sexta-feira, outubro 12, 2007

O regresso do circuito


Quem conhece bem Vila Real sabe que as principais "instituições" da cidade estão na sua maioria na Avenida Carvalho Araújo, ou nas ruas adjacentes. Ao alto da Avenida está o tribunal; cá em baixo, no lado oposto, a câmara municipal, antigo solar do Séc. XVIII. À esquerda da câmara, o liceu Camilo. A meio, a Sé, e ao lado o antigo convento de S. Domingos, restaurado e aproveitado como Conservatório Regional. Em frente, a Gomes, o mais conhecido e reputado café da cidade, célebre pelos seus covilhetes. entre a câmara e a Sé, a casa onde nasceu Diogo Cão, e entre o conservatório e o tribunal, o seminário maior. Entre a Gomes e o tribunal, o antigo Palácio dos Marqueses de Vila Real, casa do Séc. XVI, agora posto de turismo. Nas ruas traseiras, compondo o miolo tradicional, várias igrejas, em especial a Capela Nova, obra de Nasoni e um dos símbolos da cidade, o antigo café Excelsior, a "Casa dos Brocas", da família de Camilo e referida no Amor de Perdição, e a Casa Lapão, que produz as conhecidas cristas de galo. Mais acima, junto ao Pioledo, a Igreja do Calvário, acima do antigo campo pelado de futebol do SC Vila Real, e abaixo deste o Jardim da Carreira, o passeio público da cidade. Nos arredores fica o grande ex-líbris da cidade e da região: o Palácio de Mateus.


Claro que os tempos mudam, aparecem outras novidades que acabam por se institucionalizar e estabelecer-se como elementos representativos de uma dada comunidade. Em Vila Real, o teatro municipal, do lado de lá do rio, impôs-se como referência cultural na região, com espectáculos lotados e grande afluência de público. Em frente, o novo shopping mudou os padrões de consumo e apresenta uma estética bem melhor do que a maioria das grandes "superfícies comerciais", com uma frente envidraçada de onde se pode ver a união entre o Marão e o Alvão.

Acontece que estes novos edifícios acompanharam também as modificações no circuito da cidade, com novas rotundas, sentidos, semáforos e regras para a circulação, que desvirtuaram o velho percurso que durante mais de cinquenta anos foi o cenário das corridas de Vila Real. O circuito começava perto das margens do Corgo, num local onde ainda são visíveis bancadas de pedra e em que lamentavelmente se perdeu a vista do rio por causa das hediondas construções em altura, seguia em direcção ao cruzamento frente ao quartel e daí para a Timpeira, onde curvava antes da primeira ponte. Seguiam-se as curvas em Abambres e a subida para Mateus, de onde se inflectia de novo para a cidade, passando junto à Araucária, atravessando a ponte metálica sobre o Corgo e fazendo a "curva da salsicharia", antes da meta.

 

As corridas datam já de 1931, mas o circuito só adquiriu o formato conhecido alguns anos depois. Os financiamentos provinham da câmara municipal, do ACP, da Comissão de Turismo da Serra do Marão e do próprio preço dos bilhetes. Por ali passaram Vasco Sameiro, os irmãos Oliveira, Stirling Moss, o conde de Monte Real, Nicha Cabral, etc. Humberto II, o último Rei de Itália, esteve na corrida em 1951 para apoiar os pilotos italianos em competição. O público acorria em magote, fazendo a chatíssima estrada do Marão, ou de comboio, pela linha do Corgo, que serpenteia entre o douro vinhateiro. As corridas mantiveram-se em alta até aos anos setenta, quando começou o seu declínio, que levaria à suspensão em 91.

A travessia da ponte metálica(colecção Manuel Taboada)

Só me recordo das provas dos anos oitenta, apenas com corredores nacionais. Encarrapitado nos muros de pedra da Timpeira, sob o sol de Julho, via em baixo os carros a fazerem as curvas com roncos calorosas e velocidades assustadoras. O circuito era ainda o original, ainda não havia IP-4 e a linha do Corgo seguia até Chaves.

Nestes últimos 15/20 anos, muita coisa mudou. O IP-4 construíu-se (e já está obsoleta), os comboios até à "bila" rareiam, o SC Vila Real joga no Monte da Forca, a UTAD e os estudantes entraram nos hábitos da região, a cidade alargou muito a sua dimensão, por vezes da pior forma, e o circuito tornou-se impraticável para corridas da lado da cidade.

Mas as competições regressaram no último fim-de-semana, com novo figurino e um percurso mais curto, entre a ponte da Timpeira e a rotunda que vira para a ponte metálica. Estive lá, nesses dias de fim de semana prolongado, mas pouco vi das corridas, excepto meia dúzia de bólides e outros tantos clássicos a passar. Ainda assim, gostei de ver uma quantidade de gente interessada, e de novo o entusiasmo pelo circuito, ainda que cortado a meio. E bem lembrada a homenagem a Manuel Fernandes, antiga glória das corridas, que nunca cheguei a conhecer, embora tivéssemos parentes comuns, e que morreu há dois anos com um tumor cerebral. Embora para muitos também se devesse homenagear Sidónio Cabanelas, outros dos "heróis" das corridas, assassinado há uns vinte anos por uma encomenda-bomba nos seus escritórios da actual Rodonorte.
Para o ano voltam à cidade, e parece que também o grande prémio do circuito da Boavista (o grande rival urbano do de Vila Real) irá para Vila Real. Alvíssaras! Há instituições que reaparecem, mesmo que mutiladas.
Sobre o assunto, ver também isto, isto, isto e isto também, com uma vénia aos autores.
E se...

E se, à imagem de alguns catalães, um grupo de estudantes anti-republicanos decidisse queimar a efígie da república e uma bandeira verde-rubra (sem mais nada), além de enforcar um boneco com motivos de 1910 (pós 5 de Outubro)? Quais seriam as reacções, penas aplicadas e discussões relativas ao tema?

quarta-feira, outubro 10, 2007

Discussões à volta do Che


Quarenta anos depois da sua morte, é por demais óbvio que Ernesto Guevara não era nenhum santo, excepto para fanáticos e utópicos. Derramou sangue em nome do seu combate total contra o "imperialismo", em especial na Revolução Cubana. Mas compará-lo a um Mao, um Pol Pot a um Hitler, como faz a Atlântico deste mês, parece-me um sumo exagero. Se é certo que o seu lado idealista e combativo foi demasiado realçado por razões políticas e culturais, é bom que não caiamos também no oposto: a diabolização absoluta de um homem com seu quê de alucinado. Nos anos sessenta, um tipo assim, morto aos quarenta anos, só se poderia tornar num ícone. Ironia das ironias, acabou também por tranformar-se num rentabilíssimo produto de marketing, provando que não só o capitalismo está bem mais vivo que o comunismo, mas também que pode aproveitá-lo cinicamente para abrir novos caminhos.

A ver também este artigo de Rui Bebiano

quinta-feira, outubro 04, 2007

Desconsolo

Decididamente, ir ao futebol este ano tem sido uma pura perda de tempo. E que futebol nem vê-lo, resultados ainda menos, e golos, só mesmo dos adversários. Que aplicaram bem o dinheiro, como se vê. Mas apesar de tudo, parece-me que uma bola na barra, outra que o adversário dominou com a mão na sua área e boas defesas do guarda-redes contrário justificavam um golo. o problema é que do outro lado também criaram muitas oportunidades de golo.

Imagino, já agora, o que diriam os responsáveis sportinguistas se tivessem sido objecto de uma arbitragem tão má como a que castigou o Benfica no seu jogo contra o Shaktar.
E as "bases" cumpriram

Sobre a eleição de Filipe Menezes para líder do PSD estou para escrever desde sexta de madrugada, quando vi os resultados. Não vou dizer que já esperava, como gostam de afirmar muitos comentadores depois dos factos acontecerem. Julgava que apesar de tudo, Mendes triunfaria à rasca, mas ficaria no lugar. Afinal, as "bases" apostaram no autarca de Gaia, e até por larga maioria.
E agora, perguntam muitos, com as mãos na cabela? Agora temos alguém cujo pecado que mais detesta é o da coerência, que muda de discurso conforme os ventos e a disposição, que tem uma velha rivalidade, agora camuflada, com Rui Rio e que até já chorou na televisão. Alguém quem Miguel Sousa Tavares, há já vários anos, quando Menezes usava barba e era líder da distrital do Porto, chamou "O nosso Pacheco", numa alusão à queirosiana figura d ´A Correspondência de Fradique Mendes. O homem tem cumprido de forma satisfatória na margem Sul, é certo. Mas líder do principal partido da oposição, frente a uma governo sustentado por uma maioria absoluta? As suas ideias são algo vagas e arrevezadas, ora sustentando-se em políticas sociais, ora defendendo uma economia mais liberal (uma dualidade paradoxal que prova, afinal de contas, que ele é um PSD dos sete costados). Fora do partido, deixa muita desconfiança. E a inimizade da maioria dos "notáveis" também é uma dificuldade a não desprezar.
Apesar de tudo, acho que a coisa, do lado da oposição, vai ficar mais animada, para mais se Santana lopes, o ex-menino -guerreiro repromovido a grande estadista por causa de uma atitude mais nobre num noticiário, ocupar o lugar de líder parlamentar, como insistentemente se tem falado. Com Portas no CDS, a sonolenta AR terá mais motivos para acordar.
De qualquer maneira, não sei se Menezes terá assim tanta pedalada para liderar o partido, e se se terá apercebido da encrenca em que se meteu. Com Gaia pelo meio e os "barões" atrás, não vai ser nada fácil. o que eu sei é que não é motivo para terrores ou cenários apocalípticos, muito menos para encerrar o blogue. Estou como Francisco José Viegas: apesar de tudo, dá um certo gozo.

