sexta-feira, agosto 31, 2007

Obituário

Há já uma semana que morreu Eduardo Prado Coelho. Surpreendi-me bastante com esse desaparecimento, até porque a doença que o afectava não parecia letal (ainda que grave), apesar das sucessivas interrupções do seu artigo diário no Público e do ar patibular que tanto o modificou. Acabou no entanto por ser um ataque cardíaco o causador da sua morte.

Eduardo Prado Coelho era o típico "intelectual de esquerda", a quem só faltava mesmo o cachimbo. Recordava frequentemente os anos de Paris e utilizava por vezes um jargão filosófico sobre as suas referências pouco acessível ao comum dos leitores. Mas andava frequentemente entre os comuns mortais, e fazia gala disso. Não raras vezes os seus artigos incidiam sobre as suas pequenas obsessões e prazeres: a qualidade das salas de cinema, os produtos de beleza, os pastéis de nata, o Sporting, as telenovelas, e muitas outras coisas. Ainda no último ano publicara um álbum, intitulado "Nacional e Transmissível", onde constavam outros elementos das suas vivências, como os cafés lisboetas.

Os seus artigos incidiam sobre uma panóplia de assuntos, sobretudo filosóficos e políticos. Nos últimos verificava-se uma enorme concordância com as políticas do actual governo, com algumas críticas pontuais, sendo o último Ai, Simplex imagem disso mesmo. Como quase sempre,. EPC teve sempre esse oportunismo político, desde a sua ligação ao PC, passando pelo apego ao cavaquismo, e até aí se notava o seu cunho de intelectual afrancesado, qual Jacques Lang sem poder.

Que me lembre, vi-o só uma vez, numa série de conferências na Bolsa. Apesar de alguma irrritação que certos artigos do "Almôndega" (assim era conhecido nos tempos de faculdade) me provocavam, outros havia que eram imperdíveis. Admira-me aliás o imenso coro de homenagens que lhe fazem agora. Sempre o vi como um homem criticado por tudo e todos, de forma exagerada e por vezes maldosa, principalmente pelo seu francesismo, que como se sabe não está na moda, e caricaturado como o representante intelectual Rive Gauche em Portugal. Mas já se sabe que a morte produz milagres de opinião e honrarias. Assim, serei obrigado a concluír com o que outros disseram: deixa inequivocamente um lugar vago na cultura e na opinião portuguesa; e sim, fará muita falta ao panorama intelectual e jornalístico. Jamais reabriremos o Público sem nos lembrarmos do omnipresente O Fio do Horizonte. Um espaço em branco não apenas presumido, mas bem visível.
Já agora, assinale-se também outro desaparecimento de outro homem da cultura, mas da pop, e de Manchester: Tony Wilson, mentor dos Joy Division, New Order, Happy Mondays, da Haçienda e da Factory, e amigo de Miguel Esteves Cardoso. Conheci-o, como muita gente, no filme 24 Hours Party People. Um belo documento, aliás, para quem quiser conhecer a sua obra entre os anos 70 e 80, o urbano depressivismo e a loucura da Rave e do Madchester.



quarta-feira, agosto 29, 2007

O piroso nome escolhido pelos anarco-eco-pantomineiros mais mediáticos do momento, Verde Eufémia, podia muito bem dar o mote para outras inspirações. O PSD mais saudoso de Manuela Ferreira Leite, por exemplo, nesta luta de galos entre Mendes e Menezes, podia lançar o Laranja Ferreira. Os conservadores-liberais portugueses, sem grandes tradições femininas no nosso país, sempre podiam criar o Blue Thatcher; os comunistas, perdida a referência de Catarina de Baleizão, avançariam com a Rubra Odete (ou Ilda, apesar da cacofonia); e o PS, como forma de atraír os votos da comunidade emigrante, faria uma gracinha e criaria a sua secção Rosa Luxemburgo. Tais inspirações femininas coloririam a vida política portuguesa e sempre se podia dizer que os tais Verde Eufémia serviriam, afinal de contas, para qualquer coisa.

terça-feira, agosto 28, 2007

Ponte da BarcaA par das grandiosas festas da Senhora da Agonia, há inúmeras comemorações por esse país fora, em especial no Minho. No dia dos meus anos, comemora-se o São Bartolomeu. Ponte da Barca homenageia o Santo com festividades que ainda conservam a genuinidade e a tradição que quase desapareceram das descaracterizadas Feiras Novas de Ponte de Lima, onde a vodka e a dance-chunga substituíram as concertinas e o vinho verde. Claro que tem as suas fases de pimbalhada, e correm abundantemente as mais diferentes bebidas. Mas as rusgas não param, dança-se incessantemente a chula e a cana verde, ouvem-se bombos, concertinas e castanholas sem fim, improvisam-se desgarradas, e não faltam as barracas de tiros e os carrinhos de choque. Numa pequena vila já do "interior", a quarenta quilómetros a Oeste de Viana, a festa dura até às tantas e só cessa com o sol bem alto, lá pelas dez da manhã. A visitar, mas com calma e moderação, não vão as hordas de multidão transformá-las numa cópia das Feiras Novas dos tempos modernos. Para conservar Ponte da Barca "sempre formosa e contente", como dizia a música que se ouvia de dez em dez minutos.

terça-feira, agosto 21, 2007

Guevara nas festas da Senhora da Agonia

Na procissão dos mares da Senhora da Agonia, em Viana, mais do que um tipo com a t-shirt de Che Guevara se perfilava em respeito ante a passagem do andor da "festejada", em cima de um barco, com acompanhamento a rigor que tinha de rebocadores a jet-skis. Casos em que o materialismo acaba por ceder à devoção, mesmo que de forma inconsciente.

quarta-feira, agosto 15, 2007

A longa espera da Matriz de Caminha



Bom exemplo do nosso atraso nas obras de restauração do nosso património é o da Matriz de Caminha. O cartaz de licenciamento das obras anuncia um prazo de quatrocentos e vinte dias, os custos totais e os inevitáveis contributos do FEDER. Pois já lá vão mais de 4 anos, e a Matriz sempre sem abrir. Desconfia-se que os orçamentos foram igualmente ultrapassados. Continuam-se a ver andaimes sobre a muralha e tapumes a camuflar as ruínas da casa onde nasceu Sidónio Pais, se bem que com uma interessante biografia e ilustrações como decoração.
Não deixa de ser sintomático tamanho atraso, e muito estranho o facto de uma vila ficar sem a sua igreja principal utilizável durante tanto tempo, para mais Monumento Nacional, dos mais conhecidos da região. Vale o tecido urbano envolvente, as ruelas estreitas e longilíneas, a biblioteca, antiga prisão com condições pavorosas onde os presos estendiam as mãos por entre as grades, pedindo esmolas, agora bem recuperada e apetrechada, os pequenos largos, as capelinhas, a muralha, e a longa rua direita, com os seus numerosos bares, que se estende desde a Alfândega até à quatrocentista torre do Relógio, desaguando depois na bonita e arranjada Praça do Terreiro, ou do Conselheiro Silva Torres, com as suas esplanadas rodeando o chafariz.
Cem anos de Miguel Torga

Cem anos de Torga, comemorados na Segunda. Bem lembrados, excepto pela lamentável ausência de membros do governo nas comemorações oficiais, em Coimbra. Tanta preocupação com o conhecimento tecnológico e científico, com as línguas e a informática, e desdenham assim da efeméride consagrada a um dos maiores prosadores portugueses (mais do que poeta) do último século.

Outro erro grave: no meio do noticiário da RTP, em directo do Douro, com flashes em S. Martinho de Anta e Coimbra, a repórter que tinha por trás de si a curva impressionante do rio que rasga Trás-os-Montes lembra-se desta pérola: "vamos agora a Coimbra, cidade onde nasceu e viveu Miguel Torga..." Nem com um ponto para a ajudar - a outra repórter em S. Martinho - a senhora percebeu que Torga não era natural da Lusa Atenas.

Mas pelo menos a data não ficou esquecida. Nem em Coimbra, ao lado da paragem de romarias que era o antigo consultório do Dr. Adolfo Correia da Rocha, no Largo da Portagem, sob o Governo Civil; nem em S. Martinho, no largo da aldeia, junto ao busto do autor dos Diários, perto da singela casinha com portadas azuis onde ele nasceu; houve mesmo um monólogo do actor José Pinto, cujas semelhanças com o médico são notórias, sobre a paisagem mágica do Douro. Pena que não fosse (pelo menos não me pareceu) no promontório de S. Leonardo de Galafura, que tanto inspirou Torga, o seu amor telúrico pela velha terra transmontana e o seu fascínio pela paisagem duriense, e que ainda exibe os seus versos numa lápide da ermida que ali se encontra.

