quarta-feira, maio 16, 2007

Jacques Chirac
Há dias, vi um documentário sobre a vida e a carreira política de Jacques Chirac. As características que mais se lhe apontam estavam todas lá: o oportunismo, o charme pessoal, o interesse pelas civilizações do médio-oriente, a mudança de convicções de uma década para a outra, a devoção ao Gaullismo. Além dos traços pessoais, tem ainda os comuns aos principais políticos franceses: décadas a andar na ribalta, com maior ou menor sucesso, e sucessivas tentativas de alcançar o mais alto cargo nacional.

O percurso político de Chirac já data dos anos sessenta. Começou no gabinete de Pompidou, do qual se tornou homem de confiança, tendo sido deputado, secretário de estado e ministro de várias pastas. Depois da morte do dinamizador do museu do Beaubourg, resolveu apoiar Valéry Giscard d ´Estaing nas presidenciais de 1974. Acabou por ser decisivo, e tal empenho valeu-lhe o cargo de primeiro-ministro, aos 42 anos. Mas a rivalidade entre os dois homens acabou por ditar a saída de Chirac, por "falta de condições", em 1976. Logo a seguir, fundou o RPR, o novo grande partido gaullista da direita francesa, aproveitando os movimentos já existentes no terreno, nomeadamente a UDR, candidatou-se à câmara de Paris e tornou-se o todo poderoso Maire da capital francesa, derrotando a candidatura suportada por Raymond Barre, seu sucessor na chefia do governo e homem de confiança de Giscard. Tentou sem êxito as presidenciais de 1981, ganhas por Miterrand, mas viria a ser de novo primeiro-ministro em 1986, impondo uma política de austeridade, em coabitação com o velho presidente socialista. Que o derrotaria de novo em 88. O maire de Paris, eurocéptico e soberanista, tornou-se um entusiasta da União Europeia no início dos anos noventa, mesmo a calhar para vencer à justa o referendo sobre o Tratado de Maastricht. Em 93, a RPR teve um êxito retumbante nas legislativas, e Balladur tornou-se chefe de governo. Dois anos depois, para as presidenciais, o RPR dividiu-se entre o primeiro-ministro (que teve o apoio de Sarkozy) e o Maire de Paris, que acabou por ganhar a contenda, ir à segunda volta conquistar o lugar que sempre ambicionara: a Presidência da França.

No primeiro mandato teve de suportar uma coabitação com Jospin e o conflito no Kosovo, e viu a França sagrar-se campeã mundial de futebol. No segundo, ganhou com mais de 80% dos votos contra Le Pen, foi mais atribulado: a crise no Iraque (que o tornou impopular a nível externo, mas que acabaria por lhe dar razão), apesar do apoio anterior à guerra no Afeganistão, a derrota do projecto da Constituição Europeia, a fundação da UMP, as diatribes com Sarko e o envolvimento nos casos de desvios de fundos entre a Mairie e o RPR.

É esta a longa carreira do homem que se despediu ontem da presidência, dando lugar a Sarkozy. "L ´escroc", para os inimigos, ou o homem que assumiu a liderança do mito gaullista e que estabeleceu laços entre o ocidente e a África e o Médio Oriente, para os admiradores. O seu principal legado terá mesmo sido esta influência francesa nesses territórios, e a sua larga popularidade, à qual potências como os EUA têm muitas vezes de recorrer. De negativo, fica como símbolo de uma classe política arrivista, burocrática, intriguista e de honestidade duvidosa, à qual se tenta pôr cobro no ciclo que agora se inicia.

segunda-feira, maio 14, 2007

A irrelevância do PCF


Voltando às eleições francesas, e à sua primeira volta, houve um resultado que não deixou de surpreender quem sobre ele se debruçou, já que a maioria dos eleitores e analistas estava mais virada para a segunda volta. A candidata e líder do Partido Comunista Francês (PCF), Marie-George Buffet, teve a irrisória votação de 1,93% dos votos, bastante abaixo, por exemplo, do candidato da Liga Comunista Revolucionária.

