo, e é uma visão interessante sobre o estado do Douro, região da qual deve ter um conhecimento razoável, pelos vários anos que viveu em Vila Real. Tendo em conta o habitual cepticismo ( ou mesmo pessimismo, ainda que construtivo) do autor, são certamente notícias auspiciosas. Há no entanto manchas no desenvolvimento do Douro, exemplificadas na morte lenta do caminho de ferro. Como o texto do artigo não está linkável, deixo-lhes um pequeno trecho:

"Esta semana, o Governo e a CP anunciaram o fecho de três linhas de caminho-de-ferro do Douro (Corgo, Tua e Tâmega), assim como a redução drástica da Linha do douro, do Porto à Régua. Na preparação de uma eutanásia, as primeiras três já vinham a ser asfixiadas há vários anos. A última está nesta mesma situação e acabará morta dentro de pouco tempo. O que se passa com as linhas de comboio já nem sequer é um escândalo. É pura estupidez (...) condená-la, primeiro, fechá-la, depois, é um acto de ingorância e vandalismo. É simplesmente o interesse indiscutível de utilização de um recurso e de uma fonte de riqueza únicos."

Impossível deixar de concordar com Barreto. Se este crime de lesa-património for verdade, a prazo as tradicionais fotografias sobre o rio serão tiradas de vias férreas cobertas de tojo e silvas.


Clara Ferreira Alves, em quem há pouco tempo aqui zurzi, traz-nos agora um artigo esclarecedor sobre as patéticas declarações do patético Martins da Cruz, ex-MNE. E com razão: por muito menos, Freitas do Amaral ouviu os piores remoques e acusações. Mas esta regressada personagem parece passar quase incólume, apesar da sua quota-parte de irresponsabilidade em colocar Portugal como cúmplice da mais estúpida, inútil e desastrosa guerra dos últimos vinte anos. Talvez seja mesmo um caso de diferença de relevância.

Resta-me esperar, hoje, pelo jogo de logo e pela (esperada) vingança de Simão & Geovanni. Haja fé! E que se desbarate a defesa catalã.
Blues em Coimbra

Estava em Coimbra, na outra Sexta à noite, mas o imenso cansaço que sentia impediu-me de ver o concerto de Blues do Mississipi de Adolphus Bell e George Higgs, até ali uns desconhecidos para mim. Três horas de espectáculo para quem tinha de se levantar cedo eram empresa demasiado pesada. Se alguém conhece os artistas ou teve de os ouvir, é favor dizer se perdi um espectáculo irrecuperável ou se fiz bem em preservar corpo e mente.
De qualquer maneira, sempre se economizaram uns euros, que como compensação poderão servir de pé de meia para rever, dia 20 de Julho, aqueles respeitáveis senhores de Boston, tal como afirmei, há uns meses atrás, ao relatar o meu primeiro encontro com eles.

quinta-feira, março 23, 2006

OPA

O BCP anunciou a sua Operação Pública de Aquisição sobre o BPI. Santos Silva e Ulrich é que não se ficaram pelos ajustes, e o primeiro disse mesmo, em tom passionário e inflexível: "não passarão, e desta vez não passam mesmo". Já a opinião economicista anda eufórica. com os sinais de "dinamismo da economia".
Pode muito esta dinâmica ser importantíssima para o país. Eu por mim, por ser seu cliente, gostar dos seus serviços e simpatizar com a ideia de uma instituição bancária, sólida e fiável, estar radicada no Porto (como já houve tantas, entretanto engolidas), também estou contra a OPA. O meu lado da barricada é o do BPI. O Millenium não passará.

segunda-feira, março 20, 2006

Quizz

Como se chama a mistura de hip-hop e reggae com judaísmo religioso? Até agora só teve um nome: Matisyahu. O resultado, podem ver aqui. O rapaz nascido em Brooklin, seguidor da corrente hassídica(que teve origem na Ucrânia, utiliza preferencialmente a língua iídiche), faz a devida comparação entre rastafarianismo e judaísmo. Se a moda pega, ainda vamos ver mullahs xiitas a dedicar-se ao Nu-metal, ou monges budistas a cantarem música Axê.

sábado, março 18, 2006

Outros links, agora mais específicos. O Rodrigo Moita de Deus voltou em grande aos posts sobre liberais, com o "Liberalómetro", um quiz só para liberais da sua autoria. Absolutamente imperdível.

Já tem uns tempos, mas a Memória Inventada(perdão, Força de Boqueio) analisou e dissecou as partes eróticas do best-seller de José Rodrigues dos Santos, o que lhe permitiu criar algumas opções - ou elementos - alternativas que só enriquecem o texto. Chamou-lhe "Gerador de Grandes Momentos de Literatura Erótica".
A ler usando simultaneamente a maior criatividade possível. O próprio escritor/jornalista/pivot do Telejornal não perderia nada se o lesse.

Com um novo blogue, Eduardo Nogueira Pinto chama a atenção para um DVD intitulado Mobutu, Roi du Congo. A ascensão e queda do "Grande Leopardo", um dos mais corruptos e traiçoeiros ditadores africanos dos século XX, seguidos passo a passo. Um perfeito exemplo dos megalómanos líderes que alcançaram o poder nos anos 60 em África, através de movimentos e ideias anti-coloniais por um lado, e sobrevivendo graças aos antigos colonizadores, por outro.

quarta-feira, março 15, 2006

Actualização de blogues - regressos e despedidas

Uns caiem, outros regressam. O Sinédrio cessou actividades. Mais estranho é o caso do Espectro, que depois de uma entrada retumbante da Constança Cunha e Sá e Vasco Pulido Valente no meio (por vezes com artigos repetidos da imprensa), atingindo mesmo o nº 1 do share, resolve terminar de forma inesperada. Será que VPV se aborreceu com o modelo e quis continuar a ser um exclusivo da imprensa? Estará este fim de alguma forma relaccionado com a entrada de CCS no Público, como parece indicar a sua crónica de sábado passado? Aborreceram-se com a interminável caixa de comentários (onde se deparava com tudo, desde o insulto mais an
onimo até ao elogio mais terno, sem falar nas discussões que nada tinham que ver com o post em causa)? Ou já tinham tudo planeado desde o início e estão a rebolar-se de riso com todas as suposições dramáticas que a sua despedida provocou entre toda blogoesfera? Têm aqui minúsculas contribuições para algumas teorias conspirativas.

