segunda-feira, outubro 02, 2006

It ´s not the economics, stupid
A semana blogoesférica ficou alvoroçada com o anúncio de que Pedro Arroja iria colaborar regularmente com o Blasfémias. Já tinha ouvido uns tímidos elogios ao economista radicado no Porto, mas a ideia que tinha dele vinha de uma entrevista que deu à saudosa Grande Reportagem, que conservo algures, em Maio ou Junho de 1994 (inclino-me para a segunda hipótese, já que a capa era sobre o Dia D), feita por Fernanda Câncio, que em boa hora a disponibilizou na íntegra.
Recordava-me sobretudo da passagem em que ele defendia que os votos deviam poder ser vendidos, e "não deitados fora", e que "os pobrezinhos sairiam beneficiados". Ou da defesa de um partido nortenho encabeçado por...Pinto da Costa(!!!). Se já tinha ficado altamente deagradado com as ideias do senhor, ainda mais fiquei ao reler a entrevista, nas opiniões sobre a escravatura ("Eu não quero dizer que a escravatura era aceitável, mas não foi má para os negros em termos económicos"), a pena de morte ("O que se concluiu é que por cada pessoa executada na cadeira eléctrica havia sete crimes que deixavam de ser cometidos. Então o que é que é desumano?"), apresentando conclusões contrárias à maioria dos estudos, que provam que o crime é mais elevado exactamente devido à pena de morte. E não só: ao longo da conversa, Arroja debita uma falta de ética, um apego aos números sobre qualquer outra realidade, uma asséptica ideia do mundo ("O que é que é sagrado para si?" "Nada. Nada."), e aquela crença fanática, e simultaneamente determinista, científica, de que a pura economia de mercado sem qualquer intervenção estadual é infalível, e que o mercado prevalece sobre qualquer forma de política e forma de governo, inquinando inclusivamente a escolha democrática feita pelos cidadãos. O neoliberalismo em pleno estado de pureza, escarrapachado, cristalino.
Alguns chamarão a isto de "liberdade". Eu recuso-me a confundir esta dogmática economicista com o primeiro valor da trilogia francesa, que aliás Arroja não deve apreciar. A Liberdade não pode caír na anarquia moral, na dissolução dos valores de uma sociedade, e mais ainda, de uma civilização, que nos é proposta pelos neoliberais de laboratório. Podem os blasfemos considerá-lo "um dos mais importantes defensores da Liberdade que Portugal conheceu nas últimas décadas". Tenho, como aqui já disse, respeito e apreço pelo blogue em questão, do qual aliás conheço vários elementos, embora a maior parte das vezes discorde deles. Por isso lamento que venham com proclamações bombásticas que roçam a idolatria do referido economista, e que acabam por caír no ridículo. Não serei, certamente, assíduo leitor dos futuros escritos do Dr. Arroja. Perdoem-me, mas o megafone ultraliberal acaba por tirar a paciência a um santo.
PS: o maradona deixa aqui a sua própria visão da coisa. Ó Carlos, essa de ser comparado a um Quindim não devia passar impune.

sexta-feira, setembro 29, 2006

O resultado de pôr a mão própria em obra alheia
A decisão de cancelar a ópera Idomeneo de Mozart é a todos os títulos lamentável. Não há que ter contemplações: não é o facto de haver ameaças abstractas de alguns bárbaros que justificam tal vergonha. As medidas de segurança existem por algum motivo. O temor de ofender os crentes islâmicos não colhe, e desrespeita o cristianismo e o budismo, por razões idênticas.
Simplesmente, como bem notou Luís Aguiar Santos, o único deus que entra na ópera é Neptuno e a sua cabeça não é exibida no fim. Eu nem conhecia esta obra, confesso, mas pela lógica dá para perceber: seria uma enormíssima impiedade surgir a cabeça cortada de Jesus num espectáculo do Séc. XVIII, em pleno Sacro Império Romano-Germânico. Buda não era muito divulgado naquele tempo, e mesmo Maomé não aparece aqui, apesar das memórias do cerco à capital do Império pelo otomanos, cem anos antes (Neptuno era imortal, devido à sua condição divina).
Quer dizer: primeiro desvirtuam a obra original, e depois queixam-se das ameaças às alterações. Grande coerência. Grande coragem.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Chatice!