terça-feira, outubro 02, 2007

Piadinha de gosto duvidoso

Uma excelente marca paramelhorar radicalmente o ordenamento urbano em Portugal.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Jardins e jardins
Sempre gostava de saber porque é que um partido que defende isto acolhe movimentos com membros que praticam aquilo. Ou há jardins merecem ser preservados e outros achincalhados? Não me vão dizer que é siples coincidência o facto de terem colocado suásticas em campas judaicas, pois não?
A obsessão de Vital Moreira

A propósito de uma benzedura de José Sócrates, Vital Moreira voltou a falar no assunto que lhe ocupa 80% das suas colunas de opinião: a defesa da "laicidade" do Estado, ou a capa do seu anti-clericalismo e anti-cristianismo mal disfarçado. As referências ao "país religiosamente plural" mostram que não percebeu, ou finge não perceber, que o país é cultural, religiosa e socialmente católico, e que a sua vontade era eliminar todos esses traços. E quando diz que "a exibição de símbolos de identificação religiosa, em hospitais, prisões e outras instituições, não constitui somente uma violação do princípio da separação mas também, e sobretudo, uma falta de respeito para com os outros crentes de outras religiões e os não-crentes" está nitidamente a criar uma proibição onde ela não existe nem na Constituição (de que certamente julga ser intérprete único) nem na Concordata. A Separação entre a Igreja e o Estado não obriga as entidades públicas a realizarem os seus actos hostilizando as confissões religiosas, mas apenas não deixando que os seus actos não sofram a sua interferência. E veja-se o grotesco que é proibir a um doente ou a um preso de levar um crucifixo para a cama ou para a prisão. Por aqui se prova a verdadeira intenção de Vital Moreira, cujo espírito jacobino, à mistura com os resquícios do PCP (onde militava quando aprovou a CRP) de empurrar as igrejas para as sacristias e afins. Aliás, gostava de perguntar ao Lente de Coimbra o que é que as crenças têm de tão mau que as ideologias políticas não têm.
Ah, e claro, não acaba sem a sacro-laica "falta de respeito para com crentes de outras religiões e não-crentes". No Natal, vermos Vital e outros apaniguados saudosistas da República Velha a falar nas manifestações da quadra como "ofensas a pessoas de outras religiões". Pessoas essas que não só não se sentem ofendidos - nunca se queixaram, aliás - como ainda reclamam contra os Vitais Moreiras que se apropriam indevidamente da sua Fé para fazer mera propaganda anti-católica, e por arrasto, anti-religião.

terça-feira, setembro 25, 2007

Marcel Marceau 1923 - 2007

quinta-feira, setembro 20, 2007

Blog da Rua Nove

Onde ver postais antigos de localidades espalhadas por todo o país, cartazes de propaganda turística dos anos 20/30, do Estoril e das termas, "japonices", capas e lombadas esquecidas, grafismo e ilustrações art nouveau (e seus autores), carros dos anos 60, heráldica de antigos municípios, cartas de tarot, imagens de Macau, fotobiografias de Wenceslau de Moraes e muitas outras coisas mais? No Blog da Rua Nove, pois claro. Achado muito recentemente e com uma infinidade de imagens a descobrir.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Ainda sobre Aquilino
Ainda a propósito de Aquilino, alguns dos defensores da transladação disseram que a petição contra a mesma era obra de "ultramontanos" e "medíocres". Desde já digo que não assinei tal petição, mas sempre teria curiosidade em saber se fizessem a mesma coisa a António Ferro, por exemplo, tais senhores que proferem estas acusações se indignariam perante tal "abuso".
Já agora, um certo Carlos vieira escreve no site do Bloco de Esquerda que "a petição que meia dúzia de monárquicos em vias de extinção pôs a correr contra as honras de panteão nacional a um "terrorista", preso por ajudar os "bombistas regicidas", são tiros de pólvora seca que só poderão fazer cócegas à alma granítica de um vulto com a envergadura moral do universal Aquilino". Não há no entanto qualquer refutação às acusações sobre Aquilino, nem factos contrários, nem nada. Dizer que os monárquicos estão em vias de extinção" mostra como a maioria dos bloquistas convive mal fora do seu mundo supostamente "cosmopolita" e "libertário". Provavelmente esquecem-se que "os beirões, os tenazes e insubmissos beirões" estão na sua maioria nos antípodas das escolhas ideológicas aquilinianas, e que muitos fazem parte da tal "meia dúzia de monárquicos em vias de extinção". Já agora, porão Salazar (que até apreciava em privado a obra de Aquilino, sendo quase conterrâneos e contemporâneos) fará igualmente parte do rol desses tenazes beirões?

terça-feira, setembro 18, 2007

A transladação política de Aquilino

Um excelente texto, já com alguns meses, com as razões - pessoais e gerais - pelas quais Aquilino Ribeiro não merece ir para o Panteão Nacional. Mesmo as letras e a prosa beirã não o permitem. E as justificações de Aquilino Ribeiro Machado, seu filho, que compreensivelmente defende o seu pai, não justificam tal cerimónia.

"O meu pai, quando veio para Lisboa, do ambiente fechado da província, tinha 21 ou 22 anos. Com essa idade, citando uma frase muito batida, `todo o homem é incendiário e mais tarde será bombeiro dos fogos que acendeu`, e é natural que na ânsia e no ideal de mudar o mundo e de criar uma sociedade mais justa, ele se identificasse com os revolucionários que viessem, aqueles mais impacientes, mais insubmissos", argumentou.
"Ele era um homem que vinha do mato, bravio e homem de acção por natureza. É natural que não fosse alinhar pelo pensamento mais conservador da época. Dir-se-á: `isto é um pensamento que depois, ao longo da sua vida, se manteve, foi sempre um homem de intervenção directa` Não, não foi. A vida dele prova-o"


Há que perceber que mesmo com um espírito revolucionário, uma coisa é participar em acções de propaganda, manifestações ou confrontos com a polícia, mesmo que isso implique a detenção. Outra completamente diferente é ser cúmplice sapiente de um Regicídio, para mais de um Rei, e do seu filho, D. Luís Filipe, que estavam longe, bem longe, de ser uns tiranos. E se João Franco, Sidónio e Salazar governaram, à sua maneira, ditatorialmente, a 1ª República não teve melhor desempenho, com a agravante de ter deliberadamente levado Portugal para uma guerra terrível se ter feito passar candidamente por um regime liberal.
Como as razões para a transladação do escritor são também políticas, como provam as alusões ao seu combate "pela República e pela liberdade", não posso, como monárquico, concordar com ela.

domingo, setembro 16, 2007

Frente à Nova Zelândia

Passando a outros desportos, os Lobos continuam a sua dura prova em terras francesas. Depois da Escócia, a fortíssima e intimidante Nova Zelândia e os seus rituais maoris. Apesar da dura derrota, por 108-13, os jogadores lusos venderam-na cara e lutaram com galhardia. Fizeram guarda de honra aos neozelandeses, mostrando o seu espírito desportivo. E voltaram a cantar o Hino como se não houvesse amanhã.
O confronto entre a Haka dos neozelandeses e A Portuguesa é algo de emocionante e vale a pena ser visto.
Já agora, pensei que o confronto entre os homens da Oceania e a Escócia começasse assim. Mas os escoceses foram menos institucionais (em relação a si próprios, claro) e apresentaram-se de forma mais vulgar, frustrando todos os que esperariam uma atiude mais guerreira da sua parte.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Cenas de estalo
Ao ver a cena de estalo no fim do Portugal-Sérvia, depois de uma exibição pífia que deu no temido empate, não tinha ideia do que é que poderia ter começado a zaragata, posto que estava a ver o jogo do lado do banco e perto da cabeceira. Só depois é que me disseram que Scolari tinha aplicado uma murraça num jogador sérvio, supostamente para defender um seu jogador, não percebi se Quaresma se Petit. Feia acção, que não só nos poderá penalizar (e ao treinador) no futuro como nos envergonha mais, como continuação das cenas no fim do Euro 2000, Mundial 2002, naquela noite de destruição de balneários em França pelos "esperanças" e um bocadinho do Mundial 2006, em que a Holanda teve a parte de leão.
Curiosamente, a meio do jogo lembrei-me de uma cena que tinha revisto na véspera, no filme A Vida é um Milagre, de Emir Kusturica, em que um jogo de futebol entre muçulmanos bósnios e sérvios da Bósnia acaba em pancadaria, da qual não escapam sequer os postes da baliza. Mal imaginava que aquele jogo entre selecções principais dos respectivos países iria terminar de forma parecida. Ao que parece, o defesa Dragutinovic, o objecto do murro, já tem um percurso acidentado. E aqui há uns anos, um jogo entre o Braga e o Estrela Vermelha de Belgrado acabou também em confusão, envolvendo o actual guarda-redes do Sporting. Será que os epílogos dos jogos com sérvios têm sempre porrada à mistura?

