sexta-feira, dezembro 14, 2007

Polémicas Atlânticas e silêncios cúmplices



A polémica que dominou alguma blogoesfera nas últimas semanas parece-me um tufão em alguidar de água turva mas tem que se lhe diga.
O post que desencadeou toda a polémica é discutível, duro e tem o seu quê de brutal. ainda bem: as verdades devem ser ditas, e numa revista como a Atlântico, que pretende ser "politicamente incorrecta" estão claramente no espaço indicado. Mas assim não o entendeu a maioria dos seus elementos.

O assunto que serviu de base à polémica é uma risível causa menor. Tudo começou por causa do artigo de Francisco José Viegas sobre a reacção à campanha do Orgulhohetero, da cerveja Tagus.
Reacção essa absolutamente despropositada e ridícula, com os já célebres Panteras Rosa e o inevitável Bloco de Esquerda como "reaccionários" de serviço, falando de "opressão", "poder homofóbico" ou "extrema-direita. Uma coisa totalmente digna da Contra- Informação.

Como é seu timbra, André Azevedo Alves veio concordar com o posta usando uma linguagem que lhe é costumeira: as "patrulhas ideológicas". Tanto bastou para a explosão de Tiago Mendes no texto já conhecido.

Concordando com a crítica aos excessos da trupe rosa, não posso todavia deixar de reconhecer que Tiago Mendes estava carregado de razão em boa parte da posta. Quando diz Alguém que se assume como “ultra-conservador, neo-liberal de extrema-direita” (não me apetece procurar links), que vive obcecado com o patrulhamento do que ele apelida de extrema-esquerda, está coberto de razão. Poucas vezes encontrei na blogoesfera alguém tão intolerante como AAA, e que não hesita em defender avidamente Pinochets, Senadores McCarthys ou Pat Robertsons contra o " politicamente correcto da extrema esquerda", ou o que ele acha que pertence a esse grupo, como o New York Times, ou em invocar constantemente essa taliban evangélica que é Ann Coulter.
Outra parte na mouche é esta: dão-se alvíssaras a quem encontrar, naquilo que o André Azevedo Alves escreve há anos sobre o que quer que tenha uma dimensão social e humana, uma molécula que seja de amor, de compreensão ou de compaixão de inspiração cristã. Também já me tinha apercebido que sentimentos cristãos só mesmo o da Doutrina e um pouco de Fé. Caridade, Esperança, Alegria, onde estão elas?
Quanto à parte da excelsa educação do AAA, que ao que parece não é timbre do TM, ficam aqui uns bons exemplos dela. Não faltando os ditos "patrulhamentos ideológicos", claro.

O que mais me admirou foi a reacção dos Atlânticos, ou da sua maioria. Tudo a cair em cima de Tiago Mendes e a deixar incólume a pobre vítima dos "patrulhamentos ideológicos". Num silêncio cúmplice, parece haver muita simpatia pelas ideias Insurgentes, como silêncio tem sido o que impera sempre que se elogiam McCarthys e Ann Coulters. Quando Tiago Mendes denuncia estas ideias, Aqui Del-Rei que ele está feito com o Daniel Oliveira, a Fernanda Câncio e o Demo! Afinal, onde está a suposta direita liberal, o corte com a herança Salazarista do respeitinho, a defesa da liberdade de expressão? E que ideia é essa de ficarem todos tão chocados com a "falta de educação" (que nem é assim tanto, não o mandou a nenhuma parte menos condigna, nem insultou a sua mãe) do TM? Onde ficou guardado o "politicamente correcto", afinal? Ou uma qualquer defesa da classe impera?

Não me alongo mais. Apenas queria escrever mesmo sobre as atoardas impunes do AAA e o facto de finalmente alguém lhe esfregar aquilo no ecrã. E estou farto de fazer links. além do mais, é Sexta. Para uma muito melhor síntese do que aconteceu, fiquem com este último.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Dois continentes


Sobre a cimeira Europa África, já tudo se disse sobre os ditadores e cleptómanos que arribaram a Lisboa. (80 quartos só para a delegação angolana no RITZ!). Também já muitos tarearam no facto dessa gente ter cá vindo. Mas eu alinho pela outra bancada. É mau que semelhante gente pise solo português? Desconfortável é, com certeza. Mas preferiam que a cimeira não se tivesse realizado, que os africanos não tivessem cá vindo, que nada se discutisse? Era a atitude mais fácil, é certo. Mas deixá-los a "tratar da vida" nos seus países era também mais imoral. Antes conseguir olhar-lhes olhos nos olhos e fazer-lhes compreender o que está errado. Os efeitos são escassos? Ignorá-los e vituperá-los de longe, sem sequer discutir com eles, é que não traria com certeza nada de bom para os africanos.



Sobre as palermices de Kadhafi, só se pode dizer que foram as mesmas de sempre: os europeus devem indemnizar os africanos, que foram explorados barbaramente, etc, etc. Pena que ninguém lhe tenha perguntado nada sobre as infra-estruturas que esses mesmos "colonos2 aí deixaram e que foram inutilizadas pelos africanos. e Cabora Bassa bem cara nos ficou. Mas também há que dar o devido desconto: com aquele aspecto, de pijama e barba por fazer, o líder líbio tinha certamente acordado minutos antes, sem um duche ou um café para ajudar, e não dizia coisa com coisa.





Quanto a Mugabe, as últimas semanas nem lhe têm corrido mal: além de pisar os pés na Europa, e de se ter furtado a uma qualquer reprimenda mais feroz de Gordon Brown, que perdeu essa brilhante oportunidade, resistiu em vida ao seu antigo arqui-inimigo Ian Smith, pai da independência da antiga Rodésia, que apoiado por Salazar e por poucos mais, manteve até 1979 um estado dominado por brancos (embora diferente do apartheid) no que é hoje actual Zimbabwe.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Manoel de Oliveira
Quando assisti na Casa das Artes (e para quando a reabertura?) à cerimónia dos 50 anos de Aniki Bobó, onde também se exibiu Douro, Faina Fluvial, e que coincidiu com os 84 do veteraníssimo realizador, gabava-se a vitalidade e a capacidade de produzir um filme anualmente com aquela idade. Pois falta um ano para se tornar centenário. Entretanto, ainda nos vai chegar a sua ideia das origens de Colombo. E muitos mais trabalhos, espera-se

sábado, dezembro 08, 2007

Esperança, desilusão e recuperação
O jogo com o Milan, a meio da semana, era apelativo, tanto pelo nome do adversário, campeão europeu em título e recordação negra para o Benfica, como pela necessidade de pontuar e fazer boa exibição. O estádio não encheu coisa que muito me espantou; afinal, nem com a oportunidade de ver alguns dos melhores jogadores do mundo se vai À bola? Só se fosse pela dia em questão.
Vinte minutos de tremideira e golo do adversário, pelo superlativo Pirlo. Que soou como um despertador, porque a partir daí o Benfica encheu-se de ganas, tão ao gosto de Camacho, e veio para a frente, até à obra de Maxi Pereira, deixando Dida boquiaberto. Como os milaneses raramente sofrem golos, conseguiram aguentar a igualdade até ao fim, apesar das boas oportunidades que o Benfica teve para o ganhar. Claro que o neo-Melhor Jogador do Mundo, Káká, também teve a sua oportunidade no final, mas atirou ao lado. O empate dava ânimo aos jogadores, apesar da saída da Liga e da obrigatoriedade de ganhar em Donetsk. Pena por não termos ganho também porque tal vitória seria inédita, precisamos mais dos Euros em disputa do que eles, e não gosto do Milan.
Só que a confiança ruiu no Sábado seguinte, num jogo importantíssimo para o título: uma péssima exibição, com falta de garra e de ligação entre sectores, permitiu que o Porto, sem uma exibição fulgurante, aproveitasse da melhor forma os erros e levasse os três pontos. Desastroso resultado: sete pontos de atraso, derrota em casa, desvantagem no confronto directo. Por culpa própria. Nem a desculpa de ser um "dia mau" pode justificar a pior exibição da época. E logo frente a uma invasão bárbara, daquelas que têm de ser vencidas para salvar a civilização: além dos hunos que a grande velocidade cavalgaram para o golo, havia o apoio de árabes, como Sektioui, ainda que desistentes a meio, e como se não bastasse, uma horda viking, da bandeiras azuis desfraldadas e comandadas pelo inevitável Macaco, dava apoio à rectaguarda. O que vale é que os bárbaros acabam sempre por ceder face à civilização e à Luz.
Mas o estado de ânimo era lastimável. O meu, pelo menos, era. Já imaginava uma derrota pesada no pesado campo dps mineiros russófonos que investiram 60 milhões de Euros em reforços. Mas o Benfica não deixou de ser Benfica, nem os seus jogadores se ficaram: com temperaturas gélidas, um público adverso, e um bom adversário a precisar de ganhar, com duas estocadas de Cardozo, de pé esquerdo e nas alturas, conseguiram a vitória e a compesnação possível: ficar na UEFA. Com um pouco de sofrimento pelo meio, claro, que os triunfos fazem-se com suor. Houvesse mais este espírito e esta entrega e sofreríamos menos. Porque é que os jogadores não meditam sobre isso? Ou nós, já que eles são pagos é para jogar, e não para "parar para pensar", que é o que têm feito em demasia na última década.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Duzentos anos de travessia transatlântica

