quarta-feira, agosto 15, 2007

Cem anos de Miguel Torga

Cem anos de Torga, comemorados na Segunda. Bem lembrados, excepto pela lamentável ausência de membros do governo nas comemorações oficiais, em Coimbra. Tanta preocupação com o conhecimento tecnológico e científico, com as línguas e a informática, e desdenham assim da efeméride consagrada a um dos maiores prosadores portugueses (mais do que poeta) do último século.

Outro erro grave: no meio do noticiário da RTP, em directo do Douro, com flashes em S. Martinho de Anta e Coimbra, a repórter que tinha por trás de si a curva impressionante do rio que rasga Trás-os-Montes lembra-se desta pérola: "vamos agora a Coimbra, cidade onde nasceu e viveu Miguel Torga..." Nem com um ponto para a ajudar - a outra repórter em S. Martinho - a senhora percebeu que Torga não era natural da Lusa Atenas.

Mas pelo menos a data não ficou esquecida. Nem em Coimbra, ao lado da paragem de romarias que era o antigo consultório do Dr. Adolfo Correia da Rocha, no Largo da Portagem, sob o Governo Civil; nem em S. Martinho, no largo da aldeia, junto ao busto do autor dos Diários, perto da singela casinha com portadas azuis onde ele nasceu; houve mesmo um monólogo do actor José Pinto, cujas semelhanças com o médico são notórias, sobre a paisagem mágica do Douro. Pena que não fosse (pelo menos não me pareceu) no promontório de S. Leonardo de Galafura, que tanto inspirou Torga, o seu amor telúrico pela velha terra transmontana e o seu fascínio pela paisagem duriense, e que ainda exibe os seus versos numa lápide da ermida que ali se encontra.

Conhecendo superficialmente a sua poesia, e daí a preferência pela prosa, tendo visto alguns dos Diários de forma pouco cronológica e metódica, fui tocado quando era pequeno pelos seus Bichos, Contos da Montanha e Rua. A simplicidade da prosa, aliada a velha linguagem, pouco usada mas clara, ligada a situações e personagens bem portuguesas, e particularmente transmontanas despertou-me para mais leituras do autor. Algumas são autênticas lições de vida, com muito de autobiográfico pelo meio. E já que é do seu centenário que tratamos, relembro o comovente conto Natal, dos Novos Contos da Montanha, em que um mendigo, o Garrinchas, se abriga pela gelada e santa noite numa ermida, convidando a estátua da Virgem com o Menino ao colo para o acompanharem na sua parca ceia, à volta da fogueira. Pois essa emida não é outra senão a da Senhora da Azinheira, no alto de um monte desolado, com vegetação rasteira e rochas, uma fabulosa vista sobre a região circundante, até ao douro, e sobranceira a S. Martinho da Anta, a terra do escritor. Mesmo com toda a notoriedade que alcançou, Torga não esqueceu nunca de onde vinha nem quem era.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Schuster e o Princípio de Peter

O Belenenses perdeu com o Real Madrid por 1-0, no torneio Teresa Herrera. Tendo em conta a diferença de meios económicos e humanos entre o clube da Cruz de Cristo e o colosso espanhol - apenas o maior clube do mundo - o resultado parece ser lisonjeiro. Acontece que o golo surgiu no último minuto, por via de um peru monumental do guarda-redes Marco. No resto do jogo, o Belém teve as melhores oportunidades, falhando algumas com uma displicência arrepiante.
Ocorreu-me isto depois de ouvir as palavras de novo treinador madridista, Bernd Schuster: segundo o técnico alemão, o Belenenses limitou-se a defender, a fazer um ou outro contra-ataque, e o Real facilmente poderia ter resolvido o jogo, se tivesse querido.
Compreende-se: Schuster, muito bom jogador nos anos oitenta, tinha, e parece que ainda tem, uma falta de estofo psicológico incrível. Quando o Barcelona, onde jogou, perdeu a final da Taça dos Campeões em Sevilha, em 1986, contra o Steaua de Bucareste, teve um trauma tal que nunca mais jogou da mesma forma. Agora, depois de ter treinado o Getafe, acaba de ser contratado pelo Real para ser técnico principal, em lugar de Fabio Capello, que até se sagrou campeão. Colocar este tipo irritante, que usa desculpas esfarrapadas para justificar os maus resultados da equipa, como treinador do Real Madrid, em substituição de um dos melhores do mundo, para mais campeão, mau grado os seus caprichos e resmungos, é um tiro no pé como raramente se vê. Infelizmente não dou nada pelo Real do próximo ano. Mas pelo menos haverá a suprema possibilidade de se ver o Princípio de Peter magnamente aplicado.

