segunda-feira, março 26, 2007

Parabéns II




D. Manuel Clemente é enfim, desde ontem, Bispo do Porto. A diocese, a maior do país, e uma das mais antigas, extremamente diversificada entre uma densa zona urbana e uma vasta área mais rural, algo amodorrada nos últimos anos, fica certamente a ganhar com esta entronização. Até Marcelo Rebelo de Sousa exprimiu uma certa invejazinha, quando disse que "faria mais falta como futuro Arcebispo de Lisboa". É tarde, Professor. D. Manuel, um dos mais cultos e inteligentes membros do clero português, está agora à frente da diocese do Porto e cumprirá seguramente a sua missão com nota positiva.

domingo, março 25, 2007

Parabéns






Só achei irónico o cartaz a anunciar "Cinquenta anos de Roma a Berlim". É que me lembrou logo o Eixo, outra ideia de federar a Europa de forma um pouco mais brusca...e não muito baseada na vontade dos estados.

Mas quanto ao futuro desta bela ideia surgida no pós-guerra, teremos de falar mais seriamente.
Quatro secos
Quem viu a Bélgica ontem não imaginará decerto que já foram de um nível parecido com o que a Selecção Nacional tem hoje, como Scolari recordou. Scifo, Ceulemans, Wilmots levaram a equipa daquela planície dividida entre valões e flamengos a lugares muito interessantes nas várias competições internacionais em que entraram, e o mesmo se aplicou aos respectivos clubes (para infelicidade do Benfica, em 1983). Quanto a guarda-redes, refiram-se Pfaff e o grande Preud ´Homme e ficamos conversados.
Ontem, no entanto, tirando o gigante Van Buyten, vimos uma equipa sem grande nível técnico a levar um baile da rapaziada lusa. Fintas, trivelas, bombas, houve de tudo para golear os pobres belgas, que se contentaram com quatro secos, devendo tão lisongeiro resultado ao seu palrador e inconveniente guarda-redes. Não há dúvida, a Selecção reencontrou-se com as boas exibições, e isso deve-se ao estado do actual futebol belga. Para mais, Quaresma marcou o seu primeiro golo (e que golo!); o próximo a estrear-se em redes adversárias éTiago.

sábado, março 24, 2007

O pensamento de um ateu convicto



Para quem acha que o fanatismo advém apenas das religiões, veja-se o que diz um comentador, que assina "Armando Quintas", na caixa de comentários de um post sobre o creaccionismo no blog De Rerum Natura:

"fanaticos sao os que vivem em funçao da religiao e todas as pessoas religiosas deste mundo são fanaticos por natureza, em maior ou menor grau..É obrigação das pessoas mentalmente sãs combater a religiao seja ela qual for e ajudar a destruir-las!"

Ao ler estas breves linhas é impossível deixar de se sentir um arrepio. O que ali está escrito é precisamente a representação de um dos maiores fanatismos que a humanidade já conheceu: o fanatismo ateu e materialista, cujo objectivo é "libertar os homens do obscurantismo religioso". Já houve inúmeras tentativas nesse sentido, desde o Culto da Razão Pura, até aos regimes nazis, soviéticos e maoístas, responsáveis pelos maiores massacres da história da Humanidade, pelo totalitarismo e pela eugenia, e em que a Albânia, o estado que se proclamou oficialmente ateu, derivou para um atraso e um isolamento sem paralelo. Centenas de milhões de mortos, como nunca houve em todos os séculos anteriores e,is no que deu a "sanidade" ateia: numa fila de horrores que alguns insistem em perpetuar, em nome da sua própria "razão". Como se a razão não fosse complementar à Fé.
A Fé despojada de Razão cai no fanatismo e na prepotência, como é tão visível no terrorismo islâmico de hoje. Mas a Razão Pura, que se proclama inimiga das religiões, conduz às piores acções que a mente humana já imaginou. No seu absolutismo, pretende eliminar a Fé e os crentes, substituindo-os por um vazio sem valores nem verdades, onde qualquer acto, por mais bárbaro que seja, será sempre "racionalmente" justificado.

terça-feira, março 20, 2007

A moderna direita portuguesa, ou o carácter original do PSD


Toda esta discussão sobre a "verdadeira oposição" e a criação de um partido "mesmo de direita" em Portugal já tem uns bons anos, e no entanto nada se chegou a fazer em sentido contrário.
As oposições andam sempre às aranhas quando um governo tem uma maioria confortável e ainda não começou a apodrecer, como aconteceu com Cavaco e Guterres, e acontece agora com Sócrates. Há que resistir, inovar e esperar pelos efeitos do tempo, nada mais.

Já a criação da tal força de direita é um assunto sempre discutido mas ao qual nunca se chega a uma ideia conclusiva. Os dois partidos maiores considerados, PSD e CDS, continuam lá, mesmo que o segundo tenha um futuro incerto, e mais do que as ideias e os projectos, abundam os carreirismos e as punhaladas. Aliás, só o movimento do Caldas é que se pode considerar realmente de direita; o partido laranja reúne sociais-democratas, liberais, nacional-populistas, democratas-cristãos, conservadores, regionalistas, e tudo o que possa aparecer à direita (ou em alternativa ) ao PS e que o CDS não tenha capacidade de satisfazer.

O PSD é mesmo um partido único, e isso vê-se logo pelo nome que ostenta e pelos grupos políticos a que pertenceu e pertence no Parlamento Europeu. Os mais parecidos que encontro - não por acaso também em países latinos - será a UDF francesa, sempre um aliado por necessidade dos gaullistas e um contrapeso na política francesa, como se vê pela ascensão de François Bayrou nas sondagens para as presidenciais, e a antiga UCD espanhola.


Há aliás outros pontos de convergência entre os dois partidos ibéricos. A UCD era um partido formado na transicion da Espanha para a democracia pelo primeiro-ministro de então, Adolfo Suarez, que agrupava centristas, sociais-democratas, democratas-cristãos, liberais ou simplesmente tecnocratas vindos do franquismo. Ganhou as eleições gerais de 1977 e 1979, mas as enormes divergências internas, apenas cimentadas pela necessidade de dar à Espanha uma nova constituição, levaram a que Suarez saísse formando o novo CDS; outras formações integraram a Alianza Popular de Fraga Iribarne, mais à direita, posteriormente transformada em Partido Popular. A UCD teve menos de 7% dos votos em 1982, quando Felipe González chegou ao poder, e acabou por se extinguir.

O problema do PSD é que, longe de mudar, conseguiu o poder, em coligação ou sozinho, por mais de uma década. Os anos dourados do cavaquismo deixaram-no acomodado ao poder estatal. Quando caiu dele abaixo, ficou à deriva, viu os seus líderes mudarem consoante a brisa, e só voltou ao poder com a saída de Gueterres, e mesmo assim em coligação com o CDS-PP.

O PSD é um equívoco em si mesmo. Já deveria ter mudado há muito, abandonado as suas cores e as suas setas, renunciado à social-democracia em favor do PS. Ou acabado, pura e simplesmente, como a UCD. Certa vez li numa opinião de um jornal que se isso acontecesse, a ala esquerda seria engolida pelo PS e a direita engoliria o CDS. Melhor seria que a ala que se diz de centro-esquerda fosse para o PS, os conservadores e democratas-cristãos se fundissem no CDS, permitindo a criação de um partido renovado nesse sector, e os liberais se juntassem noutro movimento, que poderia ser a Nova Democracia, sem Monteiro à cabeça, bem entendido.
O futuro dirá se acontece isso ou se surge o tal "grande partido de direita", à imagem do PP espanhol. Ou se fica tudo na mesma, e o PSD volta um dia ao poder, com ou sem o CDS (PP), quando Sócrates tiver enfim esgotado a sua agenda de "reformas".
(Já agora, aconselho estes dois posts do Combustões. Não tenho a suposta admiração pelas persongens enunciadas no segundo texto, mas parece-me que não anda longe do que teclei aí em cima).

sexta-feira, março 16, 2007

Hugh Laurie através dos tempos

Actualmente, o actor Hugh Laurie tem alcançado enorme sucesso como protagonista da série Dr. House.


Mas para os mais esquecidos, Laurie tornou-se conhecido antes de mais pelos seus papeis nas séries de humor britânicas, como o celebérrimo Black Adder, que nos deu igualmente a conhecer o seu criador, Rowan Atkinson, e Miranda Richardson. Laurie fazia o papel de Príncipe Regente na 3ª série, passada no Séc. XVIII, e do presunçoso e cretino Tenente George St. Barleigh, na 4ª Série, nas trincheiras da Grande Guerra.












Ainda se lembram dele, em tão diferentes registos?

quinta-feira, março 15, 2007

Brava Dança dos Heróis

 

Saúde-se o voluntarismo do filme Brava Dança, documentário sobre a carreira dos Heróis do Mar. Não por ser uma obra-prima, ter uma fotografia fabulosa ou um ritmo de narrativa esplendoroso. Mas o simples facto de ser um dos primeiras fitas do gênero produzidas em Portugal (a par de Lisboetas ou Diários da Bósnia) já é de si uma notícia a registar. Além do mais, debruça-se sobre uma época particularmente rica no panorama musical português: o boom do Rock nacional, a recuperação da cantiga popular, o renascer do interesse pelo Fado, com as baladas e as canções de intervenção a deixarem de ser gênero único, sem se eclipsarem. É interessante ver as origens do grupo, o quase experimentalismo punk dos efémeros Faíscas (um sub-punk absolutamente inenarrável e incompreensível) e Corpo Diplomático e as suas guitarras distorcidas, com o ubíquo Ayres de Magalhães; a vontade de fazer um grupo que tocasse música portuguesa; as cinco personalidades distintas dos seus membros, a começar pelas influências musicais; o espírito de provocação e rebeldia que caracterizou a banda e lhe trouxe alguns dissabores no início.

