terça-feira, outubro 17, 2006

Pequeno calendário das festividades que passaram
Em Setembro, por confusão de datas, falhei a festa da Senhora da Pena, em Mouçós, Vila Real, embora estivesse a poucos quilómetros. O interesse do evento era o de os andores terem uma dimensão anormalmente elevada, tanto que este ano concorriam para o Guiness com um de 22 metros de altura, sustentado por 50 almas.
Não estive nessa festa nem na Srª da Almudena, às portas de Vila Real, e muito menos na famosa romaria dos Remédios, em Lamego, no mesma fim de semana. A época estival é abundantíssima em festas populares em honra do Santo ou da Santa y, ou de Nosso Senhor de Qualquer Boa Aventurança. São as descendentes directas dos cultos sazonais pagãos, de recordações milenares. quem viaje por Trás-os-Montes nessa estação, por exemplo, vê cartazes alusivos em todos os concelhos e freguesias, e o mesmo se passa noutras regiões.
Este ano, no Minho, depois do Santo António de Famalicão (que apanhou com uma tromba de água) e do S. João em Braga, havia festas dia-sim dia-não: as de Cerveira; as Gualterianas de Guimarães; a Stª Rita, em Caminha; as de Valença; as de Paredes de Coura (logo antes do festival); a Senhora da Agonia, em Viana; Senhora das Dores, em Monção, apesar da mais conhecida ser a da Coca, no Dia do Corpo de Deus; o S. Bartolomeu, em Ponte da Barca e povoações do concelho de Esposende; e ainda a Senhora dos Navegantes, em Âncora; e, para finalizar, as Feiras Novas de Ponte de Lima, que fecham a saison de festas. E não esquecer os novos gêneros que estão a surgir por toda a parte: as feiras medievais, uma categoria de eventos que serve de filão renovado a muitos concelhos e que prometem concorrer com as tradicionais festividades. Ou complementá-las. Seja como for, ainda é cedo para avaliá-las, mesmo porque até ao momento só se destacaram as de Santa Maria da Feira. A confirmação pode vir no próximo Verão, que este ano, só resta mesmo o de São Martinho.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Um filme conveniente

Já deve estar em poucos cinemas, mas a verdade é que Uma Verdade Inconveniente é uma agradável surpresa. Pedagógico, bem explicado, divertido e muito eficaz, afastando dúvidas prementes. E Al Gore é, imagine-se, um bom actor para o filme em questão. Totalmente aconselhável a cépticos e negacionistas de um dos maiores, se não mesmo o maior, problemas do nosso tempo.

sexta-feira, outubro 13, 2006

A retirada do Pai Guerra
Nos anos que passei na faculdade conheci inúmeros professores, alguns dos quais já com alguma notoriedade, e outros que viriam a alcancá-la. Havia porém uma figura que marcava toda a vida académica, alguém que parecia omnipresente, que estava umbilicalmente ligado áquela instituição.
Francisco Carvalho Guerra, o "Pai Guerra", projectou e criou a Universidade Católica no Porto, desde as exíguas instalações da Torre da Marca até aos dois modernos pólos hoje existentes. Lembro-me particularmente de uma assembleia geral de estudantes a pedir a demissão do reitor da UCP na altura, Isidro Alves, que pretendia afastá-lo do seu cargo. E de uma manifestação por ocasião de uma visita de D. Ximenes Belo com o mesmo intuito. Mas Carvalho Guerra permaneceu no lugar, ostentando o mesmo ar bonacheirão e paternal, e o infindável entusiasmo contido. Até ontem, dia em que se despediu entre um coro de emoções e elogios de todos os quadrantes, a acabar no Cardeal Patriarca. Imaginar o "Pai Guerra" na reforma é coisa de difícil hábito e que requer esforço mental sobre-humano.
Continuação

Parece que depois do meu último post se multiplicaram as declarações em sentido parecido em diversos blogues. No Público de hoje, Pacheco Pereira escreve um interessante artigo sobre o mesmo assunto, e sobre o semi-paradoxo do preconceito de querer colocar Salazar na lista vir precisamente do "respeitinho" tão inculcado pelo Estado Novo (só é pena que recorra ao seu tão querido e exausto "politicamente correcto", mas aqui até é aplicável).
Entretanto já actualizaram " lista de sugestões" de forma mais consensual, ou pelo menos mais sensata. Além de Salazar, incluíram igualmente Marcello Caetano. E Pedro Hispano, outro nome imprescindível, que se não me engano, não constava lá há dias. Ainda assim há falhas: puseram lá dois Eduardos, Gajeiro e Souto Moura, que eram escusados, e esqueceram-se do Lourenço. E D. João IV continua de fora. Vá-se lá entender...

terça-feira, outubro 10, 2006

E o cardeal D. Henrique, não lhe arranjam um lugar?
Eu já desconfiava. Anda agora a ser anunciado um concurso promovido pela RTP para saber quem foram "os maiores portugueses", à imagem do que fizeram outros países (com resultados surpreendentes e discutíveis, diga-se desde já). Anúncios em barda circulam pela TV pública, com pregões de mercado e discussões de café, lançando para o ar nomes das mais diversas personalidades. Num desses reclames, lembrei-me como teria graça alguém mencionar o nome de Salazar. Não é que sinta particular afeição ao vetusto ditador da pachorrenta Santa Comba, nem ao seu regime corporativista, repressivo e rural. Mas faz-me alguma espécie como é que em plena UE, e com a democracia consolidada, ainda que com falhas graves, o simples nome do professor de finanças continue a provocar mais histeria que o de Belzebu. Devem ser raríssimas as recordações onomásticas- só conheço uma ruela com as palavras "Oliveira Salazar" em Santo Tirso, e talvez as haja igualmente na sua terra natal.
Também não sou daqueles que falam constante e incessantemente da "ditadura cultural da esquerda" ou de "vivermos sob um regime socialista", como é próprio de direitistas mais radicais. Mas às vezes até apetece. É que dando uma vista de olhos às dezenas de "sugestões" que o site nos dá, e mesmo tendo em conta que a escolha da personalidade é "livre", não consigo encontrar o nome de antónio de Oliveira Salazar, pelo meio. Goste-se ou não, trata-se de um estadista que esteve mais de três décadas no poder, que caracterizou uma época, um regime, uma Constituição, e que teve os seus aspectos positivos, como o controlo das finanças públicas. Em contrapartida, aparecem-nos lá figurões com idêntica concepção da liberdade, mas menos influentes, como Afonso Costa, Vasco Gonçalves ou Otelo Saiva de Carvalho, e ainda figuras pouco mais que irrelevantes, uma Catarina Eufémia, Manuel dos Santos, e ainda aqueles que, merecendo fazer parte desta lista como prémio pelo seu trabalho em diversas áreas, não estão à altura de serem considerados "o maior português" (casos de Cesariny, Manoel de Oliveira, Joaquim Agostinho, Siza Vieira, etc).
O meu voto? Camões, Pessoa, Nun Álvares, D. Henrique, D. Afonso I...talvez o autor dos Lusíadas, a quem todas as homenagens são justas. Mas noto agora outra grave falha: então não é que na parte relativa aos reis metem-me D. João V, D. Carlos e D. Maria II e esquecem-se do Restaurador? Como é possível terem posto de parte D. João IV? E ainda acrescentaram o demente D. Sebastião, que de relevante só nos deixou um mito e uma esperança brumosa (além do seu tio-avô, o vetusto e cardinalício D. Henrique, como rei).
Isto é que é "Serviço Público"? O tanas!

quinta-feira, outubro 05, 2006

Entretanto, na Áustria
Na Áustria, os socialistas do SPO voltaram a ganhar as eleições, superando o OVP, que estava no poder. Como não obtiveram maioria, tiveram, à imagem da srª Merkel, de fazer uma "Grande Coligação" com os conservadores. A direita mais quezilenta e xenófoba, que obteve votações elevadas, a isso os obriga. Com mais esta imitação dos vizinhos germânicos (mas não inédita, note-se) e os largos votos obtidos pelos herdeiros de Jorg Haider, sabe-se lá se não aparecerão alguns "germanistas", correspondentes lá do sítio aos nossos iberistas, a exigir novo Anschluss. Felizmente, a economia austríaca não está assim tão má (e não é graças a Hayek), a Alemanha não anda para aí virada - ainda bem que existe a UE - e o primeiro-ministro cessante Wolfgang Schüssel não é, apesar de tudo, nenhum Engelbert Dolfuss (uma espécie de Salazar austríaco, mas com menos sorte).
Nos próximos dias vou dar uma volta a zonas, como a Beira Baixa que lamentavelmente ainda não conheço. Bom fim de semana prolongado a todos os que o puderem aproveitar, e boas comemorações do feriado que assinala a fundação do Reino de Portugal.

terça-feira, outubro 03, 2006

Espanha?

Outra conversa da semana passada, resultante da tal sondagem do Sol, que dizia haver 28% de portugueses que queriam ser espanhois. Normalmente, há dois tipos de iberistas: os que vivem no interior profundo, e se sentem abandonados pelas autoridades centrais, e em geral pelo resto do país, e aqueles que por causa da nossa emperrada economia e baixo crescimento, à vista das Zaras, dos Seats e de Penélope Cruz, lamentam-se da sua sorte e clamam ardentemente por Espanha. Se os primeiros têm a sua dignidade, os segundos são de uma precipitação mesquinha e néscia coberta por argumentos inexplicáveis, como os do Arquitecto Saraiva (isto deve andar tudo ligado), que diz que "estamos a atravessar a maior crise da nossa história". Seria bom que alguém fizesse aos senhores iberistas a seguinte pergunta: teriam a mesma vontade de se juntar ao país vizinho se vivessem em 1936?