domingo, agosto 05, 2007

Chamem-me inimigo da liberdade

Chamem-me de "inimigo da liberdade" ou qualquer coisa parecida. Mas para mim, aquelas caricaturas obscenas dos Príncipes das Astúrias ultrapassaram um limite para além do suportável. Não sei se a apreensão das publicações terá sido a melhor das ideias, mas uma coisa daquelas não podia ficar impune. Não acho que a liberdade de expressão tenha de ser ilimitada, já que mais nenhuma o é. E por mais figura pública que seja, e possa ser alvo de críticas e de sátiras, os Príncipes representam a Coroa e merecem um mínimo de respeito, coisa que não sucedeu neste episódio. Acresce que se fizessem o mesmo ao editor ou director da tal revista Jueves, alguém se indignaria se pusesse os autores da graça em tribunal?

E para os interessados, também achei ridículas as caricaturas de Maomé naquele jornal dinamarquês. Não as reacções com incitamentos à morte, nem às pilhagens subsequentes; mas os ofendidos podem sempre recorrer aos meios judiciais. Há muito que assim é, mas parece que a admiração vem de agora. Como se a liberdade de expressão não violasse igualmente outros valores tutelados pelo direito; é essa a máxima prova de que não é ilimitada e absoluta.
Aliás, ainda há bem pouco tempo, uma instância judicial condenou o colunista Augusto M. Seabra por ter chamado "energúmeno" a Rui Rio. Não houve qualquer protesto de "limitação de liberdade" nem reacção de indignação a esta sentença, e no entanto, perante os termos em causa, fica-se com a sensação de que esta pecou por excesso.
Claro que não defendo a prisão para os que se divertem a achincalhar os outros na praçapública. simplesmente, se tomarmos a livre expressão como um direito absolutíssimo, as consequências que daí adviriam seriam bem mais gravosas. Não creio mesmo que face a algumas situações concretas, ninguém aprovaria tal coisa.
Outro assunto que passou na comunicação social e atiçou comentários idênticos foi o caso da exoneração da direcora do Museu de Arte antiga. Parece que a senhor deixou trabalho de monta, com resultados visíveis. Não me custa a acreditar, até porque este ano passei por lá mais do que uma vez e gostei do que vi, como aquela exposição de arte medieval polaca. Parece no entanto que a mesma directora veio publicamente discordar das novas leis orgânicas do Governo, queixando-se da falta de autonomia finaceira do Museu e demonstrando as suas discordâncias face às opções governamentais. Tais atitudes valeram-lhe a demissão, o que levou a um abaixo-assinado solidário de várias figuras da vida cultural, e largas colunas de opinião queixando-se que tinha sido despedida por "exprimir apenas uma opinião diversa", da crescente falta de liberdade na Administração pública, no "clima estalinista", Etc. Ora como disse Vasco Pulido Valente num dos seus mais sensatos artigos desde há muito, o que estava em causa não era a liberdade de expressão da directora, mas sim os seus deveres perante a tutela e a obrigação de não desautorizar as hierarquias, como aconteceu quando resolveu ir para os jornais afrontá-las. O seu cargo implicava uma responsabilidade que implicava alguma contenção. Ao discordar do modelo oficial e exigir outro, coisa que não lhe cabia decidir, só se podia optar pela sua saída. Não se lhe impôs que aceitasse ideias diferentes das que tinha, mas uma vez que como directora das Janelas Verdes acatá-las-ia de má vontade, provocando algum mau-estar no seio do Ministério, forçosamente teria de seguir caminhos diferentes. Em qualque empresa aconteceria sempre algo de semlhante (e sim, isto aplica-se aos que acham que o Estado não pode intervir na cultura). É que "liberdade de opinião" não significa anarquia ou desobediência porque sim. Liberdade implica sempre responsabilidade pessoal, por muito que esta máxima esteja velha, gasta, e dê para qualquer ocasião.
Pêsames coincidentes

