sábado, novembro 18, 2006

Haverá plágios inevitáveis?


Sigo com particular atenção os artigos dessa personagem maior das colunas opinativas portuguesas que é o Miguel Sousa Tavares. Aprecio sobretudo os artigos mais generalistas ou políticos, que durante muito tempo acompanharam o Público e agora continuam no Expresso, apesar das muitas discordâncias. O mesmo não posso dizer dos seus escritos na Bola, em que são muito poucos os momentos em que lhe concedo razão. Este é um bom exemplo do radicalismo portista que por vezes lhe atravessa a mente, como a vitimização sem bases, o mau ganhar ou a mania de atirar para os outros os seus próprios pecados (já para não falar das suas mirabolantes criações normativas, como a dos jogadores portistas, tipo Andersson, serem uns génios e umas pobres vítimas, e por isso merecerem protecção especial dos "caceteiros" ou "jogadores banais", que é como ele apelida o Katsouranis; Paulinho Santos e André devem-se esfumar das suas memórias, sem dúvida).
Também conheço a sua singular carreira literária. Li as suas impressões políticas em Um nómada no Oásis e Anos perdidos; os percursos de Sul-Viagens e esse gênero sem categoria fixa, talvez a do conto, a que pertence Não te deixarei morrer, David Crockett; e a sua opus magnum, Equador, best seller prestes a ser adaptado a televisão (uma boa ideia, estranhamente vinda da TVI, já que a obra se presta ao formato). Não li os seus livros infantis e estou à espera do seu novo romance, que ao que parece, envolverá zeppelins. E fui fiel assinante da Grande Reportagem durante dez anos, até a revista adquirir o formato semanal que levou ao seu desaparecimento.
O recente caso do suposto plágio de um romance inglês que teria originado Equador não tem ponta por que se lhe pegue. As provas são próprias de chicos-espertos que não souberam fazer o seu trabalho devidamente, ou então não puderam pela razão natural das coisas. Acredito sem qualquer dúvida que Sousa Tavares ocupou-se naquele tempo todo do seu romance e em pouco mais.
O problema é que pode haver expressões, passagens, descrições, sensações lidas que fiquem no inconsciente e se revelem no momento em que se pega na caneta para redigir algo que, pensa-se na altura, é original e único. Por vezes não é. Olhando agora para os escaparates das livrarias, vêm-se as novidades, entre romances, (auto)biografias, ensaios,experiências vividas, etc. Os dois primeiros gêneros estão claramente na moda. Claro que a quantidade, que é muita, não significa um aumento percentual de qualidade, embora haja mais possibilidades de se encontrarem bons livros. Biografias são incalculáveis, de personalidades mais ou menos relevantes, de toda a vida ou parte dela. Os romances históricos, então, não param de saír do prelo: há-os de todas as épocas e situações, envolvidos em particulares situações temporais e suas circunstâncias. O Código DaVinci deu um valente empurrão a este tipo de literatura, que anto pode ser lida no aeroporto como pode ocupar umas boas noites de sono. hoje em dia, basta fazer uma pesquisa com algum aprumo a certo acontecimento e à sua época, delinear a narrativa e as personagens (de preferência juntar-lhe um toque "místico") e conseguir editar a resultado. Graças a esse boom, vivemos atafulhados em romances históricos, ou ensaios variados, que por vezes vêm a dar no mesmo.
É por isso que com tanta historieta, tanta aventura envolvida em acontecimentos reais, tanto novo autor a surgir, tanta publicidade e tantos novos locais onde comprar livros (e não me digam que não, entre supermercados, livrarias e feiras dos ditos), o mais provável é que se retenha uma ou outra coisa que se viu algures e que depois não se recorde. E ainda a velha história de haver pensamentos coincidentes, que muitas vezes se repetem em pessoas diversas. A pessoa não pode conhecer tudo quanto se edita. Sabe-se lá se alguma boa alma não está a editar o seu primeiro romance ficcionado, e descobe subitamente com horror que a sua ideia já estava imprimida num qualquer opus de esquina de um autor do outro lado do mundo. Com a avassaladora porção de literatura light/histórica/esotérica que hoje domina as prateleiras, e seus responsáveis, não é de espantar que novas acusações de plágio se repitam. E com as hipóteses de sacar dinheiro que estes processos às vezes proporcionam, tornam-se um filão ainda mais apetecível

quinta-feira, novembro 16, 2006

Sadismo

Na sala de espera do dentista, a televisão estava acesa no canal Hollywood. Estava a dar O Silêncio dos Inocentes. Convenhamos que as opções do consultório são assim um bocadinho para o sádico. Ou quanto muito para o inconveniente. Não tivesse visto à saída e daria para desconfiar. Felizmente para quem estava a seguir, sempre se podia distraír com alguns números da revista NS e as simpáticas raparigas da capa.

terça-feira, novembro 14, 2006

Tão liberais que eles são

"Chile, Índia e China, são alguns dos exemplos de países que, por tomarem a decisão de ampliar cada vez a liberdade em suas economias, desfrutam de maiores e crescentes taxas de desenvolvimento a cada ano.
Temos o Brasil hoje em direção oposta aos ideais liberais e nas mãos de políticos incompetentes e desonestos.(...) temos novamente o Lula dos escândalos, que acoberta “movimentos sociais” que colocam em risco a liberdade e a propriedade privada"


Este é o texto que uma colunista brasileira chamada Marília Bertoluci escreveu na Causa Liberal antes da segunda volta das eleições brasileiras. Como se vê, para alguns "liberais", a China é um modelo preferível ao Brasil. E também se verifica que a liberdade, para esta senhora, se resume à sua vertente económica. Nada de novo. Era só para confirmar.

domingo, novembro 12, 2006

Links

No Franco Atirador, um interessante desfile de Joly Rogers, dos mais diversos estilos e formas (mas não cores, está claro), revelando as influências Stevensonianas que percorrem esse blog.

Surgiu o Apatia Geral, uma espécie de fotocópia light do Blasfémias, mas com menos imaginação. Parece que todas as ideias foram retiradas aos seus mentores (inclinação política e económica, clubismo, autores, e compare-se o nome e subtítulo do blog com o "combate à bovinidade" dos blasfemos originais). Por certo uma filial não muito bem disfarçada, para espalhar o "combate político".

"Rui Rio, o que gosta de carros, mudou as placas com os nomes das ruas da Invicta. Foi o seu maior gesto, encher as esquinas com placas verdes", no 5dias, um blog que merece ser visto, porquanto esteja politicamente identificado numa área bem precisa. É a minha oportunidade para falar de um mero assunto local muitas vezes adiado: uma das grandes obras de Rui Rio foi a alteração das placas toponímicas da cidade. Melhoras? Poucas. As placas verdes não são mais visíveis do que as suas antecessoras de letras negras sobre fundo branco. E na minha rua a substituição deixou-me particularmente aborrecido. A placa que a sinalizava era muito maior do que qualquer outra da cidade; era visível, elegante e altaneira. Só que não sei por que carga de água, tiraram-na e puseram no seu lugar uma das tais tabuletas, que se confunde com o verde da relva em que assenta. A massificação de tabuletas dessa cor, sem critério nem atenção ao caso concreto, também deve ter custado uns dinheiros à câmara, para mau serviço de sinalização e menos fundos pecuniários em coisas para as quais seriam bem mais úteis.

sábado, novembro 11, 2006

O fascismo britânico













Um comício da BUP; o seu líder, Oswald Mosley, com o Duce.

Pois é. Apesar dos mais anglófonos relegarem sempre o fascismo para o "Continente"(com notória influência em Alberto João Jardim) , recusando liminarmente que a Velha Albion tivesse sido influenciada pelo ar de tempo, a verdade é que também lá a moda pegou. Não me refiro às simpatias temporárias de Churchill e outros políticos pela ascensão de Mussolini, mas sim a verdadeiros movimentos inspirados directamente no fascismo italiano, onde pontificava o British Union of Fascists(BUP), de Sir Oswald Mosley, antigo Conservador e Trabalhista desiludido. Além de toda a doutrina, não faltavam as indispensáveis camisas negras e os grandes comícios.

O partido teve um grande crescimento até à Segunda Guerra Mundial, altura em que, fazendo campanha pela paz, Mosley e outros companheiros de luta foram presos, e o seu partido acabou por se dissolver. O líder fascista regressaria depois com ideias federalistas para a Europa, que pretendia transformar em nação única, e com um novo partido, recauchutado do anterior (tinha até o mesmo símbolo, o "flash and circle"), o National Party of Europe, com ligeiros resquícios actuais. Mas ideias de Mosley ficaram com ele e com poucos admiradores. Eram fundamentalmente produto do seu tempo, da efervescência política e ideológica dos anos trinta, e não sobreviveram à derrota do fascismo na 2ª Guerra.
Já agora, atente-se no aproveitamento que a BD e a ficção científica de animação, como alguns super-heróis, fizeram do símbolo dos fascistas britânicos, o "flash and circle". Casos da soberba aventura de Blake and Mortimer"A Marca Amarela", ou de Flash Gordon. E muitos outros.




Olmert: mortes de palestinos foram causadas por erro técnico

Parece que desta vez, ao contrário do que alguns quiseram fazer querer, as causas das mortes de 18 palestinianos não foram os "escudos humanos" nem um "ataque cirúrgico com danos colaterais", nem "odireito de Israel a defender-se". Foram "erros técnicos". Voluntários ou involuntários é coisa que se descobrirá. Já é positivo que o governo de Olmert tenha reconhecido o facto e oferecido ajuda. Mas o mal está feito, as vítimas estão contadas, o ódio de novo espalhado, e as suas consequências serão provavelmente demasiado gravosas para que se pense em tréguas milagrosas.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Ora aí está


O Benfica é (reconhecido oficialmente hoje pelo Guiness) o maior do clube do Mundo em sócios. A parte dos sócios não será propriamente uma notícia inesperada. Mais cedo ou mais tarde sabia-se que isso iria acontecer. O que me intriga mais é a primeira parte da notícia. Mas então isso é novidade para alguém?

quinta-feira, novembro 09, 2006

Estranhas reacções (e o anti-europeísmo da moda)

Entretanto, há já algumas reacções curiosas. A de João Miranda, por exemplo, antes de saber da demissão de Rumsfeld, mostrando porque é que a derrota dos Republicanos nada tinha que ver com Iraque nem sequer com Bush (Schwarzenegger, sendo Republicano, não parece ser da mesma opinião). E a de Henrique Raposo, tentando disfarçar um pesado aborrecimento com os resultados eleitorais, despejando um par de sentimentos do mais puro e sintético anti-europeísmo, comparando as virtudes americanas com os pecados da "decadente" Europa. Comparações facilmente desmontáveis, como a do "líder neo-fascista com 18% de votos", ou do "presidente que se mantém no poder para fugir a condenações". É só pôr parte da classe política americana ao lado, sobretudo a que perdeu hoje, para avaliarmos as suas "virtudes". Ou relembrarmos que problemas raciais são coisa que não falta nos EUA. E que certas restrições à liberdade, como as provenientes de certos fundamentalistas dos costumes, provêm precisamente do Novo Mundo. Que deste lado a pena de morte não é bem vista. Ah, e não esquecer também a indecorosa perseguição a Clinton pelas suas escapadelas extra-conjugais. Não me lembro de ver tal degradação moral na Europa.
Quanto a sentir-se melhor entre habitantes do Cabo Horn ao Alasca, é com ele. Conheci muitos nativos da lado de lá do oceano com quem me dei muito bem. Por mim, gosto muito de ser europeu e é entre eles que me sinto bem, particularmente com os do Sul. Se o Henrique experimentasse com uma menor dose de preconceito, talvez até conseguisse. Mas se se sente tão pouco à vontade, porque é que ainda vive nesta terra que detesta e não se muda para as Américas? Ninguém o impede, e sempre se aumentava a auto-estima de que esta terra tanto precisa.

