terça-feira, maio 22, 2007

Parabéns, Hergé















Há cem anos nascia Georges Prosper Remi, mundialmente conhecido como Hergé. Todos o relembram, mas não é demais fazer a homenagem ao criador de Tintin, Quim e Filipe e Jo, Zette e Jocko. Se só acompanhei artificialmente os segundos e terceiros, já o herói da poupa e das calças de golfe é para mim, desde pequeno, uma companhia indispensável. Nunca me esqueço de que folheava os álbuns na América e em África quando ainda nem sabia ler; a primeva aventura no País dos Sovietes que me ofereceram na minha Profissão de Fé, álbum maldito, a traço grosseiro, nunca reeditado a cores, que me incutiu definitivamente o gosto pela BD; os de pura aventura em terras longínquas ("Les Cigarres du Pharaon", "Le Lotus Bleu", "L ´Oreille Cassée", "L´Affaire Tournesol", "Coke en Stock"), com fugas de Meca, invasões japonesas - a história também entra aqui - golpes de estado em repúblicas das bananas, submarinos no mar vermelho e espiões balcânicos. O universo Tintin é riquíssimo tanto na narrativa, como nas comparações temporais e espaciais da sua época ou na espantosa galeria de personagens.

Além da sagacidade e coragem do repórter, e do voluntarismo do simpático Milou, temos as fúrias, emoções e insultos para todos os gostos e imensos "mille sabords" e "Tonerres de Brest" do capitão Haddock; o génio, a distracção e a hilariante surdez do Professor Tournesol; a incompetência e a redundância dos incríveis Dupondt, que deram origem a expressões variadas; a maldade burlesca de Rastapoupoulos e Sponsz, ou a mais trágica de Mitsuhirato ou de Jorgen; a amizade e perseverança de Tchang; o massacre Serafim Lampião; o solícito e fleumático Nestor; as diabruras de Abdallah; as dores de cabeça dos chefes de estado (Ben Kalish Ezab, Muskar XII, Alcazar ou Tapioca), e , claro, as excentricidades da Prima Dona Bianca Castafiore, tiranizando maternalmente os submissos Irma e Wagner.
Simultaneamente, como sátira da época e como fonte de imaginação, Hergé criou mesmo países fictícios, como a Sildávia (inspirada na Roménia, mas pela sua localização e tamanho, parecida com o Montenegro ou a Albânia) ou a sua ameaçadora vizinha, a Bordúria, presidida pelo ditador Plekszy Gladz e os seus bigodes, misto de ditadura fascista com o bloco soviético. E ainda San Teodoros, ao lado de Nuevo Rico, abalada pelos golpes de estado constantes entre os citados Alcazar e Tapioca, e os milhares de coroneis.

Claro que no centenário haverá sempre quem lembre as ligações do autor ao padre integrista Norbert Wallez, seu director, e mesmo a Leon Dégrelle, líder do rexismo belga; ou as suas inclinações jovens para a extrema-direita, o seu empedernido anticomunismo, colonialismo e antiamericanismo, que teriam ficado expressos nos primeiros álbuns, e até antisemitismo (dando como exemplo o banqueiro de nariz adunco em "A Estrela Misteriosa", ou a primeira versão, depois alterada, de "no páis do ouro Negro"). Tudo isto podia ser verdade. Mas mesmo que seja, é bom não esquecer que estava dentro do espírito comum da época, de que grande parte dos artistas se não distanciava; e que nem isso ensombra o fabuloso universo iniciado em 1928 com umas toscas pranchas do escuteiro Totor. Rémi iniciou e de asas à fabulosa BD da Bélgica, verdadeira indústria e referência cultural daquele país artificial.
Parabéns, Hergé!
Já agora, fiquem com um pequeno glossário, em francês, dos insultos do Capitão Haddock. E saibam que o Castelo de Moulinsart existe mesmo, só que com outro nome.
Quiz de Cascata

A começar o fim de semana, na Sexta à noite, estreei-me nas lides de um desporto muito popular em Lisboa: o Quiz de Cascata, ali para os lados da Ajuda. Interessante, divertido e instrutivo, embora entre pela madrugada dentro. Ainda por cima, a coisa correu-nos com sucesso evidente e até nos pagaram por isso. A repetir, claro está.

segunda-feira, maio 21, 2007

Fim de semana e novas desportivas

Fim de semana marcado pelo convívio familiar, almoços ao sol, visitas de nocturnas de museus (que me permitiram enfim colmatar a enorme lacuna de nunca ter visto ao vivo os Paineis de S. Vicente) regresso da chuva e o fim da época futebolística, com Derlei a marcar finalmente um golo que entrou devagar, devagarinho... Num ventos fim de tarde na Luz, valeu isso, o outro golo de Mantorras, e os aplausos do público às geniais jogadas de Rui Costa e de Karagounis (um deve ficar, o outro, infelizmente, é pouco provável), aos golos - o segundo de Mantorras - e à saída de Micolli, que muito dificilmente envergará o Manto Sagrado depois de Maio.

Ao que parece, o Porto ganhou o campeonato. Soube-o porque passei no Marquês de Pombal, em Lisboa, depois do jogo, e vi três carros de cachecol azul em riste, a apitar enquanto continuavam a circular à volta da estátua do Conde de Oeiras. Na televisão, mostraram ainda os adeptos portistas que "enchiam" a dita rotunda e as comemorações nos Aliados, em que bandos de jagunços da conhecida associação que dá pelo nome de Super Dragões se divertiam a espancar-se e a esfaquear-se entre si. Já não é preciso os benfiquistas irem para lá quando ganham títulos: são os próprios que se encarregam de fazer com que o Porto, pelos idos de Maio, se pareça com Karachi.

sábado, maio 19, 2007

Doçaria Regional

Em resposta a este pequeno desafio sobre doçaria regional, deixo a minha pequena contribuição, esperando que possa beneficiar quem se deslocar aos respectivos locais e aos que derem com os estabelecimentos abaixo referidos:

- Cristas de galo do Lapão, em Vila Real.

- Eclairs da leitaria da Quinta do Paço, no Porto

- Caminhenses da Docelândia (ou da Riviera), em Caminha.

- As cornucópias da Alcôa, em frente ao Mosteiro de Alcobaça.

Os bolos do Ao Bom Doce, junto ao cais de Vila do Conde e à capela de Nossa Senhora do Socorro, apropriadamente com forma de suspiro. Qualquer um deles. Uma coisa inimaginável (apesar da má cara de quem está por trás do balcão), única, de comer e chorar por mais.

quinta-feira, maio 17, 2007

Subidas

Um esquecimento fatal, que já data do último fim de semana. As duas vagas de subida à primeira divisão foram já preenchidas pelo vitória de Guimarães e pelo Leixões, dada a queda vertiginosa do Rio Ave. Os vimaranenses conseguiram um regresso já anunciado desde o ano passado, mesmo que tenham estado em maus lençóis a dada altura do campeonato. Mas as minhas felicitações vão directas para o Leixões, o velho clube matosinhense, que já deu mesmo azo a estudos sociológicos. Dezoito anos entre a Honra e a 2ª B, com uma final da Taça a meio, acabaram no último domingo, em Moscavide, e prosseguiram em grande festança na terra de Passos Manuel e Siza Vieira. Conheço bem o entusiasmo dos seus muitos adeptos, pelo jogos que vi e pelos meus tempos de liceu em Matosinhos. Que tenham êxito na divisão maior (menos contra o Benfica), e que ajudem a aumentar, no velho Estádio do Mar - algo distante do oceano - a pobre média de público dos estádios deste país.

PS: vi agora que o Leixões comemora este ano o seu centenário. Melhor celebração e acontecimento mais feliz não podia haver, certamente. Serviu até para se reactivar para passageiros, e não apenas para mercadorias, a antiga gare de Matosinhos, que esteve por uma tarde ligada ao Oriente.

quarta-feira, maio 16, 2007

Jacques Chirac
Há dias, vi um documentário sobre a vida e a carreira política de Jacques Chirac. As características que mais se lhe apontam estavam todas lá: o oportunismo, o charme pessoal, o interesse pelas civilizações do médio-oriente, a mudança de convicções de uma década para a outra, a devoção ao Gaullismo. Além dos traços pessoais, tem ainda os comuns aos principais políticos franceses: décadas a andar na ribalta, com maior ou menor sucesso, e sucessivas tentativas de alcançar o mais alto cargo nacional.

O percurso político de Chirac já data dos anos sessenta. Começou no gabinete de Pompidou, do qual se tornou homem de confiança, tendo sido deputado, secretário de estado e ministro de várias pastas. Depois da morte do dinamizador do museu do Beaubourg, resolveu apoiar Valéry Giscard d ´Estaing nas presidenciais de 1974. Acabou por ser decisivo, e tal empenho valeu-lhe o cargo de primeiro-ministro, aos 42 anos. Mas a rivalidade entre os dois homens acabou por ditar a saída de Chirac, por "falta de condições", em 1976. Logo a seguir, fundou o RPR, o novo grande partido gaullista da direita francesa, aproveitando os movimentos já existentes no terreno, nomeadamente a UDR, candidatou-se à câmara de Paris e tornou-se o todo poderoso Maire da capital francesa, derrotando a candidatura suportada por Raymond Barre, seu sucessor na chefia do governo e homem de confiança de Giscard. Tentou sem êxito as presidenciais de 1981, ganhas por Miterrand, mas viria a ser de novo primeiro-ministro em 1986, impondo uma política de austeridade, em coabitação com o velho presidente socialista. Que o derrotaria de novo em 88. O maire de Paris, eurocéptico e soberanista, tornou-se um entusiasta da União Europeia no início dos anos noventa, mesmo a calhar para vencer à justa o referendo sobre o Tratado de Maastricht. Em 93, a RPR teve um êxito retumbante nas legislativas, e Balladur tornou-se chefe de governo. Dois anos depois, para as presidenciais, o RPR dividiu-se entre o primeiro-ministro (que teve o apoio de Sarkozy) e o Maire de Paris, que acabou por ganhar a contenda, ir à segunda volta conquistar o lugar que sempre ambicionara: a Presidência da França.

No primeiro mandato teve de suportar uma coabitação com Jospin e o conflito no Kosovo, e viu a França sagrar-se campeã mundial de futebol. No segundo, ganhou com mais de 80% dos votos contra Le Pen, foi mais atribulado: a crise no Iraque (que o tornou impopular a nível externo, mas que acabaria por lhe dar razão), apesar do apoio anterior à guerra no Afeganistão, a derrota do projecto da Constituição Europeia, a fundação da UMP, as diatribes com Sarko e o envolvimento nos casos de desvios de fundos entre a Mairie e o RPR.