Regressos: o Avesso do Avesso, de Filipe Moura, ex BdE. E Os Canhões de Navarone, de Rui Ângelo Araújo, ex-director da Periférica (e do seu blog), aquela cosmopolita revista transmontana de literatura e não só, que findou no mês de Fevereiro. Acreditem que tive como um dos prazeres do meu último Carnaval poder ler o excelente último número da revista à lareira, com temperatura lá fora abaixo de zero, na própria localidade de onde (a publicação)era proveniente. Mas sobre o último entrudo falarei mais lá para a frente.

terça-feira, março 14, 2006

O esclarecimento que faltava


quinta-feira, março 09, 2006

Lindo!


Fantástico, maravilhoso, histórico, épico! Não há palavras para descrever o triunfo de ontem à noite. Pela primeira vez, uma equipa portuguesa ganhou no temível anfiteatro de Anfield Road, frente à infernal bancada Kop. E logo por dois secos, perante o próprio campeão europeu em título, outro feito inédito de equipas lusas. Em duas jornadas europeias, vencemos os reds de Merseyside por três a zero. Consuma-se assim a vingança das derrotas que Ian Rush, Graeme Souness & Cia nos impuseram entre os anos setenta e oitenta.
Resumindo: talvez a maior vitória de um clube português no campo do adversário. Uma noite histórica, a fazer recordar os longínquos anos sessenta, e que prova que o Benfica definitivamente acordou. Entre os vários momentos da partida - o estrondoso golo de Simão (agora vale 20 milhões, meus caros), os falhanços dos avançados hispano-ingleses, os cânticos das duas falanges de apoio, o fair-play do público - há um de que não mais me esquecerei: o pontapé de bicicleta de Micolli, a passe de Beto (!!!), e a sua comemoração junto dos adeptos benfiquistas. Foi a consagração da vitória e a certeza de que ela não mais nos escaparia.

quarta-feira, março 08, 2006

Saudades de Billy

Continuando com o tema "Óscares", em especial o último parágrafo, é verdade que Jon Stewart esteve benzinho, melhor, em todo o caso, que Chris Rock (era este, não era? Às vezes confundo-o com o Chris Tucker). Mas nada consegue fazer esquecer Billy Crystal e as suas hilariantes montagens parodiando com os vários candidatos. Foram anos de alegria, que ("ó vós que sois crédulos, perdei toda a esperança") não mais se repetirão. Já no ano passado Crystal não compareceu por estar a interpretar na Broadway o seu monólogo teatral "700 Sundays".

Essa era pelo menos a razão oficial. Mas há outras causas. É que este vosso humilde blogger, há coisa de um ano e um mês, na sua fria deslocação a Manhattan, apanhou o conhecido actor à saída de mais uma sessão. Como ele estava com paciência e os que o esperavam não eram mais de meia dúzia, deu para cumprimentar o protagonista de When Harry Meet Sally e perguntar-lhe porque é que não apresentava os Óscares daquele ano. Disse-me que estava mais interessado na peça e que estava farto depois de anos como mestre de cerimónias. "I did It all my life", foi a resposta, seguida de uma francesa "J´ai fait ça toute ma vie". É verdade, o actor julgou que eu fosse francês, pela minha pronúnica e aspecto, antes de eu o esclarecer acerca da minha real proveniência.
Fiquei assim ciente das causas reais do desaparecimento de Billy das cerimónias de Hollywood: além da carreira nos palcos, está farto da trabalheira que lhe davam os Academy Awards. Quem sabe um dia, se as saudades lhe baterem à porta, ele não volta com a boa disposição do costume.


A prova: Billy Crystal apanhado à saída do teatro, em Fevereiro de 2005

terça-feira, março 07, 2006

Óscares 2006



Não sei porquê, mas este ano não senti tanto a emoção dos Óscares. Talvez porque não tivesse conhecimento profundo da maioria dos filmes em concurso. Ou porque as minhas expectativas quanto aos candidatos também não se revestissem de favoritismos extremos. Por isso, distraí-me e não apanhei as vitórias daqueles por quem eu mais torcia: George Clooney e Rachel Weisz, pois claro. O óscar de melhor actor para Seymour Hoffman (parabéns a Pedro Mexia) era esperado e fica em boas mãos, mesmo com boa concorrência. Talvez o merecedor do Óscar fosse antes um não nomeado (isso mesmo: Ralph Fiennes). Já tenho mais dúvidas quanto a Reese Witerspoon, mas a verdade é que também não vi Walk the Line. Estou é habituado a vê-la em papeis mais leves, e, como acho que o respeitinho é muito bonito e nestas coisas gosto de premiar as carreiras, preferia que tivesse ganho Dame Judi Dench. Veremos é se Reese se aguenta frente à famosa maldição das oscarizadas. Em todo o caso, Charlize Theron parece que conseguiu ultrapassar bem essa fase.

