sábado, setembro 08, 2007

Benfica desta época: atribulações e esperanças
Desde Julho que a equipa de futebol do Benfica tem sofrido mudanças bruscas no seu rumo. a coisa até começou bem, com a venda de alguns jogadores a mais, como Carlitos, Beto, Manduca ou Amoreirinha. Mas as saídas de Micolli e Karagounis foram bem menos positivas. A notícia da ida de Simão para o Atlético de Madrid apanhou todos (mais ou menos) desprevenidos. Os vinte milhões e tal eram generosos, mas a despedida do capitão e melhor jogador dos últimos seis anos é sempre dolorosa, sobretudo se sair para um clube menor. Mas a coisa ultrapassava-se, e rematou-se logo com a compra de Di Maria + Diaz e da promessa Freddy Adu. Os jogos da pré-época não eram grande coisa, mas com tempo e preparação ia ao sítio.
O problema é que na véspera do jogo da pré-eliminatória para a Liga dos Campeões, com o Copenhaga, Manuel Fernandes, um dos grandes "reforços" e jogador vital para o meio-campo benfiquista, bateu com a porta, deixando a equipa coxa e obrigando Rui Costa a marcar dois golos de raiva contra os dinamarqueses.
Com lesões à mistura, a afectarem o carenciado sector da defesa, o Benfica começou o campeonato com um empate frente ao Leixões, no último minuto, que parece ser sina de Fernando Santos. Dois dias bastaram para que o técnico, já sem a protecção de Veiga, fosse exonerado de funções e substituído pelo regressado Camacho, que desde a saída em 2004 tinha deixado um certo sentimento sebastianista nos adeptos.
Claro que os métodos e as estratégias de jogo variam consoante os técnicos, e o espanhol começou com um empate frente ao Guimarães, na Luz. Mas a vitória em Copenhaga, num misto de sorte, espírito de sacrifício e incompetência dos avançados dinamarqueses, catapultou o Benfica para a liga milionária, e devolveu o optimismo, acentuado com o expressivo triunfo por 3-0 em casa do Nacional.
Com a paragem por causa da Selecção, é tempo de recuperar os lesionados e de fazer descansar os esgotados. E de pensar. Com tantos reforços, entre o avançado "Tacuara" Cardozo, os novos uruguaios , Zoro, Butt, Bergessio, etc, conseguirá o Benfica montar uma equipa sólida e vencedora e chegar ao título? Com Camacho, apesar das limitações técnicas, tudo é possível. Há ainda a Taça de Portugal, a nova da Taça da Liga, e, claro, a Liga dos Campeões, onde vamos enfrentar o campeão Milan, nossa bête noire nestas andanças, o sempre "empata" Celtic, mais uma vez, e o Shaktar Donetsk, que gastou cerca de sessenta milhões de Euros (!) em contratações.
Espera-nos uma época complicada e incerta, causada pelas entradas e saídas de jogadores para lá do tempo devido, e pela mudança de treinador. Só agora é que a pré-época se acaba. Oxalá as lesões não se repitam e a coisa acabe bem.

sexta-feira, setembro 07, 2007

O sucesso da Air Race

 
E a corrida de aviões patrocinada pela Red Bull acabou mesmo por ser um sucesso: centenas de milhares de pessoas nas margens do rio, um tempo quente de Verão, uma competição vibrante entre os vários aviões que ziguezaguearam no Douro, e não houve qualquer acidente.
Como no sábado não estive no Porto, não pude ver a corrida propriamente dita in loco; mas na Sexta ainda vi as provas de qualificação, da rua da Restauração. As manobras arrojadas, os loops e a velocidade sobre a água, no cenário das margens do Douro entre pontes tinham uma beleza estética considerável. A prova em sim, se se não estivesse a par dos tempos realizados, acabava por se tornar um pouco monótona a partir de certa altura. Provavelmente teve-se uma melhor percepção da corrida através da televisão do que ao vivo.
Já tinha ouvido falar do evento aí por alturas da Páscoa, quando surgiu a meio de uma conversa sobre as corridas do circuito da Boavista. Estava previsto que os aviões passassem por baixo do arco da Ponte Luíz I, mas por razões de segurança, encurtaram os trajectos; não deixaria de ser um espectáculo notável se tivessem podido fazer isso, relembrando os tempos épicos da aeronáutica do entre-Guerras. De qualquer forma, parece-me que a Air Race terá tido mais sucesso e atraído mais gente do que as corridas de carros da Avenida, até pela sua dimensão mais megalómana, beleza estética e pelo efeito novidade. Para o ano, o impacto será menor. Ainda assim, esta ideia de pôr o Porto no mapa deste tipo de eventos é bastante louvável e trará certamente alguns dividendos em termos de visibilidade da cidade (e de Gaia, já agora). E o espectáculo valeu a pena!