segunda-feira, outubro 02, 2006

It ´s not the economics, stupid
A semana blogoesférica ficou alvoroçada com o anúncio de que Pedro Arroja iria colaborar regularmente com o Blasfémias. Já tinha ouvido uns tímidos elogios ao economista radicado no Porto, mas a ideia que tinha dele vinha de uma entrevista que deu à saudosa Grande Reportagem, que conservo algures, em Maio ou Junho de 1994 (inclino-me para a segunda hipótese, já que a capa era sobre o Dia D), feita por Fernanda Câncio, que em boa hora a disponibilizou na íntegra.
Recordava-me sobretudo da passagem em que ele defendia que os votos deviam poder ser vendidos, e "não deitados fora", e que "os pobrezinhos sairiam beneficiados". Ou da defesa de um partido nortenho encabeçado por...Pinto da Costa(!!!). Se já tinha ficado altamente deagradado com as ideias do senhor, ainda mais fiquei ao reler a entrevista, nas opiniões sobre a escravatura ("Eu não quero dizer que a escravatura era aceitável, mas não foi má para os negros em termos económicos"), a pena de morte ("O que se concluiu é que por cada pessoa executada na cadeira eléctrica havia sete crimes que deixavam de ser cometidos. Então o que é que é desumano?"), apresentando conclusões contrárias à maioria dos estudos, que provam que o crime é mais elevado exactamente devido à pena de morte. E não só: ao longo da conversa, Arroja debita uma falta de ética, um apego aos números sobre qualquer outra realidade, uma asséptica ideia do mundo ("O que é que é sagrado para si?" "Nada. Nada."), e aquela crença fanática, e simultaneamente determinista, científica, de que a pura economia de mercado sem qualquer intervenção estadual é infalível, e que o mercado prevalece sobre qualquer forma de política e forma de governo, inquinando inclusivamente a escolha democrática feita pelos cidadãos. O neoliberalismo em pleno estado de pureza, escarrapachado, cristalino.
Alguns chamarão a isto de "liberdade". Eu recuso-me a confundir esta dogmática economicista com o primeiro valor da trilogia francesa, que aliás Arroja não deve apreciar. A Liberdade não pode caír na anarquia moral, na dissolução dos valores de uma sociedade, e mais ainda, de uma civilização, que nos é proposta pelos neoliberais de laboratório. Podem os blasfemos considerá-lo "um dos mais importantes defensores da Liberdade que Portugal conheceu nas últimas décadas". Tenho, como aqui já disse, respeito e apreço pelo blogue em questão, do qual aliás conheço vários elementos, embora a maior parte das vezes discorde deles. Por isso lamento que venham com proclamações bombásticas que roçam a idolatria do referido economista, e que acabam por caír no ridículo. Não serei, certamente, assíduo leitor dos futuros escritos do Dr. Arroja. Perdoem-me, mas o megafone ultraliberal acaba por tirar a paciência a um santo.
PS: o maradona deixa aqui a sua própria visão da coisa. Ó Carlos, essa de ser comparado a um Quindim não devia passar impune.

sexta-feira, setembro 29, 2006

O resultado de pôr a mão própria em obra alheia
A decisão de cancelar a ópera Idomeneo de Mozart é a todos os títulos lamentável. Não há que ter contemplações: não é o facto de haver ameaças abstractas de alguns bárbaros que justificam tal vergonha. As medidas de segurança existem por algum motivo. O temor de ofender os crentes islâmicos não colhe, e desrespeita o cristianismo e o budismo, por razões idênticas.
Simplesmente, como bem notou Luís Aguiar Santos, o único deus que entra na ópera é Neptuno e a sua cabeça não é exibida no fim. Eu nem conhecia esta obra, confesso, mas pela lógica dá para perceber: seria uma enormíssima impiedade surgir a cabeça cortada de Jesus num espectáculo do Séc. XVIII, em pleno Sacro Império Romano-Germânico. Buda não era muito divulgado naquele tempo, e mesmo Maomé não aparece aqui, apesar das memórias do cerco à capital do Império pelo otomanos, cem anos antes (Neptuno era imortal, devido à sua condição divina).
Quer dizer: primeiro desvirtuam a obra original, e depois queixam-se das ameaças às alterações. Grande coerência. Grande coragem.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Chatice!

O Benfica anda em maré de maus resultados. Depois do balde de água fria (para mim literalmente, porque tinha acabado de fugir da chuva) em forma de golo pacense já nos descontos, depois de um jogo controlado e duas bolas na barra, tinha agora de vir esta maldita derrota com o Manchester United. Viu-se uma primeira parte aceitável, mas depois do velocíssimo contra-ataque que culminou no golode Saha, a equipa, inexplicavelmente, retraiu-se, perdeu forças, deixou de pressionar. O meu medo do nulo final era mais optimista do que pensava. E os jogadores tiveram uma atitude contrária à do ano passado, quando foram para cima em busca da passagem aos oitavos. Resta-nos vencer os confrontos com os católicos de Glasgow, contra os dinamarqueses, e, quem sabe, obter as migalhas na última jornada aos ingleses, que por certo já terão tranquilamente alcançado o 1º lugar, depois da humilhação do ano passado. A coisa não está fácil.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Bizantinices e fanatismos

Dez dias depois da primeiras notícias, a conferência de Bento XVI em Ratisbona continua a dar que falar. Por falta de ocasião, não tinha ainda podido postar sobre o assunto. Durante estes dias, tenho lido as mais diversas considerações sobre a famosa passagem do diálogo entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo e "um persa culto". Desde a "irresponsabilidade do Papa em proferir afirmações incendiárias", ao "notável discurso sobre a Fé e a Razão", isso, claro, nas sociedades de raiz cristã. Da parte de alguns clérigos e militantes do fanatismo islâmico ouviram-se imprecações, protestos, e coisas tão extraordinárias como "o Papa deve responder em tribunal", ou "deve pedir desculpas de joelhos perante um representante xiita". É óbvio que as reacções destes últimos devem ser tomadas como delírio próprio de mentes medievas (no nosso calendário, evidentemente) e ignorantes. Já os discursos menos inflamados mas carregados de auto-vitimização de alguns líderes espirituais, bem como novas ameaças terroristas, são factor de preocupação.
Lendo bem o texto, e percebendo o seu sentido, não posso deixar de pensar que só a má-fé ou a precipitação tenham atiçado toda uma polémica absolutamente desnecessária. O discurso, mesmo se baseado nessa passagem, poderia ser uma enorme alavanca para um debate filosófico e teológico, até (sobretudo) com interlocutores muçulmanos, e para uma nova compreensão das religiões e das relações entre elas.
Não o quiseram os acontecimentos posteriores nem a comunicação social, que se apressou a divulgar o discurso com base na passagem que incluiu observações menos simpáticas para Maomé. Uma discussão intelectual perdeu-se assim, por culpa de imprensa ávida de escândalo e de sangue, e de uma matilha de fundamentalistas que não merece o menor respeito. Os líderes das principais comunidades muçulmanas europeias, inicialmente desconfiados, deram-se por satisfeitos com as explicações do Papa, até o maníaco do Irão achou que tinha havido uma "interpretação errada", e pelo menos na Europa não se assistiu a histerismos invocando Alá (excepto em Londres, onde se encontra a comunidade mais radical, a par da de Hamburgo). O "choque de civilizações" continua adiado, para grande pena dos Salafitas e dos valentões que do lado ocidental continuam com a habitual postura de "segurem-me que eu vou-me a eles".
Como é óbvio, Bento XVI esteve bem em explicar o seu ponto de vista para não deixar margem para dúvidas, e em não desculpar-se, não havendo de quê. Mas, como sucessor de Pedro e autoridade máxima da Igreja Católica, deve também ter algum senso e agir com diplomacia. Penso que a sua intenção não era outra, ao contrário do que disse Miguel Sousa Tavares no Expresso, num registo demasiado anti-religioso para o meu gosto - se a cultura muçulmana mostrou coisas admiráveis, há coisa de mil anos, não é menos verdade que, citando Vasco Pulido Valente, "não produziu nada de remotamente comparável com o cristianismo". Mas não me refiro ao suposto bom-senso em relação ao "mundo muçulmano": simplesmente, e nisto poucos repararam, o Papa, a dois meses de uma viagem à Turquia, lembrou-se justamente de citar, na parte mais dura do discurso, o antepenúltimo Imperador bizantino, pai de Constantino, derradeiro soberano da cidade dos Bósforo, morto aquando da sua tomada pelos...turcos. Para um país tão susceptível quando se fala do massacre dos arménios, a ideia não terá sido brilhante. Manuel II Paleólogo já sofria a imparável ameaça otomana, que terminaria com a Idade Média em Maio de 1453. Acresce que a queda de Constantinopla deveu-se também muito ao declínio do Império desde o ataque e pilhagem pelos cruzados, convocados por Roma em 1204, e à insignificante ajuda que os católicos deram no momento em que o crescente estava às portas da cidade. Alguns, como os genoveses, aproveitaram-se mesmo para obter vantagens comerciais dos turcos. Daí a desconfiança e hostilidade com que a Igreja do Oriente nos trata até hoje, ainda que com boa dose de injustiça e inflexibilidade.
Uma questão por demais complexa, como são todas as que envolvem Fé e religião. E se não forem acompanhadas de razão, mais ainda...

quinta-feira, setembro 21, 2006

Fechos e intervalos

O melhor blog de futebol, o Terceiro Anel, encerrou actividades por manifesto défice de manutenção. É o fim anunciado do melhor blog português de futebol.

Menos radicais foram o Estado Civil e o Franco Atirador, que resolveram fazer uma pausa.

domingo, setembro 17, 2006

O Sol não nasce para todos
O Sol, novo e badaladíssimo semanário, saíu do prelo depois de semanas de apostas e expectativas, ainda mais empoladas com o fim de O Independente. Pela minha parte, digo desde já que foram goradas. Dá ideia que o luminoso título emprestou uma conotação muito light ao jornal, reforçada com a presença de Margarida Rebelo Pinto e afins.
A "entrevista" de Maria Filomena Mónica vale como curiosidade e chalaça jornalística, mas deveria ficar no fim, e jamais na segunda página do jornal. José António Saraiva, com o novo "Política a sério", persiste no seu estilo paragráfico, embora no essencial concorde com o que escreve sobre a saída de serviços do interior e da contribuição para a desertificação. Marcelo faz meramente uma antevisão da sua dissertação dominical na RTP. E os Portas não trazem muito de novo: Miguel, à esquerda, traça, de forma mais subtil as ideias bloquistas sobre o conflito do Líbano. Paulo, à direita, faz uma "crítica" ao novo filme de Sophia Coppola, Marie Antoinette, mais política que cinéfila, onde demonstra algum do anti-francesismo hoje tão em voga ("...aquela cabecinha de Robespierre que há em metade dos franceses..."), revela desconhecer a popularidade de que a realizadora goza em França e ainda tem espaço para eros históricos (Maria Teresa, não obteve o trono do Sacro-Império por "casamento", mas porque sucedeu ao seu pai, o imperador Carlos VI, que era o "nosso" candidato a Rei de Espanha na guerra de sucessão do país vizinho, e que chegou a ser coroadao como tal graças à tomada de Madrid pelo Marquês das Minas).
O estilo do jornal é, como disse, muito light, muito "engraçadinho" e pretensamente provocatório, como as picadas ao Expresso logo na capa ("este jornal não faz promoções" - veremos até quando). O mito de não houver patrocinadores grados é afinal desmentido, com a história das respectivas vidas a meio. O manifesto é paupérrimo, desfiando uma série de adjectivos positivos, para caracterizar a publicação, e seus desvios, ou vícios, que nunca, jamais, em tempo algum, o jornal adoptará. Em suma, um jornal perfeito. Ou melhor dizendo, que se leva demasiado a sério, à imagem do seu director.
Conclusão: apesar de tudo, vou continuar a comprar o Expresso, que para além dos DVDs, está realmente melhor.

sábado, setembro 16, 2006

Desfazendo tabus do futebol

Sobre o jogo do Benfica em Copenhaga, não vale a pena falar. Um pontinho conquistado num jogo medíocre, contra uma equipa que ainda não demonstrou se é realmente um outsider ou se vale mais do que se pensa. Dos outros, além dos desempenhos portugueses, reparei nalgumas goleadas, como a do Steaua no estádio dos vizinhos de Kiev. Mas reparei igualmente,no dia seguinte, ao consultar algumas fichas de jogos, nalguns nomes da equipa ucraniana do Shaktior Donetsk: um jogador chama-se Olexei Gay; e ainda há outro, romeno, chamado Marica. Bem sei que os apelidos hoje em dia pouco significam, mas acredito que estes possam provocar alguma perplexidade, ou, quanto muito, desconfiança, a António Oliveira e à sua teoria do "futebol macho".

