terça-feira, março 20, 2007

A moderna direita portuguesa, ou o carácter original do PSD


Toda esta discussão sobre a "verdadeira oposição" e a criação de um partido "mesmo de direita" em Portugal já tem uns bons anos, e no entanto nada se chegou a fazer em sentido contrário.
As oposições andam sempre às aranhas quando um governo tem uma maioria confortável e ainda não começou a apodrecer, como aconteceu com Cavaco e Guterres, e acontece agora com Sócrates. Há que resistir, inovar e esperar pelos efeitos do tempo, nada mais.

Já a criação da tal força de direita é um assunto sempre discutido mas ao qual nunca se chega a uma ideia conclusiva. Os dois partidos maiores considerados, PSD e CDS, continuam lá, mesmo que o segundo tenha um futuro incerto, e mais do que as ideias e os projectos, abundam os carreirismos e as punhaladas. Aliás, só o movimento do Caldas é que se pode considerar realmente de direita; o partido laranja reúne sociais-democratas, liberais, nacional-populistas, democratas-cristãos, conservadores, regionalistas, e tudo o que possa aparecer à direita (ou em alternativa ) ao PS e que o CDS não tenha capacidade de satisfazer.

O PSD é mesmo um partido único, e isso vê-se logo pelo nome que ostenta e pelos grupos políticos a que pertenceu e pertence no Parlamento Europeu. Os mais parecidos que encontro - não por acaso também em países latinos - será a UDF francesa, sempre um aliado por necessidade dos gaullistas e um contrapeso na política francesa, como se vê pela ascensão de François Bayrou nas sondagens para as presidenciais, e a antiga UCD espanhola.


Há aliás outros pontos de convergência entre os dois partidos ibéricos. A UCD era um partido formado na transicion da Espanha para a democracia pelo primeiro-ministro de então, Adolfo Suarez, que agrupava centristas, sociais-democratas, democratas-cristãos, liberais ou simplesmente tecnocratas vindos do franquismo. Ganhou as eleições gerais de 1977 e 1979, mas as enormes divergências internas, apenas cimentadas pela necessidade de dar à Espanha uma nova constituição, levaram a que Suarez saísse formando o novo CDS; outras formações integraram a Alianza Popular de Fraga Iribarne, mais à direita, posteriormente transformada em Partido Popular. A UCD teve menos de 7% dos votos em 1982, quando Felipe González chegou ao poder, e acabou por se extinguir.

O problema do PSD é que, longe de mudar, conseguiu o poder, em coligação ou sozinho, por mais de uma década. Os anos dourados do cavaquismo deixaram-no acomodado ao poder estatal. Quando caiu dele abaixo, ficou à deriva, viu os seus líderes mudarem consoante a brisa, e só voltou ao poder com a saída de Gueterres, e mesmo assim em coligação com o CDS-PP.

O PSD é um equívoco em si mesmo. Já deveria ter mudado há muito, abandonado as suas cores e as suas setas, renunciado à social-democracia em favor do PS. Ou acabado, pura e simplesmente, como a UCD. Certa vez li numa opinião de um jornal que se isso acontecesse, a ala esquerda seria engolida pelo PS e a direita engoliria o CDS. Melhor seria que a ala que se diz de centro-esquerda fosse para o PS, os conservadores e democratas-cristãos se fundissem no CDS, permitindo a criação de um partido renovado nesse sector, e os liberais se juntassem noutro movimento, que poderia ser a Nova Democracia, sem Monteiro à cabeça, bem entendido.
O futuro dirá se acontece isso ou se surge o tal "grande partido de direita", à imagem do PP espanhol. Ou se fica tudo na mesma, e o PSD volta um dia ao poder, com ou sem o CDS (PP), quando Sócrates tiver enfim esgotado a sua agenda de "reformas".
(Já agora, aconselho estes dois posts do Combustões. Não tenho a suposta admiração pelas persongens enunciadas no segundo texto, mas parece-me que não anda longe do que teclei aí em cima).

sexta-feira, março 16, 2007

Hugh Laurie através dos tempos

Actualmente, o actor Hugh Laurie tem alcançado enorme sucesso como protagonista da série Dr. House.


Mas para os mais esquecidos, Laurie tornou-se conhecido antes de mais pelos seus papeis nas séries de humor britânicas, como o celebérrimo Black Adder, que nos deu igualmente a conhecer o seu criador, Rowan Atkinson, e Miranda Richardson. Laurie fazia o papel de Príncipe Regente na 3ª série, passada no Séc. XVIII, e do presunçoso e cretino Tenente George St. Barleigh, na 4ª Série, nas trincheiras da Grande Guerra.












