domingo, agosto 20, 2006

João Carlos Espada: cada vez mais na mesma



Acontece muitas vezes, mas é sobretudo no Verão que João Carlos Espada se lembra de relacionar liberdade com o uso da gravata. Ficou famoso o seu artigo "Londres em Agosto", em que nos descrevia minuciosamente as regras do seu clube londrino, como se de um membro da Câmara dos Lordes se tratasse, reproduzindo metaforicamente a liberdade no uso de indumentária apropriada, em contraste com as "elites pós-modernas" (raio de mania de fugir à sua condição elitista), que viajariam de avião em calções e xanatas.
Desta vez, Espada continua a sua fome de gentlemanship nas universidades americanas. Ao que parece, numa das primeiras noites do seu périplo americano, achou que "as coisas tinham passado das marcas "porque, no Harvard Faculty Club, "ao pequeno almoço ninguém usava gravata". Para sua grande felicidade, o Liberty Fund convidou-o para uma conferência em Indianápolis, em que o próprio motorista "trajava casaco e gravata", e ainda por cima achava que a educação melhoraria se acabassem com o Ministério da Educação "e aí por diante". Ainda segundo palavras suas, "na América, toda a gente que se preze é a favor do small government".
Dissertando abundantemente sobre o Liberty Fund, os neo-conservadores, Adam Smith, Burke, Hayek, Oakeshott e quejandos, Espada, entre os seus novos colegas conferencistas, chega a uma conclusão inquietante: "olhei à volta e não vi ninguém sem gravata ao pequeno almoço. Lembrei-me de que no Harvard Faculty Club eram quase todos a favor da intervenção do Estado". Ou seja, segundo ele próprio, não eram pessoas que se prezassem.

Era o que eu já desconfiava: a doutrina espadiana, amálgama dos pensamentos de Popper, Berlin, Oakeshott e com uma réstia de respeito por Mário Soares, avalia os comportamentos, as ideias políticas e a força das convicções pelo traje e pela sua maior ou menor formalidade. Respeito, sem dúvida, mas discordo. É que embora classicista na minha forma de vestir (até de "velho" já me chamaram), e entendendo a necessidade de solenidade em certas ocasiões, olho para as ideias e para a ética com um pouco menos de leviandade. E entendo que a forma de vestir como se quiser é também uma expressão de liberdade, contrariamente aos fatos marciais da Coreia do Norte, ou à proibição de "vestes imorais" em alguns países onde a Sharia islâmica é lei. E que o facto de se usar gravata ou não ao pequeno almoço está longe de ser um comprovativo de "formas de conduta decente". O que não falta são escroques engravatados, sem ponta de senso moral. Nem todos as universidades ou outras instituições de ideias e cultura têm de ser uma cópia a papel químico de Oxford.
Já agora, e a propósito da referência no texto a um membro do Liberty Fund, cuja compostura sartorial ("botões de punho, suspensórios, e fato às riscas") era do seu apreço, relembro que um antigo companheiro de Espada nos velhos tempos da UDP, Pedro Cabrita Reis, numa entrevista que deu recentemente, teceu palavras muito pouco elogiosas ao actual Director do Centro de Estudos Políticos da UCP. Pelo que se viu na fotografia, envergava uns elegantes suspensórios.

sábado, agosto 19, 2006

Ainda não é desta

Para concertos estivais bastou o de Sábado. Ainda estive para ver o Morrissey em Paredes de Coura, mas a falta de vontade dos confrades, os trinta e tal quilómetros por estrada sinuosa até à vila, os quarenta euros pedidos pela entrada (só uma noite), e, acima de tudo, a chuva que se abateu impediosamente sobre a região dissuadiram-me por completo. Ainda se os Bloc Party fossem na mesma noite, arranjava-se coragem para enfrentar a intempérie, que o resto seria aleatório. Assim, resta-me esperar que o complexo Moz volte noutra altura para ver e ouvir a sua obra ao vivo. Num qualquer coliseu, que me parece espaço mais adequado do que o ar livre para se exprimir condignamente.
Entretanto, o sol está para voltar...

domingo, agosto 13, 2006

Stoned finally




Escrevo poucas horas depois de conseguir finalmente assistir ao concerto da maior banda de rock do Mundo, no Estádio do Dragão (ainda não tinha igualmente entrado no recinto do adversário). Falhadas as incursões a Alvalade em 95 e a Coimbra em 2003, pude ver o fabuloso circo visual, pirotécnico e sonoro dos dinossauros do rock. O seu lendário vocalista sexagenário parece ter trinta anos, pela forma como se requebra, corre e salta. A comunhão com o público foi perfeita, e só faltaram alguns êxitos (mas com uma carreira de mais de quarenta anos, só mesmo commais doze horas). Uma velha aspiração tornada enfim realidade. E uma forma de escapar aos ares malsãos que, arrastados por ventos da Galiza, trouxeram para o Alto Minho o fumo e as cinzas provenientes dos incêndios que não têm parado de dizimar a região dos nossos vizinhos a norte de Melgaço.

sábado, agosto 05, 2006

A banhos

Já devem ter percebido que a míngua de posts indicia que estou a banhos. No sítio do costume, aquela conhecida e ventosa praia a norte onde também reside o Dr. Sousa Homem (que ainda não conheço). Por acaso, hoje o vento é apenas uma leve brisa que amacia o autêntico dia de canícula E eu aqui a blogar. Com licença, que um dia de praia destes não se pode perder.
Tentarei actualizar o blogue dentro do possível.

quinta-feira, julho 27, 2006

Palavra de honra



Trocava a minha perna esquerda por uma de pau, e fazia-me pirata, pelas Caraíbas, Índico e Mediterrâneo fora, de punhal entredentes e pistolão à cinta, me deixassem fazer todos os takes desta cena no lugar de Johnny Depp.
Referência tardia a factos que a mereciam
A fraca produção blogoesférica e a concentração num número limitado de assuntos levou-me a esquecer de referir dois factos muito diferentes entre si (excepto talvez os culpados), mas que quase um mês passado merecem ser recordados.

Um deles é o assassinato a tiro de Martin Adler, jornalista sueco free-lancer, nesse desgraçado país que é a Somália, que ele tão bem conhecia e onde assinou inúmeros trabalhos. Muitas vezes o vi na Grande Reportagem, com as suas descrições nas latitudes mais perigosas do mundo, com ilustrações significativas da miséria humana que presenciou, como as ruínas de Grozny. No meu último ano da faculdade fiz um trabalho sobre as intervenções humanitárias e militares no Haiti e, exactamente, na Somália, em que tirei inúmeros apontamentos das suas reportagens na GR. Desapareceu agora, esse intrépido globetrotter do jornalismo, vítima de fanáticos islâmicos, ou de simples bandoleiros que enxameiam aquele território sem ordem nem lei.

O outro é o dos atentados em Bombaim (ou Mumbai, como dizem agora, mas eu prefiro a denominação já usada ao tempo de Dona Catarina de Bragança), há coisa de duas semanas, de novo em linhas férreas, o que já começa a ser hábito. Para um habitual frequentador de caminhos de ferro, como eu, não é muito reconfortante. Mas o mais espantoso é que as quase duzentas vítimas mortais e as centenas de feridos deram origem a não mais que um, dois dias de noticiários. As bombas em Londres no ano passado provocaram muito maior celeuma. Os autores não serão exactamente os mesmos, mas as motivações são certamente semelhantes.
Podemos sempre pensar que a situação em Israel desviou muito as atenções, ou que - hipótese bem mais sinistra - acontecimentos desta monta se estão a banalizar. Mas nada me tira da cabeça que em parte se deve ao famoso sentimento inversamente proporcional à distância bem exemplificado pelo velho Eça. O que, convenhamos, é muito injusto. Nem a Índia nem Bombaim são recantos obscuros. Eu tenho imensa admiração pelo estado indiano: com uma área enorme, à qual não faltam selvas fechadas, desertos, contrafortes dos Himalaias e rios imensos; uma história de passado violento entre povos autóctones e os colonizadores europeus; uma maioria hindu,com o seu indizível sistema de castas, e minorias muçulmanas, budistas e cristãs; ainda assim, consegue ser uma democracia sem grandes registos de golpes de estado e fraudes eleitorais, e economicamente prepara-se para ditar suas regras do jogo dos mercados mundiais. Portudo isso, merecia mais tenção. Uma atenção que futuramente não mais lhe será negada.

segunda-feira, julho 24, 2006

O Líbano, Israel, e os problemas de sempre

A guerra voltou ao Líbano e parece querer ficar. Aquela pobre tira legada pelos fenícios e ocupada por incontáveis ritos cristãos e muçulmanos, sempre que parece querer voltar ao normal, seja expulsando exércitos ocupantes ou reconstruíndo as suas cidades, vê-se inevitavelmente entre dois fogos.

O Hezbollah, com as suas milícias e o seu arsenal amealhado nos últimos anos, é o perigo imediato nas região. Jamais a vizinha síria se atreveria a dar a cara directamente, consciente das consequências que tal acto comportaria. O Irão é menos comedido e o seu discurso visceral mente anti-israelita continua afiado. O Hamas é outra ameaça, mas não parece ter os meios dos xiitas do norte, e sempre tem uma legitimidade popular que os outros não possuem. Além do mais, passa por fortes divisões no seu seio, que em nada beneficiam os palestinianos.
O problema que se discute é o da desproporcionalidade entre os ataques e a captura de soldados israelitas e a resposta militar de Tel-Aviv. A legitimidade para retaliar e neutralizar os inimigos de Israel é coisa que só os fanáticos poderão negar. Mas os ataques a alvos civis, o cerco a Gaza, deixando-a sem luz, e as numerosas vítimas deixadas pelo caminho tiram ao estado hebraico muita da sua razão.

Descontando os desvairados do costume, para quem os árabes deviam pura e simplesmente ser exterminados, não deixo de me espantar com as opiniões de Francisco José Viegas e de Pacheco Pereira, no Público da semana passada, mesmo tendo em conta a estreita ligação que o primeiro tem com Israel. Na sua versão, qualquer reacção israelita (que está "sozinho no mundo") é sempre justificada, os EUA cumprem o seu papel e a União Europeia toma sempre a posição anti-israelita. Talvez se esqueçam que a UE tem gasto mundos e fundos na preparação de forças armadas palestinianas que possam controlar as milícias mais radicais; que cortou os fundos à Autoridade Palestiniana como coacção às atitudes hostis do Hamas; que exigiu (e conseguiu) a retirada das tropas sírias do Líbano. Mas não; ao que parece, para alguns, a UE é "pró-terrorista" e os orgãos de comunicação social apenas olham para um lado. Só que o que parece nem sempre é, e talvez por isso haja esse lamentável esquecimento das reportagens nos destroços de Haifa, e da presença do MNE francês na mesma cidade, assistindo aos bombardeamentos. O argumento de que a "comunicação social" está contra Israel" é tão pernicioso como o mito do controlo da mesma pelos judeus.