quarta-feira, setembro 13, 2006

Esta noite, em Copenhaga
O jogo de hoje é importantíssimo para o Benfica. Não somente por ser a estreia deste ano nas competições europeias, nem pelo adversário ser teoricamente o mais fraco do grupo, o que obriga a um bom resultado para evitar futuros apuros. Servirá sobretudo para tentar dar a volta ao desastre total que se viveu no Bessa, no último fim-de-semana, e que já desfalcou a equipa para a próxima jornada. É imperioso que haja alma, concentração e alguma garra. E talento, para compensar as ausências de Rui Costa, Miccoli e a falta de ritmo de Simão. Convinha que Fernando Santos mostrasse enfim que é mesmo um grande benfiquista. Marcar e ganhar, é o que é preciso. E também não esquecer que o adversário dinamarquês não é apenas "alto, louro e tosco", que eliminou o Ajax da prova e que conta nas suas fileiras com o talentoso Gronkjaer e o jogador que, de entre todos os que estiveram no último Mundial, ostentava o nome mais divertido: o ganês Razak Pimpong.
Ps: para os que afirmam que "a imprensa é toda benfiquista", convido-os a comparar o título do Público sobre a derrota com o Boavista ("Benfica goleado no Bessa") com a do Liverpool, que encaixou o mesmo resultado("Liverpool quase goleado pelo Everton"). E há mais, muito mais.
Banalizações

Começo a concordar com aqueles que dizem que a memória do 11 de Setembro está a ficar banalizado. Com a enxurrada de documentários, filmes, telefilmes, entrevistas, debates, alguns Pró, outros Contra, teorias da conspiração e demais programação avulsa, em qualquer tipo de comunicação social, receio que isto se esteja realmente a banalizar. E no entanto não merecia. Quem nos manda viver num mundo com excesso de informação?

sexta-feira, setembro 08, 2006

Os responsáveis

No suplemento Local (Norte)do Público de segunda-feira, vinha em destaque um artigo sobre os desacatos provocados por adolescentes em Moledo, nos últimos dias de Agosto. Como testemunha in loco de algumas réstias dessa situações, confirmo a descrição do artigo. A "miudagem" que cirandava pela povoação à noite, de copos e cigarros (legais ou não) na mão, nem sempre tinha propósitos pacíficos. O mínimo pretexto ou discussão servia para os pôr num estado de tensão ou de conflito pouco recomendável.
Claro que, como frisava o jornal, não se tratava exactamente de malta dos bairros, de resto pouco frequente naquela zona não urbana, mas sim de filhos de veraneantes, quantas vezes de classe média alta, a quem os pais, para não se aborrecerem, davam rédea solta e dinheiro para a mão. Os resultados, como desacatos frequentes que obrigaram mesmo a chamar a polícia, ou uma imensa barulheira dividida entre batuques e vozes altas, ficaram à vista
Melhor exemplo para mostrar as consequências da demissão das famílias na educação dos filhos é impossível. Eis uma boa temática a ser estudada por Maria Filomena Mónica. Fazendo o que bem lhes apetece com os meios necessários, julgando-se "rebeldes" e donos de si, tornam-se pequenos delinquentes. Actos próprios de quem julga que o mundo é seu, mas a quem falta valores para o poder julgar e compreender. Não se trata de "rebeldia" contra qualquer "sistema" ou qualquer imposição forçada ou mais castradora: é apenas a satisfação dos humores do momento, de qualquer maneira, sem sombra de racionalidade. Obviamente, um insulto a qualquer "rebelde" que se preze e que tenha uma causa mínima. Como não acredito em rebeldias sem causa, e como acho que a história da irreverência juvenil tem os seus limites, embora seja natural e até desejável nos seus meandros normais, quase que desejava o regresso de alguns castigos corporais para pôr algum travão a esta malta. Como apesar de tudo vivo no nosso tempo, apenas gostava que alguns paizinhos assumissem algumas responsabilidades e dessem às proles alguma educação a sério, ao invés de lhes darem notas. É que marginais por marginais, sempre prefiro a rapaziada dos bairros camarários, com bastantes mais problemas sociais e económicos que determinados meninos irresponsáveis.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Mirandela na estrada

Em Mirandela organizou-se uma marcha lenta pelo IP-4 como forma de protesto pela anunciada saída da maternidade do concelho. Embora duvide da eficácia da iniciativa,e crendo que não ficaria muitocontente se tivesse de viajar nesse troço ás mesmas horas, estou totalmente de acordo com os mirandelenses. É certo que ministros, directores de jornais e "fazedores de opinião" acham que "é impossível ter todos os serviços ao virar da esquina". É verdade. Mas acredito que os que invocam esse argumento não vivam propriamente numa região com falta de estruturas básicas, como vias de comunicação decentes, hospitais, ou mesmo uma adequada oferta cultural. Aposto que 99% não residem a mais de trinta quilómetros do litoral.

Mirandela não é Barcelos, nem Santo Tirso, nem Oliveira de Azemeis. Não é exactamente um fim do mundo, mas as pessoas não têm a possibilidade de chegar à maternidade mais próxima num quarto de hora. Até porque Bragança é o único distrito continental que não tem um metro de auto-estrada. Parece que há mesmo a ideia (criminosa e desprovida de sentido) de encerrar o que resta da linha do Tua. Imagine-se ainda como será para as populações de Freixo de Espada à Cinta ou de Vimioso, ainda com piores acessos. Quando se fala na interioridade do país, melhor seria não vir com o "impossível ter os serviços à porta". Há quem não os tenha num raio de dezenas de kilómetros.
Mão Direita do Diabo



Sim, também é possível ver o ambiente dos film noir e dos romances policiais da Colecção Vampiro (ou mesmo da sua antepassada, a colecção Escaravelho de Ouro, da qual herdei alguns exemplares) escrito em português e por portugueses. É claramente o caso de Mão Direita do Diabo, de Dennis McShade, pseudónimo de Diniz Machado, com o seu anti-herói Peter Maynard, seco e rude, mas culto, a sua dreamgirl, as suas ligações aos sindicatos do crime, os seus comparsas ítalo-americanos, a sua úlcera, que o impede de tocar em álcool, tudo numa aura negra, cómica, gangsteriana. Para apreciadores do gênero, por muito que alguns o considerem "menor". Bem haja o Público e a Colecção 9 mm.

terça-feira, setembro 05, 2006

Sobre o Indy

Não houve quem, nos jornais ou nos blogues, se escusasse a deixar a sua declaração desentimentos ao Independente (é escusado fazer o link). Deixo então o meu modesto contributo para o epitáfio ficar completo.
Lembro-me ainda do primeiro número do jornal e da imensa publicidade que lhe fizeram, que conseguiu esgotar a primeira edição. Como era muito novo e a política era para mim um terreno obscuro onde se moviam seres engravatados, só me lembro de ver anunciado um cantor negro de jazz.

O perfil do jornal, graças à dupla MEC/Paulo Portas, era o de um libelo anti-cavaquista, que o rodeava pela direita, muito embora se inspirasse no esquerdista Liberation, com um estilo mordaz, frontal e agressivo, que tanto desenterrava casos reais como estampava histórias de veracidade mais que duvidosa.
Lembro-me particularmente da primeira metade dos anos 90, os do grupo do Altis, que criou o PP de Manuel Monteiro. Uma geração de jornalistas, agora mais convencional, formou-se exactamente no semanário de sexta-feira. O apogeu do jornal data dessa época, que coincidiu precisamente com os ataques mais acirrados ao cavaquismo. Alguns deles eram claramente injustos e mesmo infames. Lembro-me da perseguição que fizeram a Macário Correia, em que inclusivamente colocaram uma fotografia dos seus pais com aspecto, em parte forjado, de campónios. Miguel Esteves Cardoso veio aliás mais tarde pedir desculpa por esse exagero. O suplemento Indy não era menos irreverente (lembram-se da BD do major Alverquinha?), com críticas sardónicas de MEC, e outras um pouco mais sérias dos diferentes colaboradores.

O restante percurso do jornal é sabido. Portas trocou o jornalismo e as mangas de camisa pela política e pelos fatos de corte clássico; Esteves Cardoso saíu com outros projectos e regressou durante algum tempo, já sem o vigor do início. O projecto semi-ideológico do Independente começou a esgotar-se. Nos últimos anos, verificou-se uma tentativa desesperada de voltar aos "velhos tempos", mas já era tarde, e as ideias estavam longe de ser frescas e originais. Embora pudesse surpreender inicialmente, constata-se que o fecho do jornal era afinal uma inevitabilidade que ninguém se tinha lembrado de prever.

Com o fim de uma era no jornalismo luso, fica assim um espaço em branco à direita, tal como em todas as outras vertentes, a começar pelos partidos. O Semanário é uma irrelevância, o Diabo só mesmo para nacionalistas trauliteiros, o Expresso não tem suficiente carga ideológica, mantendo-se próximo do PSD (olha a redundância!). Está-se à espera do Sol para saber o que sai dali, mas calcula-se que seja um veículo para publicitar os pensamentos e as vaidades de José António Saraiva (e do omnipresente e enjoativo Marcelo Rebelo de Sousa). Talvez a legítima herdeira do Independente seja mesmo, num estilo menos irreverente e ácido, mais professoral e aprofundado, a revista Atlântico.

sábado, setembro 02, 2006

Scarlett em dose dupla

Não sendo tão aficionado desta estrela dos nossos tempos como alguns bons rapazes, a quem agradeço a fotografia aqui exposta, apraz-me registar que Scarlett Johansson surgirá no novo (e há muito esperado) filme de Brian de Palma, The Black Dhalia, o primeiro desde o intrigante e fantástico Femme Fatale. Um film noir como nos velhos tempos do gênero, felizmente. E aqui a "femme fatale" é a própria Scarlett. Que surgirá também em Scoop, outra parceria com Woody Allen, também em Londres, mas num registo mais de comédia do que em Match Point. Duas boas notícias para as telas de cinema. Será o melhor sinal de que o Verão acabou, apesar de Miami Vice. O que só prova que até as coisas tristes têm o seu lado positivo.