Por acaso já ocorreu um caso parecido com o dos dois realizadores desaparecidos nos últimos dias. Lembro-me de alguém, em inícios de 2003, desejar que Gregory Peck e Katharine Hepburn continuassem entre nós, para provar que eram realmente imortais. Pois em Junho desse ano morreram os dois, com 15 dias de intervalo. Não é a mesma coisa que acontecer tudo num dia, mas parece demonstrar que há épocas especiais de luto por grupos de personalidades, e raramente por uma só. Uma estranha escolha de épocas a dedo divino, é o que parece ser.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Agosto
Em Agosto, zarpo para o sítio do costume, que de ano a ano, se cobre ainda mais de tédio. não é que tenha grande vontade, mas por agora não vejo muitas mais opções de fuga. Fiquemo-nos para já por aqui, à falta de melhor, entre a nortada e a nebulosidade.
Bergman e Antonioni

Será possível que dois dos maiores realizadores europeus de sempre desapareçam no mesmo dia, com 12 horas de diferença? Ao que parece, sim.
Não sei se existe um dia mundial do cinema, já que há de tudo o resto. Mas se não houver, proponho que a partir de agora seja a 30 de Julho, como justa homenagem a dois homens que desde anteontem se tornaram definitivamente mitos.
PS: apesar de tudo, reconheço que não vi mais do que dois filmes de cada um destes cineastas. Mas que importa isso?

segunda-feira, julho 30, 2007

Diz o roto ao nu



Madeira: PSD critica "linguagem trauliteira" de Santos Silva contra Marques Mendes

De facto, não há mesmo melhor exemplo do que a Madeira para se falar em truculências. Terá Marques Mendes fingido que não esteve no Chão da Lagoa, rodeado por Alberto João Jardim e Jaime Ramos, os trauliteiros-mor da política? Ou será isto o "politicamente verdadeiro" que defendeu aos gritos, tentando em vão entrar no espírito da coisa?
Zahir Shah

Morreu o último Rei do Afeganistão, Mohammed Zahir Shah, aos 92 anos. Conservava apenas o título honorífico de "Pai da Pátria", atribuído por Karzai e pela Loya Jirga. Shah, da etnia pashtun, educado em França e falando persa como língua materna, reinou durante 40 anos no Afeganistão, na altura um país arcaico e pobre, mas bem mais pacífico do que hoje, local exótico por excelência e ponto de passagem para psicadélicos.
Com a sua queda, sobreveio o caos: governos ditatoriais, regimes marxistas, a invasão soviética e a penosa guerra que durou 9 anos, uma república islâmica, os Talibans e o seu "emirado" de trevas, e a invasão das forças internacionais, com o periclitante governo de Cabul. Só aí velho Rei pôde enfim voltar ao seu país, sem que contudo tivesse havido uma solução como no Cambodja.
No Expresso desta semana, José Cutileiro falava no pacífico reinado de Zahir Shah. Não se referiu a contudo um episódio que se passou há uns 15 anos, através do qual ouvi falar pela primeira vez do Rei. No seu exílio em Roma, Shah recebeu um dia a visita de um pretenso jornalista português, que o pretendia entrevistar. No fim da entrevista, apresentou-lhe um punhal, supostamente uma prenda, e tentou matar o ex-soberano. Quase por milagre, a cigarreira que Zahir Shah trazia no bolso interior do casaco aparou o golpe. Os guardas acabaram por acorrer, alertados pelo barulho de luta. O "jornalista" era Paulo José de Almeida Santos, que se convertera ao Islão anos antes, com o nome de Abdullah Yusuf, visitara o Paquistão e Afeganistão e os seus campos de treino e se envolvera com os radicais muçulmanos que formariam mais tarde a Al-Qaeda. O assassinato do Rei era a missão de que estava incumbido por ordem do próprio Osama Bin Laden.
Zahir Shah sobreviveu a essa tentativa de assassinato, a golpes de estado e a alguns acidentes domésticos nos últimos anos, e depois do seu longo exílio acabou os seus dias em Cabul, no palácio presidencial, com as honras do soberano que fora.