Parcialidades também as há do outro lado. Vejam-se as opiniões do PCP e do BE, para quem a culpa é eternamente de Israel, as bombas são todas israelitas, e o Hezbollah nunca existiu. Dá vontade de perguntar se os senhores desviam os olhos ás imagens de destruição e fuga causadas pelos mísseis projectados do Líbano.

Nunca compreenderei porque é que tantos são sempre radicalmente pró-israelita ou palestiniano. Qualquer projecto sensato para a região implica que, para que haja dois estados em coexistência pacífica (e uma Jerusalém dividida equitativamente), as forças para-militares islamitas, porque é disso que essencialmente se trata, sejam desarmadas e reduzidas à sua condição civil. Até lá, Israel tem direito a defender-se e inclusivamente a entrar no Líbano, se as forças deste país não actuarem eficazmente. A actual incursão terrestre parece-me bem mais aceitável do que os bombardeamentos anteriores. Não é explodindo com aeroportos e edifícios civis que a paz vai ser alcançada. Actos desses apenas aumentam o ódio e fortalecem os radicais, em lugar de os travar. Essa é uma lição que Israel já devia ter aprendido há anos, com a larga experiência que tem. A destruição de um autocarro e a morte dos seus passageiros, por exemplo, pelas forças israelitas, em nada se distancia de idênticos actos dos bombistas suicidas. E estão a provocar uma catástrofe humanitária no Líbano, entre mortos e centenas de milhares de refugiados, que só os mais facciosos poderão negar. Como diz o Bruno Cardoso Reis, nesta excelente posta, o direito à legítima defesa não permita fazer o que muito bem apetecer. A coberto da incompetente diplomacia Norte-Americana, que parece que com a visita da srª Rice a Beirute ficou um pouco mais clarividente. Fiquem ainda com este textos do Portugal dos Pequeninos, da Sexta Coluna e do meu estimado Corcunda. Tudo perigosíssimos "amigos dos terroristas". Assim como Mario Vargas Llosa, outro notório "anti-semita" cujo artigo no El Pais o Avesso do Avesso em boa hora se lembrou de reproduzir na íntegra.
PS: hoje um míssel teleguiado israelita matou quatro representantes da ONU, apesar de horas de avisos telefónicos sobre a situação exacta dos malogrados observadores. "Um erro", segundo as forças de Israel, se bem que não tenham explicado como é que o cometeram tão clamorosamente se têm tão boas informações sobre o paradeiro dos agentes do Hezbollah. Afinal a sua informação é mais deficiente do que o que querem fazer crer ou ocorreu aquilo que em direito civil se chama negligência grosseira?
Entretanto esta tarde dei de caras com umas dezenas de manifestantes "pela paz", e "contra o terrorismo de Israel". Surpreendentemente, não encontrei nenhum contra o terrorismo do Hezbollah. Querem ver que era outro caso de negligência grosseira? O velho Código Civil está mais presente nas nossas vidas do que imaginamos. E para que conste, um dos manifestantes usava uma t-shirt vermelha com a fouce e o martelo a toda a largura da veste.

domingo, julho 23, 2006

Público de Domingo

Nem sempre concordo com Vasco Pulido Valente, devido ao seu pessimismo radical, à forma como tantas vezes fala das coisas sem ter uma real noção ou conhecimento de causa, ou à mania que tem em elogiar algumas personalidades (o que é raro) para depois as desancar(o normal).
Mas hoje aconselho vivamente o seu artigo no Público sobre Rui Rio, as suas prepotências e caprichos, desde as célebres entrevistas por escrito até ao condicionamento de atribuição de subsídios em troca de atitudes acríticas e servis. E, mais que tudo, as delirantes teorias da conspiração contra a imprensa inseridas na "informação" do site da CMP. O entusiasmo do início do seu mandato deu definitivamente lugar à desilusão e à indignação. A tão propalada "forma diferente de fazer política" do Dr. Rui Rio não passa afinal de um portentoso bluff.

No mesmo jornal, Rui Moreira fala de Ernesto Azevedo, que desapareceu recentemente de forma discreta. O mentor do mítico Portucale, o melhor restaurante do Porto - e com a melhor vista, quase aérea - deixa o seu especialíssimo lugar vago a quem o souber ocupar com igual competência, o que é tarefa ciclópica. Um dos marcos gastronómicos do país vê assim o seu futuro nublado. Esperemos que, tal como nos dizem tantas vezes, não haja insubstituíveis.
A propósito, terá Rui Rio tido conhecimento de tal perda? Ao menos que lhe conceda uma medalha de mérito municipal, ou um louvor, a título póstumo.

Adenda: no Público propriamente dito aparece, nas páginas finais, uma fotografia de Uma Thurman, em toda a sua graça. No suplemento Pública aparece a inquietante Kate Moss, com uns calções curtíssimos. Repare-se nas semelhanças entre as duas, excepção feita aos ditos calções e ao chapéu de Uma. Semelhanças essas que não me impedem de dar uma nota muito mais alta à heroína dos filmes de Tarantino. Kate que me desculpe, mas não há volta a dar-lhe.

quinta-feira, julho 20, 2006

Week-End algarvio







Em dias tão quentes (até Segunda), apraz-me saber que passei o fim de semana no sítio mais fresco do rectângulo nacional: Sagres, esse pedaço mítico de Portugal desafinando o oceano. Ainda assim, posso assegurar que os raios solares não eram assim tão poucos que não impedissem a inevitável mudança de pele. Valeram as praias da Costa Vicentina, inexpugnáveis atrás das falésias, dos montes e dos caminhos de terra batida, os jantares em Vila do Bispo, as noites ao ar livre em Sagres, e, claro, a numerosa companhia. Sinal menos só para a turba bretã que enxameava pela bela Lagos (e como cresceu a cidade de Gil Eanes!), pelas suas ruelas e areias, apresentando preocupantes sinais de excesso de álcool e de substâncias ilegais. Pena o fim de semana ser por norma tão curto. Já se sabe que em Agosto vai ser o caos autêntico.

terça-feira, julho 18, 2006

Cinquenta anos



Cinquenta anos de incentivo à cultura, às artes, à investigação, ao combate à iliteracia. Meio século de excelência e de vanguarda. Que Rui Vilar continue com o mesmo rumo, para daqui a outras cinco décadas podermos comemorar o centenário com idênticas palavras. Parabéns à Gulbenkian, e louvado seja aquele senhor arménio que se lembrou de a criar. Perdoem-me a blasfémia, mas neste caso é justificada.

sexta-feira, julho 14, 2006

Crazy Diamond

Morreu Syd Barrett. Fisicamente, porque que para o público estava já quase enterrado desde 1972. O homem que passou os últimos 30 anos em reclusão na sua casa de Cambridge, pintando quadros abstractos, andando de bicicleta e jogando dominó sozinho, com a generosa reforma que os seus direitos de autor lhe proporcionaram, era um perfeito autista, escondido do mundo e da fama. A tal estado condenou-o a LSD excessiva do seu psicadelismo irreal. Os seus Pink Floyd continuaram, mudaram o estilo e conquistaram o mundo. O autor de Arnold Layne desapareceu definitivamente. A lenda, essa, já dura há trinta anos e terá agora tendência a dilatar-se.

quinta-feira, julho 13, 2006

Pós-campeonato

A febre do Mundial afectou tudo e todos, e isso foi particularmente visível aqui no blogue. Olhando para os últimos posts, reparo que quase não falei de assuntos que não tivessem a ver com a competição. Pacheco Pereira por certo ficou chocado, caso tenha aparecido por cá. Por isso, façamos um ponto da situação para encerrar o assunto.

Portugal não teve exibições de uma beleza estonteante (apesar de ter ganho da FIFA o galardão de "equipa mais atractiva"). Mostrou uma equipa com talento, garra, esforço, agressividade q.b., com capacidade para ir à final. Os epítetos que certos comentadores de países adversários lhes lançaram, tendo um fundo de verdade, foram de uma hipocrisia atroz - veja-se as manobras inglesas antes do jogo com Portugal, ou os mergulhos que acalentaram penaltys aos franceses. Safa-se a Alemanha, de que se falará daqui a pouco.

Durante um mês, ouviram-se os profetas da desgraça e aqueles para quem o alvo das atenções constituía a distracção do povinho, a futebolice nacional, etc. Aqueles para quem a condição de ser português é insuportável, e que só o que vem lá de fora tem préstimo. Como se "lá fora" não houvesse a mesma loucura pela bola, até em doses maiores. E tenho pena de não ouvir uma opinião de João Carlos Espada sobre a sua tão amada Albion, terra de gentlemanship e liberdade, no seu acompanhamento aos seus ídolos na Alemanha (hélas, desta vez para perder). Como é evidente, os comentários do tipo "agora que se acabou o futebol, temos o Verão, e lá para Setembro as pessoas dão-se conta desta desgraça" estão na ordem do dia, e são tão previsíveis que deviam constar das aposta da Betandwin. A pseudo-intelectualidade misturada com pessimismo e com um elitismo escondido dá frequentemente resultados assim. Pena que não se alegrem com os exemplos dos jogadores em levarem Portugal tão alto, na sua permanente maledicência, e passem o tempo a desvalorizar o que devia ser regra no país. sim,eu tenho pena que não estejamos nos quartos de final do civismo,etc. Mas já que chegámos a este ponto, porque não comemorar? O futebol serve para isso mesmo, a não ser que"civilização" signifique permanente tristeza, depressão, fleuma, bocejo.

A Alemanha ficou extremamente bem vista com este evento, quer pela organização, como pelo acolhimento, alegria e fair-play que demonstraram. Diz-se que este campeonato pode ser excelente para que a economia italiana volte a crescer. Não há dúvidas que tem sido um meio ano excelente para a península, contando com as derrotas de Berlusconi e a prisão do Capo Provenzano. Mas interessa-me igualmente o futuro da Alemanha. Pode ser uma ilusão, mas quem sabe se, tal como em 1954 a conquista do Mundial da Suíça face aos "invencíveis magiares" deu um alento suplementar à jovem e titubeante RFA, este novo orgulho nacional, esta consciência de que o empreendedorismo germânico pode-se conjugar com entusiasmo e simpatia, não será uma das alavancas para que a Alemanha, com um hipotético despertar italiano, volte a ser o motor da Europa?

E por agora, basta de posts sobre futebol, apesar do Benfica ter voltado aos trabalhos para a nova época. O Mundial já lá vai, embora as polémicas permaneçam. Falemos agora de (outras) "coisas sérias".

terça-feira, julho 11, 2006

Italia

Tal como desejava, os transalpinos ficaram mesmo com a Jules Rimet, 24 anos depois, confirmando todas as superstições.