segunda-feira, agosto 28, 2006

A Âncora da Nova Democracia

Enquanto escrevia o post anterior, num posto dos correios de Vila Praia de Âncora, ouvia nas ruas um carro de som com música do mais conhecido filho da terra, Quim Barreiros, entrecortada com aquilo que parecia ser apelos para um comício político. Já lá fora, avistei a dita viatura com uma bandeira que me pareceu ser da CDU. Pensei logo que fosse para a Festa do Avante. Só depois me dei conta de que se tratava da ...Nova Democracia. Confirmei escassos minutos depois, ao abrir o Expresso, que acrescentava que a rentrée do movimento de Manuel Monteiro teria lugar num comício da localidade, para a presentação de um tal "Manifesto da Direita".
Lamentavelmente, perdi a oportunidade de assistir ao "primeiro comício da história do PND".Conservei-me em Moledo, e só voltei a ter ecos do evento no dia seguinte, por comentários de amigos que tinham passado em Âncora, de breves notícias nos jornais, que registavam as dificuldades burocráticas para a sua realização, e na prosa verrinosa de Vasco Pulido Valente, que chamou "maluquinho" a Monteiro (também dissertou sobre os monárquicos, mas sobre isso não me pronuncio) e ao seu projecto. Não querendo ir tão longe, até porque não sou tão sibilino quanto Valente, acho que o comício seria ao menos pitoresco, tendo em conta que parte da assistência estava nas esplanadas, pelo que lamento não ter aparecido para algumas impressões ao vivo de mais uma manifestação da "nova (?) direita". Mas concordo plenamente com o historiador, de quem acabo de ler a biografia de Paiva Couceiro, num ponto importante: come-se realmente bem em Âncora.

sábado, agosto 26, 2006

Mais um atraso na emissão de posts e na alimentação deste blogue. Numa tentativa de me redimir, dou conta de que andei uns dias em Trás-os-Montes antes de regressar ao Alto Minho (brevemente, alguns aspectos sobre a serra do Barroso, que não conhecia, em Agosto, quando a nação está ainda mais em peso no litoral, e no interior se vêem sobretudo carros de matrícula francesa).
Como o país político tarda a regressar, nesta silly-season à maneira, com Pontais e preparações da Festa do Avante, missões da ONU que tardam em ir para o terreno e rescaldos de incêndios, dou a primazia ao jogo-fantasma a ter lugar amanhã na Luz, depois da excelente vitória sobre o Áustria de Viena, e a notícia do reencontro na Liga dos Campeões com o Manchester United, Celtic e a surpresa Copenhaga, num conjunto de jogos aparentemente acessíveis para passar aos oitavos. Não se sabe se vai haver jogo, mas o Gil Vicente já entrou na camioneta rumo a Lisboa, e nem Benfica nem Belenenses sabem exactamente o que fazer. Nem Valentim Loureiro. Nem as instância desportivas e judiciais, no fim de contas. Dou mais razão aos de Barcelos do que aos do Restelo, a quem não reconheço a menor razão para não jogarem na Liga de Honra, mas agradecia que o caso tivesse um desfecho definitivo para evitar chatices maiores provenientes da FIFA e da UEFA.

domingo, agosto 20, 2006

João Carlos Espada: cada vez mais na mesma



Acontece muitas vezes, mas é sobretudo no Verão que João Carlos Espada se lembra de relacionar liberdade com o uso da gravata. Ficou famoso o seu artigo "Londres em Agosto", em que nos descrevia minuciosamente as regras do seu clube londrino, como se de um membro da Câmara dos Lordes se tratasse, reproduzindo metaforicamente a liberdade no uso de indumentária apropriada, em contraste com as "elites pós-modernas" (raio de mania de fugir à sua condição elitista), que viajariam de avião em calções e xanatas.
Desta vez, Espada continua a sua fome de gentlemanship nas universidades americanas. Ao que parece, numa das primeiras noites do seu périplo americano, achou que "as coisas tinham passado das marcas "porque, no Harvard Faculty Club, "ao pequeno almoço ninguém usava gravata". Para sua grande felicidade, o Liberty Fund convidou-o para uma conferência em Indianápolis, em que o próprio motorista "trajava casaco e gravata", e ainda por cima achava que a educação melhoraria se acabassem com o Ministério da Educação "e aí por diante". Ainda segundo palavras suas, "na América, toda a gente que se preze é a favor do small government".
Dissertando abundantemente sobre o Liberty Fund, os neo-conservadores, Adam Smith, Burke, Hayek, Oakeshott e quejandos, Espada, entre os seus novos colegas conferencistas, chega a uma conclusão inquietante: "olhei à volta e não vi ninguém sem gravata ao pequeno almoço. Lembrei-me de que no Harvard Faculty Club eram quase todos a favor da intervenção do Estado". Ou seja, segundo ele próprio, não eram pessoas que se prezassem.

Era o que eu já desconfiava: a doutrina espadiana, amálgama dos pensamentos de Popper, Berlin, Oakeshott e com uma réstia de respeito por Mário Soares, avalia os comportamentos, as ideias políticas e a força das convicções pelo traje e pela sua maior ou menor formalidade. Respeito, sem dúvida, mas discordo. É que embora classicista na minha forma de vestir (até de "velho" já me chamaram), e entendendo a necessidade de solenidade em certas ocasiões, olho para as ideias e para a ética com um pouco menos de leviandade. E entendo que a forma de vestir como se quiser é também uma expressão de liberdade, contrariamente aos fatos marciais da Coreia do Norte, ou à proibição de "vestes imorais" em alguns países onde a Sharia islâmica é lei. E que o facto de se usar gravata ou não ao pequeno almoço está longe de ser um comprovativo de "formas de conduta decente". O que não falta são escroques engravatados, sem ponta de senso moral. Nem todos as universidades ou outras instituições de ideias e cultura têm de ser uma cópia a papel químico de Oxford.
Já agora, e a propósito da referência no texto a um membro do Liberty Fund, cuja compostura sartorial ("botões de punho, suspensórios, e fato às riscas") era do seu apreço, relembro que um antigo companheiro de Espada nos velhos tempos da UDP, Pedro Cabrita Reis, numa entrevista que deu recentemente, teceu palavras muito pouco elogiosas ao actual Director do Centro de Estudos Políticos da UCP. Pelo que se viu na fotografia, envergava uns elegantes suspensórios.

sábado, agosto 19, 2006

Ainda não é desta

Para concertos estivais bastou o de Sábado. Ainda estive para ver o Morrissey em Paredes de Coura, mas a falta de vontade dos confrades, os trinta e tal quilómetros por estrada sinuosa até à vila, os quarenta euros pedidos pela entrada (só uma noite), e, acima de tudo, a chuva que se abateu impediosamente sobre a região dissuadiram-me por completo. Ainda se os Bloc Party fossem na mesma noite, arranjava-se coragem para enfrentar a intempérie, que o resto seria aleatório. Assim, resta-me esperar que o complexo Moz volte noutra altura para ver e ouvir a sua obra ao vivo. Num qualquer coliseu, que me parece espaço mais adequado do que o ar livre para se exprimir condignamente.
Entretanto, o sol está para voltar...

domingo, agosto 13, 2006

Stoned finally




Escrevo poucas horas depois de conseguir finalmente assistir ao concerto da maior banda de rock do Mundo, no Estádio do Dragão (ainda não tinha igualmente entrado no recinto do adversário). Falhadas as incursões a Alvalade em 95 e a Coimbra em 2003, pude ver o fabuloso circo visual, pirotécnico e sonoro dos dinossauros do rock. O seu lendário vocalista sexagenário parece ter trinta anos, pela forma como se requebra, corre e salta. A comunhão com o público foi perfeita, e só faltaram alguns êxitos (mas com uma carreira de mais de quarenta anos, só mesmo commais doze horas). Uma velha aspiração tornada enfim realidade. E uma forma de escapar aos ares malsãos que, arrastados por ventos da Galiza, trouxeram para o Alto Minho o fumo e as cinzas provenientes dos incêndios que não têm parado de dizimar a região dos nossos vizinhos a norte de Melgaço.

sábado, agosto 05, 2006

A banhos

Já devem ter percebido que a míngua de posts indicia que estou a banhos. No sítio do costume, aquela conhecida e ventosa praia a norte onde também reside o Dr. Sousa Homem (que ainda não conheço). Por acaso, hoje o vento é apenas uma leve brisa que amacia o autêntico dia de canícula E eu aqui a blogar. Com licença, que um dia de praia destes não se pode perder.
Tentarei actualizar o blogue dentro do possível.

quinta-feira, julho 27, 2006

Palavra de honra



Trocava a minha perna esquerda por uma de pau, e fazia-me pirata, pelas Caraíbas, Índico e Mediterrâneo fora, de punhal entredentes e pistolão à cinta, me deixassem fazer todos os takes desta cena no lugar de Johnny Depp.
Referência tardia a factos que a mereciam
A fraca produção blogoesférica e a concentração num número limitado de assuntos levou-me a esquecer de referir dois factos muito diferentes entre si (excepto talvez os culpados), mas que quase um mês passado merecem ser recordados.

Um deles é o assassinato a tiro de Martin Adler, jornalista sueco free-lancer, nesse desgraçado país que é a Somália, que ele tão bem conhecia e onde assinou inúmeros trabalhos. Muitas vezes o vi na Grande Reportagem, com as suas descrições nas latitudes mais perigosas do mundo, com ilustrações significativas da miséria humana que presenciou, como as ruínas de Grozny. No meu último ano da faculdade fiz um trabalho sobre as intervenções humanitárias e militares no Haiti e, exactamente, na Somália, em que tirei inúmeros apontamentos das suas reportagens na GR. Desapareceu agora, esse intrépido globetrotter do jornalismo, vítima de fanáticos islâmicos, ou de simples bandoleiros que enxameiam aquele território sem ordem nem lei.

O outro é o dos atentados em Bombaim (ou Mumbai, como dizem agora, mas eu prefiro a denominação já usada ao tempo de Dona Catarina de Bragança), há coisa de duas semanas, de novo em linhas férreas, o que já começa a ser hábito. Para um habitual frequentador de caminhos de ferro, como eu, não é muito reconfortante. Mas o mais espantoso é que as quase duzentas vítimas mortais e as centenas de feridos deram origem a não mais que um, dois dias de noticiários. As bombas em Londres no ano passado provocaram muito maior celeuma. Os autores não serão exactamente os mesmos, mas as motivações são certamente semelhantes.
Podemos sempre pensar que a situação em Israel desviou muito as atenções, ou que - hipótese bem mais sinistra - acontecimentos desta monta se estão a banalizar. Mas nada me tira da cabeça que em parte se deve ao famoso sentimento inversamente proporcional à distância bem exemplificado pelo velho Eça. O que, convenhamos, é muito injusto. Nem a Índia nem Bombaim são recantos obscuros. Eu tenho imensa admiração pelo estado indiano: com uma área enorme, à qual não faltam selvas fechadas, desertos, contrafortes dos Himalaias e rios imensos; uma história de passado violento entre povos autóctones e os colonizadores europeus; uma maioria hindu,com o seu indizível sistema de castas, e minorias muçulmanas, budistas e cristãs; ainda assim, consegue ser uma democracia sem grandes registos de golpes de estado e fraudes eleitorais, e economicamente prepara-se para ditar suas regras do jogo dos mercados mundiais. Portudo isso, merecia mais tenção. Uma atenção que futuramente não mais lhe será negada.

segunda-feira, julho 24, 2006

O Líbano, Israel, e os problemas de sempre

A guerra voltou ao Líbano e parece querer ficar. Aquela pobre tira legada pelos fenícios e ocupada por incontáveis ritos cristãos e muçulmanos, sempre que parece querer voltar ao normal, seja expulsando exércitos ocupantes ou reconstruíndo as suas cidades, vê-se inevitavelmente entre dois fogos.