Conhecendo superficialmente a sua poesia, e daí a preferência pela prosa, tendo visto alguns dos Diários de forma pouco cronológica e metódica, fui tocado quando era pequeno pelos seus Bichos, Contos da Montanha e Rua. A simplicidade da prosa, aliada a velha linguagem, pouco usada mas clara, ligada a situações e personagens bem portuguesas, e particularmente transmontanas despertou-me para mais leituras do autor. Algumas são autênticas lições de vida, com muito de autobiográfico pelo meio. E já que é do seu centenário que tratamos, relembro o comovente conto Natal, dos Novos Contos da Montanha, em que um mendigo, o Garrinchas, se abriga pela gelada e santa noite numa ermida, convidando a estátua da Virgem com o Menino ao colo para o acompanharem na sua parca ceia, à volta da fogueira. Pois essa emida não é outra senão a da Senhora da Azinheira, no alto de um monte desolado, com vegetação rasteira e rochas, uma fabulosa vista sobre a região circundante, até ao douro, e sobranceira a S. Martinho da Anta, a terra do escritor. Mesmo com toda a notoriedade que alcançou, Torga não esqueceu nunca de onde vinha nem quem era.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Schuster e o Princípio de Peter

O Belenenses perdeu com o Real Madrid por 1-0, no torneio Teresa Herrera. Tendo em conta a diferença de meios económicos e humanos entre o clube da Cruz de Cristo e o colosso espanhol - apenas o maior clube do mundo - o resultado parece ser lisonjeiro. Acontece que o golo surgiu no último minuto, por via de um peru monumental do guarda-redes Marco. No resto do jogo, o Belém teve as melhores oportunidades, falhando algumas com uma displicência arrepiante.
Ocorreu-me isto depois de ouvir as palavras de novo treinador madridista, Bernd Schuster: segundo o técnico alemão, o Belenenses limitou-se a defender, a fazer um ou outro contra-ataque, e o Real facilmente poderia ter resolvido o jogo, se tivesse querido.
Compreende-se: Schuster, muito bom jogador nos anos oitenta, tinha, e parece que ainda tem, uma falta de estofo psicológico incrível. Quando o Barcelona, onde jogou, perdeu a final da Taça dos Campeões em Sevilha, em 1986, contra o Steaua de Bucareste, teve um trauma tal que nunca mais jogou da mesma forma. Agora, depois de ter treinado o Getafe, acaba de ser contratado pelo Real para ser técnico principal, em lugar de Fabio Capello, que até se sagrou campeão. Colocar este tipo irritante, que usa desculpas esfarrapadas para justificar os maus resultados da equipa, como treinador do Real Madrid, em substituição de um dos melhores do mundo, para mais campeão, mau grado os seus caprichos e resmungos, é um tiro no pé como raramente se vê. Infelizmente não dou nada pelo Real do próximo ano. Mas pelo menos haverá a suprema possibilidade de se ver o Princípio de Peter magnamente aplicado.

domingo, agosto 05, 2007

Chamem-me inimigo da liberdade

Chamem-me de "inimigo da liberdade" ou qualquer coisa parecida. Mas para mim, aquelas caricaturas obscenas dos Príncipes das Astúrias ultrapassaram um limite para além do suportável. Não sei se a apreensão das publicações terá sido a melhor das ideias, mas uma coisa daquelas não podia ficar impune. Não acho que a liberdade de expressão tenha de ser ilimitada, já que mais nenhuma o é. E por mais figura pública que seja, e possa ser alvo de críticas e de sátiras, os Príncipes representam a Coroa e merecem um mínimo de respeito, coisa que não sucedeu neste episódio. Acresce que se fizessem o mesmo ao editor ou director da tal revista Jueves, alguém se indignaria se pusesse os autores da graça em tribunal?

E para os interessados, também achei ridículas as caricaturas de Maomé naquele jornal dinamarquês. Não as reacções com incitamentos à morte, nem às pilhagens subsequentes; mas os ofendidos podem sempre recorrer aos meios judiciais. Há muito que assim é, mas parece que a admiração vem de agora. Como se a liberdade de expressão não violasse igualmente outros valores tutelados pelo direito; é essa a máxima prova de que não é ilimitada e absoluta.
Aliás, ainda há bem pouco tempo, uma instância judicial condenou o colunista Augusto M. Seabra por ter chamado "energúmeno" a Rui Rio. Não houve qualquer protesto de "limitação de liberdade" nem reacção de indignação a esta sentença, e no entanto, perante os termos em causa, fica-se com a sensação de que esta pecou por excesso.
Claro que não defendo a prisão para os que se divertem a achincalhar os outros na praçapública. simplesmente, se tomarmos a livre expressão como um direito absolutíssimo, as consequências que daí adviriam seriam bem mais gravosas. Não creio mesmo que face a algumas situações concretas, ninguém aprovaria tal coisa.
Outro assunto que passou na comunicação social e atiçou comentários idênticos foi o caso da exoneração da direcora do Museu de Arte antiga. Parece que a senhor deixou trabalho de monta, com resultados visíveis. Não me custa a acreditar, até porque este ano passei por lá mais do que uma vez e gostei do que vi, como aquela exposição de arte medieval polaca. Parece no entanto que a mesma directora veio publicamente discordar das novas leis orgânicas do Governo, queixando-se da falta de autonomia finaceira do Museu e demonstrando as suas discordâncias face às opções governamentais. Tais atitudes valeram-lhe a demissão, o que levou a um abaixo-assinado solidário de várias figuras da vida cultural, e largas colunas de opinião queixando-se que tinha sido despedida por "exprimir apenas uma opinião diversa", da crescente falta de liberdade na Administração pública, no "clima estalinista", Etc. Ora como disse Vasco Pulido Valente num dos seus mais sensatos artigos desde há muito, o que estava em causa não era a liberdade de expressão da directora, mas sim os seus deveres perante a tutela e a obrigação de não desautorizar as hierarquias, como aconteceu quando resolveu ir para os jornais afrontá-las. O seu cargo implicava uma responsabilidade que implicava alguma contenção. Ao discordar do modelo oficial e exigir outro, coisa que não lhe cabia decidir, só se podia optar pela sua saída. Não se lhe impôs que aceitasse ideias diferentes das que tinha, mas uma vez que como directora das Janelas Verdes acatá-las-ia de má vontade, provocando algum mau-estar no seio do Ministério, forçosamente teria de seguir caminhos diferentes. Em qualque empresa aconteceria sempre algo de semlhante (e sim, isto aplica-se aos que acham que o Estado não pode intervir na cultura). É que "liberdade de opinião" não significa anarquia ou desobediência porque sim. Liberdade implica sempre responsabilidade pessoal, por muito que esta máxima esteja velha, gasta, e dê para qualquer ocasião.
Pêsames coincidentes

Por acaso já ocorreu um caso parecido com o dos dois realizadores desaparecidos nos últimos dias. Lembro-me de alguém, em inícios de 2003, desejar que Gregory Peck e Katharine Hepburn continuassem entre nós, para provar que eram realmente imortais. Pois em Junho desse ano morreram os dois, com 15 dias de intervalo. Não é a mesma coisa que acontecer tudo num dia, mas parece demonstrar que há épocas especiais de luto por grupos de personalidades, e raramente por uma só. Uma estranha escolha de épocas a dedo divino, é o que parece ser.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Agosto
Em Agosto, zarpo para o sítio do costume, que de ano a ano, se cobre ainda mais de tédio. não é que tenha grande vontade, mas por agora não vejo muitas mais opções de fuga. Fiquemo-nos para já por aqui, à falta de melhor, entre a nortada e a nebulosidade.
Bergman e Antonioni

Será possível que dois dos maiores realizadores europeus de sempre desapareçam no mesmo dia, com 12 horas de diferença? Ao que parece, sim.
Não sei se existe um dia mundial do cinema, já que há de tudo o resto. Mas se não houver, proponho que a partir de agora seja a 30 de Julho, como justa homenagem a dois homens que desde anteontem se tornaram definitivamente mitos.
PS: apesar de tudo, reconheço que não vi mais do que dois filmes de cada um destes cineastas. Mas que importa isso?

segunda-feira, julho 30, 2007

Diz o roto ao nu



Madeira: PSD critica "linguagem trauliteira" de Santos Silva contra Marques Mendes

De facto, não há mesmo melhor exemplo do que a Madeira para se falar em truculências. Terá Marques Mendes fingido que não esteve no Chão da Lagoa, rodeado por Alberto João Jardim e Jaime Ramos, os trauliteiros-mor da política? Ou será isto o "politicamente verdadeiro" que defendeu aos gritos, tentando em vão entrar no espírito da coisa?
Zahir Shah

Morreu o último Rei do Afeganistão, Mohammed Zahir Shah, aos 92 anos. Conservava apenas o título honorífico de "Pai da Pátria", atribuído por Karzai e pela Loya Jirga. Shah, da etnia pashtun, educado em França e falando persa como língua materna, reinou durante 40 anos no Afeganistão, na altura um país arcaico e pobre, mas bem mais pacífico do que hoje, local exótico por excelência e ponto de passagem para psicadélicos.
Com a sua queda, sobreveio o caos: governos ditatoriais, regimes marxistas, a invasão soviética e a penosa guerra que durou 9 anos, uma república islâmica, os Talibans e o seu "emirado" de trevas, e a invasão das forças internacionais, com o periclitante governo de Cabul. Só aí velho Rei pôde enfim voltar ao seu país, sem que contudo tivesse havido uma solução como no Cambodja.
No Expresso desta semana, José Cutileiro falava no pacífico reinado de Zahir Shah. Não se referiu a contudo um episódio que se passou há uns 15 anos, através do qual ouvi falar pela primeira vez do Rei. No seu exílio em Roma, Shah recebeu um dia a visita de um pretenso jornalista português, que o pretendia entrevistar. No fim da entrevista, apresentou-lhe um punhal, supostamente uma prenda, e tentou matar o ex-soberano. Quase por milagre, a cigarreira que Zahir Shah trazia no bolso interior do casaco aparou o golpe. Os guardas acabaram por acorrer, alertados pelo barulho de luta. O "jornalista" era Paulo José de Almeida Santos, que se convertera ao Islão anos antes, com o nome de Abdullah Yusuf, visitara o Paquistão e Afeganistão e os seus campos de treino e se envolvera com os radicais muçulmanos que formariam mais tarde a Al-Qaeda. O assassinato do Rei era a missão de que estava incumbido por ordem do próprio Osama Bin Laden.
Zahir Shah sobreviveu a essa tentativa de assassinato, a golpes de estado e a alguns acidentes domésticos nos últimos anos, e depois do seu longo exílio acabou os seus dias em Cabul, no palácio presidencial, com as honras do soberano que fora.