Ainda se lembram dele, em tão diferentes registos?

quinta-feira, março 15, 2007

Brava Dança dos Heróis

 

Saúde-se o voluntarismo do filme Brava Dança, documentário sobre a carreira dos Heróis do Mar. Não por ser uma obra-prima, ter uma fotografia fabulosa ou um ritmo de narrativa esplendoroso. Mas o simples facto de ser um dos primeiras fitas do gênero produzidas em Portugal (a par de Lisboetas ou Diários da Bósnia) já é de si uma notícia a registar. Além do mais, debruça-se sobre uma época particularmente rica no panorama musical português: o boom do Rock nacional, a recuperação da cantiga popular, o renascer do interesse pelo Fado, com as baladas e as canções de intervenção a deixarem de ser gênero único, sem se eclipsarem. É interessante ver as origens do grupo, o quase experimentalismo punk dos efémeros Faíscas (um sub-punk absolutamente inenarrável e incompreensível) e Corpo Diplomático e as suas guitarras distorcidas, com o ubíquo Ayres de Magalhães; a vontade de fazer um grupo que tocasse música portuguesa; as cinco personalidades distintas dos seus membros, a começar pelas influências musicais; o espírito de provocação e rebeldia que caracterizou a banda e lhe trouxe alguns dissabores no início.

A pose e a estética marcial e nacionalista criaram reacções chocadas que se verificaram obstáculos difíceis de ultrapassar, mas deram aos Heróis a fama que eles desejavam, embora de uma forma que sem dúvida não esperariam. Os fatos de navegadores, as armas, as letras (ainda assim amaciadas) de carácter guerreiro e nacionalista, a Cruz de Cristo, tudo isso criou-lhes o anátema original de "fascistas" a "reaccionários", só ultrapassado com sucessos comerciais como Amor ou Paixão. Seguiu-se o habitual disco mal-recebido-pelo-público, Mãe, mais alguns êxitos pop e a renovação de energias, com Macau. Já na fase final, mais desinspirada e com claro ar de "vamos é acabar com isto", ainda editaram um disco homónimo, antes de se separarem definitivamente. O vocalista Rui Pregal da Cunha e Pedro Paulo Gonçalves constituíram os LX-90, com um estilo mais rocker, antes de se dedicarem a outros projectos fora da música; enquanto Pedro Ayres de Magalhães já tinha os seus Madredeus (para os quais recuperou depois Carlos Maria Trindade), cuja história e posterior sucesso internacional são sobejamente conhecidos.

O documentário abrange todos esses momentos, ouve inúmeros testemunhos da época e mostra imagens de videoclips, concertos digressões. Fica-se com uma ideia da movida lisboeta dos anos 80 (em que ninguém dormia, segundo Pregal da Cunha), da vida na "estrada", das dificuldades económicas para manter uma banda assim e das influências musicais absorvidas ao longo dos anos. Um filme que apesar de algumas deficiências e lacunas, vale o preço do bilhete, e que é uma justa homenagem a tão marcante banda e a tão agitada década.

PS: era bom que a Blitz não cometesse erros de palmatória como este. Primeira colectânea dos Heróis do Mar em 2007? Houve pelo menos outras duas, uma em dois discos, ainda nos anos 80, e outra, intitulada Paixão, em 2001, que é a que eu tenho. Enorme falta de atenção à discografia básica por parte de uma revista muito "profissionalizada" mas demasiado descaracterizada, e que comete erros básicos deste tipo.

domingo, março 11, 2007

Metros


Para quem se interessa por metropolitanos, mais subterrâneos ou superficiais, ou deseja encontrar imagens dos comboios urabnos que existem em quase todas as grandes cidades, este sítio é um achado. Basta saber usar um mapa. E ainda tem links para buscas mais aprofundadas. Sobre este assunto não conheço nada melhor. Não sei se há grandes indefectíveis dos metros, mas se os houver, têm aqui material de sobra.
"Moderação"

A nova Lei que despenaliza/liberaliza o aborto foi aprovada na especialidade. Como se previa, não haverá aconselhamento obrigatório. as mulheres poderão abortar sem qualquer tentativa de disuasão, o que torna o estado neutro em relação ao aborto até às dez semanas. Parece que é uma "lei moderada".

A nova lei do tabaco promete criar ainda mais restrições aos fumadores. Agora será proibido fumar em bares restaurantes e discotecas com menos de cem metros quadrados. O presidente de uma tal ConfederaçãoPortuguesa de Prevenção ao Tabagismo (prevenção e não proibição, estranhamente) considerou a proposta "equilibrada" e que "chegou a recear que a legislação deixasse ao critério dos proprietários dos restaurantes, bares e discotecas a decisão de proibir o fumo". Será que também conhece o significado da palavra proprietário?