O resultado nos penaltis deixa sempre um amargo de boca a quem perde. Desta feita, ironicamente, deixou a Trezeguet, ele que tinha marcado o golo da vitória da França no Europeu de 2006 contra a ...Itália.
Mas acaba por ser justo, não só pelo percurso da Itália mas igualmente pela consagraçaõ de vários jogadores que o mereciam há muito tempo, como Totti, Canavarro, Buffon, Nesta, Del Piero e um guarda-redes veterano que nem sequer jogou, mas que eu apreciava particularmente: Peruzzi.

Inaudita foi a despedida ao pior nível do maior jogador da década. Por muito que Materazzi lhe pudesse ter dito, nada justificava a marrada que deu. Talvez saudades dos touros da Provença...Mas toda e qualquer moral de "fair play" que o detestável Domenech tanto apregoava esvaiu-se definitivamente, isso depois dos penaltis duvidosos que permitiram à França chegar à final.

domingo, julho 09, 2006

Olímpico de Berlim

O estádio de Berlim onde se joga a final do Mundial tem, como todos sabem, uma carga como poucos. No seu recinto, nos Jogos Olímpicos de 1936, Jesse Owens, com as suas quatro medalhas de ouro, humilhou Hitler e a convicção de superioridade (neste caso desportiva) nacional-socialista.
Poupado pela guerra, o Estádio Olímpico passou a casa do Hertha de Berlim, já que estava situado na parte ocidental, e mais tarde a receber a Taça alemã.
Até 2000 manteve-se quase inalterado, a partir daí começou a receber obras de remodelação para este Mundial, onde entre outras coisas se descobriu um engenho explosivo que jazia nas bancadas desde a Guerra. No alto colocou-se uma cobertura que mudou quase radicalmente a perspectiva anterior do recinto.
Eis o Estádio em 1936, na altura dos JOs:




Em 1998, quando por lá passei, o estádio era assim:


As imensas remodelações deram-lhe o aspecto actual



A fachada ainda conserva a face original


E agora, que vençam os Azzurri!
Fim da ida ao Mundial - o jogo

Do fim do nosso Mundial falarei mais tarde, bem como de Figo. Mas agora,a poucas horas do fim, quero apenas acabar o dossier da minha ida ao evento com a descrição breve do ambiente no jogo Portugal-Irão. Já lá vai há uns tempos, eu sei, mas já tinha prometido falar nisso, portanto aqui fica.
Desde logo, a facilidade de transportes desde o centro de Frankfurt até ao recinto, em metro directo. Quem não tivesse a percepção da sua localização estranharia ao não vê-lo ali ao lado, mas é preciso dizer que o Waldstadion fica mesmo rodeado por um espesso bosque, com uma extensa alameda até aos seus portões. Nada que saber.
Lá dentro, uma temperatura agradável. Um estádio coberto e com ecrãs suspensos a meio, coisa que nunca antes vira ao vivo. E milhares de iranianos, muitos mais que os lusos, embora não tão exageradamente superiores em número como um jornal quis fazer crer, ao dizer que "aos cânticos iranianos nem valia a pena tentar resistir". Em muitas bandeiras era visível o leão coroado do tempo da dinastia Pahlavi.


E depois as entradas dos jogadores. O hino, sempre um momento de orgulhosa emoção. O apito inicial, as correrias dos nossos jogadores, as belas jogadas, os remates infrutíferos, as contínuas tentativas. Depois, o intervalo,a espera, o nervoso miudinho pelo 0-0 confirmado nos ecrãs. Numa pequena volta, reparar que há ainda inúmeros adeptos alemães, japoneses, ingleses, escoceses, coreanos e mexicanos, com penas de pavão seguras em armações com motivos aztecas.
Recomeço do jogo. Novos remates,novas jogadas, o primeiro perigo esboçado pelos persas. E de súbito, Figo a correr, a passar a Deco, e este a fuzilar para o magnífico golo! Euforia total, o "já está" próprio destas ocasiões, e os incentivos ao tento da tranquilidade. E ao "ponham-se a brincar, ponham", quando o Irão quase marca.
Nova jogada de Figo e...penalty. Ao longe pareceu-me fora da área, mas é mesmo dentro. O miúdo Ronaldo respira fundo, olha para a baliza e concretiza. Aquela expressão de triunfo irrompante, que todas as TVs passaram a seguir foi bem visível nos ecrãs.Talvez a imagem marcante do jogo. Depois, o controlo normal, o desânimo do Irão, as substituições para queimar tempo e para os aplausos. e o apito final. vitória, a Selecção está nos oitavos! Os iranianos, tão eufóricos no início, perderam muita da animação: o jogo com Angola é para cumprir calendário.
Já a saída dos portugueses é retardada pela música de fundo, que espalha a Força, de Nelly Furtado. E é o delírio, com os patrícios a entoarem a música em coroe a agitar as bandeiras. A banda sonora perfeita para a vitória.
E lá fora a multidão, as Televisões de vários países, como a coreana, a perguntar-nos a opinião ,e a SIC, rodeada do habitual círculo de tugas, em que um mais ponderado lá diz que é difícil mas que "estamos com a selecção", enquanto os outros não cessam de gritar que "somos os maiores, vamos ganhar o Mundial!". O costume, nas euforias. Antes do regresso à cidade propriamente dita, de metro, a tempo de ver um excelente Gana-República Checa, e rodeados de dezenas de iranianos, de resto uns tipos impecáveis e afabilíssimos.

A miséria paga-se com gestos adequados

A campanha que algumas mentes inquietas andam a fazer contra Cristiano Ronaldo é absolutamente miserável. Depois das entrevistas imaginárias e das reacções próprias de hooligans da sua lamacenta imprensa, os ingleses criam sites de puro ódio contra o jogador, pela simples razão dele se ter queixado ao árbitro de Rooney e por ter marcado o penalty definitivo. Provavelmente julgam que o contrato com o United o obriga a continuar a servi-los quando enverga a camisola da Selecção. Mas assim como há maus perdedores, há igualmente maus ganhadores, como atestam diferentes opiniões francesas, que caiem igualmente sobre Ronaldo (como se Henry fosse um santinho); o seu treinador Domenech é aliás uma prova viva disso, mas Scolari disse as palavras todas na cara.
Para gente que nos acusa de falta de fair-play e tem reacções destas, há que dar o devido desprezo. Não aprecio muito o vernáculo gestual, embora o verbal seja muitas vezes usado com mestria. Mas por uma vez abro uma excepção e mostro o conselho que Ronaldo devia dar aos tabloides e seus entusiásticos seguidores.














quinta-feira, julho 06, 2006

A sina

Como temia, perdemos de novo contra a França. Nas meias finais. Com um penalty bem aproveitado por Henry e imaginado pelo árbitro. E depois não tivemos imaginação para desfeitear uma França totalmente na defensiva, nem com a ajuda de Barthez. Scolari continua a fazer substituições incompreensíveis: colocar Postiga é deixar a equipa com dez.
Para piorar as coisas, ficámos sem Miguel e sem Ricardo Carvalho para enfrentar a Alemanha e Klose no Sábado, na final dos pobres. Uma desgraça nunca vem só. E com esta série de desforras falhadas, estou mesmo a ver que a França ganha com uma vaca incrível, tal e qual em 2000. Por isso, desejo encarecidamente que esta Itália acabe como em 1982. Porque merece e é mais equipa. Não basta Zizou, que hoje, além do penalty, pouco se viu.

quarta-feira, julho 05, 2006

Nervoso miudinho

E agora, começa o nervoso miudinho para logo à noite. É sempre assim, nas meias-finais, a não ser talvez há dois anos, contra a Holanda. Mais uma final? Recambiados para o 3º/4ºlugar? Seja como fôr, aconselho todos os que possam a ler mais uma fantástica crónica de Manuel Alegre no Público. E por arrastamento, as dos outros, desde Manuel Queiró a Eduardo Lourenço.
Ontem, no imenso anfiteatro de Dortmund, outro dos nossos adversários ficou definido (que novidade!): a Alemanha, o último favorito, sofreu um banho gélido na moral cruelmente dado pelos "assassinos" italianos Grosso e Del Piero. Os transalpinos justificaram a vitória sem demasiado cattenacio e estão na final. E que ninguém se admire se acabarem com a Taça nas mãos, a exemplo de há 24 anos. Eles estão ali para isso.
Espero, naturalmente, que os próximos adversários do grande treinador que é Lippi seja uma equipa comandada por um técnico igualmente com nome italiano. Mas há um campeonato que os franceses já ganharam: o dos slogans. No meio da banalidade patriótica que se viu nas frases oficiais de apoio, a equipa gaulesa destacava-se com um esplêndido "liberté, Egalité, Jules Rimet". Que se fiquem por aí e que deixem o título mundial ser disputado pelos vizinhos mais a sul.
França? Oh, não!

Os meus desejos momentâneos concretizaram-se, e a "velha" França recambiou aquela imitação de "futebol de samba", com avançados gordos, extremos cansados e laterais recauchutados, de volta para férias, a ver se reaprendem a jogar como sabem. Nada mais justo e óbvio. Só que para nossa desgraça, vão jogar conosco. Já todos se devem ter dado contade de que este Mundial, além de ser o comprovativo da experiência sobre a juventude, não serve definitivamente para desforras. A França estragou os planos à "fúria" espanhola e ao escrete. Nós voltamos a tramar a Holanda e a Inglaterra pela enésima vez, sendo que os últimos já nem devem poder ouvir falar em penalties e limitam-se a verberar o Cristiano Ronaldo (?) nos seus Mirrors e Suns. E a Argentina não se vingou igualmente da Alemanha. Por isso, temo que as memórias pobres de 84 e 2000 regressem.
É caso para apreensão, sem dúvida. E eu, que nãovi o jogo dos Galos contra os Canarinhos, fiquei ainda mais temeroso ao ver Zidane regressar aos tempos de glória. Está tudo aqui. Mete medo. Mas, há que reconhecê-lo: ele merece. Apesar de ser o nosso próximo adversário, não deixa de ser emocionante ver este jogador de 34 anos em dribles sucessivos, como se jogasse nas ruas de Marselha, ao som desta música de Rod Stewart (autor muito longe das minhas preferências). Mesmo à beira do fim da carreira, Zizou continua a ser o maior.
Freitas

A substituição pecou por tardia, dizem uns? Nunca devia ter entrado no governo, atalham outros? Será uma perda contra o "imperialismo norte-americano", prefere lembrar fulano? É uma pena ir-se agora, lamenta-se sicrano? Entre todas estas análises encontram-se provavelmente os fundamentos da mais correcta. Para mim, e apesar dos vários erros cometidos, das precipitações e de algumas afirmações precipitadas e desbocadas, tenho uma certa pena de ver o ex-MNE a saír. Além de um bom académico e de revelar interesses multifacetados, seja pela poesia, pelas biografias de figuras históricas e pelo teatro, nos quais se mostrou bastante activo, a defesa de uma certa diplomacia e de uma certa Europasão dignas de registo. E num tempo em que se passao tempo a falar do "politicamente correcto", com o qual, curiosamente, ninguém se identifica, teve a sua graça ver Freitas saír-se com declarações demasiado "incorrectas", provocando a ira quase geral e os anátemas de "esquerdista" e "pró-terrorista".