quinta-feira, julho 26, 2007

A partida de Simão
À terceira (ou mais) acabou mesmo por ser de vez: Simão Sabrosa sai do Benfica rumo ao estrangeiro. Pena que seja para um Atlético de Madrid mediano e não para um Liverpool ou Valência, que já estiveram no seu caminho. Mas o ex-capitão preferiu vestir-se com o equipamente do colchão, que se há de fazer? Em troca vêm 20 milhões de Euros e dois jogadores, esperando eu que um desses não seja Costinha. Quanto a substitutos, fala-se de Daniel Carvalho e Freddy Adu; daqui a umas horas se saberá. Por mim, e uma vez que sem Sabrosa (e Micolli e Karagounis) ganhar títulos será ainda mais complicado, apostava em Fábio coentrão para o seu lugar; como é um jogador de 20 anos que veio agora do Rio Ave, na melhor das hispóteses só daqui a uns dois anos é que explodirá. Até lá, trabalhe-se e aproveite-se o dinheiro para melhorar as finanças do clube.
Quanto a Simão, não esqueço nestes seis anos, os jogos em que o vi ao vivo , nos quais se conta a sua lesão grave num jogo particular contra a Finlândia, o último derby na velha Luz, os golos com que vencemos o Leixões para a Taça, o penalty decisivo contra o Paris Saint Germain, esta época, e, claro, o jogo em que ganhámos o título no Bessa; e ainda o golo decisivo na final da Taça de 2004, os golos contra Manchester e Liverpool na época passada, as assistâncias, o enrome espírito de sacrifício bem patente na época do título, em que jogou todos os minutos do campeonato, etc. Não esqueço nada disso e a forma como exemplarmente representou o clube duante estes anos. Só lhe posso agradecer, desejar-lhe um grande bem haja e toda a sorte do mundo em Madrid. Ele merece. Os grandes capitães não são facilmente esquecidos no Terceiro Anel.

quarta-feira, julho 25, 2007

Eleições na Turquia
Parece que a enorme vitória de Erdogan nas legislativas turcas espalhou o pânico entre uma data de comentadores da nossa praça - da europeia, pois claro, que isto já não vai só entre os limites do rectângulo. Refiro-me apenas ao que dizem os jornais e os bloggers. Naqueles que o P2 do Público revela diariamente, então, o medo é mais que muito. E os disparates também. Fala-se em "avanço do fundamentalismo islâmico", confronto com os valores "laicos e republicanos da Europa" (até parece), e há mesmo uma sumidade que afirma que a culpa disto é toda da Europa "herdeira do internacionalismo comunista", assim como o problema do Kosovo, "ao contrário dos Estados Unidos" (esses não têm mesmo culpas no Kosovo).
Convinha no entanto recordar que Erdogan é talvez o primeiro-ministro turco mais europeísta das últimas décadas, e que durante o seu consulado foram aprovadas normas bem mais próximas dos valores europeus do que o "laicismo"; a abolição de pena de morte, por exemplo. Não será pior pensar também que o seu Partido do Desenvolvimento e da Justiça é o correspondente aos partidos conservadores/democratas-cristãos europeus. É daqui que vem mal ao mundo? De um primeiro-ministro que deseja ardentemente que o seu país adira à UE? Ou que revele que a sua mulher está proibida de usar o véu em cerimónias oficiais?
Também não será pior recordar que o tal laicismo turco tem a tutela das forças armadas, que ameaçam intervir quando há a mais pequena nuvem de islão no ar. E que é herdeirto do estado autoritário e centralizado fundado por Ataturk, e que de democrático tem muito pouco.
Tenho uma certa admiração pelo "Pai dos Turcos" e pela sua acção modernizadora, e tenho muitas reservas em ver a Turquia na UE. Mas isso não me impede de reconhcer que o movimento de Erdogan é, por ora, muito mais próximo da democracia que os tronitruantes herdeiros do autoritarismo kemalista e seus defensores deste lado do Bósforo, que acham que religião é igual a fanatismo e que os muçulmanos são todos uns potenciais bombistas de adaga em riste. Erdogan está de parabéns: conseguiu vencer de forma esclarecedora e tem mais um mandato para mostar o que vale. Se esticar a corda, as urnas dar-lhe-ão novo destino no próximo acto. Mas não o exército ou ou os praticantes de agit-prop que defendem o laicismo rígido enquanto se agarram à bandeira do Crescente.
Sinais de declínio

Ainda outra coisa relacionada com as eleições da CML (o hiato entre artigos leva-me a estes atrasos) e que demonstra bem o declínio do CDS-PP: já se sabe que de todos os líderes do partido, só restam Portas, Ribeiro e Castro e Adriano Moreira - e estes últimos retirados. Dos candidatos que o CDS já apresentou à Câmara de Lisboa, só já lá está Portas e Telmo (não sei quem candidataram em 1976). Abecassis, à frente da edilidade durante os anos oitenta, já morreu; Pedro Feist e Maria José nogueira Pinto desvincularam-se e até apoiaram outros candidatos; Marcelo Rebelo de Sousa e Ferreira do Amaral, que chefiaram mini-ADs, são do PSD. Por aqui se vê a enorme sangria daquele partido e se percebe o porquê da diminuição da sua base eleitoral, sobretudo a nível local.

sexta-feira, julho 20, 2007

Saramago e o Iberismo
De vez em quando, José Saramago vem com os habituais remoques ao país que o viu nascer e acena com comparações espanholas. Agora diz que Portugal se vai tornar numa província castelhana, mas conservar a mesma língua. Percebe-se. como comunista que é, e pertencendo a um dos mais ortodoxos PCs que há na Terra, Saramago é um internacionalista, como era a URSS que absorvia tudo quanto era Geórgia, Lituânia ou Besarábia, ou então criava satélites de estrela na bandeira. O nacionalismo é brnadido apenas como arma de arremesso contra os inimigos, em casos pontuais. Já a língua interessa conservar-se já que esta, como lembrou Manuel Alegre, é que permitiu que o autor ganhasse o seu Nobel.
Acontece que além de parecer ignorar que já há uma UE que inviabilizaria (ou inutilizaria) a perda da independência, Saramago também acha que as pessoas se esqueceram da História e dos seus exemplos. Ou ele é que não a conhece. Também se nos lembrarmos dos projectos de Olivarez para transformar Portugal numa mera província, gorado pelo 1 de Dezembro, pelo apoio às invasões francesas com o fito de nos deitar a mão, com as derivas iberistas do Sec. XIX, com o projecto de formar uma República Ibérica Soviética (provavelmente o escritor tirou a ideia daqui e quer recuperá-la), ou depois, de alguns meios franquistas, transformando a história para justificar uma Espanha peninsular; recordando tudo isso, veremos como passaríamos rapidamente a uma Galiza do Sul, e não a uma componente da Ibéria. É que um país e uma pátria não se forma por meras razões economicistas ou de circunstância, como parece depreender-se dos pobres argumentos dos iberistas, que acham que só com uma união a Espanha afastaríamos a "vil tristeza", revelando assim a sua própria fraqueza. Aliás, pergunto-me se todos esses defensores da absurda fusão têm ideia do que era Espanha até há vinte anos, se leram as comparações entre os dois países feitas por Hans Christian Anderssen e outros autores, se tomariam parte nos problemas políticos que subsistem desde a Guerra Civil. Se o soubessem aposto que os tais sentimentos iberistas iam às malvas.
Quanto a Saramago, é não ligar. Se o homem quiser mesmo muito, bem pode pedir a nacionalidade espanhola. Mas ele que tenha cuidado, porque independentistas também os há nas Canárias.

segunda-feira, julho 16, 2007

Eleições em Lisboa

Vencedores: Costa, de forma pírrica; Carmona e Roseta, com poucos meios, tiveram quase 30% dos votos. Garcia Pereira, que com 1,6% dos votos ficou bastante À frente dos outros "pequenos", o que demonstra bem o quanto é conhecido.

Perdedores: Negrão e o PSD de Marques Mendes, acima de tudo; Portas e Telmo; Manuel monteiro, uma vez mais votado à indiferença; quase todos os restantes pequenos partidos.

Normais: Sá Fernandes e Rúben de Carvalho.

Conclusões:
- com um lampejo de sol, as pessoas marimbam-se para os votos e a "classe política".

- O PSD perde aquela que tinha sido uma das principais bóias dos últimos anos: a câmara de Lisboa. Menezes & Cª já devem amolar as facas.

- Confirma-se que a estratégia da reconquista do CDS à bruta e o "novo pragmatismo" de Portas não convencem quase ninguém (tal como Telmo). que teria acontecido se Ribeiro e Castro e Nogueira Pinto tivessem ficado?

- Ser "independente" é só por si uma fórmula que atrai votos.

- Usar a artilharia toda e arrebanhar gente de todos os quadrantes para conquistar a CML com menos de 30% dos votos pode ser considerado um objectivo alcançado, mas dá a ideia queos últimos tempos têm desgastado o PS, que terá enormes dificuldades para pôr a câmara em ordem.

- Que maiorias para Lisboa?Por muito que lhes custe, o PS e Carmona estão obrigados a entender-se. Juntos conseguem a maioria absoluta, e Carmona terá aqui a oportunidade de dar uma outra imagem na câmara. Conta igualmente com Pedro Feist (outro ex-candidato do CDS), alguém com experiência e com um mínimo de sentido municipal.

domingo, julho 15, 2007

Lembrando-me outra vez das maravilhas de Portugal

Tendo em conta que Lisboa vem sempre primeiro, e mesmo que pensemos que a Torre de Belém e os Jerónimos já preenchiam a cota de candidatos municipais ao galardão, porque é que
estes não eram igualmente candidatos?

terça-feira, julho 10, 2007

A minha ideia dos candidatos

Não voto em Lisboa. Não dei toda a minha atenção à situação que levou à queda da edilidade da capital e à convocação de eleições antecipadas, nem às confusões para a marcação da data. A escolha dos candidatos pareceu-me mais interessante (sobretudo porque são muitos), e alguns planos também. A campanha tem sido morna, talvez por causa da falta de paciência dos lisboetas para votos.