São dois belos exemplos de normas "moderadas"e equilibradas" Nem quero imaginar se não fossem.
Cartas de Iwo Jima, The Good German, e Brava Dança dos Herois são três filmes que quero ver dê por onde der. Para isso, só tenho dez dias e pouca disponibilidade. Mas apesar disso, e da crítica ser mediana face ao segundo e desconfiada para com o terceiro, não não vou estar à espera do DVD. Há objectivos obrigatórios a que não se pode olhar a meios para os concretizar.

quinta-feira, março 08, 2007

8 De Março

Associando-me às comemorações do Dia Mundial da Mulher, que o Corta-Fitas publicita incessantemente, deixo também o meu quinhão contributivo. É modesto, mas é o que se pode arranjar.
É claro que para uma homenagem mais justa e completa, há que ir a lugares geridos por profissionais, onde Deus as cria.
Meio século de televisão

Parabéns à RTP. Cinquenta anos é uma bela idade, e, com mais ou menos percalços, sempre é uma instituição a que todos nos habituámos. As operadoras privadas tiraram-lhe o monopólio, mas pelo que se vê, a televisão estatal está actualmente uns furos acima no que toca à programação.

(Refira-se já agora que a televisão só iniciou as suas emissões na região de Lisboa. No Porto só uns meses depois é que a inauguraram. Se não me engano, tenho a gravação desses momentos iniciais, em que o meu avô paterno tomou parte)

terça-feira, março 06, 2007

Portas versão 5.0

O regresso de Paulo Portas à ribalta político-partidária, depois de dois anos precisos a picar o ponto na AR, escrever crónicas políticas no SOL mascaradas de críticas de cinema e emanar algumas opiniões na SIC- Notícias, é a coisa menos inesperada que vimos desde que Cavaco ganhou as presidenciais. A pacata"travessia do deserto", sem grandes ondas, começou com a derrota em Fevereiro de 2005, e todos pensaram que Portas iria dedicar-se a uma carreira mais internacionalizada, aproveitando o que granjeou com o seu antigo cargo governamental. Falou-se mesmo de um centro de estudos para ideologizar a nova direita portuguesa, com subsídios americanos. Tudo isso ficou no papel ou não passou de uma abstracção. A Atlântico encarregou-se de começar o combate das ideias (não, não estou a defender que seja uma revista "portista") e o antigo líder do CDS começou a preparar o seu regresso à cúpula partidária a partir da surpresa que constituiu a derrota do seu delfim Telmo Correia.
Nos últimos dois anos assistiu-se a direcção de Ribeiro e Castro mais voltada para a democracia cristã e para o CDS original, pouco hábil e com alguns passos desastrados, esvaziando a direita e deixando-a alienar-se por Sócrates. Mas o eurodeputado teve igualmente medidas importantes, como a revitalização das estruturas regionais e locais do partido, postas à parte pelas direcções anteriores. O seu trabalho foi torpedeado pelos "portistas" que constituíam a quase totalidade do grupo parlamentar, como se viu com o exemplo cabal de Nuno Melo, mesmo depois de Ribeiro e Castro ter ganho novo congresso. Este tipo de atitudes tem normalmente vários nomes, como deslealdade, conspiração, ou corrosão interna. Mas Portas já esteve envolvido em situações semelhantes, como os truques recíprocos com Manuel Monteiro. Agora, porém, o caso é mais descarado e já não tem o efeito surpresa de há alguns anos.

Paulo Portas é sem dúvida o mais hábil, inteligente e dinâmico líder que a direita portuguesa conheceu nos últimos vinte anos. E também o mais cínico e mefistofélico (Marcelo idem, mas não sei se lhe deva colar a palvara "direita"). Simplesmente, a onda de re-renovação que trouxe nos anos noventa já se dissipou em grande parte. A posse referência jovem-populista-estadista esgotou-se, pelo que aposta algora numa vertente mais liberal. Um pouco tarde, na minha visão. A aura de invencibilidade interna já não é a mesma; o regresso ao antigo cargo traz sempre anticorpos e expectativas desconfiadas, e agora, depois da guerrilha a Ribeiro e Castro, mais do que nunca. é certo que no CDS já houve um regresso triunfal, o de Freitas do Amaral em 1988, com a redução a "partido do táxi", mas não tinha na altura oposição alguma e as melhorias foram nulas. Agora as coisas são diferentes. Portas vai ter mais dificuldade do que julga ganhar a liderança do partido, e mais ainda a guindá-lo de novo a partido de poder, ou quando muito a guia da direita portuguesa. Muitas surpresas estão-lhe reservadas, e ele, atrás daquela postura calmamente messiânica, provavelmente sabe disso.