Já agora, diz-se que as corridas de clássicos passarão a realizar-se não já na Boavista, mas em Vila Real. Já em Outubro regressarão ao velho cenário transmontano mais corridas de carros, mas com os atrasos nos preparativos e com as alterações feitas no circuito (rotundas, sentidos proibidos) não sei como vai ser.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Obituário

Há já uma semana que morreu Eduardo Prado Coelho. Surpreendi-me bastante com esse desaparecimento, até porque a doença que o afectava não parecia letal (ainda que grave), apesar das sucessivas interrupções do seu artigo diário no Público e do ar patibular que tanto o modificou. Acabou no entanto por ser um ataque cardíaco o causador da sua morte.

Eduardo Prado Coelho era o típico "intelectual de esquerda", a quem só faltava mesmo o cachimbo. Recordava frequentemente os anos de Paris e utilizava por vezes um jargão filosófico sobre as suas referências pouco acessível ao comum dos leitores. Mas andava frequentemente entre os comuns mortais, e fazia gala disso. Não raras vezes os seus artigos incidiam sobre as suas pequenas obsessões e prazeres: a qualidade das salas de cinema, os produtos de beleza, os pastéis de nata, o Sporting, as telenovelas, e muitas outras coisas. Ainda no último ano publicara um álbum, intitulado "Nacional e Transmissível", onde constavam outros elementos das suas vivências, como os cafés lisboetas.

Os seus artigos incidiam sobre uma panóplia de assuntos, sobretudo filosóficos e políticos. Nos últimos verificava-se uma enorme concordância com as políticas do actual governo, com algumas críticas pontuais, sendo o último Ai, Simplex imagem disso mesmo. Como quase sempre,. EPC teve sempre esse oportunismo político, desde a sua ligação ao PC, passando pelo apego ao cavaquismo, e até aí se notava o seu cunho de intelectual afrancesado, qual Jacques Lang sem poder.

Que me lembre, vi-o só uma vez, numa série de conferências na Bolsa. Apesar de alguma irrritação que certos artigos do "Almôndega" (assim era conhecido nos tempos de faculdade) me provocavam, outros havia que eram imperdíveis. Admira-me aliás o imenso coro de homenagens que lhe fazem agora. Sempre o vi como um homem criticado por tudo e todos, de forma exagerada e por vezes maldosa, principalmente pelo seu francesismo, que como se sabe não está na moda, e caricaturado como o representante intelectual Rive Gauche em Portugal. Mas já se sabe que a morte produz milagres de opinião e honrarias. Assim, serei obrigado a concluír com o que outros disseram: deixa inequivocamente um lugar vago na cultura e na opinião portuguesa; e sim, fará muita falta ao panorama intelectual e jornalístico. Jamais reabriremos o Público sem nos lembrarmos do omnipresente O Fio do Horizonte. Um espaço em branco não apenas presumido, mas bem visível.
Já agora, assinale-se também outro desaparecimento de outro homem da cultura, mas da pop, e de Manchester: Tony Wilson, mentor dos Joy Division, New Order, Happy Mondays, da Haçienda e da Factory, e amigo de Miguel Esteves Cardoso. Conheci-o, como muita gente, no filme 24 Hours Party People. Um belo documento, aliás, para quem quiser conhecer a sua obra entre os anos 70 e 80, o urbano depressivismo e a loucura da Rave e do Madchester.