O Benfica anda em maré de maus resultados. Depois do balde de água fria (para mim literalmente, porque tinha acabado de fugir da chuva) em forma de golo pacense já nos descontos, depois de um jogo controlado e duas bolas na barra, tinha agora de vir esta maldita derrota com o Manchester United. Viu-se uma primeira parte aceitável, mas depois do velocíssimo contra-ataque que culminou no golode Saha, a equipa, inexplicavelmente, retraiu-se, perdeu forças, deixou de pressionar. O meu medo do nulo final era mais optimista do que pensava. E os jogadores tiveram uma atitude contrária à do ano passado, quando foram para cima em busca da passagem aos oitavos. Resta-nos vencer os confrontos com os católicos de Glasgow, contra os dinamarqueses, e, quem sabe, obter as migalhas na última jornada aos ingleses, que por certo já terão tranquilamente alcançado o 1º lugar, depois da humilhação do ano passado. A coisa não está fácil.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Bizantinices e fanatismos

Dez dias depois da primeiras notícias, a conferência de Bento XVI em Ratisbona continua a dar que falar. Por falta de ocasião, não tinha ainda podido postar sobre o assunto. Durante estes dias, tenho lido as mais diversas considerações sobre a famosa passagem do diálogo entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo e "um persa culto". Desde a "irresponsabilidade do Papa em proferir afirmações incendiárias", ao "notável discurso sobre a Fé e a Razão", isso, claro, nas sociedades de raiz cristã. Da parte de alguns clérigos e militantes do fanatismo islâmico ouviram-se imprecações, protestos, e coisas tão extraordinárias como "o Papa deve responder em tribunal", ou "deve pedir desculpas de joelhos perante um representante xiita". É óbvio que as reacções destes últimos devem ser tomadas como delírio próprio de mentes medievas (no nosso calendário, evidentemente) e ignorantes. Já os discursos menos inflamados mas carregados de auto-vitimização de alguns líderes espirituais, bem como novas ameaças terroristas, são factor de preocupação.
Lendo bem o texto, e percebendo o seu sentido, não posso deixar de pensar que só a má-fé ou a precipitação tenham atiçado toda uma polémica absolutamente desnecessária. O discurso, mesmo se baseado nessa passagem, poderia ser uma enorme alavanca para um debate filosófico e teológico, até (sobretudo) com interlocutores muçulmanos, e para uma nova compreensão das religiões e das relações entre elas.
Não o quiseram os acontecimentos posteriores nem a comunicação social, que se apressou a divulgar o discurso com base na passagem que incluiu observações menos simpáticas para Maomé. Uma discussão intelectual perdeu-se assim, por culpa de imprensa ávida de escândalo e de sangue, e de uma matilha de fundamentalistas que não merece o menor respeito. Os líderes das principais comunidades muçulmanas europeias, inicialmente desconfiados, deram-se por satisfeitos com as explicações do Papa, até o maníaco do Irão achou que tinha havido uma "interpretação errada", e pelo menos na Europa não se assistiu a histerismos invocando Alá (excepto em Londres, onde se encontra a comunidade mais radical, a par da de Hamburgo). O "choque de civilizações" continua adiado, para grande pena dos Salafitas e dos valentões que do lado ocidental continuam com a habitual postura de "segurem-me que eu vou-me a eles".
Como é óbvio, Bento XVI esteve bem em explicar o seu ponto de vista para não deixar margem para dúvidas, e em não desculpar-se, não havendo de quê. Mas, como sucessor de Pedro e autoridade máxima da Igreja Católica, deve também ter algum senso e agir com diplomacia. Penso que a sua intenção não era outra, ao contrário do que disse Miguel Sousa Tavares no Expresso, num registo demasiado anti-religioso para o meu gosto - se a cultura muçulmana mostrou coisas admiráveis, há coisa de mil anos, não é menos verdade que, citando Vasco Pulido Valente, "não produziu nada de remotamente comparável com o cristianismo". Mas não me refiro ao suposto bom-senso em relação ao "mundo muçulmano": simplesmente, e nisto poucos repararam, o Papa, a dois meses de uma viagem à Turquia, lembrou-se justamente de citar, na parte mais dura do discurso, o antepenúltimo Imperador bizantino, pai de Constantino, derradeiro soberano da cidade dos Bósforo, morto aquando da sua tomada pelos...turcos. Para um país tão susceptível quando se fala do massacre dos arménios, a ideia não terá sido brilhante. Manuel II Paleólogo já sofria a imparável ameaça otomana, que terminaria com a Idade Média em Maio de 1453. Acresce que a queda de Constantinopla deveu-se também muito ao declínio do Império desde o ataque e pilhagem pelos cruzados, convocados por Roma em 1204, e à insignificante ajuda que os católicos deram no momento em que o crescente estava às portas da cidade. Alguns, como os genoveses, aproveitaram-se mesmo para obter vantagens comerciais dos turcos. Daí a desconfiança e hostilidade com que a Igreja do Oriente nos trata até hoje, ainda que com boa dose de injustiça e inflexibilidade.
Uma questão por demais complexa, como são todas as que envolvem Fé e religião. E se não forem acompanhadas de razão, mais ainda...