quinta-feira, março 01, 2007

Manuel Galrinho Bento
1948 - 2007


segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Oscares

Está a começar a sessão de Oscares deste ano. Não tendo podido ir ao cinema tanto quanto gostaria, também não tenho enormíssimas preferências. Ainda assim, gostava que a tradição se quebrasse esta ano e que Scorcese ganhasse finalmente a sua estatueta. Não vi The Departed, mas toda a sua obra já o justificava, e de que maneira. Pena para Eastwood, mas neste novo duelo ao pôr-do-sol com Marty, espero que ele perca. Frears e Iñarritu têm as suas hipóteses, ao contrário de Geengrass, e noutras circunstâncias até gostava de ver o prémio ir parar às mãos do realizador de Ligações Perigosas. Se Scorcese não ganhar, definitivamente estará criada uma autêntica maldição (ou má vontade) sobre este realizador.

Outro que sofre do mesmo mal é O´Toole, mas não me parece que chegue lá. Não o premiaram em Lawrence da Arábia e agora afadigam-se a tentar compensá-lo. Mas há coisas que se não são feitas na altura devida, mais vale que se fique quieto e calado. Mas infelizmente a Academia não é dada a indiscrições.
Nesta categoria deve acontecer o mesmo que no ano passado, ou seja, o Oscar irá para um actor a quem todos reconhecem enorme talento, que normalmente aparece em filmes menos comerciais, sem grande sex-apeal, e que quando interpreta uma personagem real é que se lembram de o premiar. O caso de Forest Withaker (escandaloso ser nomeada pela primeira vez aos 45 anos) é em tudo igual ao de Philip Seymour Hoffman, e não custa a crer que o resultado final seja o mesmo.
Will Smith e Di Caprio terão de esperar pela sua terceira nomeação. Ryan Gosling não conheço, nem o filme que protagoniza. A nomeação será um bom veículo ou continuará no anonimato?

Na categoria feminina, o nome de Helen Mirren não deverá espantar ninguém, mas contra Her Majesty não há nada a objectar. A ficar navios ficarão uma vez mais Kate Winslet e Judy Dench, que já mereciam qualquer coisinha. ao menos veremos Penélope Cruz lá no meio; quanto a Merryl Streep já deve estar farta de comparecer na cerimónia, com nomeações ano-sim, ano-não.

Secundários? Babel terá uma palavra a dizer. Mas reparo que Cate Blanchett, co-protagonista do mundi-pudim de Iñarritu, surge como nomeada por Notes of a Scandal. O filme ainda não chegou às salas, mas tenho a certeza de que ela merece novo galardão. Só mesmo por se tratar de Blanchett, que é uma razão mais que suficiente. quem sabe se para o ano não ganha a estátua principal, se Hollywood voltara premiar uma interpretação de uma Rainha inglesa.
Entre os senhores secundários, a luta terá a sua piada, mas não faço prognósticos. Talvez entre Alan Arkin (do excelente Little Miss Sunshine) e o renovado Eddie Murphy.

Prémios técnicos à parte, resta-me esperar pelo melhor filme. Que deverá ser Babel, já que a Academia gosta de filmes do gênero, sobretudo quando conseguem ser tão (descarademente) "globalizantes", e para mais agora, que os realizadores mexicanos estão tão na moda.
Vamos lá ver até que hora aguento. Mas sinceramente não espero grandes surpresas. Mas quem sabe, na edição passada aquilo acabou com grandes emoção. E esta noite?

sábado, fevereiro 24, 2007

As (in)consequências da visita de Isabel II a Portugal



Como se assinalou nalguns jornais e blogues, a Rainha Isabel II visitou Portugal em Fevereiro de 1957, há cinquenta anos, durante quatro dias. Não era a primeira vez que um monarca britânico vinha ao país; já Eduardo VII o fizera, em 1902. De qualquer modo, a visita teve imenso impacto, e serviu para cimentar a velha aliança Luso-Britânica e para retribuir a visita de Craveiro Lopes, em 1955.

Não foram poupados esforços nem custos. Exortou-se a população a vir para a rua aclamar a Soberana e a comunicação social a comparecer em peso. Usaram-se coches e um bergantim do Séc. XVIII para transportar a Rainha do iate Britannia, onde chegou, até ao Cais das Colunas, onde Craveiro Lopes e Salazar já a esperavam, com pompa e circunstância.
A família real ficou instalada no palácio de Queluz. Relevantes foram o banquete na Ajuda, com centenas de convidados, o almoço de honra na câmara de Lisboa (onde se retomaram hábitos esquecidos, como o do arauto vestido com as cores da edilidade, ou a guarda de honra prestada por pajens com o pendão dos corvos de S. Vicente) e as visitas ao Bairro da Ajuda (o momento "instituições sociais", com claras instruções para não ir a hospitais nem a sítios com "sick people"), aos Jerónimos e ao Museu dos Coches. Houve ainda uma passeio até à Nazaré (aqui,ao que parece, a pedido da própria Rainha), a Alcobaça, onde os estudantes de Coimbra fizeram uma passadeira com as suas capas, e à Batalha, recordando a ajuda inglesa na utilização da táctica do quadrado em Aljubarrota. No regresso, oportunidade também para ver os campinos e touros do Ribatejo.
Para terminar, houve ainda um banquete no Britannia, em honra do presidente português, com fogo-de-artifício sobe o Tejo. A soberana partiu no dia seguinte de avião, com uma paragem no Porto para receber a "colónia britânica" na Bolsa e na Feitoria Inglesa.