quinta-feira, julho 26, 2007

A partida de Simão
À terceira (ou mais) acabou mesmo por ser de vez: Simão Sabrosa sai do Benfica rumo ao estrangeiro. Pena que seja para um Atlético de Madrid mediano e não para um Liverpool ou Valência, que já estiveram no seu caminho. Mas o ex-capitão preferiu vestir-se com o equipamente do colchão, que se há de fazer? Em troca vêm 20 milhões de Euros e dois jogadores, esperando eu que um desses não seja Costinha. Quanto a substitutos, fala-se de Daniel Carvalho e Freddy Adu; daqui a umas horas se saberá. Por mim, e uma vez que sem Sabrosa (e Micolli e Karagounis) ganhar títulos será ainda mais complicado, apostava em Fábio coentrão para o seu lugar; como é um jogador de 20 anos que veio agora do Rio Ave, na melhor das hispóteses só daqui a uns dois anos é que explodirá. Até lá, trabalhe-se e aproveite-se o dinheiro para melhorar as finanças do clube.
Quanto a Simão, não esqueço nestes seis anos, os jogos em que o vi ao vivo , nos quais se conta a sua lesão grave num jogo particular contra a Finlândia, o último derby na velha Luz, os golos com que vencemos o Leixões para a Taça, o penalty decisivo contra o Paris Saint Germain, esta época, e, claro, o jogo em que ganhámos o título no Bessa; e ainda o golo decisivo na final da Taça de 2004, os golos contra Manchester e Liverpool na época passada, as assistâncias, o enrome espírito de sacrifício bem patente na época do título, em que jogou todos os minutos do campeonato, etc. Não esqueço nada disso e a forma como exemplarmente representou o clube duante estes anos. Só lhe posso agradecer, desejar-lhe um grande bem haja e toda a sorte do mundo em Madrid. Ele merece. Os grandes capitães não são facilmente esquecidos no Terceiro Anel.

quarta-feira, julho 25, 2007

Eleições na Turquia
Parece que a enorme vitória de Erdogan nas legislativas turcas espalhou o pânico entre uma data de comentadores da nossa praça - da europeia, pois claro, que isto já não vai só entre os limites do rectângulo. Refiro-me apenas ao que dizem os jornais e os bloggers. Naqueles que o P2 do Público revela diariamente, então, o medo é mais que muito. E os disparates também. Fala-se em "avanço do fundamentalismo islâmico", confronto com os valores "laicos e republicanos da Europa" (até parece), e há mesmo uma sumidade que afirma que a culpa disto é toda da Europa "herdeira do internacionalismo comunista", assim como o problema do Kosovo, "ao contrário dos Estados Unidos" (esses não têm mesmo culpas no Kosovo).
Convinha no entanto recordar que Erdogan é talvez o primeiro-ministro turco mais europeísta das últimas décadas, e que durante o seu consulado foram aprovadas normas bem mais próximas dos valores europeus do que o "laicismo"; a abolição de pena de morte, por exemplo. Não será pior pensar também que o seu Partido do Desenvolvimento e da Justiça é o correspondente aos partidos conservadores/democratas-cristãos europeus. É daqui que vem mal ao mundo? De um primeiro-ministro que deseja ardentemente que o seu país adira à UE? Ou que revele que a sua mulher está proibida de usar o véu em cerimónias oficiais?
Também não será pior recordar que o tal laicismo turco tem a tutela das forças armadas, que ameaçam intervir quando há a mais pequena nuvem de islão no ar. E que é herdeirto do estado autoritário e centralizado fundado por Ataturk, e que de democrático tem muito pouco.
Tenho uma certa admiração pelo "Pai dos Turcos" e pela sua acção modernizadora, e tenho muitas reservas em ver a Turquia na UE. Mas isso não me impede de reconhcer que o movimento de Erdogan é, por ora, muito mais próximo da democracia que os tronitruantes herdeiros do autoritarismo kemalista e seus defensores deste lado do Bósforo, que acham que religião é igual a fanatismo e que os muçulmanos são todos uns potenciais bombistas de adaga em riste. Erdogan está de parabéns: conseguiu vencer de forma esclarecedora e tem mais um mandato para mostar o que vale. Se esticar a corda, as urnas dar-lhe-ão novo destino no próximo acto. Mas não o exército ou ou os praticantes de agit-prop que defendem o laicismo rígido enquanto se agarram à bandeira do Crescente.
Sinais de declínio

Ainda outra coisa relacionada com as eleições da CML (o hiato entre artigos leva-me a estes atrasos) e que demonstra bem o declínio do CDS-PP: já se sabe que de todos os líderes do partido, só restam Portas, Ribeiro e Castro e Adriano Moreira - e estes últimos retirados. Dos candidatos que o CDS já apresentou à Câmara de Lisboa, só já lá está Portas e Telmo (não sei quem candidataram em 1976). Abecassis, à frente da edilidade durante os anos oitenta, já morreu; Pedro Feist e Maria José nogueira Pinto desvincularam-se e até apoiaram outros candidatos; Marcelo Rebelo de Sousa e Ferreira do Amaral, que chefiaram mini-ADs, são do PSD. Por aqui se vê a enorme sangria daquele partido e se percebe o porquê da diminuição da sua base eleitoral, sobretudo a nível local.