É esta a longa carreira do homem que se despediu ontem da presidência, dando lugar a Sarkozy. "L ´escroc", para os inimigos, ou o homem que assumiu a liderança do mito gaullista e que estabeleceu laços entre o ocidente e a África e o Médio Oriente, para os admiradores. O seu principal legado terá mesmo sido esta influência francesa nesses territórios, e a sua larga popularidade, à qual potências como os EUA têm muitas vezes de recorrer. De negativo, fica como símbolo de uma classe política arrivista, burocrática, intriguista e de honestidade duvidosa, à qual se tenta pôr cobro no ciclo que agora se inicia.

segunda-feira, maio 14, 2007

A irrelevância do PCF


Voltando às eleições francesas, e à sua primeira volta, houve um resultado que não deixou de surpreender quem sobre ele se debruçou, já que a maioria dos eleitores e analistas estava mais virada para a segunda volta. A candidata e líder do Partido Comunista Francês (PCF), Marie-George Buffet, teve a irrisória votação de 1,93% dos votos, bastante abaixo, por exemplo, do candidato da Liga Comunista Revolucionária.

A queda do PCF tem-se vinda a acentuar ao longo dos anos, mas nunca os comunistas tinham tido um resultado tão humilhante. Se tormarmos em conta que o PCF já conseguiu ser o partido mais votado e esteve em mais do que um governo, o facto é ainda mais espantoso. O velho partido nasceu em 1920, em Tours, de uma cisão da SFIO (Section Française de L´Internationale Ouvrière). Apoiou, com socialistas e radicais, o governo da Frente Popular de Leon Blum, em que pela primeira vez se introduziu o sistema de férias pagas. Teve um importante papel na resistência à ocupação nazi. Depois da Guerra, tornou-se o partido mais votado, voltando a fazer parte de sucessivos governos. Mas com o apoio à invasão da Hungria, em 1956, perdeu inúmeros militantes e muita da intelectualidade que o compunha, e que progressivamente se afastava da URSS. Não soube aproveitar o Maio de 1968, que apanhou o partido desprevenido. Nos anos 70, chefiado por George Marchais, rompe com a URSS e abraça o Eurocomunismo. Em 1981, voltará ao governo, com a vitória de Miterrand nas presidenciais, mas sairá em 84, em ruptura com os socialistas. O declínio do partido é bem visível, e eleição após eleição, os votos diminuem, até à irrelevante soma atingida agora.

Diga-se ainda que uma imprensa regional e local muito extensa, e o seu órgão oficial, l'Humanité, fundado por Jean Jaurés, teve e tem ainda uma importante massa de fieis leitores. O PCF ainda tem um número interessante de militantes, embora longe de outros tempos. A sua sede nacional é um edifício dos anos 60/70 concebido por Óscar Niemeyer. E ao lado do "nosso" PCP, até é um partido renovado e com alguma abertura, e menos complexos estalinistas. Mas a intelectualidade e os artistas desapareceram, e parte do eleitorado das "classes operárias" mudou o seu sentido de voto e a sua confiança para outros movimentos de esquerda radical ou para a extrema-direita, alimentando o crescimento contínuo da Frente Nacional. Assim, o outrora pujante PCF é apenas uma sombra do partido que era peça importante de vários governos. A desintegração, a não adaptação aos novos tempos, a queda do bloco comunista (ainda que já tivesse havido um importante afastamento) e o afastamento dos intelectuais foram duros golpes, cujos resultados estão bem expostos na votação quase escondida de Marie-Georges Buffet.

quarta-feira, maio 09, 2007

Sem qualquer Monumentalidade

«Com o calor a despertar, é altura de começar a pensar em aproveitar o lado doce da vida. É esse mesmo o apelo do renovado Monumental, no Saldanha, em Lisboa, que passou a chamar-se Centro Comercial Dolce Vita Monumental. Ganhou mais luz e cores, que o tornam mais amplo, numa obra orçada em 1,3 milhões de euros."



Pena que não tenham pensado no tal "lado bom da vida" quando construíram o neo-Monumental, antes de ser Dolce vita. Um monstro de vidro e aço em lugar do cineteatro Monumental, o autêntico, vulto grandioso do modernismo, derrubado em tempos de Abecassis, nos anos oitenta, apesar de todas as ilegalidades administrativas de que se revestiu (consta que aquando da decisão do Supremo Tribunal Administrativo de a proibir, a demolição já ia a meio). Um autêntico crime urbanístico na Praça do Sadanha, em pleno centro de Lisboa. Nem a "luz e cores" lhe dão mais encanto.






terça-feira, maio 08, 2007

A nossa Segolène

Pensando bem , também temos a nossa Segolène, mas numa família política diferente. Teresa Almeida Garrett (Lucas Pires), jurista, ex-eurodeputada pelo PSD, ex-candidata à câmara municipal de Viana do Castelo. As semelhanças são bem visíveis, e o tailleur, ou costureiro deve seguir o mesmo modelo.



segunda-feira, maio 07, 2007

Pas de nouvelles
Também em França as surpresas foram escassas. As sondagens acertaram, os discursos não trouxeram novidades, a Concorde serviu de palco a manifestações de júbilo, a Bastilha a cenas de protesto e as banlieues a desacatos.

Sarko, o homem que correu metade da sua vida para chegar a este cargo, lá conseguiu, prometendo "a mudança". Desconfio que o homem que ajudou a incendiar os subúrbios franceses vai desiludir muitos dos seus entusiásticos apoiantes, lá como cá. A ideia do mérito e do trabalho depende mais da sociedade do que das forças políticas que a regem; a emigração ilegal não é coisa que se resolva com a ligeireza que ele assume; a "constituição simplificada" dependerá de outros estados; e a sua ideia velada de um directório não é propriamente animadora aqui para as bandas lusas - embora duvide que qualquer outro líder gaulês não fizesse o mesmo. Depois, as ideias proteccionistas do senhor colidem com muito do propalado liberalismo que anuncia. Contradições. Há vinte anos, Chirac era o campeão do liberalismo em França. Depois de umas breves medidas, tornou-se o defensor dos valores do Gaullismo. A ver vamos se Sarko não retoma a política do General de Colombey, contrariamente ao que apregoa agora.


Segolène acabou por desiludir, depois de quebrar a força dos anacrónicos elefantes da ex-SFIO. Pensava-se que surigiria com novas ideias, novas caras, novos rumos, mas acabou por repetir velhas fórmulas, propôr coisas inacreditáveis, como o salário mínimo europeu, a determinar por cada um dos países. É uma autêntica senhora gaulesa, elegante mas autoritária, que facilmente "reste en colère" quando a contrariam; lembrou-me muito as minhas professoras francesas da primária (mas sem a elegância). Terá de rever alguns conceitos e algumas estratégias. Talvez não lhe faça pior estudar um pouco as ideias de Strauss Khan em lugar de recuperar velhos jargões caros à esquerda amodorrada. Até porque as legislativas estão à porta. Não sendo necessariamente mais importantes do que as presidenciais, tendo em conta o sistema presidencialista do Hexágono, são relevantes e complementarão o acto eleitoral de Domingo. A neo-UDF, da Bayrou, terá também importantes palavras a dizer.


Os dois principais candidatos, como já se disse, respresentaram uma lufada de ar fresco na geriátrica classe política francesa. Serão eles, e mais um punhado, a dominar o panorama no mais politizado país europeu. Se não houver razões de força maior ou grandes choques pelo meio, as eleições presidenciais terão com certeza os mesmos protagonistas. Basta que se conserve uma qualidade fundamental dos que se candidatam a este cargo: a persistência. Sem ela, jamais Miterrand ou Chirac lá teriam chegado.
No Jardim do Atlântico

O soba ganhou, com votação esmagadora (mas não impressionante). A vitimização, a quase irreverência dos adversários, o não querer separar-se da massa enviado do "contenente", as inaugurações e outros meios públicos ao dispôr foram os obreiros destas eleições, como o foram sempre. Espero é que não tenham servido para nada e que o espírito das alterações à lei das finanças regionais se mantenha irredutível. Se assim acontecer, o sucesso do Dr. Jardim só lhe terá trazido mais oportunidades de beber umas ponchas.

quinta-feira, maio 03, 2007

O Soba do Atlântico tem admiradores continentais

É inacreditável como ainda se consegue defender Alberto João Jardim. Não falo dos seus apaniguados da Madeira, sempre à espera das festas do todo-poderoso, dos subsídios inesgotáveis e do discurso "anti-colonialista". Aludo, sim, aos estranhos defensores cá do "contenente", indignados com a maneira como o Soba atlântico cá é tratado. Já percebi que as razões têm sobretudo a ver com diferenças entre o rosa e o laranja, tanto lhes se lhes dando que Jardim use e abuse dos fundos que recebe, controle a imprensa local, insulte tudo e todos conforme a quantidade de álcool ou condicione a campanha eleitoral a seu bel-prazer, saíndo de uma inauguração para um comício e vice-versa. Porquê? Porque "desenvolveu realmente a Madeira" (com aquela massa toda, quem é que faria pior?), combate o "colonialismo" e "é a única oposição visível ao poder socialista". Óptimo. Mas porque não se preocupam também com a oposição a Jardim? Fidelidade partidária oblige?


Apesar de tudo, Manuel Monteiro teve mais coragem do que todos os outros juntos, ao deslocar-se à ilha e acusar o cacique de "estalinista", a propósito da rábula de Manuel Bexiga. Exagerado, certamente, mas aos abusos jardinistas (que chamou "fascistas" ao mesmo Monteiro e a Louçã) responde-se à altura. Como os meios estão todos nas mãos de quem governa há trinta anos, as campanhas também serão desiguais, e os resultados eleitorais não poderão ser muito diferentes do normal. Tudo igual como sempre, na terra do último soba do território português.

quarta-feira, maio 02, 2007

Uns chegam e outros partem

Ambitious Outsiders é um novo blogue, mantido por um ilustre advogado do Porto, dedicado em especial à pop dos anos 80. Smiths e Morrissey, New Order, Peter Murphy, e outros, com algumas biografias e os seus videoclips mais carismáticos à mistura, são temas frequentes deste blog. Que não se debruça somente sobre o revivalismo musical: não faltam fotografias do Porto e de variadas paisagens europeias, séries dos anos 80 (como O Polvo, em reposição no Canal Memória), literatura de terror, agendas de concertos, etc. Uma ligação a seguir com assiduidade.