A velha aliança solidificou-se com esta viagem, sem qualquer dúvida. Mas as esperanças do governo português eram outras, e foram compreendidas pela União Indiana. Um mês após a visita, o jornal do Partido do Congresso, de Nehru, publicava um editorial com alusões à "pouca inteligência da Rainha" e às "carnificinas dos portugueses em Goa". O líder indiano ainda pediu desculpas, mas o episódio demonstrou quão acesas estavam as relações dos indianos com Portugal. Quatro anos depois, como se sabe, os territórios portugueses no sub-continente eram ocupados e começavam as insurreições em África.

Portugal pretendia obter o apoio britânico na manutenção a toda a força do Ultramar. Mas a Grã-Bretanha estava a mudar rapidamente. A doutrina de Churchill, que pretendia manter o Império Britânico, tinha sido guardada. Em 1956, a expedição ao Suez, em conjunto com a França e Israel, para reverter a nacionalização do canal por Nasser, redundara num fracasso. A URSS ameaçaram intervir usando a sua força nuclear,e os Estados Unidos pronunciaram-se igualmente contra a intervenção no Egipto. O episódio mostrou quem mandava no Mundo e revelava, de forma cristalina, que as potências coloniais já não tinham a força de outrora. A França perdera a Indochina, começava o processo de independência das suas colónias africanas e iniciava uma sangrenta guerra na Argélia. No Reino Unido, o fracasso levou à queda do governo de Eden, substituído por MacMillan apenas um mês antes da visita da Rainha. O novo primeiro-ministro, de ideias opostas às de Churchill, sendo igualmente Conservador, pretendia desligar-se paulatinamente do Império (fora do âmbito da Commonwealth) e aproximar-se dos EUA, tornando-se o sustentáculo principal dos americanos, e por outro lado aderir à nova CEE.
Ainda em 1957, a Malásia e o Gana alcançaram a independência. A partir dos anos 60, as colónias britânicas foram-se desligando do antigo colonizador, embora algumas tivessem permanecido na Commonwealth com a Rainha como chefe de Estado (outros saíram, como a África do Sul). A autonomia unilateral da Rodésia, encabeçada por Ian Smith, em 1965, teve o apoio de Portugal, coisa que arrefeceu as boas relações com a Inglaterra. Esta aliás considerava que a sua colaboração em questões internacionais jamais deveria estender-se ao Ultramar, e fazia a subtil distinção entre "Portugal aliado na NATO" e "Portugal como potência colonizadora".
Muito embora a visita tenha reforçado os laços entre os dois países, as suas consequências quanto a política externa ultramarina não foram significativas. O fim do Império Britânico enfraqueceu o Reino Unido, obrigando a uma mudança de políticas, e isolou Portugal na sua muito particular visão colonial, o que viria a traduzir-se mais tarde na perda dos seus territórios fora da Europa.
O Welfare State, esse bárbaro

A Dia D, revista de economia que acompanhava o Público, e orgão oficioso para tudo o que é blogoesfera liberal, chegou ao fim. Fê-lo com um momento de assinalável boa-disposição: a crónica de Miguel Noronha. Ao que parece, as razões da decadência social do Reino Unido devem-se à Igreja Anglicana, aos governos de Lloyd George e de Attlee e ao terrífico "Welfare State". Já a Srª Thatcher, que governou o país precisamente quando essa decadência se acentuou e se tornou mais visível (simbolizada pelos hooligans, referidos no artigo, e também com a violência urbana resultante do enorme desemprego da época), teria introduzido reformas para estancar o "trágico resultado", mas em vão.
Acho muito bem que a publicação, uma vez que vai encerrar, o faça desta forma. O bom humor faz sempre falta, e nesse aspecto, os peritos económicos, por muito que o disfarcem, são autênticas reservas espirituosas.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O típico governo italiano