Duzentos anos (e uma semana) da partida da Família Real para o Brasil. Um acontecimento não comemorado mas relembrado vezes suficientes para não passar despercebido. A discussão sobre se terá sido uma jogada inteligente ou covarde - em parte lançada pelo interessante Império à Deriva - continua, mas as opiniões inclinam-se para a segunda. Também me parece que a opção embarque para os trópicos era a mais acertada. Por muito humilhante e desconfortável que fosse, por muito que parecesse submissão aos ingleses (que disso se aproveitaram vilmente), ficarem teria sido imensamente pior. A reclusão em Queluz ou Mafra, com perda de posses e direitos, o ataque às nossas colónias por parte dos ingleses, talvez até o exílio para França, ou coisa pior

Em contrapartida, a fuga da Família Real permitiu mais tarde que o Brasil declarasse a independência. Claro que isso não seria previsível de imediato, apesar de algumas revoltas esporádicas, mas o progresso que a colónia recebeu com a injecção de personalidades e importância e a libertação do seu comércio (e das suas forças), aliados à "promoção" à categoria de Reino, juntamente com a metrópole, conduziu inevitavelmente à separação quando D. João VI regressou à Europa. Uma separação bem menos dolorosa do que a que ocorreu no Séc. XX das colónias africanas ou asiáticas, e que permitiu ao Brasil tornar-se numa potência regional sem secessões nem demasiada instabilidade política, como os seus vizinhos. Uma certa ideia de ligação permaneceu sempre no imaginário, sobretudo dos portugueses; já nos anos sessenta do Séc. XX houve quem advogasse o fim das alianças com a Inglaterra e EUA e formasse a "aliança lusíada". Resta saber se as antigas terras de Vera Cruz estariam muito interessadas.


De qualquer dos modos, parece-me que D. João VI, apesar de todos os aspectos negativos que lhe apontam (indecisão, cobardia, fraca inteligência, etc), cumpriu o seu papel de forma competente, envolvido que estava no turbilhão revolucionário da altura e numa família pouco carinhosa. Merece o respeito dos portugueses e a admiração dos brasileiros. E a estátua que lhe fizeram no Porto, no Castelo do Queijo. Pena é que a tenham virado para oeste, e não para sudoeste, onde estava antes, e colocado uma espécie de paragem de autocarro como pedestal.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Esperemos que ele se engane
Continuando o último post, a crítica de António Barreto à ASAE e as suas previsões são alarmantes. Alarmado fiquei eu depois de ler aquilo, até me lembrar que o sociólogo é por norma um pessimista (mas menos niilista que Pulido Valente, em todo o caso). Daí achar que nem todas as suas previsões se vão concretizar.
Mas fica a chamada de atenção, que é sempre útil. A ASAE é uma entidade útil que tem tido uma eficácia notável, mas temo que pelo caminho das novas legislações tão lestas a proteger a saúde do cidadão, se torne uma proto-polícia de costumes menos bruta. Reduzir tudo a assépticos estabelecimentos em que só se pode escolher meia dúzia de pratos ou bebidas conforme a regra, sem gosto nem gordura, com proibição total de fumo, com escassas esplanadas onde só se pode beber em recipientes de plático é um nada admirável mundo novo que põe as pessoas em último lugar, ao contrário do que se propõe. Não, não é apenas para defender o "direito de propriedade" e o "tradicionalismo": é acima de tudo para defender a vida de todos os dias, improvisada, rotineira, com pequenos prazers e pequenas chatices, a vida comum mas livre, em suma. Se Barreto tiver razão, estas regras negarão o sentido dessa vida, pondo em lugar dela regras de conduta e consumo sem ligação à realidade e ao bom senso.
Por falta de tempo, numas ocasiões, ou de net, noutras, o blogue tem andado demasiado desactualizado. Vamos lá a ver se corrigimos isso com tempo.
O motivo de discussão maior foram a recensão de Vasco Pulido Valente a Rio das Flores e o artigo de António Barreto no dia seguinte, ambos no Público.
Apenas folheei o livro de MST, e detectei logo alguns erros a que aludi há uns dias. VPV andou à cata, alguns apanhou-os bem, outro não passam de interpretações próprias. Aquela dos "Condes e Marqueses" era claramente uma figura de estilo, mas o historiador achou por bem embirrar com picuinhices. Acabou por apanhar bem a maioria dos erros relativos à Monarquia/República, área onde está bem mais à vontade. O que tenta emendar sobre a Guerra Civil de Espanha parece-me mais discutível.
Pelo que me dizem e vislumbrei, a obra é vulgar, falta-lhe ritmo e vida e é mesmo inferior. literáriamente, a Equador. Para quem tinha muitas expectativas, como eu, pela época em que se insere e pelas curiosidades que revela (Zepellins, por exemplo), deverá ser uma desilusão. Ainda assim, pretendo ler o livro, quando acabar a lista dos que tenho pela frente.
O que me parece é que Sousa Tavares não acertou no alvo, quando pretendia superar o seu anterior romance; mas Pulido Valente escreveu o que escreveu por pura revanche, chamando claramente "ignorante" a MST. Ora o livro, se não é uma obra prima, longe disso, à parte um ou outro erro histórico já referido, não pretende ser um manual cristalinamente correcto de factos passados, mas sim contar uma história num contexto definido. E isso o nostálgico de Oxford não teve em conta, e a sua tremenda crítica fica em parte inutilizada.
Um e outro falham, para mal dos seus egos. O que me dá esperança de um dia escrever um muito melhor romance com Zepellins e a Guerra Civil de Espanha em fundo. Fica aqui o aviso: depois não me acusem de plágio.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Missão cumprida, Croácia

Não me vou pronunciar sobre a nossa passagem a uma fase final de um campeonato europeu pela 4ª vez consecutiva (o que é um feito, certamente). Um jogo decisivo que acaba a zero, toda a equipa a defender e com alguns nervos não merece muitas linhas. E sobretudo porque quase não vi o desafio, antes ouvi na rádio a 1ª parte, e depois, estando num jantar para o qual tinha sido convidado, apenas pedia para ver o resultado fina. Ao ver os jogadores abraçados com visível alívio percebi que a missão, pior ou melhor, tinha sido cumprida. Mas deu saudades daqueles jogos como o 3-0 sobre a Irlanda, e consequente satisfação e festejos nas ruas.
Mas pior, muito pior, estão os ingleses. Com o pássaro na mão, foram batidos em casa pela Croácia e não vão ao Europeu da Áustria-Suíça. Tanto melhor. Não teremos de aturar (tantos) hooligans, a sua ridícula mania de que são melhores, as suas tristes figuras e mais desempates por grande penalidade. E para mais devem estar arrependidíssimos de substituído Sven Goran Eriksson, o melhor técnico que tiveram na(s) última(s) década(s) e que tanto se esforçaram para mandar embora, com as suas críticas e insultos. E assim o correcto sueco viu, sem fazer por isso, uma qualquer mão invisível e justiceira aplicar uma bofetada de luva branca àqueles que se reclamam serem gentlemen e que tanto gostam de dar azo a uma pretensa superioridade civilizacional que só o Prof. Espada e quejandos conseguem divisar.
A resposta

Boa resposta a um artigo do Blasfémias, do inevitável Carlos Abreu Amorim, pondo os pontos nos "is". De reter também alguns factos e curiosidades relatados na caixa de comentários desse mesmo artigo do Blasfémias.
O que não se percebe é como é que alguém como Miguel Sousa Tavares comete um erro de palmatória como essa de escrever que os morgadios só tinham acabado com o 5 de Outubro! Quem faz tantas pesquisas históricas para evitar o tipo de críticas que caíram sobre Equador não pode cometer falhas dessas. Eu, que só folhei distraidamente Rio das Flores, dei logo pelo disparate. E contudo o jornalista nem mostra sentimentos contra a monarquia quando fala do assunto. Vá-se lá entender.
Projectos ferroviários portugueses esquecidos


