segunda-feira, março 17, 2008

Esperança

O Portugal dos Pequeninos aborrece-me de morte muitas vezes, pelo pessimismo quase doentio, pelo desencanto, pela fúria sem razão (ou pelas razões que só o autor conhece) que adquiriu a dado momento, o que faz com que frequentemente o deixe passar ao lado. Mas às vezes vogo por lá. E encontro preciosidades comoventes e admiráveis como esta. afinal,também por lá se encontra Esperança.

Quando Bento XVI esteve na Turquia, deslocou-se ao meio do mato para celebrar uma missa para pouco mais de centena e meia de pessoas. A Ratzinger não interessa o "número" mas antes a qualidade dos fiéis. Este Papa não é impressionável pela multidão e não concebe o seu magistério com um gigantesco e permanente "talk show". Nem tão pouco entende ser essa a missão da Igreja nos dias que correm. Os dois volumes da longa entrevista que concedeu ao jornalista alemão Peter Seewald - "O Sal da Terra" e "Deus e o Mundo" -, ainda como cardeal, explicam a Igreja do futuro Papa Bento. No texto de Vasco Pulido Valente no Público de sábado (sem link), reflecte-se sobre a vitória de Zapatero e a "consagração" de um "novo mundo", aparentemente definitivo, que "derrotou" a Igreja. Passarão por Espanha e pela Terra dezenas de Zapateros e a Igreja do Ressuscitado, erguida sobre a pedra bruta que derrotou o mundo, permanecerá. O verdadeiro cristão é aquele que não omite a Cruz na sua vida. Como o mais pequeno grão de trigo que cai no solo, morre e só assim dá fruto, também a Igreja representada por Ratzinger não vem para "rasurar" nenhuma "memória histórica" ou impor-se como uma "ideologia". Pelo contrário. O Igreja vela contra "a prepotência da ideologia e dos seus órgãos políticos", na defesa de uma "nova liberdade" que não é mais do que a "consciência da nova «substância» que nos foi dada" por aqueles que, ao longo da história do homem, com o seu martírio e com a sua morte, "renovaram o mundo" (Carta Encíclica Spe Salvi). Não são os Zapateros desta vida videirinha quem nos "salva". A esperança, o outro nome da fé, é a única resposta contra o "homem precário" que governa no mundo.

Eliade em Portugal


Mais de sessenta anos depois, o Diário Português de Mircea Eliade é enfim traduzido para a língua do país que o acolheu no início dos anos 40. Eliade era então adido cultural da embaixada romena em Portugal, e viveu em Lisboa e Cascais (na rua da Saudade, com as traseiras sobre o mar, onde aliás uma placa relembra o morador). Filósofo, antropólogo e historiador, escreveu sobre religiões, história da Roménia e antropologia filosófica. Doutorou-se com uma tese sobre a prática do Yoga, depois de uma estadia na Índia. Politicamente esteve próxima da Guarda de Ferro, um movimento anti-semita que agregava fascismo e cristianismo ortodoxo, comandado pelo famigerado Corneliu Codreanu, mas não deixou de ser um apoiante do Conducator Ion Antonescu. Por causa dessa ligação, refugiou-se em França, depois da Guerra, e nos anos 50 mudou-se para o Estados Unidos, onde alcançou a cadeira de História das Religiões na Universidade de Chicago. Tornou-se cidadão americano e morreu em 1986, na "Windy City".

 
Deixa-nos agora as suas impressões sobre Portugal (por vezes fracas), Salazar (por vezes exaltantes) e os percursos, convivências e relações que manteve por cá. E ao que parece, esta edição não passou despercebida. Se não o tivesse encontrado com surpresa na montra de uma livraria, a blogoesfera ter-me-ia certamente avisado.