quarta-feira, agosto 29, 2007

O piroso nome escolhido pelos anarco-eco-pantomineiros mais mediáticos do momento, Verde Eufémia, podia muito bem dar o mote para outras inspirações. O PSD mais saudoso de Manuela Ferreira Leite, por exemplo, nesta luta de galos entre Mendes e Menezes, podia lançar o Laranja Ferreira. Os conservadores-liberais portugueses, sem grandes tradições femininas no nosso país, sempre podiam criar o Blue Thatcher; os comunistas, perdida a referência de Catarina de Baleizão, avançariam com a Rubra Odete (ou Ilda, apesar da cacofonia); e o PS, como forma de atraír os votos da comunidade emigrante, faria uma gracinha e criaria a sua secção Rosa Luxemburgo. Tais inspirações femininas coloririam a vida política portuguesa e sempre se podia dizer que os tais Verde Eufémia serviriam, afinal de contas, para qualquer coisa.

terça-feira, agosto 28, 2007

Ponte da BarcaA par das grandiosas festas da Senhora da Agonia, há inúmeras comemorações por esse país fora, em especial no Minho. No dia dos meus anos, comemora-se o São Bartolomeu. Ponte da Barca homenageia o Santo com festividades que ainda conservam a genuinidade e a tradição que quase desapareceram das descaracterizadas Feiras Novas de Ponte de Lima, onde a vodka e a dance-chunga substituíram as concertinas e o vinho verde. Claro que tem as suas fases de pimbalhada, e correm abundantemente as mais diferentes bebidas. Mas as rusgas não param, dança-se incessantemente a chula e a cana verde, ouvem-se bombos, concertinas e castanholas sem fim, improvisam-se desgarradas, e não faltam as barracas de tiros e os carrinhos de choque. Numa pequena vila já do "interior", a quarenta quilómetros a Oeste de Viana, a festa dura até às tantas e só cessa com o sol bem alto, lá pelas dez da manhã. A visitar, mas com calma e moderação, não vão as hordas de multidão transformá-las numa cópia das Feiras Novas dos tempos modernos. Para conservar Ponte da Barca "sempre formosa e contente", como dizia a música que se ouvia de dez em dez minutos.

terça-feira, agosto 21, 2007

Guevara nas festas da Senhora da Agonia

Na procissão dos mares da Senhora da Agonia, em Viana, mais do que um tipo com a t-shirt de Che Guevara se perfilava em respeito ante a passagem do andor da "festejada", em cima de um barco, com acompanhamento a rigor que tinha de rebocadores a jet-skis. Casos em que o materialismo acaba por ceder à devoção, mesmo que de forma inconsciente.

quarta-feira, agosto 15, 2007

A longa espera da Matriz de Caminha



Bom exemplo do nosso atraso nas obras de restauração do nosso património é o da Matriz de Caminha. O cartaz de licenciamento das obras anuncia um prazo de quatrocentos e vinte dias, os custos totais e os inevitáveis contributos do FEDER. Pois já lá vão mais de 4 anos, e a Matriz sempre sem abrir. Desconfia-se que os orçamentos foram igualmente ultrapassados. Continuam-se a ver andaimes sobre a muralha e tapumes a camuflar as ruínas da casa onde nasceu Sidónio Pais, se bem que com uma interessante biografia e ilustrações como decoração.
Não deixa de ser sintomático tamanho atraso, e muito estranho o facto de uma vila ficar sem a sua igreja principal utilizável durante tanto tempo, para mais Monumento Nacional, dos mais conhecidos da região. Vale o tecido urbano envolvente, as ruelas estreitas e longilíneas, a biblioteca, antiga prisão com condições pavorosas onde os presos estendiam as mãos por entre as grades, pedindo esmolas, agora bem recuperada e apetrechada, os pequenos largos, as capelinhas, a muralha, e a longa rua direita, com os seus numerosos bares, que se estende desde a Alfândega até à quatrocentista torre do Relógio, desaguando depois na bonita e arranjada Praça do Terreiro, ou do Conselheiro Silva Torres, com as suas esplanadas rodeando o chafariz.
Cem anos de Miguel Torga

Cem anos de Torga, comemorados na Segunda. Bem lembrados, excepto pela lamentável ausência de membros do governo nas comemorações oficiais, em Coimbra. Tanta preocupação com o conhecimento tecnológico e científico, com as línguas e a informática, e desdenham assim da efeméride consagrada a um dos maiores prosadores portugueses (mais do que poeta) do último século.

Outro erro grave: no meio do noticiário da RTP, em directo do Douro, com flashes em S. Martinho de Anta e Coimbra, a repórter que tinha por trás de si a curva impressionante do rio que rasga Trás-os-Montes lembra-se desta pérola: "vamos agora a Coimbra, cidade onde nasceu e viveu Miguel Torga..." Nem com um ponto para a ajudar - a outra repórter em S. Martinho - a senhora percebeu que Torga não era natural da Lusa Atenas.