terça-feira, setembro 11, 2007

O imbróglio McCann

Quatro meses volvidos, e quando já se pensava que os Media estavam enfim a levantar o acampamento para pregar noutra freguesia, eis que se dá a reviravolta no caso Madeleine McCann. As suspeitas sobre a morte da menina e a possível culpabilidade dos pais trouxeram de novo esta enigmática história para a ribalta e despertaram as mais díspares imaginações.
Devo dizer que nunca estive grandemente interessado em toda esta história, apesar de todo o arraial de jornalistas, directos, informações, contra-informações e "biografias" da família. Um desaparecimento de uma criança é algo terrível, mas que infelizmente não é tão invulgar como devia ser, talvez por causa da sociedade excessivamente informada que temos. Por variadas razões, o caso tomou dimensões globais, os noticiários fizeram reportagens e "especiais" de quase uma hora, na maioria das vezes com palha. Espalharam-se cartazes por tudo quanto é aeroporto e serviço de transportes. Tudo isto farta uma pessoa até À medula, mas o que é certo é que o caso alimenta a comunicação social de todo o mundo. Num destes dias, passei por uma banca com abundante imprensa internacional: a maior parte dos títulos dizia respeito às suspeitas que recaíam nos pais da miúda, com grandes fotografias e títulos bombásticos.
Esta suspeita, que para já, e para a "opinião pública", não passa disso mesmo, se se confirmar, terá consequências graves. Não apenas por causa do eventual logro, que envolveria uma campanha a nível mundial, rezas e missas, uma enorme operação de investigação, visitas ao Papa e a um conjunto de capitais europeias, etc. Tornar-se-á também na evidência, apreendida em público, de que algumas crianças nem com os pais, que deviam ser o último reduto de protecção, estão em segurança, e que há gente que tudo faz para encobrir as suas responsabilidades, nem que para isso tenha de enganar todo o planeta. Instalaria um clima de suspeita e desconfiança colectivo e global. e desvalorizaria outros desparecimentos de crianças, casos de maus tratos e pedofilia.
Tenho a maior pena pelos pais que de algum modo perdem os seus filhos; deve ser a coisa mais dolorosa e anti-natural que imaginar se possa. Mas neste caso, e por todas as razões, espero sinceramente que os culpados do desaparecimento de Madeleine, morta ou viva, sejam outros que não os seus próprios progenitores.

sábado, setembro 08, 2007

Luciano Pavarotti 1936-2007

O Tenor. O Caruso do seu tempo. A inconfundível enorme figura bojuda, com a sua barba, objecto de caricaturas até mais não. Intérprete de inúmeras obras, como o Turandot, tornou-se um ícone pop, com os seus Pavarotti ´s and Friends, levou a ópera às massas, tornou-se o elo de ligação entre o Bel Canto e a música ligeira. Era o mais conhecido dos Três Tenores, trio com Plácido Domingo e José Carreras. Desapareceu agora na sua cidade de Modena, onde nasceu, e onde cresceu entre o canto, o futebol e a cozinha, tão amados pelos italianos. Fica, como homenagem possível, a sua actuação no Royal Albert Hall, em 1982, onde interpretou, como em tantas e tantas outras ocasiões, a ária final de Turandot, Nessun Dorma.
Benfica desta época: atribulações e esperanças
Desde Julho que a equipa de futebol do Benfica tem sofrido mudanças bruscas no seu rumo. a coisa até começou bem, com a venda de alguns jogadores a mais, como Carlitos, Beto, Manduca ou Amoreirinha. Mas as saídas de Micolli e Karagounis foram bem menos positivas. A notícia da ida de Simão para o Atlético de Madrid apanhou todos (mais ou menos) desprevenidos. Os vinte milhões e tal eram generosos, mas a despedida do capitão e melhor jogador dos últimos seis anos é sempre dolorosa, sobretudo se sair para um clube menor. Mas a coisa ultrapassava-se, e rematou-se logo com a compra de Di Maria + Diaz e da promessa Freddy Adu. Os jogos da pré-época não eram grande coisa, mas com tempo e preparação ia ao sítio.
O problema é que na véspera do jogo da pré-eliminatória para a Liga dos Campeões, com o Copenhaga, Manuel Fernandes, um dos grandes "reforços" e jogador vital para o meio-campo benfiquista, bateu com a porta, deixando a equipa coxa e obrigando Rui Costa a marcar dois golos de raiva contra os dinamarqueses.
Com lesões à mistura, a afectarem o carenciado sector da defesa, o Benfica começou o campeonato com um empate frente ao Leixões, no último minuto, que parece ser sina de Fernando Santos. Dois dias bastaram para que o técnico, já sem a protecção de Veiga, fosse exonerado de funções e substituído pelo regressado Camacho, que desde a saída em 2004 tinha deixado um certo sentimento sebastianista nos adeptos.
Claro que os métodos e as estratégias de jogo variam consoante os técnicos, e o espanhol começou com um empate frente ao Guimarães, na Luz. Mas a vitória em Copenhaga, num misto de sorte, espírito de sacrifício e incompetência dos avançados dinamarqueses, catapultou o Benfica para a liga milionária, e devolveu o optimismo, acentuado com o expressivo triunfo por 3-0 em casa do Nacional.
Com a paragem por causa da Selecção, é tempo de recuperar os lesionados e de fazer descansar os esgotados. E de pensar. Com tantos reforços, entre o avançado "Tacuara" Cardozo, os novos uruguaios , Zoro, Butt, Bergessio, etc, conseguirá o Benfica montar uma equipa sólida e vencedora e chegar ao título? Com Camacho, apesar das limitações técnicas, tudo é possível. Há ainda a Taça de Portugal, a nova da Taça da Liga, e, claro, a Liga dos Campeões, onde vamos enfrentar o campeão Milan, nossa bête noire nestas andanças, o sempre "empata" Celtic, mais uma vez, e o Shaktar Donetsk, que gastou cerca de sessenta milhões de Euros (!) em contratações.
Espera-nos uma época complicada e incerta, causada pelas entradas e saídas de jogadores para lá do tempo devido, e pela mudança de treinador. Só agora é que a pré-época se acaba. Oxalá as lesões não se repitam e a coisa acabe bem.

sexta-feira, setembro 07, 2007

O sucesso da Air Race

 
E a corrida de aviões patrocinada pela Red Bull acabou mesmo por ser um sucesso: centenas de milhares de pessoas nas margens do rio, um tempo quente de Verão, uma competição vibrante entre os vários aviões que ziguezaguearam no Douro, e não houve qualquer acidente.
Como no sábado não estive no Porto, não pude ver a corrida propriamente dita in loco; mas na Sexta ainda vi as provas de qualificação, da rua da Restauração. As manobras arrojadas, os loops e a velocidade sobre a água, no cenário das margens do Douro entre pontes tinham uma beleza estética considerável. A prova em sim, se se não estivesse a par dos tempos realizados, acabava por se tornar um pouco monótona a partir de certa altura. Provavelmente teve-se uma melhor percepção da corrida através da televisão do que ao vivo.
Já tinha ouvido falar do evento aí por alturas da Páscoa, quando surgiu a meio de uma conversa sobre as corridas do circuito da Boavista. Estava previsto que os aviões passassem por baixo do arco da Ponte Luíz I, mas por razões de segurança, encurtaram os trajectos; não deixaria de ser um espectáculo notável se tivessem podido fazer isso, relembrando os tempos épicos da aeronáutica do entre-Guerras. De qualquer forma, parece-me que a Air Race terá tido mais sucesso e atraído mais gente do que as corridas de carros da Avenida, até pela sua dimensão mais megalómana, beleza estética e pelo efeito novidade. Para o ano, o impacto será menor. Ainda assim, esta ideia de pôr o Porto no mapa deste tipo de eventos é bastante louvável e trará certamente alguns dividendos em termos de visibilidade da cidade (e de Gaia, já agora). E o espectáculo valeu a pena!

Já agora, diz-se que as corridas de clássicos passarão a realizar-se não já na Boavista, mas em Vila Real. Já em Outubro regressarão ao velho cenário transmontano mais corridas de carros, mas com os atrasos nos preparativos e com as alterações feitas no circuito (rotundas, sentidos proibidos) não sei como vai ser.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Obituário

Há já uma semana que morreu Eduardo Prado Coelho. Surpreendi-me bastante com esse desaparecimento, até porque a doença que o afectava não parecia letal (ainda que grave), apesar das sucessivas interrupções do seu artigo diário no Público e do ar patibular que tanto o modificou. Acabou no entanto por ser um ataque cardíaco o causador da sua morte.

Eduardo Prado Coelho era o típico "intelectual de esquerda", a quem só faltava mesmo o cachimbo. Recordava frequentemente os anos de Paris e utilizava por vezes um jargão filosófico sobre as suas referências pouco acessível ao comum dos leitores. Mas andava frequentemente entre os comuns mortais, e fazia gala disso. Não raras vezes os seus artigos incidiam sobre as suas pequenas obsessões e prazeres: a qualidade das salas de cinema, os produtos de beleza, os pastéis de nata, o Sporting, as telenovelas, e muitas outras coisas. Ainda no último ano publicara um álbum, intitulado "Nacional e Transmissível", onde constavam outros elementos das suas vivências, como os cafés lisboetas.

Os seus artigos incidiam sobre uma panóplia de assuntos, sobretudo filosóficos e políticos. Nos últimos verificava-se uma enorme concordância com as políticas do actual governo, com algumas críticas pontuais, sendo o último Ai, Simplex imagem disso mesmo. Como quase sempre,. EPC teve sempre esse oportunismo político, desde a sua ligação ao PC, passando pelo apego ao cavaquismo, e até aí se notava o seu cunho de intelectual afrancesado, qual Jacques Lang sem poder.