Quase não vi o debate entre os 12 candidatos, que de resto me pareceu mais justo do que a 7, sem exclusões, por isso deixo aqui a impressão que já tinha de cada um.



António Costa é um candidato forte graças ao seu peso no PS e no Governo, e ao facto de ser conhecido do público. Teve como única experiÊncia autárquica a candidatura (e derrota) à câmara de Loures, em 1993, em que ficou conhecido pela rábula do burro e do Ferrari. Não se lhe conheciam anteriormente ideias para Lisboa, pelo que dá toda a impressão de se estar a fazer ao célebre "lugar-trampolim". até porque dificilmente não ganhará.



Fernando Negrão: uma segunda escolha, talvez chamado pela seriedade e honestidade por que é conhecido, para contrastar com a obscuridade dos negócios dos últimos anos da CML. Revelou total impreparação para a candidatura. Adivinha-se uma derrota pesada, mas "honrada", como em tempos Macário Correia. Daqui a uns anos chamam-no de novo para Setúbal.

Carmona Rodrigues: podia ter feito uma sólida e prestigiada carreira académica, mas meteu-se nisto, e só por birra ou orgulho ferido é que se candidatou. Pelo que vi, caíria nos mesmos erros, mas reúme surpreendente apoio.

Helena Roseta: como Bastonária do Ordem dos Arquitectos e pela sua anterior experiência na câmara de Cascais, é mais uma experiência para testar se o MIRC consegue segurar os votos de Alegre do que uma candidatura com reais possibilidades de ganhar, o que se vê pela campanha algo miserabilista. Interessante de início, sofreu alguma atabalhoação a certa altura, e tem vindo a perder fulgor.

Ruben de Carvalho: o responsável pela Festa do Avante era o candidato esperado. Serve sobretudo para segurar o eleitorado CDU. Campanha discreta, salvo pelos inúmeros carros de som que percorrem Lisboa a toda a hora.


Telmo Correia: uma escolha do aparelho portista, que como se sabe e o próprio Portas, de quem o candidato é um clone apagado. Como tal, não parece ter ideias próprias e as suas propostas são previsíveis e escassas. Tenta segurar um lugar na vereação, mas arrisca-se a não o conseguir, o que revelaria que o regresso à maluca de Portas e a campanha visando o Governo não dão grandes frutos.

José Sá Fernandes: será útil se permanecer como vereador (coisa que não está garantida), mas cai por vezes no populismo. A campanha do "Zé que faz falta" é sinal disso mesmo. Reúne o apoio de alguns ex-PPMs (do autêntico), por causa da questão dos corredores verdes.

Manuel Monteiro: candidatura para mostrar que o PND "está lá", apesar de viver em Matosinhos. A ideia de trazer o bonceo Manuel Bexiga para Lisboa é despropositada. Não será certamente eleito, mas não seria pior se o ouvissem por vezes.

Garcia Pereira: um candidato experiente (deve ser a 298ª candidatura), praticamente a única cara do MRPP. Conhece os problemas, mas apresenta um megalómano plano do "grande porto, grande aeroporto, grande centro turístico". Ainda mais?

José Pinto Coelho: as ideias para a segurança são minimalistas e não são de grande confiança. A ideia da "Lisboa Branca" é perfeitamente disparatada. Desde quando é que, tirando a arquitectura, Lisboa é uma cidade só de gente branca? Quando era Olissipo?

O deputado Quartin Graça, do MPT, tem pouca visibilidade, tal como o seu partido, no qual até já votei. Falta de meios e ideias que se confundem com as de outros candidatos contribuem para isso.

Gonçalo da Câmara Pereira, do neo-PPM: a candidatura patética por excelência, para dar o toque de humor sempre necessário. Um candidato que diz que quer dar um barquinho à vela a cada criança, que governar a CML é como "governar a casa", e que além disso está confiante na sua maioria absoluta não pode ser levado minimamente a sério.

segunda-feira, julho 09, 2007

Começaram as Sanfermines


Monumentos à parte, começou no Sábado a grande festa anual de Pamplona: a de Sanfermin. Um dos meus velhos sonhos de viagem, é exactamente ir às Sanfermines, mirar os temerários que acompanham a corrida dos touros pelas ruas da cidade, entre o redil e a arena, depois das habituais preces no nicho do santo; estar na praça municiapal, no momento da largada do "Chupinazo" que dá início às festividades, entre milhares de "pamploneses e pamplonesas" e de muitos estrangeiros, atraídos a Navarra pela "bíblia" do evento, Fiesta, de Hemingway; e experimentar eu próprio, depois do estudo prudente da coisa, correr à ilharga dos touros, de camisa branca e faixa vermelha à cintura, entre todos os loucos ou destemidos que entre os animais fazem prova da sua bravura num ritual com séculos.

Ou por falta de tempo, ou de companhia, ou provavelmente de instalação (um milhão de visitantes não é fácil), nunca concretizei essa experiência quase única. Este ano a coisa passou de novo ao lado. Mas um destes Julhos hei de lá ir, enquanto puder correr bem e as PETAs e outros "amigos dos animais" não conseguem proibír definitivamente as velhas Sanfermines.
Maravilhas duvidosas

Acompanhei o espectáculo das "Novas Sete Maravilhas do Mundo" e das "7 Maravilhas de Portugal" pela televisão, e não posso deixar de dizer quea coisa correu bastante bem quanto à organização e à festa propriamente dita. Já sobre as escolhas a coisa fia mais fino. No segundo grupo, quem não conhecer Portugal fica com a ideia de que o que interessa visitar a nível monumental está concentrado em apenas dois distritos do centro, com uma ilha identitária mais a Norte. O Castelo de Guimarães percebe-se apenas por motivos simbólicos, até porque se trata sobretudo de uma reconstrução. Entre a Batalha e Alcobaça, preferia que tivesse ganho apenas um, muito embora tenham histórias e estilos arquitectónicos diversos. Óbidos não merece mais do que Marvão ou Monsaraz, e em Belém haver duas escolhas é excessivo. Podiam ter apostado no conjunto manuelino. E assim ficaram de fora as minhas escolhas, que incluíam por motivos pessoais, o Palácio de Mateus e a Igreja de São Francisco.

Já quanto à Maravilhas do Mundo propriamente ditas, não fiquei também muito convencido. O Cristo Redentor? Só se explica mesmo por campanha dos brasileiros, senão bem podiam pôr o Cristo Rei de Almada. Se ainda fosse o Rio de Janeiro por inteiro...

Chichen Itzá também deverá a sua escolha por igual campanha. Vamos crer que é uma homenagem às velhas pirâmides de Gizé. não duvido da monumentalidade de Petra, mas não estava à espera desta. Até se aceita. Assim como a Grande muralha, o Taj Mahal e Machu Picchu (embora a ideia de atraír mais turistas à cidade andina, a ser verdade, seja insensata). O coliseu é o representante da Europa (já repararam que a América do sul tem três?) Os romanos legaram afinal uma "Maravilha do Mundo Moderno" sem provavelmente terem imaginado que mereceria tal galardão.

Fiquei com pena que outros não tivessem sido os contemplados. Em lugar do Redentor, a Estátua da Liberdade (porquê os assobios, Santo Deus?) seria mais apropriada, até porque, altiva e com o facho resplandescente, recorda outra Maravilha da Antiguidade, o Colosso de Rodes. O Potala, em Lhassa, nem sequer entrava como candidato. Mas a minha maior tristeza é que não tenha sido eleito um outro símbolo da antiguidade, marco da civilização ocidental e muito querido cá neste blogue, além de esticamente impressionante, não obstante o passar do tempo e as vilanias de que viu alvo. Isso mesmo: a Acrópole.

Como prémio de consolação, o evento realizou-se num recinto majestoso, que dada a sua monumentalidade e toda a carga gloriosa de que se reveste, poderá ficar a ser considerado, por inerência, como a oitava maravilha.

quarta-feira, julho 04, 2007

Festival

É sempre complicado o dia que se segue a um multi-concerto rock, quando há uma boa surpresa chamada Magic Numbers; um espectáculo morno muito em volta da voz e do carisma do vocalista (Bloc Party); e uma fantástica hora, de festa, de comunhão entre a banda e o público, de riqueza instrumental, com momentos mágicos a meio - Rebellion (Lies), pois claro - dada pelos Arcade Fire. Está colmatada enfim a enorme perda do concerto da banda canadiana em Paredes de Coura. Deste meu meu primeiro SBSR não tenho pois razão de queixa.