Mas pelo menos a data não ficou esquecida. Nem em Coimbra, ao lado da paragem de romarias que era o antigo consultório do Dr. Adolfo Correia da Rocha, no Largo da Portagem, sob o Governo Civil; nem em S. Martinho, no largo da aldeia, junto ao busto do autor dos Diários, perto da singela casinha com portadas azuis onde ele nasceu; houve mesmo um monólogo do actor José Pinto, cujas semelhanças com o médico são notórias, sobre a paisagem mágica do Douro. Pena que não fosse (pelo menos não me pareceu) no promontório de S. Leonardo de Galafura, que tanto inspirou Torga, o seu amor telúrico pela velha terra transmontana e o seu fascínio pela paisagem duriense, e que ainda exibe os seus versos numa lápide da ermida que ali se encontra.

Conhecendo superficialmente a sua poesia, e daí a preferência pela prosa, tendo visto alguns dos Diários de forma pouco cronológica e metódica, fui tocado quando era pequeno pelos seus Bichos, Contos da Montanha e Rua. A simplicidade da prosa, aliada a velha linguagem, pouco usada mas clara, ligada a situações e personagens bem portuguesas, e particularmente transmontanas despertou-me para mais leituras do autor. Algumas são autênticas lições de vida, com muito de autobiográfico pelo meio. E já que é do seu centenário que tratamos, relembro o comovente conto Natal, dos Novos Contos da Montanha, em que um mendigo, o Garrinchas, se abriga pela gelada e santa noite numa ermida, convidando a estátua da Virgem com o Menino ao colo para o acompanharem na sua parca ceia, à volta da fogueira. Pois essa emida não é outra senão a da Senhora da Azinheira, no alto de um monte desolado, com vegetação rasteira e rochas, uma fabulosa vista sobre a região circundante, até ao douro, e sobranceira a S. Martinho da Anta, a terra do escritor. Mesmo com toda a notoriedade que alcançou, Torga não esqueceu nunca de onde vinha nem quem era.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Schuster e o Princípio de Peter

O Belenenses perdeu com o Real Madrid por 1-0, no torneio Teresa Herrera. Tendo em conta a diferença de meios económicos e humanos entre o clube da Cruz de Cristo e o colosso espanhol - apenas o maior clube do mundo - o resultado parece ser lisonjeiro. Acontece que o golo surgiu no último minuto, por via de um peru monumental do guarda-redes Marco. No resto do jogo, o Belém teve as melhores oportunidades, falhando algumas com uma displicência arrepiante.
Ocorreu-me isto depois de ouvir as palavras de novo treinador madridista, Bernd Schuster: segundo o técnico alemão, o Belenenses limitou-se a defender, a fazer um ou outro contra-ataque, e o Real facilmente poderia ter resolvido o jogo, se tivesse querido.
Compreende-se: Schuster, muito bom jogador nos anos oitenta, tinha, e parece que ainda tem, uma falta de estofo psicológico incrível. Quando o Barcelona, onde jogou, perdeu a final da Taça dos Campeões em Sevilha, em 1986, contra o Steaua de Bucareste, teve um trauma tal que nunca mais jogou da mesma forma. Agora, depois de ter treinado o Getafe, acaba de ser contratado pelo Real para ser técnico principal, em lugar de Fabio Capello, que até se sagrou campeão. Colocar este tipo irritante, que usa desculpas esfarrapadas para justificar os maus resultados da equipa, como treinador do Real Madrid, em substituição de um dos melhores do mundo, para mais campeão, mau grado os seus caprichos e resmungos, é um tiro no pé como raramente se vê. Infelizmente não dou nada pelo Real do próximo ano. Mas pelo menos haverá a suprema possibilidade de se ver o Princípio de Peter magnamente aplicado.

domingo, agosto 05, 2007

Chamem-me inimigo da liberdade

Chamem-me de "inimigo da liberdade" ou qualquer coisa parecida. Mas para mim, aquelas caricaturas obscenas dos Príncipes das Astúrias ultrapassaram um limite para além do suportável. Não sei se a apreensão das publicações terá sido a melhor das ideias, mas uma coisa daquelas não podia ficar impune. Não acho que a liberdade de expressão tenha de ser ilimitada, já que mais nenhuma o é. E por mais figura pública que seja, e possa ser alvo de críticas e de sátiras, os Príncipes representam a Coroa e merecem um mínimo de respeito, coisa que não sucedeu neste episódio. Acresce que se fizessem o mesmo ao editor ou director da tal revista Jueves, alguém se indignaria se pusesse os autores da graça em tribunal?