Que me lembre, vi-o só uma vez, numa série de conferências na Bolsa. Apesar de alguma irrritação que certos artigos do "Almôndega" (assim era conhecido nos tempos de faculdade) me provocavam, outros havia que eram imperdíveis. Admira-me aliás o imenso coro de homenagens que lhe fazem agora. Sempre o vi como um homem criticado por tudo e todos, de forma exagerada e por vezes maldosa, principalmente pelo seu francesismo, que como se sabe não está na moda, e caricaturado como o representante intelectual Rive Gauche em Portugal. Mas já se sabe que a morte produz milagres de opinião e honrarias. Assim, serei obrigado a concluír com o que outros disseram: deixa inequivocamente um lugar vago na cultura e na opinião portuguesa; e sim, fará muita falta ao panorama intelectual e jornalístico. Jamais reabriremos o Público sem nos lembrarmos do omnipresente O Fio do Horizonte. Um espaço em branco não apenas presumido, mas bem visível.
Já agora, assinale-se também outro desaparecimento de outro homem da cultura, mas da pop, e de Manchester: Tony Wilson, mentor dos Joy Division, New Order, Happy Mondays, da Haçienda e da Factory, e amigo de Miguel Esteves Cardoso. Conheci-o, como muita gente, no filme 24 Hours Party People. Um belo documento, aliás, para quem quiser conhecer a sua obra entre os anos 70 e 80, o urbano depressivismo e a loucura da Rave e do Madchester.



quarta-feira, agosto 29, 2007

O piroso nome escolhido pelos anarco-eco-pantomineiros mais mediáticos do momento, Verde Eufémia, podia muito bem dar o mote para outras inspirações. O PSD mais saudoso de Manuela Ferreira Leite, por exemplo, nesta luta de galos entre Mendes e Menezes, podia lançar o Laranja Ferreira. Os conservadores-liberais portugueses, sem grandes tradições femininas no nosso país, sempre podiam criar o Blue Thatcher; os comunistas, perdida a referência de Catarina de Baleizão, avançariam com a Rubra Odete (ou Ilda, apesar da cacofonia); e o PS, como forma de atraír os votos da comunidade emigrante, faria uma gracinha e criaria a sua secção Rosa Luxemburgo. Tais inspirações femininas coloririam a vida política portuguesa e sempre se podia dizer que os tais Verde Eufémia serviriam, afinal de contas, para qualquer coisa.

terça-feira, agosto 28, 2007

Ponte da BarcaA par das grandiosas festas da Senhora da Agonia, há inúmeras comemorações por esse país fora, em especial no Minho. No dia dos meus anos, comemora-se o São Bartolomeu. Ponte da Barca homenageia o Santo com festividades que ainda conservam a genuinidade e a tradição que quase desapareceram das descaracterizadas Feiras Novas de Ponte de Lima, onde a vodka e a dance-chunga substituíram as concertinas e o vinho verde. Claro que tem as suas fases de pimbalhada, e correm abundantemente as mais diferentes bebidas. Mas as rusgas não param, dança-se incessantemente a chula e a cana verde, ouvem-se bombos, concertinas e castanholas sem fim, improvisam-se desgarradas, e não faltam as barracas de tiros e os carrinhos de choque. Numa pequena vila já do "interior", a quarenta quilómetros a Oeste de Viana, a festa dura até às tantas e só cessa com o sol bem alto, lá pelas dez da manhã. A visitar, mas com calma e moderação, não vão as hordas de multidão transformá-las numa cópia das Feiras Novas dos tempos modernos. Para conservar Ponte da Barca "sempre formosa e contente", como dizia a música que se ouvia de dez em dez minutos.

terça-feira, agosto 21, 2007

Guevara nas festas da Senhora da Agonia

Na procissão dos mares da Senhora da Agonia, em Viana, mais do que um tipo com a t-shirt de Che Guevara se perfilava em respeito ante a passagem do andor da "festejada", em cima de um barco, com acompanhamento a rigor que tinha de rebocadores a jet-skis. Casos em que o materialismo acaba por ceder à devoção, mesmo que de forma inconsciente.

quarta-feira, agosto 15, 2007

A longa espera da Matriz de Caminha



Bom exemplo do nosso atraso nas obras de restauração do nosso património é o da Matriz de Caminha. O cartaz de licenciamento das obras anuncia um prazo de quatrocentos e vinte dias, os custos totais e os inevitáveis contributos do FEDER. Pois já lá vão mais de 4 anos, e a Matriz sempre sem abrir. Desconfia-se que os orçamentos foram igualmente ultrapassados. Continuam-se a ver andaimes sobre a muralha e tapumes a camuflar as ruínas da casa onde nasceu Sidónio Pais, se bem que com uma interessante biografia e ilustrações como decoração.
Não deixa de ser sintomático tamanho atraso, e muito estranho o facto de uma vila ficar sem a sua igreja principal utilizável durante tanto tempo, para mais Monumento Nacional, dos mais conhecidos da região. Vale o tecido urbano envolvente, as ruelas estreitas e longilíneas, a biblioteca, antiga prisão com condições pavorosas onde os presos estendiam as mãos por entre as grades, pedindo esmolas, agora bem recuperada e apetrechada, os pequenos largos, as capelinhas, a muralha, e a longa rua direita, com os seus numerosos bares, que se estende desde a Alfândega até à quatrocentista torre do Relógio, desaguando depois na bonita e arranjada Praça do Terreiro, ou do Conselheiro Silva Torres, com as suas esplanadas rodeando o chafariz.
Cem anos de Miguel Torga

Cem anos de Torga, comemorados na Segunda. Bem lembrados, excepto pela lamentável ausência de membros do governo nas comemorações oficiais, em Coimbra. Tanta preocupação com o conhecimento tecnológico e científico, com as línguas e a informática, e desdenham assim da efeméride consagrada a um dos maiores prosadores portugueses (mais do que poeta) do último século.

Outro erro grave: no meio do noticiário da RTP, em directo do Douro, com flashes em S. Martinho de Anta e Coimbra, a repórter que tinha por trás de si a curva impressionante do rio que rasga Trás-os-Montes lembra-se desta pérola: "vamos agora a Coimbra, cidade onde nasceu e viveu Miguel Torga..." Nem com um ponto para a ajudar - a outra repórter em S. Martinho - a senhora percebeu que Torga não era natural da Lusa Atenas.

Mas pelo menos a data não ficou esquecida. Nem em Coimbra, ao lado da paragem de romarias que era o antigo consultório do Dr. Adolfo Correia da Rocha, no Largo da Portagem, sob o Governo Civil; nem em S. Martinho, no largo da aldeia, junto ao busto do autor dos Diários, perto da singela casinha com portadas azuis onde ele nasceu; houve mesmo um monólogo do actor José Pinto, cujas semelhanças com o médico são notórias, sobre a paisagem mágica do Douro. Pena que não fosse (pelo menos não me pareceu) no promontório de S. Leonardo de Galafura, que tanto inspirou Torga, o seu amor telúrico pela velha terra transmontana e o seu fascínio pela paisagem duriense, e que ainda exibe os seus versos numa lápide da ermida que ali se encontra.

Conhecendo superficialmente a sua poesia, e daí a preferência pela prosa, tendo visto alguns dos Diários de forma pouco cronológica e metódica, fui tocado quando era pequeno pelos seus Bichos, Contos da Montanha e Rua. A simplicidade da prosa, aliada a velha linguagem, pouco usada mas clara, ligada a situações e personagens bem portuguesas, e particularmente transmontanas despertou-me para mais leituras do autor. Algumas são autênticas lições de vida, com muito de autobiográfico pelo meio. E já que é do seu centenário que tratamos, relembro o comovente conto Natal, dos Novos Contos da Montanha, em que um mendigo, o Garrinchas, se abriga pela gelada e santa noite numa ermida, convidando a estátua da Virgem com o Menino ao colo para o acompanharem na sua parca ceia, à volta da fogueira. Pois essa emida não é outra senão a da Senhora da Azinheira, no alto de um monte desolado, com vegetação rasteira e rochas, uma fabulosa vista sobre a região circundante, até ao douro, e sobranceira a S. Martinho da Anta, a terra do escritor. Mesmo com toda a notoriedade que alcançou, Torga não esqueceu nunca de onde vinha nem quem era.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Schuster e o Princípio de Peter

O Belenenses perdeu com o Real Madrid por 1-0, no torneio Teresa Herrera. Tendo em conta a diferença de meios económicos e humanos entre o clube da Cruz de Cristo e o colosso espanhol - apenas o maior clube do mundo - o resultado parece ser lisonjeiro. Acontece que o golo surgiu no último minuto, por via de um peru monumental do guarda-redes Marco. No resto do jogo, o Belém teve as melhores oportunidades, falhando algumas com uma displicência arrepiante.
Ocorreu-me isto depois de ouvir as palavras de novo treinador madridista, Bernd Schuster: segundo o técnico alemão, o Belenenses limitou-se a defender, a fazer um ou outro contra-ataque, e o Real facilmente poderia ter resolvido o jogo, se tivesse querido.
Compreende-se: Schuster, muito bom jogador nos anos oitenta, tinha, e parece que ainda tem, uma falta de estofo psicológico incrível. Quando o Barcelona, onde jogou, perdeu a final da Taça dos Campeões em Sevilha, em 1986, contra o Steaua de Bucareste, teve um trauma tal que nunca mais jogou da mesma forma. Agora, depois de ter treinado o Getafe, acaba de ser contratado pelo Real para ser técnico principal, em lugar de Fabio Capello, que até se sagrou campeão. Colocar este tipo irritante, que usa desculpas esfarrapadas para justificar os maus resultados da equipa, como treinador do Real Madrid, em substituição de um dos melhores do mundo, para mais campeão, mau grado os seus caprichos e resmungos, é um tiro no pé como raramente se vê. Infelizmente não dou nada pelo Real do próximo ano. Mas pelo menos haverá a suprema possibilidade de se ver o Princípio de Peter magnamente aplicado.