A pose e a estética marcial e nacionalista criaram reacções chocadas que se verificaram obstáculos difíceis de ultrapassar, mas deram aos Heróis a fama que eles desejavam, embora de uma forma que sem dúvida não esperariam. Os fatos de navegadores, as armas, as letras (ainda assim amaciadas) de carácter guerreiro e nacionalista, a Cruz de Cristo, tudo isso criou-lhes o anátema original de "fascistas" a "reaccionários", só ultrapassado com sucessos comerciais como Amor ou Paixão. Seguiu-se o habitual disco mal-recebido-pelo-público, Mãe, mais alguns êxitos pop e a renovação de energias, com Macau. Já na fase final, mais desinspirada e com claro ar de "vamos é acabar com isto", ainda editaram um disco homónimo, antes de se separarem definitivamente. O vocalista Rui Pregal da Cunha e Pedro Paulo Gonçalves constituíram os LX-90, com um estilo mais rocker, antes de se dedicarem a outros projectos fora da música; enquanto Pedro Ayres de Magalhães já tinha os seus Madredeus (para os quais recuperou depois Carlos Maria Trindade), cuja história e posterior sucesso internacional são sobejamente conhecidos.

O documentário abrange todos esses momentos, ouve inúmeros testemunhos da época e mostra imagens de videoclips, concertos digressões. Fica-se com uma ideia da movida lisboeta dos anos 80 (em que ninguém dormia, segundo Pregal da Cunha), da vida na "estrada", das dificuldades económicas para manter uma banda assim e das influências musicais absorvidas ao longo dos anos. Um filme que apesar de algumas deficiências e lacunas, vale o preço do bilhete, e que é uma justa homenagem a tão marcante banda e a tão agitada década.

PS: era bom que a Blitz não cometesse erros de palmatória como este. Primeira colectânea dos Heróis do Mar em 2007? Houve pelo menos outras duas, uma em dois discos, ainda nos anos 80, e outra, intitulada Paixão, em 2001, que é a que eu tenho. Enorme falta de atenção à discografia básica por parte de uma revista muito "profissionalizada" mas demasiado descaracterizada, e que comete erros básicos deste tipo.

domingo, março 11, 2007

Metros


Para quem se interessa por metropolitanos, mais subterrâneos ou superficiais, ou deseja encontrar imagens dos comboios urabnos que existem em quase todas as grandes cidades, este sítio é um achado. Basta saber usar um mapa. E ainda tem links para buscas mais aprofundadas. Sobre este assunto não conheço nada melhor. Não sei se há grandes indefectíveis dos metros, mas se os houver, têm aqui material de sobra.
"Moderação"

A nova Lei que despenaliza/liberaliza o aborto foi aprovada na especialidade. Como se previa, não haverá aconselhamento obrigatório. as mulheres poderão abortar sem qualquer tentativa de disuasão, o que torna o estado neutro em relação ao aborto até às dez semanas. Parece que é uma "lei moderada".

A nova lei do tabaco promete criar ainda mais restrições aos fumadores. Agora será proibido fumar em bares restaurantes e discotecas com menos de cem metros quadrados. O presidente de uma tal ConfederaçãoPortuguesa de Prevenção ao Tabagismo (prevenção e não proibição, estranhamente) considerou a proposta "equilibrada" e que "chegou a recear que a legislação deixasse ao critério dos proprietários dos restaurantes, bares e discotecas a decisão de proibir o fumo". Será que também conhece o significado da palavra proprietário?

São dois belos exemplos de normas "moderadas"e equilibradas" Nem quero imaginar se não fossem.
Cartas de Iwo Jima, The Good German, e Brava Dança dos Herois são três filmes que quero ver dê por onde der. Para isso, só tenho dez dias e pouca disponibilidade. Mas apesar disso, e da crítica ser mediana face ao segundo e desconfiada para com o terceiro, não não vou estar à espera do DVD. Há objectivos obrigatórios a que não se pode olhar a meios para os concretizar.

quinta-feira, março 08, 2007

8 De Março

Associando-me às comemorações do Dia Mundial da Mulher, que o Corta-Fitas publicita incessantemente, deixo também o meu quinhão contributivo. É modesto, mas é o que se pode arranjar.
É claro que para uma homenagem mais justa e completa, há que ir a lugares geridos por profissionais, onde Deus as cria.
Meio século de televisão

Parabéns à RTP. Cinquenta anos é uma bela idade, e, com mais ou menos percalços, sempre é uma instituição a que todos nos habituámos. As operadoras privadas tiraram-lhe o monopólio, mas pelo que se vê, a televisão estatal está actualmente uns furos acima no que toca à programação.

(Refira-se já agora que a televisão só iniciou as suas emissões na região de Lisboa. No Porto só uns meses depois é que a inauguraram. Se não me engano, tenho a gravação desses momentos iniciais, em que o meu avô paterno tomou parte)

terça-feira, março 06, 2007

Portas versão 5.0

O regresso de Paulo Portas à ribalta político-partidária, depois de dois anos precisos a picar o ponto na AR, escrever crónicas políticas no SOL mascaradas de críticas de cinema e emanar algumas opiniões na SIC- Notícias, é a coisa menos inesperada que vimos desde que Cavaco ganhou as presidenciais. A pacata"travessia do deserto", sem grandes ondas, começou com a derrota em Fevereiro de 2005, e todos pensaram que Portas iria dedicar-se a uma carreira mais internacionalizada, aproveitando o que granjeou com o seu antigo cargo governamental. Falou-se mesmo de um centro de estudos para ideologizar a nova direita portuguesa, com subsídios americanos. Tudo isso ficou no papel ou não passou de uma abstracção. A Atlântico encarregou-se de começar o combate das ideias (não, não estou a defender que seja uma revista "portista") e o antigo líder do CDS começou a preparar o seu regresso à cúpula partidária a partir da surpresa que constituiu a derrota do seu delfim Telmo Correia.
Nos últimos dois anos assistiu-se a direcção de Ribeiro e Castro mais voltada para a democracia cristã e para o CDS original, pouco hábil e com alguns passos desastrados, esvaziando a direita e deixando-a alienar-se por Sócrates. Mas o eurodeputado teve igualmente medidas importantes, como a revitalização das estruturas regionais e locais do partido, postas à parte pelas direcções anteriores. O seu trabalho foi torpedeado pelos "portistas" que constituíam a quase totalidade do grupo parlamentar, como se viu com o exemplo cabal de Nuno Melo, mesmo depois de Ribeiro e Castro ter ganho novo congresso. Este tipo de atitudes tem normalmente vários nomes, como deslealdade, conspiração, ou corrosão interna. Mas Portas já esteve envolvido em situações semelhantes, como os truques recíprocos com Manuel Monteiro. Agora, porém, o caso é mais descarado e já não tem o efeito surpresa de há alguns anos.

Paulo Portas é sem dúvida o mais hábil, inteligente e dinâmico líder que a direita portuguesa conheceu nos últimos vinte anos. E também o mais cínico e mefistofélico (Marcelo idem, mas não sei se lhe deva colar a palvara "direita"). Simplesmente, a onda de re-renovação que trouxe nos anos noventa já se dissipou em grande parte. A posse referência jovem-populista-estadista esgotou-se, pelo que aposta algora numa vertente mais liberal. Um pouco tarde, na minha visão. A aura de invencibilidade interna já não é a mesma; o regresso ao antigo cargo traz sempre anticorpos e expectativas desconfiadas, e agora, depois da guerrilha a Ribeiro e Castro, mais do que nunca. é certo que no CDS já houve um regresso triunfal, o de Freitas do Amaral em 1988, com a redução a "partido do táxi", mas não tinha na altura oposição alguma e as melhorias foram nulas. Agora as coisas são diferentes. Portas vai ter mais dificuldade do que julga ganhar a liderança do partido, e mais ainda a guindá-lo de novo a partido de poder, ou quando muito a guia da direita portuguesa. Muitas surpresas estão-lhe reservadas, e ele, atrás daquela postura calmamente messiânica, provavelmente sabe disso.

quinta-feira, março 01, 2007

Manuel Galrinho Bento
1948 - 2007


segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Oscares

Está a começar a sessão de Oscares deste ano. Não tendo podido ir ao cinema tanto quanto gostaria, também não tenho enormíssimas preferências. Ainda assim, gostava que a tradição se quebrasse esta ano e que Scorcese ganhasse finalmente a sua estatueta. Não vi The Departed, mas toda a sua obra já o justificava, e de que maneira. Pena para Eastwood, mas neste novo duelo ao pôr-do-sol com Marty, espero que ele perca. Frears e Iñarritu têm as suas hipóteses, ao contrário de Geengrass, e noutras circunstâncias até gostava de ver o prémio ir parar às mãos do realizador de Ligações Perigosas. Se Scorcese não ganhar, definitivamente estará criada uma autêntica maldição (ou má vontade) sobre este realizador.

Outro que sofre do mesmo mal é O´Toole, mas não me parece que chegue lá. Não o premiaram em Lawrence da Arábia e agora afadigam-se a tentar compensá-lo. Mas há coisas que se não são feitas na altura devida, mais vale que se fique quieto e calado. Mas infelizmente a Academia não é dada a indiscrições.
Nesta categoria deve acontecer o mesmo que no ano passado, ou seja, o Oscar irá para um actor a quem todos reconhecem enorme talento, que normalmente aparece em filmes menos comerciais, sem grande sex-apeal, e que quando interpreta uma personagem real é que se lembram de o premiar. O caso de Forest Withaker (escandaloso ser nomeada pela primeira vez aos 45 anos) é em tudo igual ao de Philip Seymour Hoffman, e não custa a crer que o resultado final seja o mesmo.
Will Smith e Di Caprio terão de esperar pela sua terceira nomeação. Ryan Gosling não conheço, nem o filme que protagoniza. A nomeação será um bom veículo ou continuará no anonimato?

Na categoria feminina, o nome de Helen Mirren não deverá espantar ninguém, mas contra Her Majesty não há nada a objectar. A ficar navios ficarão uma vez mais Kate Winslet e Judy Dench, que já mereciam qualquer coisinha. ao menos veremos Penélope Cruz lá no meio; quanto a Merryl Streep já deve estar farta de comparecer na cerimónia, com nomeações ano-sim, ano-não.

Secundários? Babel terá uma palavra a dizer. Mas reparo que Cate Blanchett, co-protagonista do mundi-pudim de Iñarritu, surge como nomeada por Notes of a Scandal. O filme ainda não chegou às salas, mas tenho a certeza de que ela merece novo galardão. Só mesmo por se tratar de Blanchett, que é uma razão mais que suficiente. quem sabe se para o ano não ganha a estátua principal, se Hollywood voltara premiar uma interpretação de uma Rainha inglesa.
Entre os senhores secundários, a luta terá a sua piada, mas não faço prognósticos. Talvez entre Alan Arkin (do excelente Little Miss Sunshine) e o renovado Eddie Murphy.