Ang Lee como melhor realizador...bom, pela carreira que já tem e pelo objecto que tinha em mãos, acho que é merecido. Em relação ao resto, parece-me que a Academia preferiu ser salomónica e conciliadora, dividindo o mal pelas aldeias, e assim furtar-se a dar o prémio de melhor filme a uma obra como Brockeback Mountain. Crash, um filme de um realizador estreante que já por aqui andou durante o Verão, e que aborda igualmente temas "nobres", acabou por ser a única surpresa da noite - eu pelo menos não contava nada. Assim, a fita dos "caubois larilas" ficou aquém das expectativas e King Kong e Memoirs of a Gueisha acabaram por ser recuperados. Parece-me porém que depois deste ano, em que aparecem num sem-número de filmes, Jack Gyllenhall e Heath Ledger (lembram-se dos Irmãos Grimm?) têm a carreira definitivamente lançada. No futuro não lhes faltarão certamente novas nomeações.

O Stewart de serviço, pareceu-me razoavel, cáustico quando devia ser, mas o momento de que mais gostei talvez tenha sido o prémio de carreira a Robert Altman (apesar do discurso interminável), atribuído pelas fabulosas Meryl Streep e Lily Tomlin. E é sempre bom ver caras conhecidas, como as citadas senhoras, Jack Nicholson (a sua expressão final valeu por meio espectáculo) ou William Hurt. Pouco mais houve. Só mesmo a passadeira vermelha do costume.

segunda-feira, março 06, 2006

Uma lamentável ignorância

Esclareçam-me se estiver enganado (e por isso a ser injusto). Mas contaram-me que no último Eixo do Mal, os comentadores fizeram menções pouco abonatórias à nova ERC e principalmente ao seu presidente, Azeredo Lopes. Ao que parece, "ninguém conhece o senhor Azeredo".
Pois bem, eu que o conheço e o tive duas vezes por professor, em áreas jurídico-internacionais, esclareço que se trata de um conhecido especialista em direito internacional, ex-comentador residente na RTP nessa área e actual director da área de Direito da Universidade Católica do Porto; e que até há bem pouco tempo intervinha no debate "Choque Ideológico", da RTP-N.

Poderão ainda assim os residentes do Eixo afirmar que não o conhecem? Da parte do burlesco José Júdice, com o seu ar entediantemente snob, é bem provável; Daniel Oliveira também gosta muito de falar sem ter conhecimento de caso; Luís Pedro Nunes também parece gostar muito de discorrer sobre qualquer assunto, e Nuno Artur Silva dá ideia de andar na maior parte das vezes aos papeis.
Mas Clara Ferreira Alves, que tanto gosta de ser a grande educadora do país, e a digna representante da inteligentzia de entre Campo de Ourique e o Chiado, ou tem fraca memória ou então finge que não conhece: é que há coisa de um mês, na mesma Universidade Católica onde Azeredo Lopes ocupa um cargo de responsabilidade, a cronista esteve deu uma espécie de conferência em tom intimista e familiar, intitulada "estórias da minha vida"; verdade seja dita, teve bastante interesse e revelou-nos coisas como a sua amizade com David Gilmour, na Londres dos anos oitenta, imaginando que o vocalista dos Pink Floyd era apenas um modesto músico com o fundo dos bolsos furados. Mas na tal "conferência", que não abarrotava propriamente de público, estava, na primeira fila, o novo presidente da ERC, um dos autores do convite à oradora, em conjunto com outros professores da casa. No fim, Clara Ferreira Alves ficou em larga conversa com o pequeno grupo de docentes, alguns dos quais eram, segundo me disseram, seus amigos. Por isso, não me cabe na cabeça que ignore quem é Azeredo Lopes, ou que tenha tido um lapso momentâneo de memória: sabia perfeitamente de quem falava mas quis passar por distraída. Melhor faria se, em lugar de querer provar que as pessoas que conhecidas vivem todas entre Vila Franca de Xira e Cascais, dissesse alguma coisa, ainda que pouco abonatória, sobre a pessoa em questão. É que mais depressa se apanha um(a) fingidor(a) do que um coxo.

PS: escrevi este post antes de ter tido conhecimento, via Acidental, de um texto de pura maledicência de Vasco Pulido Valente. Um ataque pessoal ridículo e despropositado, escrito provavelmente entre dois Jonnhy Walker´s, num momento ainda mais verrinoso do que o costume para o espectral bloguista.

sábado, março 04, 2006

À lista de filmes que referia dois posts abaixo, acrescentem lá Good Night and Good Luck, outro que se arrisca a ser um dos filmes do ano (embora alguns bloggers "liberais"de serviço, admiradores do senador Mc Carthy, devam fugir dele como o diabo da cruz).



E a propósito: parece que mais um Fantas está a chegar ao fim. Outro ano em que ficarei a murmurar: "para o ano é que lá vou".