domingo, agosto 05, 2007

Chamem-me inimigo da liberdade

Chamem-me de "inimigo da liberdade" ou qualquer coisa parecida. Mas para mim, aquelas caricaturas obscenas dos Príncipes das Astúrias ultrapassaram um limite para além do suportável. Não sei se a apreensão das publicações terá sido a melhor das ideias, mas uma coisa daquelas não podia ficar impune. Não acho que a liberdade de expressão tenha de ser ilimitada, já que mais nenhuma o é. E por mais figura pública que seja, e possa ser alvo de críticas e de sátiras, os Príncipes representam a Coroa e merecem um mínimo de respeito, coisa que não sucedeu neste episódio. Acresce que se fizessem o mesmo ao editor ou director da tal revista Jueves, alguém se indignaria se pusesse os autores da graça em tribunal?

E para os interessados, também achei ridículas as caricaturas de Maomé naquele jornal dinamarquês. Não as reacções com incitamentos à morte, nem às pilhagens subsequentes; mas os ofendidos podem sempre recorrer aos meios judiciais. Há muito que assim é, mas parece que a admiração vem de agora. Como se a liberdade de expressão não violasse igualmente outros valores tutelados pelo direito; é essa a máxima prova de que não é ilimitada e absoluta.
Aliás, ainda há bem pouco tempo, uma instância judicial condenou o colunista Augusto M. Seabra por ter chamado "energúmeno" a Rui Rio. Não houve qualquer protesto de "limitação de liberdade" nem reacção de indignação a esta sentença, e no entanto, perante os termos em causa, fica-se com a sensação de que esta pecou por excesso.
Claro que não defendo a prisão para os que se divertem a achincalhar os outros na praçapública. simplesmente, se tomarmos a livre expressão como um direito absolutíssimo, as consequências que daí adviriam seriam bem mais gravosas. Não creio mesmo que face a algumas situações concretas, ninguém aprovaria tal coisa.
Outro assunto que passou na comunicação social e atiçou comentários idênticos foi o caso da exoneração da direcora do Museu de Arte antiga. Parece que a senhor deixou trabalho de monta, com resultados visíveis. Não me custa a acreditar, até porque este ano passei por lá mais do que uma vez e gostei do que vi, como aquela exposição de arte medieval polaca. Parece no entanto que a mesma directora veio publicamente discordar das novas leis orgânicas do Governo, queixando-se da falta de autonomia finaceira do Museu e demonstrando as suas discordâncias face às opções governamentais. Tais atitudes valeram-lhe a demissão, o que levou a um abaixo-assinado solidário de várias figuras da vida cultural, e largas colunas de opinião queixando-se que tinha sido despedida por "exprimir apenas uma opinião diversa", da crescente falta de liberdade na Administração pública, no "clima estalinista", Etc. Ora como disse Vasco Pulido Valente num dos seus mais sensatos artigos desde há muito, o que estava em causa não era a liberdade de expressão da directora, mas sim os seus deveres perante a tutela e a obrigação de não desautorizar as hierarquias, como aconteceu quando resolveu ir para os jornais afrontá-las. O seu cargo implicava uma responsabilidade que implicava alguma contenção. Ao discordar do modelo oficial e exigir outro, coisa que não lhe cabia decidir, só se podia optar pela sua saída. Não se lhe impôs que aceitasse ideias diferentes das que tinha, mas uma vez que como directora das Janelas Verdes acatá-las-ia de má vontade, provocando algum mau-estar no seio do Ministério, forçosamente teria de seguir caminhos diferentes. Em qualque empresa aconteceria sempre algo de semlhante (e sim, isto aplica-se aos que acham que o Estado não pode intervir na cultura). É que "liberdade de opinião" não significa anarquia ou desobediência porque sim. Liberdade implica sempre responsabilidade pessoal, por muito que esta máxima esteja velha, gasta, e dê para qualquer ocasião.
Pêsames coincidentes

Por acaso já ocorreu um caso parecido com o dos dois realizadores desaparecidos nos últimos dias. Lembro-me de alguém, em inícios de 2003, desejar que Gregory Peck e Katharine Hepburn continuassem entre nós, para provar que eram realmente imortais. Pois em Junho desse ano morreram os dois, com 15 dias de intervalo. Não é a mesma coisa que acontecer tudo num dia, mas parece demonstrar que há épocas especiais de luto por grupos de personalidades, e raramente por uma só. Uma estranha escolha de épocas a dedo divino, é o que parece ser.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Agosto
Em Agosto, zarpo para o sítio do costume, que de ano a ano, se cobre ainda mais de tédio. não é que tenha grande vontade, mas por agora não vejo muitas mais opções de fuga. Fiquemo-nos para já por aqui, à falta de melhor, entre a nortada e a nebulosidade.
Bergman e Antonioni

Será possível que dois dos maiores realizadores europeus de sempre desapareçam no mesmo dia, com 12 horas de diferença? Ao que parece, sim.
Não sei se existe um dia mundial do cinema, já que há de tudo o resto. Mas se não houver, proponho que a partir de agora seja a 30 de Julho, como justa homenagem a dois homens que desde anteontem se tornaram definitivamente mitos.
PS: apesar de tudo, reconheço que não vi mais do que dois filmes de cada um destes cineastas. Mas que importa isso?

segunda-feira, julho 30, 2007

Diz o roto ao nu



Madeira: PSD critica "linguagem trauliteira" de Santos Silva contra Marques Mendes

De facto, não há mesmo melhor exemplo do que a Madeira para se falar em truculências. Terá Marques Mendes fingido que não esteve no Chão da Lagoa, rodeado por Alberto João Jardim e Jaime Ramos, os trauliteiros-mor da política? Ou será isto o "politicamente verdadeiro" que defendeu aos gritos, tentando em vão entrar no espírito da coisa?
Zahir Shah

Morreu o último Rei do Afeganistão, Mohammed Zahir Shah, aos 92 anos. Conservava apenas o título honorífico de "Pai da Pátria", atribuído por Karzai e pela Loya Jirga. Shah, da etnia pashtun, educado em França e falando persa como língua materna, reinou durante 40 anos no Afeganistão, na altura um país arcaico e pobre, mas bem mais pacífico do que hoje, local exótico por excelência e ponto de passagem para psicadélicos.
Com a sua queda, sobreveio o caos: governos ditatoriais, regimes marxistas, a invasão soviética e a penosa guerra que durou 9 anos, uma república islâmica, os Talibans e o seu "emirado" de trevas, e a invasão das forças internacionais, com o periclitante governo de Cabul. Só aí velho Rei pôde enfim voltar ao seu país, sem que contudo tivesse havido uma solução como no Cambodja.
No Expresso desta semana, José Cutileiro falava no pacífico reinado de Zahir Shah. Não se referiu a contudo um episódio que se passou há uns 15 anos, através do qual ouvi falar pela primeira vez do Rei. No seu exílio em Roma, Shah recebeu um dia a visita de um pretenso jornalista português, que o pretendia entrevistar. No fim da entrevista, apresentou-lhe um punhal, supostamente uma prenda, e tentou matar o ex-soberano. Quase por milagre, a cigarreira que Zahir Shah trazia no bolso interior do casaco aparou o golpe. Os guardas acabaram por acorrer, alertados pelo barulho de luta. O "jornalista" era Paulo José de Almeida Santos, que se convertera ao Islão anos antes, com o nome de Abdullah Yusuf, visitara o Paquistão e Afeganistão e os seus campos de treino e se envolvera com os radicais muçulmanos que formariam mais tarde a Al-Qaeda. O assassinato do Rei era a missão de que estava incumbido por ordem do próprio Osama Bin Laden.
Zahir Shah sobreviveu a essa tentativa de assassinato, a golpes de estado e a alguns acidentes domésticos nos últimos anos, e depois do seu longo exílio acabou os seus dias em Cabul, no palácio presidencial, com as honras do soberano que fora.