quinta-feira, setembro 21, 2006

Fechos e intervalos

O melhor blog de futebol, o Terceiro Anel, encerrou actividades por manifesto défice de manutenção. É o fim anunciado do melhor blog português de futebol.

Menos radicais foram o Estado Civil e o Franco Atirador, que resolveram fazer uma pausa.

domingo, setembro 17, 2006

O Sol não nasce para todos
O Sol, novo e badaladíssimo semanário, saíu do prelo depois de semanas de apostas e expectativas, ainda mais empoladas com o fim de O Independente. Pela minha parte, digo desde já que foram goradas. Dá ideia que o luminoso título emprestou uma conotação muito light ao jornal, reforçada com a presença de Margarida Rebelo Pinto e afins.
A "entrevista" de Maria Filomena Mónica vale como curiosidade e chalaça jornalística, mas deveria ficar no fim, e jamais na segunda página do jornal. José António Saraiva, com o novo "Política a sério", persiste no seu estilo paragráfico, embora no essencial concorde com o que escreve sobre a saída de serviços do interior e da contribuição para a desertificação. Marcelo faz meramente uma antevisão da sua dissertação dominical na RTP. E os Portas não trazem muito de novo: Miguel, à esquerda, traça, de forma mais subtil as ideias bloquistas sobre o conflito do Líbano. Paulo, à direita, faz uma "crítica" ao novo filme de Sophia Coppola, Marie Antoinette, mais política que cinéfila, onde demonstra algum do anti-francesismo hoje tão em voga ("...aquela cabecinha de Robespierre que há em metade dos franceses..."), revela desconhecer a popularidade de que a realizadora goza em França e ainda tem espaço para eros históricos (Maria Teresa, não obteve o trono do Sacro-Império por "casamento", mas porque sucedeu ao seu pai, o imperador Carlos VI, que era o "nosso" candidato a Rei de Espanha na guerra de sucessão do país vizinho, e que chegou a ser coroadao como tal graças à tomada de Madrid pelo Marquês das Minas).
O estilo do jornal é, como disse, muito light, muito "engraçadinho" e pretensamente provocatório, como as picadas ao Expresso logo na capa ("este jornal não faz promoções" - veremos até quando). O mito de não houver patrocinadores grados é afinal desmentido, com a história das respectivas vidas a meio. O manifesto é paupérrimo, desfiando uma série de adjectivos positivos, para caracterizar a publicação, e seus desvios, ou vícios, que nunca, jamais, em tempo algum, o jornal adoptará. Em suma, um jornal perfeito. Ou melhor dizendo, que se leva demasiado a sério, à imagem do seu director.
Conclusão: apesar de tudo, vou continuar a comprar o Expresso, que para além dos DVDs, está realmente melhor.