PS: reparei entretanto noutra coisa: Henrique Raposo diz que "parecemos (ele também, portanto) aqueles aristocratas do filme da Coppola". Olhando para a galeria, não unicamente a dos espelhos, acho que não sou minimamente parecido com eles. Ainda por cima, os anglófilos/americanófilos lamentam sempre a sorte dessas tais aristocratas. Acho piada é que quando querem dar exemplos destes, recorrem sempre a franceses. Depois falam no anti- americanismo a torto e a direito.
condenações de grau diferente

A condenação à morte de Saddam, sendo já esperada, não pode deixar de ser criticada por todos os que se opõem à pena capital e que pensam que a privação da vida não é uma solução justa, mas meramente vingativa. Claro que desse grupo não faz parte o sempre inenarrável W. Bush, que reagiu à notícia com a esclarecedora frase "é uma grande conquista para o Iraque". Como é óbvio, quem se baseia unicamente no coldre e na Bíblia para daí construír as suas únicas concepções do mundo, ou que acredita que Jesus era um filósofo, só se podia congratular com esta sentença. Provavelmente tentando esquecer que o réu era um fiel aliado da Administração da qual o seu pai era Vice-Presidente (para depois se tornar em inimigo directo, em 90).
É claro que depois do dia de hoje, o Presidente americano terá muito mais com que se preocupar. A derrota no Congresso para os Democratas acabou por ser mais expressiva do que o imaginado, mesmo com a agressiva campanha republicana. Também em governadores estaduais houve subidas pelo partido do burro. O Senado está por um fio, e se também o perder, o bloco conservador americano averbará um fracasso em toda a linha, mais visível ainda por uma afluência às urnas maior do que a esperada.
Com este desaire, uma cabeça já rolou: a do ignóbil Rumsfeld, arquitecto da invasão do Iraque, responsável político por Guantánamo, Abu Grahib e outras situações semelhantes. Já vai atrasado. Desde que se soube das torturas nas prisões iraquianas que a decência teria obrigado este homem a ir para a rua. Algum dia tinha que ser. A atoleiro do Iraque acabou por ser a razão maior que o condenou a saír. Sempre é melhor que a do homem cuja mão apertou nos anos noventa.

terça-feira, novembro 07, 2006

A polémica das seringas

Tem toda a razão este texto de Filipe Nunes Vicente no Mar Salgado. Até ao momento em que se começou a falar de troca de seringas na prisão, não se comentava o assunto nem se propunham soluções. Agora que estes novos métodos para impedir a expansão de doenças infecto-contagiosas vão ser aplicados, só se ouvem exclamações como "afinal parece que há droga nas prisões", ou "não se deve estimular o consumo, e sim impedi-lo" . Mas que há consumo nas prisões já se sabe há que tempos! Uma prisão não é um jardim infantil, é um local de suposta regeneração ou de isolamento daqueles que desobedecem às regras da sociedade, onde a droga corre, como uma escapatória imaginária às grades, onde há violência, homossexualidade imposta, presos com mais status que outros, suicídios. E só agora é que se apercebem disso? Parece até que é uma revelação do Apocalipse. E que medidas alternativas haverá? Existirão algumas, com certeza, mas até conseguirem ser implementadas mais vale aliviar o drama prisonal. Por isso, concordo totalmente com a troca de seringas nas prisões. Diminuír flagelos como a SIDA e outras doenças parece-me um bom princípio, e os bons exemplos vêm-se como de costume em países onde estes métodos são já correntes.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Império


Depois do jogo estreei-me no imponente Café (e antigo cinema) Império. O espaço agradou-me, como já esperava, até por ser imenso e eclético, muito embora faltassem os bilhares que me disseram terem existido ali. Só é estranho que tenha lá ido pela primeira vez DEPOIS do estabelecimento fechar.

PS: falando em cafés, há dias vi num álbum imagens da Brasileira do Rossio, já extinta. Há também a do Chiado, a do Porto, em Sá da Bandeira, a de Braga, e houve até há poucos anos a de Coimbra, no correr da Ferreira Borges. Agora até abriram uma no centro comercial por baixo do Campo Pequeno, obviamente mais escondida e artificializada, e decorada a neons. Akguém tem ideia se havia ou há outras Brasileiras por esse país fora?
Benfica 3 - Celtic 0

Até correu benzinho. Lá despachámos os simpaticos célticos por 3 secos, a resposta ao descalabro de Glasgow. Mas fiquei com a impressão de que com mais um bocadinho de vontade e menos perdas de bola podiámos ter ido mais longe. Daqui para a frente é uma guerra sem quartel. Até ao próximo jogo, continuarei a pensar como pudemos perder com estes tipos por números tão volumosos.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Se não é o "eduquês", é outra coisa qualquer

Parece que as notícias sobre a supressão das férias de Natal, Páscoa e Carnaval aos professores pelo Ministério da Educação não eram afinal verdadeiras. Ainda bem. Só faltava mais essa para considerar as entidades governamentais dessa área uns perfeitos irresponsáveis, por muito que alguns gostem de gabar a "autoridade" e a "coragem" da Ministra que acha que os professores não podem ter medo de jovens delinquentes que os ameaçam nas aulas. E que geralmente confundem esta classe profissional com os seus ineptos e irrealistas sindicatos.
Infelizmente, muitas outras medidas sem sentido parecem estar a tomar corpo. Uma opinião lúcida e informada sobre o assunto é a de António Barreto, no seu artigo do Público de hoje, sobretudo sobre ideia peregrina das aulas de oito horas diárias. É precisamente o que eu penso sobre o assunto

sábado, outubro 28, 2006

Eleições
De novo sobre o Benfica, e deixando para trás a antevisão de um jogo inquinado à partida, realizaram-se discretamente eleições para os orgão sociais do Benfica. Luís Filipe Vieira venceu de novo, com espantosos 96%. Provavelmente teremos mais do mesmo, o que nem é mau, tendo em conta o retorno aos triunfos desportivos, ao saneamento financeiro das dívidas do clube (e da SAD), à concretização de novas infra-estruturas, como o centro de estágio, e ao autêntico resurgimento das modalidades amadoras, fora outras coisas (duplicação do número de sócios, acordos para patrocínios, etc). Mas a grande novidade, a par do regresso de Manuel Vilarinho para Presidente da AG, no lugar de Tinoco de Faria, é a ausência de listas concorrentes e de alternativas aos corpos vigentes. Uma situação inédita e constrangedora, num clube que sempre se caracterizou pelo pluralismo, pela escolha democrática e pelo debate (por vezes bastante exaltado, como se sabe), antes de todos os outros. Um dos traços identificadores mais importantes do Benfica fica assim interrompido por falta de comparência de quem tinha uma palavra a dizer sobre o que não correu bem nos últimos anos. A pesar do bom trabalho realizado, eram bom que a legitimidade desta direcção, com a sua maioria digna de um Al Hassad (ou pior, de um Pinto da Costa), não tivesse a aparência de ser absoluta, o que poderá dar tentações a vieira de ser ainda mais autoritário e de dizer aquelas grandiloquências que só ele. A rever absolutamente. Pense-se nisso nas próximas eleições.
PS: como temia, o Benfica perdeu o jogo do municipal de Contumil. No último minuto, com um golo caído do céu, e quando procurava o tento da vitória, perante um público quase 100% adverso. Protestam os portistas contra a lesão de Andersson, originada por uma falta de Katsouranis (que daria amarelo). Para quem apoiou a expulsão de Micolli, é um bom exemplo de humor negro. E nem é preciso falar das lesões de Rui Costa e Karagounis. O desfecho do jogo só prova que a velha máxima "a sorte protege os audazes" tem excepções visíveis. E nem é a "estrelinha de campeão", que só aparece a quem por ela procura e nem a quem consegue ganhar sem saber ler nem escrever.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Resultados calculados

Depois da benesses concedidas ao Porto em Avalade, como o inexplicável perdão a Paulo Assunção, e das tropelias de Carlos Xistra na Luz, com um belo trabalho impedindo o Benfica de marcar mais golos na Luz e atirando Micolli para fora do jogo nas antas, confirma-se que o caso do Apito Dourado está definitivamente morto e enterrado e que a compra de resultados, ou pelo menos de árbitros, está aí, de volta e mais descarada do que nunca. Nem vale a pena ter esperanças de repetir a brilhante vitória do ano passado. Mais vale que quem está por trás desta tramoia encomende já as faixas. Assim como assim, já nem disfarçam.

sábado, outubro 21, 2006

Justiça e esquecimento no Nobel da literatura

Também sobre o valor estritamente literário do prémio se podem fazer inúmeras considerações. Na lista de galardoados há uma imensidão de figuras que provavelmente só ficaram para a posteridade por causa do galardão, mas que são desconhecidos na maioria dos países. E depois há o contraste com a quantidade de autores que mereceriam indiscutivelmente constar do quadro.
No Corta-Fitas falou-se bastante do assunto nos últimos dias. Aqui fica uma lista de alguns indicutíveis que ganharam o prémio, à qual eu acrescentaria Pasternak, Sartre (nenhum deles o recebeu, o primeiro porque não o deixaram, o segundo porque não quis, sob inúmeros pretextos), Cela, Octavio Paz e Gide. Segue-se outra dos esquecidos pela Academia, o que faz pensar quais os critérios das escolhas. Também aqui, acrescentaria mais alguns, como Duras, Fitzgerald, Kundera ou Vargas Llosa, sendo que estes dois ainda podem lá chegar. E também mais alguns artistas da língua portuguesa. Bem sei que Pessoa era em vida um desconhecido, e que a literatura brasileira e PALOP só tarde desabrocharam internacionalmente. Mas um Torga, uma Agustina, um Vergílio Ferreira, um Amado, um Guimarães Rosa, um Melo Neto, até um Lobo Antunes, não desmereceriam menos que Saramago. E mesmo sabendo-se que a Academia é nórdica, não deveriam ficar atrás dos dinamarqueses, que só à sua conta conseguiram três laureados.
As razões do Nobel

A atribuição do Nobel da literatura a Orhan Pamuk não surpreendeu excessivamente. O escritor turco estava já na lista de candidatos, pelo que não houve reacções de escândalo ou euforia. Como quase só ouvi falar dele na última semana, não posso deixar aqui uma opinião crítica sobre a sua obra, que tem merecido rasgados elogios, ou a justiça do prémio. Outros havia, mais sonantes, mas se ganhou este é porque o júri tinha justificadas razões.