Prémios técnicos à parte, resta-me esperar pelo melhor filme. Que deverá ser Babel, já que a Academia gosta de filmes do gênero, sobretudo quando conseguem ser tão (descarademente) "globalizantes", e para mais agora, que os realizadores mexicanos estão tão na moda.
Vamos lá ver até que hora aguento. Mas sinceramente não espero grandes surpresas. Mas quem sabe, na edição passada aquilo acabou com grandes emoção. E esta noite?

sábado, fevereiro 24, 2007

As (in)consequências da visita de Isabel II a Portugal



Como se assinalou nalguns jornais e blogues, a Rainha Isabel II visitou Portugal em Fevereiro de 1957, há cinquenta anos, durante quatro dias. Não era a primeira vez que um monarca britânico vinha ao país; já Eduardo VII o fizera, em 1902. De qualquer modo, a visita teve imenso impacto, e serviu para cimentar a velha aliança Luso-Britânica e para retribuir a visita de Craveiro Lopes, em 1955.

Não foram poupados esforços nem custos. Exortou-se a população a vir para a rua aclamar a Soberana e a comunicação social a comparecer em peso. Usaram-se coches e um bergantim do Séc. XVIII para transportar a Rainha do iate Britannia, onde chegou, até ao Cais das Colunas, onde Craveiro Lopes e Salazar já a esperavam, com pompa e circunstância.
A família real ficou instalada no palácio de Queluz. Relevantes foram o banquete na Ajuda, com centenas de convidados, o almoço de honra na câmara de Lisboa (onde se retomaram hábitos esquecidos, como o do arauto vestido com as cores da edilidade, ou a guarda de honra prestada por pajens com o pendão dos corvos de S. Vicente) e as visitas ao Bairro da Ajuda (o momento "instituições sociais", com claras instruções para não ir a hospitais nem a sítios com "sick people"), aos Jerónimos e ao Museu dos Coches. Houve ainda uma passeio até à Nazaré (aqui,ao que parece, a pedido da própria Rainha), a Alcobaça, onde os estudantes de Coimbra fizeram uma passadeira com as suas capas, e à Batalha, recordando a ajuda inglesa na utilização da táctica do quadrado em Aljubarrota. No regresso, oportunidade também para ver os campinos e touros do Ribatejo.
Para terminar, houve ainda um banquete no Britannia, em honra do presidente português, com fogo-de-artifício sobe o Tejo. A soberana partiu no dia seguinte de avião, com uma paragem no Porto para receber a "colónia britânica" na Bolsa e na Feitoria Inglesa.

A velha aliança solidificou-se com esta viagem, sem qualquer dúvida. Mas as esperanças do governo português eram outras, e foram compreendidas pela União Indiana. Um mês após a visita, o jornal do Partido do Congresso, de Nehru, publicava um editorial com alusões à "pouca inteligência da Rainha" e às "carnificinas dos portugueses em Goa". O líder indiano ainda pediu desculpas, mas o episódio demonstrou quão acesas estavam as relações dos indianos com Portugal. Quatro anos depois, como se sabe, os territórios portugueses no sub-continente eram ocupados e começavam as insurreições em África.

Portugal pretendia obter o apoio britânico na manutenção a toda a força do Ultramar. Mas a Grã-Bretanha estava a mudar rapidamente. A doutrina de Churchill, que pretendia manter o Império Britânico, tinha sido guardada. Em 1956, a expedição ao Suez, em conjunto com a França e Israel, para reverter a nacionalização do canal por Nasser, redundara num fracasso. A URSS ameaçaram intervir usando a sua força nuclear,e os Estados Unidos pronunciaram-se igualmente contra a intervenção no Egipto. O episódio mostrou quem mandava no Mundo e revelava, de forma cristalina, que as potências coloniais já não tinham a força de outrora. A França perdera a Indochina, começava o processo de independência das suas colónias africanas e iniciava uma sangrenta guerra na Argélia. No Reino Unido, o fracasso levou à queda do governo de Eden, substituído por MacMillan apenas um mês antes da visita da Rainha. O novo primeiro-ministro, de ideias opostas às de Churchill, sendo igualmente Conservador, pretendia desligar-se paulatinamente do Império (fora do âmbito da Commonwealth) e aproximar-se dos EUA, tornando-se o sustentáculo principal dos americanos, e por outro lado aderir à nova CEE.
Ainda em 1957, a Malásia e o Gana alcançaram a independência. A partir dos anos 60, as colónias britânicas foram-se desligando do antigo colonizador, embora algumas tivessem permanecido na Commonwealth com a Rainha como chefe de Estado (outros saíram, como a África do Sul). A autonomia unilateral da Rodésia, encabeçada por Ian Smith, em 1965, teve o apoio de Portugal, coisa que arrefeceu as boas relações com a Inglaterra. Esta aliás considerava que a sua colaboração em questões internacionais jamais deveria estender-se ao Ultramar, e fazia a subtil distinção entre "Portugal aliado na NATO" e "Portugal como potência colonizadora".
Muito embora a visita tenha reforçado os laços entre os dois países, as suas consequências quanto a política externa ultramarina não foram significativas. O fim do Império Britânico enfraqueceu o Reino Unido, obrigando a uma mudança de políticas, e isolou Portugal na sua muito particular visão colonial, o que viria a traduzir-se mais tarde na perda dos seus territórios fora da Europa.
O Welfare State, esse bárbaro

A Dia D, revista de economia que acompanhava o Público, e orgão oficioso para tudo o que é blogoesfera liberal, chegou ao fim. Fê-lo com um momento de assinalável boa-disposição: a crónica de Miguel Noronha. Ao que parece, as razões da decadência social do Reino Unido devem-se à Igreja Anglicana, aos governos de Lloyd George e de Attlee e ao terrífico "Welfare State". Já a Srª Thatcher, que governou o país precisamente quando essa decadência se acentuou e se tornou mais visível (simbolizada pelos hooligans, referidos no artigo, e também com a violência urbana resultante do enorme desemprego da época), teria introduzido reformas para estancar o "trágico resultado", mas em vão.
Acho muito bem que a publicação, uma vez que vai encerrar, o faça desta forma. O bom humor faz sempre falta, e nesse aspecto, os peritos económicos, por muito que o disfarcem, são autênticas reservas espirituosas.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O típico governo italiano

O Governo Prodi caiu porque o seu programa "externo" não passou no Senado. Nada de espantar. A média de duração de um governo italiano desde a 2ªGuerra (isto é, durante a República) é de dez meses, sendo que muitas vezes o anterior chefe do executivo é reconduzido ao cargo, coisa que ao que tudo indica, voltará a suceder. A instabilidade governativa italiana é um velho costume político que só mesmo Mussolini quebrou. Uma vez que a Itália vai continuar a viver em democracia, os governos vão consequentemente durar, na melhor das hipóteses, ano e meio. Contra isto não há Mãos Limpas que lhes valham.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Entrudo em Lazarim


Dia de Carnaval, Terça-feira Gorda, comemorada nas Ovares e Loulés deste país, com samba, dançarinas semi-nuas e carros alegóricos. O mesmo se passa em Veneza, Nice, Salvador e Nova Orleães.
Mas entre o Douro e Trás-os-Monte as tradições são diferentes, e seguramente mais antigas. Aqui existe o Entrudo, permitem-se excessos mais físicos que visuais, muitas vezes camuflados debaixo de carantonhas, e reavivam-se tradições que, depois dos anos de interdição durante o Estado Novo, se tornaram um chamariz de forasteiros. Como eu.

Em Podence, Macedo de Cavaleiros, onde os caretos infestam as ruas com as suas travessuras e os seus chocalhos e os seus trajes garridos,ocultados por máscaras bizarras, ou em Lazarim, onde são de madeira e os mascarados se vestem de forma mais diversificada e incrível, o Entrudo é uma imagem de marca destes dias frios. Dirigi-me para esta última aldeia, apanhando a estrada para Tarouca, depois de Lamego, e virando à direita após Britiande. Por entre uma paisagem mais de lameiros que de vinhas, atravessa-se a aldeia de Lalim, que já vem da Idade Média (como quase todas, nesta zona), onde a estrada se converte em apertadas ruelas. Mais uns quilómetros e estamos à vista de Lazarim, nas faldas da Gralheira. Para chegar ao centro da povoação há que deixar o carro na borda da estrada, a umas centenas de metros, que o intenso movimento assim o obriga.
 
A festa começou no fim de semana e tem o ponto alto na Terça, com a leitura dos jocosos "testamentos", o desfile e o concurso dos caretos, a queima dos compadres e a comezaina final. Com bombos e banda pelo meio.
Pouca sorte: chego já na altura do cortejo e tenho necessidade de me ir embora ainda com luz do dia. É o suficiente para me inteirar das festividades. Lazarim é antes de mais uma antiga povoação que se alonga pela estrada fora, abrindo-se num largo central e terminando nas ruelas adjacentes. Nas bermas, espalham-se vendedores de cavacas de Resende, cavacórios, vinho da região, recordações da aldeia, postais e até t-shirts alusivas à ocasião.


Os caretos vêm no sentido contrário ao meu, precedidos pela banda que os anuncia. O cortejo é encabeçado por uma espécie de líder dos mafarricos de madeira, montado num burro. Descem até se concentrar no largo, exibindo as suas fatiotas e fazendo barulho, no meio da multidão que os aplaude e fotografa. Na casa brasonada que domina o terreiro está montada uma varanda/palanque à laia de palco do concurso, onde os caretos começam a subir um a um. Aí, apresentam-se e vão retirando as máscaras. A grande maioria é da aldeia, mas mesmo os de fora provocam o gáudio dos assistentes.








Nem todos estão atentos ao concurso. Encostado ao cruzeiro a meio do largo, um homem de fato de ver a Deus, largo capote por cima, lenço ao pescoço e chapéu igual ao que os Gato Fedorento usaram no rap matarruano mal se aguenta de pé, perdido de bêbado. Inclina-se para a frente, descai para trás, e a certa altura tomba mesmo, perante algum riso e a pronta ajuda dos confrades. Há quem aproveite a quadra festiva até à náusea, ou pelo menos, aos limites dionisíacos.