O Hezbollah, com as suas milícias e o seu arsenal amealhado nos últimos anos, é o perigo imediato nas região. Jamais a vizinha síria se atreveria a dar a cara directamente, consciente das consequências que tal acto comportaria. O Irão é menos comedido e o seu discurso visceral mente anti-israelita continua afiado. O Hamas é outra ameaça, mas não parece ter os meios dos xiitas do norte, e sempre tem uma legitimidade popular que os outros não possuem. Além do mais, passa por fortes divisões no seu seio, que em nada beneficiam os palestinianos.
O problema que se discute é o da desproporcionalidade entre os ataques e a captura de soldados israelitas e a resposta militar de Tel-Aviv. A legitimidade para retaliar e neutralizar os inimigos de Israel é coisa que só os fanáticos poderão negar. Mas os ataques a alvos civis, o cerco a Gaza, deixando-a sem luz, e as numerosas vítimas deixadas pelo caminho tiram ao estado hebraico muita da sua razão.

Descontando os desvairados do costume, para quem os árabes deviam pura e simplesmente ser exterminados, não deixo de me espantar com as opiniões de Francisco José Viegas e de Pacheco Pereira, no Público da semana passada, mesmo tendo em conta a estreita ligação que o primeiro tem com Israel. Na sua versão, qualquer reacção israelita (que está "sozinho no mundo") é sempre justificada, os EUA cumprem o seu papel e a União Europeia toma sempre a posição anti-israelita. Talvez se esqueçam que a UE tem gasto mundos e fundos na preparação de forças armadas palestinianas que possam controlar as milícias mais radicais; que cortou os fundos à Autoridade Palestiniana como coacção às atitudes hostis do Hamas; que exigiu (e conseguiu) a retirada das tropas sírias do Líbano. Mas não; ao que parece, para alguns, a UE é "pró-terrorista" e os orgãos de comunicação social apenas olham para um lado. Só que o que parece nem sempre é, e talvez por isso haja esse lamentável esquecimento das reportagens nos destroços de Haifa, e da presença do MNE francês na mesma cidade, assistindo aos bombardeamentos. O argumento de que a "comunicação social" está contra Israel" é tão pernicioso como o mito do controlo da mesma pelos judeus.

Parcialidades também as há do outro lado. Vejam-se as opiniões do PCP e do BE, para quem a culpa é eternamente de Israel, as bombas são todas israelitas, e o Hezbollah nunca existiu. Dá vontade de perguntar se os senhores desviam os olhos ás imagens de destruição e fuga causadas pelos mísseis projectados do Líbano.

Nunca compreenderei porque é que tantos são sempre radicalmente pró-israelita ou palestiniano. Qualquer projecto sensato para a região implica que, para que haja dois estados em coexistência pacífica (e uma Jerusalém dividida equitativamente), as forças para-militares islamitas, porque é disso que essencialmente se trata, sejam desarmadas e reduzidas à sua condição civil. Até lá, Israel tem direito a defender-se e inclusivamente a entrar no Líbano, se as forças deste país não actuarem eficazmente. A actual incursão terrestre parece-me bem mais aceitável do que os bombardeamentos anteriores. Não é explodindo com aeroportos e edifícios civis que a paz vai ser alcançada. Actos desses apenas aumentam o ódio e fortalecem os radicais, em lugar de os travar. Essa é uma lição que Israel já devia ter aprendido há anos, com a larga experiência que tem. A destruição de um autocarro e a morte dos seus passageiros, por exemplo, pelas forças israelitas, em nada se distancia de idênticos actos dos bombistas suicidas. E estão a provocar uma catástrofe humanitária no Líbano, entre mortos e centenas de milhares de refugiados, que só os mais facciosos poderão negar. Como diz o Bruno Cardoso Reis, nesta excelente posta, o direito à legítima defesa não permita fazer o que muito bem apetecer. A coberto da incompetente diplomacia Norte-Americana, que parece que com a visita da srª Rice a Beirute ficou um pouco mais clarividente. Fiquem ainda com este textos do Portugal dos Pequeninos, da Sexta Coluna e do meu estimado Corcunda. Tudo perigosíssimos "amigos dos terroristas". Assim como Mario Vargas Llosa, outro notório "anti-semita" cujo artigo no El Pais o Avesso do Avesso em boa hora se lembrou de reproduzir na íntegra.
PS: hoje um míssel teleguiado israelita matou quatro representantes da ONU, apesar de horas de avisos telefónicos sobre a situação exacta dos malogrados observadores. "Um erro", segundo as forças de Israel, se bem que não tenham explicado como é que o cometeram tão clamorosamente se têm tão boas informações sobre o paradeiro dos agentes do Hezbollah. Afinal a sua informação é mais deficiente do que o que querem fazer crer ou ocorreu aquilo que em direito civil se chama negligência grosseira?
Entretanto esta tarde dei de caras com umas dezenas de manifestantes "pela paz", e "contra o terrorismo de Israel". Surpreendentemente, não encontrei nenhum contra o terrorismo do Hezbollah. Querem ver que era outro caso de negligência grosseira? O velho Código Civil está mais presente nas nossas vidas do que imaginamos. E para que conste, um dos manifestantes usava uma t-shirt vermelha com a fouce e o martelo a toda a largura da veste.

domingo, julho 23, 2006

Público de Domingo

Nem sempre concordo com Vasco Pulido Valente, devido ao seu pessimismo radical, à forma como tantas vezes fala das coisas sem ter uma real noção ou conhecimento de causa, ou à mania que tem em elogiar algumas personalidades (o que é raro) para depois as desancar(o normal).
Mas hoje aconselho vivamente o seu artigo no Público sobre Rui Rio, as suas prepotências e caprichos, desde as célebres entrevistas por escrito até ao condicionamento de atribuição de subsídios em troca de atitudes acríticas e servis. E, mais que tudo, as delirantes teorias da conspiração contra a imprensa inseridas na "informação" do site da CMP. O entusiasmo do início do seu mandato deu definitivamente lugar à desilusão e à indignação. A tão propalada "forma diferente de fazer política" do Dr. Rui Rio não passa afinal de um portentoso bluff.

No mesmo jornal, Rui Moreira fala de Ernesto Azevedo, que desapareceu recentemente de forma discreta. O mentor do mítico Portucale, o melhor restaurante do Porto - e com a melhor vista, quase aérea - deixa o seu especialíssimo lugar vago a quem o souber ocupar com igual competência, o que é tarefa ciclópica. Um dos marcos gastronómicos do país vê assim o seu futuro nublado. Esperemos que, tal como nos dizem tantas vezes, não haja insubstituíveis.
A propósito, terá Rui Rio tido conhecimento de tal perda? Ao menos que lhe conceda uma medalha de mérito municipal, ou um louvor, a título póstumo.

Adenda: no Público propriamente dito aparece, nas páginas finais, uma fotografia de Uma Thurman, em toda a sua graça. No suplemento Pública aparece a inquietante Kate Moss, com uns calções curtíssimos. Repare-se nas semelhanças entre as duas, excepção feita aos ditos calções e ao chapéu de Uma. Semelhanças essas que não me impedem de dar uma nota muito mais alta à heroína dos filmes de Tarantino. Kate que me desculpe, mas não há volta a dar-lhe.

quinta-feira, julho 20, 2006

Week-End algarvio







Em dias tão quentes (até Segunda), apraz-me saber que passei o fim de semana no sítio mais fresco do rectângulo nacional: Sagres, esse pedaço mítico de Portugal desafinando o oceano. Ainda assim, posso assegurar que os raios solares não eram assim tão poucos que não impedissem a inevitável mudança de pele. Valeram as praias da Costa Vicentina, inexpugnáveis atrás das falésias, dos montes e dos caminhos de terra batida, os jantares em Vila do Bispo, as noites ao ar livre em Sagres, e, claro, a numerosa companhia. Sinal menos só para a turba bretã que enxameava pela bela Lagos (e como cresceu a cidade de Gil Eanes!), pelas suas ruelas e areias, apresentando preocupantes sinais de excesso de álcool e de substâncias ilegais. Pena o fim de semana ser por norma tão curto. Já se sabe que em Agosto vai ser o caos autêntico.

terça-feira, julho 18, 2006

Cinquenta anos



Cinquenta anos de incentivo à cultura, às artes, à investigação, ao combate à iliteracia. Meio século de excelência e de vanguarda. Que Rui Vilar continue com o mesmo rumo, para daqui a outras cinco décadas podermos comemorar o centenário com idênticas palavras. Parabéns à Gulbenkian, e louvado seja aquele senhor arménio que se lembrou de a criar. Perdoem-me a blasfémia, mas neste caso é justificada.

sexta-feira, julho 14, 2006

Crazy Diamond

Morreu Syd Barrett. Fisicamente, porque que para o público estava já quase enterrado desde 1972. O homem que passou os últimos 30 anos em reclusão na sua casa de Cambridge, pintando quadros abstractos, andando de bicicleta e jogando dominó sozinho, com a generosa reforma que os seus direitos de autor lhe proporcionaram, era um perfeito autista, escondido do mundo e da fama. A tal estado condenou-o a LSD excessiva do seu psicadelismo irreal. Os seus Pink Floyd continuaram, mudaram o estilo e conquistaram o mundo. O autor de Arnold Layne desapareceu definitivamente. A lenda, essa, já dura há trinta anos e terá agora tendência a dilatar-se.

quinta-feira, julho 13, 2006

Pós-campeonato

A febre do Mundial afectou tudo e todos, e isso foi particularmente visível aqui no blogue. Olhando para os últimos posts, reparo que quase não falei de assuntos que não tivessem a ver com a competição. Pacheco Pereira por certo ficou chocado, caso tenha aparecido por cá. Por isso, façamos um ponto da situação para encerrar o assunto.

Portugal não teve exibições de uma beleza estonteante (apesar de ter ganho da FIFA o galardão de "equipa mais atractiva"). Mostrou uma equipa com talento, garra, esforço, agressividade q.b., com capacidade para ir à final. Os epítetos que certos comentadores de países adversários lhes lançaram, tendo um fundo de verdade, foram de uma hipocrisia atroz - veja-se as manobras inglesas antes do jogo com Portugal, ou os mergulhos que acalentaram penaltys aos franceses. Safa-se a Alemanha, de que se falará daqui a pouco.

Durante um mês, ouviram-se os profetas da desgraça e aqueles para quem o alvo das atenções constituía a distracção do povinho, a futebolice nacional, etc. Aqueles para quem a condição de ser português é insuportável, e que só o que vem lá de fora tem préstimo. Como se "lá fora" não houvesse a mesma loucura pela bola, até em doses maiores. E tenho pena de não ouvir uma opinião de João Carlos Espada sobre a sua tão amada Albion, terra de gentlemanship e liberdade, no seu acompanhamento aos seus ídolos na Alemanha (hélas, desta vez para perder). Como é evidente, os comentários do tipo "agora que se acabou o futebol, temos o Verão, e lá para Setembro as pessoas dão-se conta desta desgraça" estão na ordem do dia, e são tão previsíveis que deviam constar das aposta da Betandwin. A pseudo-intelectualidade misturada com pessimismo e com um elitismo escondido dá frequentemente resultados assim. Pena que não se alegrem com os exemplos dos jogadores em levarem Portugal tão alto, na sua permanente maledicência, e passem o tempo a desvalorizar o que devia ser regra no país. sim,eu tenho pena que não estejamos nos quartos de final do civismo,etc. Mas já que chegámos a este ponto, porque não comemorar? O futebol serve para isso mesmo, a não ser que"civilização" signifique permanente tristeza, depressão, fleuma, bocejo.