Cortesia do Blog da Rua Nove

Este mapa das comunicações portuguesa, dos livros da 4ª classe dos anos 50 que descobri aqui, tem algumas particularidades curiosas, como alguns projectos de vias férreas nunca concretizados.
Vale a pena imaginar essa hipotética realidade ferroviária. E olhando atentamente, descobrimos uma linha do Lima, que iria até Ponte da Barca e inflectiria para Braga e Guimarães, assim como uma espécie de circular ferroviária do Minho. Dessa linha sairia outra até ao terminal da do Tâmega, Arco da Baúlhe, e daí ligaria à do Corgo, nas Pedras Salgadas.
Mais abaixo vê-se o traçado da linha do Varosa, que partia da Régua e atravessava o douro. Embora nunca tenho tido funcionamento, ainda se construíram algumas estruturas destinadas a suportá-la, como a grande e inútil ponte de ferro na Régua e alguns viadutos no caminho para Lamego. Mas a coisa nunca se chegou a fazer. É pena, porque dessa cidade ainda iria para sudeste e perto de Trancoso encontrar-se-ia com outra linha fictícia, que partiria de Viseu até ao Pocinho, fazendo a ligação com a linha do Tua, provavelmente para transportar os minérios de ferro explorados na serra de Reboredo, em Moncorvo. E já que estamos nessa zona, refira-se que também havia planos para se prolongar essa linha até Vimioso.
Mais para o centro observamos que se pretendia igualmente ligar o ramal da Lousã à já desaparecida linha do Dão, fazendo a ligação Serpins-Santa Comba. Outra circular fechada, desta vez no coração da Beira.
De Leiria também se queria fazer uma linha que passasse pela Batalha até à Nazaré. Estranho que não abrangesse Alcobaça, segundo parece, mas pela imagem não se percebe completamente.
Outra ideia nunca concretizada era ligar Peniche ao Cartaxo e, com mais envergadura, Alcochete a Ponte de Sôr, numa travessia por uma zona quase deserta e pelo norte do Alentejo. E ao que julgo, também nunca se chegou a ligar Portalegre a Sousel e Alcácer do Sal a Évora, e muito menos Lagos a Aljezur.
Já sobre os campos de aviação não me pronuncio, porque francamente as cores que os distinguem não ajudam.
No caso dos comboios, tenho bastante pena que não se tenham levado avante estes projectos. Mas será bom lembrar que caso tivessem sido construídas, estas linhas provavelmente já não existiriam, com a total falta de visão e de capacidade de defesa do património das empresas ferroviárias e do Estado, da concorrência das estradas e do sector rodoviário, que liquidaram tantos trajectos únicos e se propõem a acabar com mais um, insubstituível: a linha do Tua.

domingo, novembro 18, 2007

A árvore de Natal

Depois da exposição no Terreiro do Paço, a Árvore de Natal de 76 metros patrocinada pelo Millenium/BCP aterrou nos Aliados. Parece que houve alguma euforia pelo feito, mas desconfio que com o passar do tempo ela vai esmorecer e transformar-se em resmungo. Já vi o enorme enfeite natalício em Lisboa, no ano passado. De noite, e à primeira vista, aquilo tem o seu encanto, principalmente a meia distância, quando aparece sem se anunciar.Mas depois de uma ou outra olhadela, aquilo já cansa. De dia, então, fica lá um trambolho inútil e esmagador, que tapa o tímido sol de inverno.
E depois, no Terreiro do Paço sempre estava mais à larga, podia estender à sua vontade os ramos de metal. Nos Aliados, mais comprida, com edifícios mais altos, aquilo tem um não-sei-quê de desproporcionado, esconde a Câmara para quem está lá em baixo e as Cardosas (mais o que está atrás) a quem está no alto da avenida. Não, esteticamente só mesmo à noite. E o preço a pagar por estar ali de dia é demasiado. Já que a coisa é do BCP, podiam tê-la deixado na vizinha D. João I, onde fica a sede social do banco, no Palácio Atlântico. Aí ainda ficava mais apertada, mas o que se perdia era propriedade do patrocinador. Mas parece que as empresas já não correm riscos como antigamente.
Pequena sugestão: a árvore fica este ano pelo Porto, e para o ano, evitando-se o efeito mais do mesmo, transmuta-se para outra cidade; todos os anos uma diferente localidade podia dar guarida ao monte de ferro com luzes - em 20012 pode ser Guimarães, como mais uma atracção da futura Capital Europeia da Cultura - até aquilo enferrujar; se o metal resistir à passagem do tempo, repetem-se alguns lugares, e lá para 2124 teremos a nossa árvore de novo. Resta saber quem é que nessa altura a vai patrocinar.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Ainda Arroja

Ainda sobre Pedro Arroja e as suas disserações sobre "os judeus": é curiosíssimo como alguém que tece apreciações tão críticas sobre os projectos colectivistas , considerando-os mesmo a sua "bête noire", tenha ideias tão colectivistas sobre um povo e uma cultura. Terá Arroja desistido do seu ideal individualista? Ou o seu pensamento, como muitos adivinham, de tão singular e "politicamente correcto" que é, se tornou num paradoxo sem saída?
Contrastes sazonais

O tempo está a mudar. Não, não é o aquecimento global. Está mesmo a mudar para o que seria normal nesta época: temperastura máxima abaixo dos vinte graus e acima dos doze. Até agora tínhamos tido um Verão prolongado, desforra talvez de um Estio fraco e fresquinho. As coisas compõem-se, enfim.
Talvez no litoral se pense isso, porque no interior a coisa já tinha baixado para níveis que exigem aquecedor ligado. Assim, na semana passada, entre a Linha do Estoril e Trás-os-Montes, tive oportunidade de:
- gozar uma hora e tal de praia na zona da Parede e dar uns mergulhos no mar, como se estivesse em pleno Agosto, e ir jogar numas máquinas do Casino Estoril quase porta com porta com Almodôvar e o novo Festival de Cinema
- apanhar umas temperaturas pouco acima dos zero graus no fim de semana, tendo com pena minha, e por causa de descombinações à última da hora, perdido uma festa com castanhas e vinho em S. Martinho de Anta, ao ar livre, à noite (imagina-se a frialdade); salvou-se a serão de leitura frente à lareira.

Como se pode ver, o Verão prolongado era só para alguns; se se percorresse algumas centenas de quilómetros, dava para juntar duas ou três estações e fazer um fim de semana diversificado, com uma panóplia de actividades e alguma imaginação, coisa que não está disponível todos os anos.
Esperemos agora pelo tempo frio e seco e uns meses de seca. O fantasma de 2005 aí está.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Golos e contas saldadas

Grande fim de semana no campeonato. E de ajustes de contas. O Benfica deu 6-1 ao desamparado Boavista, e ainda falhou um penalti por Bergessio. Rui costa, Nuno Gomes e os sul-americanos foram inexcedíveis. Ricardo silva também, mas a competir com o Bynia do jogo contra o Celtic.
O Sporting de Braga também saldou contas com o de Lisboa. No ano passado perderam por 3-0 em Alvalade, com dois autogolos incríveis e outro mal assinalado. Agora responderam na mesma moeda, e bem.
O Porto, confiante na sua superioridade, descansou à sombra da Reboleira com dois golos marcados, quando o seu sector recuado resolveu mostrar-se, e em dois enormes disparates deixou-se empatar. Sim, o Estrela não conseguiu empatar, o Porto é que conseguiu não ganhar.
Venham mais jornadas assim que o público agradece.
Da superioridade das monarquias constitucionais sobre as repúblicas das bananas travestidas de democracias

Juan Carlos I, Rei de Espanha, mandou calar o patético e cada vez mais ditatorial Hugo Chavez. Zapatero replicava de forma elegante e pausada ao venezuelano que chamou "fascista" a Aznar. O Rei, de súbito, disse o que milhões de venezuelanos silenciados certamente gostariam de dizer ao primário que se diz seu presidente. E o que a maioria dos outros participantes na cimeira pensavam mas não podiam dizer.

Claro que em tempos dos Habsburgos e dos anteriores Bourbons um mestiço que tentasse falar de frente contra o Rei não teria um final feliz. Felizmente que hoje isso já não acontece. E que ainda há alguém com autoridade suficiente para mandar calar as azémolas, mesmo quando elas são especialmente bravas.
Mais um georgiano queimado

Incrível como na Geórgia a história recente se repete de tempos a tempos, sempre nos mesmos moldes. Vejamos: em 1991 elegeu-se Zviad Gamsakhurdia, um dissidente e oposicionista dos soviéticos, para a chefia de estado; seria mais tarde morto, em Dezembro de 93, alegadamente por uma milícia inimiga, mas a sua morte ainda envolve grande mistério.
Depois veio o antigo MNE soviético, Eduard Shevardnadze, através de um golpe de estado primeiro, e mais tarde por eleições. Tornou-se um aliado dos EUA na região e uma pedra no sapato da Rússia, sobretudo por causa da questão tchetchena (e da Abcásia e Ossétia do Sul) .Em 2003, com enormes manifestações dos seus opositores, que clamavam contra fraudes eleitorais e a corrupção do regime, resignou ao cargo de presidente. As eleições que se seguiram foram ganhas por Mikhail Saakashvili, um advogado com estudos feitos nos Estados Unidos e ideias liberais e pró-NATO.
Agora, Saakashvili enfrenta a oposição nas ruas e acusações de prisões políticas e silenciamento de orgãos de comunicação social. Para as enfrentar, declarou o estado de emergência e antecipou as eleições presidenciais, mas prevê-se que não permaneça muito mais tempo na chefia de estado.
Como se verifica, todos os candidatos são populares e pró-ocidente (pouco apreciados pelos russos), mas criam descontentamento geral poucos anos volvidos são depostos por movimentos populares.
Os mais cínicos dirão que há o dedo russo por trás de todas essas mudanças subjectivas. É possível. Talvez se um candidato vencedor se afirmar pró-Rússia, o que é improvável desde Estaline, tenha mais sucesso. Mas tendo em conta o passado do poderoso vizinho no estado caucasiano, tenho as minhas dúvidas.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Parece que finalmente o pensamento lunático de Pedro Arroja está a ser tratado pela maioria da blogoesfera como merece. Já não era sem tempo. Mas olhem que estavam avisados. Tivessem dado ouvidos antes e não havia estes pequenos aborrecimentos
A luta dos "anti-fascistas"
Sobre a petição da URAF conta o museu Salazar, só tenho uma coisa a dizer: faça-se o Museu. Garanto que os militantes do PC... membros da resistência não terão de resistir muito mais contra o fascismo (que como se sabe, é o regime que vigora em Portugal) do que o fazem agora.
De qualquer forma, se uma data de beirões afectos a Salazar fizesse uma excursão ao Barreiro para protestar contra a Avenida das Nacionalizações, surgiria no local alguma "União dos Resistentes Anti-comunistas"? Ou havia mas é cenas de pancada entre os locais e os "invasores" de ocasião?