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Um crime vil e cobarde


Um indivíduo que se prostitua e tenha SIDA e outras doenças, como aquele que um bando de desvairados matou na última semana, corre o risco de ser considerado não só um indesejável pela restante sociedade, mas algo de imundo cuja existência não pode ser tolerada. É isso que temos tendência para pensar, por muito que o neguemos.
Provavelmente só crimes como estes é que nos fazem ver que pessoas como estas não são um mero resíduo a que se deva voltar a cara. A forma como o mataram, espancando-o, apedrejando-o, deixando-o amarrado e a agonizar ao frio durante dois dias mostra a bestialidade do acto. A confissão e o remorso do crime mostra que há talvez uma centelha de senso moral naquelas cabeças. Mas é muito pouco. E tardio.
E não me interessa se a vítima era gay, ou travesti, ou o que quer que seja, como agora andam as associações do tipo ILGAs a anunciar, e os respectivos contra-movimentos a contestar. Sei é que um gang de ganapos, sem valores, sem sentido do que quer que seja, com escassa capacidade de distinguir o certo e o errado, tentando fosse como fosse impôr-se perante alguém mais fraco, arranjou alguém debilitado e vulnerável como alvo das suas proezas. E tirou a vida a um desgraçado, ao abandono, sem nada de seu, que se escondia do próprio mundo num local degradadíssimo. Um crime do mais cobarde, vil e repugnante que se possa imaginar.
Que será feito destes adolescentes quando crescerem?

domingo, fevereiro 26, 2006

Truman e o sangue



Tenho vários filmes na agenda, como Syriana, Brockeback Mountain (se conseguir companhia feminina), Mrs Hendersson Presents ou Orgulho e Preconceito. E Capote. Já sei que não é um biopic integral, e sim a experiência que levou à escrita da obra "A sangue frio". Não desmerece a vista de olhos, mesmo assim. E a composição de Philip Seymour Hoffman também não, como seria de esperar. Estranho é que só agora tenha obtido um "leading role", conhecendo todas as potencialidades do "sósia de Pedro Mexia". A pose, a voz afectada, os tiques, estão todos lá. Claro que a composição de um papel sobre uma figura real é bem mais do que o seu autómato, a sua faceta visível. Mas pelo pouco que já vi e li, Seymour Hoffman entra na personagem, nos seus segredos, nas fraquezas, no seu maquiavelismo e perversidade.

Para se ficar com uma ideia do que era o mundano escritor e do quão bem o actor faz por merecer o Óscar para que está nomeado, aconselha-se o filme Um Cadáver à Sobremesa/Murder by Death. Uma paródia descabelada aos filmes noirs e de suspense, reunindo as caricaturas de alguns do mais famosos detectives da literatura, representados por sua vez por um elenco estrondoso: Peter Sellers, um detective chinês: Peter Falk, um Humphrey Bogart de trazer por casa; David Niven sempre cavalheiresco, com a respectiva Lady Maggie Smith; um pseudo-Poirot e seu motorista; uma Miss Marple pesada e a sua decrépita ama; à sua espera, o mordomo cego da casa, responsável pelas bagagens e pela arrumação dos carros, interpretado por Alec Guiness. E o anfitrião, o misterioso Lionel Twain, contra quem, descobrir-se-á mais tarde, todos têm contas a ajustar, quem é? Truman Capote, himself. De cigarrilha em punho, lentes fumadas e chapéu de largas abas, não consegue disfarçar aquela voz
efeminada e ciciante (ainda que com alguns momentos de fúria) nem a pose característica. Está lá todo, pelo menos até ao simulado crime de que é vítima.
Se tiverem oportunidade, vejam os dois filmes e façam as devidas comparações. Não me lembro agora de nada mais (publicamente) visível, mas é possível que o haja. Eu por mim quero ver se na próxima semana assisto a mais uma lição do que é ser um grande actor, dada por Mr. Seymour Hoffman.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Justiça

(Cortesia do sl-benfica.com)
Afinal a vitória estava ao nosso alcance. Tal como contra o Manchester. Mesmo num jogo táctico e chato, sem grandes possibilidades de marcar. Um golo solitário, fruto de um jogador que esteve intransponível ao longo da partida, e que deixa tudo em aberto para o confronto nas margens do Mersey. Uma vitória que, mais do que premiar o Benfica, castiga a forma timorata com que o Liverpool encarou o jogo.
E para quem não acredita em coincidências no futebol e em jogos que se repetem: quando as equipas entraram no relvado, uma das claques ergueu um lençol gigante que já tinha exibido no jogo contra o Sporting, na penúltima jornada do campeonato passado, que nos abriu as portas ao título. Comentei para o lado que aquela gigantesca faixa com os dizeres "Benfica campeão" me dava boas recordações. Se bem se lembram, acabou com um golo de cabeça do Luisão aos 83´. E o que sucedeu ontem? Um adversário que tal como o Sporting, jogou com demasiadas cautelas (ou ainda mais); e um golo de cabeça do Enorme central, aos...83´. Como diz aquela célebre "escritora" de folhetins: não há coincidências.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Em má altura

O confronto com o Liverpool não podia vir em pior altura. Nem qualquer um dos outros, aliás. Com os jogadores desmotivados, a defesa surpreendentemente frágil, o capitão Simão rabugento e Nuno Gomes perdulário, além dos reforços que pouco reforçaram e da lesão de Geovanni, logo agora que ele estava em forma, apanhar o Guimarães em crescendo com o apoio de toda a sua cidade e o Porto já com Quaresma e sem ausências de maior é tarefa que dispensava nesta altura.
Mas é o calendário que temos, e não adianta fingir que são confrontos "normais". O de hoje, contra uma equipa em plena forma, sem ser o mais importante para efeitos de época, pode no entanto servir como motivação extra se a exibição ou o resultado forem satisfatórios (se não forem, pouco se perde, também). Por ser já uma eliminatória da liga dos Campeões, que há muito não se via na Luz; porque se adivinha outro inferno, com o estádio esgotado; e porque traz à memória outros confrontos, com sabor a anos oitenta, de novo contra o campeão europeu em título, um Liverpool enfim renascido na sua glória. Nunca nos demos bem contra este clube, mas também jamais tínhamos vencido o Manchester United, e afinal...

Sim, não adianta disfarçar. No campo, só vai valer o esforço e a sorte. Defender bem e atacar com cabeça e em velocidade. Que a Luz seja o inferno de sempre para os visitantes. E que o "You´ll never walk alone" seja abafado, e que se ouçam muitos mais "SLB, SLB, Glorioso SLB, Glorioso SLB".