O Governo Prodi caiu porque o seu programa "externo" não passou no Senado. Nada de espantar. A média de duração de um governo italiano desde a 2ªGuerra (isto é, durante a República) é de dez meses, sendo que muitas vezes o anterior chefe do executivo é reconduzido ao cargo, coisa que ao que tudo indica, voltará a suceder. A instabilidade governativa italiana é um velho costume político que só mesmo Mussolini quebrou. Uma vez que a Itália vai continuar a viver em democracia, os governos vão consequentemente durar, na melhor das hipóteses, ano e meio. Contra isto não há Mãos Limpas que lhes valham.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Entrudo em Lazarim


Dia de Carnaval, Terça-feira Gorda, comemorada nas Ovares e Loulés deste país, com samba, dançarinas semi-nuas e carros alegóricos. O mesmo se passa em Veneza, Nice, Salvador e Nova Orleães.
Mas entre o Douro e Trás-os-Monte as tradições são diferentes, e seguramente mais antigas. Aqui existe o Entrudo, permitem-se excessos mais físicos que visuais, muitas vezes camuflados debaixo de carantonhas, e reavivam-se tradições que, depois dos anos de interdição durante o Estado Novo, se tornaram um chamariz de forasteiros. Como eu.

Em Podence, Macedo de Cavaleiros, onde os caretos infestam as ruas com as suas travessuras e os seus chocalhos e os seus trajes garridos,ocultados por máscaras bizarras, ou em Lazarim, onde são de madeira e os mascarados se vestem de forma mais diversificada e incrível, o Entrudo é uma imagem de marca destes dias frios. Dirigi-me para esta última aldeia, apanhando a estrada para Tarouca, depois de Lamego, e virando à direita após Britiande. Por entre uma paisagem mais de lameiros que de vinhas, atravessa-se a aldeia de Lalim, que já vem da Idade Média (como quase todas, nesta zona), onde a estrada se converte em apertadas ruelas. Mais uns quilómetros e estamos à vista de Lazarim, nas faldas da Gralheira. Para chegar ao centro da povoação há que deixar o carro na borda da estrada, a umas centenas de metros, que o intenso movimento assim o obriga.
 
A festa começou no fim de semana e tem o ponto alto na Terça, com a leitura dos jocosos "testamentos", o desfile e o concurso dos caretos, a queima dos compadres e a comezaina final. Com bombos e banda pelo meio.
Pouca sorte: chego já na altura do cortejo e tenho necessidade de me ir embora ainda com luz do dia. É o suficiente para me inteirar das festividades. Lazarim é antes de mais uma antiga povoação que se alonga pela estrada fora, abrindo-se num largo central e terminando nas ruelas adjacentes. Nas bermas, espalham-se vendedores de cavacas de Resende, cavacórios, vinho da região, recordações da aldeia, postais e até t-shirts alusivas à ocasião.


Os caretos vêm no sentido contrário ao meu, precedidos pela banda que os anuncia. O cortejo é encabeçado por uma espécie de líder dos mafarricos de madeira, montado num burro. Descem até se concentrar no largo, exibindo as suas fatiotas e fazendo barulho, no meio da multidão que os aplaude e fotografa. Na casa brasonada que domina o terreiro está montada uma varanda/palanque à laia de palco do concurso, onde os caretos começam a subir um a um. Aí, apresentam-se e vão retirando as máscaras. A grande maioria é da aldeia, mas mesmo os de fora provocam o gáudio dos assistentes.








Nem todos estão atentos ao concurso. Encostado ao cruzeiro a meio do largo, um homem de fato de ver a Deus, largo capote por cima, lenço ao pescoço e chapéu igual ao que os Gato Fedorento usaram no rap matarruano mal se aguenta de pé, perdido de bêbado. Inclina-se para a frente, descai para trás, e a certa altura tomba mesmo, perante algum riso e a pronta ajuda dos confrades. Há quem aproveite a quadra festiva até à náusea, ou pelo menos, aos limites dionisíacos.





Acabada a exposição dos caretos, os ex-mascarados dispersam-se e o júri retira-se para deliberar. Entretanto, a banda cria ambiente, tocando freneticamente, com bombos e concertinas, cantigas de Quim Barreiros. Apesar do frio (zero graus às 6 da tarde, e vê-se neve nas montanhas ao longe), a animação nas pessoas é visível. Por um Euro, compra-se uma extensão enorme de cavacas de Resende, ideal antes de entrar na Quaresma. Eis o autêntico comércio tradicional, o dos almocreves e das feiras, antes de qualquer loja ou armazém, que hoje nos parecem ser de outro tempo.

O júri demora muito, e como tenho de voltar cedo, saio de Lazarim ainda com a luz da tarde. Ainda há muita gente no largo. Sei que haverá a queima dos Compadres e que a festa acaba em farta comezaina, com caldo de farinha, feijoada e vinho. Óptima maneira de encerrar o dia, para os que ficam. Uma ideia que consola é que a tradição, agora reavivada e cada vez mais conhecida, retomar-se-à para o ano. O tempo também pode andar para trás nas coisas boas da vida.