O que já me incomoda mais são as colagens políticas que inevitavelmente fazem sempre aos vencedores ou candidatos, ou porque uma determinada causa se cola a um deles, ou porque o comité do Nobel está "politicamente comprometido" (normalmente é acusado de ser "politicamente correcto"), ou ainda porque os adeptos dos que não ganham ficam irados pelas razões extra-literárias dos seus escolhidos não são tidas em conta.

Caso paradigmático é o do ano passado. Muitos atiraram-se à escolha de Harold Pinter pelas suas preferências pró-comunistas e anti-americanas (que o dramaturgo inglês tratou de confirmar num violento discurso por audiovisual, na cerimónia de entrega do prémio), vendo aí um inequívoco compromisso dos votantes escandinavos com as ideias defendidas pelo laureado. A ser esse o caso, seria de um facciosismo e de uma irresponsabilidade atrozes. Simplesmente, alguns desses críticos também estavam contra a escolha, não por discordarem da obra em si (muitas vezes nem sequer a conheciam, como muitos dos que se atiraram a Pinter), mas exactamente porque o vencedor ostentava uma conotação política adversa da sua. Caiem todas as eventuais razões de indignação e fica apenas a mesquinhez e a hipocrisia, muitas vezes cobertas com um véu de ignorância sobre o mérito do prémio.

Neste caso, dá ideia que a Academia premiou o escritor um pouco por causa da sua luta contra o abafamento do genocídio arménio e da repressão contra os curdos que vigentes na Turquia. São causas nobres, sem dúvida, que merecem o maior apoio. Só que o Nobel da Literatura devia estar reservado para os grandes trabalhadores da escrita e da língua, para os que escrevem deleitando, em prosa e poesia, para os que revelam sensações, angústias, emoções, estados de alma ou de espírito, para os que criam novos estilos e novas linguagens, para os que legam à humanidade as suas obras inspiradas pelo génio e pelo engenho. Nobeis para boas causas serão os outros, nomeadamente os da Medicina e da Paz (muitíssimo bem entregue, o deste ano, esperando que vingue ainda mais), pelas quais foram aliás criados. Por isso não posso concordar com entusiastas desta escolha pelas razões que apresentam, como José Manuel Fernandes, que disse no Público que "A Academia desta vez acertou". Talvez tenha acertado, mas não certamente por essas razões.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Na casa de Bernarda Alba, 70 anos depois.

Aparte todo o registo trágico-cómico-melancólico de Volver, o último filme de Almodôvar (e o primeiro em muitos anos com Penélope Cruz), houve um pormenor que me chamou a atenção. Na altura em que a irmã de Raimunda (a personagem de Cruz) chega à casa da tia morta na véspera, depara-se, ao fugir do suposto fantasma da mãe,e vai dar por engano ao pátio onde estavam os homens, macambúzios, falando baixo com um copo na mão. Num compartimento mais acima, as mulheres carpiam-se, trazendo à baila recordações e abanando-se vigorosamente com leques. Toda esta acção se passa numa aldeia fictícia da Mancha, entre uma paisagem árida e ventosa, onde se destacam campos de ventoinhas eólicas.

E lembrei-me dela pelo seguinte: os mesmíssimos elementos aparecem por esta ordem na peça teatral de Garcia Lorca A Casa de Bernarda Alba (onde cheguei a entrar como figurante nos meus tempos de liceu), salvo que aqui a cena passa-se na Andaluzia, mais sul. Mas a estrita divisão homens-no-pátio/mulheres-dentro -de-casa-abanando-se-com-o-leque está lá, numa divisão sexista, arreigada. E a obra data de 1935, pouco antes do assassinato do poeta e dramaturgo espanhol. Já o filme passa-se na actualidade. Acaba por ser uma homenagem involuntária de Almodôvar a Lorca. E revela como é espantoso que certos hábitos permaneçam em algumas regiões que parece que pararam no tempo. E que, pese a tragédia e o clima de inflexibilidade extrema que paira sobre a peça de Lorca, muitas tradições de velar os mortos conservam um respeito e uma austeridade imutáveis, não deixando ainda assim de olhar a morte com certa naturalidade. Será uma manifestação de obsoletismo arcaico, mas não deixa de ter uma dignidade que impõe respeito.
PS: pensando bem, estava-me a esquecer de alçguns velórios onde estive presente. O costume dos homens ficarem cá fora e as mulheres a carpir-se lá dentro também existe em Portugal, embora menos nas grandes cidades.

quinta-feira, outubro 19, 2006

No Barroso

Abraçando os concelhos de Boticas e Montalegre, com 1279 metros de altura no ponto mais alto, fica a Serra do Barroso, já uma antecâmara da Peneda-Gerês. De Boticas começa-se a subir, passa-se por Carvalhelhos e chega-se à aldeia de Alturas do Barroso, perdida lá no alto. Uns centos de metros adiante ficam os "Cornos das Alturas", dois cabeços com vestígios castrejos no seu cocuruto e que lembram os chifres do gado desta região, aquele mesmo que nos proporciona combates violentos entre os seus machos, além da carne de primeira ordem. A paisagem é pedregosa, a vegetação predominantemente rasteira; mais abaixo abundam os lameiros e os bosques de abetos, que no Inverno, com neve, revelarão seguramente uma paisagem autenticamente natalícia.
Depois dos Cornos desce-se até à zona das grandes barragens. A maior de todas está lá em baixo, a do Alto Rabagão, ou Pisões, que em Portugal só é ultrapassada em área e capacidade pelo Alqueva. A vista daquela quantidade de água, de um azul profundo, neste Verão, é um enorme contraste com as penedias que se erguem atrás, envoltas no tojo. Um cenário de beleza selvagem mas serena, de autenticidade transmontana, em que se se pode ouvir perfeitamente os zumbidos dos insectos, tão escasso é o tráfego por aqui.

Os Cornos das Alturas, Barroso, Agosto de 2006.

Depois do Alto Rabagão seguem-se mais barragens, Montalegre, com o seu castelo roqueiro, Pitões das Júnias, Tourém, Espanha. Um itinerário que será igualmente objecto de umas breves notas, quando um dia o percorrer.

Barragem do Alto Rabagão, Agosto de 2006.

Sobre esta região, ver também este post do Abrupto (há reamente uma eólica juntos aos dois cotos, provavelmente para alimentar a aldeia), este blogue, e mais estes dois.
Desconsolo

Demasiada gente à frente, distracções a meio campo e falta de rins para travar os adversários em corrida de lebre deram no que deram em Glasgow, onde um resultado volumoso e mentiroso tira quase todas as esperanças do Benfica seguir em frente. Depois da soberba goleada em Leiria, frente ao FCPorto-b, esperavam-se mais arrancadas de Micolli e passes de Nuno Gomes, mas só ficaram as intenções e bolas ao lado. Assim são as "vitórias morais", com os inevitáveis chutos à barra (e não nas redes interiores), mas infelizmente não dão pontos. Nem euros.

terça-feira, outubro 17, 2006

Pequeno calendário das festividades que passaram
Em Setembro, por confusão de datas, falhei a festa da Senhora da Pena, em Mouçós, Vila Real, embora estivesse a poucos quilómetros. O interesse do evento era o de os andores terem uma dimensão anormalmente elevada, tanto que este ano concorriam para o Guiness com um de 22 metros de altura, sustentado por 50 almas.
Não estive nessa festa nem na Srª da Almudena, às portas de Vila Real, e muito menos na famosa romaria dos Remédios, em Lamego, no mesma fim de semana. A época estival é abundantíssima em festas populares em honra do Santo ou da Santa y, ou de Nosso Senhor de Qualquer Boa Aventurança. São as descendentes directas dos cultos sazonais pagãos, de recordações milenares. quem viaje por Trás-os-Montes nessa estação, por exemplo, vê cartazes alusivos em todos os concelhos e freguesias, e o mesmo se passa noutras regiões.
Este ano, no Minho, depois do Santo António de Famalicão (que apanhou com uma tromba de água) e do S. João em Braga, havia festas dia-sim dia-não: as de Cerveira; as Gualterianas de Guimarães; a Stª Rita, em Caminha; as de Valença; as de Paredes de Coura (logo antes do festival); a Senhora da Agonia, em Viana; Senhora das Dores, em Monção, apesar da mais conhecida ser a da Coca, no Dia do Corpo de Deus; o S. Bartolomeu, em Ponte da Barca e povoações do concelho de Esposende; e ainda a Senhora dos Navegantes, em Âncora; e, para finalizar, as Feiras Novas de Ponte de Lima, que fecham a saison de festas. E não esquecer os novos gêneros que estão a surgir por toda a parte: as feiras medievais, uma categoria de eventos que serve de filão renovado a muitos concelhos e que prometem concorrer com as tradicionais festividades. Ou complementá-las. Seja como for, ainda é cedo para avaliá-las, mesmo porque até ao momento só se destacaram as de Santa Maria da Feira. A confirmação pode vir no próximo Verão, que este ano, só resta mesmo o de São Martinho.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Um filme conveniente

Já deve estar em poucos cinemas, mas a verdade é que Uma Verdade Inconveniente é uma agradável surpresa. Pedagógico, bem explicado, divertido e muito eficaz, afastando dúvidas prementes. E Al Gore é, imagine-se, um bom actor para o filme em questão. Totalmente aconselhável a cépticos e negacionistas de um dos maiores, se não mesmo o maior, problemas do nosso tempo.

sexta-feira, outubro 13, 2006

A retirada do Pai Guerra
Nos anos que passei na faculdade conheci inúmeros professores, alguns dos quais já com alguma notoriedade, e outros que viriam a alcancá-la. Havia porém uma figura que marcava toda a vida académica, alguém que parecia omnipresente, que estava umbilicalmente ligado áquela instituição.
Francisco Carvalho Guerra, o "Pai Guerra", projectou e criou a Universidade Católica no Porto, desde as exíguas instalações da Torre da Marca até aos dois modernos pólos hoje existentes. Lembro-me particularmente de uma assembleia geral de estudantes a pedir a demissão do reitor da UCP na altura, Isidro Alves, que pretendia afastá-lo do seu cargo. E de uma manifestação por ocasião de uma visita de D. Ximenes Belo com o mesmo intuito. Mas Carvalho Guerra permaneceu no lugar, ostentando o mesmo ar bonacheirão e paternal, e o infindável entusiasmo contido. Até ontem, dia em que se despediu entre um coro de emoções e elogios de todos os quadrantes, a acabar no Cardeal Patriarca. Imaginar o "Pai Guerra" na reforma é coisa de difícil hábito e que requer esforço mental sobre-humano.
Continuação