sexta-feira, julho 20, 2007

Saramago e o Iberismo
De vez em quando, José Saramago vem com os habituais remoques ao país que o viu nascer e acena com comparações espanholas. Agora diz que Portugal se vai tornar numa província castelhana, mas conservar a mesma língua. Percebe-se. como comunista que é, e pertencendo a um dos mais ortodoxos PCs que há na Terra, Saramago é um internacionalista, como era a URSS que absorvia tudo quanto era Geórgia, Lituânia ou Besarábia, ou então criava satélites de estrela na bandeira. O nacionalismo é brnadido apenas como arma de arremesso contra os inimigos, em casos pontuais. Já a língua interessa conservar-se já que esta, como lembrou Manuel Alegre, é que permitiu que o autor ganhasse o seu Nobel.
Acontece que além de parecer ignorar que já há uma UE que inviabilizaria (ou inutilizaria) a perda da independência, Saramago também acha que as pessoas se esqueceram da História e dos seus exemplos. Ou ele é que não a conhece. Também se nos lembrarmos dos projectos de Olivarez para transformar Portugal numa mera província, gorado pelo 1 de Dezembro, pelo apoio às invasões francesas com o fito de nos deitar a mão, com as derivas iberistas do Sec. XIX, com o projecto de formar uma República Ibérica Soviética (provavelmente o escritor tirou a ideia daqui e quer recuperá-la), ou depois, de alguns meios franquistas, transformando a história para justificar uma Espanha peninsular; recordando tudo isso, veremos como passaríamos rapidamente a uma Galiza do Sul, e não a uma componente da Ibéria. É que um país e uma pátria não se forma por meras razões economicistas ou de circunstância, como parece depreender-se dos pobres argumentos dos iberistas, que acham que só com uma união a Espanha afastaríamos a "vil tristeza", revelando assim a sua própria fraqueza. Aliás, pergunto-me se todos esses defensores da absurda fusão têm ideia do que era Espanha até há vinte anos, se leram as comparações entre os dois países feitas por Hans Christian Anderssen e outros autores, se tomariam parte nos problemas políticos que subsistem desde a Guerra Civil. Se o soubessem aposto que os tais sentimentos iberistas iam às malvas.
Quanto a Saramago, é não ligar. Se o homem quiser mesmo muito, bem pode pedir a nacionalidade espanhola. Mas ele que tenha cuidado, porque independentistas também os há nas Canárias.

segunda-feira, julho 16, 2007

Eleições em Lisboa

Vencedores: Costa, de forma pírrica; Carmona e Roseta, com poucos meios, tiveram quase 30% dos votos. Garcia Pereira, que com 1,6% dos votos ficou bastante À frente dos outros "pequenos", o que demonstra bem o quanto é conhecido.

Perdedores: Negrão e o PSD de Marques Mendes, acima de tudo; Portas e Telmo; Manuel monteiro, uma vez mais votado à indiferença; quase todos os restantes pequenos partidos.

Normais: Sá Fernandes e Rúben de Carvalho.

Conclusões:
- com um lampejo de sol, as pessoas marimbam-se para os votos e a "classe política".

- O PSD perde aquela que tinha sido uma das principais bóias dos últimos anos: a câmara de Lisboa. Menezes & Cª já devem amolar as facas.

- Confirma-se que a estratégia da reconquista do CDS à bruta e o "novo pragmatismo" de Portas não convencem quase ninguém (tal como Telmo). que teria acontecido se Ribeiro e Castro e Nogueira Pinto tivessem ficado?

- Ser "independente" é só por si uma fórmula que atrai votos.

- Usar a artilharia toda e arrebanhar gente de todos os quadrantes para conquistar a CML com menos de 30% dos votos pode ser considerado um objectivo alcançado, mas dá a ideia queos últimos tempos têm desgastado o PS, que terá enormes dificuldades para pôr a câmara em ordem.