A Alemanha ficou extremamente bem vista com este evento, quer pela organização, como pelo acolhimento, alegria e fair-play que demonstraram. Diz-se que este campeonato pode ser excelente para que a economia italiana volte a crescer. Não há dúvidas que tem sido um meio ano excelente para a península, contando com as derrotas de Berlusconi e a prisão do Capo Provenzano. Mas interessa-me igualmente o futuro da Alemanha. Pode ser uma ilusão, mas quem sabe se, tal como em 1954 a conquista do Mundial da Suíça face aos "invencíveis magiares" deu um alento suplementar à jovem e titubeante RFA, este novo orgulho nacional, esta consciência de que o empreendedorismo germânico pode-se conjugar com entusiasmo e simpatia, não será uma das alavancas para que a Alemanha, com um hipotético despertar italiano, volte a ser o motor da Europa?

E por agora, basta de posts sobre futebol, apesar do Benfica ter voltado aos trabalhos para a nova época. O Mundial já lá vai, embora as polémicas permaneçam. Falemos agora de (outras) "coisas sérias".

terça-feira, julho 11, 2006

Italia

Tal como desejava, os transalpinos ficaram mesmo com a Jules Rimet, 24 anos depois, confirmando todas as superstições.



O resultado nos penaltis deixa sempre um amargo de boca a quem perde. Desta feita, ironicamente, deixou a Trezeguet, ele que tinha marcado o golo da vitória da França no Europeu de 2006 contra a ...Itália.
Mas acaba por ser justo, não só pelo percurso da Itália mas igualmente pela consagraçaõ de vários jogadores que o mereciam há muito tempo, como Totti, Canavarro, Buffon, Nesta, Del Piero e um guarda-redes veterano que nem sequer jogou, mas que eu apreciava particularmente: Peruzzi.

Inaudita foi a despedida ao pior nível do maior jogador da década. Por muito que Materazzi lhe pudesse ter dito, nada justificava a marrada que deu. Talvez saudades dos touros da Provença...Mas toda e qualquer moral de "fair play" que o detestável Domenech tanto apregoava esvaiu-se definitivamente, isso depois dos penaltis duvidosos que permitiram à França chegar à final.

domingo, julho 09, 2006

Olímpico de Berlim

O estádio de Berlim onde se joga a final do Mundial tem, como todos sabem, uma carga como poucos. No seu recinto, nos Jogos Olímpicos de 1936, Jesse Owens, com as suas quatro medalhas de ouro, humilhou Hitler e a convicção de superioridade (neste caso desportiva) nacional-socialista.
Poupado pela guerra, o Estádio Olímpico passou a casa do Hertha de Berlim, já que estava situado na parte ocidental, e mais tarde a receber a Taça alemã.
Até 2000 manteve-se quase inalterado, a partir daí começou a receber obras de remodelação para este Mundial, onde entre outras coisas se descobriu um engenho explosivo que jazia nas bancadas desde a Guerra. No alto colocou-se uma cobertura que mudou quase radicalmente a perspectiva anterior do recinto.
Eis o Estádio em 1936, na altura dos JOs:




Em 1998, quando por lá passei, o estádio era assim:


As imensas remodelações deram-lhe o aspecto actual



A fachada ainda conserva a face original


E agora, que vençam os Azzurri!
Fim da ida ao Mundial - o jogo

Do fim do nosso Mundial falarei mais tarde, bem como de Figo. Mas agora,a poucas horas do fim, quero apenas acabar o dossier da minha ida ao evento com a descrição breve do ambiente no jogo Portugal-Irão. Já lá vai há uns tempos, eu sei, mas já tinha prometido falar nisso, portanto aqui fica.
Desde logo, a facilidade de transportes desde o centro de Frankfurt até ao recinto, em metro directo. Quem não tivesse a percepção da sua localização estranharia ao não vê-lo ali ao lado, mas é preciso dizer que o Waldstadion fica mesmo rodeado por um espesso bosque, com uma extensa alameda até aos seus portões. Nada que saber.
Lá dentro, uma temperatura agradável. Um estádio coberto e com ecrãs suspensos a meio, coisa que nunca antes vira ao vivo. E milhares de iranianos, muitos mais que os lusos, embora não tão exageradamente superiores em número como um jornal quis fazer crer, ao dizer que "aos cânticos iranianos nem valia a pena tentar resistir". Em muitas bandeiras era visível o leão coroado do tempo da dinastia Pahlavi.


E depois as entradas dos jogadores. O hino, sempre um momento de orgulhosa emoção. O apito inicial, as correrias dos nossos jogadores, as belas jogadas, os remates infrutíferos, as contínuas tentativas. Depois, o intervalo,a espera, o nervoso miudinho pelo 0-0 confirmado nos ecrãs. Numa pequena volta, reparar que há ainda inúmeros adeptos alemães, japoneses, ingleses, escoceses, coreanos e mexicanos, com penas de pavão seguras em armações com motivos aztecas.
Recomeço do jogo. Novos remates,novas jogadas, o primeiro perigo esboçado pelos persas. E de súbito, Figo a correr, a passar a Deco, e este a fuzilar para o magnífico golo! Euforia total, o "já está" próprio destas ocasiões, e os incentivos ao tento da tranquilidade. E ao "ponham-se a brincar, ponham", quando o Irão quase marca.
Nova jogada de Figo e...penalty. Ao longe pareceu-me fora da área, mas é mesmo dentro. O miúdo Ronaldo respira fundo, olha para a baliza e concretiza. Aquela expressão de triunfo irrompante, que todas as TVs passaram a seguir foi bem visível nos ecrãs.Talvez a imagem marcante do jogo. Depois, o controlo normal, o desânimo do Irão, as substituições para queimar tempo e para os aplausos. e o apito final. vitória, a Selecção está nos oitavos! Os iranianos, tão eufóricos no início, perderam muita da animação: o jogo com Angola é para cumprir calendário.
Já a saída dos portugueses é retardada pela música de fundo, que espalha a Força, de Nelly Furtado. E é o delírio, com os patrícios a entoarem a música em coroe a agitar as bandeiras. A banda sonora perfeita para a vitória.
E lá fora a multidão, as Televisões de vários países, como a coreana, a perguntar-nos a opinião ,e a SIC, rodeada do habitual círculo de tugas, em que um mais ponderado lá diz que é difícil mas que "estamos com a selecção", enquanto os outros não cessam de gritar que "somos os maiores, vamos ganhar o Mundial!". O costume, nas euforias. Antes do regresso à cidade propriamente dita, de metro, a tempo de ver um excelente Gana-República Checa, e rodeados de dezenas de iranianos, de resto uns tipos impecáveis e afabilíssimos.

A miséria paga-se com gestos adequados

A campanha que algumas mentes inquietas andam a fazer contra Cristiano Ronaldo é absolutamente miserável. Depois das entrevistas imaginárias e das reacções próprias de hooligans da sua lamacenta imprensa, os ingleses criam sites de puro ódio contra o jogador, pela simples razão dele se ter queixado ao árbitro de Rooney e por ter marcado o penalty definitivo. Provavelmente julgam que o contrato com o United o obriga a continuar a servi-los quando enverga a camisola da Selecção. Mas assim como há maus perdedores, há igualmente maus ganhadores, como atestam diferentes opiniões francesas, que caiem igualmente sobre Ronaldo (como se Henry fosse um santinho); o seu treinador Domenech é aliás uma prova viva disso, mas Scolari disse as palavras todas na cara.
Para gente que nos acusa de falta de fair-play e tem reacções destas, há que dar o devido desprezo. Não aprecio muito o vernáculo gestual, embora o verbal seja muitas vezes usado com mestria. Mas por uma vez abro uma excepção e mostro o conselho que Ronaldo devia dar aos tabloides e seus entusiásticos seguidores.














quinta-feira, julho 06, 2006

A sina

Como temia, perdemos de novo contra a França. Nas meias finais. Com um penalty bem aproveitado por Henry e imaginado pelo árbitro. E depois não tivemos imaginação para desfeitear uma França totalmente na defensiva, nem com a ajuda de Barthez. Scolari continua a fazer substituições incompreensíveis: colocar Postiga é deixar a equipa com dez.
Para piorar as coisas, ficámos sem Miguel e sem Ricardo Carvalho para enfrentar a Alemanha e Klose no Sábado, na final dos pobres. Uma desgraça nunca vem só. E com esta série de desforras falhadas, estou mesmo a ver que a França ganha com uma vaca incrível, tal e qual em 2000. Por isso, desejo encarecidamente que esta Itália acabe como em 1982. Porque merece e é mais equipa. Não basta Zizou, que hoje, além do penalty, pouco se viu.

quarta-feira, julho 05, 2006

Nervoso miudinho

E agora, começa o nervoso miudinho para logo à noite. É sempre assim, nas meias-finais, a não ser talvez há dois anos, contra a Holanda. Mais uma final? Recambiados para o 3º/4ºlugar? Seja como fôr, aconselho todos os que possam a ler mais uma fantástica crónica de Manuel Alegre no Público. E por arrastamento, as dos outros, desde Manuel Queiró a Eduardo Lourenço.
Ontem, no imenso anfiteatro de Dortmund, outro dos nossos adversários ficou definido (que novidade!): a Alemanha, o último favorito, sofreu um banho gélido na moral cruelmente dado pelos "assassinos" italianos Grosso e Del Piero. Os transalpinos justificaram a vitória sem demasiado cattenacio e estão na final. E que ninguém se admire se acabarem com a Taça nas mãos, a exemplo de há 24 anos. Eles estão ali para isso.
Espero, naturalmente, que os próximos adversários do grande treinador que é Lippi seja uma equipa comandada por um técnico igualmente com nome italiano. Mas há um campeonato que os franceses já ganharam: o dos slogans. No meio da banalidade patriótica que se viu nas frases oficiais de apoio, a equipa gaulesa destacava-se com um esplêndido "liberté, Egalité, Jules Rimet". Que se fiquem por aí e que deixem o título mundial ser disputado pelos vizinhos mais a sul.
França? Oh, não!