sábado, setembro 16, 2006

Desfazendo tabus do futebol

Sobre o jogo do Benfica em Copenhaga, não vale a pena falar. Um pontinho conquistado num jogo medíocre, contra uma equipa que ainda não demonstrou se é realmente um outsider ou se vale mais do que se pensa. Dos outros, além dos desempenhos portugueses, reparei nalgumas goleadas, como a do Steaua no estádio dos vizinhos de Kiev. Mas reparei igualmente,no dia seguinte, ao consultar algumas fichas de jogos, nalguns nomes da equipa ucraniana do Shaktior Donetsk: um jogador chama-se Olexei Gay; e ainda há outro, romeno, chamado Marica. Bem sei que os apelidos hoje em dia pouco significam, mas acredito que estes possam provocar alguma perplexidade, ou, quanto muito, desconfiança, a António Oliveira e à sua teoria do "futebol macho".

quarta-feira, setembro 13, 2006

Esta noite, em Copenhaga
O jogo de hoje é importantíssimo para o Benfica. Não somente por ser a estreia deste ano nas competições europeias, nem pelo adversário ser teoricamente o mais fraco do grupo, o que obriga a um bom resultado para evitar futuros apuros. Servirá sobretudo para tentar dar a volta ao desastre total que se viveu no Bessa, no último fim-de-semana, e que já desfalcou a equipa para a próxima jornada. É imperioso que haja alma, concentração e alguma garra. E talento, para compensar as ausências de Rui Costa, Miccoli e a falta de ritmo de Simão. Convinha que Fernando Santos mostrasse enfim que é mesmo um grande benfiquista. Marcar e ganhar, é o que é preciso. E também não esquecer que o adversário dinamarquês não é apenas "alto, louro e tosco", que eliminou o Ajax da prova e que conta nas suas fileiras com o talentoso Gronkjaer e o jogador que, de entre todos os que estiveram no último Mundial, ostentava o nome mais divertido: o ganês Razak Pimpong.
Ps: para os que afirmam que "a imprensa é toda benfiquista", convido-os a comparar o título do Público sobre a derrota com o Boavista ("Benfica goleado no Bessa") com a do Liverpool, que encaixou o mesmo resultado("Liverpool quase goleado pelo Everton"). E há mais, muito mais.
Banalizações

Começo a concordar com aqueles que dizem que a memória do 11 de Setembro está a ficar banalizado. Com a enxurrada de documentários, filmes, telefilmes, entrevistas, debates, alguns Pró, outros Contra, teorias da conspiração e demais programação avulsa, em qualquer tipo de comunicação social, receio que isto se esteja realmente a banalizar. E no entanto não merecia. Quem nos manda viver num mundo com excesso de informação?