Acabada a exposição dos caretos, os ex-mascarados dispersam-se e o júri retira-se para deliberar. Entretanto, a banda cria ambiente, tocando freneticamente, com bombos e concertinas, cantigas de Quim Barreiros. Apesar do frio (zero graus às 6 da tarde, e vê-se neve nas montanhas ao longe), a animação nas pessoas é visível. Por um Euro, compra-se uma extensão enorme de cavacas de Resende, ideal antes de entrar na Quaresma. Eis o autêntico comércio tradicional, o dos almocreves e das feiras, antes de qualquer loja ou armazém, que hoje nos parecem ser de outro tempo.

O júri demora muito, e como tenho de voltar cedo, saio de Lazarim ainda com a luz da tarde. Ainda há muita gente no largo. Sei que haverá a queima dos Compadres e que a festa acaba em farta comezaina, com caldo de farinha, feijoada e vinho. Óptima maneira de encerrar o dia, para os que ficam. Uma ideia que consola é que a tradição, agora reavivada e cada vez mais conhecida, retomar-se-à para o ano. O tempo também pode andar para trás nas coisas boas da vida.

Este relato diz respeito ao Carnaval de 2006, mas parece que este ano, em que não pude repetir o passeio, a folia voltou em grande escala. Também o Bichos Carpinteiros descreveu o mesmo evento, mas dois dias antes. Ao que parece, sou um dos "duros" que esteve no epicentro da festa. Ou quase.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Sanchez na Venezuela?

Num post do Hoje há Conquilhas, que subscrevo e recomendo, diz-se a certa altura que algumas das pessoas que ao nome Salazar pegam na pistola "alimentam a esperança de que Hugo Sànchez substitua, na América Latina, o retirado Fidel Castro". Aqui confesso que fiquei desorientado: então Hugo CHÁVEZ deixou o poder, logo agora que estava a criar a sua querida república socialista e em que iniciava as suas próprias conversas em família, com a respectiva secção de apresentação de livros (muitos exemplos marcelistas segue Chávez)? E logo para que o antigo craque e actual seleccionador mexicano ocupasse o seu lugar, e, ao que parece, o difícil papel de Fidel? Estrangeiros a ocupar o lugar de chefe de estado num país sul-americano não é coisa inédita, na ficção como na realidade, desde o próprio México, com o efémero imperador Maximiliano, até à BD.
Agora do ex-craque nestas lides é que não estava à espera. Se tiver a mesma relação com a governação como com os golos, os adversários, a começar pelos EUA, que se preparem. Mas mais valia que o elemento estrangeiro da Quinta del Buitre continuasse a dar instruções a Kikin Fonseca e não tentasse aparecer na fotografia com o guevarista Maradona. Não lhe fica bem, depois de anos de rivalidade, e sempre conserva as simpatias que os seguidores do Atlético de Madrid e os Ultra Sur, na sua maioria pouco predispostos a socialismos, lhe dedicaram.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

O Público mudou

Digam o que disserem, torci o nariz à a nova imagem do Público, que considero descaracterizado, indistinto de outras publicações e graficamente desengraçado. Como não o tenho comprado nos últimos dias, ainda não pude testemunhar outras alterações de fundo, mas do que me tenho apercebido, as novas divisões são uma confusão, há igualmente rodagem de colunistas, e também temo pelos suplementos semanais. Se tivessem conservado o logótipo, com o acento azul sobre o "u", ainda podia pronunciar um relativista "´tá bem, pronto". Um jornal não tem, antes pelo contrário, de ser uma coisa anacrónica ou inerte, mas sim de acompanhar o mundo e as suas conjunturas e mutações.
Mas não. Nem isso. Mudaram tudo, de cima a baixo. É pena, porque há sempre pequenos símbolos a que uma pessoa se agarra, e que considera em parte seus. Os jornais e as características que transportam são um claro exmplo disso, até porque fazem parte da vida pública de uma sociedade.
Posso vir-me a habituar, em parte, mas definitivamente este Público deixou de ser o jornal a que me habituei desde o início, quando me levantava ao Domingo por causa do Júnior, e que jamais dispensei.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

A tentação da raiva

Falo agora não do referendo que passou, mas das suas reacções. Como se esperava, entre os "vencedores", houve reacções mais moderadas ou racionais. Mas não faltaram igualmente os ajustes de contas, os odiozinhos recalcados a virem à superfície, em suma, tudo aquilo que muitos queriam dizer e não puderam para dar o ar de "moderados". Entre casos mais ou menos graves, dou como exemplo este destapar de irracionalidade, má-fé e triste figura, provavelmente um caso clínico, de uma criatura chamada Carlos Esperança, alguém que vive ainda no tempo de Afonso Costa e que se pudesse correria a incendiar todas as igrejas que encontrasse pelo caminho. Ficou muito claro, através deste post troglodita, quais as reais intenções de alguma dessa gente: "achincalhar a igreja". O que equivale a insultar milhões de portugueses em nome dos seus dogmazinhos das catacumbas. Percebe-se: esta malta sabe que nunca conseguirá subverter a igreja - i.e. acabar com ela - e diverte-se com as vingançazinhas blogoesféricas. Que seja essa a alegria deles, o matchbox para brincar sabendo que nunca terão um em tamanho natural, já que na prática, só mesmo olhando para as litografias da esquecida Iª República.
Adenda: o já célebre editorial do El Pais considera que o CDS é um partido de "ultra-direita", que o Algarve, o Alentejo e a cintura de Setúbal são regiões "avançadas", e que "a voz do Portugal laico e moderno elevou-se sobre o silêncio do país atrasado". É só exemplo das imbecilidades proferidas pelo editorial (e não por qualquer coluna de opinião) de um jornal espanhol "de referência", que assim dá uma imagem deturpada e ideologicamente marcadíssima de Portugal, para quem não conhecer este país. quem não o ficar a conhecer a partir de agora, que o compre. E que leia também este post , antes de tudo.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Depois do referendo

O que há a dizer no rescaldo do referendo? Que a minha escolha, aqui e aqui expressa, perdeu nas urnas. Só soube do resultado lá pelas onze horas, porque antes disso estava num comboio entre Porto e Lisboa. Não foi a vitória do "sim" que me espantou e entristeceu, mas a diferença clara entre as votações.

Como não tenho os pruridos do PCP, entendo que a escolha dos que votaram deve ser respeitada, mesmo que o referendo juridicamente não seja vinculativo (como não o fora em 98). Faço votos para que a nova legislação seja moderada e não deixe de considerar o aborto um mal, dando o necessário atendimento às grávidas e não esquecendo o direito à maternidade, constitucionalmente consagrado, mais a mais num país com fraca natalidade.
Mas como já se disse repetidamente noutras partes, a questão não está nem pouco mais ou menos resolvida. Temo que o número de abortos suba, e não apenas nos primeiros tempos, mas também que o SNS tenha ainda mais dificuldades em atender os pacientes habituais, que o aborto clandestino permaneça (em alguns meios vai com certeza subsistir) elevado, e que se observe a aberrante situação de ver as mulheres de Espanha a vir abortar ao nosso país, quando em certas situações uma portuguesa tem de ir dar à luz a Badajoz. Sim, isso pode muito bem acontecer, e não é por acaso que já há uma clínica espanhola especializada em abortos a ser montada em Lisboa... mesmo antes de se saberem os resultados do referendo. Quem viu a entrevista a uma cinicíssima representante dessa casa não poderá com certeza ter deixado de reprimir um arrepio pela espinha.

Os vencidos da noite foram portanto os que estavam do lado do não, como eu, excepto talvez uma pessoa: Ribeiro e Castro. Com uma campanha infatigável, quase sozinho, foi o líder do único partido que disse "não" e na declaração oficial não atirou a toalha ao chão, prometendo que continuaria atento e a lutar pelas suas convicções. Ganhou um grande capital político, que Portas e os seus acólitos terão de enfrentar doravante.
Outros derrotados: Marcelo, claramente, e Marques Mendes. O PSD não entra nestas contas devido à sua divisão entre as duas opções. E embora tenha criticado este partido pela sua campanha ambígua, devo igualmente felicitá-lo: se a questão não era política nem partidária, então partido algum devia ter tomado posição, deixando o caminho aberto para os vários grupos de cidadãos. A partidarização de questões desta natureza é que tem tendência a afastar as pessoas das actividades cívicas; e nem assim se compreende os apelos para que a Igreja não se metesse ao barulho. Afinal de contas, porque é que os direitos dos partidos a fazerem estas campanhas prevalecem sobre as confissões religiosas? Só se a questão fôr afinal política, coisa que não é ou não deveria ser.
De tudo isto, retira-se ao menos um facto positivo: a maior participação dos cidadãos organizados fora das esferas partidárias. Um exemplo que deve frutificar.

Entre os vencedores, Sócrates, claro. A vitória do "sim" deve-se provavelmente a ele e a mais ninguém. A diferença entre 98 e 2006 esteve provavelmente na mobilização do governo e do PS quase todo, com as raras excepções do "não". O PCP conseguiu enfim ver aprovada na prática a tese de licenciatura do seu líder histórico, mas quanto a capital político, é duvidoso que tenha ganho muito. O BE terá ganho esta batalha, mas pelas reacções pantomineiras duvido que tenha angariado muitos trunfos. Aquele cartaz do "Bem-vindos ao Século XXI" é uma coisa confrangedora. Como é que pessoas que vivem, na melhor das hipóteses, nos anos setenta, podem servir de anfitriões ao Século XXI? Aquilo era antes um "bem-vindos à pós-modernidade"; tinha muito mais a ver com aquele partido e com este momento.