Os meus desejos momentâneos concretizaram-se, e a "velha" França recambiou aquela imitação de "futebol de samba", com avançados gordos, extremos cansados e laterais recauchutados, de volta para férias, a ver se reaprendem a jogar como sabem. Nada mais justo e óbvio. Só que para nossa desgraça, vão jogar conosco. Já todos se devem ter dado contade de que este Mundial, além de ser o comprovativo da experiência sobre a juventude, não serve definitivamente para desforras. A França estragou os planos à "fúria" espanhola e ao escrete. Nós voltamos a tramar a Holanda e a Inglaterra pela enésima vez, sendo que os últimos já nem devem poder ouvir falar em penalties e limitam-se a verberar o Cristiano Ronaldo (?) nos seus Mirrors e Suns. E a Argentina não se vingou igualmente da Alemanha. Por isso, temo que as memórias pobres de 84 e 2000 regressem.
É caso para apreensão, sem dúvida. E eu, que nãovi o jogo dos Galos contra os Canarinhos, fiquei ainda mais temeroso ao ver Zidane regressar aos tempos de glória. Está tudo aqui. Mete medo. Mas, há que reconhecê-lo: ele merece. Apesar de ser o nosso próximo adversário, não deixa de ser emocionante ver este jogador de 34 anos em dribles sucessivos, como se jogasse nas ruas de Marselha, ao som desta música de Rod Stewart (autor muito longe das minhas preferências). Mesmo à beira do fim da carreira, Zizou continua a ser o maior.
Freitas

A substituição pecou por tardia, dizem uns? Nunca devia ter entrado no governo, atalham outros? Será uma perda contra o "imperialismo norte-americano", prefere lembrar fulano? É uma pena ir-se agora, lamenta-se sicrano? Entre todas estas análises encontram-se provavelmente os fundamentos da mais correcta. Para mim, e apesar dos vários erros cometidos, das precipitações e de algumas afirmações precipitadas e desbocadas, tenho uma certa pena de ver o ex-MNE a saír. Além de um bom académico e de revelar interesses multifacetados, seja pela poesia, pelas biografias de figuras históricas e pelo teatro, nos quais se mostrou bastante activo, a defesa de uma certa diplomacia e de uma certa Europasão dignas de registo. E num tempo em que se passao tempo a falar do "politicamente correcto", com o qual, curiosamente, ninguém se identifica, teve a sua graça ver Freitas saír-se com declarações demasiado "incorrectas", provocando a ira quase geral e os anátemas de "esquerdista" e "pró-terrorista".


Para o seu lugar, Luís Amado, homem já conhecedor dos cantos à casa e com experiência nos assuntos externos. Sai igualmente Fernando Neves e entra Manuel Lobo Antunes. Para o lugar de Amado na Defesa, Severiano Teixeira. Tudo em família. Não parece que futuramente vá haver choques no Conselho de Ministros por causa dos dois novos membros

sábado, julho 01, 2006

Ah, Leão!














Derrotou de novo a Selecção dos "Three Lions" e quase alcançou o recorde do mítico Ducadam. O herói maior (mas não único, pense-se na defesa) de um jogo chato e sem graça, em que tivemos a sorte toda do nosso lado. Não importa. Quarenta anos depois, estamos de novo nas meias-finais de um Mundial, sendo que desta vez fomos nós a acabar com as esperanças inglesas. Apenas lamento pelo grande Eriksson, mas se acreditasse no destino diria que estava escrito que ele acabaria os seus dias à frente da Selecção inglesa com uma derrota perante a sua bête noire: Scolari.

PS: acabo de saber que Ricardo bateu mesmo um novo recorde em Mundiais. Já podem repôr aquela faixa que os adeptos boavisteiros há anos envergavam no Bessa: "Ricardo, o maior do mundo".

quarta-feira, junho 28, 2006

De que Richardson se trata?

Está nas salas de cinema um thriller chamada Asylum. História da mulher de um psiquiatra, a trabalhar num asilo de alienados, que se apaixona por um dos doentes, um indivíduo que a seduz mas que, todos a avisam e logo o demonstrará, é um perfeito psicopata.
Não é que tenha especial interesse em ver o filme. Mas depois de ver uma ou outra sinopse, fiquei confuso com o elenco: a protagonista era Natasha ou Miranda Richardson? Os dois nomes surgiram-me em publicações diferentes. Até que consegui tirar a dúvida a limpo, mas ainda assim fica o esclarecimento: a protagonista é Natasha Richardson (à esquerda), mulher de Liam Neeson e filha de Vanessa Redgrave, e interpretou igualmente há pouco tempo A Condessa Russa. Miranda (à direita) é uma consagrada actriz britânica, que entrou em séries como Black Adder e em filmes como Jogo de Lágrimas e Sleepy Holow. Deixo aqui igualmente o tira-teimas visual, para uma melhor fixação das respectivas fisionomias.
















Oitavos/quartos
Pois é. O desprezo castelhano (e catalão, andaluz e galego, porque a sua seleção é a única coisa que une o país vizinho) voltou a saír furado. "La Furia" teve uma entrada a todo o gás, previu que ia reformar Zidane, e, ironia das ironias, acabou por ser o craque francês a mandá-los para casa. Para mais, a Ucrânia, a quem tinham dado quatro secos na primeira jornada, ganhou a disputa das grandes penalidades à Suíça e segue em frente. A equipa helvética era a imagem do país: não tinha grandes figuras, mas era bem cronometrada; acabou por se despedir sem sofrer um único golo, fiel à sua neutralidade. A turma de Shevchenko tem agora a cinicíssima e aliviada Itália pela frente. Seria uma surpresa se os azzurri não ganhassem, mas quem sabe se os ucranianos não resolvem imitar os vizinhos Bulgária e Roménia, revelações no Mundial de 1994.
Já o Brasil, com uma mistura de sorte, eficácia, experiência e desacerto na finalização africana, lá seguiu em frente, com o vidrão ambulante outrora conhecido por Ronaldo, o Fenómeno, ultrapassando a marca do Bombardeiro Muller.
Emocionante será, espero, o regresso aos históricos Alemanha- Argentina. Maradona e Matthaus vêem apenas de fora, mas há craques para todos os gostos, desde a dupla atacante de origem polaca até às revelações como Maxi Rodriguez, que não conhecia.
E, claro, a reedição do nosso combate com os ingleses, provavelmente o povo mais fanático por futebol, e aqueles que mais convencidos estão da sua superioridade com o esférico, muito embora a realidade lhes seja adversa e cruel. Já se sabe que nas bancadas e nas ruas eles ganham por goleada. E por muito que nos digam que a maior parte deles pertence agora à midclass, temem-se sempre os hooligans e os bêbedos, seja de que classe forem (podem muito bem não ser das workers). Dentro do campo, "Big Phil" saberá certamente como vencer Eriksson, aguardando-se que não haja novo confronto guerreiro como contra os laranjas. A classificação de "Batalha de Nuremberga", que promete ficar imortalizada, tem um tom bem mais épico e historicamente mais memorizável, que "batalha de Gelsenkirchen", tanto pela pronúncia desta última como pelo carácter mineiro da cidade do Rhur. Até porque minas de carvão é matéria bem mais conhecida dos ingleses...
Ainda a propósito da refrega de Domingo, além da intencionalidade dos holandeses em querer acertar nos nossos jogadores, como aquele "Moulin Rouge" e das desculpas esfarrapadas que deram, parece que ainda temos de aturar com (má) vontade dos britânicos em penalizar Figo, as pressões de pasquins do tipo Sun e a total crença da sua parte na passagem às meias finais. Se perdem, Scolari tornar-se à no seu eterno pesadelo.
No fundo, estes países mais não fazem que demonstrar os seus genes, revelando-se dignos dos seus antepassados corsários, que no Séc. XVII atacavam as feitorias lusas nas costas de África, Brasil e Oriente. Certamente que os descendentes de Salvador Correia de Sá e de Henrique Dias não deixarão o crédito português por mãos alheias. Não é à toa que ninguém fala holandês em territórios com mais de duzentos metros de altitude.

segunda-feira, junho 26, 2006

Drama e glória
Contra uma equipa holandesa sobrevalorizada (cheguei a pensar que seria uma das revelações da prova) e sem classe, e um árbitro desvairado que pensava impôr autoridade com expulsões, a experiente e abnegada equipa portuguesa conseguiu levar a melhor, uma vez mais. Para além da satisfação óbvia pela vitória e pela passagem aos quartos de final (objectivo mínimo), alegra-me que estes campeões da falta de desportivismo tenham ido de vela. Foram eles, e não nós, que demonstraram esperteza saloia. E as palavras de Van Basten no final foram de uma hipocrisia atroz - justificou o miserável acto de Heitinga com um imaginário"anti-jogo português"!
Segue-se a nossa velha conhecida Inglaterra, uma equipa que normalmente promete muita parra mas sai pouca uva. Têm uma fabuloso meio-campo e uma defesa sólida, mas o ataque não é dos melhores e na baliza é o que se sabe. Há esperança, portanto. Mesmo sem Deco e Costinha. E vamos lá ver em que estado ficaram Ronaldo, Figo e Ricardo Carvalho. Mas os sucedâneos serão certamente dignos da camisola.
Vencê-los de novo, é o que se pede.

sexta-feira, junho 23, 2006

Adieu, Zizou?

Cruz, credo! Esperemos que não.

PS: interrompo por um fim de semana a crónica sobre o Mundial em Frankfurt. Quando a completar, com a parte relativa ao jogo propriamente dito, espero que Portugal esteja já nos quartos de final, ultrapassando a sempre complicada Laranja Mecânica.

quarta-feira, junho 21, 2006

Frankfurt - o Mundial


Na minha estreia em Mundiais de futebol já esperava encontrar um ambiente fervilhante, parecido com o do EURO-2004, mas em versão maior e globalizada. Além disso, os metereologistas apontavam bom tempo para a Alemanha, ao contrário das nossas trovoadas pré-estivais. Assim era. O tempo tépido (realmente quente no Domingo) aliado à profusão de nacionalidades contribuía para o bom ambiente que se vivia. Logo depois da chegada ao aeroporto, onde me cruzei com Eusébio, depois de ter viajado com parte do PSD-Porto, e ainda antes da necessária instalação no hotel, quase paredes meias com a Selecção, deu para ficar com uma ideia do entusiasmo local. Na plataforma das chegadas um ecrã gigante mostrava o calvário dos sérvios. Uma hora depois, já os argentinos estavam, se assim se pode dizer, euforicamente contidos. Em relação ao desastre de 2002, é um avanço. Já os eslavos deviam ter bebido para esquecer, a avaliar pela forma como conduziam, saltando bermas e passeios, quase chocando com os croatas, compreensivelmente alegres.
Respirava-se futebol em toda a parte. Setenta por cento dos transeuntes envergava uma camisola alusiva à bola. Algumas eram de clubes - vi vários alemães com a do Benfica, por exemplo, mais do que do Eintracht Frankfurt. Aliás os alemães, com o seu tímido patriotismo que lá se vai libertando das amarras da Segunda Guerra, usavam um pouco de tudo, além do equipamento da mannschaft. Fartei-me de ver famílias inteiras, de um louro elucidativo, com a camisola portuguesa e as cores verde-rubra na cara. Outros apostavam mais no Irão, e havia mesmo os que usavam camisola de um país e bandeira do outro. Também não faltavam postos de venda do evento, com equipamentos para todos os gostos, menos para o meu, que não arranjei a camisola do Eintracht e tive de me contentar com a mais parecida, a alternativa da Alemanha.
Mais do que nas praças, a festa fazia-se na Main Arena e na fan area, nas duas margens do Meno. A tela gigante dos jogos estava, como já disse, a meio do rio. Jamais consegui lugar nas cadeiras, sempre ocupadas; tive de me contentar em assistir aos desafios de pé, excepção feita à segunda parte do Holanda-Costa do Marfim, que vi num simpático bar flutuante.
Uma das grandes diferenças entre os eventos lusos e o deste país de bebedores de cerveja é que se devolviam os copos da dita, evitando-se assim um cenário desolador de plástico esmagado. Na devolução,tinha-se o reembolso de dois euros. A parte chata é que nunca se podia circular para longe com a bebida.
Durante o dia, a fan area parecia um parque de diversões, com uma roda gigante, pequenos campos para se jogar futebol de cinco, diversões típicas de feira, barracas de pipocas, cachorros e cerveja, etc. Tal era o movimento que numa dada altura, creio que depois do Gana - República Checa, enquanto os africanos festejavam, se impediu por uns largos momentos que entrasse mais gente. As entradas eram mais rigorosas que nos estádios, com revistas que seriam certamente apreciadas por ninfomaníacas. Pelo que eu visse, não houve cenas muito conturbadas, a não ser talvez uma discussão entre namorado(a)s italianos.
De noite, aquelas margens transmutavam-se numa festa ao longo do rio. Como havia barracas de diversos países, as festas nacionais faziam-se aí. Havia, claro, os não representados, como o Egipto ou a Turquia. Noutros, como na de Portugal, a animação era rija, mas talvez menor em número que a do Irão. Havia mesmo uma barraca de Trinidad e Tobago, com naturais das ilhas que me recordaram que o Latapy tinha também jogado na Académica.
A afluência de gente era grande, mas variava consoante fosse dia de jogo na cidade ou qual era a equipa que jogava nesse dia. Por exemplo, dos milhares de mexicanos que se viam em Frankfurt na noite em que jogaram com Angola, e contra quem gritávamos o nome da ex-colónia, de Zé Kalanga e de Mantorras, restava no dia seguinte um número diminuto, sendo substituídos por vagas de italianos e americanos, e depois por coreanos e croatas. A transumância dos povos é impressionante em tempos de Mundial. Mas há sempre uns ilustres representantes que ficam no mesmo local.