Nota: revendo os confrontos nos anos, oitenta, reparei que em84/85 só não eliminamos os ingleses por um golo. Caso tivéssemos ganho na Luz por 2-0, ou perdido em Anfield Road por 3-2, tínhamos seguido em frente. E aquela horrível e trágica final em Heysel jamais teria acontecido.
Cem mil não é para qualquer um

Tomara eu números assim. Parabéns à Zona Franca. Com essa quantidade, já dá para fazer umas tantas OPAs blogoesféricas.

domingo, fevereiro 19, 2006

Prossegue a reestruturação cíclica da blogoesfera e as sucessivas passagens de testemunho. Agora, foram a Janela Para o Rio e o Fumaças a encerrar a respectiva actividade. Dois blogues já veteranos que não resistiram à falta de tempo e à rotina ligados a este meio, e que merecem a nota, por todas as razões, e também por terem sido os primeiros a linkarem (ligarem?) A Ágora.

Uns acabam, outros começam. E outros não tinham ainda sido referidos. Casos da Insustentável Leveza, do Touch of Evil (apesar das incursões zombeteiras ao excelente Diário de um Adepto Benfiquista), do Metablog e do Amigo do Povo, marcando o regresso do Bruno Cardoso Reis ao meio. Parece aliás que todos os ex-Barnabés resolveram voltar à carga, de forma fragmentada: além do Daniel Oliveira, que ingressou no Aspirina B - juntamente com o Rodrigo Moita de Deus - podemos encontrar outros ex-companheiros de blogue aqui, aqui e aqui.
Para terminar, dois blogues "temáticos": Noite Americana, em cinema (por muito que o entendimento sobre Match Point seja muito diferente do que atrás se expôs), e aTerra da Alegria, que nos recorda regularmente a esperança da Boa Nova. E os Quase Famosos, no pop/rock (destes já tinha falado, mas convém sempre recordá-los).

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Composição de artes

Pode uma obra cinematográfica ser constituída por outras formas de arte? Vejamos: junta-se um punhado de literatura, da clássica (Dostoievsky, no caso); uma excelsa fotografia em tons cinzentos, com raros espaços luminosos; uns pozinhos de pintura (a exposta na Tate Modern); escultura, certamente, exprimida pelas esculturais actrizes que povoam as cenas; arquitectura talvez, com a contraposição das várias faces de Londres (a nova morada do jovem casal, por exemplo, com as largas vidraças mostrando Westminster), ou a típica Country House; teatro, evidentemente, não só de forma directa, com a apresentação do último musical de Andrew Lloyd Weber, mas sobretudo com o desenrolar da tragédia clássica; o adultério e a paixão desenfreada como Hybris, a situação da gravidez na mulher errada como o Pathos, o sofrimento crescente, o Destino previsto em alguns pormenores (a leitura da desdita do jovem Raskolnikov, que está escarrapachada), e o Clímax, onde se dá a catástrofe, ou seja, o crime hediondo, restando muito pouco de Catarse; tragédia essa temperada pela música, criando o necessário ambiente, interpretadana ópera do sublime e sentido Enrico Caruso.
O resultado é Match Point, grande obra da Sétima Arte da autoria de um dos seus maiores criadores: Woody Allen. E mais poder-lhe-ia acrescentar, se me viesse à memória.



Ps: entretanto também vi Munich, uma das obras mais aguardadas dos últimos meses. À parte as quase três horas e a incompleta vendeta dos protagonistas, a única coisa que para já posso dizer é repetir o título de um jornal: um filme desconfortável.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Acção-reacção

As caricaturas dinamarquesas e, principalmente, as suas repercussões, continuam a ser o assunto de discussão na blogesfera e tema de abertura nos noticiários.
Disse há dias que tudo já se tinha dito sobre a questão, mas enganei-me redondamente: muito havia para dizer, incluíndo os maiores disparates. Para começar, as sempiternas acusações à Europa "acobardada" e "sem saber o que fazer", em comparação com os EUA. O "acobardamento" é uma acusação gasta, com as inevitáveis cenários de destruição. Já a indecisão quanto ao que há a fazer é real, mas face a um problema desta complexidade e magnitude é difícil ter ideias claras. Os EUA também não serão o melhor exemplo do momento: não só foram os primeiros a criticar as caricaturas, como as últimas acções no Médio Oriente não lhes dão grande legitimidade para se afirmarem como paladinos na "guerra civilizacional". Que é outro dos grandes equívocos da torrente de declarações que se tem ouvido. Sem querer contrariar as razões de preocupação de todos os fanáticos e radicais que incendeiam embaixadas e bandeiras (ou de quem o permite) e clamam que "isto é tudo uma conspiração sionista", como ainda ontem o fez o Ayattolah Kamenei, começo a ficar farto daqueles que vêm não só com declarações grandiloquentes sobre a "guerra que já começou", ou a impossibilidade de acreditarmos que no Islão são todos terroristas, sem excepção. Além de Pacheco Pereira, que adora abrir as hostilidades, temos este texto, que é um bom exemplo do que falo, e ainda uma enorme quantidade de neo-defensores da liberdade de imprensa e de admiradores de Hutington, à esquerda como à direita. Além de estranhos revisionismos, tentando provar que "o Al-Andaluz é um mito", mais pelas razões políticas que pelas socio-culturais.