A queda do PCF tem-se vinda a acentuar ao longo dos anos, mas nunca os comunistas tinham tido um resultado tão humilhante. Se tormarmos em conta que o PCF já conseguiu ser o partido mais votado e esteve em mais do que um governo, o facto é ainda mais espantoso. O velho partido nasceu em 1920, em Tours, de uma cisão da SFIO (Section Française de L´Internationale Ouvrière). Apoiou, com socialistas e radicais, o governo da Frente Popular de Leon Blum, em que pela primeira vez se introduziu o sistema de férias pagas. Teve um importante papel na resistência à ocupação nazi. Depois da Guerra, tornou-se o partido mais votado, voltando a fazer parte de sucessivos governos. Mas com o apoio à invasão da Hungria, em 1956, perdeu inúmeros militantes e muita da intelectualidade que o compunha, e que progressivamente se afastava da URSS. Não soube aproveitar o Maio de 1968, que apanhou o partido desprevenido. Nos anos 70, chefiado por George Marchais, rompe com a URSS e abraça o Eurocomunismo. Em 1981, voltará ao governo, com a vitória de Miterrand nas presidenciais, mas sairá em 84, em ruptura com os socialistas. O declínio do partido é bem visível, e eleição após eleição, os votos diminuem, até à irrelevante soma atingida agora.

Diga-se ainda que uma imprensa regional e local muito extensa, e o seu órgão oficial, l'Humanité, fundado por Jean Jaurés, teve e tem ainda uma importante massa de fieis leitores. O PCF ainda tem um número interessante de militantes, embora longe de outros tempos. A sua sede nacional é um edifício dos anos 60/70 concebido por Óscar Niemeyer. E ao lado do "nosso" PCP, até é um partido renovado e com alguma abertura, e menos complexos estalinistas. Mas a intelectualidade e os artistas desapareceram, e parte do eleitorado das "classes operárias" mudou o seu sentido de voto e a sua confiança para outros movimentos de esquerda radical ou para a extrema-direita, alimentando o crescimento contínuo da Frente Nacional. Assim, o outrora pujante PCF é apenas uma sombra do partido que era peça importante de vários governos. A desintegração, a não adaptação aos novos tempos, a queda do bloco comunista (ainda que já tivesse havido um importante afastamento) e o afastamento dos intelectuais foram duros golpes, cujos resultados estão bem expostos na votação quase escondida de Marie-Georges Buffet.

quarta-feira, maio 09, 2007

Sem qualquer Monumentalidade

«Com o calor a despertar, é altura de começar a pensar em aproveitar o lado doce da vida. É esse mesmo o apelo do renovado Monumental, no Saldanha, em Lisboa, que passou a chamar-se Centro Comercial Dolce Vita Monumental. Ganhou mais luz e cores, que o tornam mais amplo, numa obra orçada em 1,3 milhões de euros."



Pena que não tenham pensado no tal "lado bom da vida" quando construíram o neo-Monumental, antes de ser Dolce vita. Um monstro de vidro e aço em lugar do cineteatro Monumental, o autêntico, vulto grandioso do modernismo, derrubado em tempos de Abecassis, nos anos oitenta, apesar de todas as ilegalidades administrativas de que se revestiu (consta que aquando da decisão do Supremo Tribunal Administrativo de a proibir, a demolição já ia a meio). Um autêntico crime urbanístico na Praça do Sadanha, em pleno centro de Lisboa. Nem a "luz e cores" lhe dão mais encanto.






terça-feira, maio 08, 2007

A nossa Segolène

Pensando bem , também temos a nossa Segolène, mas numa família política diferente. Teresa Almeida Garrett (Lucas Pires), jurista, ex-eurodeputada pelo PSD, ex-candidata à câmara municipal de Viana do Castelo. As semelhanças são bem visíveis, e o tailleur, ou costureiro deve seguir o mesmo modelo.



segunda-feira, maio 07, 2007

Pas de nouvelles
Também em França as surpresas foram escassas. As sondagens acertaram, os discursos não trouxeram novidades, a Concorde serviu de palco a manifestações de júbilo, a Bastilha a cenas de protesto e as banlieues a desacatos.

Sarko, o homem que correu metade da sua vida para chegar a este cargo, lá conseguiu, prometendo "a mudança". Desconfio que o homem que ajudou a incendiar os subúrbios franceses vai desiludir muitos dos seus entusiásticos apoiantes, lá como cá. A ideia do mérito e do trabalho depende mais da sociedade do que das forças políticas que a regem; a emigração ilegal não é coisa que se resolva com a ligeireza que ele assume; a "constituição simplificada" dependerá de outros estados; e a sua ideia velada de um directório não é propriamente animadora aqui para as bandas lusas - embora duvide que qualquer outro líder gaulês não fizesse o mesmo. Depois, as ideias proteccionistas do senhor colidem com muito do propalado liberalismo que anuncia. Contradições. Há vinte anos, Chirac era o campeão do liberalismo em França. Depois de umas breves medidas, tornou-se o defensor dos valores do Gaullismo. A ver vamos se Sarko não retoma a política do General de Colombey, contrariamente ao que apregoa agora.