Para o seu lugar, Luís Amado, homem já conhecedor dos cantos à casa e com experiência nos assuntos externos. Sai igualmente Fernando Neves e entra Manuel Lobo Antunes. Para o lugar de Amado na Defesa, Severiano Teixeira. Tudo em família. Não parece que futuramente vá haver choques no Conselho de Ministros por causa dos dois novos membros

sábado, julho 01, 2006

Ah, Leão!














Derrotou de novo a Selecção dos "Three Lions" e quase alcançou o recorde do mítico Ducadam. O herói maior (mas não único, pense-se na defesa) de um jogo chato e sem graça, em que tivemos a sorte toda do nosso lado. Não importa. Quarenta anos depois, estamos de novo nas meias-finais de um Mundial, sendo que desta vez fomos nós a acabar com as esperanças inglesas. Apenas lamento pelo grande Eriksson, mas se acreditasse no destino diria que estava escrito que ele acabaria os seus dias à frente da Selecção inglesa com uma derrota perante a sua bête noire: Scolari.

PS: acabo de saber que Ricardo bateu mesmo um novo recorde em Mundiais. Já podem repôr aquela faixa que os adeptos boavisteiros há anos envergavam no Bessa: "Ricardo, o maior do mundo".

quarta-feira, junho 28, 2006

De que Richardson se trata?

Está nas salas de cinema um thriller chamada Asylum. História da mulher de um psiquiatra, a trabalhar num asilo de alienados, que se apaixona por um dos doentes, um indivíduo que a seduz mas que, todos a avisam e logo o demonstrará, é um perfeito psicopata.
Não é que tenha especial interesse em ver o filme. Mas depois de ver uma ou outra sinopse, fiquei confuso com o elenco: a protagonista era Natasha ou Miranda Richardson? Os dois nomes surgiram-me em publicações diferentes. Até que consegui tirar a dúvida a limpo, mas ainda assim fica o esclarecimento: a protagonista é Natasha Richardson (à esquerda), mulher de Liam Neeson e filha de Vanessa Redgrave, e interpretou igualmente há pouco tempo A Condessa Russa. Miranda (à direita) é uma consagrada actriz britânica, que entrou em séries como Black Adder e em filmes como Jogo de Lágrimas e Sleepy Holow. Deixo aqui igualmente o tira-teimas visual, para uma melhor fixação das respectivas fisionomias.
















Oitavos/quartos
Pois é. O desprezo castelhano (e catalão, andaluz e galego, porque a sua seleção é a única coisa que une o país vizinho) voltou a saír furado. "La Furia" teve uma entrada a todo o gás, previu que ia reformar Zidane, e, ironia das ironias, acabou por ser o craque francês a mandá-los para casa. Para mais, a Ucrânia, a quem tinham dado quatro secos na primeira jornada, ganhou a disputa das grandes penalidades à Suíça e segue em frente. A equipa helvética era a imagem do país: não tinha grandes figuras, mas era bem cronometrada; acabou por se despedir sem sofrer um único golo, fiel à sua neutralidade. A turma de Shevchenko tem agora a cinicíssima e aliviada Itália pela frente. Seria uma surpresa se os azzurri não ganhassem, mas quem sabe se os ucranianos não resolvem imitar os vizinhos Bulgária e Roménia, revelações no Mundial de 1994.
Já o Brasil, com uma mistura de sorte, eficácia, experiência e desacerto na finalização africana, lá seguiu em frente, com o vidrão ambulante outrora conhecido por Ronaldo, o Fenómeno, ultrapassando a marca do Bombardeiro Muller.
Emocionante será, espero, o regresso aos históricos Alemanha- Argentina. Maradona e Matthaus vêem apenas de fora, mas há craques para todos os gostos, desde a dupla atacante de origem polaca até às revelações como Maxi Rodriguez, que não conhecia.
E, claro, a reedição do nosso combate com os ingleses, provavelmente o povo mais fanático por futebol, e aqueles que mais convencidos estão da sua superioridade com o esférico, muito embora a realidade lhes seja adversa e cruel. Já se sabe que nas bancadas e nas ruas eles ganham por goleada. E por muito que nos digam que a maior parte deles pertence agora à midclass, temem-se sempre os hooligans e os bêbedos, seja de que classe forem (podem muito bem não ser das workers). Dentro do campo, "Big Phil" saberá certamente como vencer Eriksson, aguardando-se que não haja novo confronto guerreiro como contra os laranjas. A classificação de "Batalha de Nuremberga", que promete ficar imortalizada, tem um tom bem mais épico e historicamente mais memorizável, que "batalha de Gelsenkirchen", tanto pela pronúncia desta última como pelo carácter mineiro da cidade do Rhur. Até porque minas de carvão é matéria bem mais conhecida dos ingleses...
Ainda a propósito da refrega de Domingo, além da intencionalidade dos holandeses em querer acertar nos nossos jogadores, como aquele "Moulin Rouge" e das desculpas esfarrapadas que deram, parece que ainda temos de aturar com (má) vontade dos britânicos em penalizar Figo, as pressões de pasquins do tipo Sun e a total crença da sua parte na passagem às meias finais. Se perdem, Scolari tornar-se à no seu eterno pesadelo.
No fundo, estes países mais não fazem que demonstrar os seus genes, revelando-se dignos dos seus antepassados corsários, que no Séc. XVII atacavam as feitorias lusas nas costas de África, Brasil e Oriente. Certamente que os descendentes de Salvador Correia de Sá e de Henrique Dias não deixarão o crédito português por mãos alheias. Não é à toa que ninguém fala holandês em territórios com mais de duzentos metros de altitude.

segunda-feira, junho 26, 2006

Drama e glória
Contra uma equipa holandesa sobrevalorizada (cheguei a pensar que seria uma das revelações da prova) e sem classe, e um árbitro desvairado que pensava impôr autoridade com expulsões, a experiente e abnegada equipa portuguesa conseguiu levar a melhor, uma vez mais. Para além da satisfação óbvia pela vitória e pela passagem aos quartos de final (objectivo mínimo), alegra-me que estes campeões da falta de desportivismo tenham ido de vela. Foram eles, e não nós, que demonstraram esperteza saloia. E as palavras de Van Basten no final foram de uma hipocrisia atroz - justificou o miserável acto de Heitinga com um imaginário"anti-jogo português"!
Segue-se a nossa velha conhecida Inglaterra, uma equipa que normalmente promete muita parra mas sai pouca uva. Têm uma fabuloso meio-campo e uma defesa sólida, mas o ataque não é dos melhores e na baliza é o que se sabe. Há esperança, portanto. Mesmo sem Deco e Costinha. E vamos lá ver em que estado ficaram Ronaldo, Figo e Ricardo Carvalho. Mas os sucedâneos serão certamente dignos da camisola.
Vencê-los de novo, é o que se pede.

sexta-feira, junho 23, 2006

Adieu, Zizou?

Cruz, credo! Esperemos que não.

PS: interrompo por um fim de semana a crónica sobre o Mundial em Frankfurt. Quando a completar, com a parte relativa ao jogo propriamente dito, espero que Portugal esteja já nos quartos de final, ultrapassando a sempre complicada Laranja Mecânica.

quarta-feira, junho 21, 2006

Frankfurt - o Mundial


Na minha estreia em Mundiais de futebol já esperava encontrar um ambiente fervilhante, parecido com o do EURO-2004, mas em versão maior e globalizada. Além disso, os metereologistas apontavam bom tempo para a Alemanha, ao contrário das nossas trovoadas pré-estivais. Assim era. O tempo tépido (realmente quente no Domingo) aliado à profusão de nacionalidades contribuía para o bom ambiente que se vivia. Logo depois da chegada ao aeroporto, onde me cruzei com Eusébio, depois de ter viajado com parte do PSD-Porto, e ainda antes da necessária instalação no hotel, quase paredes meias com a Selecção, deu para ficar com uma ideia do entusiasmo local. Na plataforma das chegadas um ecrã gigante mostrava o calvário dos sérvios. Uma hora depois, já os argentinos estavam, se assim se pode dizer, euforicamente contidos. Em relação ao desastre de 2002, é um avanço. Já os eslavos deviam ter bebido para esquecer, a avaliar pela forma como conduziam, saltando bermas e passeios, quase chocando com os croatas, compreensivelmente alegres.
Respirava-se futebol em toda a parte. Setenta por cento dos transeuntes envergava uma camisola alusiva à bola. Algumas eram de clubes - vi vários alemães com a do Benfica, por exemplo, mais do que do Eintracht Frankfurt. Aliás os alemães, com o seu tímido patriotismo que lá se vai libertando das amarras da Segunda Guerra, usavam um pouco de tudo, além do equipamento da mannschaft. Fartei-me de ver famílias inteiras, de um louro elucidativo, com a camisola portuguesa e as cores verde-rubra na cara. Outros apostavam mais no Irão, e havia mesmo os que usavam camisola de um país e bandeira do outro. Também não faltavam postos de venda do evento, com equipamentos para todos os gostos, menos para o meu, que não arranjei a camisola do Eintracht e tive de me contentar com a mais parecida, a alternativa da Alemanha.
Mais do que nas praças, a festa fazia-se na Main Arena e na fan area, nas duas margens do Meno. A tela gigante dos jogos estava, como já disse, a meio do rio. Jamais consegui lugar nas cadeiras, sempre ocupadas; tive de me contentar em assistir aos desafios de pé, excepção feita à segunda parte do Holanda-Costa do Marfim, que vi num simpático bar flutuante.
Uma das grandes diferenças entre os eventos lusos e o deste país de bebedores de cerveja é que se devolviam os copos da dita, evitando-se assim um cenário desolador de plástico esmagado. Na devolução,tinha-se o reembolso de dois euros. A parte chata é que nunca se podia circular para longe com a bebida.
Durante o dia, a fan area parecia um parque de diversões, com uma roda gigante, pequenos campos para se jogar futebol de cinco, diversões típicas de feira, barracas de pipocas, cachorros e cerveja, etc. Tal era o movimento que numa dada altura, creio que depois do Gana - República Checa, enquanto os africanos festejavam, se impediu por uns largos momentos que entrasse mais gente. As entradas eram mais rigorosas que nos estádios, com revistas que seriam certamente apreciadas por ninfomaníacas. Pelo que eu visse, não houve cenas muito conturbadas, a não ser talvez uma discussão entre namorado(a)s italianos.
De noite, aquelas margens transmutavam-se numa festa ao longo do rio. Como havia barracas de diversos países, as festas nacionais faziam-se aí. Havia, claro, os não representados, como o Egipto ou a Turquia. Noutros, como na de Portugal, a animação era rija, mas talvez menor em número que a do Irão. Havia mesmo uma barraca de Trinidad e Tobago, com naturais das ilhas que me recordaram que o Latapy tinha também jogado na Académica.
A afluência de gente era grande, mas variava consoante fosse dia de jogo na cidade ou qual era a equipa que jogava nesse dia. Por exemplo, dos milhares de mexicanos que se viam em Frankfurt na noite em que jogaram com Angola, e contra quem gritávamos o nome da ex-colónia, de Zé Kalanga e de Mantorras, restava no dia seguinte um número diminuto, sendo substituídos por vagas de italianos e americanos, e depois por coreanos e croatas. A transumância dos povos é impressionante em tempos de Mundial. Mas há sempre uns ilustres representantes que ficam no mesmo local.

terça-feira, junho 20, 2006

Frankfurt - a cidade

 

Qualquer pessoa que viaje com mediana regularidade já passou com certeza pelo aeroporto de Frankfurt am Main, quase sempre fazendo escala, podendo entrever a cidade apenas ao nível das nuvens. O que se vê é uma cidade correndo ao longo de um rio, com um conjunto de arranha-céus à americana, antes de uma parte central já mais "tipicamente alemã".
É uma imagem redutora, claro, mas a realidade não anda muito longe disso. Com os seus seiscentos e poucos mil habitantes, tem o aeroporto mais movimentado da Europa, a maior Feira do Livro do Mundo (e de têxteis, automóveis, etc), é a sede das instituições financeiras da UE e é uma encruzilhada nas vias férreas, rodoviárias e fluviais do país. Pesada responsabilidade, portanto.