Para grande infelicidade minha e dos vimaranenses, o 4800 Guimarães parece estar a dar as últimas. As tronitruantes discussões entre os seus mentores, todos vimaranenses integrais, frequentadores assíduos do Toural e da Oliveira, e com estudos académicos de relevo, assim o determinaram, ou não estivéssemos em terras do nosso estouvado primeiro rei (que me perdoem Coimbra e Viseu). Deixamos de conhecer os projectos grandiosos da cidade-berço, a eterna rivalidade inter-Minho, os pensamentos profundos da intelectualidade vimaranense e as pormenorizadas descrições das Nicolinas e Gualterianas. Deixo aí o seu genial logótipo, como recordação dos tempos em que se discutia o pensamento e a condição da Vimaranensidade.

segunda-feira, abril 30, 2007

Afinal deu empate. Um resultado que não serve a ninguém. Temos campeonato até ao fim, mas não me parece que seja pelas melhores razões. Basta ver o número de tentos dos melhores marcadores, pior do que em 1989, quando Vata ficou com o galardão, e percebe-se porquê.

domingo, abril 29, 2007

Derbys




Estive ontem para ir ver o Boavista-Porto, mas o preço dos bilhetes (o mais baixo era de 30 €uros e ao lado da torcida portista) levou-me a dar meia volta. Com pena minha, reflecti depois. Os rapazes do Bessa puxaram dos galões e deram uma ensaboadela de futebol à malta de contumil, que julgava que as últimas jornadas seriam um passeio. Claro que os adversários ganharam fôlego com o precioso auxílio do juíz da partida, que se lembrou de inventar um penalty e expulsar o guardião do Lieschenstein (enquanto perdoava a alguns jogadores portistas um duche mais cedo). Mas em vão. A defesa axadrezada, comandada pelo enorme Ricardo Silva, a tudo resistiu. Pacheco mostrou quem manda no Bessa, cobrando a traição de Jesualdo no início da época.

Hoje temos o último grande clássico nacional do ano. Ver-se-á quem ganha, a experiência do Benfica ou a juventude do Sporting. Os lagartos têm por eles um conjunto animado pelos últimos resultados, menor desgaste físico e um treinador que bate aos pontos o nosso Santolas. Nós temos a dita experiência, jogadores com garra e talento que sabem bem como vencer o Sporting (só cá faltava Geovanni) e a tradição joga a nosso favor: somos a equipa em pior posição, logo a que tem mais hipóteses de ganhar. O duelo está marcado para mais logo. Puxe-se o lustro às armas e conserve-se o sangue frio, por cima de um turbilhão de emoções.

quinta-feira, abril 26, 2007

25 de Abril em 2007


Já tinha visto a evocação do 25 de Abril ser feita por neonazis e skinheads, com o pretexto da sua liberdade de expressão (oral e bélica). Ontem, no próprio dia, estando em Lisboa, resolvi passar na FNAC do Chiado. Chegado aos Grandes Armazéns deparei-me com imensa balbúrdia que subia a rua do Almada, sob a filmagem dos inúmeros telemóveis. Uma data de jovenzinhos, alguns com pronúncia espanhola, de cabelos pintados e de aspecto sebento, manifestava-se com impropérios contras a polícia de choque. Perguntei a um dos ditos indivíduos o que é que se passava. Resposta: "passa-se que a polícia anda a bater na malta de esquerda". Nem era necessário perguntar: as bandeiras rubro-negras com o "A" anarquista já diziam tudo. A "malta de esquerda", ainda que com cravos na mão, queria divertir-se a partir montras, ou, na melhor das hipóteses, a pintar tags nas mesmas. Azar o deles: existem regras no país e forças da autoridade que as fazem cumprir. Estranhamente, evocavam o 25 de Abril, como razão para todo aquele desfilar de andrajos e insultos folclóricos, que para eles é "liberdade". O mais provável é que nem nunca tivesse ouvido falar de Bakunine.
Claro que não fiquei lá muito tempo, até porque para esta malta qualquer pessoa que tome banho mais do que uma vez por semana é potencialmente fascista, e desci à FNAC, onde reinava uma placidez em tudo contrastante com a balbúrdia exterior, que permitia a pessoas como Pedro Mexia escolher tranquilamente livros na secção de política.
Pobre 25 de Abril, tão vilipendiado e invocado pelas piores razões! Merecia melhor sorte do que a de ser usado pelos extremistas locais.

domingo, abril 22, 2007

Ideias ou violência?

Com o arsenal de armas e propaganda de instigação ao ódio na posse dos skinheads detidos no outro dia, ainda me pergunto porque razão algumas pessoas falam de censura, ou dizem que ideologias destas se combatem com ideias e sólida argumentação. Concordo perfeitamente com esta última premissa, mas convém lembrar que os detentores de semelhante material não estão interessados em discutir ou debater ideias, mas tão somente em bater e pregar o ódio. Nem sequer se pode falar de fascismo: o que aqui há é barbarismo do mais puro, ligado a estranhas mitologias pagãs.
Por outro lado, também não concordo que haja um aproveitamente da vitória de Salazar no concurso da RTP, ou um ressurgir do saudosismo do Estado Novo. É que se a pandilha de Mário Machado existisse e tomasse as mesmas atitudes há quarenta anos, era certo que o "Botas"seria bem menos brando do que as presentes autoridades e poria toda esta malta em Caxias ou em Peniche.
Eduardo Lourenço, hoje no Público

"Os nossos "oxfordianos" de serviço podem pensar que essa velha França está "fora da história"e dar-lhe conselhos como os amigos de Job..."

Na mouche. Directamente dirigido para o nihilista que escreve na última página do mesmo jornal (previsivelmente com a ressaca etílica habitual), ou para o ex-moísta que semanalmente no Expresso nos recorda a importância de usar tweed em Oxford, e que isso está directamente ligado à menor intervenção do Estado.
CDS volta a ser PP

Noutras eleições, as directas do CDS-PP, Portas lá reganhou o partido, mostrando que um golpe de estado institucional pode dar resultado se se usarem as palavras e a imagem certas. Duvido é que o partido tenha muitos ganhos com esta alteração de chefias. Ainda hão de clamar de joelhos por Ribeiro e Castro. Até lá, entretenham-se da melhor maneira possível.

terça-feira, abril 17, 2007

O hexágono vai a votos
A mais importante eleição em França desde 1981 (e sem contar com o referendo de Maastricht) está aí. A 22 de Abril, os eleitores decidirão qual o próximo presidente da III República Francesa.
A expectativa no combate Sarko-Sego dura há já mais de um ano. A emoção aumentou com a intrusão de Bayrou e com nova (e espero que modesta) ascensão do eterno Le Pen.
Uma coisa é certa: os dois principais candidatos são uma lufada de ar fresco entre a gasta política francesa, onde sobressaiem gaullistas anacrónicos e provincianos, saudosistas xenófobos, socialistas pré-1989 e bolcheviques orfãos de Georges Marchais. Representando as ideias do liberalismo, da abertura ao mundo sem tentações soberanistas ou neo-colonialistas (nesta última tenho menos certezas), de uma social-democracia acompanhando os novos tempos, da necessidade de modernizar a burocracia, o bolorento sistema administrativo francês e os vícios de toda uma classe que sem o saber, perdeu as suas referências, Sarkozy e Royal chegaram a esta corrida pela vontade esmagadora das bases dos seus partidos, o que mostra bem a vontade de mudança no Hexágono.
Convém no entanto que não se caia em exageros e falsas expectativas. Para dizer a verdade, desconfio muitíssimo de Sarkozy e da sua política "musculada". As tentativas de comparação feitas pelos iludidos neoliberais com Thatcher deixam antever o pior; as práticas do ministério que dirige também não prenunciam nada de bom; antes mostram um clima de intimidação, de alguém que "só pensa no seu bairro", como escreveu há tempos Leonor Baldaque no Público.
Segoléne parecia um vendaval, quando era candidata a candidata, derrubando todos os "elefantes" do PSF, com a sua imagem de sofisticação e elegância, e o seu programa "arejado". O problema é que as suas ideias centristas e a sua inspiração "blairista" tem caído desde que se reaproximou da esquerda, para evitar a fuga de votos naquela direcção.
Bayrou, o criador de cavalos que escreveu uma biografia de Henrique IV, não é nehum novato nestas lides. Representante da facção centrista da UDF, católico praticante e liberal moderado, tem tido números interessantes nas sondagens. A questão é a de saber se não transporta consigo os vícios da velha classe política francesa.
Le Pen é o que se sabe: o ex- oficial da guerra da Argélia e antigo membro do partido poujadista continua a apelar à imigração zero, ao restabelecimento da pena de morte e a imaginar-se o legítimo sucessor de Pétain. Conseguiu fazer crescer a sua FN em número de votos (mas não em lugares no parlamento), roubando eleitores ao outrora pujante PCF e a alguma direita desencnatada. E não dá mostras de parar. Há cinco anos conseguiu, para surpresa geral, ir à segunda volta.
Resta o cenário múltiplo do costume: o tradicionalista de Villiers, a candidata comunista, os dois ou três totsquistas da praxe, os ecologistas, o candidato do partido da pesca e da caça, José Bové, e o que mais vier. Em França há sempre candidatos para todos os gostos.
Sarkozy deve passar ao segundo turno. Segolène é a provável adversária, se Bayrou ou Le Pen (cruzes, credo) não surpreenderem. Achava uma certa piada ver a o centrista e a "mademoiselle Hollande" passarem à segunda volta, para calar algumas mentes menos pluralistas. E também para mostrar que a França necessita de reformas, sim, mas não é à bastonada (neste caso, de "cassetete"), expulsando tudo o que não fôr europeu ou adoptando uma política externa à inglesa, sem qualquer autonomia ou vontade perante os EUA.
Zero

Depois do Espanhol, o Braga: novo nulo no marcador. Zero golos, zero de futebol, zero na esperança. Agora até perdemos o segundo lugar. Não é que a diferença seja por aí além, porque mesmo com uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões, o mais provável é passarmos. Mas o terceiro significa ficarmos abaixo das outras equipas, a que por deferência chamam "grandes", e a falência de uma época que há um mês prometia dar-nos algumas alegrias. Mas a má gestão do plantel, tanto com as trocas de Janeiro como com a utilização desiquilibrada dos jogadores, deixou a equipa exaurida, resultados medíocres, e nós que aguentemos. Culpa de Fernando Santos, evidentemente, e de alguns atletas, mas também de quem permitiu a sangria de jogadores em Janeiro e a sua incorrecta substituição. A falta de Luisão é outra coisa que se faz sentir. Esperemos que nos momentos decisivos ele volte, com a sua autoridade, a sua força e a sua convicção na vitória.
Já agora, e a propósito de aquisições de jogadores de duvidosa lealdade, ouvi a seguinte observação no estádio: "Aquele não é o Derlei. É o irmão gêmeo dele, que trabalhava num bar em Porto de Galinhas e é fã do Lionel Ritchie".