quinta-feira, março 13, 2008

Primo de Rivera e Che Guevara: mitos perigosos







Há algumas semelhanças entre as fotografias dos dois homens acima representados. Não certamente pelo seu aspecto - escanhoado, penteado e aprumado, o de cima, de longas melenas, barba e boina, o de baixo. Refiro-me às fotografias em si, cinzentas e um pouco funéreas, como se tornaram as suas memórias. Mas há sobretudo parecenças no que quiseram fazer do seu exemplo e do seu legado.
- Ambos foram acérrimos defensores dos seus ideais, e combateram por isso.
- Ambos promoveram a violência para os difundir e implantar
- Ambos foram fuzilados pelos seus inimigos, sem julgamento legítimo
- Ambos foram utilizados pelos respectivos regimes ditatoriais vencedores (a Espanha franquista e Cuba e castrista) como heróis e mártires
- Ambos são idolatrados pelos seus seguidores-
- Ambos são odiados pelos adversários
Claro que há depois todo um conjunto de diferenças: Che Guevara tornou-se um ícone mundial, muito mais famoso e popular que José António Primo de Rivera, fundador da Falange, que mesmo no seu país, Espanha, é mais uma figura de culto de uma minoria do que um herói nacional, pelo facto de ser fascista. E a fotografia do Che tirada por Albert Korda, captando-lhe o olhar, deu-lhe um estatuto utópico que as imagens de José António, sempre em pose mais rígida (talvez pelo facto de ser aristocrata) e com olhar menos expressivo, nunca tiveram. Qualquer pessoa reconhece o argentino, mas poucos saberão dizer quem é o castelhano. E depois toda uma propaganda eficaz (o sonhador vs o fascista) encarregou-se de solidificar os respectivos estatutos.
Certo é que, à sua maneira, são ícones dos seus grupos políticos. Viveram e combateram com coragem e convicção. Morreram pelas suas ideias às mãos inimigas, acabando assim por chegar a "mártires". Mas são mártires, e mitos, perigosos. Se os seus ideais à partida eram justos, a forma como os espalharam foi a pior possível. A Guerra Civil de Espanha não passou de uma súmula imparável de barbáries, concluída pelos franquistas sob o lema Cara al Sol do Ausente, como chamavam a Primo de Rivera. E inúmeras inspirações guevaristas ainda hoje produzem violências injustificadas, como as célebres FARC colombianas. Sim, lutaram bravamente pelas suas ideias. Infelizmente, todos esses esforços foram provavelmente mais nefastos que benéficos e não tornaram certamente o mundo um lugar melhor para viver.
Santos Silva teve razão
Já no caso das declarações de Augusto Santos Silva em Chaves não vi nada de que discordasse, excepto talvez considerar que Salazar era fascista. O facto de se estar em vésperas de um gigantesco protesto contra o Governo não é razão para se ir gritar insultos à porta de uma reunião do partido que sustenta esse mesmo Governo. Chamar-lhes "fascistas", então, é patético, mas também já nos habituámos a que qualquer pessoa seja assim apelidado quando não concorda com saudosistas dos piquetes, apelos contra o "imperialismo" ou baladeiros de setenta.
Santos Silva disse o óbvio: a liberdade não se deve a Cunhal, mas a Soares e a outros como ele. Não reclamou exclusividade, como o acusaram, limitou-se a dividir as águas e a pôr os mitos dos "combatentes pela liberdade", que mais não eram do que admiradores do sr. Brejnev, no seu devido lugar. E se na altura era de extrema-esquerda, só prova que abriu os olhos e ganhou sensatez. Se um passado adolescente em pequenos partidos dessa área política fosse entrave a que se falasse de liberdade, quantos e quantos colunistas e fazedores de opinião não teriam de se remeter ao silêncio.

quarta-feira, março 12, 2008

Um protesto justificado

A enorme manifestação dos professores em Lisboa, no sábado, não consistiu apenas em ajuntamentos de sindicalistas para pregar o bota-abaixo: viu-se um grito de protesto como nunca essa classe de profissionais tinha mostrado. Não admira: na pior equipa ministerial que se vislumbrou nos últimos anos na educação, os professores são o bode expiatório para tantas semi-reformas e reformas adiadas, trocas de ministros, ignorância e "eduquês". Cortaram as verbas a Roberto Carneiro quando mais era necessário e tiveram de inventar mais não sei quantas alterações. Agora veio esta inefável ministra, de rosto rígido e imutável, e o seu Válter Lemos (que, recorde-se, quando era vereador da Câmara de Penamacor faltou à maioria das sessões), esse arrogante funcionário sem ponta de talento, tratar os professores ao pontapé. Não se diga que não. Não é só o novo Estatuto que o demonstra: basta relembrar os casos de violência nas escolas, gravados e publicamente revelados, e o desinteresse e menorização que a ministra lhes votou. acompanhados de um incrível "os professores não podem ter medo". Pois não: fosse a senhora ameaçada em plena aula numa Básica de um "bairro problemático" e queria ver como é que reagia.

Acresce ainda o insensato Estatuto dos Alunos, que permite aos meninos faltar às aulas à vontade, as horas extra transformadas em momentos recreativos com os professores a aturá-los, gastando energia e perdendo preciosos tempo, as alterações a meio do ano lectivo, etc.