sábado, novembro 03, 2007

A rasquice das jotas, aqui e além fronteiras
Em Espanha, a jota socialista local lançou este "belíssimo" vídeo para publicitar a "educação cívica". Num concurso, uma jovem doutrinalmente competente e com a lição bem estudada, responde com acerto a todas as perguntas da "disciplina". O seu opositor, um imberbe do PP, apatetado e falsamente pretensioso, erra cada uma das questões que incidem no politicamente correcto reduzido ao seu mais restrito lugar-comum. A educação cívica, para estes jotinhas, consiste no ensino das suas ideias fracturantes e pós-modernas, e pelo caminho humilham os seus adversários, encarados como uns betinhos lorpas e fora do ar do tempo.
(Agradecimentos à Rititi)

Por cá, os homólogos da JS parecem apostar na mesma agenda "fracturante". Mas a palma da hipocrisia cabe à JSD: aqueles cartazes colados em Lisboa, do "Zé-que-faz-falta-calado", mostram até que ponto aquela organização não tem, desde há muito, a menor ideia válida nem o menor pudor. Depois de anos a governar a capital de forma desastrosa, com uma profunda cratera orçamental e negócios obscuros em número indeterminado com construtoras civis e concessionárias de parques de estacionamento, resolvem fingir que nada se passou e mal Sá Fernandes se torna vereador do urbanismo da CML no executivo de António Costa,vá de acusá-lo de silêncios convenientes supostamente para silenciar outras vilanias. Nem o o homem teve tempo de mostrar o que vale e já o acusam de conivências e hipocrisias. Olha quem! Dificilmente se encontrará contra-publicidade mais repuganante na política portuguesa, onde aliás abundam. Se pensarmos na infame campanha que puseram em campo em 2005, confirmamos que o grupo oficial de jotinhas laranjas candidatos a futuras benesses não aprendeu absolutamente nada. O só aumenta as dúvidas do que vale o actual PSD.

sexta-feira, novembro 02, 2007

É assustador verificar como o estilo Santana Lopes faz escola e encontra tantos seguidores, mesmo entre altas personalidades mundiais.
A Haia
No nosso mundo, e em particular na Europa, poucas são as cidades referidas pelo artigo definidos. Entre nós, Além do Porto, existe o Marco, a Guarda, algumas cidades na Margem Sul do Tejo, e pouco mais. De tal forma que na estrenja normalmente ouvimos falar na cidade de Oporto.
Depois há casos como o Rio de Janeiro, o Cairo, as Cidades de tal, e outras tantas, mas a regra é usar-se o artigo indefinido. No continente europeu é raríssimo subverter-se a regra.
Talvez por isso se ouça falar de Haia e não na Haia. A sede de governo, da real morada holandesa (mas não capital, que essa ainda é Amsterdão), de um conjunto de tribunais internacionais e de inúmeras convenções costuma aparecer sem o artigo precedente que a define. Bem sei que as grafias modernas tendem a alterar algumas designações, mas não estou a ver agora aparecer a "cidade de (O)Porto". Por isso, e em atenção à importância institucional da cidade holandesa, era bom que se tomasse mais cuidado com a língua portuguesa e se escrevesse e dissesse sempre A Haia. Parece-me que não custa assim tanto.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Aí vêm os turcos
Curioso como a Turquia volta a entrar unilateralmente no Iraque, contra o parecer dos seus parceiros da NATO. Volta não é aliás o verbo correcto, mais parecendo um movimento inverso ao que sucedeu na Grande Guerra, quando foram expulsos daquele território pelos ingleses e as forças leais a T.E. Lawrence. Noventa anos depois, os descendentes do Império Otomano voltam com o crescente para impor a sua ordem sobre os rebeldes curdos, em território estrangeiro. Ironia da história, eterno retorno, ou vontade da Turquia se afirmar no plano geo-estratégico?

segunda-feira, outubro 22, 2007

Tratado consumado?
Depois de ver o ar aliviado de Sócrates e Barroso a anunciar a chegada a um acordo para o Tratado de Lisboa, a futura assinatura do mesmo prevista para Dezembro, nos Jerónimos, e as evasivas do PM quanto à remota possibilidade de consulta (um "depois logo se vê" suspeito), sabendo-se já que isso só ocorrerá na Irlanda, fico a pensar se as coisas correrão mesmo tão bem como o pintam. Até Dezembro muito pode ainda acontecer. Convém não esquecer que por esses dias tomar-se-à uma resolução quanto ao Kosovo, ou então haverá uma declaração de independência que será desastrosa para os Balcãs e para a presidência portuguesa. E Mário Soares, repetirá as suas palavras - a saber,"Um dia ainda se hão de arrepender" - quando Governo e oposição puseram de parte um referendo para aprovar o Tratado de Maastricht? Ou esqueceu-se já? É que tal lembrança, para mais vinda de quem vem, seria muito oportuna.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Paulo Autran 1922-2007


Paulo Autran morreu na semana passada. Só o soube, com surpresa, dias depois. Fico com a consolação de o ter encontrado uma vez e trocado algumas palavras, depois de uma actuação no Rivoli, para ver o grandioso actor brasileiro que tinha como referência Lawrence Olivier, interpretou quase todos os clássicos dos palcos e que antes de ser actor teve uma curta e aborrecida carreira como advogado. E que atravessou o nosso país de lés e lés, várias vezes.

Ficam então duas cenas memoráveis da telenovela A Guerra dos Sexos, um género que ele pouco apreciava mas que o tornou tão conhecido deste lado do Atlântico.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Vozes que não chegam aos céus

A trupe dos ateus dedicou posts e posts ao 13 de Outubro em Fátima, com calorosas referências ao "estado totalitário do Vaticano", ao "inquisidor Ratzinger", à "farsa com 90 anos" e aos "tolos" que se deixam levar pelo "obscurantismo". Naturalíssimo: afinal, quando as comemorações do dia que prometia "acabar com os católicos em quatro gerações" são assistidas por meia dúzia de gatos pingados e as de Fátima atraem cada vez mais gente, na ordem das centenas de milhar, é compreensível que trepem pelas paredes e escrevam disparates blogoesféricos para aliviar a amargura. Hoje em dia já não é assim tão fácil sovar padres e outros "mariolas", ou prender e expulsar jesuítas. Podiam tentar fazer concorrência com o seu ídolo favorito, a Mariana Portuguesa, mas desconfio que a moçoila (ou nem tanto, porque 98 anos deixam marcas) não moveria nenhum dos seus atributos corporais para realizar qualquer milagre.

sexta-feira, outubro 12, 2007

O regresso do circuito


Quem conhece bem Vila Real sabe que as principais "instituições" da cidade estão na sua maioria na Avenida Carvalho Araújo, ou nas ruas adjacentes. Ao alto da Avenida está o tribunal; cá em baixo, no lado oposto, a câmara municipal, antigo solar do Séc. XVIII. À esquerda da câmara, o liceu Camilo. A meio, a Sé, e ao lado o antigo convento de S. Domingos, restaurado e aproveitado como Conservatório Regional. Em frente, a Gomes, o mais conhecido e reputado café da cidade, célebre pelos seus covilhetes. entre a câmara e a Sé, a casa onde nasceu Diogo Cão, e entre o conservatório e o tribunal, o seminário maior. Entre a Gomes e o tribunal, o antigo Palácio dos Marqueses de Vila Real, casa do Séc. XVI, agora posto de turismo. Nas ruas traseiras, compondo o miolo tradicional, várias igrejas, em especial a Capela Nova, obra de Nasoni e um dos símbolos da cidade, o antigo café Excelsior, a "Casa dos Brocas", da família de Camilo e referida no Amor de Perdição, e a Casa Lapão, que produz as conhecidas cristas de galo. Mais acima, junto ao Pioledo, a Igreja do Calvário, acima do antigo campo pelado de futebol do SC Vila Real, e abaixo deste o Jardim da Carreira, o passeio público da cidade. Nos arredores fica o grande ex-líbris da cidade e da região: o Palácio de Mateus.


Claro que os tempos mudam, aparecem outras novidades que acabam por se institucionalizar e estabelecer-se como elementos representativos de uma dada comunidade. Em Vila Real, o teatro municipal, do lado de lá do rio, impôs-se como referência cultural na região, com espectáculos lotados e grande afluência de público. Em frente, o novo shopping mudou os padrões de consumo e apresenta uma estética bem melhor do que a maioria das grandes "superfícies comerciais", com uma frente envidraçada de onde se pode ver a união entre o Marão e o Alvão.