(Uma curtíssima visão dos espectáculos, no Estado Civil, e a crónica do dia, na Blitz, com uma visão dos acontecimentos praticamente igual à minha).
Lei do Tabaco

Podem chamar-lhe recuo, lei medrosa, cedência ao lobby das tabaqueiras (como se não houvesse outros em sentido inverso), etc. Mas a lei do tabaco recentemente aprovada na generalidade é muito mais sensata do que se esperava há uns tempos atrás. Segue a vizinha espanhola, e não a rigidez proibicionista dos EUA ou de países do norte da Europa. É um dos tais casos em que de Espanha veio "bom vento" sem precisarmos de ir a correr atrás dos modelos dos "países civilizados".
Que em locais realmente públicos não se possa fumar é um dado aceite por todos, menos por alguns inveterados do tabaco. Tenho algumas dúvidas quanto ao fim dos comboios sem carruagens para fumadores, porque os corredores onde tal é permitido ficam empestados, mas não me parece chocante. Nos aviões a tolerância zero parece-me uma imposição abusiva, até porque deixou de haver a filtragem constante de ar renovado, o que aumentou muito o risco de doenças. Na generalidade dos edifícios administrativos e nas escolas parece-me normal - nas universidades é mais discutível, porque não estamos a falar exactamente de criancinhas em fase de desenvolvimento da vontade - e nos hospitais nem se fala.
A questão dos bares, restaurantes e discotecas era tão simples quanto isto: não são lugares públicos, mas privados. Têm um proprietário que não o Estado, a autarquia ou demais Pessoa Colectiva Pública. Querer obrigá-los a proibir o fumo em sua casa não lembra ao diabo. No máximo, criar regulação sobre arejamento dos estabelecimentos (como acho que é o que se prevê agora). Pior do que isso, a regra da denúncia de quem fuma em tais estabelecimentos parece-me absurda e perigosa. Uma "chibaria", como outro dia ouvi dizer ao dono de um café atrás do balcão.
É afinal a livre escolha de estabelecimentos com ou sem fumo que se a lei consagra. Claro que já surgiu um rol de críticas ao "recuo na luta anti-tabaco": "gente covarde", que "recuou perante as grandes tabaqueiras", "nunca protege os não-fumadores" ( pode-se mesmo fumar em toda a parte), "lá temos de apanhar com o fumo dos outros na cara" ou mesmo que "se vir a alguém a fumar ao meu lado vou-lhe à cara" (palavra de honra que vi isto escrito num fórum qualquer). Provavelmente não se deram conta que não têm de apanhar fumo na cara se forem para um estabelecimento que o proíba (e que isso não é consequência apenas de fumar, mas de fumar sem cuidado). Ou que os estabelecimentos em questão não são de frequência permanente ou contínua. Os bares e as discotecas, sobretudo, são locais de lazer e divertimento, não exactamente espaços para tratar da saúde (excepto talvez para os que querem bater nos fumadores). Aí, a lei mais restritiva não seria somente abusiva, mas patética e paradoxal.
Resta o problema das pessoas que trabalham nesses estabelecimentos. Os seus proprietários devem obviamente pensar no assunto. Mas deve-se igualmente lembrar que muitos desses espaços só estão abertos à noite e durante alguns dias da semana. É um caso a pensar, mas que já não cabe neste post.

domingo, julho 01, 2007

No Martini, no party.

George Clooney está em todas. Depois de Nespresso man, vimo-lo como novo Martini Man (num anúncio que de tão repetido já chateia), trocando uma beldade - Zetta Jones? - e um iate por um caixote de Martinis. Mais dois anúncios com a Martini se preparam, mais animados e mexidos, sendo que um parece ser a continuação do outro. No Martini, no party, é a frase deordem, que promete encafuar-se na memória.

sábado, junho 30, 2007

Tony Blair
Dez anos depois da sua chega ao poder, Tony Blair despediu-se enfim, como já tinha anunciado, deixando o laborioso escocês Gordon Brown no seu lugar. Quem o comparar com o jovem político que, depois da morte repentina de John Smith, acabara a reforma do Labour, cortando com a submissão aos poderosíssimos sindicatos e com a parte nacionalizadora da doutrina do partido, não deixará de notar o contraste flagrante entre a novidade e o desgaste.

Aproveitando alguma da política liberalizadora thatcherista, Blair empenhou-se em novos programas para baixar o desemprego, que tiveram seguidores em toda a Europa, e em investir na educação e em novas reformas sociais, como a criação do salário mínimo. Conseguiu, paulatinamente, obter a paz na Irlanda do Norte, como o comprova o recente governo de união, e estabelecer, pela primeira vez, uma parlamento na Escócia e na Irlanda do Norte. Geriu com mestria o delicado momento da morte da princesa Diana, da qual a família real acabou por sair ilesa. Londres ganhou um autarca próprio e tornou-se a cidade mais cosmopolita da Europa e talvez até do mundo, como pólo de atracção de todos os povos e actividades, misturando a fleuma e formalismo britânicos com um ar cool e multicolor.

A nível externo teve os seus maiores desaires, que lhe custaram a imensa popularidade ostentada no início. A prossecução do ideal de MacMillan, em que a Inglaterra seria a Grécia da nova Roma, os Estados Unidos, apoiando sempre a sua política externa, acabou por arrastar a Velha Albion para o atoleiro tenebroso do Iraque e para o recrudescimento do terrorismo. Blair, o mais europeísta dos governantes britânicos desde Heath, tentou fazer a ponte para uma forte aliança entre as duas margens do Atlântico, primeiro com Clinton, seu parceiro perfeito, depois com W. Bush. Com o primeiro, ainda conseguiu algum apoio no caso do Kosovo. Mas o 11 de Setembro, longe de se tornar uma oportunidade para reforçar o atlantismo, acabou por indirectamente provocar o desastre iraquiano. Não tendo conseguido levar alguma moderação aos aliados americanos, a política externa da Grã-Bretanha ficou refém das consequências, embora a nível da UE tenha conseguido presidir ao início de algumas mudanças estruturais. Desde então, a imagem de Blair não mais se levantou, até à sua saída no dia 27, prevendo-se agora um importante papel como mediador internacional. Apesar de tudo, terá sido um dos grandes líderes europeus dos últimos anos. Impopular agora, mas ainda com um longo caminho pela frente, ver-se-à se a história consagrará com um dos maiores das últimas décadas o homem que pouco depois de entrar em Downing Street, convidou os Oasis, ídolos da época (que como ele sofreram uma queda progressiva) a tomar um copo.

domingo, junho 24, 2007

S. João 2007

Já perdi muitos S. Joões na vida: ou por qualquer razão não estava no Porto, ou tinha sempre exames no dia 25. Era sem dúvida a minha grande trsiteza. A grande festa portuense, a mais popular das comemorações, as boas vindas ao Verão, com manjericos, sardinhas e martelos a ajudar, nunca deixou de ser a minha preferida. Natal e Páscoa são festas de família, não ligo ao Carnaval, e os anos são como calhar. Mas o S. João não, Quando podia festejar era fantástico, e raras eram as vezes em que não voltava já com dia pleno.
Mas este ano, curiosamente, quase não saí. Tenho trabalho na semana que vem, é certo, mas nada que me tirasse a noite de Sábado. Mas o sono acumulado e as escassas combinações que tinha ventilado acabaram por falar mais alto. Limitei-me a dar uma volta a pé pela Avenida, a olhar os balões luminosos confundindo-se com as estrelas, a ver os grupos de foliões a passar, com a música de Abrunhosa na Casa da Música e o arraial do Meridien como músicas de fundo. Ainda entrevi os clarões do fogo de artifício, antes de regressar a casa. E por aí se ficou o S. João 2007.
Recordei a mesma noite, noutros anos: os carroceis do Passeio Alegre, o fogo da ponte e as dezenas de barcos no Douro, os bailaricos populares entre a Ribeira e a Cantareira, com paragens em Miragaia e no Ouro, as praias da Foz ao alvorecer, os arraiais em Nevogilde, no largo Garcia da Orta ou na Praça Afonso V, as festinhas na Foz velha, entre a rua da Cerca e do Alto Vila, o regresso estafad a casa, sempre a pé, já com dia (mas nem sempre com sol, que a orvalhada Às vezes prega partidas), etc. Nunca estive, confesso, na Baixa, nas Fontaninhas ou em S. Lázaro neste noite. Mas ubíquo era Santo antónio. O mais estranho é que este ano estive na festa do originalmente conhecido como Fernando Bulhões, em Lisboa, e provavelmente irei também ao S. Pedro. Única falha dos Santos Populares: o santo baptista e rapioqueiro, o mais querido da minha cidade, do qual até tenho o nome. Num ano em que poderia fazer o pleno, faltam-me elementos de comparação.
O pior é que andando entre Lisboa e Porto, não sei quando voltarei a gozar condignamente o S. João. Espero que o mais breve possível. Voltar Às memórias festivas é viagem que se deve fazer sempre que possível, enquanto os anos e o ânimo o permitir. E, quem sabe, passar nas Fontaínhas e na Batalha sob a protecção da cascata Sanjoanina, entre matrecos e martelinhos.

quinta-feira, junho 21, 2007

O carácter e o chá

Haverá, volto ao princípio, uma imensidão de coisas a dizer. Uma delas, para já, é que se prova, no fim de contas, que Sócrates e a srª drª DREN Margarida Moreira são personagens feitos da mesma massa: gente burra a quem alguém não deu chá em criancinha


Sócrates não me parece propriamente burro, mas em relação ao chá, demonstra-o por vezes com as suas birrinhas despropositadas. Já a directora da DREN é provavelmente um caso patológico, que piora se ligado ao seu currículo: sindicalista radical primeiro (controleira, no fundo), até todo-poderosa entidade administrativa que está ali para velar pelo servilismo e pelos bons costumes administrativos, utilizando todos os meios ao seu alcance para o fazer (inclusive contra os sindicatos).

Além dos processos disciplinares movidos por razões absurdas e mesquinhas, abusando do seu cargo, e das já conhecidas gracinhas para com o autarca de Vieira do Minho, numa recente distribuição de prémios numa escola secundária do Grande Porto, a dita técnica administrativa entreteve-se todo o tempo a comer pastilhas elásticas e a mandar SMSs, demonstrando assim todo o interesse de que a cerimónia se revestia para ela. Coisa pouca, dirão, mas que juntando ás restantes sacanicezinhas diz muito do carácter de quem as faz.

segunda-feira, junho 18, 2007

Noivos de Santo António?