Sobre algumas coisas ridículas que ouvi nos últimos dias, não será demais recordar que houve gente na Manif. que nunca tenha estado em nenhuma anteriormente, que raramente faz greve e que nem ao menos está sindicalizada; e que nem todos os "stôres" são comunistas, eu, aliás, nunca me lembro de no ciclo e no secundário ter tido professores dessa área política; é possível que os houvesse, mas lembro-me mais de ter sido ensinado por monárquicos ou militantes activos do CDS, por exemplo. Bem podem os defensores da ministra, que provavelmente percebem tanto do assunto como eu de cultivo de Kiwis, vir defendê-la achando que o que é preciso é "pôr os profs no seu lugar". Melhor fariam em defender que esta equipa fosse para o seu lugar: para a rua. E não era para se manifestar.

segunda-feira, março 10, 2008

Mais do mesmo
Chegado do vento gelado de Trás-os-Montes, duas notícias, uma esperada, outra mais repentina: a vitória de Zapatero sem maioria absoluta, e a subida ligeira do PP, o que prenuncia uma legislatura semelhante à dos últimos 4 anos, mas com a economia em queda; e a demissão de Camacho, por achar que não podia dar mais nada à equipa do Benfica. uma despedida digna mas que contrasta com a sua partida em 2004, vencedor e popular. O futebol definitivamente acabou, esta época. Que venha Chalana orientar a equipa, e que se prepare condignamente a próxima temporada. Esta só nos promete mais do mesmo.

sábado, março 08, 2008

Infelicidades em barda
Uma expulsão aos 9´ (deve ser record mundial), uma lesão aos 20´, um golo sofrido de forma totalmente infeliz, uma expulsão perdoada ao adversário, assim como uma bola irregularmente agarrda pelo seu guarda-redes, imensos lesionados e castigados...assim era quase impossível. O Benfica mostrou grande espírito contra a bem organizada e afortunada turma dos arredores de Madrid, mas nem isso evitou o desaire na Luz.
Com alguma sorte e raça, ainda damos um salto a Espanha e vamos dar a volta à eliminatória, mas ontem aquilo só valeu pelo golo do meio da rua de Mantorras e porque me ofereceram o bilhete. Ah, e aquela bandeira dos NN com a efígie do Cosme Damião também tinha bastante graça.

terça-feira, março 04, 2008

Eleições em Espanha


Aproximam-se as eleições para as Cortes Espanholas, como igual confronto de 2004: Zapatero x Rajoy. Devo dizer que nenhum deles é senhor das minhas simpatias. O actual Presidente do Governo, ou o "Bambi", como é conhecido, chegou ao executivo de forma totalmente inesperada, por causa da péssima gestão dos atentados terroristas de 2004 pelos Populares. Pôs então em prática a sua "agenda modernizadora", com a legalização dos casamentos e até da adopção de crianças por casais homossexuais, a simplificação do divórcio, o afrontamento à Igreja Católica, o apaziguamento e os acordos com terrositas sem remissão e a insensata Lei da Memória Histórica, que no fundo toma partido por uma das facções da Guerra civil, como no regime franquista, mas pela outra parte. Num país onde as feridas do fratricida combate de 36/39 nunca sararam totalmente, Zapatero atira gasolina para a fogueira, não sei se de propósito, se inconscientemente. A Constituição de 1977 aprovou o regime democrático sob a monarquia, no pressuposto de que os vencidos da Guerra civil não o eram mais, e de que as referências dos nacionalistas deixariam de ser as do Estado Espanhol. Por outras palavras, a Guerra só ali terminava verdadeiramente, num pacto de paz aposta pela esmagadora maioria dos espanhóis, cujo principal símbolo era a legalização do Partido Comunista. A nova Lei recentemente aprovada desrespeita o espírito da Constituição e pode trazer consequências nefastas ao complicado caldo político que se vive no país, atravessado por regionalismos extremos.

Do outro lado, Rajoy, que esteve a dois passos de ser Prsidente do Governo em 2004, por escolha pessoal de Aznar, não parece ter aprendido muito. Nestes quatro anos, o seu PP instrumentalizou muitas das manifestações de rua contra o governo e a sua política face ao terrorismo, transformando-as em comícios não-oficiais. Nunca reconheceu os erros que lhe tiraram a vitória, nomeadamente o tríptico de mentiras Prestige - Iraque - Atentados (eram da ETA, lembram-se?), conduzidas da pior forma. Se Zapatero merecia caír do seu lugar, este galego castelhanizado jamais merecia lá chegar.