Segolène acabou por desiludir, depois de quebrar a força dos anacrónicos elefantes da ex-SFIO. Pensava-se que surigiria com novas ideias, novas caras, novos rumos, mas acabou por repetir velhas fórmulas, propôr coisas inacreditáveis, como o salário mínimo europeu, a determinar por cada um dos países. É uma autêntica senhora gaulesa, elegante mas autoritária, que facilmente "reste en colère" quando a contrariam; lembrou-me muito as minhas professoras francesas da primária (mas sem a elegância). Terá de rever alguns conceitos e algumas estratégias. Talvez não lhe faça pior estudar um pouco as ideias de Strauss Khan em lugar de recuperar velhos jargões caros à esquerda amodorrada. Até porque as legislativas estão à porta. Não sendo necessariamente mais importantes do que as presidenciais, tendo em conta o sistema presidencialista do Hexágono, são relevantes e complementarão o acto eleitoral de Domingo. A neo-UDF, da Bayrou, terá também importantes palavras a dizer.


Os dois principais candidatos, como já se disse, respresentaram uma lufada de ar fresco na geriátrica classe política francesa. Serão eles, e mais um punhado, a dominar o panorama no mais politizado país europeu. Se não houver razões de força maior ou grandes choques pelo meio, as eleições presidenciais terão com certeza os mesmos protagonistas. Basta que se conserve uma qualidade fundamental dos que se candidatam a este cargo: a persistência. Sem ela, jamais Miterrand ou Chirac lá teriam chegado.
No Jardim do Atlântico

O soba ganhou, com votação esmagadora (mas não impressionante). A vitimização, a quase irreverência dos adversários, o não querer separar-se da massa enviado do "contenente", as inaugurações e outros meios públicos ao dispôr foram os obreiros destas eleições, como o foram sempre. Espero é que não tenham servido para nada e que o espírito das alterações à lei das finanças regionais se mantenha irredutível. Se assim acontecer, o sucesso do Dr. Jardim só lhe terá trazido mais oportunidades de beber umas ponchas.

quinta-feira, maio 03, 2007

O Soba do Atlântico tem admiradores continentais

É inacreditável como ainda se consegue defender Alberto João Jardim. Não falo dos seus apaniguados da Madeira, sempre à espera das festas do todo-poderoso, dos subsídios inesgotáveis e do discurso "anti-colonialista". Aludo, sim, aos estranhos defensores cá do "contenente", indignados com a maneira como o Soba atlântico cá é tratado. Já percebi que as razões têm sobretudo a ver com diferenças entre o rosa e o laranja, tanto lhes se lhes dando que Jardim use e abuse dos fundos que recebe, controle a imprensa local, insulte tudo e todos conforme a quantidade de álcool ou condicione a campanha eleitoral a seu bel-prazer, saíndo de uma inauguração para um comício e vice-versa. Porquê? Porque "desenvolveu realmente a Madeira" (com aquela massa toda, quem é que faria pior?), combate o "colonialismo" e "é a única oposição visível ao poder socialista". Óptimo. Mas porque não se preocupam também com a oposição a Jardim? Fidelidade partidária oblige?


Apesar de tudo, Manuel Monteiro teve mais coragem do que todos os outros juntos, ao deslocar-se à ilha e acusar o cacique de "estalinista", a propósito da rábula de Manuel Bexiga. Exagerado, certamente, mas aos abusos jardinistas (que chamou "fascistas" ao mesmo Monteiro e a Louçã) responde-se à altura. Como os meios estão todos nas mãos de quem governa há trinta anos, as campanhas também serão desiguais, e os resultados eleitorais não poderão ser muito diferentes do normal. Tudo igual como sempre, na terra do último soba do território português.

quarta-feira, maio 02, 2007

Uns chegam e outros partem

Ambitious Outsiders é um novo blogue, mantido por um ilustre advogado do Porto, dedicado em especial à pop dos anos 80. Smiths e Morrissey, New Order, Peter Murphy, e outros, com algumas biografias e os seus videoclips mais carismáticos à mistura, são temas frequentes deste blog. Que não se debruça somente sobre o revivalismo musical: não faltam fotografias do Porto e de variadas paisagens europeias, séries dos anos 80 (como O Polvo, em reposição no Canal Memória), literatura de terror, agendas de concertos, etc. Uma ligação a seguir com assiduidade.