- Que maiorias para Lisboa?Por muito que lhes custe, o PS e Carmona estão obrigados a entender-se. Juntos conseguem a maioria absoluta, e Carmona terá aqui a oportunidade de dar uma outra imagem na câmara. Conta igualmente com Pedro Feist (outro ex-candidato do CDS), alguém com experiência e com um mínimo de sentido municipal.

domingo, julho 15, 2007

Lembrando-me outra vez das maravilhas de Portugal

Tendo em conta que Lisboa vem sempre primeiro, e mesmo que pensemos que a Torre de Belém e os Jerónimos já preenchiam a cota de candidatos municipais ao galardão, porque é que
estes não eram igualmente candidatos?

terça-feira, julho 10, 2007

A minha ideia dos candidatos

Não voto em Lisboa. Não dei toda a minha atenção à situação que levou à queda da edilidade da capital e à convocação de eleições antecipadas, nem às confusões para a marcação da data. A escolha dos candidatos pareceu-me mais interessante (sobretudo porque são muitos), e alguns planos também. A campanha tem sido morna, talvez por causa da falta de paciência dos lisboetas para votos.

Quase não vi o debate entre os 12 candidatos, que de resto me pareceu mais justo do que a 7, sem exclusões, por isso deixo aqui a impressão que já tinha de cada um.



António Costa é um candidato forte graças ao seu peso no PS e no Governo, e ao facto de ser conhecido do público. Teve como única experiÊncia autárquica a candidatura (e derrota) à câmara de Loures, em 1993, em que ficou conhecido pela rábula do burro e do Ferrari. Não se lhe conheciam anteriormente ideias para Lisboa, pelo que dá toda a impressão de se estar a fazer ao célebre "lugar-trampolim". até porque dificilmente não ganhará.



Fernando Negrão: uma segunda escolha, talvez chamado pela seriedade e honestidade por que é conhecido, para contrastar com a obscuridade dos negócios dos últimos anos da CML. Revelou total impreparação para a candidatura. Adivinha-se uma derrota pesada, mas "honrada", como em tempos Macário Correia. Daqui a uns anos chamam-no de novo para Setúbal.

Carmona Rodrigues: podia ter feito uma sólida e prestigiada carreira académica, mas meteu-se nisto, e só por birra ou orgulho ferido é que se candidatou. Pelo que vi, caíria nos mesmos erros, mas reúme surpreendente apoio.

Helena Roseta: como Bastonária do Ordem dos Arquitectos e pela sua anterior experiência na câmara de Cascais, é mais uma experiência para testar se o MIRC consegue segurar os votos de Alegre do que uma candidatura com reais possibilidades de ganhar, o que se vê pela campanha algo miserabilista. Interessante de início, sofreu alguma atabalhoação a certa altura, e tem vindo a perder fulgor.

Ruben de Carvalho: o responsável pela Festa do Avante era o candidato esperado. Serve sobretudo para segurar o eleitorado CDU. Campanha discreta, salvo pelos inúmeros carros de som que percorrem Lisboa a toda a hora.


Telmo Correia: uma escolha do aparelho portista, que como se sabe e o próprio Portas, de quem o candidato é um clone apagado. Como tal, não parece ter ideias próprias e as suas propostas são previsíveis e escassas. Tenta segurar um lugar na vereação, mas arrisca-se a não o conseguir, o que revelaria que o regresso à maluca de Portas e a campanha visando o Governo não dão grandes frutos.

José Sá Fernandes: será útil se permanecer como vereador (coisa que não está garantida), mas cai por vezes no populismo. A campanha do "Zé que faz falta" é sinal disso mesmo. Reúne o apoio de alguns ex-PPMs (do autêntico), por causa da questão dos corredores verdes.

Manuel Monteiro: candidatura para mostrar que o PND "está lá", apesar de viver em Matosinhos. A ideia de trazer o bonceo Manuel Bexiga para Lisboa é despropositada. Não será certamente eleito, mas não seria pior se o ouvissem por vezes.

Garcia Pereira: um candidato experiente (deve ser a 298ª candidatura), praticamente a única cara do MRPP. Conhece os problemas, mas apresenta um megalómano plano do "grande porto, grande aeroporto, grande centro turístico". Ainda mais?

José Pinto Coelho: as ideias para a segurança são minimalistas e não são de grande confiança. A ideia da "Lisboa Branca" é perfeitamente disparatada. Desde quando é que, tirando a arquitectura, Lisboa é uma cidade só de gente branca? Quando era Olissipo?

O deputado Quartin Graça, do MPT, tem pouca visibilidade, tal como o seu partido, no qual até já votei. Falta de meios e ideias que se confundem com as de outros candidatos contribuem para isso.