Parece que depois do meu último post se multiplicaram as declarações em sentido parecido em diversos blogues. No Público de hoje, Pacheco Pereira escreve um interessante artigo sobre o mesmo assunto, e sobre o semi-paradoxo do preconceito de querer colocar Salazar na lista vir precisamente do "respeitinho" tão inculcado pelo Estado Novo (só é pena que recorra ao seu tão querido e exausto "politicamente correcto", mas aqui até é aplicável).
Entretanto já actualizaram " lista de sugestões" de forma mais consensual, ou pelo menos mais sensata. Além de Salazar, incluíram igualmente Marcello Caetano. E Pedro Hispano, outro nome imprescindível, que se não me engano, não constava lá há dias. Ainda assim há falhas: puseram lá dois Eduardos, Gajeiro e Souto Moura, que eram escusados, e esqueceram-se do Lourenço. E D. João IV continua de fora. Vá-se lá entender...

terça-feira, outubro 10, 2006

E o cardeal D. Henrique, não lhe arranjam um lugar?
Eu já desconfiava. Anda agora a ser anunciado um concurso promovido pela RTP para saber quem foram "os maiores portugueses", à imagem do que fizeram outros países (com resultados surpreendentes e discutíveis, diga-se desde já). Anúncios em barda circulam pela TV pública, com pregões de mercado e discussões de café, lançando para o ar nomes das mais diversas personalidades. Num desses reclames, lembrei-me como teria graça alguém mencionar o nome de Salazar. Não é que sinta particular afeição ao vetusto ditador da pachorrenta Santa Comba, nem ao seu regime corporativista, repressivo e rural. Mas faz-me alguma espécie como é que em plena UE, e com a democracia consolidada, ainda que com falhas graves, o simples nome do professor de finanças continue a provocar mais histeria que o de Belzebu. Devem ser raríssimas as recordações onomásticas- só conheço uma ruela com as palavras "Oliveira Salazar" em Santo Tirso, e talvez as haja igualmente na sua terra natal.
Também não sou daqueles que falam constante e incessantemente da "ditadura cultural da esquerda" ou de "vivermos sob um regime socialista", como é próprio de direitistas mais radicais. Mas às vezes até apetece. É que dando uma vista de olhos às dezenas de "sugestões" que o site nos dá, e mesmo tendo em conta que a escolha da personalidade é "livre", não consigo encontrar o nome de antónio de Oliveira Salazar, pelo meio. Goste-se ou não, trata-se de um estadista que esteve mais de três décadas no poder, que caracterizou uma época, um regime, uma Constituição, e que teve os seus aspectos positivos, como o controlo das finanças públicas. Em contrapartida, aparecem-nos lá figurões com idêntica concepção da liberdade, mas menos influentes, como Afonso Costa, Vasco Gonçalves ou Otelo Saiva de Carvalho, e ainda figuras pouco mais que irrelevantes, uma Catarina Eufémia, Manuel dos Santos, e ainda aqueles que, merecendo fazer parte desta lista como prémio pelo seu trabalho em diversas áreas, não estão à altura de serem considerados "o maior português" (casos de Cesariny, Manoel de Oliveira, Joaquim Agostinho, Siza Vieira, etc).
O meu voto? Camões, Pessoa, Nun Álvares, D. Henrique, D. Afonso I...talvez o autor dos Lusíadas, a quem todas as homenagens são justas. Mas noto agora outra grave falha: então não é que na parte relativa aos reis metem-me D. João V, D. Carlos e D. Maria II e esquecem-se do Restaurador? Como é possível terem posto de parte D. João IV? E ainda acrescentaram o demente D. Sebastião, que de relevante só nos deixou um mito e uma esperança brumosa (além do seu tio-avô, o vetusto e cardinalício D. Henrique, como rei).
Isto é que é "Serviço Público"? O tanas!

quinta-feira, outubro 05, 2006

Entretanto, na Áustria
Na Áustria, os socialistas do SPO voltaram a ganhar as eleições, superando o OVP, que estava no poder. Como não obtiveram maioria, tiveram, à imagem da srª Merkel, de fazer uma "Grande Coligação" com os conservadores. A direita mais quezilenta e xenófoba, que obteve votações elevadas, a isso os obriga. Com mais esta imitação dos vizinhos germânicos (mas não inédita, note-se) e os largos votos obtidos pelos herdeiros de Jorg Haider, sabe-se lá se não aparecerão alguns "germanistas", correspondentes lá do sítio aos nossos iberistas, a exigir novo Anschluss. Felizmente, a economia austríaca não está assim tão má (e não é graças a Hayek), a Alemanha não anda para aí virada - ainda bem que existe a UE - e o primeiro-ministro cessante Wolfgang Schüssel não é, apesar de tudo, nenhum Engelbert Dolfuss (uma espécie de Salazar austríaco, mas com menos sorte).
Nos próximos dias vou dar uma volta a zonas, como a Beira Baixa que lamentavelmente ainda não conheço. Bom fim de semana prolongado a todos os que o puderem aproveitar, e boas comemorações do feriado que assinala a fundação do Reino de Portugal.

terça-feira, outubro 03, 2006

Espanha?

Outra conversa da semana passada, resultante da tal sondagem do Sol, que dizia haver 28% de portugueses que queriam ser espanhois. Normalmente, há dois tipos de iberistas: os que vivem no interior profundo, e se sentem abandonados pelas autoridades centrais, e em geral pelo resto do país, e aqueles que por causa da nossa emperrada economia e baixo crescimento, à vista das Zaras, dos Seats e de Penélope Cruz, lamentam-se da sua sorte e clamam ardentemente por Espanha. Se os primeiros têm a sua dignidade, os segundos são de uma precipitação mesquinha e néscia coberta por argumentos inexplicáveis, como os do Arquitecto Saraiva (isto deve andar tudo ligado), que diz que "estamos a atravessar a maior crise da nossa história". Seria bom que alguém fizesse aos senhores iberistas a seguinte pergunta: teriam a mesma vontade de se juntar ao país vizinho se vivessem em 1936?

segunda-feira, outubro 02, 2006

It ´s not the economics, stupid
A semana blogoesférica ficou alvoroçada com o anúncio de que Pedro Arroja iria colaborar regularmente com o Blasfémias. Já tinha ouvido uns tímidos elogios ao economista radicado no Porto, mas a ideia que tinha dele vinha de uma entrevista que deu à saudosa Grande Reportagem, que conservo algures, em Maio ou Junho de 1994 (inclino-me para a segunda hipótese, já que a capa era sobre o Dia D), feita por Fernanda Câncio, que em boa hora a disponibilizou na íntegra.
Recordava-me sobretudo da passagem em que ele defendia que os votos deviam poder ser vendidos, e "não deitados fora", e que "os pobrezinhos sairiam beneficiados". Ou da defesa de um partido nortenho encabeçado por...Pinto da Costa(!!!). Se já tinha ficado altamente deagradado com as ideias do senhor, ainda mais fiquei ao reler a entrevista, nas opiniões sobre a escravatura ("Eu não quero dizer que a escravatura era aceitável, mas não foi má para os negros em termos económicos"), a pena de morte ("O que se concluiu é que por cada pessoa executada na cadeira eléctrica havia sete crimes que deixavam de ser cometidos. Então o que é que é desumano?"), apresentando conclusões contrárias à maioria dos estudos, que provam que o crime é mais elevado exactamente devido à pena de morte. E não só: ao longo da conversa, Arroja debita uma falta de ética, um apego aos números sobre qualquer outra realidade, uma asséptica ideia do mundo ("O que é que é sagrado para si?" "Nada. Nada."), e aquela crença fanática, e simultaneamente determinista, científica, de que a pura economia de mercado sem qualquer intervenção estadual é infalível, e que o mercado prevalece sobre qualquer forma de política e forma de governo, inquinando inclusivamente a escolha democrática feita pelos cidadãos. O neoliberalismo em pleno estado de pureza, escarrapachado, cristalino.
Alguns chamarão a isto de "liberdade". Eu recuso-me a confundir esta dogmática economicista com o primeiro valor da trilogia francesa, que aliás Arroja não deve apreciar. A Liberdade não pode caír na anarquia moral, na dissolução dos valores de uma sociedade, e mais ainda, de uma civilização, que nos é proposta pelos neoliberais de laboratório. Podem os blasfemos considerá-lo "um dos mais importantes defensores da Liberdade que Portugal conheceu nas últimas décadas". Tenho, como aqui já disse, respeito e apreço pelo blogue em questão, do qual aliás conheço vários elementos, embora a maior parte das vezes discorde deles. Por isso lamento que venham com proclamações bombásticas que roçam a idolatria do referido economista, e que acabam por caír no ridículo. Não serei, certamente, assíduo leitor dos futuros escritos do Dr. Arroja. Perdoem-me, mas o megafone ultraliberal acaba por tirar a paciência a um santo.
PS: o maradona deixa aqui a sua própria visão da coisa. Ó Carlos, essa de ser comparado a um Quindim não devia passar impune.

sexta-feira, setembro 29, 2006

O resultado de pôr a mão própria em obra alheia
A decisão de cancelar a ópera Idomeneo de Mozart é a todos os títulos lamentável. Não há que ter contemplações: não é o facto de haver ameaças abstractas de alguns bárbaros que justificam tal vergonha. As medidas de segurança existem por algum motivo. O temor de ofender os crentes islâmicos não colhe, e desrespeita o cristianismo e o budismo, por razões idênticas.
Simplesmente, como bem notou Luís Aguiar Santos, o único deus que entra na ópera é Neptuno e a sua cabeça não é exibida no fim. Eu nem conhecia esta obra, confesso, mas pela lógica dá para perceber: seria uma enormíssima impiedade surgir a cabeça cortada de Jesus num espectáculo do Séc. XVIII, em pleno Sacro Império Romano-Germânico. Buda não era muito divulgado naquele tempo, e mesmo Maomé não aparece aqui, apesar das memórias do cerco à capital do Império pelo otomanos, cem anos antes (Neptuno era imortal, devido à sua condição divina).
Quer dizer: primeiro desvirtuam a obra original, e depois queixam-se das ameaças às alterações. Grande coerência. Grande coragem.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Chatice!