segunda-feira, abril 16, 2007

Um fim de semana em Lisboa

Ah, um fim de semana em Lisboa, com um sol magnífico, livre de grandes compromissos . Depois da desilusão Benfica, deu para tudo: dar uma volta pelo Bairro Alto à noite, passear pela velha Lisboa de dia, folhear biblio-curiosidades no Mercado da Ribeira (lado a lado com um bailarico popular, com música ao vivo e tudo), jantares com parentes que raramente vemos, leituras tranquilas, descobrir surpresas nas Avenidas Novas...
A propósito, alguém sabe onde fica o antigo Beco do Monete, referido por Eça n ´A Capital - hoje chamado Travessa da Madalena, meio escondido atrás de um arco? É sempre grato encontrar estas ruelas perdidas, que apenas a literatura relembra.

sexta-feira, abril 13, 2007

Histeria

José Sócrates falou e a crítica portuguesa desabou: "sem carácter", "enganou-nos", ""é o fim da linha", etc. Eu vi uma entrevista, que a certa altura era mais chata como tudo, em que Sócrates respondeu ao que lhe era pedido, e francamente, não ouvi nada de mais. Em relação ao tema principal, o curso tirado na Independente, não há grandes coisas a dizer. Surpreendentemente, ouviram-se os maiores disparates nas crónicas do dia seguinte. Helena Matos , no Público, chegou mesmo a comparar o caso à queda de Salazar, que lhe tiraria a presidência do Conselho. Em minoria , fora da histeria instalada, ficaram opiniões sensatas e normais, como as de Francisco José Viegas ou Pedro Mexia, também no Público. Nem António Barreto escapou à tentação da "indignação".
Relevante será a existência da própria universidade, as prováveis pressões sobre orgãos de comunicação social e outros assuntos da entrevista, como o dossiê da Ota. Agora saber se o tipo que está à frente do governo deve ser tratado por engenheiro ou não, e a gravidade da alteração seu grau académico? Por amor de Deus! Isto já parece o Clintongate, aquela vergonhosa perseguição protagonizada pelo sinistro Kenneth Starr ao ex-presidente americano. Por menos do que isto, Paulo Portas disse que era "gente mal formada" que o perseguia no caso da Moderna. Não haverá nada de mais interessante para debater, ou do que gostam mesmo é do escândalo a todo o custo e de coscuvilhices?
Causas da eliminação

O Benfica perdeu a oportunidade de se guindar às meias-finais da Taça UEFA porque teve dois erros defensivos incríveis em Barcelona; e por causa do azar, antijogo do adversário e estupidez ou inacção de alguns dos seus jogadores. Apenas e só.

quarta-feira, abril 11, 2007

Regresso

Regresso a A Ágora, depois de uma Páscoa de tempo incerto, passada como de costume no interior norte, polvilhada com a gastronomia da época. Pelo meio, algumas voltas pela região do sul do Douro, entre terras coevas, e as preocupações com um Benfica fisicamente de rastos, com uma derrota que chegou a roçar a humilhação em Monjuic e um empate comprometedor em Aveiro (e como se não bastasse, ainda temos a imprensa azul a focar erros a nosso favor e a omitir os mais gravosos, como o golo mal anulado a Nuno Gomes).

Falei no último post do programa de António Barreto. Esqueci-me de referir a evolução do turismo, especialmente o balnear. As estruturas que foram feitas para suportar esse novo e rentável ramo de serviços são, como já se sabia, avassaladoras, desproporcionadas, caóticas e esteticamente horrorosas. É ver os blocos de apartamentos a cobrir as falésias algarvias, o caos urbanístico na maioria das localidaes à beira-mar, e a consequente degradação da paisagem e da qualidade de vida. Ainda há dias estive a ler uma reportagem, já de há anos, sobre Portimão no início do século XX e as comparações actuais: os crimes que infligiram à cidade do Arade são de tal forma indiscritíveis que só dá para perguntar como raio é que as populações continuam a votar nestes autarcas, ou como é que os responsáveis pelo turismo algavio não foram alvo de processos por gestão danosa. Há provavelmente conivências que o permitiram, silêncios interessados ou desinteressados, conformismos e ignorância. Aquela ideia de que construír prédios em barda era "moderno" destruíu grande parte das cidades e do país, e não só no litoral. Veja-se a evolução de Vila Real, por exemplo, com mamarrachos de todas as cores e com defeitos de construção, a tapar o esplendoroso vale do Corgo, e fica-se com uma ideia do que por lá passou.
No último programa de Barreto focou-se exactamente o desordenamento urbano e as aberações que apareceram nos últimos trinta anos. Muito embora já praticamente não haja barracas, e muitas casas clandestinas tenham sido demolidas, a imagem dos nossos subúrbios, dominados por bairros sociais e torres incaracterísticas, é absolutamente deprimente. É impossível ser-se feliz em sítios assim. O consequente esvaziamente das cidades provoca as filas caóticas nas estradas, a perda inútil de tempo, o stress, as dificuldades familiares, etc. Os transportes públicos não são maus, mas são insuficientes. E as áreas urbanas desumanizam-se constantemente.
É certo que nem tudo tem esses tons de pesadelo. A linha do Estoril tem imagens agradáveis, e quem vive e trabalha perto fica alheio a esses problemas. Matosinhos é uma cidade com vida própria, com um porto importante, passada a época das pescas e da indústria alimentar. E quem pode vai viver para cidades médias ou pequenas, com melhor qualidade de vida. Évora, Aveiro ou Guimarães são urbes que resistiram à voragem do betão e onde é muito mais gratificante morar que nos círculos que rodeiam Porto e Lisboa (onde os subúrbios são particularmente deprimentes). Apostassem as empresas e os organismos públicos nesses espaços, bem como no centro das cidades, e talvez se revertesse um pouco a situação. Infelizmente, as coias ainda estão num ponto embrionário. Quem sabe se daqui a trinta anos, quando olharmos para trás, poderemos afirmar que também em matéria de urbanismo e de qualidade vida as coisas estarão substancialmente melhores.

quarta-feira, abril 04, 2007

O novo programa de António Barreto, apesar de alguns momentos mortos, é admirável. Depois de confrontar as melhorias em termos sociais e económicos dos portugueses nos últimos trinta anos, com a triste realidade da velhice, num conjunto de entrevistas comoventes a alguns utentes dos centros de dia, e com os distúrbios dos divórcios, mostrou ontem a evolução da actividade económica do país. Da agricultura com arado ao abandono dos campos ou a novas formas de cultura, num solo gasto e maltratado; da industrialização tardia, caracterizada pelas fábricas têxteis ou pela construção naval, à falência de muitas empresas obsoletas e ultrapassadas, ou em que as novas máquinas substituem os trabalhadores; tudo isso, até à actual era da pós-industrialização, a dos serviços e do sector terciário, sem termos passado por um período de verdadeira revolução industrial. Um olhar atento e lúcido à realidade portuguesa, com os seus reais protagonistas que viram as mudanças com os seus olhos e que as sentiram com as suas mãos.

E agora até para asemana, que o blogue descansa em tempo pascal. Uma Santa Páscoa a todos.
Os últimos resquícios dos bárbaros

"Povo do Norte" é um dos nomes com que a claque do FCPorto, os tristemente célebres Super Dragões, se autodenomina. E com alguma razão, devo dizê-lo. Eles são povo do Norte - do pior que há no norte. São os descendentes dos vikings com a sua maldição de saqueadores errantes, que apenas vivem da pilhagem e da destruição. São os resquícios dos vândalos e dos primeiros suevos, que na sua onda de barbárie destruíram o mundo civilizado de então, e lançaram Roma numa letargia de séculos. São no fundo a encarnação desses bábaros, sedentos de destruição, que em lugar de barbas hirsutas, de adagas mal afiadas e de cabelos até aos pés, andam de petardos em punho, "brinco na orelha e fumante na mão", cabelos espetados e casacos com o seu símbolo extremista. Uma estranha conjugação de selvagens de há mil anos com skins desenraizados. E com um Macaco, que escreve livros com descrições das incursões e tudo, como novo Átila.
O comportamento dos SD na Luz, no último jogo, mostra claramente isso. Nos arredores e mesmo na zona histórica do Porto liberal, burguês e semi-cosmopolita, campeiam estes novos bárbaros do "norte", sem travão que os segure, aparentemente impunes.

quarta-feira, março 28, 2007

Acabou o concurso

Acabou o concurso
A vitória de Salazar pode ter deixado eufóricos alguns nacionalistas e reaças, furiosos os comunistas, jacobinos e bloquistas, preocupados ou indiferentes a maioria dos democratas. A maneira como a RTP começou por ignorar a personagem terá sido um das razões que resultaram neste desfecho. Obviamente que preferia que outro fosse o escolhido. Mas também sei que o ditador do Vimieiro está enterrado na sua terra e de lá não se levanta (assim como Cunhal não renasce das cinzas). E que se fosse vivo e tivesse menos quarenta anos, se mantivesse as mesmas ideias, teria uma votação irrisória. E ainda que na tão liberal Holanda ganhou Pim Fortuyn, líder daquele estranho partido xeno-gay, cuja herança é hoje em dia, cinco anos após a sua morte, disputada por três grupúsculos irrelevantes.

Pouco importa. Para mim, e para tantos outros, o Maior Português será sempre aquele que melhor cantou a nossa História e cujo dia comemorativo se confunde com o Dia de Portugal.

segunda-feira, março 26, 2007

Parabéns III


À Selecção nacional de rugby, pois claro, que isto não é só futebol. Ultrapassaram os rapazes da República Oriental e vão estar presentes no Mundial de França, em Setembro. Sendo a única amadora a participar, o feito não é de menosprezar. Mesmo que os maoris, com quem se vão cruzar, lhes infligam uma derrota à antiga, a mera qualificação é para ficar na história. Um grande abraço aos nossos "lobos", em especial ao meu amigo Marcello d ´Orey, com quem acabei o curso, ilustre causídico no Porto e a mais sólida peça da equipa.