quinta-feira, julho 26, 2007

A partida de Simão
À terceira (ou mais) acabou mesmo por ser de vez: Simão Sabrosa sai do Benfica rumo ao estrangeiro. Pena que seja para um Atlético de Madrid mediano e não para um Liverpool ou Valência, que já estiveram no seu caminho. Mas o ex-capitão preferiu vestir-se com o equipamente do colchão, que se há de fazer? Em troca vêm 20 milhões de Euros e dois jogadores, esperando eu que um desses não seja Costinha. Quanto a substitutos, fala-se de Daniel Carvalho e Freddy Adu; daqui a umas horas se saberá. Por mim, e uma vez que sem Sabrosa (e Micolli e Karagounis) ganhar títulos será ainda mais complicado, apostava em Fábio coentrão para o seu lugar; como é um jogador de 20 anos que veio agora do Rio Ave, na melhor das hispóteses só daqui a uns dois anos é que explodirá. Até lá, trabalhe-se e aproveite-se o dinheiro para melhorar as finanças do clube.
Quanto a Simão, não esqueço nestes seis anos, os jogos em que o vi ao vivo , nos quais se conta a sua lesão grave num jogo particular contra a Finlândia, o último derby na velha Luz, os golos com que vencemos o Leixões para a Taça, o penalty decisivo contra o Paris Saint Germain, esta época, e, claro, o jogo em que ganhámos o título no Bessa; e ainda o golo decisivo na final da Taça de 2004, os golos contra Manchester e Liverpool na época passada, as assistâncias, o enrome espírito de sacrifício bem patente na época do título, em que jogou todos os minutos do campeonato, etc. Não esqueço nada disso e a forma como exemplarmente representou o clube duante estes anos. Só lhe posso agradecer, desejar-lhe um grande bem haja e toda a sorte do mundo em Madrid. Ele merece. Os grandes capitães não são facilmente esquecidos no Terceiro Anel.

quarta-feira, julho 25, 2007

Eleições na Turquia
Parece que a enorme vitória de Erdogan nas legislativas turcas espalhou o pânico entre uma data de comentadores da nossa praça - da europeia, pois claro, que isto já não vai só entre os limites do rectângulo. Refiro-me apenas ao que dizem os jornais e os bloggers. Naqueles que o P2 do Público revela diariamente, então, o medo é mais que muito. E os disparates também. Fala-se em "avanço do fundamentalismo islâmico", confronto com os valores "laicos e republicanos da Europa" (até parece), e há mesmo uma sumidade que afirma que a culpa disto é toda da Europa "herdeira do internacionalismo comunista", assim como o problema do Kosovo, "ao contrário dos Estados Unidos" (esses não têm mesmo culpas no Kosovo).
Convinha no entanto recordar que Erdogan é talvez o primeiro-ministro turco mais europeísta das últimas décadas, e que durante o seu consulado foram aprovadas normas bem mais próximas dos valores europeus do que o "laicismo"; a abolição de pena de morte, por exemplo. Não será pior pensar também que o seu Partido do Desenvolvimento e da Justiça é o correspondente aos partidos conservadores/democratas-cristãos europeus. É daqui que vem mal ao mundo? De um primeiro-ministro que deseja ardentemente que o seu país adira à UE? Ou que revele que a sua mulher está proibida de usar o véu em cerimónias oficiais?
Também não será pior recordar que o tal laicismo turco tem a tutela das forças armadas, que ameaçam intervir quando há a mais pequena nuvem de islão no ar. E que é herdeirto do estado autoritário e centralizado fundado por Ataturk, e que de democrático tem muito pouco.
Tenho uma certa admiração pelo "Pai dos Turcos" e pela sua acção modernizadora, e tenho muitas reservas em ver a Turquia na UE. Mas isso não me impede de reconhcer que o movimento de Erdogan é, por ora, muito mais próximo da democracia que os tronitruantes herdeiros do autoritarismo kemalista e seus defensores deste lado do Bósforo, que acham que religião é igual a fanatismo e que os muçulmanos são todos uns potenciais bombistas de adaga em riste. Erdogan está de parabéns: conseguiu vencer de forma esclarecedora e tem mais um mandato para mostar o que vale. Se esticar a corda, as urnas dar-lhe-ão novo destino no próximo acto. Mas não o exército ou ou os praticantes de agit-prop que defendem o laicismo rígido enquanto se agarram à bandeira do Crescente.
Sinais de declínio

Ainda outra coisa relacionada com as eleições da CML (o hiato entre artigos leva-me a estes atrasos) e que demonstra bem o declínio do CDS-PP: já se sabe que de todos os líderes do partido, só restam Portas, Ribeiro e Castro e Adriano Moreira - e estes últimos retirados. Dos candidatos que o CDS já apresentou à Câmara de Lisboa, só já lá está Portas e Telmo (não sei quem candidataram em 1976). Abecassis, à frente da edilidade durante os anos oitenta, já morreu; Pedro Feist e Maria José nogueira Pinto desvincularam-se e até apoiaram outros candidatos; Marcelo Rebelo de Sousa e Ferreira do Amaral, que chefiaram mini-ADs, são do PSD. Por aqui se vê a enorme sangria daquele partido e se percebe o porquê da diminuição da sua base eleitoral, sobretudo a nível local.

sexta-feira, julho 20, 2007

Saramago e o Iberismo
De vez em quando, José Saramago vem com os habituais remoques ao país que o viu nascer e acena com comparações espanholas. Agora diz que Portugal se vai tornar numa província castelhana, mas conservar a mesma língua. Percebe-se. como comunista que é, e pertencendo a um dos mais ortodoxos PCs que há na Terra, Saramago é um internacionalista, como era a URSS que absorvia tudo quanto era Geórgia, Lituânia ou Besarábia, ou então criava satélites de estrela na bandeira. O nacionalismo é brnadido apenas como arma de arremesso contra os inimigos, em casos pontuais. Já a língua interessa conservar-se já que esta, como lembrou Manuel Alegre, é que permitiu que o autor ganhasse o seu Nobel.
Acontece que além de parecer ignorar que já há uma UE que inviabilizaria (ou inutilizaria) a perda da independência, Saramago também acha que as pessoas se esqueceram da História e dos seus exemplos. Ou ele é que não a conhece. Também se nos lembrarmos dos projectos de Olivarez para transformar Portugal numa mera província, gorado pelo 1 de Dezembro, pelo apoio às invasões francesas com o fito de nos deitar a mão, com as derivas iberistas do Sec. XIX, com o projecto de formar uma República Ibérica Soviética (provavelmente o escritor tirou a ideia daqui e quer recuperá-la), ou depois, de alguns meios franquistas, transformando a história para justificar uma Espanha peninsular; recordando tudo isso, veremos como passaríamos rapidamente a uma Galiza do Sul, e não a uma componente da Ibéria. É que um país e uma pátria não se forma por meras razões economicistas ou de circunstância, como parece depreender-se dos pobres argumentos dos iberistas, que acham que só com uma união a Espanha afastaríamos a "vil tristeza", revelando assim a sua própria fraqueza. Aliás, pergunto-me se todos esses defensores da absurda fusão têm ideia do que era Espanha até há vinte anos, se leram as comparações entre os dois países feitas por Hans Christian Anderssen e outros autores, se tomariam parte nos problemas políticos que subsistem desde a Guerra Civil. Se o soubessem aposto que os tais sentimentos iberistas iam às malvas.
Quanto a Saramago, é não ligar. Se o homem quiser mesmo muito, bem pode pedir a nacionalidade espanhola. Mas ele que tenha cuidado, porque independentistas também os há nas Canárias.

segunda-feira, julho 16, 2007

Eleições em Lisboa

Vencedores: Costa, de forma pírrica; Carmona e Roseta, com poucos meios, tiveram quase 30% dos votos. Garcia Pereira, que com 1,6% dos votos ficou bastante À frente dos outros "pequenos", o que demonstra bem o quanto é conhecido.

Perdedores: Negrão e o PSD de Marques Mendes, acima de tudo; Portas e Telmo; Manuel monteiro, uma vez mais votado à indiferença; quase todos os restantes pequenos partidos.

Normais: Sá Fernandes e Rúben de Carvalho.

Conclusões:
- com um lampejo de sol, as pessoas marimbam-se para os votos e a "classe política".

- O PSD perde aquela que tinha sido uma das principais bóias dos últimos anos: a câmara de Lisboa. Menezes & Cª já devem amolar as facas.

- Confirma-se que a estratégia da reconquista do CDS à bruta e o "novo pragmatismo" de Portas não convencem quase ninguém (tal como Telmo). que teria acontecido se Ribeiro e Castro e Nogueira Pinto tivessem ficado?

- Ser "independente" é só por si uma fórmula que atrai votos.

- Usar a artilharia toda e arrebanhar gente de todos os quadrantes para conquistar a CML com menos de 30% dos votos pode ser considerado um objectivo alcançado, mas dá a ideia queos últimos tempos têm desgastado o PS, que terá enormes dificuldades para pôr a câmara em ordem.

- Que maiorias para Lisboa?Por muito que lhes custe, o PS e Carmona estão obrigados a entender-se. Juntos conseguem a maioria absoluta, e Carmona terá aqui a oportunidade de dar uma outra imagem na câmara. Conta igualmente com Pedro Feist (outro ex-candidato do CDS), alguém com experiência e com um mínimo de sentido municipal.

domingo, julho 15, 2007

Lembrando-me outra vez das maravilhas de Portugal

Tendo em conta que Lisboa vem sempre primeiro, e mesmo que pensemos que a Torre de Belém e os Jerónimos já preenchiam a cota de candidatos municipais ao galardão, porque é que
estes não eram igualmente candidatos?

terça-feira, julho 10, 2007

A minha ideia dos candidatos

Não voto em Lisboa. Não dei toda a minha atenção à situação que levou à queda da edilidade da capital e à convocação de eleições antecipadas, nem às confusões para a marcação da data. A escolha dos candidatos pareceu-me mais interessante (sobretudo porque são muitos), e alguns planos também. A campanha tem sido morna, talvez por causa da falta de paciência dos lisboetas para votos.

Quase não vi o debate entre os 12 candidatos, que de resto me pareceu mais justo do que a 7, sem exclusões, por isso deixo aqui a impressão que já tinha de cada um.