O Benfica anda em maré de maus resultados. Depois do balde de água fria (para mim literalmente, porque tinha acabado de fugir da chuva) em forma de golo pacense já nos descontos, depois de um jogo controlado e duas bolas na barra, tinha agora de vir esta maldita derrota com o Manchester United. Viu-se uma primeira parte aceitável, mas depois do velocíssimo contra-ataque que culminou no golode Saha, a equipa, inexplicavelmente, retraiu-se, perdeu forças, deixou de pressionar. O meu medo do nulo final era mais optimista do que pensava. E os jogadores tiveram uma atitude contrária à do ano passado, quando foram para cima em busca da passagem aos oitavos. Resta-nos vencer os confrontos com os católicos de Glasgow, contra os dinamarqueses, e, quem sabe, obter as migalhas na última jornada aos ingleses, que por certo já terão tranquilamente alcançado o 1º lugar, depois da humilhação do ano passado. A coisa não está fácil.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Bizantinices e fanatismos

Dez dias depois da primeiras notícias, a conferência de Bento XVI em Ratisbona continua a dar que falar. Por falta de ocasião, não tinha ainda podido postar sobre o assunto. Durante estes dias, tenho lido as mais diversas considerações sobre a famosa passagem do diálogo entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo e "um persa culto". Desde a "irresponsabilidade do Papa em proferir afirmações incendiárias", ao "notável discurso sobre a Fé e a Razão", isso, claro, nas sociedades de raiz cristã. Da parte de alguns clérigos e militantes do fanatismo islâmico ouviram-se imprecações, protestos, e coisas tão extraordinárias como "o Papa deve responder em tribunal", ou "deve pedir desculpas de joelhos perante um representante xiita". É óbvio que as reacções destes últimos devem ser tomadas como delírio próprio de mentes medievas (no nosso calendário, evidentemente) e ignorantes. Já os discursos menos inflamados mas carregados de auto-vitimização de alguns líderes espirituais, bem como novas ameaças terroristas, são factor de preocupação.
Lendo bem o texto, e percebendo o seu sentido, não posso deixar de pensar que só a má-fé ou a precipitação tenham atiçado toda uma polémica absolutamente desnecessária. O discurso, mesmo se baseado nessa passagem, poderia ser uma enorme alavanca para um debate filosófico e teológico, até (sobretudo) com interlocutores muçulmanos, e para uma nova compreensão das religiões e das relações entre elas.
Não o quiseram os acontecimentos posteriores nem a comunicação social, que se apressou a divulgar o discurso com base na passagem que incluiu observações menos simpáticas para Maomé. Uma discussão intelectual perdeu-se assim, por culpa de imprensa ávida de escândalo e de sangue, e de uma matilha de fundamentalistas que não merece o menor respeito. Os líderes das principais comunidades muçulmanas europeias, inicialmente desconfiados, deram-se por satisfeitos com as explicações do Papa, até o maníaco do Irão achou que tinha havido uma "interpretação errada", e pelo menos na Europa não se assistiu a histerismos invocando Alá (excepto em Londres, onde se encontra a comunidade mais radical, a par da de Hamburgo). O "choque de civilizações" continua adiado, para grande pena dos Salafitas e dos valentões que do lado ocidental continuam com a habitual postura de "segurem-me que eu vou-me a eles".
Como é óbvio, Bento XVI esteve bem em explicar o seu ponto de vista para não deixar margem para dúvidas, e em não desculpar-se, não havendo de quê. Mas, como sucessor de Pedro e autoridade máxima da Igreja Católica, deve também ter algum senso e agir com diplomacia. Penso que a sua intenção não era outra, ao contrário do que disse Miguel Sousa Tavares no Expresso, num registo demasiado anti-religioso para o meu gosto - se a cultura muçulmana mostrou coisas admiráveis, há coisa de mil anos, não é menos verdade que, citando Vasco Pulido Valente, "não produziu nada de remotamente comparável com o cristianismo". Mas não me refiro ao suposto bom-senso em relação ao "mundo muçulmano": simplesmente, e nisto poucos repararam, o Papa, a dois meses de uma viagem à Turquia, lembrou-se justamente de citar, na parte mais dura do discurso, o antepenúltimo Imperador bizantino, pai de Constantino, derradeiro soberano da cidade dos Bósforo, morto aquando da sua tomada pelos...turcos. Para um país tão susceptível quando se fala do massacre dos arménios, a ideia não terá sido brilhante. Manuel II Paleólogo já sofria a imparável ameaça otomana, que terminaria com a Idade Média em Maio de 1453. Acresce que a queda de Constantinopla deveu-se também muito ao declínio do Império desde o ataque e pilhagem pelos cruzados, convocados por Roma em 1204, e à insignificante ajuda que os católicos deram no momento em que o crescente estava às portas da cidade. Alguns, como os genoveses, aproveitaram-se mesmo para obter vantagens comerciais dos turcos. Daí a desconfiança e hostilidade com que a Igreja do Oriente nos trata até hoje, ainda que com boa dose de injustiça e inflexibilidade.
Uma questão por demais complexa, como são todas as que envolvem Fé e religião. E se não forem acompanhadas de razão, mais ainda...

quinta-feira, setembro 21, 2006

Fechos e intervalos

O melhor blog de futebol, o Terceiro Anel, encerrou actividades por manifesto défice de manutenção. É o fim anunciado do melhor blog português de futebol.

Menos radicais foram o Estado Civil e o Franco Atirador, que resolveram fazer uma pausa.

domingo, setembro 17, 2006

O Sol não nasce para todos
O Sol, novo e badaladíssimo semanário, saíu do prelo depois de semanas de apostas e expectativas, ainda mais empoladas com o fim de O Independente. Pela minha parte, digo desde já que foram goradas. Dá ideia que o luminoso título emprestou uma conotação muito light ao jornal, reforçada com a presença de Margarida Rebelo Pinto e afins.
A "entrevista" de Maria Filomena Mónica vale como curiosidade e chalaça jornalística, mas deveria ficar no fim, e jamais na segunda página do jornal. José António Saraiva, com o novo "Política a sério", persiste no seu estilo paragráfico, embora no essencial concorde com o que escreve sobre a saída de serviços do interior e da contribuição para a desertificação. Marcelo faz meramente uma antevisão da sua dissertação dominical na RTP. E os Portas não trazem muito de novo: Miguel, à esquerda, traça, de forma mais subtil as ideias bloquistas sobre o conflito do Líbano. Paulo, à direita, faz uma "crítica" ao novo filme de Sophia Coppola, Marie Antoinette, mais política que cinéfila, onde demonstra algum do anti-francesismo hoje tão em voga ("...aquela cabecinha de Robespierre que há em metade dos franceses..."), revela desconhecer a popularidade de que a realizadora goza em França e ainda tem espaço para eros históricos (Maria Teresa, não obteve o trono do Sacro-Império por "casamento", mas porque sucedeu ao seu pai, o imperador Carlos VI, que era o "nosso" candidato a Rei de Espanha na guerra de sucessão do país vizinho, e que chegou a ser coroadao como tal graças à tomada de Madrid pelo Marquês das Minas).
O estilo do jornal é, como disse, muito light, muito "engraçadinho" e pretensamente provocatório, como as picadas ao Expresso logo na capa ("este jornal não faz promoções" - veremos até quando). O mito de não houver patrocinadores grados é afinal desmentido, com a história das respectivas vidas a meio. O manifesto é paupérrimo, desfiando uma série de adjectivos positivos, para caracterizar a publicação, e seus desvios, ou vícios, que nunca, jamais, em tempo algum, o jornal adoptará. Em suma, um jornal perfeito. Ou melhor dizendo, que se leva demasiado a sério, à imagem do seu director.
Conclusão: apesar de tudo, vou continuar a comprar o Expresso, que para além dos DVDs, está realmente melhor.

sábado, setembro 16, 2006

Desfazendo tabus do futebol

Sobre o jogo do Benfica em Copenhaga, não vale a pena falar. Um pontinho conquistado num jogo medíocre, contra uma equipa que ainda não demonstrou se é realmente um outsider ou se vale mais do que se pensa. Dos outros, além dos desempenhos portugueses, reparei nalgumas goleadas, como a do Steaua no estádio dos vizinhos de Kiev. Mas reparei igualmente,no dia seguinte, ao consultar algumas fichas de jogos, nalguns nomes da equipa ucraniana do Shaktior Donetsk: um jogador chama-se Olexei Gay; e ainda há outro, romeno, chamado Marica. Bem sei que os apelidos hoje em dia pouco significam, mas acredito que estes possam provocar alguma perplexidade, ou, quanto muito, desconfiança, a António Oliveira e à sua teoria do "futebol macho".

quarta-feira, setembro 13, 2006

Esta noite, em Copenhaga
O jogo de hoje é importantíssimo para o Benfica. Não somente por ser a estreia deste ano nas competições europeias, nem pelo adversário ser teoricamente o mais fraco do grupo, o que obriga a um bom resultado para evitar futuros apuros. Servirá sobretudo para tentar dar a volta ao desastre total que se viveu no Bessa, no último fim-de-semana, e que já desfalcou a equipa para a próxima jornada. É imperioso que haja alma, concentração e alguma garra. E talento, para compensar as ausências de Rui Costa, Miccoli e a falta de ritmo de Simão. Convinha que Fernando Santos mostrasse enfim que é mesmo um grande benfiquista. Marcar e ganhar, é o que é preciso. E também não esquecer que o adversário dinamarquês não é apenas "alto, louro e tosco", que eliminou o Ajax da prova e que conta nas suas fileiras com o talentoso Gronkjaer e o jogador que, de entre todos os que estiveram no último Mundial, ostentava o nome mais divertido: o ganês Razak Pimpong.
Ps: para os que afirmam que "a imprensa é toda benfiquista", convido-os a comparar o título do Público sobre a derrota com o Boavista ("Benfica goleado no Bessa") com a do Liverpool, que encaixou o mesmo resultado("Liverpool quase goleado pelo Everton"). E há mais, muito mais.
Banalizações

Começo a concordar com aqueles que dizem que a memória do 11 de Setembro está a ficar banalizado. Com a enxurrada de documentários, filmes, telefilmes, entrevistas, debates, alguns Pró, outros Contra, teorias da conspiração e demais programação avulsa, em qualquer tipo de comunicação social, receio que isto se esteja realmente a banalizar. E no entanto não merecia. Quem nos manda viver num mundo com excesso de informação?

sexta-feira, setembro 08, 2006

Os responsáveis

No suplemento Local (Norte)do Público de segunda-feira, vinha em destaque um artigo sobre os desacatos provocados por adolescentes em Moledo, nos últimos dias de Agosto. Como testemunha in loco de algumas réstias dessa situações, confirmo a descrição do artigo. A "miudagem" que cirandava pela povoação à noite, de copos e cigarros (legais ou não) na mão, nem sempre tinha propósitos pacíficos. O mínimo pretexto ou discussão servia para os pôr num estado de tensão ou de conflito pouco recomendável.
Claro que, como frisava o jornal, não se tratava exactamente de malta dos bairros, de resto pouco frequente naquela zona não urbana, mas sim de filhos de veraneantes, quantas vezes de classe média alta, a quem os pais, para não se aborrecerem, davam rédea solta e dinheiro para a mão. Os resultados, como desacatos frequentes que obrigaram mesmo a chamar a polícia, ou uma imensa barulheira dividida entre batuques e vozes altas, ficaram à vista
Melhor exemplo para mostrar as consequências da demissão das famílias na educação dos filhos é impossível. Eis uma boa temática a ser estudada por Maria Filomena Mónica. Fazendo o que bem lhes apetece com os meios necessários, julgando-se "rebeldes" e donos de si, tornam-se pequenos delinquentes. Actos próprios de quem julga que o mundo é seu, mas a quem falta valores para o poder julgar e compreender. Não se trata de "rebeldia" contra qualquer "sistema" ou qualquer imposição forçada ou mais castradora: é apenas a satisfação dos humores do momento, de qualquer maneira, sem sombra de racionalidade. Obviamente, um insulto a qualquer "rebelde" que se preze e que tenha uma causa mínima. Como não acredito em rebeldias sem causa, e como acho que a história da irreverência juvenil tem os seus limites, embora seja natural e até desejável nos seus meandros normais, quase que desejava o regresso de alguns castigos corporais para pôr algum travão a esta malta. Como apesar de tudo vivo no nosso tempo, apenas gostava que alguns paizinhos assumissem algumas responsabilidades e dessem às proles alguma educação a sério, ao invés de lhes darem notas. É que marginais por marginais, sempre prefiro a rapaziada dos bairros camarários, com bastantes mais problemas sociais e económicos que determinados meninos irresponsáveis.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Mirandela na estrada

Em Mirandela organizou-se uma marcha lenta pelo IP-4 como forma de protesto pela anunciada saída da maternidade do concelho. Embora duvide da eficácia da iniciativa,e crendo que não ficaria muitocontente se tivesse de viajar nesse troço ás mesmas horas, estou totalmente de acordo com os mirandelenses. É certo que ministros, directores de jornais e "fazedores de opinião" acham que "é impossível ter todos os serviços ao virar da esquina". É verdade. Mas acredito que os que invocam esse argumento não vivam propriamente numa região com falta de estruturas básicas, como vias de comunicação decentes, hospitais, ou mesmo uma adequada oferta cultural. Aposto que 99% não residem a mais de trinta quilómetros do litoral.