Gonçalo da Câmara Pereira, do neo-PPM: a candidatura patética por excelência, para dar o toque de humor sempre necessário. Um candidato que diz que quer dar um barquinho à vela a cada criança, que governar a CML é como "governar a casa", e que além disso está confiante na sua maioria absoluta não pode ser levado minimamente a sério.

segunda-feira, julho 09, 2007

Começaram as Sanfermines


Monumentos à parte, começou no Sábado a grande festa anual de Pamplona: a de Sanfermin. Um dos meus velhos sonhos de viagem, é exactamente ir às Sanfermines, mirar os temerários que acompanham a corrida dos touros pelas ruas da cidade, entre o redil e a arena, depois das habituais preces no nicho do santo; estar na praça municiapal, no momento da largada do "Chupinazo" que dá início às festividades, entre milhares de "pamploneses e pamplonesas" e de muitos estrangeiros, atraídos a Navarra pela "bíblia" do evento, Fiesta, de Hemingway; e experimentar eu próprio, depois do estudo prudente da coisa, correr à ilharga dos touros, de camisa branca e faixa vermelha à cintura, entre todos os loucos ou destemidos que entre os animais fazem prova da sua bravura num ritual com séculos.

Ou por falta de tempo, ou de companhia, ou provavelmente de instalação (um milhão de visitantes não é fácil), nunca concretizei essa experiência quase única. Este ano a coisa passou de novo ao lado. Mas um destes Julhos hei de lá ir, enquanto puder correr bem e as PETAs e outros "amigos dos animais" não conseguem proibír definitivamente as velhas Sanfermines.
Maravilhas duvidosas

Acompanhei o espectáculo das "Novas Sete Maravilhas do Mundo" e das "7 Maravilhas de Portugal" pela televisão, e não posso deixar de dizer quea coisa correu bastante bem quanto à organização e à festa propriamente dita. Já sobre as escolhas a coisa fia mais fino. No segundo grupo, quem não conhecer Portugal fica com a ideia de que o que interessa visitar a nível monumental está concentrado em apenas dois distritos do centro, com uma ilha identitária mais a Norte. O Castelo de Guimarães percebe-se apenas por motivos simbólicos, até porque se trata sobretudo de uma reconstrução. Entre a Batalha e Alcobaça, preferia que tivesse ganho apenas um, muito embora tenham histórias e estilos arquitectónicos diversos. Óbidos não merece mais do que Marvão ou Monsaraz, e em Belém haver duas escolhas é excessivo. Podiam ter apostado no conjunto manuelino. E assim ficaram de fora as minhas escolhas, que incluíam por motivos pessoais, o Palácio de Mateus e a Igreja de São Francisco.

Já quanto à Maravilhas do Mundo propriamente ditas, não fiquei também muito convencido. O Cristo Redentor? Só se explica mesmo por campanha dos brasileiros, senão bem podiam pôr o Cristo Rei de Almada. Se ainda fosse o Rio de Janeiro por inteiro...

Chichen Itzá também deverá a sua escolha por igual campanha. Vamos crer que é uma homenagem às velhas pirâmides de Gizé. não duvido da monumentalidade de Petra, mas não estava à espera desta. Até se aceita. Assim como a Grande muralha, o Taj Mahal e Machu Picchu (embora a ideia de atraír mais turistas à cidade andina, a ser verdade, seja insensata). O coliseu é o representante da Europa (já repararam que a América do sul tem três?) Os romanos legaram afinal uma "Maravilha do Mundo Moderno" sem provavelmente terem imaginado que mereceria tal galardão.

Fiquei com pena que outros não tivessem sido os contemplados. Em lugar do Redentor, a Estátua da Liberdade (porquê os assobios, Santo Deus?) seria mais apropriada, até porque, altiva e com o facho resplandescente, recorda outra Maravilha da Antiguidade, o Colosso de Rodes. O Potala, em Lhassa, nem sequer entrava como candidato. Mas a minha maior tristeza é que não tenha sido eleito um outro símbolo da antiguidade, marco da civilização ocidental e muito querido cá neste blogue, além de esticamente impressionante, não obstante o passar do tempo e as vilanias de que viu alvo. Isso mesmo: a Acrópole.