Para grande infelicidade minha e dos vimaranenses, o 4800 Guimarães parece estar a dar as últimas. As tronitruantes discussões entre os seus mentores, todos vimaranenses integrais, frequentadores assíduos do Toural e da Oliveira, e com estudos académicos de relevo, assim o determinaram, ou não estivéssemos em terras do nosso estouvado primeiro rei (que me perdoem Coimbra e Viseu). Deixamos de conhecer os projectos grandiosos da cidade-berço, a eterna rivalidade inter-Minho, os pensamentos profundos da intelectualidade vimaranense e as pormenorizadas descrições das Nicolinas e Gualterianas. Deixo aí o seu genial logótipo, como recordação dos tempos em que se discutia o pensamento e a condição da Vimaranensidade.

segunda-feira, abril 30, 2007

Afinal deu empate. Um resultado que não serve a ninguém. Temos campeonato até ao fim, mas não me parece que seja pelas melhores razões. Basta ver o número de tentos dos melhores marcadores, pior do que em 1989, quando Vata ficou com o galardão, e percebe-se porquê.

domingo, abril 29, 2007

Derbys




Estive ontem para ir ver o Boavista-Porto, mas o preço dos bilhetes (o mais baixo era de 30 €uros e ao lado da torcida portista) levou-me a dar meia volta. Com pena minha, reflecti depois. Os rapazes do Bessa puxaram dos galões e deram uma ensaboadela de futebol à malta de contumil, que julgava que as últimas jornadas seriam um passeio. Claro que os adversários ganharam fôlego com o precioso auxílio do juíz da partida, que se lembrou de inventar um penalty e expulsar o guardião do Lieschenstein (enquanto perdoava a alguns jogadores portistas um duche mais cedo). Mas em vão. A defesa axadrezada, comandada pelo enorme Ricardo Silva, a tudo resistiu. Pacheco mostrou quem manda no Bessa, cobrando a traição de Jesualdo no início da época.

Hoje temos o último grande clássico nacional do ano. Ver-se-á quem ganha, a experiência do Benfica ou a juventude do Sporting. Os lagartos têm por eles um conjunto animado pelos últimos resultados, menor desgaste físico e um treinador que bate aos pontos o nosso Santolas. Nós temos a dita experiência, jogadores com garra e talento que sabem bem como vencer o Sporting (só cá faltava Geovanni) e a tradição joga a nosso favor: somos a equipa em pior posição, logo a que tem mais hipóteses de ganhar. O duelo está marcado para mais logo. Puxe-se o lustro às armas e conserve-se o sangue frio, por cima de um turbilhão de emoções.

quinta-feira, abril 26, 2007

25 de Abril em 2007


Já tinha visto a evocação do 25 de Abril ser feita por neonazis e skinheads, com o pretexto da sua liberdade de expressão (oral e bélica). Ontem, no próprio dia, estando em Lisboa, resolvi passar na FNAC do Chiado. Chegado aos Grandes Armazéns deparei-me com imensa balbúrdia que subia a rua do Almada, sob a filmagem dos inúmeros telemóveis. Uma data de jovenzinhos, alguns com pronúncia espanhola, de cabelos pintados e de aspecto sebento, manifestava-se com impropérios contras a polícia de choque. Perguntei a um dos ditos indivíduos o que é que se passava. Resposta: "passa-se que a polícia anda a bater na malta de esquerda". Nem era necessário perguntar: as bandeiras rubro-negras com o "A" anarquista já diziam tudo. A "malta de esquerda", ainda que com cravos na mão, queria divertir-se a partir montras, ou, na melhor das hipóteses, a pintar tags nas mesmas. Azar o deles: existem regras no país e forças da autoridade que as fazem cumprir. Estranhamente, evocavam o 25 de Abril, como razão para todo aquele desfilar de andrajos e insultos folclóricos, que para eles é "liberdade". O mais provável é que nem nunca tivesse ouvido falar de Bakunine.
Claro que não fiquei lá muito tempo, até porque para esta malta qualquer pessoa que tome banho mais do que uma vez por semana é potencialmente fascista, e desci à FNAC, onde reinava uma placidez em tudo contrastante com a balbúrdia exterior, que permitia a pessoas como Pedro Mexia escolher tranquilamente livros na secção de política.
Pobre 25 de Abril, tão vilipendiado e invocado pelas piores razões! Merecia melhor sorte do que a de ser usado pelos extremistas locais.

domingo, abril 22, 2007

Ideias ou violência?