Como sempre, surge aquela expressão cada vez mais vazia de sentido e de que todo e qualquer ser opinativo se arroga: o "politicamente correcto". Esta semana, vi no Acidental uma troca de palavras em que duas pessoas se acusavam mutuamente de promover o seu oposto, o"politicamente correcto": um, em relação à falta de respeito dos cartoonistas perante os muçulmanos; outro, sob a temeridade em condenar as violentas recções contra a Dinamarca. ao que parece, somos todos muito "politicamente incorrectos", quer sustentemos uma opinião ou outra, ou o seu contrário.

Depois, claro, o "choque de civilizações", a deles contra a nossa. A ideia, além de ser demasiado generalista e simplista, (embora em relação a outras ameaças, como o aquecimento global, as preocupações destes opinantes caiam sem estrondo), é perigosa. Basta pensar que a civilização "deles" não abrange, no caso concreto, apenas os países árabes, mas também o Irão, um dos mais metidos ao barulho, o Paquistão, vastas populações da Índia, ou a Indonésia. Um panorama demasiado vasto para declaraçõezinhas de guerra pelos jornais. E a Bósnia, ou a Albânia, maioritariamente muçulmanas, bombardeiam-se?

Os partidários desta não tão novel ideia fazem constantes referências a Chamberlain e à sua política de apaziguamento frente aos nazis. A invocação, normalmente necessária, tende a ser saturada pelas excessivas comparações. É que se houve uma ameaça nazi, ela deveu-se à humilhação que os adversários da Alemanha lhe impuseram. Pela lógica das ideias, para se expurgar a ameaça não se pode apenas recorrer ao rearmamento: há que primeiro pensar se os muçulmanos, ou os árabes, ao menos, não se sentirão humilhados, e se não será isso que atrai o radicalismo. Não faltam causas, desde a absurda e inútil guerra do Iraque, aos apoios dúbios dos países ocidentais a ditaduras do Médio Oriente quando isso lhes convinha. Evidentamente, votam em extremistas como o Hamas de forma democrática, como possível desforra, ou porque não vêm outras alternativas credíveis.

Tudo isso não obsta a que operações militares possam ter lugar se necessário, como no Golfo em 1991, ou no Afeganistão. A hipótese de um ataque cirúrgico ao Irão não pode ser liminarmente afastada, pese embora a sua extrema dificuldade. Mas há que fazê-lo, se não houver alternativas, de forma a não não cometer os erros do Iraque, com uma ocupação mal disfarçada de "libertação", e a não provocar uma reacção tempestuosa do mundo muçulmano (já imaginaram a aliança improvável dos sunitas com os xiitas numa luta comum contra "o Grande Satã"?). O problema é que se vê aqui uma sede de guerra preocupante sobretudo pelo facto dos seus defensores não serem extremistas ou lunáticos. E também porque sabemos que uma escalada de um lado leva à radicalização do outro. era bom, já que se invoca o apaziguamento, que se lessem as páginas do seu grande adversário, o nunca demais lembrado Winston Churchill, sobre a forma como os derrotados da 1ª Guerra foram tratados. É que a paz a todo o custo pode ser uma cobardia e uma tontice, mas a guerra a todo o custo é uma monstruosidade.

Ah, e sobre o Profeta Maomé (ou Muhamad, no original), uma vez que ele deixou vasta prole no mundo árabe, e que esta também se espalhou pela Península Ibérica, quantos descendentes seus haverá em Portugal?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

A imagem por que todos esperavam





Scarlett Johansson e Keira Knightley na capa da Vanity Fair . Assim mesmo. Suponho que a revista vá esgotar a sua edição.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Liberdade e civilização

Sobre a crise dos cartoons publicados em vários países europeus que desagradaram aos muçulmanos e incendiaram os ânimos dos mais radicais, como o clube de fãs de Ahmadinejad, já quase tudo se disse. Ainda assim, vou deixar algums notas sobre o que penso, muito embora não acrescente absolutamente nada de novo. É só para ficarem a saber o que se pensa aqui n ´A Ágora.

- Liberdade de expressão? Um princípio inalienável numa sociedade livre, democrática e tolerante, de que a dinamarca é um dos exemplos mais perfeitos.

- Limites? Evidentamente. Como é sabido, liberdade alguma é absoluta. Por isso mesmo, a nossa lei penal consagra certas situações em que manifestações dessa liberdade podem ser objecto da sanções legais. Alguns casos são exemplificados, embora como sempre não se possa dispensar a interpretação das autoridades judiciais.

- As religiões, tal como as ideias políticas, são igualmente satirizáveis. Pelo seu sentido transcendente, tendem a provocar mais fúria do que o comum das caricaturas.

- Diz-se que as caricaturas em questão são perfeitamente normais, e que a sua repetição nos últimos dias é apenas uma demonstração da força da liberdade de imprensa nas sociedades ocidentais. Discordo plenamente. Os cartoons não eram parciais ou mero gozo: pretenderam tratar os muçulmanos no seu conjunto, como sendo seguidores de uma religião ela própria de terroristas. Pode-se considerar isto como uma manifestação de xenofobia e racismo (se segundo o que ouvi dizer dos antecedentes do jornal, provavelmente foram-no mesmo). Para isso, os ofendidos deviam ter recorrido aos meios de direito, atrás descritos.

- As reacções em países como o Irão, Síria, Líbano e afins acirraram os ânimos dos fanáticos locais e foram aproveitados pelos respectivos regimes (ou facções, no caso do Líbano) para continuar a sua campanha contra "o Grande Satã"; a Israel e EUA junta-se agora a Europa. Tudo o que é "Ocidental" cabe no mesmo prato. Não é um exclusivo da outra margem do Mediterrâneo: por cá, há muito que vêm os muçulmanos como seres de barba espessa e cimitarra à cintura, de nome "Mustapha" (que é um nome turco, mas que já vi apontado como dominante entre quem professa o credo de Maomé).