Há uns anos, o Inimigo Público, como sempre sarcástico, punha no seu caderno uma notícia anunciando que o BE iria apoiar os "Noivos de Santo António", a versão gay dos noivinhos abençoados pelo santo milagreiro, de forma a atraír votos para as Europeias desse ano. Lembro-me de ler aquilo em cojunto com alguns colegas de trabalho e de nos desatarmos a rir com a imaginação dos autores.
Mas parece que a realidade resolveu pregar uma partida aos incautos e copiar mais uma vez a ficção humorística : sim, Ana Sara Brito, da candidatura de António Costa à CML, quer levar os casamentos gays para o Salão Nobre da Câmara, numa versão civil dos tradicionais casamentos de Santo António. Parece piada mas não é.
Dá-me ideia que o PS se tinha comprometido a não aprovar tais legislações pelo menos durante esta legislatura. Vem agora a candidatura do partido governamental defender exactamente o contrário e ainda promover a sua realização em claro desafio burlesco às festividades juninas.
Não sei se a proposta partiu dos planos iniciais ou se não passou de uma ideia peregrina de Ana Sara Brito para tentar apanhar os votos da "comunidade LGTB" e afastar definitivamente Sá Fernandes da vereação. A candidata diz que sim, que a ideia parte de toda a candidatura, e que "seria bom se os casamentos fossem no Salão Nobre".
Além do próprio ridículo da ideia, seria bom perguntar à candidatura de António Costa se lançou isso cá para fora por eventualmente estar a ser preparada uma lei que regule essa matéria e que legalize os casamentos homossexuais em Portugal. O nº 2 do Governo até há um mês atrás está com certeza ciente dessa matéria. A menos que seja uma pressão de um grupo no sentido de obter esse mesmo resultado. Vai dar ao mesmo. Podiam era dizer logo ao que vinham e não se ficar pelas atoardas.
Também me parece que o Salão Nobre da CML não está normalmente aberto a casamentos civis comuns - heterossexuais, entenda-se. Assim sendo, teremos uma situação em que prevalecerá o factor gay como condição para usufruír desse espaço, normalmente reservado a cerimónias solenes e de importância acrescida. Lá se vai o argumento de que a "comunidade LGTB" não tem os mesmo direitos e é discriminada.
Finalmente: será que quem teve esta iluminada ideia não tem noção do ridículo? Casamentos gays de Santo António no salão Nobre da Câmara? Vale tudo para ganhar meia dúzia de votos ou o disparate pegado consagra-se definitivamente como "proposta eleitoral"? O Inimigo Público deve é ser o novo oráculo da nação.

sexta-feira, junho 15, 2007

O regresso dos Smashing Pumpkins

Em 2000 estive naquele que seria o último concerto dos Smashing Pumpkins em Portugal, no Coliseu do Porto. Um momento mágico, quando cheguei ao balcão, e vi a banda vestida de branco, entre névoas da mesma cor, quais anjos do rock, frente a um público completamente rendido que esgotava o recinto. Duas horas que passaram entre os últimos álbuns, clássicos das obras primas Siamese Dream e do enorme Mellon Collie and the Infinite Sadness, essa referência rocker dos anos noventa, canções intimistas e leves e violentas descargas de riffs de guitarras em fúria. E a despedida comovida do líder e compositor Billy Corgan, com a sua cara de bébé e a sua voz inconfundível, largos minutos a agradecer ao público.

A banda já tinha tido outros momentos memoráveis, como o espectáculo na Praça de Touros de Cascais, em 1996, À chuva. Lembro-me ainda no dia seguinte dos comentários sonolentos dos felizardos que lá tinham acorrido, e da sua excitação. Outros concertos da banda houve, menos bem sucedidos, como de resto toda a sua carreira daí para a frente. Em 2000 resolveram pôr um ponto final e fazer uma tournée mundial, que em Portugal culminou nesse tal concerto do Porto (que me custou imenso na candonga, porque um mês antes já se tinha esgotado!). Billy Corgan reuniu os Zwan, de curta duração, e lançou depois um disco a solo. Mas de tal maneira as saudades da antiga banda o atormentavam que resolveu ressuscitá-la.

Voltou agora a Portugal, com nova formação, e novo álbum no forja, chamado Zeitgeist, mais "interventivo" e político, diz-se. Parece não haver mais bandas que resistam ao revivalismo dos "velhos tempos". O espectáculo, em Algés, num cartaz onde pontificavam Peral Jam e White Stripes, terá sido mais morno e acústico que o que era habitual. Mas a chuva não faltou, como no concerto de 1996, em incrível coincidência. Falta que Zeitgeit tenha a qualidade dos álbuns anteriores.
Tenho uma certa pena de já não poder dizer que assisti ao último concerto dos Smashing Pumpkins em Portugal. Mas fico bem mais contente com o seu regresso, fiel à filosofia de tragicomédia do imparável Corgan.

Verão adiado

Há um mês, mais coisa menos coisa, que ouço inúmeros metereologistas dizer para se tomar cuidado com o calor, que o Verão vai ser o mais quente desde que há registos, etc. Ora o que se observa, em meados de Junho, é o tempo constantemente encoberto, chuva ocasional, vento irritante, e por vezes uns diazitos de sol. Do tal Verão anunciado, nem sombras. Ou melhor, apenas sombras. Ainda por cima, Carnaval, Páscoa, feriados, foram em grande parte sob água. Por isso, agradecia que parassem com essas ameças do "Verão escaldante", que é coisa que já me cheira a partida de mau gosto. Eu bem queria que tal canícula viesse, queria, mas esta promessa constantemente adiada só me provoca nervos, sempre que saio lá para fora e dou de caras com horizontes de nuvens.

terça-feira, junho 12, 2007

Bilhetinho a Gisele Bundchen


Gisele, umas das mulheres mais idolatradas do Brasil, referiu que as leis da Igreja estão ultrapassadas e que foram feitas numa altura em que era esperado que as mulheres fossem virgens.
«Hoje em dia ninguém é virgem quando casa. Mostre-me uma pessoa que o seja!», disse a modelo ao jornal.
Inquirida acerca do aborto, a modelo defendeu que a mulher tem o direito de escolher o que é melhor para ela e incentivou o uso do preservativo


Até quatro meses de gravidez, não existe quase nada. É como um grãozinho.
Quando a igreja fez suas leis, milhões de anos atrás, a mulher era virgem, o cara era virgem... Hoje em dia, ninguém mais casa virgem

Olha, Gisele, não é por nada, mas acho que não conheces todas as mulheres do mundo, nem do Brasil, e provavelmente nem do teu bairro. E acredita que há pessoas com ideias e práticas diferentes das tuas, por vontade própria. O mundo não se resume às passerelles, a Copacabana, a Miami e a Beverly Hills, sabias?

E sabias que o que está dentro das mulheres no tempo de gravidez não é propriamente um "grão de areia", que já tem inúmeras características de uma pessoa plenamente formada? Que aos quatro meses já há orgãos vitais perfeitamente definidos, coração incluído? Pois é, estamos sempre a aprender. Ou também há grãos de areia com coração?

E já agora, a Igreja Católica tem o direito a dar as suas opiniões, a exortar os seus princípios, como qualquer outra instituição (mesmo que não tenham "milhões de anos", como tu afirmaste). Talvez te faça confusão, a ti e a tanta gente que por aí opina sem pensar antes, mas há quem tenha um núcleo de princípios universais, aqueles que não se esboroam com as modas e os ventos, e que os pretende conservar. Quem não quiser não tem de os seguir. Quem neles acredita pode perfeitamente pregá-los, sem ser obrigado a pedir desculpa. Uma sociedade tolerante é isso mesmo, não é as instituições terem de baixar o olhar e calar-se se outros acham que as suas ideias não são tão seguidas "hoje em dia".

Pois é, Gisele. Desde o outro dia, em que recusaste ir jantar comigo porque estavas com medo de "perder a linha" e "ganhar calorias" (e no sítio em questão não havia comida macrobiótica), que desconfiei que não eras uma inteligência a toda a prova. Mas estas declaraçõezinhas estouvadas foram a prova dos nove.

Ah, bela gaúcha, o que te safa é a tua imagem e a tua vocação para desfilar. Caso contrário, terias arranjado lugar no vasto circuito de aspirar alcatifas, ou talvez até como profissional de "Manifs".

segunda-feira, junho 11, 2007

Leituras comuns
É curioso: sou de uma geração bastante mais nova do que a de Pacheco Pereira, mas tenho em comum com ele algumas leituras de juventude. "Herdei" tais livros da minha mãe, é verdade; e também nunca tive grande paciência para ler Florence Nithingale. Lembro-me ainda bem do Pasteur e do Mozart, e menos bem de As Grandes Invenções. Numa colecção parecida(Biblioteca dos Rapazes?), desta feita pertencente ao meu pai, lembro-me de tomar contacto pela primeira vez com Edison, Gutemberg, Gago Coutinho, etc. Isso numa idade em que já largara Os Cinco, a Condessa de Ségur e Sophia, ainda lia os Uma Aventura e começava a entrar nos romances de aventuras de Emilio Salgari, como o Corsário Negro, e os de Walter Scott, Dumas, o sublime A Ilha do Tesouro, etc. Marcaram-me numa altura fulcral, o início de amadurecimento das leituras, passadas as primeiras páginas infanto-juvenis. Só prova que há livros que mesmo que não sejam reeditados, nem por isso perdem o seu valor, e podem servir várias gerações. Podem e devem, aliás.

sábado, junho 09, 2007

Afinal não resistiram

O Arquitecto Saraiva prometeu desde o início que o seu radioso projecto jornalístico chamado Sol iria tornar-se uma referência na imprensa nacional; que em seis meses se tornaria no mais lido dos semanários; e que, sempre recordado na capa, o jornal não dava brindes nem promoções, numa clara alusão aos DVDs perjorativa ao seu antigo Expresso.
Pois bem: passados mais de seis meses, o Sol não é o mais lido - basta ver as pilhas acumuladas que ficam por comprar durante toda a semana - está longe, nos seus faits-divers, de ser qualquer referência no meio, e nem ao menos resistiu à tentação de dar brindes. Bem podem disfarçar e chamar-lhe outro nome qualquer: oferta, mimo, saldo, taluda, o que quiserem. Agora não camuflam a ideia de que afinal era tudo um estratagema, que se manteria caso as vendas fossem satisfatórias, mas que se destaparia se não surtisse efeito, como se observa. Mais valia assumirem de uma vez por todas o logro da forma mais discreta. Mas do "futuro Nobel" Saraiva esperam-se todos os artifícios. Principalmente os mais patéticos.

quinta-feira, junho 07, 2007

Imagens do Dia do Corpo de Deus

O Dia do Corpo de Deus, ou Corpus Christi, é uma comemoração religiosa itinerante, dependente do dia de Páscoa, na quinta-feira depois do Domingo da Santíssima Trindade, celebrando a Eucaristia, data em que milhares de crianças comungam pela primeira vez. Ainda me lembro da minha Primeira Comunhão, num longínquo e quente 18 de Junho, do Novo Testamento que me deram, do posterior jantar em minha casa, dos convidados...