Como disse atrás, a questão está longe de estar resolvida. As convicções não se calam por causa de uma derrota nas urnas. E quase aposto que um dia terá de se fazer novo referendo sobre o assunto, mas noutro sentido. Se uns o puderam repetir, porque não os outros? É assim que funciona a democracia.

domingo, fevereiro 11, 2007

Não é para me fazer à lista, mas o Corta-Fitas merece os meus parabéns atrasados. Quanto mais não seja porque passou a ser um blogue de leitura diária obrigatória, depois de meses de indiferença a que o votei. A ignorância tem destas coisas. Muitos parabéns, então, e que o blogue continue exactamente como é.
Este ano já não ganhamos a 25ª

Eu já estava pessimista desde o sorteio, e as minhas desconfianças concretizaram-se da pior maneira: fomos afastados da Taça por um clube da Divisão de Honra. Não é tão mau como a eliminação do Porto frente ao Atlético, mas era escusado. Não me lembro de ver o Benfica ganhar naquele horrível estádio da Póvoa, que de bom só tem o estar em frente ao mar (e mesmo isso vai ser alterado).
O meu trauma já vem de 2001, naquele jogo em que ficou célebre a frase "deixem jogar o Mantorras". Lembro-me que paguei couro e cabelo, fiquei empilhado com os outros benfiquistas em meia bancada, mesmo sendo em maior número que os varzinistas, depois de me terem recusado a entrada no lugar a que tinha direito, e ainda vimos os locais a beneficiarem de uma arbitragem péssima que nos roubou descaradamente um penalty. A partir daí, fiquei com uns sentimentos de ternura em relação ao Varzim que me fazem anualmente desejar a descida da divisão onde se encontrem.
Infelizmente, continuamos sem ganhar naquele maldito estádio.Mas lá virá o dia (e que seja de novo na Taça, sinal de que os poveiros permanecerão nas divisões inferiores). Agora é recuperar a equipa para o decisivo encontro com o Dínamo de Bucareste. E desta vez tem de haver mais golos da nossa parte, entendido, Eng. Santos?

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Bem sei que a campanha do aborto está a deixar todos pelos cabelos. Mesmo assim, queria chamar a atenção para os posts do Timshel relativos ao assunto. A série Pasolini, o cineasta maldito italiano , é altamente recomendável, assim como os vários links dirigidos ao tema. Mais uma estocada na ideia de que esta discussão põe a esquerda e a direita em compartimentos estanques. Só surpreende a quem andar desatento.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Balcãs ou Cáucaso?


Tirando a Grécia (e mesmo assim, apenas a região da Ática), não conheço nada dos Balcãs. Essa região montanhosa, de que ouvimos falar quando ocorrem distúrbios e conflitos étnicos, com reminiscências ortodoxas e muçulmanas, e desde o último alargamento rodeada - se não ocupada - pela UE, apenas se me revelou vista do ar. Lembro-me claramente de ver Corfu quase a tocar na costa albanesa, e a linha do Adriático a banhar Montenegro e Croácia.

Sendo uma região ainda algo desconhecida nos roteiros turísticos e com amplas diferenças culturais no meio desta Europa "civilizada" onde vivemos, tenho desde há muito uma curiosidade imensa de conhecer essa região. Não somente (mas também) a parte mais visível e visitável, como as ilhas gregas ou as estâncias croatas; são sobretudo as cidades romenas e búlgaras, os Cárpatos, a tripartida Macedónia, o idílico Montenegro e até a misteriosa Albânia que chamam por mim. Aqui há uns anos, como tivesse a oportunidade de ir a um congresso de estudantes em Budva, aldeia costeira montenegrina, cheguei a elaborar um complicado plano, em que iria por terra de Veneza até à dita localidade. Mas tive exactamente nessa altura os meus exames de fim de curso e o plano gorou-se (ainda assim, pouco tempo depois passei por Veneza). Desde então, pensei em fazer larga peregrinação pela Grécia, mas a coisa ficou igualmente adiada.

Continuo com planos muito, muito teóricos para ir aos Balcãs. Depende sempre de uma data de factores, desde a disponibilidade, as economias, companhias, e, claro, a situação política que não prima pela estabilidade, embora não tenha grande vontade em ir para o Kosovo. Mas o interesse mantém-se. Sei que lá irei, só não sei quando.

 
Entretanto, brincando com a Wikipedia, fui dar a uma região de que me tinha esquecido, mas que, ao me ser mostrada em tempos num documentário televisivo, me tinha deixado assombrado.

No centro do Cáucaso, no norte da Geórgia, um país também politicamente instável e à procura do seu rumo, entre montanhas que ultrapassam os 5000 metros, existe uma região quase perdida, um povo com costumes ancestrais, que venera São Jorge e as matriarcas de família, tem um dialecto próprio e vive em aldeias vigiadas por torres medievais. Uma região chamada Svaneti, rara nos mapas.

Se pensava que os Balcãs eram algo de remoto, coisa que já não são assim muito, que dizer desta fronteira-sul entre a Europa e a Ásia? Confesso que apesar das dificuldades evidentes em ir até tal região, dados os conflitos no Cáucaso e os deficientes meios de transporte, fiquei com uma enorme vontade de ir até lá. Isto sim, seria uma aventura com o seu quê de autêntico. Apesar de tudo, parece-me que será mais fácil ir antes aos Balcãs. O Svaneti, depois de tantos séculos de pachorrento isolamento, não vai certamente sair do lugar.

Voltarei a este tema, mas acharia graça ver mais blogs com notas dedicadas ao assunto.

Mestia, capital do Svaneti, com as omnipresentes montanhas ao fundo
Novas actualizações no blogue Norte pela Vida.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

E prossegue esta infeliz e insuportável campanha



Continua a campanha para o referendo à despenalização da IVG (de vez em quando há que falar em linguagem politicamente correcta, que também não traz mal ao mundo e amansa as almas). Parece que alguma propaganda do "não" tem sido mais infeliz . Também não estava à espera que fosse um mar de rosas, sobretudo quando se cai no apelo da lágrima fácil, ou, pior ainda, se vem com a bíblia numa mão e Nossa Senhora de Fátima na outra. É óbvio que qualquer argumento cai por terra quando aqueles meios entram em jogo.
 
Do lado do "sim", a coisa também não corre pelo melhor. A começar por um dos outdoors mais espalhados ou nos panfletos que os "jovens pelo sim" distribuem infatigavelmente pelas ruas pedonais fora. Uma coisa claramente enganosa, mostrando uma menina de ar tristonho e belos olhos atrás das grades...quando se sabe que não há uma única mulher presa por fazer um aborto proibido pela lei. Também esse lado da campanha se deixou contaminar pela emoçãozinha fácil, como se vê.

Depois, claro, há a famosa "tolerância" e "racionalidade", tão bem demonstrada numa tarde lúdica de apoiantes do "sim". Uma actriz, dizendo-se empenhada em "questões sociais", à pergunta sobre os direitos do embrião, respondia que "a mulher também tinha direitos"; não consegui perceber bem o resto da resposta, mas pareceu-me que a pergunta não tinha sido satisfeita
Mais radical conseguiu ser o prestável Pacman, do grupo da doninha. À mesma pergunta, o rapper apenas disse isto: "Os direitos do feto? Pois, mas eu acho que a mulher tem direito ao corpo e ponto final". Ponto final aos direitos do feto, também, é o que se pode concluir desta declaração. Quem disse que os defensores do chavão "na minha barriga mando eu" tinham desaparecido?

Depois, um rapaz com piercings e ar de gostar de ir a manifs disse que na última semana a campanha do "não" iria recorrer a todos os tipos de mentiras, de chantagens, etc. Ou o jovem tinha um qualquer poder de premonição que nos escapa, ou então resolveu falar por falar para assim encontrar um pretexto para radicalizar o discurso.

Entretanto, realizou-se novo debate do "Prós e Contras". A parte que vi não correu mal, com argumentos esgrimidos sem grande gritaria e com algum respeito mútuo. Vá lá que Lídia Jorge deixou-se ficar em casa. Mas fiquei curioso com o discurso de Adolfo Mesquita Nunes: até tinha pontos bastante pertinentes, que dariam base para novas discussões (como a da lei actual também não se referir à vontade do progenitor nos casos em que prevê o aborto), mas com aquele afã anti-estatista deixou-me intrigado. Então a mulher grávida deve ter assistência quando quiser abortar (se o "sim" ganhar, claro) mas o estado não deve intervir? Então onde é que ela se deve dirigir? A uma clínica privada? E se não tiver meios, se as ONGs não acorrerem ao caso concreto, se recorrer ao "vão de escada", que é uma das questões mais puxadas para o debate? Aborta de forma clandestina na mesma? Mantém-se o crime e a situação que o "sim" diz querer evitar. A única alternativa que consigo vislumbrar seria o Estado pagar os abortos para que as mulheres que "precisassem" o fizessem nas clínicas privadas. Querem ver que depois da ideia do cheque-educação vai haver o cheque-aborto?

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Entusiastas de uma vida breve

O ex-franco atirador, agora cultor de uma vida breve e entusiasta da despenalização + liberalização do aborto, assistiu ao debate de segunda-feira relaccionado com o referendo de dia 11. Assistiu mas viu umas coisas assaz estanhas. Parece que os defensores do "não" eram todos muito maus e os do "sim" todos muito brilhantes, sensatos, sensíveis, enfim, uma maravilha. Consta mesmo que Lídia Jorge (absolutamente inenarrável) teve "bom - senso" ao falar na "coisa humana". Já dá para ver a profundidade da análise. Mas fica igualmente o registo das duas partes da sessão que Luís M. Jorge teve o cuidado de descrever até onde a sua imaginação delirante o permitiu.
Ah! E não deixem de ler os comentários do clube de fãs, crendo que aquilo que leram era realmente o debate que se passou na televisão. Uma menina fala mesmo da "atrapalhação da gente acéfala do não perante as tiradas brilhantes da gente do sim". É só tolerância e honestidade intelectual, entre a malta do sim. Ao menos divertem as pessoas, e quem sabe, as "coisas humanas".

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Já há 99 anos
Há 99 anos, dois carbonários assassinaram a tiro o rei D. Carlos e o Príncipe Luís Filipe. D. Manuel escapou por pouco e sentou-se no trono por menos de 3 anos. Os assassinos acabaram imediatamente por ser mortos pela polícia , mas foram igualmente apelidados de "mártires". Os organizadores do atentado, fossem eles quem fossem, não chegaram a pagar pelo crime e acabaram também eles chegar ao poder, em 1910.
A propósito do Regicídio, alguns elementos do Corta-Fitas resolveram imaginar, há já uns meses, o que teria acontecido a Portugal se a tragédia não tivesse tido lugar. O Amigo do Povo respondeu ao repto e elaborou três versões alternativas da história de Portugal no Sec. XX, sendo que a de Luís Aguiar Santos é particularmente pormenorizada (tem inclusive abastada bibliografia). Ainda não pensei bem no caso, mas talvez deixe aqui a minha história sucedânea.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Entre África e Iwo Jima


Flags of our Fathers, última obra de Clint Eastwood, não poderá ser rotulado de "obra-prima". No mesmo sentido vão as nomeações de óscares, que se viraram preferencialmente para o aguardado "Letters from Iwo Jima". Mas dificilmente outro realizador conseguiria tocar numa batalha tão sangrenta e tão decisiva como Eastwood, não se deixando enredar nem em triunfalismos patrióticos (e aí está o seu filme japonês para o provar), de que um exemplo eloquente será Pearl Harbor, nem em miserabilismos pacifistas, com sentimentos de culpa inculcadas em todas as células. O que se vê é o sangrento episódio, do qual o público da altura só reteve a foto em questão, as angústias próprias da frente de combate, um legítimo sentimento de patriotismo à vista do estandarte. E os sobreviventes do acto simbólico, transportados por toda a América, num cortejo triunfal que não desejavam, sendo heróis sem o sentirem. As consequências foram amargas: não passando de cobaias para a angariação de fundos e para exortar a nação, depressa foram esquecidos por quem os tinha posto no topo do mundo - ou do rochedo de esferovite que surge logo no início, no meio de uma multidão eufórica.