Os arranha-céus, quase todos de instituições bancárias (o Commerz Bank é omnipresente e até patrocinou a estádio), lembram vagamente a skyline de Chicago. São rasgados por avenidas longilíneas, que depois de uns parques e de um visível red-light district, se transformam em ruas com largo movimento velocipédico. Os edifícios de média estatura dão lugar a construções mais barrocas, ostentando muitas vezes o brasão do Hesse, estado federal onde nos encontramos. Segue-se um conjunto de praças, com inúmeras esplanadas, cada qual com o seu ecrã mostrando o jogo da hora aos espectadores atentos e às respectivas canecas de cerveja. A mais central de todas, a Roemerberg, em grande parte reconstruída depois da 2ª Guerra, ostenta típicas casas alemãs seiscentistas, as Fachwerhauses, e tem no centro uma fonte com uma estátua da Justiça. Pululam as lojas de recordações, desde o merchandising do Mundial às canecas bávaras de cerveja. Escusado será dizer que o grosso dos turistas se concentra ali. No dia em que cheguei, os argentinos comemoravam efusivamente a goleada sobre a Sérvia.
A dois passos, a Catedral, a Kaiser Dom, com certa imponência, embora longe da de Colónia. A sua importância mede-se por ter acolhido a eleição de vários imperadores do Sacro Império Romano Germânico durante quatrocentos anos, se bem que a coroação se desse em Aix-la-Chapelle, a exemplo de Carlos Magno.
A alguns quarteirões, a casa de Goëthe, talvez a máxima referência da língua alemã. Tal como outros vestígios históricos da cidade, a morada onde o autor de Werther nasceu e viveu até aos 26 anos teve de ser quase totalmente reconstruída depois da guerra. Com tempo disponível, deve merecer a visita, para se conhecer melhor o espírito do autor e poeta alternadamente romântico e clássico.
A parte monumental da cidade completa-se com os inúmeros museus (do Dinheiro, Judaico, etc) e a Alt Oper, mais a norte, aparentada com a ópera de Dresden, e contemporânea à de Paris. Em redor estendem-se alamedas pedonais plenas de esplanadas, lojas de prestígio, bancas de fruta e vegetais. Em sentido perpendicular a este movimento são as artérias que vão dar ao rio e às suas inúmeras pontes, cruzadas pelas muitas barcaças que fazem do Meno uma imensa estrada fluvial, antes de se juntar ao Reno, em Mainz. Ladeado por parques e ciclovias, foi esta a área escolhida para se instalar a "Fan Arena" durante o Mundial, com a tela gigante dos jogos assente no meio do rio.

quinta-feira, junho 15, 2006

Ainda sobre o Papa em Auschwitz

Não tinha escrito nada sobre a importante visita do Papa a Auschwitz, há já quinze dias. Muito se falou sobre o testemunho de Bento XVI, principalmente da classificação que deu aos nazis, um "grupo de criminosos que abusou do povo alemão... na sua sede de destruição e poder". Estas palavras provocaram alguma celeuma e muitos franzires de sobrolho. Vasco Pulido Valente, por exemplo, atribui a culpa aos alemães em geral "e à sua nobreza" em particular, esquecendo-se talvez da oposiçãoda família real bávara ao avanço nacional-socialista. Mas foram os líderes judaicos que, de forma contida, mais criticaram o Papa, entendendo que a responsabilidade cabia ao povo alemão por inteiro e não apenas aos dirigentes e ideólogos nazis.

Não afastando totalmente este tese, há muita inverdade neste pequeno ajuste de contas moral. Afinal de contas, o partido Nazi não teve uma maioria esmagadora quando ganhou as eleições de 1933. As restantes formações políticas foram severamente reprimidase os seus apoiantes presos ou liquidados. E afinal de contas, os judeus que aí viviam não deixavam de ser alemães.
Além disso,esse pensamento é perverso porque pode ser invertido para outra óptica. É que o sentimento anti-semita, contra os "pérfidos judeus", que durante séculos vigorou no cristianismo e que levou a tantos autos-de -fé, baseava-se precisamente na ideia dos descendentes de Abraão serem, no seu todo, um povo deicida. Considerar todos os alemães como culpados do Holocausto não é uma ideia muito longínqua de confundir os membros do Sinédrio com os judeus de todos os tempos e lugares. Não seria pior que os religiosos e líderes de comunidades judaicas reflectissem bem antes de lançar críticas com uma pontinha de veneno. Merkel não tem culpa dos crimes de Hitler, assim como Olmert não é Caifás.
Mundial

A magra vitória de Portugal sobre os inexperientes Palancas, depois de um começo que prometia arrasar, revelou não só ausência de risco mas também algumas debilidades já temidas, sobretudo defensivas. Nunca se sabe também se os golos marcados podem ou não fazer falta. Contra Mantorras, Zé Kalanga, Figueiredo e companheiros esperava-se mais.

Mas isto também nos devia trazer de volta à terra para nos lembrarmos que a equipa nacional é boa mas não é excepcional. É certo que somos vice-campeões da Europa e que o nosso técnico é campeão do Mundo, mas a França era campeã dos dois há 4 anos e no entanto soçobrou. Se olharmos para o nosso registo de participações em Mundiais verificamos que é muito pobre. A Suécia, por exemplo,tem muito melhor palmarés e nunca os vemos como candidatos a vencedores da prova. Nem a Espanha, ou a própria Holanda. Dos países mais pequenos, só o Uruguai lá chegou, em circunstâncias muito especiais, e a Hungria esteve quase - depois disso caíu na irrelevância. Lembro-me aliás que o último outsider a ser dado como candidato foi a Colômbia de Asprilla e Valderrama, em 1994, e nem passou da fase de grupos.

É também por isso que odeio todas estas manifestações e programas intermináveis das Tvs, promoções de supermercados, bandeiras à janela (caramba, o Mundial não é cá!), bandeiras gigantes formadas pelas "mais belas mulheres do mundo(!!!), "diários da Selecção" com as soporíferas conferências de imprensa, as entrevistas "de choque" do sr. Scolari, as revistas cor-de-rosa discutindo se o jogador A está separado ou não usa aliança, etc, etc. Valha-nos o Mundial propriamente dito, porque ouvia-se falar de tudo menos de futebol.
Por isso mesmo, no Sábado estarei em Frankfurt a apoiar a Selecção nacional. Será também uma óptima forma de apanhar bom tempo e escapar ao temporal desfeito que se tem abatido sobre Portugal. E de ver uma coisa destas ao vivo, que já estava curioso. Vamos lá então ver como se portam as Quinas perante a armada persa.

segunda-feira, junho 12, 2006



Todo o que mata pela espada, pela espada morrerá.

Em geral, quando morre uma pessoa, são prestadas as respectivas condolências, mesmo que não tivesse sido o mais encantador dos seres. Abro porém uma breve excepção para Abu al-Zarqawi. Um assassino fanático, dissimulado, sem a menor piedade pela espécie humana, só podia acabar desta forma, mais cedo ou mais tarde. O terrorista número um do Iraque, autêntico mestre do disfarce, está morto, e, espera-se, enterrado. Mas não se aguardam abrandamentos imediatos no ferro e no fogo em que a Bagdad está envolta. Cortou-se uma cabeça à Hidra, mas sobraram muitas mais.

sábado, junho 10, 2006

Chuvada

Depois de um tempo seco e a atingir os limites caniculares, desabou hoje dos céus de Coimbra uma imensa queda de água. Só agora que voltei ao Porto é que me apercebi, pelas notícias, da autêntica borrasca que se abateu sobre a Lusa Atenas, enquanto o resto do país se contentava com uns pingos. Houve ruas inundadas e torrentes pela Alta abaixo - passe o paradoxo.
Vi a chuva, mas ignorava completamente os seus efeitos, e ainda mais que apenas se tivessem produzido somente em Coimbra. É que escapei por segundos de pura sorte ao temporal, e diverti-me a observá-lo do pátio da faculdade de Direito, enquanto as caleiras quase rebentavam com a água e os Gerais se iam enchendo de largas poças. O momento mais refrescante e contemplativo da semana. No Verão ou nas suas proximidades sabe bem ver a chuva a apaziguar os espíritos. Não há melhor lavagem de alma do que uma boa chuvada.

E poucas horas depois, sob o sol do fim de tarde, o Quebra-Costas, que antes tinha sido uma cascata, não revelava traço de água.

quarta-feira, junho 07, 2006

Périplo



Vi o novo programa de Miguel Portas, "Périplo - Histórias do Mediterrâneo". Sabia que era um projecto na forja há já algum tempo. Lembrava-me do "Mar das Índias", do mesmo autor, e tinha fortes expectativas. O programa não me desiludiu, como já esperava; achei-o bem estruturado, e os saltos súbitos na geografia acabam por se interligar sem grandes quebras. Revi a porta da Babilónia, inscrustada no museu Pérgamo, de Berlim ( na localização original está uma réplica, mandada erigir por Saddam), com os seus leões de guarda. Ponto de partida para uma viagem entre a antiga Mesopotâmia, o Egipto, o Líbano dos fenícios e a Tunísia dos cartagineses e romanos.
Depois deste começo auspicioso, fico à espera dos próximos episódios. E só tenho pena que Miguel Portas não abandone a actividade política e se dedique exclusivamente a este tipo de trabalhos, para os quais tem um notório talento.

segunda-feira, junho 05, 2006

Liberdade absoluta? Ou absolutíssima?