- As reacções dos fanáticos não são de espantar. Numa posição mais incómoda ficaram os muçulmanos mais moderados, a que a maioria dos media pouca cobertura deu.

- As reacções internacionais divergiram: cautelosos como os EUA, mais impulsivos, como a Alemanha, todos tiveram alguma razão.

- Se eu fosse os cartoonistas ou os responsáveis pelas publicações, poria a mão na consciência e não repetiria a graça, que é em si mesmo inutilmente provocatória e ofensiva. Os respectivos governos nada têm que ver com as opiniões e actos dos seus cidadãos, que os responsabilizam somente a eles. A liberdade, como se sabe, implica igual responsabilidade (mesmo que esta, para José Vítor Malheiros, do Público, não seja chamada a este caso, o que eu discordo).

- Se os governos nada tinham que justificar, então agora, com os ataques às respectivas embaixadas e representações, ainda menos. E o facto de queimarem sucessivas bandeiras dinamarquesas, e não só, o que por si só prova a bestialidade e a ignorância dessa gente, é uma ofensa tão grande ou maior que os famosos cartoons.

-O que dizem sobre a não reciprocidade de acções em países ocidentais se tais graças fossem aplicadas a símbolos cristãos ou judeus não é de todo verdadeira: é sabido que mesmo estes credos têm os seus intransigentes defensores, como é o caso de alguns grupos radicais evangélicos dos EUA.

- A Civilização ocidental é Superior? Neste contexto e nesta época, sim, é, pela liberdade, bem-estar material e respeito que dá aos seus cidadãos, e que são a causa para que tantos muçulmanos imigrem para a Europa, EUA ou Canadá. Embora estas razões possam mudar com o tempo e as circunstâncias: há mil anos, Granada e Córdova eram sem dúvida superiores em civilização ao vetusto reino da Dinamarca. Hoje, contudo, o país de Andersen, da Lego e de Kierkegaard é o modelo perfeito da superioridade actual da nossa civilização, com o qual gostaríamos muito de nos parecer.
A superioridade das civilizações não se deve confundir porém com a "superioridade dos povos", um conceito perigoso e distorcido, que há mais de sessenta anos levou aos resultados catastróficos que se conhecem (e a Dinamarca, aliás, também os sentiu).

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Tristes recriminações

Manuel Alegre voltou ao seu lugar na AR. A meu ver, faz bem. Por muito que a boa vontade e o um milhão e tal de votos ajudem, pouco poderia fazer sem algum peso institucional. E o lugar de deputado (não sei se também vice-presidente da AR) terá a sua influência nas questões que pretende abordar, seja na interrupção da IVG, onde não poderá contar certamente com o meu apoio, seja na discussão sobre desertificação e despovoamento do interior (aqui merece sólida concordância).
Entretanto, o seu papel nas presidenciais voltou a ser apupado por alguns comentadores de nova geração. Depois da malta da Geração de 70 (como Pedro Mexia), ainda temos de aturar os dois cantos do Expresso. O Daniel Oliveira veio dizer que os votantes em Alegre só o tinham feito por duas ou três razões (ódio ao soarismo, esquerda romântica e porque não sabiam em quem deviam votar, salvo erro). Esqueceu-se de dezenas de outras, como a de que Alegre era o único que mostrava grande amor a pátria sem os complexos típicos da esquerda radical e dos neoliberais, e ou que não estava embrulhado em máquinas partidárias, como a do seu candidato, Francisco Louçã, ou muitas outras que pertencerão a quem nele votou. A nova admiração de Daniel por Soares deu-lhe para desancar no poeta por dá cá aquela palha.
Outro que se divertiu a zurzir em Alegre foi (além de Vasco Pulido Valente, recém-chegado à sua tão criticada blogoesfera) João Pereira Coutinho, alegando a sua "iliteracia política" e o seu "delírio". É típico do ex-Infame: qualquer indivíduo que tenha ideias diferentes das suas é logo apelidado de ser portador de "insanidade", de o fazer "rebolar de riso", ou de tomar parte numa "trupe ideológica". Isto claro, se não o tratar de "mau-carácter" ou "verme", como já aconteceu ao dito Daniel Oliveira.
O problema é que o mesmo Pereira Coutinho disse há meses, quando Alegre não se candidatou ao primeiro impulso, que o deputado teria tido um acto de dignidade se o tivesse feito. Assim que Alegre decidiu mesmo avançar, começaram as zombarias e as desclassificações da parte do colunista. Só prova que a tal iliteracia política de que fala o toca muito mais a ele do que a pessoas que já andavam em sessões legislativas quando ainda se debatia no berço. E que se não sofre de delírio, há pelo menos naquela mente uma boa dose de amnésia em relação às opiniões expressas escasso tempo antes

terça-feira, janeiro 31, 2006

Sobre o fim de semana que passou

Inesperadamente, a equipa que perdeu em casa com o Halmstad conseguiu vencer no imenso reduto de outra que voga na Liga dos Campeões, no jogo conhecido como "Derby português". Por obra e graça de um brasileiro esguio que ainda na semana passada tinha falhado golos que até eu, que raramente acerto numa bola, conseguia faturar. E ainda por um veterano, cujo hobbie é desatar ao estalo a seleccionadores, que há uma eternidade não marcava um penalty. É merecido, mas chato, e ainda tivemos de ouvir os remoques da lagartada, escondidos desde o trágico (para eles) mês de Maio passado. Um simples acidente de percurso, que talvez tenha a utilidade de acordar mentes acomodadas.