António Costa é um candidato forte graças ao seu peso no PS e no Governo, e ao facto de ser conhecido do público. Teve como única experiÊncia autárquica a candidatura (e derrota) à câmara de Loures, em 1993, em que ficou conhecido pela rábula do burro e do Ferrari. Não se lhe conheciam anteriormente ideias para Lisboa, pelo que dá toda a impressão de se estar a fazer ao célebre "lugar-trampolim". até porque dificilmente não ganhará.



Fernando Negrão: uma segunda escolha, talvez chamado pela seriedade e honestidade por que é conhecido, para contrastar com a obscuridade dos negócios dos últimos anos da CML. Revelou total impreparação para a candidatura. Adivinha-se uma derrota pesada, mas "honrada", como em tempos Macário Correia. Daqui a uns anos chamam-no de novo para Setúbal.

Carmona Rodrigues: podia ter feito uma sólida e prestigiada carreira académica, mas meteu-se nisto, e só por birra ou orgulho ferido é que se candidatou. Pelo que vi, caíria nos mesmos erros, mas reúme surpreendente apoio.

Helena Roseta: como Bastonária do Ordem dos Arquitectos e pela sua anterior experiência na câmara de Cascais, é mais uma experiência para testar se o MIRC consegue segurar os votos de Alegre do que uma candidatura com reais possibilidades de ganhar, o que se vê pela campanha algo miserabilista. Interessante de início, sofreu alguma atabalhoação a certa altura, e tem vindo a perder fulgor.

Ruben de Carvalho: o responsável pela Festa do Avante era o candidato esperado. Serve sobretudo para segurar o eleitorado CDU. Campanha discreta, salvo pelos inúmeros carros de som que percorrem Lisboa a toda a hora.


Telmo Correia: uma escolha do aparelho portista, que como se sabe e o próprio Portas, de quem o candidato é um clone apagado. Como tal, não parece ter ideias próprias e as suas propostas são previsíveis e escassas. Tenta segurar um lugar na vereação, mas arrisca-se a não o conseguir, o que revelaria que o regresso à maluca de Portas e a campanha visando o Governo não dão grandes frutos.

José Sá Fernandes: será útil se permanecer como vereador (coisa que não está garantida), mas cai por vezes no populismo. A campanha do "Zé que faz falta" é sinal disso mesmo. Reúne o apoio de alguns ex-PPMs (do autêntico), por causa da questão dos corredores verdes.

Manuel Monteiro: candidatura para mostrar que o PND "está lá", apesar de viver em Matosinhos. A ideia de trazer o bonceo Manuel Bexiga para Lisboa é despropositada. Não será certamente eleito, mas não seria pior se o ouvissem por vezes.

Garcia Pereira: um candidato experiente (deve ser a 298ª candidatura), praticamente a única cara do MRPP. Conhece os problemas, mas apresenta um megalómano plano do "grande porto, grande aeroporto, grande centro turístico". Ainda mais?

José Pinto Coelho: as ideias para a segurança são minimalistas e não são de grande confiança. A ideia da "Lisboa Branca" é perfeitamente disparatada. Desde quando é que, tirando a arquitectura, Lisboa é uma cidade só de gente branca? Quando era Olissipo?

O deputado Quartin Graça, do MPT, tem pouca visibilidade, tal como o seu partido, no qual até já votei. Falta de meios e ideias que se confundem com as de outros candidatos contribuem para isso.

Gonçalo da Câmara Pereira, do neo-PPM: a candidatura patética por excelência, para dar o toque de humor sempre necessário. Um candidato que diz que quer dar um barquinho à vela a cada criança, que governar a CML é como "governar a casa", e que além disso está confiante na sua maioria absoluta não pode ser levado minimamente a sério.

segunda-feira, julho 09, 2007

Começaram as Sanfermines


Monumentos à parte, começou no Sábado a grande festa anual de Pamplona: a de Sanfermin. Um dos meus velhos sonhos de viagem, é exactamente ir às Sanfermines, mirar os temerários que acompanham a corrida dos touros pelas ruas da cidade, entre o redil e a arena, depois das habituais preces no nicho do santo; estar na praça municiapal, no momento da largada do "Chupinazo" que dá início às festividades, entre milhares de "pamploneses e pamplonesas" e de muitos estrangeiros, atraídos a Navarra pela "bíblia" do evento, Fiesta, de Hemingway; e experimentar eu próprio, depois do estudo prudente da coisa, correr à ilharga dos touros, de camisa branca e faixa vermelha à cintura, entre todos os loucos ou destemidos que entre os animais fazem prova da sua bravura num ritual com séculos.

Ou por falta de tempo, ou de companhia, ou provavelmente de instalação (um milhão de visitantes não é fácil), nunca concretizei essa experiência quase única. Este ano a coisa passou de novo ao lado. Mas um destes Julhos hei de lá ir, enquanto puder correr bem e as PETAs e outros "amigos dos animais" não conseguem proibír definitivamente as velhas Sanfermines.
Maravilhas duvidosas

Acompanhei o espectáculo das "Novas Sete Maravilhas do Mundo" e das "7 Maravilhas de Portugal" pela televisão, e não posso deixar de dizer quea coisa correu bastante bem quanto à organização e à festa propriamente dita. Já sobre as escolhas a coisa fia mais fino. No segundo grupo, quem não conhecer Portugal fica com a ideia de que o que interessa visitar a nível monumental está concentrado em apenas dois distritos do centro, com uma ilha identitária mais a Norte. O Castelo de Guimarães percebe-se apenas por motivos simbólicos, até porque se trata sobretudo de uma reconstrução. Entre a Batalha e Alcobaça, preferia que tivesse ganho apenas um, muito embora tenham histórias e estilos arquitectónicos diversos. Óbidos não merece mais do que Marvão ou Monsaraz, e em Belém haver duas escolhas é excessivo. Podiam ter apostado no conjunto manuelino. E assim ficaram de fora as minhas escolhas, que incluíam por motivos pessoais, o Palácio de Mateus e a Igreja de São Francisco.

Já quanto à Maravilhas do Mundo propriamente ditas, não fiquei também muito convencido. O Cristo Redentor? Só se explica mesmo por campanha dos brasileiros, senão bem podiam pôr o Cristo Rei de Almada. Se ainda fosse o Rio de Janeiro por inteiro...

Chichen Itzá também deverá a sua escolha por igual campanha. Vamos crer que é uma homenagem às velhas pirâmides de Gizé. não duvido da monumentalidade de Petra, mas não estava à espera desta. Até se aceita. Assim como a Grande muralha, o Taj Mahal e Machu Picchu (embora a ideia de atraír mais turistas à cidade andina, a ser verdade, seja insensata). O coliseu é o representante da Europa (já repararam que a América do sul tem três?) Os romanos legaram afinal uma "Maravilha do Mundo Moderno" sem provavelmente terem imaginado que mereceria tal galardão.

Fiquei com pena que outros não tivessem sido os contemplados. Em lugar do Redentor, a Estátua da Liberdade (porquê os assobios, Santo Deus?) seria mais apropriada, até porque, altiva e com o facho resplandescente, recorda outra Maravilha da Antiguidade, o Colosso de Rodes. O Potala, em Lhassa, nem sequer entrava como candidato. Mas a minha maior tristeza é que não tenha sido eleito um outro símbolo da antiguidade, marco da civilização ocidental e muito querido cá neste blogue, além de esticamente impressionante, não obstante o passar do tempo e as vilanias de que viu alvo. Isso mesmo: a Acrópole.

Como prémio de consolação, o evento realizou-se num recinto majestoso, que dada a sua monumentalidade e toda a carga gloriosa de que se reveste, poderá ficar a ser considerado, por inerência, como a oitava maravilha.

quarta-feira, julho 04, 2007

Festival

É sempre complicado o dia que se segue a um multi-concerto rock, quando há uma boa surpresa chamada Magic Numbers; um espectáculo morno muito em volta da voz e do carisma do vocalista (Bloc Party); e uma fantástica hora, de festa, de comunhão entre a banda e o público, de riqueza instrumental, com momentos mágicos a meio - Rebellion (Lies), pois claro - dada pelos Arcade Fire. Está colmatada enfim a enorme perda do concerto da banda canadiana em Paredes de Coura. Deste meu meu primeiro SBSR não tenho pois razão de queixa.