Mirandela não é Barcelos, nem Santo Tirso, nem Oliveira de Azemeis. Não é exactamente um fim do mundo, mas as pessoas não têm a possibilidade de chegar à maternidade mais próxima num quarto de hora. Até porque Bragança é o único distrito continental que não tem um metro de auto-estrada. Parece que há mesmo a ideia (criminosa e desprovida de sentido) de encerrar o que resta da linha do Tua. Imagine-se ainda como será para as populações de Freixo de Espada à Cinta ou de Vimioso, ainda com piores acessos. Quando se fala na interioridade do país, melhor seria não vir com o "impossível ter os serviços à porta". Há quem não os tenha num raio de dezenas de kilómetros.
Mão Direita do Diabo



Sim, também é possível ver o ambiente dos film noir e dos romances policiais da Colecção Vampiro (ou mesmo da sua antepassada, a colecção Escaravelho de Ouro, da qual herdei alguns exemplares) escrito em português e por portugueses. É claramente o caso de Mão Direita do Diabo, de Dennis McShade, pseudónimo de Diniz Machado, com o seu anti-herói Peter Maynard, seco e rude, mas culto, a sua dreamgirl, as suas ligações aos sindicatos do crime, os seus comparsas ítalo-americanos, a sua úlcera, que o impede de tocar em álcool, tudo numa aura negra, cómica, gangsteriana. Para apreciadores do gênero, por muito que alguns o considerem "menor". Bem haja o Público e a Colecção 9 mm.

terça-feira, setembro 05, 2006

Sobre o Indy

Não houve quem, nos jornais ou nos blogues, se escusasse a deixar a sua declaração desentimentos ao Independente (é escusado fazer o link). Deixo então o meu modesto contributo para o epitáfio ficar completo.
Lembro-me ainda do primeiro número do jornal e da imensa publicidade que lhe fizeram, que conseguiu esgotar a primeira edição. Como era muito novo e a política era para mim um terreno obscuro onde se moviam seres engravatados, só me lembro de ver anunciado um cantor negro de jazz.

O perfil do jornal, graças à dupla MEC/Paulo Portas, era o de um libelo anti-cavaquista, que o rodeava pela direita, muito embora se inspirasse no esquerdista Liberation, com um estilo mordaz, frontal e agressivo, que tanto desenterrava casos reais como estampava histórias de veracidade mais que duvidosa.
Lembro-me particularmente da primeira metade dos anos 90, os do grupo do Altis, que criou o PP de Manuel Monteiro. Uma geração de jornalistas, agora mais convencional, formou-se exactamente no semanário de sexta-feira. O apogeu do jornal data dessa época, que coincidiu precisamente com os ataques mais acirrados ao cavaquismo. Alguns deles eram claramente injustos e mesmo infames. Lembro-me da perseguição que fizeram a Macário Correia, em que inclusivamente colocaram uma fotografia dos seus pais com aspecto, em parte forjado, de campónios. Miguel Esteves Cardoso veio aliás mais tarde pedir desculpa por esse exagero. O suplemento Indy não era menos irreverente (lembram-se da BD do major Alverquinha?), com críticas sardónicas de MEC, e outras um pouco mais sérias dos diferentes colaboradores.

O restante percurso do jornal é sabido. Portas trocou o jornalismo e as mangas de camisa pela política e pelos fatos de corte clássico; Esteves Cardoso saíu com outros projectos e regressou durante algum tempo, já sem o vigor do início. O projecto semi-ideológico do Independente começou a esgotar-se. Nos últimos anos, verificou-se uma tentativa desesperada de voltar aos "velhos tempos", mas já era tarde, e as ideias estavam longe de ser frescas e originais. Embora pudesse surpreender inicialmente, constata-se que o fecho do jornal era afinal uma inevitabilidade que ninguém se tinha lembrado de prever.

Com o fim de uma era no jornalismo luso, fica assim um espaço em branco à direita, tal como em todas as outras vertentes, a começar pelos partidos. O Semanário é uma irrelevância, o Diabo só mesmo para nacionalistas trauliteiros, o Expresso não tem suficiente carga ideológica, mantendo-se próximo do PSD (olha a redundância!). Está-se à espera do Sol para saber o que sai dali, mas calcula-se que seja um veículo para publicitar os pensamentos e as vaidades de José António Saraiva (e do omnipresente e enjoativo Marcelo Rebelo de Sousa). Talvez a legítima herdeira do Independente seja mesmo, num estilo menos irreverente e ácido, mais professoral e aprofundado, a revista Atlântico.

sábado, setembro 02, 2006

Scarlett em dose dupla

Não sendo tão aficionado desta estrela dos nossos tempos como alguns bons rapazes, a quem agradeço a fotografia aqui exposta, apraz-me registar que Scarlett Johansson surgirá no novo (e há muito esperado) filme de Brian de Palma, The Black Dhalia, o primeiro desde o intrigante e fantástico Femme Fatale. Um film noir como nos velhos tempos do gênero, felizmente. E aqui a "femme fatale" é a própria Scarlett. Que surgirá também em Scoop, outra parceria com Woody Allen, também em Londres, mas num registo mais de comédia do que em Match Point. Duas boas notícias para as telas de cinema. Será o melhor sinal de que o Verão acabou, apesar de Miami Vice. O que só prova que até as coisas tristes têm o seu lado positivo.


segunda-feira, agosto 28, 2006

A Âncora da Nova Democracia

Enquanto escrevia o post anterior, num posto dos correios de Vila Praia de Âncora, ouvia nas ruas um carro de som com música do mais conhecido filho da terra, Quim Barreiros, entrecortada com aquilo que parecia ser apelos para um comício político. Já lá fora, avistei a dita viatura com uma bandeira que me pareceu ser da CDU. Pensei logo que fosse para a Festa do Avante. Só depois me dei conta de que se tratava da ...Nova Democracia. Confirmei escassos minutos depois, ao abrir o Expresso, que acrescentava que a rentrée do movimento de Manuel Monteiro teria lugar num comício da localidade, para a presentação de um tal "Manifesto da Direita".
Lamentavelmente, perdi a oportunidade de assistir ao "primeiro comício da história do PND".Conservei-me em Moledo, e só voltei a ter ecos do evento no dia seguinte, por comentários de amigos que tinham passado em Âncora, de breves notícias nos jornais, que registavam as dificuldades burocráticas para a sua realização, e na prosa verrinosa de Vasco Pulido Valente, que chamou "maluquinho" a Monteiro (também dissertou sobre os monárquicos, mas sobre isso não me pronuncio) e ao seu projecto. Não querendo ir tão longe, até porque não sou tão sibilino quanto Valente, acho que o comício seria ao menos pitoresco, tendo em conta que parte da assistência estava nas esplanadas, pelo que lamento não ter aparecido para algumas impressões ao vivo de mais uma manifestação da "nova (?) direita". Mas concordo plenamente com o historiador, de quem acabo de ler a biografia de Paiva Couceiro, num ponto importante: come-se realmente bem em Âncora.

sábado, agosto 26, 2006

Mais um atraso na emissão de posts e na alimentação deste blogue. Numa tentativa de me redimir, dou conta de que andei uns dias em Trás-os-Montes antes de regressar ao Alto Minho (brevemente, alguns aspectos sobre a serra do Barroso, que não conhecia, em Agosto, quando a nação está ainda mais em peso no litoral, e no interior se vêem sobretudo carros de matrícula francesa).
Como o país político tarda a regressar, nesta silly-season à maneira, com Pontais e preparações da Festa do Avante, missões da ONU que tardam em ir para o terreno e rescaldos de incêndios, dou a primazia ao jogo-fantasma a ter lugar amanhã na Luz, depois da excelente vitória sobre o Áustria de Viena, e a notícia do reencontro na Liga dos Campeões com o Manchester United, Celtic e a surpresa Copenhaga, num conjunto de jogos aparentemente acessíveis para passar aos oitavos. Não se sabe se vai haver jogo, mas o Gil Vicente já entrou na camioneta rumo a Lisboa, e nem Benfica nem Belenenses sabem exactamente o que fazer. Nem Valentim Loureiro. Nem as instância desportivas e judiciais, no fim de contas. Dou mais razão aos de Barcelos do que aos do Restelo, a quem não reconheço a menor razão para não jogarem na Liga de Honra, mas agradecia que o caso tivesse um desfecho definitivo para evitar chatices maiores provenientes da FIFA e da UEFA.

domingo, agosto 20, 2006

João Carlos Espada: cada vez mais na mesma



Acontece muitas vezes, mas é sobretudo no Verão que João Carlos Espada se lembra de relacionar liberdade com o uso da gravata. Ficou famoso o seu artigo "Londres em Agosto", em que nos descrevia minuciosamente as regras do seu clube londrino, como se de um membro da Câmara dos Lordes se tratasse, reproduzindo metaforicamente a liberdade no uso de indumentária apropriada, em contraste com as "elites pós-modernas" (raio de mania de fugir à sua condição elitista), que viajariam de avião em calções e xanatas.
Desta vez, Espada continua a sua fome de gentlemanship nas universidades americanas. Ao que parece, numa das primeiras noites do seu périplo americano, achou que "as coisas tinham passado das marcas "porque, no Harvard Faculty Club, "ao pequeno almoço ninguém usava gravata". Para sua grande felicidade, o Liberty Fund convidou-o para uma conferência em Indianápolis, em que o próprio motorista "trajava casaco e gravata", e ainda por cima achava que a educação melhoraria se acabassem com o Ministério da Educação "e aí por diante". Ainda segundo palavras suas, "na América, toda a gente que se preze é a favor do small government".
Dissertando abundantemente sobre o Liberty Fund, os neo-conservadores, Adam Smith, Burke, Hayek, Oakeshott e quejandos, Espada, entre os seus novos colegas conferencistas, chega a uma conclusão inquietante: "olhei à volta e não vi ninguém sem gravata ao pequeno almoço. Lembrei-me de que no Harvard Faculty Club eram quase todos a favor da intervenção do Estado". Ou seja, segundo ele próprio, não eram pessoas que se prezassem.