E para os interessados, também achei ridículas as caricaturas de Maomé naquele jornal dinamarquês. Não as reacções com incitamentos à morte, nem às pilhagens subsequentes; mas os ofendidos podem sempre recorrer aos meios judiciais. Há muito que assim é, mas parece que a admiração vem de agora. Como se a liberdade de expressão não violasse igualmente outros valores tutelados pelo direito; é essa a máxima prova de que não é ilimitada e absoluta.
Aliás, ainda há bem pouco tempo, uma instância judicial condenou o colunista Augusto M. Seabra por ter chamado "energúmeno" a Rui Rio. Não houve qualquer protesto de "limitação de liberdade" nem reacção de indignação a esta sentença, e no entanto, perante os termos em causa, fica-se com a sensação de que esta pecou por excesso.
Claro que não defendo a prisão para os que se divertem a achincalhar os outros na praçapública. simplesmente, se tomarmos a livre expressão como um direito absolutíssimo, as consequências que daí adviriam seriam bem mais gravosas. Não creio mesmo que face a algumas situações concretas, ninguém aprovaria tal coisa.
Outro assunto que passou na comunicação social e atiçou comentários idênticos foi o caso da exoneração da direcora do Museu de Arte antiga. Parece que a senhor deixou trabalho de monta, com resultados visíveis. Não me custa a acreditar, até porque este ano passei por lá mais do que uma vez e gostei do que vi, como aquela exposição de arte medieval polaca. Parece no entanto que a mesma directora veio publicamente discordar das novas leis orgânicas do Governo, queixando-se da falta de autonomia finaceira do Museu e demonstrando as suas discordâncias face às opções governamentais. Tais atitudes valeram-lhe a demissão, o que levou a um abaixo-assinado solidário de várias figuras da vida cultural, e largas colunas de opinião queixando-se que tinha sido despedida por "exprimir apenas uma opinião diversa", da crescente falta de liberdade na Administração pública, no "clima estalinista", Etc. Ora como disse Vasco Pulido Valente num dos seus mais sensatos artigos desde há muito, o que estava em causa não era a liberdade de expressão da directora, mas sim os seus deveres perante a tutela e a obrigação de não desautorizar as hierarquias, como aconteceu quando resolveu ir para os jornais afrontá-las. O seu cargo implicava uma responsabilidade que implicava alguma contenção. Ao discordar do modelo oficial e exigir outro, coisa que não lhe cabia decidir, só se podia optar pela sua saída. Não se lhe impôs que aceitasse ideias diferentes das que tinha, mas uma vez que como directora das Janelas Verdes acatá-las-ia de má vontade, provocando algum mau-estar no seio do Ministério, forçosamente teria de seguir caminhos diferentes. Em qualque empresa aconteceria sempre algo de semlhante (e sim, isto aplica-se aos que acham que o Estado não pode intervir na cultura). É que "liberdade de opinião" não significa anarquia ou desobediência porque sim. Liberdade implica sempre responsabilidade pessoal, por muito que esta máxima esteja velha, gasta, e dê para qualquer ocasião.
Pêsames coincidentes

Por acaso já ocorreu um caso parecido com o dos dois realizadores desaparecidos nos últimos dias. Lembro-me de alguém, em inícios de 2003, desejar que Gregory Peck e Katharine Hepburn continuassem entre nós, para provar que eram realmente imortais. Pois em Junho desse ano morreram os dois, com 15 dias de intervalo. Não é a mesma coisa que acontecer tudo num dia, mas parece demonstrar que há épocas especiais de luto por grupos de personalidades, e raramente por uma só. Uma estranha escolha de épocas a dedo divino, é o que parece ser.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Agosto
Em Agosto, zarpo para o sítio do costume, que de ano a ano, se cobre ainda mais de tédio. não é que tenha grande vontade, mas por agora não vejo muitas mais opções de fuga. Fiquemo-nos para já por aqui, à falta de melhor, entre a nortada e a nebulosidade.
Bergman e Antonioni