Com o arsenal de armas e propaganda de instigação ao ódio na posse dos skinheads detidos no outro dia, ainda me pergunto porque razão algumas pessoas falam de censura, ou dizem que ideologias destas se combatem com ideias e sólida argumentação. Concordo perfeitamente com esta última premissa, mas convém lembrar que os detentores de semelhante material não estão interessados em discutir ou debater ideias, mas tão somente em bater e pregar o ódio. Nem sequer se pode falar de fascismo: o que aqui há é barbarismo do mais puro, ligado a estranhas mitologias pagãs.
Por outro lado, também não concordo que haja um aproveitamente da vitória de Salazar no concurso da RTP, ou um ressurgir do saudosismo do Estado Novo. É que se a pandilha de Mário Machado existisse e tomasse as mesmas atitudes há quarenta anos, era certo que o "Botas"seria bem menos brando do que as presentes autoridades e poria toda esta malta em Caxias ou em Peniche.
Eduardo Lourenço, hoje no Público

"Os nossos "oxfordianos" de serviço podem pensar que essa velha França está "fora da história"e dar-lhe conselhos como os amigos de Job..."

Na mouche. Directamente dirigido para o nihilista que escreve na última página do mesmo jornal (previsivelmente com a ressaca etílica habitual), ou para o ex-moísta que semanalmente no Expresso nos recorda a importância de usar tweed em Oxford, e que isso está directamente ligado à menor intervenção do Estado.
CDS volta a ser PP

Noutras eleições, as directas do CDS-PP, Portas lá reganhou o partido, mostrando que um golpe de estado institucional pode dar resultado se se usarem as palavras e a imagem certas. Duvido é que o partido tenha muitos ganhos com esta alteração de chefias. Ainda hão de clamar de joelhos por Ribeiro e Castro. Até lá, entretenham-se da melhor maneira possível.

terça-feira, abril 17, 2007

O hexágono vai a votos
A mais importante eleição em França desde 1981 (e sem contar com o referendo de Maastricht) está aí. A 22 de Abril, os eleitores decidirão qual o próximo presidente da III República Francesa.
A expectativa no combate Sarko-Sego dura há já mais de um ano. A emoção aumentou com a intrusão de Bayrou e com nova (e espero que modesta) ascensão do eterno Le Pen.
Uma coisa é certa: os dois principais candidatos são uma lufada de ar fresco entre a gasta política francesa, onde sobressaiem gaullistas anacrónicos e provincianos, saudosistas xenófobos, socialistas pré-1989 e bolcheviques orfãos de Georges Marchais. Representando as ideias do liberalismo, da abertura ao mundo sem tentações soberanistas ou neo-colonialistas (nesta última tenho menos certezas), de uma social-democracia acompanhando os novos tempos, da necessidade de modernizar a burocracia, o bolorento sistema administrativo francês e os vícios de toda uma classe que sem o saber, perdeu as suas referências, Sarkozy e Royal chegaram a esta corrida pela vontade esmagadora das bases dos seus partidos, o que mostra bem a vontade de mudança no Hexágono.
Convém no entanto que não se caia em exageros e falsas expectativas. Para dizer a verdade, desconfio muitíssimo de Sarkozy e da sua política "musculada". As tentativas de comparação feitas pelos iludidos neoliberais com Thatcher deixam antever o pior; as práticas do ministério que dirige também não prenunciam nada de bom; antes mostram um clima de intimidação, de alguém que "só pensa no seu bairro", como escreveu há tempos Leonor Baldaque no Público.
Segoléne parecia um vendaval, quando era candidata a candidata, derrubando todos os "elefantes" do PSF, com a sua imagem de sofisticação e elegância, e o seu programa "arejado". O problema é que as suas ideias centristas e a sua inspiração "blairista" tem caído desde que se reaproximou da esquerda, para evitar a fuga de votos naquela direcção.
Bayrou, o criador de cavalos que escreveu uma biografia de Henrique IV, não é nehum novato nestas lides. Representante da facção centrista da UDF, católico praticante e liberal moderado, tem tido números interessantes nas sondagens. A questão é a de saber se não transporta consigo os vícios da velha classe política francesa.
Le Pen é o que se sabe: o ex- oficial da guerra da Argélia e antigo membro do partido poujadista continua a apelar à imigração zero, ao restabelecimento da pena de morte e a imaginar-se o legítimo sucessor de Pétain. Conseguiu fazer crescer a sua FN em número de votos (mas não em lugares no parlamento), roubando eleitores ao outrora pujante PCF e a alguma direita desencnatada. E não dá mostras de parar. Há cinco anos conseguiu, para surpresa geral, ir à segunda volta.
Resta o cenário múltiplo do costume: o tradicionalista de Villiers, a candidata comunista, os dois ou três totsquistas da praxe, os ecologistas, o candidato do partido da pesca e da caça, José Bové, e o que mais vier. Em França há sempre candidatos para todos os gostos.
Sarkozy deve passar ao segundo turno. Segolène é a provável adversária, se Bayrou ou Le Pen (cruzes, credo) não surpreenderem. Achava uma certa piada ver a o centrista e a "mademoiselle Hollande" passarem à segunda volta, para calar algumas mentes menos pluralistas. E também para mostrar que a França necessita de reformas, sim, mas não é à bastonada (neste caso, de "cassetete"), expulsando tudo o que não fôr europeu ou adoptando uma política externa à inglesa, sem qualquer autonomia ou vontade perante os EUA.
Zero