Era o que eu já desconfiava: a doutrina espadiana, amálgama dos pensamentos de Popper, Berlin, Oakeshott e com uma réstia de respeito por Mário Soares, avalia os comportamentos, as ideias políticas e a força das convicções pelo traje e pela sua maior ou menor formalidade. Respeito, sem dúvida, mas discordo. É que embora classicista na minha forma de vestir (até de "velho" já me chamaram), e entendendo a necessidade de solenidade em certas ocasiões, olho para as ideias e para a ética com um pouco menos de leviandade. E entendo que a forma de vestir como se quiser é também uma expressão de liberdade, contrariamente aos fatos marciais da Coreia do Norte, ou à proibição de "vestes imorais" em alguns países onde a Sharia islâmica é lei. E que o facto de se usar gravata ou não ao pequeno almoço está longe de ser um comprovativo de "formas de conduta decente". O que não falta são escroques engravatados, sem ponta de senso moral. Nem todos as universidades ou outras instituições de ideias e cultura têm de ser uma cópia a papel químico de Oxford.
Já agora, e a propósito da referência no texto a um membro do Liberty Fund, cuja compostura sartorial ("botões de punho, suspensórios, e fato às riscas") era do seu apreço, relembro que um antigo companheiro de Espada nos velhos tempos da UDP, Pedro Cabrita Reis, numa entrevista que deu recentemente, teceu palavras muito pouco elogiosas ao actual Director do Centro de Estudos Políticos da UCP. Pelo que se viu na fotografia, envergava uns elegantes suspensórios.

sábado, agosto 19, 2006

Ainda não é desta

Para concertos estivais bastou o de Sábado. Ainda estive para ver o Morrissey em Paredes de Coura, mas a falta de vontade dos confrades, os trinta e tal quilómetros por estrada sinuosa até à vila, os quarenta euros pedidos pela entrada (só uma noite), e, acima de tudo, a chuva que se abateu impediosamente sobre a região dissuadiram-me por completo. Ainda se os Bloc Party fossem na mesma noite, arranjava-se coragem para enfrentar a intempérie, que o resto seria aleatório. Assim, resta-me esperar que o complexo Moz volte noutra altura para ver e ouvir a sua obra ao vivo. Num qualquer coliseu, que me parece espaço mais adequado do que o ar livre para se exprimir condignamente.
Entretanto, o sol está para voltar...

domingo, agosto 13, 2006

Stoned finally




Escrevo poucas horas depois de conseguir finalmente assistir ao concerto da maior banda de rock do Mundo, no Estádio do Dragão (ainda não tinha igualmente entrado no recinto do adversário). Falhadas as incursões a Alvalade em 95 e a Coimbra em 2003, pude ver o fabuloso circo visual, pirotécnico e sonoro dos dinossauros do rock. O seu lendário vocalista sexagenário parece ter trinta anos, pela forma como se requebra, corre e salta. A comunhão com o público foi perfeita, e só faltaram alguns êxitos (mas com uma carreira de mais de quarenta anos, só mesmo commais doze horas). Uma velha aspiração tornada enfim realidade. E uma forma de escapar aos ares malsãos que, arrastados por ventos da Galiza, trouxeram para o Alto Minho o fumo e as cinzas provenientes dos incêndios que não têm parado de dizimar a região dos nossos vizinhos a norte de Melgaço.

sábado, agosto 05, 2006

A banhos

Já devem ter percebido que a míngua de posts indicia que estou a banhos. No sítio do costume, aquela conhecida e ventosa praia a norte onde também reside o Dr. Sousa Homem (que ainda não conheço). Por acaso, hoje o vento é apenas uma leve brisa que amacia o autêntico dia de canícula E eu aqui a blogar. Com licença, que um dia de praia destes não se pode perder.
Tentarei actualizar o blogue dentro do possível.

quinta-feira, julho 27, 2006

Palavra de honra



Trocava a minha perna esquerda por uma de pau, e fazia-me pirata, pelas Caraíbas, Índico e Mediterrâneo fora, de punhal entredentes e pistolão à cinta, me deixassem fazer todos os takes desta cena no lugar de Johnny Depp.
Referência tardia a factos que a mereciam
A fraca produção blogoesférica e a concentração num número limitado de assuntos levou-me a esquecer de referir dois factos muito diferentes entre si (excepto talvez os culpados), mas que quase um mês passado merecem ser recordados.

Um deles é o assassinato a tiro de Martin Adler, jornalista sueco free-lancer, nesse desgraçado país que é a Somália, que ele tão bem conhecia e onde assinou inúmeros trabalhos. Muitas vezes o vi na Grande Reportagem, com as suas descrições nas latitudes mais perigosas do mundo, com ilustrações significativas da miséria humana que presenciou, como as ruínas de Grozny. No meu último ano da faculdade fiz um trabalho sobre as intervenções humanitárias e militares no Haiti e, exactamente, na Somália, em que tirei inúmeros apontamentos das suas reportagens na GR. Desapareceu agora, esse intrépido globetrotter do jornalismo, vítima de fanáticos islâmicos, ou de simples bandoleiros que enxameiam aquele território sem ordem nem lei.

O outro é o dos atentados em Bombaim (ou Mumbai, como dizem agora, mas eu prefiro a denominação já usada ao tempo de Dona Catarina de Bragança), há coisa de duas semanas, de novo em linhas férreas, o que já começa a ser hábito. Para um habitual frequentador de caminhos de ferro, como eu, não é muito reconfortante. Mas o mais espantoso é que as quase duzentas vítimas mortais e as centenas de feridos deram origem a não mais que um, dois dias de noticiários. As bombas em Londres no ano passado provocaram muito maior celeuma. Os autores não serão exactamente os mesmos, mas as motivações são certamente semelhantes.
Podemos sempre pensar que a situação em Israel desviou muito as atenções, ou que - hipótese bem mais sinistra - acontecimentos desta monta se estão a banalizar. Mas nada me tira da cabeça que em parte se deve ao famoso sentimento inversamente proporcional à distância bem exemplificado pelo velho Eça. O que, convenhamos, é muito injusto. Nem a Índia nem Bombaim são recantos obscuros. Eu tenho imensa admiração pelo estado indiano: com uma área enorme, à qual não faltam selvas fechadas, desertos, contrafortes dos Himalaias e rios imensos; uma história de passado violento entre povos autóctones e os colonizadores europeus; uma maioria hindu,com o seu indizível sistema de castas, e minorias muçulmanas, budistas e cristãs; ainda assim, consegue ser uma democracia sem grandes registos de golpes de estado e fraudes eleitorais, e economicamente prepara-se para ditar suas regras do jogo dos mercados mundiais. Portudo isso, merecia mais tenção. Uma atenção que futuramente não mais lhe será negada.

segunda-feira, julho 24, 2006

O Líbano, Israel, e os problemas de sempre

A guerra voltou ao Líbano e parece querer ficar. Aquela pobre tira legada pelos fenícios e ocupada por incontáveis ritos cristãos e muçulmanos, sempre que parece querer voltar ao normal, seja expulsando exércitos ocupantes ou reconstruíndo as suas cidades, vê-se inevitavelmente entre dois fogos.

O Hezbollah, com as suas milícias e o seu arsenal amealhado nos últimos anos, é o perigo imediato nas região. Jamais a vizinha síria se atreveria a dar a cara directamente, consciente das consequências que tal acto comportaria. O Irão é menos comedido e o seu discurso visceral mente anti-israelita continua afiado. O Hamas é outra ameaça, mas não parece ter os meios dos xiitas do norte, e sempre tem uma legitimidade popular que os outros não possuem. Além do mais, passa por fortes divisões no seu seio, que em nada beneficiam os palestinianos.
O problema que se discute é o da desproporcionalidade entre os ataques e a captura de soldados israelitas e a resposta militar de Tel-Aviv. A legitimidade para retaliar e neutralizar os inimigos de Israel é coisa que só os fanáticos poderão negar. Mas os ataques a alvos civis, o cerco a Gaza, deixando-a sem luz, e as numerosas vítimas deixadas pelo caminho tiram ao estado hebraico muita da sua razão.

Descontando os desvairados do costume, para quem os árabes deviam pura e simplesmente ser exterminados, não deixo de me espantar com as opiniões de Francisco José Viegas e de Pacheco Pereira, no Público da semana passada, mesmo tendo em conta a estreita ligação que o primeiro tem com Israel. Na sua versão, qualquer reacção israelita (que está "sozinho no mundo") é sempre justificada, os EUA cumprem o seu papel e a União Europeia toma sempre a posição anti-israelita. Talvez se esqueçam que a UE tem gasto mundos e fundos na preparação de forças armadas palestinianas que possam controlar as milícias mais radicais; que cortou os fundos à Autoridade Palestiniana como coacção às atitudes hostis do Hamas; que exigiu (e conseguiu) a retirada das tropas sírias do Líbano. Mas não; ao que parece, para alguns, a UE é "pró-terrorista" e os orgãos de comunicação social apenas olham para um lado. Só que o que parece nem sempre é, e talvez por isso haja esse lamentável esquecimento das reportagens nos destroços de Haifa, e da presença do MNE francês na mesma cidade, assistindo aos bombardeamentos. O argumento de que a "comunicação social" está contra Israel" é tão pernicioso como o mito do controlo da mesma pelos judeus.

Parcialidades também as há do outro lado. Vejam-se as opiniões do PCP e do BE, para quem a culpa é eternamente de Israel, as bombas são todas israelitas, e o Hezbollah nunca existiu. Dá vontade de perguntar se os senhores desviam os olhos ás imagens de destruição e fuga causadas pelos mísseis projectados do Líbano.