Será possível que dois dos maiores realizadores europeus de sempre desapareçam no mesmo dia, com 12 horas de diferença? Ao que parece, sim.
Não sei se existe um dia mundial do cinema, já que há de tudo o resto. Mas se não houver, proponho que a partir de agora seja a 30 de Julho, como justa homenagem a dois homens que desde anteontem se tornaram definitivamente mitos.
PS: apesar de tudo, reconheço que não vi mais do que dois filmes de cada um destes cineastas. Mas que importa isso?

segunda-feira, julho 30, 2007

Diz o roto ao nu



Madeira: PSD critica "linguagem trauliteira" de Santos Silva contra Marques Mendes

De facto, não há mesmo melhor exemplo do que a Madeira para se falar em truculências. Terá Marques Mendes fingido que não esteve no Chão da Lagoa, rodeado por Alberto João Jardim e Jaime Ramos, os trauliteiros-mor da política? Ou será isto o "politicamente verdadeiro" que defendeu aos gritos, tentando em vão entrar no espírito da coisa?
Zahir Shah

Morreu o último Rei do Afeganistão, Mohammed Zahir Shah, aos 92 anos. Conservava apenas o título honorífico de "Pai da Pátria", atribuído por Karzai e pela Loya Jirga. Shah, da etnia pashtun, educado em França e falando persa como língua materna, reinou durante 40 anos no Afeganistão, na altura um país arcaico e pobre, mas bem mais pacífico do que hoje, local exótico por excelência e ponto de passagem para psicadélicos.
Com a sua queda, sobreveio o caos: governos ditatoriais, regimes marxistas, a invasão soviética e a penosa guerra que durou 9 anos, uma república islâmica, os Talibans e o seu "emirado" de trevas, e a invasão das forças internacionais, com o periclitante governo de Cabul. Só aí velho Rei pôde enfim voltar ao seu país, sem que contudo tivesse havido uma solução como no Cambodja.
No Expresso desta semana, José Cutileiro falava no pacífico reinado de Zahir Shah. Não se referiu a contudo um episódio que se passou há uns 15 anos, através do qual ouvi falar pela primeira vez do Rei. No seu exílio em Roma, Shah recebeu um dia a visita de um pretenso jornalista português, que o pretendia entrevistar. No fim da entrevista, apresentou-lhe um punhal, supostamente uma prenda, e tentou matar o ex-soberano. Quase por milagre, a cigarreira que Zahir Shah trazia no bolso interior do casaco aparou o golpe. Os guardas acabaram por acorrer, alertados pelo barulho de luta. O "jornalista" era Paulo José de Almeida Santos, que se convertera ao Islão anos antes, com o nome de Abdullah Yusuf, visitara o Paquistão e Afeganistão e os seus campos de treino e se envolvera com os radicais muçulmanos que formariam mais tarde a Al-Qaeda. O assassinato do Rei era a missão de que estava incumbido por ordem do próprio Osama Bin Laden.
Zahir Shah sobreviveu a essa tentativa de assassinato, a golpes de estado e a alguns acidentes domésticos nos últimos anos, e depois do seu longo exílio acabou os seus dias em Cabul, no palácio presidencial, com as honras do soberano que fora.