sexta-feira, setembro 08, 2006

Os responsáveis

No suplemento Local (Norte)do Público de segunda-feira, vinha em destaque um artigo sobre os desacatos provocados por adolescentes em Moledo, nos últimos dias de Agosto. Como testemunha in loco de algumas réstias dessa situações, confirmo a descrição do artigo. A "miudagem" que cirandava pela povoação à noite, de copos e cigarros (legais ou não) na mão, nem sempre tinha propósitos pacíficos. O mínimo pretexto ou discussão servia para os pôr num estado de tensão ou de conflito pouco recomendável.
Claro que, como frisava o jornal, não se tratava exactamente de malta dos bairros, de resto pouco frequente naquela zona não urbana, mas sim de filhos de veraneantes, quantas vezes de classe média alta, a quem os pais, para não se aborrecerem, davam rédea solta e dinheiro para a mão. Os resultados, como desacatos frequentes que obrigaram mesmo a chamar a polícia, ou uma imensa barulheira dividida entre batuques e vozes altas, ficaram à vista
Melhor exemplo para mostrar as consequências da demissão das famílias na educação dos filhos é impossível. Eis uma boa temática a ser estudada por Maria Filomena Mónica. Fazendo o que bem lhes apetece com os meios necessários, julgando-se "rebeldes" e donos de si, tornam-se pequenos delinquentes. Actos próprios de quem julga que o mundo é seu, mas a quem falta valores para o poder julgar e compreender. Não se trata de "rebeldia" contra qualquer "sistema" ou qualquer imposição forçada ou mais castradora: é apenas a satisfação dos humores do momento, de qualquer maneira, sem sombra de racionalidade. Obviamente, um insulto a qualquer "rebelde" que se preze e que tenha uma causa mínima. Como não acredito em rebeldias sem causa, e como acho que a história da irreverência juvenil tem os seus limites, embora seja natural e até desejável nos seus meandros normais, quase que desejava o regresso de alguns castigos corporais para pôr algum travão a esta malta. Como apesar de tudo vivo no nosso tempo, apenas gostava que alguns paizinhos assumissem algumas responsabilidades e dessem às proles alguma educação a sério, ao invés de lhes darem notas. É que marginais por marginais, sempre prefiro a rapaziada dos bairros camarários, com bastantes mais problemas sociais e económicos que determinados meninos irresponsáveis.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Mirandela na estrada

Em Mirandela organizou-se uma marcha lenta pelo IP-4 como forma de protesto pela anunciada saída da maternidade do concelho. Embora duvide da eficácia da iniciativa,e crendo que não ficaria muitocontente se tivesse de viajar nesse troço ás mesmas horas, estou totalmente de acordo com os mirandelenses. É certo que ministros, directores de jornais e "fazedores de opinião" acham que "é impossível ter todos os serviços ao virar da esquina". É verdade. Mas acredito que os que invocam esse argumento não vivam propriamente numa região com falta de estruturas básicas, como vias de comunicação decentes, hospitais, ou mesmo uma adequada oferta cultural. Aposto que 99% não residem a mais de trinta quilómetros do litoral.

Mirandela não é Barcelos, nem Santo Tirso, nem Oliveira de Azemeis. Não é exactamente um fim do mundo, mas as pessoas não têm a possibilidade de chegar à maternidade mais próxima num quarto de hora. Até porque Bragança é o único distrito continental que não tem um metro de auto-estrada. Parece que há mesmo a ideia (criminosa e desprovida de sentido) de encerrar o que resta da linha do Tua. Imagine-se ainda como será para as populações de Freixo de Espada à Cinta ou de Vimioso, ainda com piores acessos. Quando se fala na interioridade do país, melhor seria não vir com o "impossível ter os serviços à porta". Há quem não os tenha num raio de dezenas de kilómetros.
Mão Direita do Diabo



Sim, também é possível ver o ambiente dos film noir e dos romances policiais da Colecção Vampiro (ou mesmo da sua antepassada, a colecção Escaravelho de Ouro, da qual herdei alguns exemplares) escrito em português e por portugueses. É claramente o caso de Mão Direita do Diabo, de Dennis McShade, pseudónimo de Diniz Machado, com o seu anti-herói Peter Maynard, seco e rude, mas culto, a sua dreamgirl, as suas ligações aos sindicatos do crime, os seus comparsas ítalo-americanos, a sua úlcera, que o impede de tocar em álcool, tudo numa aura negra, cómica, gangsteriana. Para apreciadores do gênero, por muito que alguns o considerem "menor". Bem haja o Público e a Colecção 9 mm.

terça-feira, setembro 05, 2006

Sobre o Indy

Não houve quem, nos jornais ou nos blogues, se escusasse a deixar a sua declaração desentimentos ao Independente (é escusado fazer o link). Deixo então o meu modesto contributo para o epitáfio ficar completo.
Lembro-me ainda do primeiro número do jornal e da imensa publicidade que lhe fizeram, que conseguiu esgotar a primeira edição. Como era muito novo e a política era para mim um terreno obscuro onde se moviam seres engravatados, só me lembro de ver anunciado um cantor negro de jazz.