Nunca compreenderei porque é que tantos são sempre radicalmente pró-israelita ou palestiniano. Qualquer projecto sensato para a região implica que, para que haja dois estados em coexistência pacífica (e uma Jerusalém dividida equitativamente), as forças para-militares islamitas, porque é disso que essencialmente se trata, sejam desarmadas e reduzidas à sua condição civil. Até lá, Israel tem direito a defender-se e inclusivamente a entrar no Líbano, se as forças deste país não actuarem eficazmente. A actual incursão terrestre parece-me bem mais aceitável do que os bombardeamentos anteriores. Não é explodindo com aeroportos e edifícios civis que a paz vai ser alcançada. Actos desses apenas aumentam o ódio e fortalecem os radicais, em lugar de os travar. Essa é uma lição que Israel já devia ter aprendido há anos, com a larga experiência que tem. A destruição de um autocarro e a morte dos seus passageiros, por exemplo, pelas forças israelitas, em nada se distancia de idênticos actos dos bombistas suicidas. E estão a provocar uma catástrofe humanitária no Líbano, entre mortos e centenas de milhares de refugiados, que só os mais facciosos poderão negar. Como diz o Bruno Cardoso Reis, nesta excelente posta, o direito à legítima defesa não permita fazer o que muito bem apetecer. A coberto da incompetente diplomacia Norte-Americana, que parece que com a visita da srª Rice a Beirute ficou um pouco mais clarividente. Fiquem ainda com este textos do Portugal dos Pequeninos, da Sexta Coluna e do meu estimado Corcunda. Tudo perigosíssimos "amigos dos terroristas". Assim como Mario Vargas Llosa, outro notório "anti-semita" cujo artigo no El Pais o Avesso do Avesso em boa hora se lembrou de reproduzir na íntegra.
PS: hoje um míssel teleguiado israelita matou quatro representantes da ONU, apesar de horas de avisos telefónicos sobre a situação exacta dos malogrados observadores. "Um erro", segundo as forças de Israel, se bem que não tenham explicado como é que o cometeram tão clamorosamente se têm tão boas informações sobre o paradeiro dos agentes do Hezbollah. Afinal a sua informação é mais deficiente do que o que querem fazer crer ou ocorreu aquilo que em direito civil se chama negligência grosseira?
Entretanto esta tarde dei de caras com umas dezenas de manifestantes "pela paz", e "contra o terrorismo de Israel". Surpreendentemente, não encontrei nenhum contra o terrorismo do Hezbollah. Querem ver que era outro caso de negligência grosseira? O velho Código Civil está mais presente nas nossas vidas do que imaginamos. E para que conste, um dos manifestantes usava uma t-shirt vermelha com a fouce e o martelo a toda a largura da veste.

domingo, julho 23, 2006

Público de Domingo

Nem sempre concordo com Vasco Pulido Valente, devido ao seu pessimismo radical, à forma como tantas vezes fala das coisas sem ter uma real noção ou conhecimento de causa, ou à mania que tem em elogiar algumas personalidades (o que é raro) para depois as desancar(o normal).
Mas hoje aconselho vivamente o seu artigo no Público sobre Rui Rio, as suas prepotências e caprichos, desde as célebres entrevistas por escrito até ao condicionamento de atribuição de subsídios em troca de atitudes acríticas e servis. E, mais que tudo, as delirantes teorias da conspiração contra a imprensa inseridas na "informação" do site da CMP. O entusiasmo do início do seu mandato deu definitivamente lugar à desilusão e à indignação. A tão propalada "forma diferente de fazer política" do Dr. Rui Rio não passa afinal de um portentoso bluff.

No mesmo jornal, Rui Moreira fala de Ernesto Azevedo, que desapareceu recentemente de forma discreta. O mentor do mítico Portucale, o melhor restaurante do Porto - e com a melhor vista, quase aérea - deixa o seu especialíssimo lugar vago a quem o souber ocupar com igual competência, o que é tarefa ciclópica. Um dos marcos gastronómicos do país vê assim o seu futuro nublado. Esperemos que, tal como nos dizem tantas vezes, não haja insubstituíveis.
A propósito, terá Rui Rio tido conhecimento de tal perda? Ao menos que lhe conceda uma medalha de mérito municipal, ou um louvor, a título póstumo.

Adenda: no Público propriamente dito aparece, nas páginas finais, uma fotografia de Uma Thurman, em toda a sua graça. No suplemento Pública aparece a inquietante Kate Moss, com uns calções curtíssimos. Repare-se nas semelhanças entre as duas, excepção feita aos ditos calções e ao chapéu de Uma. Semelhanças essas que não me impedem de dar uma nota muito mais alta à heroína dos filmes de Tarantino. Kate que me desculpe, mas não há volta a dar-lhe.

quinta-feira, julho 20, 2006

Week-End algarvio







Em dias tão quentes (até Segunda), apraz-me saber que passei o fim de semana no sítio mais fresco do rectângulo nacional: Sagres, esse pedaço mítico de Portugal desafinando o oceano. Ainda assim, posso assegurar que os raios solares não eram assim tão poucos que não impedissem a inevitável mudança de pele. Valeram as praias da Costa Vicentina, inexpugnáveis atrás das falésias, dos montes e dos caminhos de terra batida, os jantares em Vila do Bispo, as noites ao ar livre em Sagres, e, claro, a numerosa companhia. Sinal menos só para a turba bretã que enxameava pela bela Lagos (e como cresceu a cidade de Gil Eanes!), pelas suas ruelas e areias, apresentando preocupantes sinais de excesso de álcool e de substâncias ilegais. Pena o fim de semana ser por norma tão curto. Já se sabe que em Agosto vai ser o caos autêntico.

terça-feira, julho 18, 2006

Cinquenta anos



Cinquenta anos de incentivo à cultura, às artes, à investigação, ao combate à iliteracia. Meio século de excelência e de vanguarda. Que Rui Vilar continue com o mesmo rumo, para daqui a outras cinco décadas podermos comemorar o centenário com idênticas palavras. Parabéns à Gulbenkian, e louvado seja aquele senhor arménio que se lembrou de a criar. Perdoem-me a blasfémia, mas neste caso é justificada.

sexta-feira, julho 14, 2006

Crazy Diamond

Morreu Syd Barrett. Fisicamente, porque que para o público estava já quase enterrado desde 1972. O homem que passou os últimos 30 anos em reclusão na sua casa de Cambridge, pintando quadros abstractos, andando de bicicleta e jogando dominó sozinho, com a generosa reforma que os seus direitos de autor lhe proporcionaram, era um perfeito autista, escondido do mundo e da fama. A tal estado condenou-o a LSD excessiva do seu psicadelismo irreal. Os seus Pink Floyd continuaram, mudaram o estilo e conquistaram o mundo. O autor de Arnold Layne desapareceu definitivamente. A lenda, essa, já dura há trinta anos e terá agora tendência a dilatar-se.

quinta-feira, julho 13, 2006

Pós-campeonato

A febre do Mundial afectou tudo e todos, e isso foi particularmente visível aqui no blogue. Olhando para os últimos posts, reparo que quase não falei de assuntos que não tivessem a ver com a competição. Pacheco Pereira por certo ficou chocado, caso tenha aparecido por cá. Por isso, façamos um ponto da situação para encerrar o assunto.

Portugal não teve exibições de uma beleza estonteante (apesar de ter ganho da FIFA o galardão de "equipa mais atractiva"). Mostrou uma equipa com talento, garra, esforço, agressividade q.b., com capacidade para ir à final. Os epítetos que certos comentadores de países adversários lhes lançaram, tendo um fundo de verdade, foram de uma hipocrisia atroz - veja-se as manobras inglesas antes do jogo com Portugal, ou os mergulhos que acalentaram penaltys aos franceses. Safa-se a Alemanha, de que se falará daqui a pouco.

Durante um mês, ouviram-se os profetas da desgraça e aqueles para quem o alvo das atenções constituía a distracção do povinho, a futebolice nacional, etc. Aqueles para quem a condição de ser português é insuportável, e que só o que vem lá de fora tem préstimo. Como se "lá fora" não houvesse a mesma loucura pela bola, até em doses maiores. E tenho pena de não ouvir uma opinião de João Carlos Espada sobre a sua tão amada Albion, terra de gentlemanship e liberdade, no seu acompanhamento aos seus ídolos na Alemanha (hélas, desta vez para perder). Como é evidente, os comentários do tipo "agora que se acabou o futebol, temos o Verão, e lá para Setembro as pessoas dão-se conta desta desgraça" estão na ordem do dia, e são tão previsíveis que deviam constar das aposta da Betandwin. A pseudo-intelectualidade misturada com pessimismo e com um elitismo escondido dá frequentemente resultados assim. Pena que não se alegrem com os exemplos dos jogadores em levarem Portugal tão alto, na sua permanente maledicência, e passem o tempo a desvalorizar o que devia ser regra no país. sim,eu tenho pena que não estejamos nos quartos de final do civismo,etc. Mas já que chegámos a este ponto, porque não comemorar? O futebol serve para isso mesmo, a não ser que"civilização" signifique permanente tristeza, depressão, fleuma, bocejo.

A Alemanha ficou extremamente bem vista com este evento, quer pela organização, como pelo acolhimento, alegria e fair-play que demonstraram. Diz-se que este campeonato pode ser excelente para que a economia italiana volte a crescer. Não há dúvidas que tem sido um meio ano excelente para a península, contando com as derrotas de Berlusconi e a prisão do Capo Provenzano. Mas interessa-me igualmente o futuro da Alemanha. Pode ser uma ilusão, mas quem sabe se, tal como em 1954 a conquista do Mundial da Suíça face aos "invencíveis magiares" deu um alento suplementar à jovem e titubeante RFA, este novo orgulho nacional, esta consciência de que o empreendedorismo germânico pode-se conjugar com entusiasmo e simpatia, não será uma das alavancas para que a Alemanha, com um hipotético despertar italiano, volte a ser o motor da Europa?

E por agora, basta de posts sobre futebol, apesar do Benfica ter voltado aos trabalhos para a nova época. O Mundial já lá vai, embora as polémicas permaneçam. Falemos agora de (outras) "coisas sérias".

terça-feira, julho 11, 2006

Italia

Tal como desejava, os transalpinos ficaram mesmo com a Jules Rimet, 24 anos depois, confirmando todas as superstições.



O resultado nos penaltis deixa sempre um amargo de boca a quem perde. Desta feita, ironicamente, deixou a Trezeguet, ele que tinha marcado o golo da vitória da França no Europeu de 2006 contra a ...Itália.
Mas acaba por ser justo, não só pelo percurso da Itália mas igualmente pela consagraçaõ de vários jogadores que o mereciam há muito tempo, como Totti, Canavarro, Buffon, Nesta, Del Piero e um guarda-redes veterano que nem sequer jogou, mas que eu apreciava particularmente: Peruzzi.

Inaudita foi a despedida ao pior nível do maior jogador da década. Por muito que Materazzi lhe pudesse ter dito, nada justificava a marrada que deu. Talvez saudades dos touros da Provença...Mas toda e qualquer moral de "fair play" que o detestável Domenech tanto apregoava esvaiu-se definitivamente, isso depois dos penaltis duvidosos que permitiram à França chegar à final.

domingo, julho 09, 2006

Olímpico de Berlim

O estádio de Berlim onde se joga a final do Mundial tem, como todos sabem, uma carga como poucos. No seu recinto, nos Jogos Olímpicos de 1936, Jesse Owens, com as suas quatro medalhas de ouro, humilhou Hitler e a convicção de superioridade (neste caso desportiva) nacional-socialista.
Poupado pela guerra, o Estádio Olímpico passou a casa do Hertha de Berlim, já que estava situado na parte ocidental, e mais tarde a receber a Taça alemã.
Até 2000 manteve-se quase inalterado, a partir daí começou a receber obras de remodelação para este Mundial, onde entre outras coisas se descobriu um engenho explosivo que jazia nas bancadas desde a Guerra. No alto colocou-se uma cobertura que mudou quase radicalmente a perspectiva anterior do recinto.
Eis o Estádio em 1936, na altura dos JOs:




Em 1998, quando por lá passei, o estádio era assim:


As imensas remodelações deram-lhe o aspecto actual



A fachada ainda conserva a face original


E agora, que vençam os Azzurri!