Uma inocente pergunta a todos os que acham que a liberdade de expressão não pode ter quaisquer limites, em ocasião alguma, sejam mais ou menos liberais: concordam com a criação de um movimento que defenda a pedofilia livre (além da zoofilia), como o que surgiu agora nos Países Baixos? Não têm nada a opôr? Ou afinal sempre há limites à livre expressão que se justificam perante casos de força maior?

sábado, junho 03, 2006

Saffron Burrows

Parece que na blogoesfera lusa alguém se lembrou finalmente da longilínea Saffron Burrows. Acto louvável, sem dúvida, se bem que a chamada de atenção não tenha partido de uma fonte inesperada. Mas acho que a ilustração não faz justiça à actriz, pelo que achei por bem mostrá-la de outra forma, ainda que menos sorridente. Pena é que em nenhum motor de busca tenha conseguido encontrar uma fotografia decente de Burrows como a lendária Andrómaca (no filme Troy), mulher do troiano Heitor.


segunda-feira, maio 29, 2006

Montenegro



Nunca cheguei a ir ao Montenegro. E contudo tive essa oportunidade, há alguns anos, quando se organizou em Budva a convenção bi-anual de uma associação de estudantes europeus de que fazia parte. Só que precisamente na mesma altura marcaram o meu último exame do meu curso, e optei por concluí-lo em lugar de me deslocar aos Adriático. Não mais tive ocasião de lá ir, fazendo o percurso que idealizara na altura: a rota Veneza-Budva, sempre por terra.

Há dias os montenegrinos escolheram em referendo a independência, por escassos 55,4% de votos, quando a percentagem mínima era de 55%. É pouco provável que não haja algum ranger de dentes e má vontade, com a quantidade de pessoas a viver no mesmo território que votou pela continuidade. Mas tratou-se de um acto pacífico, como pacíficas (e algo conformistas) foram as reacções do lado sérvio. Não se verificaram os mesmos horrores como quando a Croácia ou a Bósnia declararam a sua secessão, talvez porque o processo estava controlado, os sérvios não estão virados para guerras e têm mais afinidades com os montenegrinos, ou porque este território esteve à margem da violenta guerra dos anos noventa.

A decisão é soberana, e o Montenegro será a próxima nação independente da Europa. No fundo, é um retorno à realidade existente até 1918. Os montenegrinos têm, como disse atrás, fortes ligações aos sérvios, pela língua, pela religião - são ambos ortodoxos - e etnicamente. O que não quer dizer que sejam rigorosamente a mesma coisa, como o não são portugueses e galegos. A sua história está longe de ser comum. Enquanto os sérvios viveram totalmente subjugados pelo império Otomano, o Montenegro conseguiu sempre manter alguma autonomia, desde que em 1516 o Príncipe Jorge V retirou-se para Veneza e renunciou aos seus poderes de soberano a favor do Metropolita montenegrino. Os bispos escolhiam o seu sucessor na própria família (Petrovic), até ao Séc. XIX, altura em que se tornaram príncipes e puderam contrair matrimónio. Seguiu-se a total independência dos otomanos, juntamente com a Bulgária, em 1878, e a tranformação do principado em Reino, em 1910. Que não durou muito, já que depois da 1ª Guerra Mundial, num processo apressado e enviesado, o Montenegro, até aí um pequeno estado de pastores, uniu-se ao Reino dos Sérvios, Croatas, e Eslovenos. A capital mudou-se da histórica Cetinje, à sombra do monte Locven, para a incaracterística Podgorica. Permaneceu ligado à Sérvia depois da desintegração da Jugoslávia. Até agora.

Os problemas que advêm desta independência anunciada prendem-se mais com o Kosovo do que com a Voivodina. Como se sabe, o primeiro é uma parte da Sérvia habitado esmagadoramente por albaneses. A solução podia ser a divisão do território entre os dois povos, hipótese já rejeitada pelos kosovares, que apenas aceitam criar um segunda Albânia (ou quem sabe, constituir uma Grande Albânia). Parece-me que a divisão seria a mais ajustada, mas é também a mais improvável. E o pior é que os direitos dos sérvios têm sido tudo menos acautelados. Para evitar novos ressentimentos e novas escaladas de violência, seria bom que se deixasse de ver Belgrado como a má da fita em todas as questões balcânicas.

Quanto ao Montenegro, é um país de uma beleza estarrecedora, e se tudo correr bem, terá um belo futuro à sua frente. Façamos figas.

domingo, maio 28, 2006

O regresso anunciado


Tanto diziam que ele voltava que voltou mesmo, justificando assim o velho provérbio da "Água mole em pedra dura..."
Que seja bem vindo. Homens como ele fazem sempre falta no glorioso. E se não tivermos arranjado um número dez disponível para todo o jogo, não haja dúvida que o balneário tem agora mais alguma Alma. Uma Alma que faz passes de morte para golo.

quinta-feira, maio 25, 2006

Punk Cabaret Show

Há coisa de uns dois anos encontrei nas prateleiras da FNAC uns discos com um estranho par na capa, com a cara pintada de branco, à Mimo, e uns trajes de época. Pelo nome do duo pensei logo que fossem alemães. Ouvi um pouco da música deles, que me soou entre a pop infantil, rock inclassificável e teatralidade de cabaret. Estranheza e um pouco de enlevo foram as sensações do momento. Ao contrário do que pensava, não eram alemães, mas americanos, de Boston.

E só desse lado do Atlântico, a uns bons quilómetros a Oeste de Boston, nas margens geladas do Michigan, é que adquiri enfim o disco homónimo dos Dresden Dolls. Fi-lo não só porque até aí ainda andava desconfiado da sua música mas também porque o preço era substancialmente menor, o que diminuía o risco da compra. Só algum tempo depois do regresso à pátria é que me dispus a ouvir o resultado do "brechtian punk cabaret" de Amanda Palmer e Brian Viglione. Uma música que não é para qualquer altura, mas que ouvida com a disposição e o despreendimento necessários tem laivos de incandescência e estupefaciência. Ao vivo deviam ser um espectáculo digno de nota, se algum dia me cruzasse com eles.


Pois assim sucedeu. O duo passou por Portugal, on tour, para promover o segundo trabalho, que ainda não tinha ouvido. Mais precisamente em Famalicão. A escolha do local pode soar estranha, mas faz todo o sentido. A pequena cidade industrial, da qual só me lembrava da câmara municipal com uma espécie de campanário de granito e de uma rotunda com a estátua de Bernardino Machado, cresceu a olhos vistos, e não apenas em edifícios. Uma zona que há trinta anos era uma miséria cultural tem agora a famosa Casa das Artes, um edifício amplo e de linhas sóbrias, no meio de um parque, com um cartaz de espectáculos respeitável (e tem também algumas editoras, não esquecer). Os Dolls actuavam no âmbito do aniversário da Casa, e diga-se que foi uma escolha acertada. Depois da primeira parte ser preenchida com Thomas Truax, a sua guitarra e o seu Hornicator, e que provocou momentos hilariantes, com o músico a atravessar as coxias e a surpreender alguns espectadores que entravam na sala, o duo surgiu enfim. Não defraudaram o as esperanças, embora tivessem menos maquilhagem do que o costume. conservando no entanto as muito emblemáticas meias de riscas horizontais. Passaram o seu repertório quase todo, dos dois álbuns, como a mais conhecida Coin Operated Boy, mostrando a teatralidade do costume e a voz invulgar, com tons loucamente variáveis, de Palmer. Ainda houve tempo para alguns semi-diálogos entre eles e com o público, e para uma canção de Jaques Brel, no francês original, por escolha democrática.

Depois de inúmeros agradecimentos e de recomendações ao restaurante ao lado do auditório, abriram garrafas de vinho, serviram um bolo e posaram para fotografias, sem esquecer os costumeiros autógrafos. Um espectáculo de semi-cabaret terminado com o encontro entre os artistas e os seus fãs. E Miss Palmer esteve inexcedível a responder a perguntas sobre a banda e as suas inspirações, como as que me lembrei de lhe perguntar apesar do seu ar cansado mas próprio de missão cumprida.

terça-feira, maio 23, 2006

O Engenheiro Técnico
Fernando Santos não seria a minha primeira escolha para treinador. Esperava alguém mais motivador, sem o ar algo cinzento do engenheiro. Camacho, por exemplo, embora tacticamente inferior, ganha-lhe por KO na arte de entusiasmar os pupilos e na vontade de vencer. Mas o espanhol vai voltar ao Real Madrid como director, e outras opções, como Eriksson ou Scolari, seriam demasiado dispendiosas. Zaccheroni era uma incógnita. Podiam talvez pensar no factor surpresa, alguém como Michael Laudrup. Assim como assim, sempre é preferível a Carlos Queirós - que há dois anos, salvo erro no Aviz, ficou à frente de Santos como "pior treinador do ano".
O engenheiro tem no entanto algum currículo (além da curiosa experiência de , e nas duas últimas épocas conseguiu o milagre de deixar a equipa do AEK de Atenas, um clube à beira da falência e que viu os melhores jogadores rescindir contrato por salários em atraso, em segundo lugar no campeonato grego. É, sabe-se há muito, benfiquista assumido. E quem pode dizer se não será esta característica a dar-lhe outra energia e vontade de vencer? Vamos confiar.

PS: quanto ao tão falado regresso de Rui Costa, só acredito quando o vir na sala de imprensa da Luz, de cachecol, com a águia Vitória nas mãos e os adeptos em festa. Sabe-se lá depois de se desvincular do Milan ele não pretende ficar mais uns temos na Toscana...

PS2: faz um hoje ano que voltámos a ser campeões. Um ano, já, desde aquela inolvidável noite no Bessa. Que muitas assim se repitam, de preferência sem a dose de nervosismo que durou até ao minuto 89.

domingo, maio 21, 2006

O toque dos extremos

Centos de vezes têm sido exploradas situações em que, por puro oportunismo ou causa comum, os extremos se tocam. Ainda esta semana pudemos ver apoiantes de extrema-esquerda e de extrema-direita lado a lado, a pugnar ruidosamente contra a reabertura da praça de touros do Campo Pequeno.
Por razões menos voluntárias, é interessante verificar nas semelhanças físicas entre alguns seres que se odeiam, ou que odeiam o que o outro representa. Desde há algum tempo que tinha achado que Richard Butler, o líder histórico da organização americana neonazi Aryan Nation, e que, soube agora, morreu há já ano e meio, tinha algumas parecenças físicas com um qualquer estadista. Não demorei muito a perceber que era o comatoso ex-primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon. Não sei se este sabia da existência daquele, mas tendo em conta os inimigos do país e a eficiência da Mossad, parece-me improvável que o desconhecesse. É fácil de imaginar o adivinhada frustração e raiva do "cristão ariano", ao comparar a sua cara com a do chefe do governo do seu detestado "estado sionista" e dos "impuros judeus". Quanto a Sharon, também deve ter tido frémitos de horror e fúria, certamente prejudiciais à sua instável saúde, ao perceber as semelhanças físicas com o neonazi. Mas elas existem, e são notórias, até pela proximidade de idades entre os dois homens, tão diferentes nas suas ideias, a ponto de se odiarem, e tão parecidos no que mais salta à vista: a face.
Teria a sua ironia escrever aqui "separados à nascença", mas fico-me pelas evidências fotográficas.