O perfil do jornal, graças à dupla MEC/Paulo Portas, era o de um libelo anti-cavaquista, que o rodeava pela direita, muito embora se inspirasse no esquerdista Liberation, com um estilo mordaz, frontal e agressivo, que tanto desenterrava casos reais como estampava histórias de veracidade mais que duvidosa.
Lembro-me particularmente da primeira metade dos anos 90, os do grupo do Altis, que criou o PP de Manuel Monteiro. Uma geração de jornalistas, agora mais convencional, formou-se exactamente no semanário de sexta-feira. O apogeu do jornal data dessa época, que coincidiu precisamente com os ataques mais acirrados ao cavaquismo. Alguns deles eram claramente injustos e mesmo infames. Lembro-me da perseguição que fizeram a Macário Correia, em que inclusivamente colocaram uma fotografia dos seus pais com aspecto, em parte forjado, de campónios. Miguel Esteves Cardoso veio aliás mais tarde pedir desculpa por esse exagero. O suplemento Indy não era menos irreverente (lembram-se da BD do major Alverquinha?), com críticas sardónicas de MEC, e outras um pouco mais sérias dos diferentes colaboradores.

O restante percurso do jornal é sabido. Portas trocou o jornalismo e as mangas de camisa pela política e pelos fatos de corte clássico; Esteves Cardoso saíu com outros projectos e regressou durante algum tempo, já sem o vigor do início. O projecto semi-ideológico do Independente começou a esgotar-se. Nos últimos anos, verificou-se uma tentativa desesperada de voltar aos "velhos tempos", mas já era tarde, e as ideias estavam longe de ser frescas e originais. Embora pudesse surpreender inicialmente, constata-se que o fecho do jornal era afinal uma inevitabilidade que ninguém se tinha lembrado de prever.

Com o fim de uma era no jornalismo luso, fica assim um espaço em branco à direita, tal como em todas as outras vertentes, a começar pelos partidos. O Semanário é uma irrelevância, o Diabo só mesmo para nacionalistas trauliteiros, o Expresso não tem suficiente carga ideológica, mantendo-se próximo do PSD (olha a redundância!). Está-se à espera do Sol para saber o que sai dali, mas calcula-se que seja um veículo para publicitar os pensamentos e as vaidades de José António Saraiva (e do omnipresente e enjoativo Marcelo Rebelo de Sousa). Talvez a legítima herdeira do Independente seja mesmo, num estilo menos irreverente e ácido, mais professoral e aprofundado, a revista Atlântico.

sábado, setembro 02, 2006

Scarlett em dose dupla

Não sendo tão aficionado desta estrela dos nossos tempos como alguns bons rapazes, a quem agradeço a fotografia aqui exposta, apraz-me registar que Scarlett Johansson surgirá no novo (e há muito esperado) filme de Brian de Palma, The Black Dhalia, o primeiro desde o intrigante e fantástico Femme Fatale. Um film noir como nos velhos tempos do gênero, felizmente. E aqui a "femme fatale" é a própria Scarlett. Que surgirá também em Scoop, outra parceria com Woody Allen, também em Londres, mas num registo mais de comédia do que em Match Point. Duas boas notícias para as telas de cinema. Será o melhor sinal de que o Verão acabou, apesar de Miami Vice. O que só prova que até as coisas tristes têm o seu lado positivo.