Acontece que estes novos edifícios acompanharam também as modificações no circuito da cidade, com novas rotundas, sentidos, semáforos e regras para a circulação, que desvirtuaram o velho percurso que durante mais de cinquenta anos foi o cenário das corridas de Vila Real. O circuito começava perto das margens do Corgo, num local onde ainda são visíveis bancadas de pedra e em que lamentavelmente se perdeu a vista do rio por causa das hediondas construções em altura, seguia em direcção ao cruzamento frente ao quartel e daí para a Timpeira, onde curvava antes da primeira ponte. Seguiam-se as curvas em Abambres e a subida para Mateus, de onde se inflectia de novo para a cidade, passando junto à Araucária, atravessando a ponte metálica sobre o Corgo e fazendo a "curva da salsicharia", antes da meta.

 

As corridas datam já de 1931, mas o circuito só adquiriu o formato conhecido alguns anos depois. Os financiamentos provinham da câmara municipal, do ACP, da Comissão de Turismo da Serra do Marão e do próprio preço dos bilhetes. Por ali passaram Vasco Sameiro, os irmãos Oliveira, Stirling Moss, o conde de Monte Real, Nicha Cabral, etc. Humberto II, o último Rei de Itália, esteve na corrida em 1951 para apoiar os pilotos italianos em competição. O público acorria em magote, fazendo a chatíssima estrada do Marão, ou de comboio, pela linha do Corgo, que serpenteia entre o douro vinhateiro. As corridas mantiveram-se em alta até aos anos setenta, quando começou o seu declínio, que levaria à suspensão em 91.

A travessia da ponte metálica(colecção Manuel Taboada)

Só me recordo das provas dos anos oitenta, apenas com corredores nacionais. Encarrapitado nos muros de pedra da Timpeira, sob o sol de Julho, via em baixo os carros a fazerem as curvas com roncos calorosas e velocidades assustadoras. O circuito era ainda o original, ainda não havia IP-4 e a linha do Corgo seguia até Chaves.

Nestes últimos 15/20 anos, muita coisa mudou. O IP-4 construíu-se (e já está obsoleta), os comboios até à "bila" rareiam, o SC Vila Real joga no Monte da Forca, a UTAD e os estudantes entraram nos hábitos da região, a cidade alargou muito a sua dimensão, por vezes da pior forma, e o circuito tornou-se impraticável para corridas da lado da cidade.

Mas as competições regressaram no último fim-de-semana, com novo figurino e um percurso mais curto, entre a ponte da Timpeira e a rotunda que vira para a ponte metálica. Estive lá, nesses dias de fim de semana prolongado, mas pouco vi das corridas, excepto meia dúzia de bólides e outros tantos clássicos a passar. Ainda assim, gostei de ver uma quantidade de gente interessada, e de novo o entusiasmo pelo circuito, ainda que cortado a meio. E bem lembrada a homenagem a Manuel Fernandes, antiga glória das corridas, que nunca cheguei a conhecer, embora tivéssemos parentes comuns, e que morreu há dois anos com um tumor cerebral. Embora para muitos também se devesse homenagear Sidónio Cabanelas, outros dos "heróis" das corridas, assassinado há uns vinte anos por uma encomenda-bomba nos seus escritórios da actual Rodonorte.
Para o ano voltam à cidade, e parece que também o grande prémio do circuito da Boavista (o grande rival urbano do de Vila Real) irá para Vila Real. Alvíssaras! Há instituições que reaparecem, mesmo que mutiladas.
Sobre o assunto, ver também isto, isto, isto e isto também, com uma vénia aos autores.
E se...

E se, à imagem de alguns catalães, um grupo de estudantes anti-republicanos decidisse queimar a efígie da república e uma bandeira verde-rubra (sem mais nada), além de enforcar um boneco com motivos de 1910 (pós 5 de Outubro)? Quais seriam as reacções, penas aplicadas e discussões relativas ao tema?

quarta-feira, outubro 10, 2007

Discussões à volta do Che


Quarenta anos depois da sua morte, é por demais óbvio que Ernesto Guevara não era nenhum santo, excepto para fanáticos e utópicos. Derramou sangue em nome do seu combate total contra o "imperialismo", em especial na Revolução Cubana. Mas compará-lo a um Mao, um Pol Pot a um Hitler, como faz a Atlântico deste mês, parece-me um sumo exagero. Se é certo que o seu lado idealista e combativo foi demasiado realçado por razões políticas e culturais, é bom que não caiamos também no oposto: a diabolização absoluta de um homem com seu quê de alucinado. Nos anos sessenta, um tipo assim, morto aos quarenta anos, só se poderia tornar num ícone. Ironia das ironias, acabou também por tranformar-se num rentabilíssimo produto de marketing, provando que não só o capitalismo está bem mais vivo que o comunismo, mas também que pode aproveitá-lo cinicamente para abrir novos caminhos.

A ver também este artigo de Rui Bebiano

quinta-feira, outubro 04, 2007

Desconsolo

Decididamente, ir ao futebol este ano tem sido uma pura perda de tempo. E que futebol nem vê-lo, resultados ainda menos, e golos, só mesmo dos adversários. Que aplicaram bem o dinheiro, como se vê. Mas apesar de tudo, parece-me que uma bola na barra, outra que o adversário dominou com a mão na sua área e boas defesas do guarda-redes contrário justificavam um golo. o problema é que do outro lado também criaram muitas oportunidades de golo.

Imagino, já agora, o que diriam os responsáveis sportinguistas se tivessem sido objecto de uma arbitragem tão má como a que castigou o Benfica no seu jogo contra o Shaktar.
E as "bases" cumpriram

Sobre a eleição de Filipe Menezes para líder do PSD estou para escrever desde sexta de madrugada, quando vi os resultados. Não vou dizer que já esperava, como gostam de afirmar muitos comentadores depois dos factos acontecerem. Julgava que apesar de tudo, Mendes triunfaria à rasca, mas ficaria no lugar. Afinal, as "bases" apostaram no autarca de Gaia, e até por larga maioria.
E agora, perguntam muitos, com as mãos na cabela? Agora temos alguém cujo pecado que mais detesta é o da coerência, que muda de discurso conforme os ventos e a disposição, que tem uma velha rivalidade, agora camuflada, com Rui Rio e que até já chorou na televisão. Alguém quem Miguel Sousa Tavares, há já vários anos, quando Menezes usava barba e era líder da distrital do Porto, chamou "O nosso Pacheco", numa alusão à queirosiana figura d ´A Correspondência de Fradique Mendes. O homem tem cumprido de forma satisfatória na margem Sul, é certo. Mas líder do principal partido da oposição, frente a uma governo sustentado por uma maioria absoluta? As suas ideias são algo vagas e arrevezadas, ora sustentando-se em políticas sociais, ora defendendo uma economia mais liberal (uma dualidade paradoxal que prova, afinal de contas, que ele é um PSD dos sete costados). Fora do partido, deixa muita desconfiança. E a inimizade da maioria dos "notáveis" também é uma dificuldade a não desprezar.
Apesar de tudo, acho que a coisa, do lado da oposição, vai ficar mais animada, para mais se Santana lopes, o ex-menino -guerreiro repromovido a grande estadista por causa de uma atitude mais nobre num noticiário, ocupar o lugar de líder parlamentar, como insistentemente se tem falado. Com Portas no CDS, a sonolenta AR terá mais motivos para acordar.
De qualquer maneira, não sei se Menezes terá assim tanta pedalada para liderar o partido, e se se terá apercebido da encrenca em que se meteu. Com Gaia pelo meio e os "barões" atrás, não vai ser nada fácil. o que eu sei é que não é motivo para terrores ou cenários apocalípticos, muito menos para encerrar o blogue. Estou como Francisco José Viegas: apesar de tudo, dá um certo gozo.

terça-feira, outubro 02, 2007

Piadinha de gosto duvidoso

Uma excelente marca paramelhorar radicalmente o ordenamento urbano em Portugal.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Jardins e jardins
Sempre gostava de saber porque é que um partido que defende isto acolhe movimentos com membros que praticam aquilo. Ou há jardins merecem ser preservados e outros achincalhados? Não me vão dizer que é siples coincidência o facto de terem colocado suásticas em campas judaicas, pois não?
A obsessão de Vital Moreira