Este relato diz respeito ao Carnaval de 2006, mas parece que este ano, em que não pude repetir o passeio, a folia voltou em grande escala. Também o Bichos Carpinteiros descreveu o mesmo evento, mas dois dias antes. Ao que parece, sou um dos "duros" que esteve no epicentro da festa. Ou quase.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Sanchez na Venezuela?

Num post do Hoje há Conquilhas, que subscrevo e recomendo, diz-se a certa altura que algumas das pessoas que ao nome Salazar pegam na pistola "alimentam a esperança de que Hugo Sànchez substitua, na América Latina, o retirado Fidel Castro". Aqui confesso que fiquei desorientado: então Hugo CHÁVEZ deixou o poder, logo agora que estava a criar a sua querida república socialista e em que iniciava as suas próprias conversas em família, com a respectiva secção de apresentação de livros (muitos exemplos marcelistas segue Chávez)? E logo para que o antigo craque e actual seleccionador mexicano ocupasse o seu lugar, e, ao que parece, o difícil papel de Fidel? Estrangeiros a ocupar o lugar de chefe de estado num país sul-americano não é coisa inédita, na ficção como na realidade, desde o próprio México, com o efémero imperador Maximiliano, até à BD.
Agora do ex-craque nestas lides é que não estava à espera. Se tiver a mesma relação com a governação como com os golos, os adversários, a começar pelos EUA, que se preparem. Mas mais valia que o elemento estrangeiro da Quinta del Buitre continuasse a dar instruções a Kikin Fonseca e não tentasse aparecer na fotografia com o guevarista Maradona. Não lhe fica bem, depois de anos de rivalidade, e sempre conserva as simpatias que os seguidores do Atlético de Madrid e os Ultra Sur, na sua maioria pouco predispostos a socialismos, lhe dedicaram.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

O Público mudou

Digam o que disserem, torci o nariz à a nova imagem do Público, que considero descaracterizado, indistinto de outras publicações e graficamente desengraçado. Como não o tenho comprado nos últimos dias, ainda não pude testemunhar outras alterações de fundo, mas do que me tenho apercebido, as novas divisões são uma confusão, há igualmente rodagem de colunistas, e também temo pelos suplementos semanais. Se tivessem conservado o logótipo, com o acento azul sobre o "u", ainda podia pronunciar um relativista "´tá bem, pronto". Um jornal não tem, antes pelo contrário, de ser uma coisa anacrónica ou inerte, mas sim de acompanhar o mundo e as suas conjunturas e mutações.
Mas não. Nem isso. Mudaram tudo, de cima a baixo. É pena, porque há sempre pequenos símbolos a que uma pessoa se agarra, e que considera em parte seus. Os jornais e as características que transportam são um claro exmplo disso, até porque fazem parte da vida pública de uma sociedade.
Posso vir-me a habituar, em parte, mas definitivamente este Público deixou de ser o jornal a que me habituei desde o início, quando me levantava ao Domingo por causa do Júnior, e que jamais dispensei.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

A tentação da raiva

Falo agora não do referendo que passou, mas das suas reacções. Como se esperava, entre os "vencedores", houve reacções mais moderadas ou racionais. Mas não faltaram igualmente os ajustes de contas, os odiozinhos recalcados a virem à superfície, em suma, tudo aquilo que muitos queriam dizer e não puderam para dar o ar de "moderados". Entre casos mais ou menos graves, dou como exemplo este destapar de irracionalidade, má-fé e triste figura, provavelmente um caso clínico, de uma criatura chamada Carlos Esperança, alguém que vive ainda no tempo de Afonso Costa e que se pudesse correria a incendiar todas as igrejas que encontrasse pelo caminho. Ficou muito claro, através deste post troglodita, quais as reais intenções de alguma dessa gente: "achincalhar a igreja". O que equivale a insultar milhões de portugueses em nome dos seus dogmazinhos das catacumbas. Percebe-se: esta malta sabe que nunca conseguirá subverter a igreja - i.e. acabar com ela - e diverte-se com as vingançazinhas blogoesféricas. Que seja essa a alegria deles, o matchbox para brincar sabendo que nunca terão um em tamanho natural, já que na prática, só mesmo olhando para as litografias da esquecida Iª República.
Adenda: o já célebre editorial do El Pais considera que o CDS é um partido de "ultra-direita", que o Algarve, o Alentejo e a cintura de Setúbal são regiões "avançadas", e que "a voz do Portugal laico e moderno elevou-se sobre o silêncio do país atrasado". É só exemplo das imbecilidades proferidas pelo editorial (e não por qualquer coluna de opinião) de um jornal espanhol "de referência", que assim dá uma imagem deturpada e ideologicamente marcadíssima de Portugal, para quem não conhecer este país. quem não o ficar a conhecer a partir de agora, que o compre. E que leia também este post , antes de tudo.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Depois do referendo

O que há a dizer no rescaldo do referendo? Que a minha escolha, aqui e aqui expressa, perdeu nas urnas. Só soube do resultado lá pelas onze horas, porque antes disso estava num comboio entre Porto e Lisboa. Não foi a vitória do "sim" que me espantou e entristeceu, mas a diferença clara entre as votações.