Tirando as rugas de Butler, as semelhanças são evidentes.






quinta-feira, maio 18, 2006

Vae Victis

O Arsenal, equipa não favorita para a vitória na final da Liga dos Campeões, acabou por ser cruelmente vencida em cinco impensáveis minutos pelos adversários blaugranas. A Taça seguiu assim para Barcelona, onde ao que parece, houve estranhas comemorações, com montras partidas e objectos a arder.
Mas nem por isso o mérito lhes deve ser negado. Uma equipa que, reduzida a dez desde os vinte minutos, consegue contrariar os negros vaticínios durante quase uma hora, e que só pecou por não ter aumentado o marcador quando teve a(s) oportunidade(s), merece todos os elogios. Não ganharam? É-me irrelevante. Hoje estou com os vencidos, culpo o árbitro e defendo a razão de ser das vitórias morais. Se não levaram a Taça, mereciam levá-la. Parabéns aos "Gunners" e à sua fantástica equipa. Continuam a ser, para mim, o maior clube que jamais conseguiu ganhar o troféu dos Campeões Europeus.

Ainda mais para o interior

Depois de Moncorvo, segue-se uma zona de planalto, onde assentam povoações como Carviçais, célebre pelo seu festival de Verão e pela restaurante "O Artur", mesmo ao lado da estrada, especialista em posta Mirandesa. A extinta linha do sabor passa rente à estrada; as estações e apeadeiros, agora abandonados, mantêm-se no lugar, quais marcos de numeração. A de Freixo de Espada à Cinta, a 15 kilómetros da vila, lá continua. E é logo depois que em lugar de prosseguir para Lagoaça, se faz um desvio à direita. A estrada está em obras. Passa-se por montes cobertos de urze, vêem-se ao longe as arribas do Douro, de onde sobressai o Penedo Durão. Dizem que é um promontório notável sobre o rio e a região selvagem que o envolve. Mas antes disso surge Freixo, sobre uma colina.


Freixo de Espada à Cinta ( há variadas histórias sobre a origem do nome ), no extremo sul do distrito de Bragança - que é o mesmo que dizer no mais recôndito e desconhecido canto do país - é tida como a vila mais Manuelina de Portugal. Por razões de vária ordem, as casas com aspectos do dito estilo arquitectónico abundam nas ruas mais vetustas, sobretudo nas janelas. A Igreja é um sólido monumento manuelino, com um belo portal e painéis no interior de autoria do maior pintor português do Séc. XVI: Grão Vasco.


O campanário está um pouco acima, separado do templo, tal como acontece em muitas igrejas de Itália. Na realidade, a Torre do Galo, mais do que sineira, era uma das cinco que existia no antigo castelo, e a sua única componente que chegou intacta aos nossos dias. Elegante, de forma octogonal, é o verdadeiro ex libris da vila. A vista lá do alto é espantosa: divisa-se toda a povoação, os montes em redor; adivinha-se a garganta por onde passa o Douro, e, do outro lado, a província de Salamanca, em cuja universidade estudaram muitos freixenistas - ou freixenses, como diria o seu deputado de círculo, Conde d ´Abranhos.

Quem olhar para a parte inferior da foto de cima distinguirá uma estátua a meio da praça. Como é sabido, Trás-os-Montes é terra de navegadores, e Freixo não foge à regra. Trata-se de Jorge Álvares, comerciante, explorador, e primeiro português a chegar ao sul da China, em cujos braços morreu S. Francisco Xavier, no fim da sua peregrinação.
Mas o outros ilustres vultos da nação nasceram nesta região agreste. O mais conhecido de todos é sem dúvida Guerra Junqueiro, poeta e escritor, um dos Vencidos da Vida e da Geração de Setenta. Filho de abastados lavradores, nasceu na vila, realizou os estudos em Bragança e Coimbra, viveu no Porto e Lisboa, e regressou mais tarde às suas terras do Douro, antes de ser nomeado para cargos políticos de relevo. A ele se deve, apesar de republicano feroz, o facto da nossa bandeira nacional não ter ficado ainda pior do que é hoje, mais concretamente sem as quinas e com um barrete frígio.

Foto, algo torta, da casa onde nasceu Guerra Junqueiro.

O resto da vila é algo incaracterístico. Perto há a freguesia de Mazouco, onde se vê uma nítida pintura rupestre, o Cavalinho de Mazouco, já perto do rio. A melhor estrada, quase a única, que estabelece contacto com a sede do concelho, é a que regressa ao cruzamento para Lagoaça. Para cima, ainda são umas dezenas de Quilómetros pelo planalto mirandês. O melhor é mesmo regressar a Moncorvo e apanhar o IP-2, em direcção a Mirandela

terça-feira, maio 16, 2006

Imagens do interior

O interior está envelhecido e perde gente a cada dia que passa. Mas nem por isso perde o encanto. Ou talvez seja por isso mesmo. Eis aqui a sede de um concelho referido no post anterior.

Torre de Moncorvo, Abril de 2006

A torre que dava nome à vila já não existe: ficava no local de onde se tirou esta fotografia, juntamente com um pano de muralha. Foi derrubada na segunda metade do Séc. XIX, para no seu lugar se construír a câmara municipal, e outros edifícios administrativos, com a justificação, perante os protestos populares, de que o "progresso" assim o exigia. Ficou a vista para a praça central da vila e para a imponente igreja seiscentista, de influência castelhana, a dois passos, rodeada de casas brasonadas ou de época.
As maternidades, a "falta de meios" e o interior

Toda esta história do fecho das maternidades faz-me algumas vertigens. Se por um lado, ouvindo as várias opiniões de técnicos conceituados e de relatórios credíveis, a resolução de fechar várias maternidades tem razão de ser, já as atabalhoadas explicações do ministro da Saúde em alguns casos concretos, como o de Lamego, não convencem.

A falta de obstetras é um problema? Sem dúvida. Mas não é certamente irresolúvel. Não será certamente impossível contratar alguns profissionais e colocá-los nos hospitais que deles precisem. Provavelmente não haverá muitos, por causa da falta de vagas e das médias altíssimas que impediram a formação de médicos durante tantos anos, lacuna que podemos agradecer a tantos lobbies de medicina mais preocupados com a concorrência que com o futuro do país.

Só mesmo a falta de condições poderá explicar que se feche a maternidade de Barcelos, um concelho jovem e populoso. E casos como este, o de Santo Tirso, ou de Oliveria de Azemeis, nem são particularmente graves: com tantas ligações viárias, e a proximidade de grandes centros urbanos, a dificuldade será em decidir se querem ir ao Porto, a Braga ou a Esposende ( no caso dos "jesuítas" nem faz muita falta: posso dar como exemplo o meu pai, que nasceu em Santo Tirso, numa casa, e não teve qualquer problema, ou ainda de várias pessoas, na casa dos vinte, nascidas sob as mesmas condições).
O problema dá-se com localidades como Lamego, Elvas ou Mirandela. Se as condições para as populações no interior não são de si fáceis, com estas decisões ainda pioram. Não tanto pelas cidades em si, mas por outros concelhos da mesma região. Será fácil para alguém de Penedono ir para Vila Real em trabalho de parto? Ou de Monforte? Ou De Torre de Moncorvo, em direcção a Bragança?
É por isso que quando ouço opinion makers, como o director do JN, afirmar que "não é possível para todos ter o hospital, o correio e a escola à mão de semear", imagino qual seria a opinião se em lugar de Lisboa, Porto, u qualquer média cidade litoral, vivessem num concelho envelhecido e com parcos acessos no interior. O discurso da descentralização é muito bonito, mas só tem alguma utilidade prática se o pusermos ao serviço de quem dela realmente necessita. De outro modo torna-se num simples artifício de retórica para vitimizações de quem não tem moral para as encenar.
A questão é sempre a mesma: o interior continua a desertificar-se e a perder importância, e o governo não tem ajudado a inverter a situação, excepto nalguns casos pontuais, como a do anúncio da reabertura das minas de Aljustrel. É certo que nem só ao Estado cabe promover o necessário equilíbrio territorial: os cidadãos têm também uma palavra a dizer, se bem que alguns só compliquem, como os rapazes de extrema-direita que como passatempo de Sábado se lembraram de ir protestar contra os emigrantes de Vila de Rei. Mas não ficaria mal ao poder executivo promover algumas condições para a fixação de meios e pessoas no interior, coisa que manifestamente não fz. Basta comparar as tabelas mostrando as diferenças de população em 1960 e agora. População essa que foge para "paraísos urbanos" como o Cacém, Ermesinde ou a Amora.
Se pudesse responder áquela enfermeira de Lamego que perguntou se acaso eram eles portugueses de segunda, responder-lhe-ia, sem hesitar, que sim: são portugueses de segunda, terceira, ou mesmo sem classificação.

sexta-feira, maio 12, 2006

As grandes preocupações ecológicas de Monteiro de Barros

O negócio da mega refinaria de Sines, a ser concretizado entre o governo e Patrick Monteiro de Barros, já não vai ter seguimento, pelo menos nos moldes em que fora acordado. Justificações? O dito projecto de transformação de petróleo teria emissões de co2 muito mais elevadas do que o inicialmente previsto (mais do dobro). Para efeitos do protocolo de Quioto, seria uma falta considerável. Monteiro de Barros não perdeu tempo a lançar críticas ao Secretário de Estado do Ambiente, por causa dos "deveres de confidencialidade das negociações".
Só que o mesmíssimo Patrick é o promotor da ideia de construír uma central nuclear em Portugal. Para tanto, alega razões ecológicas e as necessidades de cumprir as metas de Quioto. A hipotética central teria de ficar próxima de um rio, ao que parece, e fora da área sísmica. E que rio seria esse? O Douro. Só não explica se seria no Douro vinhateiro, Património da Humanidade, ou no Parque Natural do Douro Internacional. Ou nos arredores do Porto. Talvez porque o sr. Patrick não mora para esses lados. E não deixa de ser estranho que um homem que demonstra tais preocupações ecológicas não se importe minimamente de pôr em risco um dos maiores patrimónios naturais (e humanos) do território português, nem use o mesmo critério da emissão de gases no caso da refinaria de Sines. Ao que parece, as preocupações fora do âmbito das suas negociatas são perfeitamente ultrapassáveis - ou mesmo fictícias. Quem não conhecer estes actos de mercearia que feche o negócio.