O filme, claro está, aconselha-se, por tudo isto e não só: os diversos flashes não cortam a sequência narrativa, o elenco (de desconhecidos, à parte Ryan Philippe e Barry Pepper) é muito aceitável, e a fotografia é belíssima. A primeira parte lembra muito O Resgate do Soldado Ryan, ou não fosse Spielberg o produtor.

Mas é curioso reparar que a simbologia da imagem não é assim tão original. Já havia imagens semelhantes em diferentes contextos. É que a fotografia da bandeira de Iwo Jima lembra-me muito a imagem do Padrão de Santo Agostinho a ser erguido pelos homens de Diogo Cão na foz do Zaire. Acredito que os norte-americanos não tivessem qualquer ideia de fazer uma cópia inspirada no padrão, mas o que é certo é que já muito antes tínhamos colocado as nossas armas nacionais em territórios inóspitos. As semelhanças são mais que evidentes, mas entre os dois acontecimentos há quatro séculos e meio de intervalo.


(Não conheço o autor do quadro; agradecia a quem puder esclarecer-me)
Venha o sorteio

Mais uma vitória sofrida contra uma equipa do centro do país. Na segunda tivemos aquele brilhante jogo contra uma Académica à antiga, mas jogámos com o credo na boca até ao golo de Leo (até houve espaço para o humor, com aquela faixa a anunciar ao Luisão a Quima das Fitas, e os não menos hilariantes discursos científico-desportivos de Manuel Machado). Hoje, só com dois golos perto do fim, um deles do regressado Mantorras, é que conseguimos vencer a União de Leiria (ou Porto-b, como quiserem) e seguir em frente na Taça. Vá lá, continuamos invictos em casa, e além do mais este jogo trouxe-me uma recordação agradável: há três anos estivemos igualmente um jogo inteiro a atacar a baliza do Nacional e a perder, até marcarmos perto do fim dois golos em cinco minutos. Como é sabido, ganhámos mais tarde o caneco. Deus queira que a história se repita e conquistemos a 25ª.

sábado, janeiro 20, 2007

A confusão laranja

Muito pertinente, o reparo que Pedro Correia faz ao anúncio dos gastos do PSD. Um partido que não tem posição oficial sobre a despenalização do aborto vai gastar 500 mil Euros num "nim". Como? Colocando cartazes com slogans "apoiamos o não, mas também o sim", ou com Rui Rio e Marques Mendes, lado a lado, com balões ilustrando a sua posição oficial? Ou ainda outdoors diferentes em quantidades iguais? Ou outra coisa qualquer, mais enigmática ainda? Esclareçam-nos antes da campnha, senhores, ou arriscam-se a torná-la ainda mais confusa. Melhor, não façam qualquer campanha, que poupam dinheiro aos vossos cofres e a paciência ao torturado eleitor.
Aniversário esquecido

A pouca disponibilidade técnica para actualizar o blog faz com que aconteçam coisas destas. Não é que daí venha mal ao mundo, mas como gosto de relembrar estas coisas (eu e noventa por cento dos bloguistas) fiquei ligeiramente entristecido. Tudo porque há quatro dias atrás, quando escrevi as últimas linhas, não me lembrei que de que há exactamente três anos criei este espaço a que chamo A Ágora. É verdade, há estou ligado ao meio desde 16 de Janeio de 2004. E se escrevo pouco nos dias que passam, isso deve-se não a qualquer sentimento de fastio, que me tem assaltado noutras alturas, mas sim ao facto de nem sempre estar ligado à net. Daí também o lamentável esquecimento, comparável, dentro das devidas dimensões, a olvidar o dia de anos de casado (apesar de ser um estado civil cujo mistério ainda desconheço). Como todos os maridos embraçados, prometo igualmente tentar compensar o meu blogue da forma como merece, para minimizar estragos e prosseguir com esta ligação de três anos.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Por razões técnicas, não tenho podido actualizar o blog. Nada que não se resolva em poucos dias. Até lá, podem-me encontrar tambémno blogue do movimento Norte pela Vida. A mim e a vários outros escribas, de diferentes idades, profissões e ideias. Comungam apenas por uma ideia comum: a de que o aborto livre não representa qualquer solução válida para as mulheres nem para o aborto clandestino. Vão lá e demorem o tempo que quiserem.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Vitória alcantarense




Actualmente tenho andado mais por Lisboa do que pelo Porto. As minhas obrigações passam agora perto de Alcântara, o que faz com que almoçe muitas vezes nas tascas, snacks e restaurantezinhos da zona, entre outros estranhos de serviço, como eu, e os locais, saudosos dos tempos em que não havia a Golden Gate lisboeta, das fábricas agora em decomposição, da faina portuária, dos jogos que enchiam a Tapadinha. Enfim, da altura em que Alcântara não tinha viadutos cruzados, mais actividade nocturna que diurna, mercê do Garage e das Docas, ou duplos cafés do Herman. Nem do Atlético, a jogar em divisões secundárias.

Mas no que toca à agremiação desportiva parece que ainda há momentos altos. Quando me contaram que o velho clube de Alcântara tinha levado de vencida a mui segura de si e "futuro bi-campaõ nacional" equipa do Porto, e logo no Dragão, julguei que estavam a brincar. Mas não. Era mesmo verdade: para o Porto, couberamas lembranças de uma tarde parecida, com o Toreense; para o Atlético, uma jornada de glória, que nem um penalty inventado no quinto minuto do prolongamento abalou; para os outros, alguns risos inesperados e um dia bem passado. Devo dizer que estava num local que exigia alguma solenidade, e as minhas exclamações ao saber da notícia foram muito pouco ortodoxas, mas verdade seja dita, não vi quaisquer recriminações.
Ao fim da tarde passei pela zona de Alcântara-terra: alguns carros apitavam, e os alcantarenses apinhavam-se à porta das cervejarias, de copo na mão e cachecol do Atlético ao pescoço, comentando o feito. A equipa, essa, comemorava na Bairrada (de onde uma das equipas tinha sido goleada na Luz também para esta competição), antes do regresso triunfal.

Andava a congeminar uma dia à Tapadinha um dia destes para ver um jogo do Atlético. Depois disto não há volta a dar-lhe. Tenho mesmo de assistir a uma partida dos amarelos de Alcântara. E até lá, continuarei a frequentar-lhes as tascas e a ler os jornais do clube, gratuitamente distribuídos nos balcões dos estabelecimentos. Parabéns, Atlético Clube de Portugal!

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Ainda aqui não falei do referendo ao aborto, marcado para 11 de Fevereiro. A minha posição? É simples. Não mudou desde 1998. Agora preparo-me para ouvir os argumentos de sempre e os novos, entre alguns inventados numa tempestade cerebral de delírio e outros muito interessantes e que merecem ser reflectidos.
O que voto? Não. Falarei deste tema com mais calma, até porque nos próximos tempos vai estar em destaque aqui no rectângulo.

domingo, dezembro 31, 2006

Se algo de positivo trouxe 2006 foram novos blogues. Alguns deles excelentes.
Já falei várias vezes do Amigo do Povo, mas outros surgiram, como o Corta-Fitas, o Cachimbo de Magritte, o Herdeiro de Aécio, o provocador mas divertido Franco-Atirador, e outros a quem reconheço alguns paradoxos curiosos e grandes divergências, como o Combustões.E o ano ainda me permitiu travar conhecimento com outros bloggers de áreas bem distintas, como O Corcunda. E outros haverá, mas a memória agora é que não dá para mais.
Se não trouxer mais nada de exaltante, que 2007 seja o ano da confirmação destes espaços e traga outros de igual qualidade. Um desejo não tão difícil assim de se concretizar.

Bom ano de 2007
O calamitoso fecho de 2006

O ano acaba de forma a todos os títulos trágica. Saddam acabou por fim assassinado ("execuções" são coisa para mim meros homícidios disfarçados de legalidade enviesada), mostrando que o país que ajudou a construír no meio da barbárie e da ferocidade continua tão feroz e bárbaro como antes, com uma guerra civil efectiva entre hordas comandadas por novos Madhis e Nabucodonosores. Só mesmo a alimária que desgraçadamente preside aos EUA e alguns dos seus dementes seguidores imaginam que isto é "um passo importante para a democracia noIraque". Quando alguém defende a pena de morte como forma de implantação democrática é porque não tem qualquer princípio civilizacional.

Os costumeiros atentados voltaram a sacudir Bagdad. Uma rotina para a Mesopotâmia, mas a que os espanhois não estavam já habituados e para a qual tiveram de abrir os olhos quando a ETA voltou a mostrar-se. O atentado de Barajas deve ter enterrado todo o duvidoso esquema de negociações que Zapatero e Carod Rovira incrivelmente julgavam possível. Otegui, o porta-voz oficoso dos etarras, atribuiu as culpas a Madrid. Talvez agora o governo do PSOE seconvença que não está perante meros nacionalistas com ânimos ligeiramente exaltados, mas sim com uma mistela de extremistas e mafiosos à boa maneira da Cosa Nostra.