Em Caminha, é a maior festa religiosa, a par das de Santa Rita. Os tapetes de flores enchem as ruas, espalham-se pela praça do chafariz, frente aos Paços do Concelho, pelas ruas, por onde marcham as procissões, e atraem inúmeros curiosos. Vale a pena ver as cores que inundam as ruas da vila, já de si bonita, sobretudo numa tarde de sol.


Caminha, Maio de 2005: festas do Corpo de Deus

terça-feira, junho 05, 2007

Metro da Margem Sul

O projecto do metro da Margem Sul do Tejo está já bastante adiantado. E parece até que os custos nem vão ser assim muito altos. Tirando, claro, os de importação de mercadorias, as taxas alfândegárias e os decalitros de água necessários para alimentar o transporte.

(Enviado por e-mail).

domingo, junho 03, 2007

Feira do Livro, multidões, intenções e aquisições

Feira do Livro. A de Lisboa, para já. Com o tempo enfim soalheiro, percorrem-se as barracas, folheiam-se alfarrábios, biografias, ensaios e romances. A partir de certa altura, é impossível deixar de esbarrar com famílias inteiras, com os seus carrinhos de bébé, idosos a pensar onde estão, casais de namorados distraídos, bibliófilos a mirar ao longe uma qualquer nova edição. Mini-esplanadas montadas e tendas vendendo gelados. Fernando Negrão em pré-campanha, na companhia de Vasco Graça Moura, fingindo que estava interessado nos livros (com uma oportuna câmara de televisão atrás). Junto às respectivas editoras, os autores protegem-se do sol ou vão bebendo um café até aparecer um fã. Um senhor da Normandia , que folheava a meu lado, resolveu desabafar comigo em francês, queixando-se que os editores trabalhavam pelas vendas e não pela divulgação dos livros ou pela sua qualidade. Pela terceira vez, alguém me disse que o meu francês tinha sotaque canadiano. Que eu me lembre, os quebecois que conheci na vida foram muito poucos. Acho mesmo que só conheci uma natural da região francófona.

Apetecia-me trazer uma pilha de livros, como Uma História de Guerra, de John Keegan, as Memórias de Raymond Aron, Free World, de Timothy Garton Ash, Crónicas do Recordar, crónicas do agora, de Maria Eduarda (isso depois de uma conversa com a autora), o último volume da História de Portugal, de Veríssimo Serrão (também lá estava), O Desejo de ser Inútil - espécie de grande entrevista biográfica a Hugo Pratt, esse aventureiro tão genuínocomo o marinheiro que criou, A Guerra Civil de Espanha e Paris depois da Guerra, ambos de Anthony Beevor, além de ter folheado o último livro de Maria Filomena Mónica sobre Eça, uma fotobiografia de Spínola, um álbum sobre a Exposição do Mundo Português, alguns volumes da colecção Lisboa Desaparecida, de Marina Tavares Dias, etc. Acabei por trazer apenas Um Espião Comunista em Lisboa, de Ralph Fox. dizem-me que eram escritos do autor, de 1936, morto na Guerra de Espanha, em tempos publicados no Reino Unido, e nunca em Portugal. A ver vamos.

Para a semana, nova ronda, na feira do Porto, no Palácio de Cristal, pela última vez naquele espaço coberto antes de, ao que dizem, regressar à Baixa. Será na Avenida dos Aliados, agora tão despida depois da terraplanagem em granito?

sexta-feira, junho 01, 2007

Post "pro-smoking"
O Cachimbo de Magritte já estabeleceu aqui as suas regras e diversas opções de fumo, num post aplamente copiado pela blogoesfera:


Acrescentaria que os comunistas também optarão por esta última via, mas creio que não os há no distinto blogue. Mas para ajudar ao pluralismo do tabaco, eu, fumador mundano ocasional, deixo aqui algumas imagens do que considero ser o prazer do fumo (passe a publicidade).











domingo, maio 27, 2007

Uma solução para os Balcãs?
Interessante, este post no Combustões, sobre as monarquias balcânicas, a forma como acabaram e a necessidade e oportunidade do seu regresso.
Foram cometidos alguns erros, é certo, como a excessiva permissividade de Mihai I em relação ao Marechal Antonescu, antes de o depôr em 1944, já demasiado tarde, ou as excessivas divergências entre as dinastias da Sérvia, que não facilitaram certamente a vida dos seus monarcas. Mas as alianças com o Eixo, decididas por ditadores governativos sem escrúpulos, e a consequente submissão perante o ocupante soviético ditaram o fim da maioria das monarquias balcânicas. No sul, o Montenegro já tinha sido incorporado na Jugoslávia através de um processo pouco claro, em que se depôs a Monarquia sob a acusação de pactuar com o inimigo austro-húngaro. A Albânia também viu o Rei Zog perder o trono com a invasão italiana e a posterior instalação do regime de Enver Hoxha. Na Grécia caíu o Rei Constantino II, deposto primeiro pela famigerada junta dos coroneis, e a definitivamente destronado, mais tarde, por um referendo de imparcialidade duvidosa. E se se puder juntar ao rol, em Itália, os Sabóias foram igualmente afastados e exilados por um ecrutínio manipulado e quase fraudulento.
Mas apesar da hostilidade dos soviéticos, da incompreensão dos americanos e da indiferença dos europeus das gerações seguintes, há sinais de mudança nos Balcãs. Simeão II, recorde-se, tornou-se primeiro-ministro da Bulgária cinquenta anos depois da sua deposição. Alexandre Karađorđević, pretendente ao trono sérvio, tem um grande apoio entre o povo, a avaliar por algumas manifestações que lhe foram dirigidas desde o seu regresso definitivo.
Quem sabe se não será o regresso das monarquias a colocar definitivamente o Leste a par do resto da Europa, a enterrar velhos ódios e a devolver a confiança aos seus cidadãos.

quarta-feira, maio 23, 2007

 
Reedição da final dos campeões de há dois anos. O mítico Liverpool e o poderoso AC Milan voltam a encontrar-se dois anos após a mais excitante final desta prova desde que o Benfica venceu o Real Madrid por 5-3. Não deixa de ser estranho que na prova dos "campeões dos campeões" surjam dois clubes que não ganharam os troféus domésticos na ano passado. Coisas do futebol moderno, virado para as pay-per-view e para remessas. Preferia sem dúvida que o vencedor fosse um qualquer virgem na conquista da prova, como o Chelsea de Mourinho, o ascendente Lyon ou a Roma, infeliz finalista em 1984, precisamente frente ao Liverpool. Não podendo ser o Benfica, claro está.

Mas já que os deuses do futebol ditaram este reencontro, então que a Taça volte aos Reds. Que dois anos depois da surpresa em Istambul, Gerard ou Hyypia sejam de novo campeões em Atenas, berço da ágora e vítima ancestral dos anfitriões de há dois anos. Porque é a minha equipa inglesa preferida. Porque se assim for, poderemos dizer que em três anos de competições europeias só uma equipa a terá eliminado: o Benfica.


E também porque não gosto do Milan, das suas finais com mais facilidade do que seria justo, de já nos terem tirado dois canecos, do seu presidente, o patético Berlusconi. E este ano com motivos acrescidos: nem sequer deviam ter ido às competições europeias, depois do escândalo Calciocaos. Mas autoridades foram brandas com os rossoneri, com um castigozinho em que lhes tiraram uns pontitos, enquanto lhes passavam as maõs pelo pêlo, ao contrário do que aconteceu com a Juventus. Os adeptos sérvios do Estrela Vermelha de Belgrado é que os toparam na eliminatória para aceder a esta prova, escarrapachando o nome em frente aos Berlusconi boys.


Que nos trará esta noite: Istambul 2005 ou Atenas 94, quando os milaneses, com Maldini também na equipa, goleram o favorito Barcelona por impensáveis 4-0?

terça-feira, maio 22, 2007

Parabéns, Hergé















Há cem anos nascia Georges Prosper Remi, mundialmente conhecido como Hergé. Todos o relembram, mas não é demais fazer a homenagem ao criador de Tintin, Quim e Filipe e Jo, Zette e Jocko. Se só acompanhei artificialmente os segundos e terceiros, já o herói da poupa e das calças de golfe é para mim, desde pequeno, uma companhia indispensável. Nunca me esqueço de que folheava os álbuns na América e em África quando ainda nem sabia ler; a primeva aventura no País dos Sovietes que me ofereceram na minha Profissão de Fé, álbum maldito, a traço grosseiro, nunca reeditado a cores, que me incutiu definitivamente o gosto pela BD; os de pura aventura em terras longínquas ("Les Cigarres du Pharaon", "Le Lotus Bleu", "L ´Oreille Cassée", "L´Affaire Tournesol", "Coke en Stock"), com fugas de Meca, invasões japonesas - a história também entra aqui - golpes de estado em repúblicas das bananas, submarinos no mar vermelho e espiões balcânicos. O universo Tintin é riquíssimo tanto na narrativa, como nas comparações temporais e espaciais da sua época ou na espantosa galeria de personagens.