terça-feira, junho 20, 2006

Frankfurt - a cidade

 

Qualquer pessoa que viaje com mediana regularidade já passou com certeza pelo aeroporto de Frankfurt am Main, quase sempre fazendo escala, podendo entrever a cidade apenas ao nível das nuvens. O que se vê é uma cidade correndo ao longo de um rio, com um conjunto de arranha-céus à americana, antes de uma parte central já mais "tipicamente alemã".
É uma imagem redutora, claro, mas a realidade não anda muito longe disso. Com os seus seiscentos e poucos mil habitantes, tem o aeroporto mais movimentado da Europa, a maior Feira do Livro do Mundo (e de têxteis, automóveis, etc), é a sede das instituições financeiras da UE e é uma encruzilhada nas vias férreas, rodoviárias e fluviais do país. Pesada responsabilidade, portanto.

Os arranha-céus, quase todos de instituições bancárias (o Commerz Bank é omnipresente e até patrocinou a estádio), lembram vagamente a skyline de Chicago. São rasgados por avenidas longilíneas, que depois de uns parques e de um visível red-light district, se transformam em ruas com largo movimento velocipédico. Os edifícios de média estatura dão lugar a construções mais barrocas, ostentando muitas vezes o brasão do Hesse, estado federal onde nos encontramos. Segue-se um conjunto de praças, com inúmeras esplanadas, cada qual com o seu ecrã mostrando o jogo da hora aos espectadores atentos e às respectivas canecas de cerveja. A mais central de todas, a Roemerberg, em grande parte reconstruída depois da 2ª Guerra, ostenta típicas casas alemãs seiscentistas, as Fachwerhauses, e tem no centro uma fonte com uma estátua da Justiça. Pululam as lojas de recordações, desde o merchandising do Mundial às canecas bávaras de cerveja. Escusado será dizer que o grosso dos turistas se concentra ali. No dia em que cheguei, os argentinos comemoravam efusivamente a goleada sobre a Sérvia.
A dois passos, a Catedral, a Kaiser Dom, com certa imponência, embora longe da de Colónia. A sua importância mede-se por ter acolhido a eleição de vários imperadores do Sacro Império Romano Germânico durante quatrocentos anos, se bem que a coroação se desse em Aix-la-Chapelle, a exemplo de Carlos Magno.
A alguns quarteirões, a casa de Goëthe, talvez a máxima referência da língua alemã. Tal como outros vestígios históricos da cidade, a morada onde o autor de Werther nasceu e viveu até aos 26 anos teve de ser quase totalmente reconstruída depois da guerra. Com tempo disponível, deve merecer a visita, para se conhecer melhor o espírito do autor e poeta alternadamente romântico e clássico.
A parte monumental da cidade completa-se com os inúmeros museus (do Dinheiro, Judaico, etc) e a Alt Oper, mais a norte, aparentada com a ópera de Dresden, e contemporânea à de Paris. Em redor estendem-se alamedas pedonais plenas de esplanadas, lojas de prestígio, bancas de fruta e vegetais. Em sentido perpendicular a este movimento são as artérias que vão dar ao rio e às suas inúmeras pontes, cruzadas pelas muitas barcaças que fazem do Meno uma imensa estrada fluvial, antes de se juntar ao Reno, em Mainz. Ladeado por parques e ciclovias, foi esta a área escolhida para se instalar a "Fan Arena" durante o Mundial, com a tela gigante dos jogos assente no meio do rio.

quinta-feira, junho 15, 2006

Ainda sobre o Papa em Auschwitz

Não tinha escrito nada sobre a importante visita do Papa a Auschwitz, há já quinze dias. Muito se falou sobre o testemunho de Bento XVI, principalmente da classificação que deu aos nazis, um "grupo de criminosos que abusou do povo alemão... na sua sede de destruição e poder". Estas palavras provocaram alguma celeuma e muitos franzires de sobrolho. Vasco Pulido Valente, por exemplo, atribui a culpa aos alemães em geral "e à sua nobreza" em particular, esquecendo-se talvez da oposiçãoda família real bávara ao avanço nacional-socialista. Mas foram os líderes judaicos que, de forma contida, mais criticaram o Papa, entendendo que a responsabilidade cabia ao povo alemão por inteiro e não apenas aos dirigentes e ideólogos nazis.

Não afastando totalmente este tese, há muita inverdade neste pequeno ajuste de contas moral. Afinal de contas, o partido Nazi não teve uma maioria esmagadora quando ganhou as eleições de 1933. As restantes formações políticas foram severamente reprimidase os seus apoiantes presos ou liquidados. E afinal de contas, os judeus que aí viviam não deixavam de ser alemães.
Além disso,esse pensamento é perverso porque pode ser invertido para outra óptica. É que o sentimento anti-semita, contra os "pérfidos judeus", que durante séculos vigorou no cristianismo e que levou a tantos autos-de -fé, baseava-se precisamente na ideia dos descendentes de Abraão serem, no seu todo, um povo deicida. Considerar todos os alemães como culpados do Holocausto não é uma ideia muito longínqua de confundir os membros do Sinédrio com os judeus de todos os tempos e lugares. Não seria pior que os religiosos e líderes de comunidades judaicas reflectissem bem antes de lançar críticas com uma pontinha de veneno. Merkel não tem culpa dos crimes de Hitler, assim como Olmert não é Caifás.
Mundial

A magra vitória de Portugal sobre os inexperientes Palancas, depois de um começo que prometia arrasar, revelou não só ausência de risco mas também algumas debilidades já temidas, sobretudo defensivas. Nunca se sabe também se os golos marcados podem ou não fazer falta. Contra Mantorras, Zé Kalanga, Figueiredo e companheiros esperava-se mais.

Mas isto também nos devia trazer de volta à terra para nos lembrarmos que a equipa nacional é boa mas não é excepcional. É certo que somos vice-campeões da Europa e que o nosso técnico é campeão do Mundo, mas a França era campeã dos dois há 4 anos e no entanto soçobrou. Se olharmos para o nosso registo de participações em Mundiais verificamos que é muito pobre. A Suécia, por exemplo,tem muito melhor palmarés e nunca os vemos como candidatos a vencedores da prova. Nem a Espanha, ou a própria Holanda. Dos países mais pequenos, só o Uruguai lá chegou, em circunstâncias muito especiais, e a Hungria esteve quase - depois disso caíu na irrelevância. Lembro-me aliás que o último outsider a ser dado como candidato foi a Colômbia de Asprilla e Valderrama, em 1994, e nem passou da fase de grupos.

É também por isso que odeio todas estas manifestações e programas intermináveis das Tvs, promoções de supermercados, bandeiras à janela (caramba, o Mundial não é cá!), bandeiras gigantes formadas pelas "mais belas mulheres do mundo(!!!), "diários da Selecção" com as soporíferas conferências de imprensa, as entrevistas "de choque" do sr. Scolari, as revistas cor-de-rosa discutindo se o jogador A está separado ou não usa aliança, etc, etc. Valha-nos o Mundial propriamente dito, porque ouvia-se falar de tudo menos de futebol.
Por isso mesmo, no Sábado estarei em Frankfurt a apoiar a Selecção nacional. Será também uma óptima forma de apanhar bom tempo e escapar ao temporal desfeito que se tem abatido sobre Portugal. E de ver uma coisa destas ao vivo, que já estava curioso. Vamos lá então ver como se portam as Quinas perante a armada persa.

segunda-feira, junho 12, 2006



Todo o que mata pela espada, pela espada morrerá.

Em geral, quando morre uma pessoa, são prestadas as respectivas condolências, mesmo que não tivesse sido o mais encantador dos seres. Abro porém uma breve excepção para Abu al-Zarqawi. Um assassino fanático, dissimulado, sem a menor piedade pela espécie humana, só podia acabar desta forma, mais cedo ou mais tarde. O terrorista número um do Iraque, autêntico mestre do disfarce, está morto, e, espera-se, enterrado. Mas não se aguardam abrandamentos imediatos no ferro e no fogo em que a Bagdad está envolta. Cortou-se uma cabeça à Hidra, mas sobraram muitas mais.

sábado, junho 10, 2006

Chuvada

Depois de um tempo seco e a atingir os limites caniculares, desabou hoje dos céus de Coimbra uma imensa queda de água. Só agora que voltei ao Porto é que me apercebi, pelas notícias, da autêntica borrasca que se abateu sobre a Lusa Atenas, enquanto o resto do país se contentava com uns pingos. Houve ruas inundadas e torrentes pela Alta abaixo - passe o paradoxo.
Vi a chuva, mas ignorava completamente os seus efeitos, e ainda mais que apenas se tivessem produzido somente em Coimbra. É que escapei por segundos de pura sorte ao temporal, e diverti-me a observá-lo do pátio da faculdade de Direito, enquanto as caleiras quase rebentavam com a água e os Gerais se iam enchendo de largas poças. O momento mais refrescante e contemplativo da semana. No Verão ou nas suas proximidades sabe bem ver a chuva a apaziguar os espíritos. Não há melhor lavagem de alma do que uma boa chuvada.

E poucas horas depois, sob o sol do fim de tarde, o Quebra-Costas, que antes tinha sido uma cascata, não revelava traço de água.