segunda-feira, agosto 28, 2006

A Âncora da Nova Democracia

Enquanto escrevia o post anterior, num posto dos correios de Vila Praia de Âncora, ouvia nas ruas um carro de som com música do mais conhecido filho da terra, Quim Barreiros, entrecortada com aquilo que parecia ser apelos para um comício político. Já lá fora, avistei a dita viatura com uma bandeira que me pareceu ser da CDU. Pensei logo que fosse para a Festa do Avante. Só depois me dei conta de que se tratava da ...Nova Democracia. Confirmei escassos minutos depois, ao abrir o Expresso, que acrescentava que a rentrée do movimento de Manuel Monteiro teria lugar num comício da localidade, para a presentação de um tal "Manifesto da Direita".
Lamentavelmente, perdi a oportunidade de assistir ao "primeiro comício da história do PND".Conservei-me em Moledo, e só voltei a ter ecos do evento no dia seguinte, por comentários de amigos que tinham passado em Âncora, de breves notícias nos jornais, que registavam as dificuldades burocráticas para a sua realização, e na prosa verrinosa de Vasco Pulido Valente, que chamou "maluquinho" a Monteiro (também dissertou sobre os monárquicos, mas sobre isso não me pronuncio) e ao seu projecto. Não querendo ir tão longe, até porque não sou tão sibilino quanto Valente, acho que o comício seria ao menos pitoresco, tendo em conta que parte da assistência estava nas esplanadas, pelo que lamento não ter aparecido para algumas impressões ao vivo de mais uma manifestação da "nova (?) direita". Mas concordo plenamente com o historiador, de quem acabo de ler a biografia de Paiva Couceiro, num ponto importante: come-se realmente bem em Âncora.

sábado, agosto 26, 2006

Mais um atraso na emissão de posts e na alimentação deste blogue. Numa tentativa de me redimir, dou conta de que andei uns dias em Trás-os-Montes antes de regressar ao Alto Minho (brevemente, alguns aspectos sobre a serra do Barroso, que não conhecia, em Agosto, quando a nação está ainda mais em peso no litoral, e no interior se vêem sobretudo carros de matrícula francesa).
Como o país político tarda a regressar, nesta silly-season à maneira, com Pontais e preparações da Festa do Avante, missões da ONU que tardam em ir para o terreno e rescaldos de incêndios, dou a primazia ao jogo-fantasma a ter lugar amanhã na Luz, depois da excelente vitória sobre o Áustria de Viena, e a notícia do reencontro na Liga dos Campeões com o Manchester United, Celtic e a surpresa Copenhaga, num conjunto de jogos aparentemente acessíveis para passar aos oitavos. Não se sabe se vai haver jogo, mas o Gil Vicente já entrou na camioneta rumo a Lisboa, e nem Benfica nem Belenenses sabem exactamente o que fazer. Nem Valentim Loureiro. Nem as instância desportivas e judiciais, no fim de contas. Dou mais razão aos de Barcelos do que aos do Restelo, a quem não reconheço a menor razão para não jogarem na Liga de Honra, mas agradecia que o caso tivesse um desfecho definitivo para evitar chatices maiores provenientes da FIFA e da UEFA.

domingo, agosto 20, 2006

João Carlos Espada: cada vez mais na mesma



Acontece muitas vezes, mas é sobretudo no Verão que João Carlos Espada se lembra de relacionar liberdade com o uso da gravata. Ficou famoso o seu artigo "Londres em Agosto", em que nos descrevia minuciosamente as regras do seu clube londrino, como se de um membro da Câmara dos Lordes se tratasse, reproduzindo metaforicamente a liberdade no uso de indumentária apropriada, em contraste com as "elites pós-modernas" (raio de mania de fugir à sua condição elitista), que viajariam de avião em calções e xanatas.
Desta vez, Espada continua a sua fome de gentlemanship nas universidades americanas. Ao que parece, numa das primeiras noites do seu périplo americano, achou que "as coisas tinham passado das marcas "porque, no Harvard Faculty Club, "ao pequeno almoço ninguém usava gravata". Para sua grande felicidade, o Liberty Fund convidou-o para uma conferência em Indianápolis, em que o próprio motorista "trajava casaco e gravata", e ainda por cima achava que a educação melhoraria se acabassem com o Ministério da Educação "e aí por diante". Ainda segundo palavras suas, "na América, toda a gente que se preze é a favor do small government".
Dissertando abundantemente sobre o Liberty Fund, os neo-conservadores, Adam Smith, Burke, Hayek, Oakeshott e quejandos, Espada, entre os seus novos colegas conferencistas, chega a uma conclusão inquietante: "olhei à volta e não vi ninguém sem gravata ao pequeno almoço. Lembrei-me de que no Harvard Faculty Club eram quase todos a favor da intervenção do Estado". Ou seja, segundo ele próprio, não eram pessoas que se prezassem.