quinta-feira, maio 11, 2006

D. António Ferreira Gomes 1906 - 2006

O antigo Bispo do Porto, que pagou com o exílio de dez anos a sua coragem e a o seu sentido de justiça, nasceu há cem anos.
A sua vida está a ser homenageada, entre outros eventos, pela Seiva Trupe, no espectáculo "António, Bispo do Porto"; no papel do prelado (e quase irreconhecível) está Alexandre Falcão, em tempos meu professor de expressão dramática. É de ir ver. Até 12 de julho, no Teatro do Campo Alegre.
O adeus de Koeman

Ronald Koeman deixou de ser o treinador do Benfica. Mudou-se para Eindhoven, para dirigir o PSV, onde em tempos venceu uma Taça dos Campeões precisamente contra o SLB, numa fatídica disputa de grandes penalidades. Não sei se ganharemos ou não com a sua saída (além de uns milhares de Euros da Philips). No campeonato tivemos períodos de incompreensível depressão, logo no início, depois entre Outubro e Novembro (fruto também de uma maré de lesões) , até ao penoso fim de época. Na Taça aconteceu o que se viu, embora aí os nossos algozes tenham sido duramente castigados. Só na Liga dos Campeões é que a folha de serviços do holandês se manteve imaculada.
Talvez a sua partida fosse inevitável. Não sei se teria grande capacidade de galvanização da equipa, e os seus erros tácticos eram facilmente perceptíveis, como o de pôr Beto em tarefas flanqueadoras. Como se diz por aí, corria o risco de se tornar o nosso Peseiro. Ainda assim, prevejo-lhe bons momentos no clube dos electrodomésticos. Que tenha sucesso, lá. Não serei eu a esquecer os momentos de glória que nos proporcionou, em especial a grandiosa noite de Liverpool.

segunda-feira, maio 08, 2006

Erros fatais

O Inimigo Público (suplemento satírico de Sexta-feira do jornal Público) perdeu duas oportunidades de fazer bom humor, ou então, de "estar calado", conforme os pontos de vista. Ao colocar John Galbraight como "economista do liberalismo económico" (coisa que manifestamente não era) e, numa piada a O Jogo, Francisco Sousa Tavares entre os portistas ferrenhos (e não o filho Miguel), não só induziu os leigos na matéria em erro como falhou claramente os alvos. Ser rigoroso não se presta apenas aos negócios, ao Direito ou à geo-estratégia: aplica-se também em assuntos mais sérios, em especial o humor.
Acabou o campeonato

O campeonato acabou da pior forma para o Benfica. Jogadores fora da sua posição normal, outros sem ritmo, outros às aranhas, num vendaval de erros e de azelhice, o que permitiu ao Paços de Ferreira safar-se categoricamente. Suspiram de alívio também a briosa e a Naval. Os vilacondenses, já se sabe, desceram sem apelo nem agravo. Assim como os vimaranenses, numa descida do pano trágica mas esperada, depois de cinquenta anos na divisão maior. Mais dramática ainda, a descida do Belenenses, vítimas maiores da redução da liga para dezasseis equipas. José Couceiro não é, definitivamente, um homem para os momentos finais.

Para a próxima época pede-se um médio pensador/construtor de jogo, um ponta-de-lança corpulento para fazer dupla com Nuno Gomes e que Moretto não seja titular. Também já fui mais adepto da continuidade de Koeman. José Veiga é que podia ir arrumando a secretária.

terça-feira, maio 02, 2006

Blogs urbanos

Em tempos já aqui escrevi sobre alguns "blogues urbanos", que tratavam de questões sobre Porto e Lisboa, nos seus mais variados aspectos. Chamo agora a atenção para outro: o magnífico Cidade Surpreendente. Não só tem fotografias fabulosas do Porto, como nunca vi, pela luz, pela oportunidade do momento, pelo enquadramento, como ainda nos revela a sua Outra Face, imagens de decrepitude, desleixo, solidão, tudo na mesma cidade. O constraste entre os dois blogs de Carlos Romão é avassalador. De comum só mesmo o cinzento granítico.
Outro blog, de cujo fim (há seis meses) só agora me dei conta, era o (No) Bairro do Aleixo. Histórias na vida daquele conjunto de torres degradadas, ora singelas, ora pungentes, por vezes reais, outras produto da imaginação. Uma forma de atenuar as misérias urbanas que o maior ghetto de Lordelo do Ouro exibe.

Mas como há mais cidades no país, vale pena destacar este blogue da cidade-berço: 4800Guimarães. Os seus autores (todos de apelido Guimarães) dissertam sobre a condição vimaranense, a "vimaranensidade", o desejo imenso de ver a ver transformada numa urbe cosmopolita (bem expresso em posts com o título Guimarães 4 800 000), as falsas lendas, o Vitória e os costumes locais. Absolutamente aconselháveis são os projectos para levar o mar à cidade, as diversas "cartilhas 4800" (tantas quantas as letras do alfabeto), os ditadores de passagem ou descrições do tunning vimaranense, Mas porque é que não há um 2460 Alcobaça, um 5100 Lamego, um 6400 Pinhel ou um 7350 Elvas?

PS: o Desejo Casar voltou à actividade. Não é um blog especificamente urbano, mas é daqueles que vale a pena acompanhar diariamente. Sigamo-lo, pois.

sexta-feira, abril 28, 2006

Velhos hábitos

Por vezes temos uma necessidade premente de regressar a alguns velhos hábitos. Pode ser por qualquer causa inexplicável, ou por qualquer motivo facilmente compreensível. Essa segunda hipótese preencheu os requisitos que me levaram à prática de um acto esquecido: fui ao cinema, num Domingo à tarde, sozinho, a uma sessão que durava mais de três horas. Só é pena (até por causa da duração completamente proibitiva nos tempos que correm) que não houvesse intervalo e tempo para um café. Mas já não há Nun Álvares como antigamente, e o espaço não tinha a nobreza de antanho.

O filme que me levou a esconder-me de uma tarde de sol para ficar frente a frente à tela? Uma coisa antiga, que resolveram repôr, chamada Il Gatopardo, ou em português, o Leopardo. Como ainda não o tinha visto, resolvi pôr a cinefilia em dia. Merece as suas quatro ou cinco estrelas, claro está.

domingo, abril 23, 2006

O seu a seu dono

Para demonstrar o meu fair-play e para não dizerem que não sei reconhecer o mérito alheio, dou os parabéns ao FC Porto pela conquista do campeonato que agora termina, por ter sido a equipa mais regular, com a melhor defesa e o melhor ataque, mesmo que sem grande rasgo. Isto apesar de o ter conseguido num jogo ganho com um penalti duvidoso e com uma invasão de campo feita pelos meliantes do costume.

Ainda assim, repito, parabéns pelo título deste ano.


quinta-feira, abril 20, 2006

O que retive destes dias de Páscoa

- Dez anos depois, o Benfica voltou a ganhar em casa do Boavista. Por azar das datas, não estava no Porto, e não pude ir ver o Glorioso ao Bessa, como faço habitualmente. Ainda me lembro da última vitória antes do interregno, há dez anos: apertado entre os No Name Boys e os Diabos Vermelhos, pude ver uma exibição fabulosa de João Vieira Pinto (agora na equipa adversária), que à sua conta marcou dois golos, num grande jogo, com um público esfuziante, em bancadas sem cadeiras e sem cobertura. Parece que este ano se viu um desafio mal disputado, com muitos erros arbitrais para os dois lados, e pouco público entre frias e modernas bancadas. Salvou-se a vitória e os três pontos.

- a vergonhosa ausência dos deputados, que não permitiu inclusivé a votação de umas quantas propostas, é exactamente isso: uma vergonha, por muito que Vasco Pulido Valente o negue. Sabendo-se que a popularidade dos componentes do orgão legislativo já anda pela hora da morte, é de perguntar o que é que estes indivíduos terão na cabeça, e se não perceberão a triste figura dada por aqueles que deveriam ser os mais resposnáveis dos cidadãos.

- Recomendo a todos uma incursão por terras de Moncorvo e de Freixo de Espada- à -Cinta, que ainda não conhecia. O ideal seria fazer o percurso da extinta linha do Sabor, até ao planalto mirandês. Se a questão fôr conhecer os percursos ferroviários transmontanos, aconselho as linhas do Corgo e do Tua, antes que também essas fechem. Fiquei mas é com uma vontade imensa de conhecer a Terra Quente, com menos pressa e mais detalhe. Um percurso a repetir e a prolongar.

Memória de um dia negro

Quem acha que a literatura infanto-juvenil não ensina nada engana-se redondamente. A colecção Uma Aventura, da autoria de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, marcou a minha geração como Os Cinco (que também li) tinham marcado a anterior. E ao que parece, continua a marcar pontos, com novas histórias constantemente a saír e até uma série na televisão. As mesmas autoras criraram igualmente as Viagens no Tempo, em que um cientista, acompanhado por um casal de jovens irmãos, viajava para o passado numa máquina do tempo. No fim das referidas aventuras havia sempre numerosos dados e aspectos relativos à época da acção do livro. Tomei por aí conhecimento de um conjunto de factos da história portuguesa, alguns pouco divulgados nos bancos das escolas.
Só por aí é que conhecia o massacre dos cristãos-novos em Lisboa, faz hoje 500 anos. Um acontecimentos trágico, na senda da expulsão dos judeus e muçulmanos e da sua conversão forçada ao cristinaismo, em tempos de fome e peste. Algo permitido pela tibieza e afastamento de um D. Manuel I que não se coibiu depois de punir os autores da matança, mas cujos efeitos prosseguiriram com a criação da Inquisição, no reinado seguinte. Tudo isto lembrado pela Rua da Judiaria, na sua busca da memória, e secundado por muitos mais. Não moro em Lisboa nem tenho grande disponibilidade para manifestações a relembrar o nosso pequeno holocausto, mas tentarei ao máximo não esquecer, sobretudo hoje, que também na nossa terra de brandos costumes o ódio e a intolerância provocaram vítimas indiscriminadas. E que só a memória pode evitar que irracionalidades semelhantes se repitam.

quarta-feira, abril 12, 2006

Depois do fim da Quaresma, prometo colocar uns posts sobre o defunto CPE francÊs e outras considerações internacionais. Abrir-se-à também um novo capítulo dedicado a viagens, uma vez que o clima está a melhorar consideravelmente.

Até lá, não se desiludam com Basic Instinct II (já ficam avisados contra expectativas excessivas), tenham atenção relativamente a V de Vendetta ( e sobretudo a Natalie Portman, mas a chamada também é desnecessário) e aproveitem o sol de Abril. Cumprindo estritamente a Quaresma, claro. Bom, estritamente, estritamente, é complicado para o comum dos mortais, mesmo os que sofrem de fé cristã. Talvez seja bom relembrar que comer peixe à Sexta-Feira é a menor - e a mais fútil - regra da época.

Uma boa Páscoa para todos.