A propósito de uma benzedura de José Sócrates, Vital Moreira voltou a falar no assunto que lhe ocupa 80% das suas colunas de opinião: a defesa da "laicidade" do Estado, ou a capa do seu anti-clericalismo e anti-cristianismo mal disfarçado. As referências ao "país religiosamente plural" mostram que não percebeu, ou finge não perceber, que o país é cultural, religiosa e socialmente católico, e que a sua vontade era eliminar todos esses traços. E quando diz que "a exibição de símbolos de identificação religiosa, em hospitais, prisões e outras instituições, não constitui somente uma violação do princípio da separação mas também, e sobretudo, uma falta de respeito para com os outros crentes de outras religiões e os não-crentes" está nitidamente a criar uma proibição onde ela não existe nem na Constituição (de que certamente julga ser intérprete único) nem na Concordata. A Separação entre a Igreja e o Estado não obriga as entidades públicas a realizarem os seus actos hostilizando as confissões religiosas, mas apenas não deixando que os seus actos não sofram a sua interferência. E veja-se o grotesco que é proibir a um doente ou a um preso de levar um crucifixo para a cama ou para a prisão. Por aqui se prova a verdadeira intenção de Vital Moreira, cujo espírito jacobino, à mistura com os resquícios do PCP (onde militava quando aprovou a CRP) de empurrar as igrejas para as sacristias e afins. Aliás, gostava de perguntar ao Lente de Coimbra o que é que as crenças têm de tão mau que as ideologias políticas não têm.
Ah, e claro, não acaba sem a sacro-laica "falta de respeito para com crentes de outras religiões e não-crentes". No Natal, vermos Vital e outros apaniguados saudosistas da República Velha a falar nas manifestações da quadra como "ofensas a pessoas de outras religiões". Pessoas essas que não só não se sentem ofendidos - nunca se queixaram, aliás - como ainda reclamam contra os Vitais Moreiras que se apropriam indevidamente da sua Fé para fazer mera propaganda anti-católica, e por arrasto, anti-religião.

terça-feira, setembro 25, 2007

Marcel Marceau 1923 - 2007

quinta-feira, setembro 20, 2007

Blog da Rua Nove

Onde ver postais antigos de localidades espalhadas por todo o país, cartazes de propaganda turística dos anos 20/30, do Estoril e das termas, "japonices", capas e lombadas esquecidas, grafismo e ilustrações art nouveau (e seus autores), carros dos anos 60, heráldica de antigos municípios, cartas de tarot, imagens de Macau, fotobiografias de Wenceslau de Moraes e muitas outras coisas mais? No Blog da Rua Nove, pois claro. Achado muito recentemente e com uma infinidade de imagens a descobrir.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Ainda sobre Aquilino
Ainda a propósito de Aquilino, alguns dos defensores da transladação disseram que a petição contra a mesma era obra de "ultramontanos" e "medíocres". Desde já digo que não assinei tal petição, mas sempre teria curiosidade em saber se fizessem a mesma coisa a António Ferro, por exemplo, tais senhores que proferem estas acusações se indignariam perante tal "abuso".
Já agora, um certo Carlos vieira escreve no site do Bloco de Esquerda que "a petição que meia dúzia de monárquicos em vias de extinção pôs a correr contra as honras de panteão nacional a um "terrorista", preso por ajudar os "bombistas regicidas", são tiros de pólvora seca que só poderão fazer cócegas à alma granítica de um vulto com a envergadura moral do universal Aquilino". Não há no entanto qualquer refutação às acusações sobre Aquilino, nem factos contrários, nem nada. Dizer que os monárquicos estão em vias de extinção" mostra como a maioria dos bloquistas convive mal fora do seu mundo supostamente "cosmopolita" e "libertário". Provavelmente esquecem-se que "os beirões, os tenazes e insubmissos beirões" estão na sua maioria nos antípodas das escolhas ideológicas aquilinianas, e que muitos fazem parte da tal "meia dúzia de monárquicos em vias de extinção". Já agora, porão Salazar (que até apreciava em privado a obra de Aquilino, sendo quase conterrâneos e contemporâneos) fará igualmente parte do rol desses tenazes beirões?

terça-feira, setembro 18, 2007

A transladação política de Aquilino

Um excelente texto, já com alguns meses, com as razões - pessoais e gerais - pelas quais Aquilino Ribeiro não merece ir para o Panteão Nacional. Mesmo as letras e a prosa beirã não o permitem. E as justificações de Aquilino Ribeiro Machado, seu filho, que compreensivelmente defende o seu pai, não justificam tal cerimónia.

"O meu pai, quando veio para Lisboa, do ambiente fechado da província, tinha 21 ou 22 anos. Com essa idade, citando uma frase muito batida, `todo o homem é incendiário e mais tarde será bombeiro dos fogos que acendeu`, e é natural que na ânsia e no ideal de mudar o mundo e de criar uma sociedade mais justa, ele se identificasse com os revolucionários que viessem, aqueles mais impacientes, mais insubmissos", argumentou.
"Ele era um homem que vinha do mato, bravio e homem de acção por natureza. É natural que não fosse alinhar pelo pensamento mais conservador da época. Dir-se-á: `isto é um pensamento que depois, ao longo da sua vida, se manteve, foi sempre um homem de intervenção directa` Não, não foi. A vida dele prova-o"


Há que perceber que mesmo com um espírito revolucionário, uma coisa é participar em acções de propaganda, manifestações ou confrontos com a polícia, mesmo que isso implique a detenção. Outra completamente diferente é ser cúmplice sapiente de um Regicídio, para mais de um Rei, e do seu filho, D. Luís Filipe, que estavam longe, bem longe, de ser uns tiranos. E se João Franco, Sidónio e Salazar governaram, à sua maneira, ditatorialmente, a 1ª República não teve melhor desempenho, com a agravante de ter deliberadamente levado Portugal para uma guerra terrível se ter feito passar candidamente por um regime liberal.
Como as razões para a transladação do escritor são também políticas, como provam as alusões ao seu combate "pela República e pela liberdade", não posso, como monárquico, concordar com ela.

domingo, setembro 16, 2007

Frente à Nova Zelândia

Passando a outros desportos, os Lobos continuam a sua dura prova em terras francesas. Depois da Escócia, a fortíssima e intimidante Nova Zelândia e os seus rituais maoris. Apesar da dura derrota, por 108-13, os jogadores lusos venderam-na cara e lutaram com galhardia. Fizeram guarda de honra aos neozelandeses, mostrando o seu espírito desportivo. E voltaram a cantar o Hino como se não houvesse amanhã.
O confronto entre a Haka dos neozelandeses e A Portuguesa é algo de emocionante e vale a pena ser visto.
Já agora, pensei que o confronto entre os homens da Oceania e a Escócia começasse assim. Mas os escoceses foram menos institucionais (em relação a si próprios, claro) e apresentaram-se de forma mais vulgar, frustrando todos os que esperariam uma atiude mais guerreira da sua parte.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Cenas de estalo
Ao ver a cena de estalo no fim do Portugal-Sérvia, depois de uma exibição pífia que deu no temido empate, não tinha ideia do que é que poderia ter começado a zaragata, posto que estava a ver o jogo do lado do banco e perto da cabeceira. Só depois é que me disseram que Scolari tinha aplicado uma murraça num jogador sérvio, supostamente para defender um seu jogador, não percebi se Quaresma se Petit. Feia acção, que não só nos poderá penalizar (e ao treinador) no futuro como nos envergonha mais, como continuação das cenas no fim do Euro 2000, Mundial 2002, naquela noite de destruição de balneários em França pelos "esperanças" e um bocadinho do Mundial 2006, em que a Holanda teve a parte de leão.
Curiosamente, a meio do jogo lembrei-me de uma cena que tinha revisto na véspera, no filme A Vida é um Milagre, de Emir Kusturica, em que um jogo de futebol entre muçulmanos bósnios e sérvios da Bósnia acaba em pancadaria, da qual não escapam sequer os postes da baliza. Mal imaginava que aquele jogo entre selecções principais dos respectivos países iria terminar de forma parecida. Ao que parece, o defesa Dragutinovic, o objecto do murro, já tem um percurso acidentado. E aqui há uns anos, um jogo entre o Braga e o Estrela Vermelha de Belgrado acabou também em confusão, envolvendo o actual guarda-redes do Sporting. Será que os epílogos dos jogos com sérvios têm sempre porrada à mistura?

terça-feira, setembro 11, 2007

O imbróglio McCann

Quatro meses volvidos, e quando já se pensava que os Media estavam enfim a levantar o acampamento para pregar noutra freguesia, eis que se dá a reviravolta no caso Madeleine McCann. As suspeitas sobre a morte da menina e a possível culpabilidade dos pais trouxeram de novo esta enigmática história para a ribalta e despertaram as mais díspares imaginações.
Devo dizer que nunca estive grandemente interessado em toda esta história, apesar de todo o arraial de jornalistas, directos, informações, contra-informações e "biografias" da família. Um desaparecimento de uma criança é algo terrível, mas que infelizmente não é tão invulgar como devia ser, talvez por causa da sociedade excessivamente informada que temos. Por variadas razões, o caso tomou dimensões globais, os noticiários fizeram reportagens e "especiais" de quase uma hora, na maioria das vezes com palha. Espalharam-se cartazes por tudo quanto é aeroporto e serviço de transportes. Tudo isto farta uma pessoa até À medula, mas o que é certo é que o caso alimenta a comunicação social de todo o mundo. Num destes dias, passei por uma banca com abundante imprensa internacional: a maior parte dos títulos dizia respeito às suspeitas que recaíam nos pais da miúda, com grandes fotografias e títulos bombásticos.
Esta suspeita, que para já, e para a "opinião pública", não passa disso mesmo, se se confirmar, terá consequências graves. Não apenas por causa do eventual logro, que envolveria uma campanha a nível mundial, rezas e missas, uma enorme operação de investigação, visitas ao Papa e a um conjunto de capitais europeias, etc. Tornar-se-á também na evidência, apreendida em público, de que algumas crianças nem com os pais, que deviam ser o último reduto de protecção, estão em segurança, e que há gente que tudo faz para encobrir as suas responsabilidades, nem que para isso tenha de enganar todo o planeta. Instalaria um clima de suspeita e desconfiança colectivo e global. e desvalorizaria outros desparecimentos de crianças, casos de maus tratos e pedofilia.
Tenho a maior pena pelos pais que de algum modo perdem os seus filhos; deve ser a coisa mais dolorosa e anti-natural que imaginar se possa. Mas neste caso, e por todas as razões, espero sinceramente que os culpados do desaparecimento de Madeleine, morta ou viva, sejam outros que não os seus próprios progenitores.