Parabéns II




D. Manuel Clemente é enfim, desde ontem, Bispo do Porto. A diocese, a maior do país, e uma das mais antigas, extremamente diversificada entre uma densa zona urbana e uma vasta área mais rural, algo amodorrada nos últimos anos, fica certamente a ganhar com esta entronização. Até Marcelo Rebelo de Sousa exprimiu uma certa invejazinha, quando disse que "faria mais falta como futuro Arcebispo de Lisboa". É tarde, Professor. D. Manuel, um dos mais cultos e inteligentes membros do clero português, está agora à frente da diocese do Porto e cumprirá seguramente a sua missão com nota positiva.

domingo, março 25, 2007

Parabéns






Só achei irónico o cartaz a anunciar "Cinquenta anos de Roma a Berlim". É que me lembrou logo o Eixo, outra ideia de federar a Europa de forma um pouco mais brusca...e não muito baseada na vontade dos estados.

Mas quanto ao futuro desta bela ideia surgida no pós-guerra, teremos de falar mais seriamente.
Quatro secos
Quem viu a Bélgica ontem não imaginará decerto que já foram de um nível parecido com o que a Selecção Nacional tem hoje, como Scolari recordou. Scifo, Ceulemans, Wilmots levaram a equipa daquela planície dividida entre valões e flamengos a lugares muito interessantes nas várias competições internacionais em que entraram, e o mesmo se aplicou aos respectivos clubes (para infelicidade do Benfica, em 1983). Quanto a guarda-redes, refiram-se Pfaff e o grande Preud ´Homme e ficamos conversados.
Ontem, no entanto, tirando o gigante Van Buyten, vimos uma equipa sem grande nível técnico a levar um baile da rapaziada lusa. Fintas, trivelas, bombas, houve de tudo para golear os pobres belgas, que se contentaram com quatro secos, devendo tão lisongeiro resultado ao seu palrador e inconveniente guarda-redes. Não há dúvida, a Selecção reencontrou-se com as boas exibições, e isso deve-se ao estado do actual futebol belga. Para mais, Quaresma marcou o seu primeiro golo (e que golo!); o próximo a estrear-se em redes adversárias éTiago.

sábado, março 24, 2007

O pensamento de um ateu convicto



Para quem acha que o fanatismo advém apenas das religiões, veja-se o que diz um comentador, que assina "Armando Quintas", na caixa de comentários de um post sobre o creaccionismo no blog De Rerum Natura:

"fanaticos sao os que vivem em funçao da religiao e todas as pessoas religiosas deste mundo são fanaticos por natureza, em maior ou menor grau..É obrigação das pessoas mentalmente sãs combater a religiao seja ela qual for e ajudar a destruir-las!"

Ao ler estas breves linhas é impossível deixar de se sentir um arrepio. O que ali está escrito é precisamente a representação de um dos maiores fanatismos que a humanidade já conheceu: o fanatismo ateu e materialista, cujo objectivo é "libertar os homens do obscurantismo religioso". Já houve inúmeras tentativas nesse sentido, desde o Culto da Razão Pura, até aos regimes nazis, soviéticos e maoístas, responsáveis pelos maiores massacres da história da Humanidade, pelo totalitarismo e pela eugenia, e em que a Albânia, o estado que se proclamou oficialmente ateu, derivou para um atraso e um isolamento sem paralelo. Centenas de milhões de mortos, como nunca houve em todos os séculos anteriores e,is no que deu a "sanidade" ateia: numa fila de horrores que alguns insistem em perpetuar, em nome da sua própria "razão". Como se a razão não fosse complementar à Fé.
A Fé despojada de Razão cai no fanatismo e na prepotência, como é tão visível no terrorismo islâmico de hoje. Mas a Razão Pura, que se proclama inimiga das religiões, conduz às piores acções que a mente humana já imaginou. No seu absolutismo, pretende eliminar a Fé e os crentes, substituindo-os por um vazio sem valores nem verdades, onde qualquer acto, por mais bárbaro que seja, será sempre "racionalmente" justificado.

terça-feira, março 20, 2007

A moderna direita portuguesa, ou o carácter original do PSD


Toda esta discussão sobre a "verdadeira oposição" e a criação de um partido "mesmo de direita" em Portugal já tem uns bons anos, e no entanto nada se chegou a fazer em sentido contrário.
As oposições andam sempre às aranhas quando um governo tem uma maioria confortável e ainda não começou a apodrecer, como aconteceu com Cavaco e Guterres, e acontece agora com Sócrates. Há que resistir, inovar e esperar pelos efeitos do tempo, nada mais.

Já a criação da tal força de direita é um assunto sempre discutido mas ao qual nunca se chega a uma ideia conclusiva. Os dois partidos maiores considerados, PSD e CDS, continuam lá, mesmo que o segundo tenha um futuro incerto, e mais do que as ideias e os projectos, abundam os carreirismos e as punhaladas. Aliás, só o movimento do Caldas é que se pode considerar realmente de direita; o partido laranja reúne sociais-democratas, liberais, nacional-populistas, democratas-cristãos, conservadores, regionalistas, e tudo o que possa aparecer à direita (ou em alternativa ) ao PS e que o CDS não tenha capacidade de satisfazer.

O PSD é mesmo um partido único, e isso vê-se logo pelo nome que ostenta e pelos grupos políticos a que pertenceu e pertence no Parlamento Europeu. Os mais parecidos que encontro - não por acaso também em países latinos - será a UDF francesa, sempre um aliado por necessidade dos gaullistas e um contrapeso na política francesa, como se vê pela ascensão de François Bayrou nas sondagens para as presidenciais, e a antiga UCD espanhola.


Há aliás outros pontos de convergência entre os dois partidos ibéricos. A UCD era um partido formado na transicion da Espanha para a democracia pelo primeiro-ministro de então, Adolfo Suarez, que agrupava centristas, sociais-democratas, democratas-cristãos, liberais ou simplesmente tecnocratas vindos do franquismo. Ganhou as eleições gerais de 1977 e 1979, mas as enormes divergências internas, apenas cimentadas pela necessidade de dar à Espanha uma nova constituição, levaram a que Suarez saísse formando o novo CDS; outras formações integraram a Alianza Popular de Fraga Iribarne, mais à direita, posteriormente transformada em Partido Popular. A UCD teve menos de 7% dos votos em 1982, quando Felipe González chegou ao poder, e acabou por se extinguir.

O problema do PSD é que, longe de mudar, conseguiu o poder, em coligação ou sozinho, por mais de uma década. Os anos dourados do cavaquismo deixaram-no acomodado ao poder estatal. Quando caiu dele abaixo, ficou à deriva, viu os seus líderes mudarem consoante a brisa, e só voltou ao poder com a saída de Gueterres, e mesmo assim em coligação com o CDS-PP.

O PSD é um equívoco em si mesmo. Já deveria ter mudado há muito, abandonado as suas cores e as suas setas, renunciado à social-democracia em favor do PS. Ou acabado, pura e simplesmente, como a UCD. Certa vez li numa opinião de um jornal que se isso acontecesse, a ala esquerda seria engolida pelo PS e a direita engoliria o CDS. Melhor seria que a ala que se diz de centro-esquerda fosse para o PS, os conservadores e democratas-cristãos se fundissem no CDS, permitindo a criação de um partido renovado nesse sector, e os liberais se juntassem noutro movimento, que poderia ser a Nova Democracia, sem Monteiro à cabeça, bem entendido.
O futuro dirá se acontece isso ou se surge o tal "grande partido de direita", à imagem do PP espanhol. Ou se fica tudo na mesma, e o PSD volta um dia ao poder, com ou sem o CDS (PP), quando Sócrates tiver enfim esgotado a sua agenda de "reformas".
(Já agora, aconselho estes dois posts do Combustões. Não tenho a suposta admiração pelas persongens enunciadas no segundo texto, mas parece-me que não anda longe do que teclei aí em cima).

sexta-feira, março 16, 2007

Hugh Laurie através dos tempos

Actualmente, o actor Hugh Laurie tem alcançado enorme sucesso como protagonista da série Dr. House.


Mas para os mais esquecidos, Laurie tornou-se conhecido antes de mais pelos seus papeis nas séries de humor britânicas, como o celebérrimo Black Adder, que nos deu igualmente a conhecer o seu criador, Rowan Atkinson, e Miranda Richardson. Laurie fazia o papel de Príncipe Regente na 3ª série, passada no Séc. XVIII, e do presunçoso e cretino Tenente George St. Barleigh, na 4ª Série, nas trincheiras da Grande Guerra.












Ainda se lembram dele, em tão diferentes registos?

quinta-feira, março 15, 2007

Brava Dança dos Heróis

 

Saúde-se o voluntarismo do filme Brava Dança, documentário sobre a carreira dos Heróis do Mar. Não por ser uma obra-prima, ter uma fotografia fabulosa ou um ritmo de narrativa esplendoroso. Mas o simples facto de ser um dos primeiras fitas do gênero produzidas em Portugal (a par de Lisboetas ou Diários da Bósnia) já é de si uma notícia a registar. Além do mais, debruça-se sobre uma época particularmente rica no panorama musical português: o boom do Rock nacional, a recuperação da cantiga popular, o renascer do interesse pelo Fado, com as baladas e as canções de intervenção a deixarem de ser gênero único, sem se eclipsarem. É interessante ver as origens do grupo, o quase experimentalismo punk dos efémeros Faíscas (um sub-punk absolutamente inenarrável e incompreensível) e Corpo Diplomático e as suas guitarras distorcidas, com o ubíquo Ayres de Magalhães; a vontade de fazer um grupo que tocasse música portuguesa; as cinco personalidades distintas dos seus membros, a começar pelas influências musicais; o espírito de provocação e rebeldia que caracterizou a banda e lhe trouxe alguns dissabores no início.

A pose e a estética marcial e nacionalista criaram reacções chocadas que se verificaram obstáculos difíceis de ultrapassar, mas deram aos Heróis a fama que eles desejavam, embora de uma forma que sem dúvida não esperariam. Os fatos de navegadores, as armas, as letras (ainda assim amaciadas) de carácter guerreiro e nacionalista, a Cruz de Cristo, tudo isso criou-lhes o anátema original de "fascistas" a "reaccionários", só ultrapassado com sucessos comerciais como Amor ou Paixão. Seguiu-se o habitual disco mal-recebido-pelo-público, Mãe, mais alguns êxitos pop e a renovação de energias, com Macau. Já na fase final, mais desinspirada e com claro ar de "vamos é acabar com isto", ainda editaram um disco homónimo, antes de se separarem definitivamente. O vocalista Rui Pregal da Cunha e Pedro Paulo Gonçalves constituíram os LX-90, com um estilo mais rocker, antes de se dedicarem a outros projectos fora da música; enquanto Pedro Ayres de Magalhães já tinha os seus Madredeus (para os quais recuperou depois Carlos Maria Trindade), cuja história e posterior sucesso internacional são sobejamente conhecidos.