A nossa "protecção civil" voltou a dar um exemplo de negligência e incompetência que custou a vida a meia dúzia de pescadores, perante a impotência desesperada de alguns locais na praia. Os contornos da falha serão, espera-se, apurados em inquérito, mas com certeza que não se aceitarão justificações que falem de "azares" ou "fatalidades". A culpa deve ser apurada e não pode morrer solteira. É demasiado grave que existam serviços públicos que não cumpram minimamente os seus deveres mais básicos, como não deixar morrer inutilmente os seus cidadãos. E mais penoso se torna pensar nisto quando se pensa que já houve há uns anos um filme, realizado por José Nascimento, com o explícito título de Tarde Demais, baseado em acontecimentos reais em tudo semelhantes à tragédia dos homens do Luz do Sameiro. De que terá servido, então?

Mas há regiões em que as coisas são bem piores. Na Indonésia, naufragou um ferry pelas razões de sempre: más condições de segurança e excesso de passageiros. Centenas de desparecidos no mar revolto pagaram por isso. E não é caso isolado. O Terceiro Mundo existe mesmo, e apesar de todas as evidências em contrário, Portugal não lhe pertence. E assim termina o ano.

sábado, dezembro 30, 2006

E se o Balípodo pudesse alterar o futebol?

Um dos sites de futebol que mais gosto de ver é o Balípodo. O espaço é brasileiro, o que vem confirmar a minha ideia de que os nossos gigantescos parceiros da CPLP são tão bons a escrever sobre bola como a jogá-la. Entre a crónica, a notícia e a previsão do futuro, há de tudo nas suas colunas divididas em diferentes secções, cada qual com seu assunto.
Uma dessas rubricas, chamada com propriedade "E se..." , tenta adivinhar o que aconteceria caso determinada situação seguisse outro rumo, como por exemplo, se Mourinho fosse treinar o Brasil, ou se em lugar da Liga Espanhola houvesse vários campeonatos regionais. Uma das melhores imagina como teria sido um hipotético Mundial de Clubes em 2001, seguindo-se à primeira experiência da prova que levou o Corinthians de Dida, Gamarra, Vampeta e Edilson a sagrar-se campeão mundial frente ao Vasco da Gama de Helton, Romário e Donizete. Imagine-se o Corunha comapeão mundial,frente aos brasiliros doPalmeiras, depois da queda de todos os favoritos.Vale a pena ver essa pequena ficção e muitas outras com que o Balípodo nos brinda.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

A divisão da Somália


As fronteiras da Somália redefinem-se pela enésima vez em cem anos. Depois de ser uma colónia quadripartida entre a Itália, Inglaterra, França e Etiópia, de se ter unificado num território independente, de ter assistido ao colapso do regime de Siad Barre, à tribalização do seu poder (balcanização seria aqui um eufemismo) e a uma desastrosa intervenção da ONU, que deixou traumas bem conhecidos, contra Aidid e restantes senhores da guerra, o governo interino que tinha sido estabelecido com um pacto entre várias facções, há dois anos, acabou por ser varrido pela União dos Tribunais Islâmicos, ao que se crê com ligações ao terrorismo islamita. Os radicais islâmicos, seguidores de várias correntes como o Waabismo e o Salafismo, conseguiram entrincheirar o governo interino em Baidoa. E teriam certamente acabado com ele se a Etiópia, invocando ameaças ao seu território, não tivesse entrado em cena.

O conflito ganhou alguma dimensão religiosa (a cristã Etiópia contra os radicais islâmicos), e, como se viu pelos espectaculares avanços, a pátria de Selassié e do Prestes João mantém em bom estado o armamento cedido pela URSS. Mogadíscio caiu sem grande dificuldade, assim como boa parte do território. Agora, é o governo de Baidoa e seus apoiantes que avançam sobre os islamitas. Mas há que contar com a reacção da Eritreia. A jovem nação africana, que ajudou os actuais dirigentes etíopes a expulsar Mengistu do poder, vive agora em permanente conflito com os antigos aliados, e, por razões tácticas, auxilia os tribunais islâmicos. O Sudão, sob a presidência de al-Bashir, um dos responsáveis pela tragédia do Darfur, é outro dos apoiantes dos radicais. O Quénia posiciona-se ao lado da Etiópia.

A Norte, a Somalilândia, antiga colónia britânica que há já largos anos declarou a independência, apesar de não ser reconhecida pela comunidade internacional, tem conseguido manter a estabilidade e uma certa paz, com o seu governo misto, semi-democrático e com representação dos clãs. Assim o deixem no seu canto.

Um caldo étnico, religioso, territorial e cultural que promete não parar por aqui, num dos países mais martirizados de África, verdadeiro símbolo do estado anárquico sem rei nem roque. O seu futuro depende dos resultados dos combates em curso e da entrada em cena (ou não) dos diversos actores regionais, além da impotente União Africana, sediada precisamente na Etiópia. Veremos se é desta que a Somália consegue transformar-se em qualquer coisa que lembre um país digno desse nome.

PS: as origens da Somália e dos seus conflitos são mais facilmente percebidas neste post do Herdeiro de Aécio

domingo, dezembro 24, 2006

Uma comemoração intemporal

Chegamos por fim à véspera do dia que tão vilipendiado tem sido, mesmo aqui na vizinha Espanha. Com argumentos incompreensíveis e em grande parte falsos, algumas entidades, públicas e privadas, escondem o carácter fundamental e primevo da celebração: o Nascimento de Cristo. Parece que o nome do Salvador incomoda pessoas de "outras crenças", embora ninguém se tenha lembrado de perguntar isso às mesmas; que o Natal é uma mera comemoração do solstício de Inverno; e que símbolos com algum carácter religioso ofendem são potencialmente ofensivos.

Olhando bem para estes casos, não direi que há uma guerra generalizada contra o Natal, mas tão somente umas cabecinhas, que, por extraordinário acaso das coisas, têm alguns cargos de direcção, e que camuflam assim um ódio ao cristianismo e às religiões no seu todo, ou uma enviesada ideia de modernidade. Felizmente, as reacções a esta imbecilidade pré-instituída não se fizeram sentir, vindas de políticos, opinion-makers, ou representantes das "outras crenças", cientes igualmente que este presumido paternalismo de que gozariam com tais interdições não passa de um atestado de menoridade, que dispensam.

Estou convencido que actos como estes não vieram para ficar, mas apenas para nos atazanar durante uns anos, antes de serem deitados no caixote do lixo das modas estéreis. A força das
tradições intemporais comumente celebradas (e ainda mais se trouxerem uma mensagem de paz e concórdia) é muito mais forte do que todas as inibições que alguns pretendem impingir. E o Natal continuará a ser celebrado per secula seculorum, com mais ou menos formas de comemoração, pratos de consoada ou consumismo.

Um Santo Natal para todos

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Vocabulário dispensável

Se se reparar bem em grande parte dos discursos políticos actuais (como o da discussão da AR de hoje), notar-se-à que muitos dos predicados utilizados - posso falar em predicados ou a TLEBS já está em vigor - são constantemente comidos. Sim, comidos. Querem exemplos? "O Governo ´tá a executar políticas de rigor"; "o Partido ´teve em peso com o candidato X"; "O Eng. Sócrates ´tá a tomar medidas necessárias/demagógicas".
Percebem? Alguns erros coloquiais, tão banalizados nas conversas do dia-a-dia, são utilizados pela classe política de forma descuidada e constante, como se estivessem a falar com o colega do lado e não numa tribuna para o país. Falo dos políticos porque são os que têm mais responsabilidades na condução do estado, e porque são figuras públicas e notórias, mas podia-me socorrer de outros exemplos existentes na sociedade, como a economia ou as artes.

Parece-me particularmente infeliz este descuido com o uso da língua fora do âmbito privado. Se se quer passar uma imagem de algum rigor, convinha estar atento a estas corruptelas orais. Eu sei que a língua está sujeita a evoluções e mudanças, por muito que nos custe. Mas em alguns casos isso pode não trazer qualquer melhoria. Imagine-se o "teve" como pretérito perfeito de dois verbos diferentes, ter e estar. Ou então este último transformado em verbo "tar". Ou ainda o verbo "perar". É que talvez não fosse pior começar a distinguir evoluções linguísticos e de fala dos meros atentados ou fortes vícios, causados por por simples facilitismo.

E na mesma linha, veja-se essa imbecil campanha feita pela BCP (cujo rosa das infinitas agências bancárias em cada esquina já não se suporta), com Bruno Nogueira a perguntar a uns supostos "jovens" se "kerem voar". Assim mesmo.

Não sei porque carga de água é que não põem "queres" em lugar do Kapa. Ou os senhores da campanha não sabem escrever senão ao telemóvel, ou então acham que todos os "jovens" a quem se dirigem são mentecaptos e só sabem ler assim. Bela imagem que a ubíqua instituição do Dr. Paulo Teixeira Pinto tem das novas gerações e das suas pontencialidades.

terça-feira, dezembro 19, 2006

A queda do império e o "sacrifício total"


Mobilização das tropas indianas

Passam agora 45 anos desde o fim do Estado Português da Índia. Em Dezembro de 1961, a União Indiana, sob Nehru, com forças que ascendiam aos 50000 homens, e inúmeros meios aéreos e navais, atacou os enclaves lusos. O lado português era defendido por pouco mais de 3000 efectivos, sem força aérea, com parcas lanchas de guerra, que cedo viram as sua comunicações destruídas por bombardeamentos indianos. A resistência era impossível e suicida.
Salazar sabia muito bem disso. Mas imbuído de sentimentos de "honra", a milhares de quilómetros de distância, pediu o "sacrifício total" aos soldados portugueses, para"prestar serviço ao futuro da Nação". "Vitoriosos ou mortos", pedia o velho abutre, que jamais respirou o ar de qualquer colónia, quase não saía do rectângulo, e não proporcionou melhores meios de defesa a quem tinha essa missão. Apenas pedia para remeterem as relíquias de são Francisco Xavier para a metrópole, que essas sim, urgia proteger.
Como é sabido, Vassalo e Silva não esteve virado para martírios inúteis nem tragédias euripedianas, e acabou mesmo por se render, a 19 de Dezembro, impedindo um banho de sangue. Pagou com isso a carreira, que só seria reabilitada em 1974, e a liberdade, com uma estadia de alguns meses nas prisões indianas, juntamente com os seus homens.
Assim acabou, quatrocentos anos volvidos, o império erguido pelos Gamas, Albuquerques e Castros, vitimado pelos ventos da descolonização mundial, pela supremacia das forças indianas e por uma política ultramarina isolacionista e desastrosa. Tão desastrosa que levaria ao avolumar da penosa Guerra do Ultramar, suportada por toda uma geração, e pelos cofres do Estado, e que teria como consequência, anos mais tarde, o derrube do próprio regime pelas suas Forças Armadas.