sábado, setembro 08, 2007

Luciano Pavarotti 1936-2007

O Tenor. O Caruso do seu tempo. A inconfundível enorme figura bojuda, com a sua barba, objecto de caricaturas até mais não. Intérprete de inúmeras obras, como o Turandot, tornou-se um ícone pop, com os seus Pavarotti ´s and Friends, levou a ópera às massas, tornou-se o elo de ligação entre o Bel Canto e a música ligeira. Era o mais conhecido dos Três Tenores, trio com Plácido Domingo e José Carreras. Desapareceu agora na sua cidade de Modena, onde nasceu, e onde cresceu entre o canto, o futebol e a cozinha, tão amados pelos italianos. Fica, como homenagem possível, a sua actuação no Royal Albert Hall, em 1982, onde interpretou, como em tantas e tantas outras ocasiões, a ária final de Turandot, Nessun Dorma.
Benfica desta época: atribulações e esperanças
Desde Julho que a equipa de futebol do Benfica tem sofrido mudanças bruscas no seu rumo. a coisa até começou bem, com a venda de alguns jogadores a mais, como Carlitos, Beto, Manduca ou Amoreirinha. Mas as saídas de Micolli e Karagounis foram bem menos positivas. A notícia da ida de Simão para o Atlético de Madrid apanhou todos (mais ou menos) desprevenidos. Os vinte milhões e tal eram generosos, mas a despedida do capitão e melhor jogador dos últimos seis anos é sempre dolorosa, sobretudo se sair para um clube menor. Mas a coisa ultrapassava-se, e rematou-se logo com a compra de Di Maria + Diaz e da promessa Freddy Adu. Os jogos da pré-época não eram grande coisa, mas com tempo e preparação ia ao sítio.
O problema é que na véspera do jogo da pré-eliminatória para a Liga dos Campeões, com o Copenhaga, Manuel Fernandes, um dos grandes "reforços" e jogador vital para o meio-campo benfiquista, bateu com a porta, deixando a equipa coxa e obrigando Rui Costa a marcar dois golos de raiva contra os dinamarqueses.
Com lesões à mistura, a afectarem o carenciado sector da defesa, o Benfica começou o campeonato com um empate frente ao Leixões, no último minuto, que parece ser sina de Fernando Santos. Dois dias bastaram para que o técnico, já sem a protecção de Veiga, fosse exonerado de funções e substituído pelo regressado Camacho, que desde a saída em 2004 tinha deixado um certo sentimento sebastianista nos adeptos.
Claro que os métodos e as estratégias de jogo variam consoante os técnicos, e o espanhol começou com um empate frente ao Guimarães, na Luz. Mas a vitória em Copenhaga, num misto de sorte, espírito de sacrifício e incompetência dos avançados dinamarqueses, catapultou o Benfica para a liga milionária, e devolveu o optimismo, acentuado com o expressivo triunfo por 3-0 em casa do Nacional.
Com a paragem por causa da Selecção, é tempo de recuperar os lesionados e de fazer descansar os esgotados. E de pensar. Com tantos reforços, entre o avançado "Tacuara" Cardozo, os novos uruguaios , Zoro, Butt, Bergessio, etc, conseguirá o Benfica montar uma equipa sólida e vencedora e chegar ao título? Com Camacho, apesar das limitações técnicas, tudo é possível. Há ainda a Taça de Portugal, a nova da Taça da Liga, e, claro, a Liga dos Campeões, onde vamos enfrentar o campeão Milan, nossa bête noire nestas andanças, o sempre "empata" Celtic, mais uma vez, e o Shaktar Donetsk, que gastou cerca de sessenta milhões de Euros (!) em contratações.
Espera-nos uma época complicada e incerta, causada pelas entradas e saídas de jogadores para lá do tempo devido, e pela mudança de treinador. Só agora é que a pré-época se acaba. Oxalá as lesões não se repitam e a coisa acabe bem.

sexta-feira, setembro 07, 2007

O sucesso da Air Race

 
E a corrida de aviões patrocinada pela Red Bull acabou mesmo por ser um sucesso: centenas de milhares de pessoas nas margens do rio, um tempo quente de Verão, uma competição vibrante entre os vários aviões que ziguezaguearam no Douro, e não houve qualquer acidente.
Como no sábado não estive no Porto, não pude ver a corrida propriamente dita in loco; mas na Sexta ainda vi as provas de qualificação, da rua da Restauração. As manobras arrojadas, os loops e a velocidade sobre a água, no cenário das margens do Douro entre pontes tinham uma beleza estética considerável. A prova em sim, se se não estivesse a par dos tempos realizados, acabava por se tornar um pouco monótona a partir de certa altura. Provavelmente teve-se uma melhor percepção da corrida através da televisão do que ao vivo.
Já tinha ouvido falar do evento aí por alturas da Páscoa, quando surgiu a meio de uma conversa sobre as corridas do circuito da Boavista. Estava previsto que os aviões passassem por baixo do arco da Ponte Luíz I, mas por razões de segurança, encurtaram os trajectos; não deixaria de ser um espectáculo notável se tivessem podido fazer isso, relembrando os tempos épicos da aeronáutica do entre-Guerras. De qualquer forma, parece-me que a Air Race terá tido mais sucesso e atraído mais gente do que as corridas de carros da Avenida, até pela sua dimensão mais megalómana, beleza estética e pelo efeito novidade. Para o ano, o impacto será menor. Ainda assim, esta ideia de pôr o Porto no mapa deste tipo de eventos é bastante louvável e trará certamente alguns dividendos em termos de visibilidade da cidade (e de Gaia, já agora). E o espectáculo valeu a pena!

Já agora, diz-se que as corridas de clássicos passarão a realizar-se não já na Boavista, mas em Vila Real. Já em Outubro regressarão ao velho cenário transmontano mais corridas de carros, mas com os atrasos nos preparativos e com as alterações feitas no circuito (rotundas, sentidos proibidos) não sei como vai ser.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Obituário

Há já uma semana que morreu Eduardo Prado Coelho. Surpreendi-me bastante com esse desaparecimento, até porque a doença que o afectava não parecia letal (ainda que grave), apesar das sucessivas interrupções do seu artigo diário no Público e do ar patibular que tanto o modificou. Acabou no entanto por ser um ataque cardíaco o causador da sua morte.

Eduardo Prado Coelho era o típico "intelectual de esquerda", a quem só faltava mesmo o cachimbo. Recordava frequentemente os anos de Paris e utilizava por vezes um jargão filosófico sobre as suas referências pouco acessível ao comum dos leitores. Mas andava frequentemente entre os comuns mortais, e fazia gala disso. Não raras vezes os seus artigos incidiam sobre as suas pequenas obsessões e prazeres: a qualidade das salas de cinema, os produtos de beleza, os pastéis de nata, o Sporting, as telenovelas, e muitas outras coisas. Ainda no último ano publicara um álbum, intitulado "Nacional e Transmissível", onde constavam outros elementos das suas vivências, como os cafés lisboetas.

Os seus artigos incidiam sobre uma panóplia de assuntos, sobretudo filosóficos e políticos. Nos últimos verificava-se uma enorme concordância com as políticas do actual governo, com algumas críticas pontuais, sendo o último Ai, Simplex imagem disso mesmo. Como quase sempre,. EPC teve sempre esse oportunismo político, desde a sua ligação ao PC, passando pelo apego ao cavaquismo, e até aí se notava o seu cunho de intelectual afrancesado, qual Jacques Lang sem poder.