O documentário abrange todos esses momentos, ouve inúmeros testemunhos da época e mostra imagens de videoclips, concertos digressões. Fica-se com uma ideia da movida lisboeta dos anos 80 (em que ninguém dormia, segundo Pregal da Cunha), da vida na "estrada", das dificuldades económicas para manter uma banda assim e das influências musicais absorvidas ao longo dos anos. Um filme que apesar de algumas deficiências e lacunas, vale o preço do bilhete, e que é uma justa homenagem a tão marcante banda e a tão agitada década.

PS: era bom que a Blitz não cometesse erros de palmatória como este. Primeira colectânea dos Heróis do Mar em 2007? Houve pelo menos outras duas, uma em dois discos, ainda nos anos 80, e outra, intitulada Paixão, em 2001, que é a que eu tenho. Enorme falta de atenção à discografia básica por parte de uma revista muito "profissionalizada" mas demasiado descaracterizada, e que comete erros básicos deste tipo.

domingo, março 11, 2007

Metros


Para quem se interessa por metropolitanos, mais subterrâneos ou superficiais, ou deseja encontrar imagens dos comboios urabnos que existem em quase todas as grandes cidades, este sítio é um achado. Basta saber usar um mapa. E ainda tem links para buscas mais aprofundadas. Sobre este assunto não conheço nada melhor. Não sei se há grandes indefectíveis dos metros, mas se os houver, têm aqui material de sobra.
"Moderação"

A nova Lei que despenaliza/liberaliza o aborto foi aprovada na especialidade. Como se previa, não haverá aconselhamento obrigatório. as mulheres poderão abortar sem qualquer tentativa de disuasão, o que torna o estado neutro em relação ao aborto até às dez semanas. Parece que é uma "lei moderada".

A nova lei do tabaco promete criar ainda mais restrições aos fumadores. Agora será proibido fumar em bares restaurantes e discotecas com menos de cem metros quadrados. O presidente de uma tal ConfederaçãoPortuguesa de Prevenção ao Tabagismo (prevenção e não proibição, estranhamente) considerou a proposta "equilibrada" e que "chegou a recear que a legislação deixasse ao critério dos proprietários dos restaurantes, bares e discotecas a decisão de proibir o fumo". Será que também conhece o significado da palavra proprietário?

São dois belos exemplos de normas "moderadas"e equilibradas" Nem quero imaginar se não fossem.
Cartas de Iwo Jima, The Good German, e Brava Dança dos Herois são três filmes que quero ver dê por onde der. Para isso, só tenho dez dias e pouca disponibilidade. Mas apesar disso, e da crítica ser mediana face ao segundo e desconfiada para com o terceiro, não não vou estar à espera do DVD. Há objectivos obrigatórios a que não se pode olhar a meios para os concretizar.

quinta-feira, março 08, 2007

8 De Março

Associando-me às comemorações do Dia Mundial da Mulher, que o Corta-Fitas publicita incessantemente, deixo também o meu quinhão contributivo. É modesto, mas é o que se pode arranjar.
É claro que para uma homenagem mais justa e completa, há que ir a lugares geridos por profissionais, onde Deus as cria.
Meio século de televisão

Parabéns à RTP. Cinquenta anos é uma bela idade, e, com mais ou menos percalços, sempre é uma instituição a que todos nos habituámos. As operadoras privadas tiraram-lhe o monopólio, mas pelo que se vê, a televisão estatal está actualmente uns furos acima no que toca à programação.

(Refira-se já agora que a televisão só iniciou as suas emissões na região de Lisboa. No Porto só uns meses depois é que a inauguraram. Se não me engano, tenho a gravação desses momentos iniciais, em que o meu avô paterno tomou parte)

terça-feira, março 06, 2007

Portas versão 5.0

O regresso de Paulo Portas à ribalta político-partidária, depois de dois anos precisos a picar o ponto na AR, escrever crónicas políticas no SOL mascaradas de críticas de cinema e emanar algumas opiniões na SIC- Notícias, é a coisa menos inesperada que vimos desde que Cavaco ganhou as presidenciais. A pacata"travessia do deserto", sem grandes ondas, começou com a derrota em Fevereiro de 2005, e todos pensaram que Portas iria dedicar-se a uma carreira mais internacionalizada, aproveitando o que granjeou com o seu antigo cargo governamental. Falou-se mesmo de um centro de estudos para ideologizar a nova direita portuguesa, com subsídios americanos. Tudo isso ficou no papel ou não passou de uma abstracção. A Atlântico encarregou-se de começar o combate das ideias (não, não estou a defender que seja uma revista "portista") e o antigo líder do CDS começou a preparar o seu regresso à cúpula partidária a partir da surpresa que constituiu a derrota do seu delfim Telmo Correia.
Nos últimos dois anos assistiu-se a direcção de Ribeiro e Castro mais voltada para a democracia cristã e para o CDS original, pouco hábil e com alguns passos desastrados, esvaziando a direita e deixando-a alienar-se por Sócrates. Mas o eurodeputado teve igualmente medidas importantes, como a revitalização das estruturas regionais e locais do partido, postas à parte pelas direcções anteriores. O seu trabalho foi torpedeado pelos "portistas" que constituíam a quase totalidade do grupo parlamentar, como se viu com o exemplo cabal de Nuno Melo, mesmo depois de Ribeiro e Castro ter ganho novo congresso. Este tipo de atitudes tem normalmente vários nomes, como deslealdade, conspiração, ou corrosão interna. Mas Portas já esteve envolvido em situações semelhantes, como os truques recíprocos com Manuel Monteiro. Agora, porém, o caso é mais descarado e já não tem o efeito surpresa de há alguns anos.

Paulo Portas é sem dúvida o mais hábil, inteligente e dinâmico líder que a direita portuguesa conheceu nos últimos vinte anos. E também o mais cínico e mefistofélico (Marcelo idem, mas não sei se lhe deva colar a palvara "direita"). Simplesmente, a onda de re-renovação que trouxe nos anos noventa já se dissipou em grande parte. A posse referência jovem-populista-estadista esgotou-se, pelo que aposta algora numa vertente mais liberal. Um pouco tarde, na minha visão. A aura de invencibilidade interna já não é a mesma; o regresso ao antigo cargo traz sempre anticorpos e expectativas desconfiadas, e agora, depois da guerrilha a Ribeiro e Castro, mais do que nunca. é certo que no CDS já houve um regresso triunfal, o de Freitas do Amaral em 1988, com a redução a "partido do táxi", mas não tinha na altura oposição alguma e as melhorias foram nulas. Agora as coisas são diferentes. Portas vai ter mais dificuldade do que julga ganhar a liderança do partido, e mais ainda a guindá-lo de novo a partido de poder, ou quando muito a guia da direita portuguesa. Muitas surpresas estão-lhe reservadas, e ele, atrás daquela postura calmamente messiânica, provavelmente sabe disso.

quinta-feira, março 01, 2007

Manuel Galrinho Bento
1948 - 2007


segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Oscares

Está a começar a sessão de Oscares deste ano. Não tendo podido ir ao cinema tanto quanto gostaria, também não tenho enormíssimas preferências. Ainda assim, gostava que a tradição se quebrasse esta ano e que Scorcese ganhasse finalmente a sua estatueta. Não vi The Departed, mas toda a sua obra já o justificava, e de que maneira. Pena para Eastwood, mas neste novo duelo ao pôr-do-sol com Marty, espero que ele perca. Frears e Iñarritu têm as suas hipóteses, ao contrário de Geengrass, e noutras circunstâncias até gostava de ver o prémio ir parar às mãos do realizador de Ligações Perigosas. Se Scorcese não ganhar, definitivamente estará criada uma autêntica maldição (ou má vontade) sobre este realizador.

Outro que sofre do mesmo mal é O´Toole, mas não me parece que chegue lá. Não o premiaram em Lawrence da Arábia e agora afadigam-se a tentar compensá-lo. Mas há coisas que se não são feitas na altura devida, mais vale que se fique quieto e calado. Mas infelizmente a Academia não é dada a indiscrições.
Nesta categoria deve acontecer o mesmo que no ano passado, ou seja, o Oscar irá para um actor a quem todos reconhecem enorme talento, que normalmente aparece em filmes menos comerciais, sem grande sex-apeal, e que quando interpreta uma personagem real é que se lembram de o premiar. O caso de Forest Withaker (escandaloso ser nomeada pela primeira vez aos 45 anos) é em tudo igual ao de Philip Seymour Hoffman, e não custa a crer que o resultado final seja o mesmo.
Will Smith e Di Caprio terão de esperar pela sua terceira nomeação. Ryan Gosling não conheço, nem o filme que protagoniza. A nomeação será um bom veículo ou continuará no anonimato?

Na categoria feminina, o nome de Helen Mirren não deverá espantar ninguém, mas contra Her Majesty não há nada a objectar. A ficar navios ficarão uma vez mais Kate Winslet e Judy Dench, que já mereciam qualquer coisinha. ao menos veremos Penélope Cruz lá no meio; quanto a Merryl Streep já deve estar farta de comparecer na cerimónia, com nomeações ano-sim, ano-não.

Secundários? Babel terá uma palavra a dizer. Mas reparo que Cate Blanchett, co-protagonista do mundi-pudim de Iñarritu, surge como nomeada por Notes of a Scandal. O filme ainda não chegou às salas, mas tenho a certeza de que ela merece novo galardão. Só mesmo por se tratar de Blanchett, que é uma razão mais que suficiente. quem sabe se para o ano não ganha a estátua principal, se Hollywood voltara premiar uma interpretação de uma Rainha inglesa.
Entre os senhores secundários, a luta terá a sua piada, mas não faço prognósticos. Talvez entre Alan Arkin (do excelente Little Miss Sunshine) e o renovado Eddie Murphy.

Prémios técnicos à parte, resta-me esperar pelo melhor filme. Que deverá ser Babel, já que a Academia gosta de filmes do gênero, sobretudo quando conseguem ser tão (descarademente) "globalizantes", e para mais agora, que os realizadores mexicanos estão tão na moda.
Vamos lá ver até que hora aguento. Mas sinceramente não espero grandes surpresas. Mas quem sabe, na edição passada aquilo acabou com grandes emoção. E esta noite?

sábado, fevereiro 24, 2007

As (in)consequências da visita de Isabel II a Portugal



Como se assinalou nalguns jornais e blogues, a Rainha Isabel II visitou Portugal em Fevereiro de 1957, há cinquenta anos, durante quatro dias. Não era a primeira vez que um monarca britânico vinha ao país; já Eduardo VII o fizera, em 1902. De qualquer modo, a visita teve imenso impacto, e serviu para cimentar a velha aliança Luso-Britânica e para retribuir a visita de Craveiro Lopes, em 1955.