quinta-feira, julho 26, 2007

A partida de Simão
À terceira (ou mais) acabou mesmo por ser de vez: Simão Sabrosa sai do Benfica rumo ao estrangeiro. Pena que seja para um Atlético de Madrid mediano e não para um Liverpool ou Valência, que já estiveram no seu caminho. Mas o ex-capitão preferiu vestir-se com o equipamente do colchão, que se há de fazer? Em troca vêm 20 milhões de Euros e dois jogadores, esperando eu que um desses não seja Costinha. Quanto a substitutos, fala-se de Daniel Carvalho e Freddy Adu; daqui a umas horas se saberá. Por mim, e uma vez que sem Sabrosa (e Micolli e Karagounis) ganhar títulos será ainda mais complicado, apostava em Fábio coentrão para o seu lugar; como é um jogador de 20 anos que veio agora do Rio Ave, na melhor das hispóteses só daqui a uns dois anos é que explodirá. Até lá, trabalhe-se e aproveite-se o dinheiro para melhorar as finanças do clube.
Quanto a Simão, não esqueço nestes seis anos, os jogos em que o vi ao vivo , nos quais se conta a sua lesão grave num jogo particular contra a Finlândia, o último derby na velha Luz, os golos com que vencemos o Leixões para a Taça, o penalty decisivo contra o Paris Saint Germain, esta época, e, claro, o jogo em que ganhámos o título no Bessa; e ainda o golo decisivo na final da Taça de 2004, os golos contra Manchester e Liverpool na época passada, as assistâncias, o enrome espírito de sacrifício bem patente na época do título, em que jogou todos os minutos do campeonato, etc. Não esqueço nada disso e a forma como exemplarmente representou o clube duante estes anos. Só lhe posso agradecer, desejar-lhe um grande bem haja e toda a sorte do mundo em Madrid. Ele merece. Os grandes capitães não são facilmente esquecidos no Terceiro Anel.

quarta-feira, julho 25, 2007

Eleições na Turquia
Parece que a enorme vitória de Erdogan nas legislativas turcas espalhou o pânico entre uma data de comentadores da nossa praça - da europeia, pois claro, que isto já não vai só entre os limites do rectângulo. Refiro-me apenas ao que dizem os jornais e os bloggers. Naqueles que o P2 do Público revela diariamente, então, o medo é mais que muito. E os disparates também. Fala-se em "avanço do fundamentalismo islâmico", confronto com os valores "laicos e republicanos da Europa" (até parece), e há mesmo uma sumidade que afirma que a culpa disto é toda da Europa "herdeira do internacionalismo comunista", assim como o problema do Kosovo, "ao contrário dos Estados Unidos" (esses não têm mesmo culpas no Kosovo).
Convinha no entanto recordar que Erdogan é talvez o primeiro-ministro turco mais europeísta das últimas décadas, e que durante o seu consulado foram aprovadas normas bem mais próximas dos valores europeus do que o "laicismo"; a abolição de pena de morte, por exemplo. Não será pior pensar também que o seu Partido do Desenvolvimento e da Justiça é o correspondente aos partidos conservadores/democratas-cristãos europeus. É daqui que vem mal ao mundo? De um primeiro-ministro que deseja ardentemente que o seu país adira à UE? Ou que revele que a sua mulher está proibida de usar o véu em cerimónias oficiais?
Também não será pior recordar que o tal laicismo turco tem a tutela das forças armadas, que ameaçam intervir quando há a mais pequena nuvem de islão no ar. E que é herdeirto do estado autoritário e centralizado fundado por Ataturk, e que de democrático tem muito pouco.
Tenho uma certa admiração pelo "Pai dos Turcos" e pela sua acção modernizadora, e tenho muitas reservas em ver a Turquia na UE. Mas isso não me impede de reconhcer que o movimento de Erdogan é, por ora, muito mais próximo da democracia que os tronitruantes herdeiros do autoritarismo kemalista e seus defensores deste lado do Bósforo, que acham que religião é igual a fanatismo e que os muçulmanos são todos uns potenciais bombistas de adaga em riste. Erdogan está de parabéns: conseguiu vencer de forma esclarecedora e tem mais um mandato para mostar o que vale. Se esticar a corda, as urnas dar-lhe-ão novo destino no próximo acto. Mas não o exército ou ou os praticantes de agit-prop que defendem o laicismo rígido enquanto se agarram à bandeira do Crescente.
Sinais de declínio

Ainda outra coisa relacionada com as eleições da CML (o hiato entre artigos leva-me a estes atrasos) e que demonstra bem o declínio do CDS-PP: já se sabe que de todos os líderes do partido, só restam Portas, Ribeiro e Castro e Adriano Moreira - e estes últimos retirados. Dos candidatos que o CDS já apresentou à Câmara de Lisboa, só já lá está Portas e Telmo (não sei quem candidataram em 1976). Abecassis, à frente da edilidade durante os anos oitenta, já morreu; Pedro Feist e Maria José nogueira Pinto desvincularam-se e até apoiaram outros candidatos; Marcelo Rebelo de Sousa e Ferreira do Amaral, que chefiaram mini-ADs, são do PSD. Por aqui se vê a enorme sangria daquele partido e se percebe o porquê da diminuição da sua base eleitoral, sobretudo a nível local.