Além da sagacidade e coragem do repórter, e do voluntarismo do simpático Milou, temos as fúrias, emoções e insultos para todos os gostos e imensos "mille sabords" e "Tonerres de Brest" do capitão Haddock; o génio, a distracção e a hilariante surdez do Professor Tournesol; a incompetência e a redundância dos incríveis Dupondt, que deram origem a expressões variadas; a maldade burlesca de Rastapoupoulos e Sponsz, ou a mais trágica de Mitsuhirato ou de Jorgen; a amizade e perseverança de Tchang; o massacre Serafim Lampião; o solícito e fleumático Nestor; as diabruras de Abdallah; as dores de cabeça dos chefes de estado (Ben Kalish Ezab, Muskar XII, Alcazar ou Tapioca), e , claro, as excentricidades da Prima Dona Bianca Castafiore, tiranizando maternalmente os submissos Irma e Wagner.
Simultaneamente, como sátira da época e como fonte de imaginação, Hergé criou mesmo países fictícios, como a Sildávia (inspirada na Roménia, mas pela sua localização e tamanho, parecida com o Montenegro ou a Albânia) ou a sua ameaçadora vizinha, a Bordúria, presidida pelo ditador Plekszy Gladz e os seus bigodes, misto de ditadura fascista com o bloco soviético. E ainda San Teodoros, ao lado de Nuevo Rico, abalada pelos golpes de estado constantes entre os citados Alcazar e Tapioca, e os milhares de coroneis.

Claro que no centenário haverá sempre quem lembre as ligações do autor ao padre integrista Norbert Wallez, seu director, e mesmo a Leon Dégrelle, líder do rexismo belga; ou as suas inclinações jovens para a extrema-direita, o seu empedernido anticomunismo, colonialismo e antiamericanismo, que teriam ficado expressos nos primeiros álbuns, e até antisemitismo (dando como exemplo o banqueiro de nariz adunco em "A Estrela Misteriosa", ou a primeira versão, depois alterada, de "no páis do ouro Negro"). Tudo isto podia ser verdade. Mas mesmo que seja, é bom não esquecer que estava dentro do espírito comum da época, de que grande parte dos artistas se não distanciava; e que nem isso ensombra o fabuloso universo iniciado em 1928 com umas toscas pranchas do escuteiro Totor. Rémi iniciou e de asas à fabulosa BD da Bélgica, verdadeira indústria e referência cultural daquele país artificial.
Parabéns, Hergé!
Já agora, fiquem com um pequeno glossário, em francês, dos insultos do Capitão Haddock. E saibam que o Castelo de Moulinsart existe mesmo, só que com outro nome.
Quiz de Cascata

A começar o fim de semana, na Sexta à noite, estreei-me nas lides de um desporto muito popular em Lisboa: o Quiz de Cascata, ali para os lados da Ajuda. Interessante, divertido e instrutivo, embora entre pela madrugada dentro. Ainda por cima, a coisa correu-nos com sucesso evidente e até nos pagaram por isso. A repetir, claro está.

segunda-feira, maio 21, 2007

Fim de semana e novas desportivas

Fim de semana marcado pelo convívio familiar, almoços ao sol, visitas de nocturnas de museus (que me permitiram enfim colmatar a enorme lacuna de nunca ter visto ao vivo os Paineis de S. Vicente) regresso da chuva e o fim da época futebolística, com Derlei a marcar finalmente um golo que entrou devagar, devagarinho... Num ventos fim de tarde na Luz, valeu isso, o outro golo de Mantorras, e os aplausos do público às geniais jogadas de Rui Costa e de Karagounis (um deve ficar, o outro, infelizmente, é pouco provável), aos golos - o segundo de Mantorras - e à saída de Micolli, que muito dificilmente envergará o Manto Sagrado depois de Maio.

Ao que parece, o Porto ganhou o campeonato. Soube-o porque passei no Marquês de Pombal, em Lisboa, depois do jogo, e vi três carros de cachecol azul em riste, a apitar enquanto continuavam a circular à volta da estátua do Conde de Oeiras. Na televisão, mostraram ainda os adeptos portistas que "enchiam" a dita rotunda e as comemorações nos Aliados, em que bandos de jagunços da conhecida associação que dá pelo nome de Super Dragões se divertiam a espancar-se e a esfaquear-se entre si. Já não é preciso os benfiquistas irem para lá quando ganham títulos: são os próprios que se encarregam de fazer com que o Porto, pelos idos de Maio, se pareça com Karachi.

sábado, maio 19, 2007

Doçaria Regional

Em resposta a este pequeno desafio sobre doçaria regional, deixo a minha pequena contribuição, esperando que possa beneficiar quem se deslocar aos respectivos locais e aos que derem com os estabelecimentos abaixo referidos:

- Cristas de galo do Lapão, em Vila Real.

- Eclairs da leitaria da Quinta do Paço, no Porto

- Caminhenses da Docelândia (ou da Riviera), em Caminha.

- As cornucópias da Alcôa, em frente ao Mosteiro de Alcobaça.

Os bolos do Ao Bom Doce, junto ao cais de Vila do Conde e à capela de Nossa Senhora do Socorro, apropriadamente com forma de suspiro. Qualquer um deles. Uma coisa inimaginável (apesar da má cara de quem está por trás do balcão), única, de comer e chorar por mais.

quinta-feira, maio 17, 2007

Subidas

Um esquecimento fatal, que já data do último fim de semana. As duas vagas de subida à primeira divisão foram já preenchidas pelo vitória de Guimarães e pelo Leixões, dada a queda vertiginosa do Rio Ave. Os vimaranenses conseguiram um regresso já anunciado desde o ano passado, mesmo que tenham estado em maus lençóis a dada altura do campeonato. Mas as minhas felicitações vão directas para o Leixões, o velho clube matosinhense, que já deu mesmo azo a estudos sociológicos. Dezoito anos entre a Honra e a 2ª B, com uma final da Taça a meio, acabaram no último domingo, em Moscavide, e prosseguiram em grande festança na terra de Passos Manuel e Siza Vieira. Conheço bem o entusiasmo dos seus muitos adeptos, pelo jogos que vi e pelos meus tempos de liceu em Matosinhos. Que tenham êxito na divisão maior (menos contra o Benfica), e que ajudem a aumentar, no velho Estádio do Mar - algo distante do oceano - a pobre média de público dos estádios deste país.

PS: vi agora que o Leixões comemora este ano o seu centenário. Melhor celebração e acontecimento mais feliz não podia haver, certamente. Serviu até para se reactivar para passageiros, e não apenas para mercadorias, a antiga gare de Matosinhos, que esteve por uma tarde ligada ao Oriente.

quarta-feira, maio 16, 2007

Jacques Chirac
Há dias, vi um documentário sobre a vida e a carreira política de Jacques Chirac. As características que mais se lhe apontam estavam todas lá: o oportunismo, o charme pessoal, o interesse pelas civilizações do médio-oriente, a mudança de convicções de uma década para a outra, a devoção ao Gaullismo. Além dos traços pessoais, tem ainda os comuns aos principais políticos franceses: décadas a andar na ribalta, com maior ou menor sucesso, e sucessivas tentativas de alcançar o mais alto cargo nacional.

O percurso político de Chirac já data dos anos sessenta. Começou no gabinete de Pompidou, do qual se tornou homem de confiança, tendo sido deputado, secretário de estado e ministro de várias pastas. Depois da morte do dinamizador do museu do Beaubourg, resolveu apoiar Valéry Giscard d ´Estaing nas presidenciais de 1974. Acabou por ser decisivo, e tal empenho valeu-lhe o cargo de primeiro-ministro, aos 42 anos. Mas a rivalidade entre os dois homens acabou por ditar a saída de Chirac, por "falta de condições", em 1976. Logo a seguir, fundou o RPR, o novo grande partido gaullista da direita francesa, aproveitando os movimentos já existentes no terreno, nomeadamente a UDR, candidatou-se à câmara de Paris e tornou-se o todo poderoso Maire da capital francesa, derrotando a candidatura suportada por Raymond Barre, seu sucessor na chefia do governo e homem de confiança de Giscard. Tentou sem êxito as presidenciais de 1981, ganhas por Miterrand, mas viria a ser de novo primeiro-ministro em 1986, impondo uma política de austeridade, em coabitação com o velho presidente socialista. Que o derrotaria de novo em 88. O maire de Paris, eurocéptico e soberanista, tornou-se um entusiasta da União Europeia no início dos anos noventa, mesmo a calhar para vencer à justa o referendo sobre o Tratado de Maastricht. Em 93, a RPR teve um êxito retumbante nas legislativas, e Balladur tornou-se chefe de governo. Dois anos depois, para as presidenciais, o RPR dividiu-se entre o primeiro-ministro (que teve o apoio de Sarkozy) e o Maire de Paris, que acabou por ganhar a contenda, ir à segunda volta conquistar o lugar que sempre ambicionara: a Presidência da França.

No primeiro mandato teve de suportar uma coabitação com Jospin e o conflito no Kosovo, e viu a França sagrar-se campeã mundial de futebol. No segundo, ganhou com mais de 80% dos votos contra Le Pen, foi mais atribulado: a crise no Iraque (que o tornou impopular a nível externo, mas que acabaria por lhe dar razão), apesar do apoio anterior à guerra no Afeganistão, a derrota do projecto da Constituição Europeia, a fundação da UMP, as diatribes com Sarko e o envolvimento nos casos de desvios de fundos entre a Mairie e o RPR.

É esta a longa carreira do homem que se despediu ontem da presidência, dando lugar a Sarkozy. "L ´escroc", para os inimigos, ou o homem que assumiu a liderança do mito gaullista e que estabeleceu laços entre o ocidente e a África e o Médio Oriente, para os admiradores. O seu principal legado terá mesmo sido esta influência francesa nesses territórios, e a sua larga popularidade, à qual potências como os EUA têm muitas vezes de recorrer. De negativo, fica como símbolo de uma classe política arrivista, burocrática, intriguista e de honestidade duvidosa, à qual se tenta pôr cobro no ciclo que agora se inicia.