Não foram poupados esforços nem custos. Exortou-se a população a vir para a rua aclamar a Soberana e a comunicação social a comparecer em peso. Usaram-se coches e um bergantim do Séc. XVIII para transportar a Rainha do iate Britannia, onde chegou, até ao Cais das Colunas, onde Craveiro Lopes e Salazar já a esperavam, com pompa e circunstância.
A família real ficou instalada no palácio de Queluz. Relevantes foram o banquete na Ajuda, com centenas de convidados, o almoço de honra na câmara de Lisboa (onde se retomaram hábitos esquecidos, como o do arauto vestido com as cores da edilidade, ou a guarda de honra prestada por pajens com o pendão dos corvos de S. Vicente) e as visitas ao Bairro da Ajuda (o momento "instituições sociais", com claras instruções para não ir a hospitais nem a sítios com "sick people"), aos Jerónimos e ao Museu dos Coches. Houve ainda uma passeio até à Nazaré (aqui,ao que parece, a pedido da própria Rainha), a Alcobaça, onde os estudantes de Coimbra fizeram uma passadeira com as suas capas, e à Batalha, recordando a ajuda inglesa na utilização da táctica do quadrado em Aljubarrota. No regresso, oportunidade também para ver os campinos e touros do Ribatejo.
Para terminar, houve ainda um banquete no Britannia, em honra do presidente português, com fogo-de-artifício sobe o Tejo. A soberana partiu no dia seguinte de avião, com uma paragem no Porto para receber a "colónia britânica" na Bolsa e na Feitoria Inglesa.

A velha aliança solidificou-se com esta viagem, sem qualquer dúvida. Mas as esperanças do governo português eram outras, e foram compreendidas pela União Indiana. Um mês após a visita, o jornal do Partido do Congresso, de Nehru, publicava um editorial com alusões à "pouca inteligência da Rainha" e às "carnificinas dos portugueses em Goa". O líder indiano ainda pediu desculpas, mas o episódio demonstrou quão acesas estavam as relações dos indianos com Portugal. Quatro anos depois, como se sabe, os territórios portugueses no sub-continente eram ocupados e começavam as insurreições em África.

Portugal pretendia obter o apoio britânico na manutenção a toda a força do Ultramar. Mas a Grã-Bretanha estava a mudar rapidamente. A doutrina de Churchill, que pretendia manter o Império Britânico, tinha sido guardada. Em 1956, a expedição ao Suez, em conjunto com a França e Israel, para reverter a nacionalização do canal por Nasser, redundara num fracasso. A URSS ameaçaram intervir usando a sua força nuclear,e os Estados Unidos pronunciaram-se igualmente contra a intervenção no Egipto. O episódio mostrou quem mandava no Mundo e revelava, de forma cristalina, que as potências coloniais já não tinham a força de outrora. A França perdera a Indochina, começava o processo de independência das suas colónias africanas e iniciava uma sangrenta guerra na Argélia. No Reino Unido, o fracasso levou à queda do governo de Eden, substituído por MacMillan apenas um mês antes da visita da Rainha. O novo primeiro-ministro, de ideias opostas às de Churchill, sendo igualmente Conservador, pretendia desligar-se paulatinamente do Império (fora do âmbito da Commonwealth) e aproximar-se dos EUA, tornando-se o sustentáculo principal dos americanos, e por outro lado aderir à nova CEE.
Ainda em 1957, a Malásia e o Gana alcançaram a independência. A partir dos anos 60, as colónias britânicas foram-se desligando do antigo colonizador, embora algumas tivessem permanecido na Commonwealth com a Rainha como chefe de Estado (outros saíram, como a África do Sul). A autonomia unilateral da Rodésia, encabeçada por Ian Smith, em 1965, teve o apoio de Portugal, coisa que arrefeceu as boas relações com a Inglaterra. Esta aliás considerava que a sua colaboração em questões internacionais jamais deveria estender-se ao Ultramar, e fazia a subtil distinção entre "Portugal aliado na NATO" e "Portugal como potência colonizadora".
Muito embora a visita tenha reforçado os laços entre os dois países, as suas consequências quanto a política externa ultramarina não foram significativas. O fim do Império Britânico enfraqueceu o Reino Unido, obrigando a uma mudança de políticas, e isolou Portugal na sua muito particular visão colonial, o que viria a traduzir-se mais tarde na perda dos seus territórios fora da Europa.
O Welfare State, esse bárbaro

A Dia D, revista de economia que acompanhava o Público, e orgão oficioso para tudo o que é blogoesfera liberal, chegou ao fim. Fê-lo com um momento de assinalável boa-disposição: a crónica de Miguel Noronha. Ao que parece, as razões da decadência social do Reino Unido devem-se à Igreja Anglicana, aos governos de Lloyd George e de Attlee e ao terrífico "Welfare State". Já a Srª Thatcher, que governou o país precisamente quando essa decadência se acentuou e se tornou mais visível (simbolizada pelos hooligans, referidos no artigo, e também com a violência urbana resultante do enorme desemprego da época), teria introduzido reformas para estancar o "trágico resultado", mas em vão.
Acho muito bem que a publicação, uma vez que vai encerrar, o faça desta forma. O bom humor faz sempre falta, e nesse aspecto, os peritos económicos, por muito que o disfarcem, são autênticas reservas espirituosas.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O típico governo italiano

O Governo Prodi caiu porque o seu programa "externo" não passou no Senado. Nada de espantar. A média de duração de um governo italiano desde a 2ªGuerra (isto é, durante a República) é de dez meses, sendo que muitas vezes o anterior chefe do executivo é reconduzido ao cargo, coisa que ao que tudo indica, voltará a suceder. A instabilidade governativa italiana é um velho costume político que só mesmo Mussolini quebrou. Uma vez que a Itália vai continuar a viver em democracia, os governos vão consequentemente durar, na melhor das hipóteses, ano e meio. Contra isto não há Mãos Limpas que lhes valham.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Entrudo em Lazarim


Dia de Carnaval, Terça-feira Gorda, comemorada nas Ovares e Loulés deste país, com samba, dançarinas semi-nuas e carros alegóricos. O mesmo se passa em Veneza, Nice, Salvador e Nova Orleães.
Mas entre o Douro e Trás-os-Monte as tradições são diferentes, e seguramente mais antigas. Aqui existe o Entrudo, permitem-se excessos mais físicos que visuais, muitas vezes camuflados debaixo de carantonhas, e reavivam-se tradições que, depois dos anos de interdição durante o Estado Novo, se tornaram um chamariz de forasteiros. Como eu.

Em Podence, Macedo de Cavaleiros, onde os caretos infestam as ruas com as suas travessuras e os seus chocalhos e os seus trajes garridos,ocultados por máscaras bizarras, ou em Lazarim, onde são de madeira e os mascarados se vestem de forma mais diversificada e incrível, o Entrudo é uma imagem de marca destes dias frios. Dirigi-me para esta última aldeia, apanhando a estrada para Tarouca, depois de Lamego, e virando à direita após Britiande. Por entre uma paisagem mais de lameiros que de vinhas, atravessa-se a aldeia de Lalim, que já vem da Idade Média (como quase todas, nesta zona), onde a estrada se converte em apertadas ruelas. Mais uns quilómetros e estamos à vista de Lazarim, nas faldas da Gralheira. Para chegar ao centro da povoação há que deixar o carro na borda da estrada, a umas centenas de metros, que o intenso movimento assim o obriga.
 
A festa começou no fim de semana e tem o ponto alto na Terça, com a leitura dos jocosos "testamentos", o desfile e o concurso dos caretos, a queima dos compadres e a comezaina final. Com bombos e banda pelo meio.
Pouca sorte: chego já na altura do cortejo e tenho necessidade de me ir embora ainda com luz do dia. É o suficiente para me inteirar das festividades. Lazarim é antes de mais uma antiga povoação que se alonga pela estrada fora, abrindo-se num largo central e terminando nas ruelas adjacentes. Nas bermas, espalham-se vendedores de cavacas de Resende, cavacórios, vinho da região, recordações da aldeia, postais e até t-shirts alusivas à ocasião.


Os caretos vêm no sentido contrário ao meu, precedidos pela banda que os anuncia. O cortejo é encabeçado por uma espécie de líder dos mafarricos de madeira, montado num burro. Descem até se concentrar no largo, exibindo as suas fatiotas e fazendo barulho, no meio da multidão que os aplaude e fotografa. Na casa brasonada que domina o terreiro está montada uma varanda/palanque à laia de palco do concurso, onde os caretos começam a subir um a um. Aí, apresentam-se e vão retirando as máscaras. A grande maioria é da aldeia, mas mesmo os de fora provocam o gáudio dos assistentes.








Nem todos estão atentos ao concurso. Encostado ao cruzeiro a meio do largo, um homem de fato de ver a Deus, largo capote por cima, lenço ao pescoço e chapéu igual ao que os Gato Fedorento usaram no rap matarruano mal se aguenta de pé, perdido de bêbado. Inclina-se para a frente, descai para trás, e a certa altura tomba mesmo, perante algum riso e a pronta ajuda dos confrades. Há quem aproveite a quadra festiva até à náusea, ou pelo menos, aos limites dionisíacos.





Acabada a exposição dos caretos, os ex-mascarados dispersam-se e o júri retira-se para deliberar. Entretanto, a banda cria ambiente, tocando freneticamente, com bombos e concertinas, cantigas de Quim Barreiros. Apesar do frio (zero graus às 6 da tarde, e vê-se neve nas montanhas ao longe), a animação nas pessoas é visível. Por um Euro, compra-se uma extensão enorme de cavacas de Resende, ideal antes de entrar na Quaresma. Eis o autêntico comércio tradicional, o dos almocreves e das feiras, antes de qualquer loja ou armazém, que hoje nos parecem ser de outro tempo.

O júri demora muito, e como tenho de voltar cedo, saio de Lazarim ainda com a luz da tarde. Ainda há muita gente no largo. Sei que haverá a queima dos Compadres e que a festa acaba em farta comezaina, com caldo de farinha, feijoada e vinho. Óptima maneira de encerrar o dia, para os que ficam. Uma ideia que consola é que a tradição, agora reavivada e cada vez mais conhecida, retomar-se-à para o ano. O tempo também pode andar para trás nas coisas boas da vida.

Este relato diz respeito ao Carnaval de 2006, mas parece que este ano, em que não pude repetir o passeio, a folia voltou em grande escala. Também o Bichos Carpinteiros descreveu o mesmo evento, mas dois dias antes. Ao que parece, sou um dos "duros" que esteve no epicentro da festa. Ou quase.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Sanchez na Venezuela?