sexta-feira, julho 20, 2007

Saramago e o Iberismo
De vez em quando, José Saramago vem com os habituais remoques ao país que o viu nascer e acena com comparações espanholas. Agora diz que Portugal se vai tornar numa província castelhana, mas conservar a mesma língua. Percebe-se. como comunista que é, e pertencendo a um dos mais ortodoxos PCs que há na Terra, Saramago é um internacionalista, como era a URSS que absorvia tudo quanto era Geórgia, Lituânia ou Besarábia, ou então criava satélites de estrela na bandeira. O nacionalismo é brnadido apenas como arma de arremesso contra os inimigos, em casos pontuais. Já a língua interessa conservar-se já que esta, como lembrou Manuel Alegre, é que permitiu que o autor ganhasse o seu Nobel.
Acontece que além de parecer ignorar que já há uma UE que inviabilizaria (ou inutilizaria) a perda da independência, Saramago também acha que as pessoas se esqueceram da História e dos seus exemplos. Ou ele é que não a conhece. Também se nos lembrarmos dos projectos de Olivarez para transformar Portugal numa mera província, gorado pelo 1 de Dezembro, pelo apoio às invasões francesas com o fito de nos deitar a mão, com as derivas iberistas do Sec. XIX, com o projecto de formar uma República Ibérica Soviética (provavelmente o escritor tirou a ideia daqui e quer recuperá-la), ou depois, de alguns meios franquistas, transformando a história para justificar uma Espanha peninsular; recordando tudo isso, veremos como passaríamos rapidamente a uma Galiza do Sul, e não a uma componente da Ibéria. É que um país e uma pátria não se forma por meras razões economicistas ou de circunstância, como parece depreender-se dos pobres argumentos dos iberistas, que acham que só com uma união a Espanha afastaríamos a "vil tristeza", revelando assim a sua própria fraqueza. Aliás, pergunto-me se todos esses defensores da absurda fusão têm ideia do que era Espanha até há vinte anos, se leram as comparações entre os dois países feitas por Hans Christian Anderssen e outros autores, se tomariam parte nos problemas políticos que subsistem desde a Guerra Civil. Se o soubessem aposto que os tais sentimentos iberistas iam às malvas.
Quanto a Saramago, é não ligar. Se o homem quiser mesmo muito, bem pode pedir a nacionalidade espanhola. Mas ele que tenha cuidado, porque independentistas também os há nas Canárias.

segunda-feira, julho 16, 2007

Eleições em Lisboa

Vencedores: Costa, de forma pírrica; Carmona e Roseta, com poucos meios, tiveram quase 30% dos votos. Garcia Pereira, que com 1,6% dos votos ficou bastante À frente dos outros "pequenos", o que demonstra bem o quanto é conhecido.

Perdedores: Negrão e o PSD de Marques Mendes, acima de tudo; Portas e Telmo; Manuel monteiro, uma vez mais votado à indiferença; quase todos os restantes pequenos partidos.

Normais: Sá Fernandes e Rúben de Carvalho.

Conclusões:
- com um lampejo de sol, as pessoas marimbam-se para os votos e a "classe política".

- O PSD perde aquela que tinha sido uma das principais bóias dos últimos anos: a câmara de Lisboa. Menezes & Cª já devem amolar as facas.

- Confirma-se que a estratégia da reconquista do CDS à bruta e o "novo pragmatismo" de Portas não convencem quase ninguém (tal como Telmo). que teria acontecido se Ribeiro e Castro e Nogueira Pinto tivessem ficado?

- Ser "independente" é só por si uma fórmula que atrai votos.

- Usar a artilharia toda e arrebanhar gente de todos os quadrantes para conquistar a CML com menos de 30% dos votos pode ser considerado um objectivo alcançado, mas dá a ideia queos últimos tempos têm desgastado o PS, que terá enormes dificuldades para pôr a câmara em ordem.

- Que maiorias para Lisboa?Por muito que lhes custe, o PS e Carmona estão obrigados a entender-se. Juntos conseguem a maioria absoluta, e Carmona terá aqui a oportunidade de dar uma outra imagem na câmara. Conta igualmente com Pedro Feist (outro ex-candidato do CDS), alguém com experiência e com um mínimo de sentido municipal.