Depois do Espanhol, o Braga: novo nulo no marcador. Zero golos, zero de futebol, zero na esperança. Agora até perdemos o segundo lugar. Não é que a diferença seja por aí além, porque mesmo com uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões, o mais provável é passarmos. Mas o terceiro significa ficarmos abaixo das outras equipas, a que por deferência chamam "grandes", e a falência de uma época que há um mês prometia dar-nos algumas alegrias. Mas a má gestão do plantel, tanto com as trocas de Janeiro como com a utilização desiquilibrada dos jogadores, deixou a equipa exaurida, resultados medíocres, e nós que aguentemos. Culpa de Fernando Santos, evidentemente, e de alguns atletas, mas também de quem permitiu a sangria de jogadores em Janeiro e a sua incorrecta substituição. A falta de Luisão é outra coisa que se faz sentir. Esperemos que nos momentos decisivos ele volte, com a sua autoridade, a sua força e a sua convicção na vitória.
Já agora, e a propósito de aquisições de jogadores de duvidosa lealdade, ouvi a seguinte observação no estádio: "Aquele não é o Derlei. É o irmão gêmeo dele, que trabalhava num bar em Porto de Galinhas e é fã do Lionel Ritchie".

segunda-feira, abril 16, 2007

Um fim de semana em Lisboa

Ah, um fim de semana em Lisboa, com um sol magnífico, livre de grandes compromissos . Depois da desilusão Benfica, deu para tudo: dar uma volta pelo Bairro Alto à noite, passear pela velha Lisboa de dia, folhear biblio-curiosidades no Mercado da Ribeira (lado a lado com um bailarico popular, com música ao vivo e tudo), jantares com parentes que raramente vemos, leituras tranquilas, descobrir surpresas nas Avenidas Novas...
A propósito, alguém sabe onde fica o antigo Beco do Monete, referido por Eça n ´A Capital - hoje chamado Travessa da Madalena, meio escondido atrás de um arco? É sempre grato encontrar estas ruelas perdidas, que apenas a literatura relembra.

sexta-feira, abril 13, 2007

Histeria

José Sócrates falou e a crítica portuguesa desabou: "sem carácter", "enganou-nos", ""é o fim da linha", etc. Eu vi uma entrevista, que a certa altura era mais chata como tudo, em que Sócrates respondeu ao que lhe era pedido, e francamente, não ouvi nada de mais. Em relação ao tema principal, o curso tirado na Independente, não há grandes coisas a dizer. Surpreendentemente, ouviram-se os maiores disparates nas crónicas do dia seguinte. Helena Matos , no Público, chegou mesmo a comparar o caso à queda de Salazar, que lhe tiraria a presidência do Conselho. Em minoria , fora da histeria instalada, ficaram opiniões sensatas e normais, como as de Francisco José Viegas ou Pedro Mexia, também no Público. Nem António Barreto escapou à tentação da "indignação".
Relevante será a existência da própria universidade, as prováveis pressões sobre orgãos de comunicação social e outros assuntos da entrevista, como o dossiê da Ota. Agora saber se o tipo que está à frente do governo deve ser tratado por engenheiro ou não, e a gravidade da alteração seu grau académico? Por amor de Deus! Isto já parece o Clintongate, aquela vergonhosa perseguição protagonizada pelo sinistro Kenneth Starr ao ex-presidente americano. Por menos do que isto, Paulo Portas disse que era "gente mal formada" que o perseguia no caso da Moderna. Não haverá nada de mais interessante para debater, ou do que gostam mesmo é do escândalo a todo o custo e de coscuvilhices?
Causas da eliminação