Os noticiários de Domingo anunciaram que "nevava por todo o país, de Norte a Sul". Em certas regiões a neve era quase novidade, mas do Mondego para cima, nem vê-la, excepto talvez no Nordeste transmontano. O frio apertava, mas o céu continuou limpo como uma rua suíça. Essa coisa de "todo o país" tinha umas certas falhas geográficas que pouco contemplavam o litoral norte (e até cidades como Viseu e Vila Real) e não abonavam muito a favor dos seus autores.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

250 anos com três dias de atraso



Pois é. Os duzentos e cinquenta anos do nascimento de "Woferl" na principesca Salzburgo foram referidos por tudo quanto é orgão de informação, blogoesfera incluída. Não sendo um conhecedor profundo da sua obra musical (apesar da sua curta vida me ter despertado o interesse em tempos remotos), sei o suficiente para reconhecer o carácter Divino que manifestamente a inspirava.
Como não podia deixar de ser, Amadeus, de Milos Forman, passou nos ecrãs nacionais, pouco depois da série de um seu contemporâneo ainda mais libertino, Bocage. Já tinha escrito sobre o filme e as consequências ainda hoje visíveis do anátema de Salieri. Constança Cunha e Sá (invocando Mario de Sá Carneiro num dos seus melhores poemas) e João Gonçalves foram mais além e mencionaram "o talento do fracasso". É justo. Se não servir para reabilitar o Salieri compositor, como o Scalla tentou fazer na sua reabertura, ao menos que reabilite o Salieri reconhecedor da influência Divina pelo milagre da música.

E um conselho: os jovens austríacos, nos seus momentos de boémia, têm o costume de ingerir de um trago uma bebida extremamente alcoólica, parecida com brandy, flamejante como um crepe flambée, com um chocolate Mozart no fundo, justamente chamada Burning Mozart. Pode ser outra forma de homenagear o génio na sua faceta mais estroina, mas deglutir toda aquela massa agridoce em brasa é tarefa complicada e sufocante.

sábado, janeiro 28, 2006

Interioridade



Num certo fim-de-semana de tempo mais agreste, Bragança ficou isolada. O único limpa-neves disponível estava avariado. Limpezas, só mais tarde e apenas no IP-4. Aldeias no Montesinho e localidades como Vinhais tiveram de esperar que o ciclo da água fizesse o seu trabalho, convertendo a neve e o gelo ao estado líquido. Entrar no distrito, só até Macedo. Nem a comitiva do Dr. Mário Soares conseguiu fazer as acções de campanha previstas em Bragança (pelo que se vingaram atacando os covilhetes da pastelaria Gomes, em Vila Real).
Atrás deste cenário de brancura imaculada e de crianças brincando com bolas de neve está uma terrível realidade conhecida como "interior profundo". As picardias regionais costumam ficar-se entre Lisboa e Porto, Coimbra e Aveiro/Viseu, Alentejo e Algarve, etc. Mera lana caprina. A autêntica divisão está entre o litoral, sobrecarregado, desenvolvido, habitado, e o interior desertificado, envelhecido, sem emprego nem oportunidades.

As regiões mais esquecidas são Trás-os-Montes e a Beira interior. O Alentejo, com os projectos turísticos e de regadio que tem recebido, está numa situação bem mais confortável, apesar de tudo, e o mesmo vale para o Minho. Mas outros distritos, como Bragança e Guarda, não só têm uma gritante falta de infra-estruturas e equipamentos como ainda lhes querem retirar parte dos seus serviços.A situação não é nova: em Chaves, na altura dos governos de Guterres, quando se pretendia tirar um contigente da polícia local, sem que tivesse sido instalado um pólo universitário já prometido, a população saíu à rua em protesto, promovendo boicotes e cortando estradas. O governo voltou atrás e ainda acedeu a outras exigências dos flavienses.

Passa-se uma situação semelhante no nordeste transmontano, ali perto: a ideia é tirar determinados serviços de saúde e de polícia de Mirandela, Bragança e Macedo, para redistribuição territorial e corte de despesas. Como se aquelas terras não tivessem já falta deles. É certo que a população é escassa e há que redistribuír as coisas pelos locais onde há mais densidade populacional. Mas entramos aí num círculo vicioso: se se retira num sítio, as pessoas deslocam-se para latitudes onde tenha maior acesso aos bens. Mais despovoamento, menos meios, a situação piora, e é precisamente isso que se passa com o interior português.

Para estes dias está programada uma manifestação nas ruas de Mirandela, um pouco à imagem do que aconteceu em Chaves. No IP-4, no ponto de entrada do distrito de Bragança, foram colocados cartazes com a inscrição "Aqui termina o Portugal da igualdade de oportunidades" e "Daqui a 70 quilómetros, Espanha". Não sei se os habitantes da terra quente transmontana irão empunhar bandeiras espanholas, como se chegou a fazer em Bragança, em tempos do Estado Novo (o que só demonstra grande coragem), noutra prova de desagrado quanto à condição a que estavam votados. Não sei qual será a máxima reivindicação - se ficar com a polícia, a maternidade, a Direcção Regional de Agricultura, essas coisas que quase todo o resto do país tem. Mas se quiserem atemorizar, usem mesmo o pendão do vizinho castelhano. Talvez assim as nossas autoridades centrais se assustem e pensem que o interior desertificado merece mais do que auto-estradas e IPs a caminho de Espanha. E que também aí existe a soberania do estado português. Que um país macrocéfalo e sobrecarregado no litoral não é viável. A não ser que reserve o interior para deserto oficial, com meia dúzia de cidades no meio, para servir de oásis a deconhecedores turistas, ávidos de ver uma espécie de so typical vazio lusitano.
posted by João Pedro at 5:59 PM 0 comments