(Uma curtíssima visão dos espectáculos, no Estado Civil, e a crónica do dia, na Blitz, com uma visão dos acontecimentos praticamente igual à minha).
Lei do Tabaco

Podem chamar-lhe recuo, lei medrosa, cedência ao lobby das tabaqueiras (como se não houvesse outros em sentido inverso), etc. Mas a lei do tabaco recentemente aprovada na generalidade é muito mais sensata do que se esperava há uns tempos atrás. Segue a vizinha espanhola, e não a rigidez proibicionista dos EUA ou de países do norte da Europa. É um dos tais casos em que de Espanha veio "bom vento" sem precisarmos de ir a correr atrás dos modelos dos "países civilizados".
Que em locais realmente públicos não se possa fumar é um dado aceite por todos, menos por alguns inveterados do tabaco. Tenho algumas dúvidas quanto ao fim dos comboios sem carruagens para fumadores, porque os corredores onde tal é permitido ficam empestados, mas não me parece chocante. Nos aviões a tolerância zero parece-me uma imposição abusiva, até porque deixou de haver a filtragem constante de ar renovado, o que aumentou muito o risco de doenças. Na generalidade dos edifícios administrativos e nas escolas parece-me normal - nas universidades é mais discutível, porque não estamos a falar exactamente de criancinhas em fase de desenvolvimento da vontade - e nos hospitais nem se fala.
A questão dos bares, restaurantes e discotecas era tão simples quanto isto: não são lugares públicos, mas privados. Têm um proprietário que não o Estado, a autarquia ou demais Pessoa Colectiva Pública. Querer obrigá-los a proibir o fumo em sua casa não lembra ao diabo. No máximo, criar regulação sobre arejamento dos estabelecimentos (como acho que é o que se prevê agora). Pior do que isso, a regra da denúncia de quem fuma em tais estabelecimentos parece-me absurda e perigosa. Uma "chibaria", como outro dia ouvi dizer ao dono de um café atrás do balcão.
É afinal a livre escolha de estabelecimentos com ou sem fumo que se a lei consagra. Claro que já surgiu um rol de críticas ao "recuo na luta anti-tabaco": "gente covarde", que "recuou perante as grandes tabaqueiras", "nunca protege os não-fumadores" ( pode-se mesmo fumar em toda a parte), "lá temos de apanhar com o fumo dos outros na cara" ou mesmo que "se vir a alguém a fumar ao meu lado vou-lhe à cara" (palavra de honra que vi isto escrito num fórum qualquer). Provavelmente não se deram conta que não têm de apanhar fumo na cara se forem para um estabelecimento que o proíba (e que isso não é consequência apenas de fumar, mas de fumar sem cuidado). Ou que os estabelecimentos em questão não são de frequência permanente ou contínua. Os bares e as discotecas, sobretudo, são locais de lazer e divertimento, não exactamente espaços para tratar da saúde (excepto talvez para os que querem bater nos fumadores). Aí, a lei mais restritiva não seria somente abusiva, mas patética e paradoxal.
Resta o problema das pessoas que trabalham nesses estabelecimentos. Os seus proprietários devem obviamente pensar no assunto. Mas deve-se igualmente lembrar que muitos desses espaços só estão abertos à noite e durante alguns dias da semana. É um caso a pensar, mas que já não cabe neste post.

domingo, julho 01, 2007

No Martini, no party.

George Clooney está em todas. Depois de Nespresso man, vimo-lo como novo Martini Man (num anúncio que de tão repetido já chateia), trocando uma beldade - Zetta Jones? - e um iate por um caixote de Martinis. Mais dois anúncios com a Martini se preparam, mais animados e mexidos, sendo que um parece ser a continuação do outro. No Martini, no party, é a frase deordem, que promete encafuar-se na memória.

sábado, junho 30, 2007

Tony Blair
Dez anos depois da sua chega ao poder, Tony Blair despediu-se enfim, como já tinha anunciado, deixando o laborioso escocês Gordon Brown no seu lugar. Quem o comparar com o jovem político que, depois da morte repentina de John Smith, acabara a reforma do Labour, cortando com a submissão aos poderosíssimos sindicatos e com a parte nacionalizadora da doutrina do partido, não deixará de notar o contraste flagrante entre a novidade e o desgaste.

Aproveitando alguma da política liberalizadora thatcherista, Blair empenhou-se em novos programas para baixar o desemprego, que tiveram seguidores em toda a Europa, e em investir na educação e em novas reformas sociais, como a criação do salário mínimo. Conseguiu, paulatinamente, obter a paz na Irlanda do Norte, como o comprova o recente governo de união, e estabelecer, pela primeira vez, uma parlamento na Escócia e na Irlanda do Norte. Geriu com mestria o delicado momento da morte da princesa Diana, da qual a família real acabou por sair ilesa. Londres ganhou um autarca próprio e tornou-se a cidade mais cosmopolita da Europa e talvez até do mundo, como pólo de atracção de todos os povos e actividades, misturando a fleuma e formalismo britânicos com um ar cool e multicolor.

A nível externo teve os seus maiores desaires, que lhe custaram a imensa popularidade ostentada no início. A prossecução do ideal de MacMillan, em que a Inglaterra seria a Grécia da nova Roma, os Estados Unidos, apoiando sempre a sua política externa, acabou por arrastar a Velha Albion para o atoleiro tenebroso do Iraque e para o recrudescimento do terrorismo. Blair, o mais europeísta dos governantes britânicos desde Heath, tentou fazer a ponte para uma forte aliança entre as duas margens do Atlântico, primeiro com Clinton, seu parceiro perfeito, depois com W. Bush. Com o primeiro, ainda conseguiu algum apoio no caso do Kosovo. Mas o 11 de Setembro, longe de se tornar uma oportunidade para reforçar o atlantismo, acabou por indirectamente provocar o desastre iraquiano. Não tendo conseguido levar alguma moderação aos aliados americanos, a política externa da Grã-Bretanha ficou refém das consequências, embora a nível da UE tenha conseguido presidir ao início de algumas mudanças estruturais. Desde então, a imagem de Blair não mais se levantou, até à sua saída no dia 27, prevendo-se agora um importante papel como mediador internacional. Apesar de tudo, terá sido um dos grandes líderes europeus dos últimos anos. Impopular agora, mas ainda com um longo caminho pela frente, ver-se-à se a história consagrará com um dos maiores das últimas décadas o homem que pouco depois de entrar em Downing Street, convidou os Oasis, ídolos da época (que como ele sofreram uma queda progressiva) a tomar um copo.

domingo, junho 24, 2007

S. João 2007

Já perdi muitos S. Joões na vida: ou por qualquer razão não estava no Porto, ou tinha sempre exames no dia 25. Era sem dúvida a minha grande trsiteza. A grande festa portuense, a mais popular das comemorações, as boas vindas ao Verão, com manjericos, sardinhas e martelos a ajudar, nunca deixou de ser a minha preferida. Natal e Páscoa são festas de família, não ligo ao Carnaval, e os anos são como calhar. Mas o S. João não, Quando podia festejar era fantástico, e raras eram as vezes em que não voltava já com dia pleno.
Mas este ano, curiosamente, quase não saí. Tenho trabalho na semana que vem, é certo, mas nada que me tirasse a noite de Sábado. Mas o sono acumulado e as escassas combinações que tinha ventilado acabaram por falar mais alto. Limitei-me a dar uma volta a pé pela Avenida, a olhar os balões luminosos confundindo-se com as estrelas, a ver os grupos de foliões a passar, com a música de Abrunhosa na Casa da Música e o arraial do Meridien como músicas de fundo. Ainda entrevi os clarões do fogo de artifício, antes de regressar a casa. E por aí se ficou o S. João 2007.
Recordei a mesma noite, noutros anos: os carroceis do Passeio Alegre, o fogo da ponte e as dezenas de barcos no Douro, os bailaricos populares entre a Ribeira e a Cantareira, com paragens em Miragaia e no Ouro, as praias da Foz ao alvorecer, os arraiais em Nevogilde, no largo Garcia da Orta ou na Praça Afonso V, as festinhas na Foz velha, entre a rua da Cerca e do Alto Vila, o regresso estafad a casa, sempre a pé, já com dia (mas nem sempre com sol, que a orvalhada Às vezes prega partidas), etc. Nunca estive, confesso, na Baixa, nas Fontaninhas ou em S. Lázaro neste noite. Mas ubíquo era Santo antónio. O mais estranho é que este ano estive na festa do originalmente conhecido como Fernando Bulhões, em Lisboa, e provavelmente irei também ao S. Pedro. Única falha dos Santos Populares: o santo baptista e rapioqueiro, o mais querido da minha cidade, do qual até tenho o nome. Num ano em que poderia fazer o pleno, faltam-me elementos de comparação.
O pior é que andando entre Lisboa e Porto, não sei quando voltarei a gozar condignamente o S. João. Espero que o mais breve possível. Voltar Às memórias festivas é viagem que se deve fazer sempre que possível, enquanto os anos e o ânimo o permitir. E, quem sabe, passar nas Fontaínhas e na Batalha sob a protecção da cascata Sanjoanina, entre matrecos e martelinhos.

quinta-feira, junho 21, 2007

O carácter e o chá

Haverá, volto ao princípio, uma imensidão de coisas a dizer. Uma delas, para já, é que se prova, no fim de contas, que Sócrates e a srª drª DREN Margarida Moreira são personagens feitos da mesma massa: gente burra a quem alguém não deu chá em criancinha


Sócrates não me parece propriamente burro, mas em relação ao chá, demonstra-o por vezes com as suas birrinhas despropositadas. Já a directora da DREN é provavelmente um caso patológico, que piora se ligado ao seu currículo: sindicalista radical primeiro (controleira, no fundo), até todo-poderosa entidade administrativa que está ali para velar pelo servilismo e pelos bons costumes administrativos, utilizando todos os meios ao seu alcance para o fazer (inclusive contra os sindicatos).

Além dos processos disciplinares movidos por razões absurdas e mesquinhas, abusando do seu cargo, e das já conhecidas gracinhas para com o autarca de Vieira do Minho, numa recente distribuição de prémios numa escola secundária do Grande Porto, a dita técnica administrativa entreteve-se todo o tempo a comer pastilhas elásticas e a mandar SMSs, demonstrando assim todo o interesse de que a cerimónia se revestia para ela. Coisa pouca, dirão, mas que juntando ás restantes sacanicezinhas diz muito do carácter de quem as faz.