Como não tenho os pruridos do PCP, entendo que a escolha dos que votaram deve ser respeitada, mesmo que o referendo juridicamente não seja vinculativo (como não o fora em 98). Faço votos para que a nova legislação seja moderada e não deixe de considerar o aborto um mal, dando o necessário atendimento às grávidas e não esquecendo o direito à maternidade, constitucionalmente consagrado, mais a mais num país com fraca natalidade.
Mas como já se disse repetidamente noutras partes, a questão não está nem pouco mais ou menos resolvida. Temo que o número de abortos suba, e não apenas nos primeiros tempos, mas também que o SNS tenha ainda mais dificuldades em atender os pacientes habituais, que o aborto clandestino permaneça (em alguns meios vai com certeza subsistir) elevado, e que se observe a aberrante situação de ver as mulheres de Espanha a vir abortar ao nosso país, quando em certas situações uma portuguesa tem de ir dar à luz a Badajoz. Sim, isso pode muito bem acontecer, e não é por acaso que já há uma clínica espanhola especializada em abortos a ser montada em Lisboa... mesmo antes de se saberem os resultados do referendo. Quem viu a entrevista a uma cinicíssima representante dessa casa não poderá com certeza ter deixado de reprimir um arrepio pela espinha.

Os vencidos da noite foram portanto os que estavam do lado do não, como eu, excepto talvez uma pessoa: Ribeiro e Castro. Com uma campanha infatigável, quase sozinho, foi o líder do único partido que disse "não" e na declaração oficial não atirou a toalha ao chão, prometendo que continuaria atento e a lutar pelas suas convicções. Ganhou um grande capital político, que Portas e os seus acólitos terão de enfrentar doravante.
Outros derrotados: Marcelo, claramente, e Marques Mendes. O PSD não entra nestas contas devido à sua divisão entre as duas opções. E embora tenha criticado este partido pela sua campanha ambígua, devo igualmente felicitá-lo: se a questão não era política nem partidária, então partido algum devia ter tomado posição, deixando o caminho aberto para os vários grupos de cidadãos. A partidarização de questões desta natureza é que tem tendência a afastar as pessoas das actividades cívicas; e nem assim se compreende os apelos para que a Igreja não se metesse ao barulho. Afinal de contas, porque é que os direitos dos partidos a fazerem estas campanhas prevalecem sobre as confissões religiosas? Só se a questão fôr afinal política, coisa que não é ou não deveria ser.
De tudo isto, retira-se ao menos um facto positivo: a maior participação dos cidadãos organizados fora das esferas partidárias. Um exemplo que deve frutificar.

Entre os vencedores, Sócrates, claro. A vitória do "sim" deve-se provavelmente a ele e a mais ninguém. A diferença entre 98 e 2006 esteve provavelmente na mobilização do governo e do PS quase todo, com as raras excepções do "não". O PCP conseguiu enfim ver aprovada na prática a tese de licenciatura do seu líder histórico, mas quanto a capital político, é duvidoso que tenha ganho muito. O BE terá ganho esta batalha, mas pelas reacções pantomineiras duvido que tenha angariado muitos trunfos. Aquele cartaz do "Bem-vindos ao Século XXI" é uma coisa confrangedora. Como é que pessoas que vivem, na melhor das hipóteses, nos anos setenta, podem servir de anfitriões ao Século XXI? Aquilo era antes um "bem-vindos à pós-modernidade"; tinha muito mais a ver com aquele partido e com este momento.

Como disse atrás, a questão está longe de estar resolvida. As convicções não se calam por causa de uma derrota nas urnas. E quase aposto que um dia terá de se fazer novo referendo sobre o assunto, mas noutro sentido. Se uns o puderam repetir, porque não os outros? É assim que funciona a democracia.

domingo, fevereiro 11, 2007

Não é para me fazer à lista, mas o Corta-Fitas merece os meus parabéns atrasados. Quanto mais não seja porque passou a ser um blogue de leitura diária obrigatória, depois de meses de indiferença a que o votei. A ignorância tem destas coisas. Muitos parabéns, então, e que o blogue continue exactamente como é.