Que me lembre, vi-o só uma vez, numa série de conferências na Bolsa. Apesar de alguma irrritação que certos artigos do "Almôndega" (assim era conhecido nos tempos de faculdade) me provocavam, outros havia que eram imperdíveis. Admira-me aliás o imenso coro de homenagens que lhe fazem agora. Sempre o vi como um homem criticado por tudo e todos, de forma exagerada e por vezes maldosa, principalmente pelo seu francesismo, que como se sabe não está na moda, e caricaturado como o representante intelectual Rive Gauche em Portugal. Mas já se sabe que a morte produz milagres de opinião e honrarias. Assim, serei obrigado a concluír com o que outros disseram: deixa inequivocamente um lugar vago na cultura e na opinião portuguesa; e sim, fará muita falta ao panorama intelectual e jornalístico. Jamais reabriremos o Público sem nos lembrarmos do omnipresente O Fio do Horizonte. Um espaço em branco não apenas presumido, mas bem visível.
Já agora, assinale-se também outro desaparecimento de outro homem da cultura, mas da pop, e de Manchester: Tony Wilson, mentor dos Joy Division, New Order, Happy Mondays, da Haçienda e da Factory, e amigo de Miguel Esteves Cardoso. Conheci-o, como muita gente, no filme 24 Hours Party People. Um belo documento, aliás, para quem quiser conhecer a sua obra entre os anos 70 e 80, o urbano depressivismo e a loucura da Rave e do Madchester.



quarta-feira, agosto 29, 2007

O piroso nome escolhido pelos anarco-eco-pantomineiros mais mediáticos do momento, Verde Eufémia, podia muito bem dar o mote para outras inspirações. O PSD mais saudoso de Manuela Ferreira Leite, por exemplo, nesta luta de galos entre Mendes e Menezes, podia lançar o Laranja Ferreira. Os conservadores-liberais portugueses, sem grandes tradições femininas no nosso país, sempre podiam criar o Blue Thatcher; os comunistas, perdida a referência de Catarina de Baleizão, avançariam com a Rubra Odete (ou Ilda, apesar da cacofonia); e o PS, como forma de atraír os votos da comunidade emigrante, faria uma gracinha e criaria a sua secção Rosa Luxemburgo. Tais inspirações femininas coloririam a vida política portuguesa e sempre se podia dizer que os tais Verde Eufémia serviriam, afinal de contas, para qualquer coisa.

terça-feira, agosto 28, 2007

Ponte da BarcaA par das grandiosas festas da Senhora da Agonia, há inúmeras comemorações por esse país fora, em especial no Minho. No dia dos meus anos, comemora-se o São Bartolomeu. Ponte da Barca homenageia o Santo com festividades que ainda conservam a genuinidade e a tradição que quase desapareceram das descaracterizadas Feiras Novas de Ponte de Lima, onde a vodka e a dance-chunga substituíram as concertinas e o vinho verde. Claro que tem as suas fases de pimbalhada, e correm abundantemente as mais diferentes bebidas. Mas as rusgas não param, dança-se incessantemente a chula e a cana verde, ouvem-se bombos, concertinas e castanholas sem fim, improvisam-se desgarradas, e não faltam as barracas de tiros e os carrinhos de choque. Numa pequena vila já do "interior", a quarenta quilómetros a Oeste de Viana, a festa dura até às tantas e só cessa com o sol bem alto, lá pelas dez da manhã. A visitar, mas com calma e moderação, não vão as hordas de multidão transformá-las numa cópia das Feiras Novas dos tempos modernos. Para conservar Ponte da Barca "sempre formosa e contente", como dizia a música que se ouvia de dez em dez minutos.

terça-feira, agosto 21, 2007

Guevara nas festas da Senhora da Agonia

Na procissão dos mares da Senhora da Agonia, em Viana, mais do que um tipo com a t-shirt de Che Guevara se perfilava em respeito ante a passagem do andor da "festejada", em cima de um barco, com acompanhamento a rigor que tinha de rebocadores a jet-skis. Casos em que o materialismo acaba por ceder à devoção, mesmo que de forma inconsciente.

quarta-feira, agosto 15, 2007

A longa espera da Matriz de Caminha



Bom exemplo do nosso atraso nas obras de restauração do nosso património é o da Matriz de Caminha. O cartaz de licenciamento das obras anuncia um prazo de quatrocentos e vinte dias, os custos totais e os inevitáveis contributos do FEDER. Pois já lá vão mais de 4 anos, e a Matriz sempre sem abrir. Desconfia-se que os orçamentos foram igualmente ultrapassados. Continuam-se a ver andaimes sobre a muralha e tapumes a camuflar as ruínas da casa onde nasceu Sidónio Pais, se bem que com uma interessante biografia e ilustrações como decoração.
Não deixa de ser sintomático tamanho atraso, e muito estranho o facto de uma vila ficar sem a sua igreja principal utilizável durante tanto tempo, para mais Monumento Nacional, dos mais conhecidos da região. Vale o tecido urbano envolvente, as ruelas estreitas e longilíneas, a biblioteca, antiga prisão com condições pavorosas onde os presos estendiam as mãos por entre as grades, pedindo esmolas, agora bem recuperada e apetrechada, os pequenos largos, as capelinhas, a muralha, e a longa rua direita, com os seus numerosos bares, que se estende desde a Alfândega até à quatrocentista torre do Relógio, desaguando depois na bonita e arranjada Praça do Terreiro, ou do Conselheiro Silva Torres, com as suas esplanadas rodeando o chafariz.
Cem anos de Miguel Torga

Cem anos de Torga, comemorados na Segunda. Bem lembrados, excepto pela lamentável ausência de membros do governo nas comemorações oficiais, em Coimbra. Tanta preocupação com o conhecimento tecnológico e científico, com as línguas e a informática, e desdenham assim da efeméride consagrada a um dos maiores prosadores portugueses (mais do que poeta) do último século.

Outro erro grave: no meio do noticiário da RTP, em directo do Douro, com flashes em S. Martinho de Anta e Coimbra, a repórter que tinha por trás de si a curva impressionante do rio que rasga Trás-os-Montes lembra-se desta pérola: "vamos agora a Coimbra, cidade onde nasceu e viveu Miguel Torga..." Nem com um ponto para a ajudar - a outra repórter em S. Martinho - a senhora percebeu que Torga não era natural da Lusa Atenas.

Mas pelo menos a data não ficou esquecida. Nem em Coimbra, ao lado da paragem de romarias que era o antigo consultório do Dr. Adolfo Correia da Rocha, no Largo da Portagem, sob o Governo Civil; nem em S. Martinho, no largo da aldeia, junto ao busto do autor dos Diários, perto da singela casinha com portadas azuis onde ele nasceu; houve mesmo um monólogo do actor José Pinto, cujas semelhanças com o médico são notórias, sobre a paisagem mágica do Douro. Pena que não fosse (pelo menos não me pareceu) no promontório de S. Leonardo de Galafura, que tanto inspirou Torga, o seu amor telúrico pela velha terra transmontana e o seu fascínio pela paisagem duriense, e que ainda exibe os seus versos numa lápide da ermida que ali se encontra.

Conhecendo superficialmente a sua poesia, e daí a preferência pela prosa, tendo visto alguns dos Diários de forma pouco cronológica e metódica, fui tocado quando era pequeno pelos seus Bichos, Contos da Montanha e Rua. A simplicidade da prosa, aliada a velha linguagem, pouco usada mas clara, ligada a situações e personagens bem portuguesas, e particularmente transmontanas despertou-me para mais leituras do autor. Algumas são autênticas lições de vida, com muito de autobiográfico pelo meio. E já que é do seu centenário que tratamos, relembro o comovente conto Natal, dos Novos Contos da Montanha, em que um mendigo, o Garrinchas, se abriga pela gelada e santa noite numa ermida, convidando a estátua da Virgem com o Menino ao colo para o acompanharem na sua parca ceia, à volta da fogueira. Pois essa emida não é outra senão a da Senhora da Azinheira, no alto de um monte desolado, com vegetação rasteira e rochas, uma fabulosa vista sobre a região circundante, até ao douro, e sobranceira a S. Martinho da Anta, a terra do escritor. Mesmo com toda a notoriedade que alcançou, Torga não esqueceu nunca de onde vinha nem quem era.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Schuster e o Princípio de Peter

O Belenenses perdeu com o Real Madrid por 1-0, no torneio Teresa Herrera. Tendo em conta a diferença de meios económicos e humanos entre o clube da Cruz de Cristo e o colosso espanhol - apenas o maior clube do mundo - o resultado parece ser lisonjeiro. Acontece que o golo surgiu no último minuto, por via de um peru monumental do guarda-redes Marco. No resto do jogo, o Belém teve as melhores oportunidades, falhando algumas com uma displicência arrepiante.
Ocorreu-me isto depois de ouvir as palavras de novo treinador madridista, Bernd Schuster: segundo o técnico alemão, o Belenenses limitou-se a defender, a fazer um ou outro contra-ataque, e o Real facilmente poderia ter resolvido o jogo, se tivesse querido.
Compreende-se: Schuster, muito bom jogador nos anos oitenta, tinha, e parece que ainda tem, uma falta de estofo psicológico incrível. Quando o Barcelona, onde jogou, perdeu a final da Taça dos Campeões em Sevilha, em 1986, contra o Steaua de Bucareste, teve um trauma tal que nunca mais jogou da mesma forma. Agora, depois de ter treinado o Getafe, acaba de ser contratado pelo Real para ser técnico principal, em lugar de Fabio Capello, que até se sagrou campeão. Colocar este tipo irritante, que usa desculpas esfarrapadas para justificar os maus resultados da equipa, como treinador do Real Madrid, em substituição de um dos melhores do mundo, para mais campeão, mau grado os seus caprichos e resmungos, é um tiro no pé como raramente se vê. Infelizmente não dou nada pelo Real do próximo ano. Mas pelo menos haverá a suprema possibilidade de se ver o Princípio de Peter magnamente aplicado.