Era o que eu já desconfiava: a doutrina espadiana, amálgama dos pensamentos de Popper, Berlin, Oakeshott e com uma réstia de respeito por Mário Soares, avalia os comportamentos, as ideias políticas e a força das convicções pelo traje e pela sua maior ou menor formalidade. Respeito, sem dúvida, mas discordo. É que embora classicista na minha forma de vestir (até de "velho" já me chamaram), e entendendo a necessidade de solenidade em certas ocasiões, olho para as ideias e para a ética com um pouco menos de leviandade. E entendo que a forma de vestir como se quiser é também uma expressão de liberdade, contrariamente aos fatos marciais da Coreia do Norte, ou à proibição de "vestes imorais" em alguns países onde a Sharia islâmica é lei. E que o facto de se usar gravata ou não ao pequeno almoço está longe de ser um comprovativo de "formas de conduta decente". O que não falta são escroques engravatados, sem ponta de senso moral. Nem todos as universidades ou outras instituições de ideias e cultura têm de ser uma cópia a papel químico de Oxford.
Já agora, e a propósito da referência no texto a um membro do Liberty Fund, cuja compostura sartorial ("botões de punho, suspensórios, e fato às riscas") era do seu apreço, relembro que um antigo companheiro de Espada nos velhos tempos da UDP, Pedro Cabrita Reis, numa entrevista que deu recentemente, teceu palavras muito pouco elogiosas ao actual Director do Centro de Estudos Políticos da UCP. Pelo que se viu na fotografia, envergava uns elegantes suspensórios.

sábado, agosto 19, 2006

Ainda não é desta

Para concertos estivais bastou o de Sábado. Ainda estive para ver o Morrissey em Paredes de Coura, mas a falta de vontade dos confrades, os trinta e tal quilómetros por estrada sinuosa até à vila, os quarenta euros pedidos pela entrada (só uma noite), e, acima de tudo, a chuva que se abateu impediosamente sobre a região dissuadiram-me por completo. Ainda se os Bloc Party fossem na mesma noite, arranjava-se coragem para enfrentar a intempérie, que o resto seria aleatório. Assim, resta-me esperar que o complexo Moz volte noutra altura para ver e ouvir a sua obra ao vivo. Num qualquer coliseu, que me parece espaço mais adequado do que o ar livre para se exprimir condignamente.
Entretanto, o sol está para voltar...

domingo, agosto 13, 2006

Stoned finally




Escrevo poucas horas depois de conseguir finalmente assistir ao concerto da maior banda de rock do Mundo, no Estádio do Dragão (ainda não tinha igualmente entrado no recinto do adversário). Falhadas as incursões a Alvalade em 95 e a Coimbra em 2003, pude ver o fabuloso circo visual, pirotécnico e sonoro dos dinossauros do rock. O seu lendário vocalista sexagenário parece ter trinta anos, pela forma como se requebra, corre e salta. A comunhão com o público foi perfeita, e só faltaram alguns êxitos (mas com uma carreira de mais de quarenta anos, só mesmo commais doze horas). Uma velha aspiração tornada enfim realidade. E uma forma de escapar aos ares malsãos que, arrastados por ventos da Galiza, trouxeram para o Alto Minho o fumo e as cinzas provenientes dos incêndios que não têm parado de dizimar a região dos nossos vizinhos a norte de Melgaço.

sábado, agosto 05, 2006

A banhos

Já devem ter percebido que a míngua de posts indicia que estou a banhos. No sítio do costume, aquela conhecida e ventosa praia a norte onde também reside o Dr. Sousa Homem (que ainda não conheço). Por acaso, hoje o vento é apenas uma leve brisa que amacia o autêntico dia de canícula E eu aqui a blogar. Com licença, que um dia de praia destes não se pode perder.
Tentarei actualizar o blogue dentro do possível.