Como prémio de consolação, o evento realizou-se num recinto majestoso, que dada a sua monumentalidade e toda a carga gloriosa de que se reveste, poderá ficar a ser considerado, por inerência, como a oitava maravilha.

quarta-feira, julho 04, 2007

Festival

É sempre complicado o dia que se segue a um multi-concerto rock, quando há uma boa surpresa chamada Magic Numbers; um espectáculo morno muito em volta da voz e do carisma do vocalista (Bloc Party); e uma fantástica hora, de festa, de comunhão entre a banda e o público, de riqueza instrumental, com momentos mágicos a meio - Rebellion (Lies), pois claro - dada pelos Arcade Fire. Está colmatada enfim a enorme perda do concerto da banda canadiana em Paredes de Coura. Deste meu meu primeiro SBSR não tenho pois razão de queixa.








(Uma curtíssima visão dos espectáculos, no Estado Civil, e a crónica do dia, na Blitz, com uma visão dos acontecimentos praticamente igual à minha).
Lei do Tabaco

Podem chamar-lhe recuo, lei medrosa, cedência ao lobby das tabaqueiras (como se não houvesse outros em sentido inverso), etc. Mas a lei do tabaco recentemente aprovada na generalidade é muito mais sensata do que se esperava há uns tempos atrás. Segue a vizinha espanhola, e não a rigidez proibicionista dos EUA ou de países do norte da Europa. É um dos tais casos em que de Espanha veio "bom vento" sem precisarmos de ir a correr atrás dos modelos dos "países civilizados".
Que em locais realmente públicos não se possa fumar é um dado aceite por todos, menos por alguns inveterados do tabaco. Tenho algumas dúvidas quanto ao fim dos comboios sem carruagens para fumadores, porque os corredores onde tal é permitido ficam empestados, mas não me parece chocante. Nos aviões a tolerância zero parece-me uma imposição abusiva, até porque deixou de haver a filtragem constante de ar renovado, o que aumentou muito o risco de doenças. Na generalidade dos edifícios administrativos e nas escolas parece-me normal - nas universidades é mais discutível, porque não estamos a falar exactamente de criancinhas em fase de desenvolvimento da vontade - e nos hospitais nem se fala.
A questão dos bares, restaurantes e discotecas era tão simples quanto isto: não são lugares públicos, mas privados. Têm um proprietário que não o Estado, a autarquia ou demais Pessoa Colectiva Pública. Querer obrigá-los a proibir o fumo em sua casa não lembra ao diabo. No máximo, criar regulação sobre arejamento dos estabelecimentos (como acho que é o que se prevê agora). Pior do que isso, a regra da denúncia de quem fuma em tais estabelecimentos parece-me absurda e perigosa. Uma "chibaria", como outro dia ouvi dizer ao dono de um café atrás do balcão.
É afinal a livre escolha de estabelecimentos com ou sem fumo que se a lei consagra. Claro que já surgiu um rol de críticas ao "recuo na luta anti-tabaco": "gente covarde", que "recuou perante as grandes tabaqueiras", "nunca protege os não-fumadores" ( pode-se mesmo fumar em toda a parte), "lá temos de apanhar com o fumo dos outros na cara" ou mesmo que "se vir a alguém a fumar ao meu lado vou-lhe à cara" (palavra de honra que vi isto escrito num fórum qualquer). Provavelmente não se deram conta que não têm de apanhar fumo na cara se forem para um estabelecimento que o proíba (e que isso não é consequência apenas de fumar, mas de fumar sem cuidado). Ou que os estabelecimentos em questão não são de frequência permanente ou contínua. Os bares e as discotecas, sobretudo, são locais de lazer e divertimento, não exactamente espaços para tratar da saúde (excepto talvez para os que querem bater nos fumadores). Aí, a lei mais restritiva não seria somente abusiva, mas patética e paradoxal.
Resta o problema das pessoas que trabalham nesses estabelecimentos. Os seus proprietários devem obviamente pensar no assunto. Mas deve-se igualmente lembrar que muitos desses espaços só estão abertos à noite e durante alguns dias da semana. É um caso a pensar, mas que já não cabe neste post.

domingo, julho 01, 2007

No Martini, no party.

George Clooney está em todas. Depois de Nespresso man, vimo-lo como novo Martini Man (num anúncio que de tão repetido já chateia), trocando uma beldade - Zetta Jones? - e um iate por um caixote de Martinis. Mais dois anúncios com a Martini se preparam, mais animados e mexidos, sendo que um parece ser a continuação do outro. No Martini, no party, é a frase deordem, que promete encafuar-se na memória.