(Para mais informações, este site é um bom início)

Rendição oficial dos militares portugueses

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Oh, raio!

Há imenso tempo que tenho aqui nos drafts a descrição de uma passagem por Génova, feita no Verão do ano passado. Só que o suplemento Fugas, do Público, antecipou-se, e pior do que isso, com um relato muito próximo do meu, tanto no percurso efectuado como nos elementos observados. Ah, mas isto não fica sem troco. Em breve lanço a minha resposta, desastradamente atrasada por causa das notas sobre outras cidades visitadas na mesma viagem, que não estão devidamente postas em ordem. Revisitar o Verão do Mediterrâneo no Inverno: ora aqui está uma ideia susceptível de provocar melancolia à mistura com boas recordações.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Mais uma dádiva do YouTube



Os Placebo são uma banda com os seus momentos altos e baixos, outrora alojados nas lantejoulas e na androginia do Glam Rock do início da carreira e na idolatria por David bowie, prosseguindo depois numa fase rock + electrónica. Surgiram provocando estranheza e desconfiança e ascenderam ao estatuto de banda respeitável, com vendas de milhões de discos e concertos esgotados em todas as cidades. Chegaram inclusivamente a participar no filme Velvet Goldmine, ao lado de Christian Bale e Ewan McGreggor, fazendo praticamente deles próprios, só que com nome diferente.
Também tiveram êxito no formato DVD. Um deles mostra o concerto que realizaram em Paris, em 2003, com um Brian Molko bastante fluente na língua gaulesa, acabando em apoteose a cantar Where is my Mind, dos Pixies, em dueto com o próprio Frank Black, ao seu melhor estilo rocker, de blusão de couro, óculos escuros, crâneo rapado e a eterna barriga proeminente.
Podem ver aqui a a interpretação global da música. E agradeça-se, uma vez mais, a quem se lembrou de inventar o YouTube.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Morto o bicho, morta a peçonha


Morreu enfim Augusto Pinochet, de forma natural, coisa a que muitos dos seus compatriotas não tiveram direito durante a sua presidência. Restam-nos aqueles a quem ele não deixa saudades, e que não resistiram a comemorar o seu fim; e os outros que ainda acreditam que Pinochet salvou o Chile da hecatombe, que aprovaram as matanças no estádio de Santiago e que ainda acham que o general deixou o poder "voluntariamente" (isto é, depois de perder um referendo e já sem o apoio de sempre dos EUA) e deixou um pais "próspero" (para se aferir melhor tal "prosperidade", criada pelos Chicago boys, é favor ler isto), sem pelo caminho desviar nada. Entre estes, conta-se a Srª Thatcher e alguns "liberais" pouco esclarecidos, que divinizam o ditador. Sem dúvida um exmplo magnífico do liberalismo que estes senhores pretendem para o mundo. Deus tenha piedade não só da alma do ex-ditador, se ele se tiver arrependido, mas igualmente da sanidade mental destes pobres de espírito.

Stroessner também morreu este ano. Fidel não parece ter muito mais tempo de duração. Os tempos estão maus para ditadores sul-americanos.

sábado, dezembro 09, 2006

O guarda-chuva desconhecido


Entre as várias expressões lisboetas a que não me habituo, há uma - para além da questão Fino - Imperial, que serviria perfeitamente de traço de divisão do país, bem mais eficaz que a imaginária linha de Rio Maior, no PREC - que se adequa perfeitamente ao tempo que faz: o uso de "chapéu de chuva". Para mim, são efectivamente chapéus de material variável, desde que impermeáveis, que se usam na cabeça para proteger da chuva. Em Lisboa (e noutras regiões próximas, cujo limite desconheço), são aquilo que vulgarmente conheço por guarda-chuva. Como farão os cultores do"chapéu"para se distinguir? E porque não usam o prefixo guarda seguido do hífen? Outros usam umbrella ou parapluie. Porque não há de haver uma palavra própria que classifique o objecto (sem recurso à famigerada TLEBS) por si mesmo sem ambiguidades inúteis? Pensem nisso, que me poupavam muito latim.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Desaire

Há exactamente um ano, afastávamos o Manchester United das competições europeias e seguíamos para os oitavos. Ontem, os ingleses desforraram-se e passaram eles à fase de eliminatórias. Do mal o menos, sempre ficámos na UEFA. Mas além de nos terem ganho os dois jogos, ainda se encarregaram de perder naqueles em que precisávamos que triunfassem. Gente vingativa.
No jogo de ontem, safou-se o míssil de Nelson e algumas excelentes jogadas de Simão. A defesa estava totalmente desorganizada, e o jogo de cabela foi uma lástima. E, claro, o livre concretizado segundos antes do intervalo deitou tudo a perder. Estava mesmo a prever que aquilo ia acontecer. É sempre nestes momentos que sofremos golos.
Diga-se que a nossa missão era quase impossível perante um United em grande momento de forma e a precisar igualmente de ganhar. Trocaria de bom grado a vitória em alvalade por uma ontem. Agora que esta fase acabou, constata-se que duas tradições se mantêm: uma, é a do Benfica nunca fazer bons resultados em Old Trafford. Outra, é a de marcar grandes golos em solo inglês. Foram quatro no último ano e meio (e ainda podíamos recuar áquele grande jogo contra o Arsenal). Para os apreciadores do futebol espectáculo acima de tudo já não é coisa pouca.

domingo, dezembro 03, 2006

Dois dias de atraso


Há datas que não se esquecem. Porém, mais vale tarde do que nunca.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Links

Uma colheita especial, por Domingos Miguel, no Noite Americana, em especial esta parte:

"não é preciso ser um génio, para perceber que um tipo que faz o primeiro Alien, Blade Runner, Black Rain (grande filme, já agora), Thelma and Louise, Gladiator e Black Hawk Down, só para dar alguns exemplos, não está propriamente preocupado com a consistência."

O Caso Richards, no Estado Civil, ou quando em momentos de irracionalidade e raiva o nosso racismo vem à superfície. Mesmo que pensemos sempre que "não sou racista". Só que geralmente há sempre um "mas" depois dessa afirmação.
Craignotbond*

Já que falamos de cinema, é preciso que se diga que o último James Bond, Casino Royale, tem muito do que se pede a um filme da série: uma história escrita (inspirada) por Ian Fleming, acção sem fim, hoteis glamourosos, Bond-girls a sério (está de parabéns quem se lembrou de Eva Green), roupas com estilo, países ensolarados e até o regresso dos Aston Martin, depois de anos e anos de insípidos BMWs. Só falta mesmo uma coisinha fundamental: James Bond. No lugar dele, estava lamentavelmente um tipo com ar de bruto, ou de boxer recém retirado, que já andara por Munich e Caminho para a Perdição, com os mesmos modos de carcereiro da Torre de Londres no período isabelino.



*Escusam de procurar o site, que está desactivado há já uns tempos

segunda-feira, novembro 27, 2006

Cartaz de mestres

Dá ideia actual de que este ano chegaram a Portugal as mais recentes obras de quase todos os grandes mestres do cinema anglo-saxónico. Confirmemos: Woody Allen chegou no início do ano com Match Point e está aí a reaparecer com Scoop. Scorsese traz-nos Departed. O seu vencedor nos óscares do ano passado, Clint Eastwood, virá com Flags of Our Fathers e a sua correspondente japonesa, Iwo Jima. Minghella também não tardará, creio, com novo filme (na pior das hipóteses em 2007); Ridley Scott traz-nos uma comédia romântica com o taciturno Russel Crowe; o recentemente desaparecido Robert Altman deixou como legado A Prairie Home Companion; Coppola não filmou obra nova, e em compensação enviou-nos a filha mais a sua Maria Antonieta versão New Wave. Almodôvar conseguiu Volver em grande, e trouxe por arrasto Penélope Cruz e outras conhecidas. Stephen Frears chega daqui a dias revelando o lado humano da Rainha; Spielberg passou por aqui no início do ano com Munique, assim como James Ivory e a sua Condessa Russa. Brian De Palma trouxe-nos finalmente o aguardado (mas algo mórbido) The Black Dahlia. Shyamalan revelou-nos a sua fábula aquática, A Senhora das Águas, envolvendo narfas próprias dos sonhos mais belos, cães do inferno e águias celestes. Pena que O Código Da Vinci tenha sido entregue ao progenitor da narfa, mas há coisas piores no mundo. Ou que Wolfgang Petersen e Richard Dreyfuss tenham regressado com filmes-catástrofe.

E ainda tivemos Terence Malick, com The New World, e Michael Mann, recriando Miami Vice no Século XXI. Além de alguns bons valores do chamado "cinema independente". Paris viu-se homenageada em pelo menos dois filmes, e romain Duris sobe cada vez mais. E com alguma sorte, ainda vamos poder ver muito em breve a nova opus de Soderbergh, The Good German, com o seu amigo George Clooney (outro que não esteve parado) e a encantador Cate Blanchett na Berlim do pós-guerra, no que promete vir a ser um clássico moderno. Temos e tivemos todas as razões para não nos queixarmos da safra anual.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Don Duarte a a Democracia

Sobre o lançamento do livro de Mendo Castro Henriques, Dom Duarte e a Democracia, houve vários testemunhos, que se pautaram não apenas pela crítica ao conteúdo, mas sobretudo à estranheza ou à satisfação de se ver Manuel Alegre como convidado para a apresentação da obra, em Lisboa, no Espaço Chiado (no Porto a missão coube a Paulo Teixeira Pinto, assumidamente monárquico). Alguns podem ser vistos num post do Combustões. Corroboro, obviamente, a opinião de Miguel Castelo Branco. Já sabia que Alegre tinha um certo respeito pela ideia da monarquia, por tradição paterna, conquanto se declare sempre republicano e tenha sido candidato às últimas presidenciais. Mas o facto do autor do preâmbulo da CRP admitir um referendo sobre o regime não deixa de ter a sua importância, marca uma posição, e talvez seja uma porta aberta para a revogação do iníquo Artigo 288º - b. Que outros sigam os seus passos e percam os precnceitos herdados do 5 de outubro.
Ah, e o livro vale a pena, como biografia e como esclarecimento de algumas ideias preconcebidas.