Num post do Hoje há Conquilhas, que subscrevo e recomendo, diz-se a certa altura que algumas das pessoas que ao nome Salazar pegam na pistola "alimentam a esperança de que Hugo Sànchez substitua, na América Latina, o retirado Fidel Castro". Aqui confesso que fiquei desorientado: então Hugo CHÁVEZ deixou o poder, logo agora que estava a criar a sua querida república socialista e em que iniciava as suas próprias conversas em família, com a respectiva secção de apresentação de livros (muitos exemplos marcelistas segue Chávez)? E logo para que o antigo craque e actual seleccionador mexicano ocupasse o seu lugar, e, ao que parece, o difícil papel de Fidel? Estrangeiros a ocupar o lugar de chefe de estado num país sul-americano não é coisa inédita, na ficção como na realidade, desde o próprio México, com o efémero imperador Maximiliano, até à BD.
Agora do ex-craque nestas lides é que não estava à espera. Se tiver a mesma relação com a governação como com os golos, os adversários, a começar pelos EUA, que se preparem. Mas mais valia que o elemento estrangeiro da Quinta del Buitre continuasse a dar instruções a Kikin Fonseca e não tentasse aparecer na fotografia com o guevarista Maradona. Não lhe fica bem, depois de anos de rivalidade, e sempre conserva as simpatias que os seguidores do Atlético de Madrid e os Ultra Sur, na sua maioria pouco predispostos a socialismos, lhe dedicaram.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

O Público mudou

Digam o que disserem, torci o nariz à a nova imagem do Público, que considero descaracterizado, indistinto de outras publicações e graficamente desengraçado. Como não o tenho comprado nos últimos dias, ainda não pude testemunhar outras alterações de fundo, mas do que me tenho apercebido, as novas divisões são uma confusão, há igualmente rodagem de colunistas, e também temo pelos suplementos semanais. Se tivessem conservado o logótipo, com o acento azul sobre o "u", ainda podia pronunciar um relativista "´tá bem, pronto". Um jornal não tem, antes pelo contrário, de ser uma coisa anacrónica ou inerte, mas sim de acompanhar o mundo e as suas conjunturas e mutações.
Mas não. Nem isso. Mudaram tudo, de cima a baixo. É pena, porque há sempre pequenos símbolos a que uma pessoa se agarra, e que considera em parte seus. Os jornais e as características que transportam são um claro exmplo disso, até porque fazem parte da vida pública de uma sociedade.
Posso vir-me a habituar, em parte, mas definitivamente este Público deixou de ser o jornal a que me habituei desde o início, quando me levantava ao Domingo por causa do Júnior, e que jamais dispensei.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

A tentação da raiva

Falo agora não do referendo que passou, mas das suas reacções. Como se esperava, entre os "vencedores", houve reacções mais moderadas ou racionais. Mas não faltaram igualmente os ajustes de contas, os odiozinhos recalcados a virem à superfície, em suma, tudo aquilo que muitos queriam dizer e não puderam para dar o ar de "moderados". Entre casos mais ou menos graves, dou como exemplo este destapar de irracionalidade, má-fé e triste figura, provavelmente um caso clínico, de uma criatura chamada Carlos Esperança, alguém que vive ainda no tempo de Afonso Costa e que se pudesse correria a incendiar todas as igrejas que encontrasse pelo caminho. Ficou muito claro, através deste post troglodita, quais as reais intenções de alguma dessa gente: "achincalhar a igreja". O que equivale a insultar milhões de portugueses em nome dos seus dogmazinhos das catacumbas. Percebe-se: esta malta sabe que nunca conseguirá subverter a igreja - i.e. acabar com ela - e diverte-se com as vingançazinhas blogoesféricas. Que seja essa a alegria deles, o matchbox para brincar sabendo que nunca terão um em tamanho natural, já que na prática, só mesmo olhando para as litografias da esquecida Iª República.
Adenda: o já célebre editorial do El Pais considera que o CDS é um partido de "ultra-direita", que o Algarve, o Alentejo e a cintura de Setúbal são regiões "avançadas", e que "a voz do Portugal laico e moderno elevou-se sobre o silêncio do país atrasado". É só exemplo das imbecilidades proferidas pelo editorial (e não por qualquer coluna de opinião) de um jornal espanhol "de referência", que assim dá uma imagem deturpada e ideologicamente marcadíssima de Portugal, para quem não conhecer este país. quem não o ficar a conhecer a partir de agora, que o compre. E que leia também este post , antes de tudo.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Depois do referendo

O que há a dizer no rescaldo do referendo? Que a minha escolha, aqui e aqui expressa, perdeu nas urnas. Só soube do resultado lá pelas onze horas, porque antes disso estava num comboio entre Porto e Lisboa. Não foi a vitória do "sim" que me espantou e entristeceu, mas a diferença clara entre as votações.

Como não tenho os pruridos do PCP, entendo que a escolha dos que votaram deve ser respeitada, mesmo que o referendo juridicamente não seja vinculativo (como não o fora em 98). Faço votos para que a nova legislação seja moderada e não deixe de considerar o aborto um mal, dando o necessário atendimento às grávidas e não esquecendo o direito à maternidade, constitucionalmente consagrado, mais a mais num país com fraca natalidade.
Mas como já se disse repetidamente noutras partes, a questão não está nem pouco mais ou menos resolvida. Temo que o número de abortos suba, e não apenas nos primeiros tempos, mas também que o SNS tenha ainda mais dificuldades em atender os pacientes habituais, que o aborto clandestino permaneça (em alguns meios vai com certeza subsistir) elevado, e que se observe a aberrante situação de ver as mulheres de Espanha a vir abortar ao nosso país, quando em certas situações uma portuguesa tem de ir dar à luz a Badajoz. Sim, isso pode muito bem acontecer, e não é por acaso que já há uma clínica espanhola especializada em abortos a ser montada em Lisboa... mesmo antes de se saberem os resultados do referendo. Quem viu a entrevista a uma cinicíssima representante dessa casa não poderá com certeza ter deixado de reprimir um arrepio pela espinha.

Os vencidos da noite foram portanto os que estavam do lado do não, como eu, excepto talvez uma pessoa: Ribeiro e Castro. Com uma campanha infatigável, quase sozinho, foi o líder do único partido que disse "não" e na declaração oficial não atirou a toalha ao chão, prometendo que continuaria atento e a lutar pelas suas convicções. Ganhou um grande capital político, que Portas e os seus acólitos terão de enfrentar doravante.
Outros derrotados: Marcelo, claramente, e Marques Mendes. O PSD não entra nestas contas devido à sua divisão entre as duas opções. E embora tenha criticado este partido pela sua campanha ambígua, devo igualmente felicitá-lo: se a questão não era política nem partidária, então partido algum devia ter tomado posição, deixando o caminho aberto para os vários grupos de cidadãos. A partidarização de questões desta natureza é que tem tendência a afastar as pessoas das actividades cívicas; e nem assim se compreende os apelos para que a Igreja não se metesse ao barulho. Afinal de contas, porque é que os direitos dos partidos a fazerem estas campanhas prevalecem sobre as confissões religiosas? Só se a questão fôr afinal política, coisa que não é ou não deveria ser.
De tudo isto, retira-se ao menos um facto positivo: a maior participação dos cidadãos organizados fora das esferas partidárias. Um exemplo que deve frutificar.

Entre os vencedores, Sócrates, claro. A vitória do "sim" deve-se provavelmente a ele e a mais ninguém. A diferença entre 98 e 2006 esteve provavelmente na mobilização do governo e do PS quase todo, com as raras excepções do "não". O PCP conseguiu enfim ver aprovada na prática a tese de licenciatura do seu líder histórico, mas quanto a capital político, é duvidoso que tenha ganho muito. O BE terá ganho esta batalha, mas pelas reacções pantomineiras duvido que tenha angariado muitos trunfos. Aquele cartaz do "Bem-vindos ao Século XXI" é uma coisa confrangedora. Como é que pessoas que vivem, na melhor das hipóteses, nos anos setenta, podem servir de anfitriões ao Século XXI? Aquilo era antes um "bem-vindos à pós-modernidade"; tinha muito mais a ver com aquele partido e com este momento.

Como disse atrás, a questão está longe de estar resolvida. As convicções não se calam por causa de uma derrota nas urnas. E quase aposto que um dia terá de se fazer novo referendo sobre o assunto, mas noutro sentido. Se uns o puderam repetir, porque não os outros? É assim que funciona a democracia.

domingo, fevereiro 11, 2007

Não é para me fazer à lista, mas o Corta-Fitas merece os meus parabéns atrasados. Quanto mais não seja porque passou a ser um blogue de leitura diária obrigatória, depois de meses de indiferença a que o votei. A ignorância tem destas coisas. Muitos parabéns, então, e que o blogue continue exactamente como é.
Este ano já não ganhamos a 25ª

Eu já estava pessimista desde o sorteio, e as minhas desconfianças concretizaram-se da pior maneira: fomos afastados da Taça por um clube da Divisão de Honra. Não é tão mau como a eliminação do Porto frente ao Atlético, mas era escusado. Não me lembro de ver o Benfica ganhar naquele horrível estádio da Póvoa, que de bom só tem o estar em frente ao mar (e mesmo isso vai ser alterado).
O meu trauma já vem de 2001, naquele jogo em que ficou célebre a frase "deixem jogar o Mantorras". Lembro-me que paguei couro e cabelo, fiquei empilhado com os outros benfiquistas em meia bancada, mesmo sendo em maior número que os varzinistas, depois de me terem recusado a entrada no lugar a que tinha direito, e ainda vimos os locais a beneficiarem de uma arbitragem péssima que nos roubou descaradamente um penalty. A partir daí, fiquei com uns sentimentos de ternura em relação ao Varzim que me fazem anualmente desejar a descida da divisão onde se encontrem.
Infelizmente, continuamos sem ganhar naquele maldito estádio.Mas lá virá o dia (e que seja de novo na Taça, sinal de que os poveiros permanecerão nas divisões inferiores). Agora é recuperar a equipa para o decisivo encontro com o Dínamo de Bucareste. E desta vez tem de haver mais golos da nossa parte, entendido, Eng. Santos?

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Bem sei que a campanha do aborto está a deixar todos pelos cabelos. Mesmo assim, queria chamar a atenção para os posts do Timshel relativos ao assunto. A série Pasolini, o cineasta maldito italiano , é altamente recomendável, assim como os vários links dirigidos ao tema. Mais uma estocada na ideia de que esta discussão põe a esquerda e a direita em compartimentos estanques. Só surpreende a quem andar desatento.