O Benfica perdeu a oportunidade de se guindar às meias-finais da Taça UEFA porque teve dois erros defensivos incríveis em Barcelona; e por causa do azar, antijogo do adversário e estupidez ou inacção de alguns dos seus jogadores. Apenas e só.

quarta-feira, abril 11, 2007

Regresso

Regresso a A Ágora, depois de uma Páscoa de tempo incerto, passada como de costume no interior norte, polvilhada com a gastronomia da época. Pelo meio, algumas voltas pela região do sul do Douro, entre terras coevas, e as preocupações com um Benfica fisicamente de rastos, com uma derrota que chegou a roçar a humilhação em Monjuic e um empate comprometedor em Aveiro (e como se não bastasse, ainda temos a imprensa azul a focar erros a nosso favor e a omitir os mais gravosos, como o golo mal anulado a Nuno Gomes).

Falei no último post do programa de António Barreto. Esqueci-me de referir a evolução do turismo, especialmente o balnear. As estruturas que foram feitas para suportar esse novo e rentável ramo de serviços são, como já se sabia, avassaladoras, desproporcionadas, caóticas e esteticamente horrorosas. É ver os blocos de apartamentos a cobrir as falésias algarvias, o caos urbanístico na maioria das localidaes à beira-mar, e a consequente degradação da paisagem e da qualidade de vida. Ainda há dias estive a ler uma reportagem, já de há anos, sobre Portimão no início do século XX e as comparações actuais: os crimes que infligiram à cidade do Arade são de tal forma indiscritíveis que só dá para perguntar como raio é que as populações continuam a votar nestes autarcas, ou como é que os responsáveis pelo turismo algavio não foram alvo de processos por gestão danosa. Há provavelmente conivências que o permitiram, silêncios interessados ou desinteressados, conformismos e ignorância. Aquela ideia de que construír prédios em barda era "moderno" destruíu grande parte das cidades e do país, e não só no litoral. Veja-se a evolução de Vila Real, por exemplo, com mamarrachos de todas as cores e com defeitos de construção, a tapar o esplendoroso vale do Corgo, e fica-se com uma ideia do que por lá passou.
No último programa de Barreto focou-se exactamente o desordenamento urbano e as aberações que apareceram nos últimos trinta anos. Muito embora já praticamente não haja barracas, e muitas casas clandestinas tenham sido demolidas, a imagem dos nossos subúrbios, dominados por bairros sociais e torres incaracterísticas, é absolutamente deprimente. É impossível ser-se feliz em sítios assim. O consequente esvaziamente das cidades provoca as filas caóticas nas estradas, a perda inútil de tempo, o stress, as dificuldades familiares, etc. Os transportes públicos não são maus, mas são insuficientes. E as áreas urbanas desumanizam-se constantemente.
É certo que nem tudo tem esses tons de pesadelo. A linha do Estoril tem imagens agradáveis, e quem vive e trabalha perto fica alheio a esses problemas. Matosinhos é uma cidade com vida própria, com um porto importante, passada a época das pescas e da indústria alimentar. E quem pode vai viver para cidades médias ou pequenas, com melhor qualidade de vida. Évora, Aveiro ou Guimarães são urbes que resistiram à voragem do betão e onde é muito mais gratificante morar que nos círculos que rodeiam Porto e Lisboa (onde os subúrbios são particularmente deprimentes). Apostassem as empresas e os organismos públicos nesses espaços, bem como no centro das cidades, e talvez se revertesse um pouco a situação. Infelizmente, as coias ainda estão num ponto embrionário. Quem sabe se daqui a trinta anos, quando olharmos para trás, poderemos afirmar que também em matéria de urbanismo e de qualidade vida as coisas estarão substancialmente melhores.