Estas eleições deverão confirmar também o extremar das forças políticas presentes. À parte os dois principais partidos, o resto são movimentos regionalistas/nacionalistas, como o velho Partido Nacionalista Vasco, a CIU, o Bloco Galego e outros, da Cantábria às Canárias. O centro, herdeiro da UCD de Suarez, é irrelevante ou deixou-se engolir pelo PP; a Izquierda Unida, mistura de Bloco de Esquerda com CDU, que alberga o outrora pujante PCE, pode ficar mesmo sem representação parlamentar (Saramago já declarou que apoiava o PSOE); novidade só mesmo o novo movimento anti-nacionalista apadrinhado por Fernando Savater, cujo sucesso, dado o seu vazio ideológico, é duvidoso.

Tendo em conta que os movimentos herdeiros do franquismo, como os Carlistas e a Falange, são residuais, conclui-se que a política partidária em Espanha está totalmente bipolarizada entre os dois maiores partidos. E que as franjas mais radicais herdeiras dos ferozes antagonistas dos anos trinta foram por eles engolidos. Mais do que a conversão à moderação, pode significar o extremar de poisções entre dois blocos, coisa quw já se verifica. Os tempos de Gonzalez, em que o PSOE era um partido socialista moderado, adepto da CEE e da NATO e recusando o marxismo, ou aquele em que um deconhecido Aznar transformou a velha Aliança Popular de Fraga Iribarne num moderno partido de centro-direita, já lá vão. Não é crível que volte a haver novo confronto armado (está lá o soft power da UE), mas o antagonismo que se verifica, e em que não faltam confrontos ente anarquistas gedelhudos e falangistas de braço erguido, é tudo menos saudável, mormente agora que se espera que a economia espanhola quebre consideravelmente. O PSOE deverá novamente ganhar sem maioria, e os próximos anos serão de mais "modernização da sociedade" e paz podre. E depois? Intervirá de novo Juan Carlos I nos destinos da sua nação?
Banal

Um derby banal. Resultado (relativamente)positivo para o Benfica em alvalade, jogo disputado com raça mas nem sempre com bom futebol, casos para analisar e as eternas queixas do sporting, com não sei quantos penaltys não assinalados a favor, não sei quantas expulsões perdoadas ao Benfica e não sei quantas lamentações de serem sempre os prejudicados. Nada de novo. Fora do normal, mesmo, só o golo de Cardozo, por ser de cabeça, e o Rodrigo Tinóni, ou coisa que o valha, novo craque do ataque do Sporting, a fazer um cruzamente para golo, com Quim a ser mal batido (outra invulgaridade).

segunda-feira, março 03, 2008

Asquith e as instituições


Isso de ligações familiares tem muito que se lhe diga. Helena Bonham Carter, por exemplo, é bisneta de HH Asquith, Primeiro Ministro britânico durante oito anos, e que ocupava o cargo quando rebentou a 1ª Guerra Mundial.
O post de Pedro Mexia ajudou-me a recordar este político liberal inglês e uma máxima que deixou, e que descobri num livro que me ocupou durante o último verão. Trata-se dos Diários de Paris, do Embaixador Marcello Mathias (filho), onde relata a sua passagem pelo UNESCO entre 2001 e 2003, no seu último posto de Carreira. Não faltam considerações sobre pintura, literatura, história, alusões oportunas, o ponto da vista sobre os acontecimentos do dia-a-dia, a luta contra a doença e uns pós da vida de um diplomata perto da reforma. O livro acaba com as memórias da capital francesa no pós-guerra, quando o seu pai lá foi colocado como o primeiro embaixador português em França.
Mas a frase que me interessa é que vem ao caso. Teria Asquith dito que só havia três instituições eternas: a Câmara dos Lordes, a Academia Francesa e o Estado-Maior Prussiano. Não sei de quando data tão solene afirmação, mas é decerto anterior À 1ª Guerra Mundial.
Como se sabe, o Estado-Maior da Prússia (durante décadas uma inspiração para tantos oficiais, como Spínola) não sobreviveu muitos mais anos. Caiu em desuso depois do Grande Guerra, reemergiu como Wehrmacht sob os nazis, antes de desaparecer por completo com a própria designação Prússia e o seu território original, que numa reviravolta da história sobrou para os polacos e russos, separado do território alemão.
A Câmara dos Lordes também já teve outra importância. Perdeu de forma drástica o seu carácter hereditário e poderá também perder brevemente os seus poderes judiciais, como última instância de apelação de recursos. Ou seja, está longe da relevância que sem dúvida tinha nos tempos de Asquith.
A Academia Francesa, instituída pelo Cardeal Richelieu, permanece imutável, com uma breve interrupção durante a Revolução, mas que Bonaparte reabriu. Os seus membros, os Immortels, são vitalícios, são eleitos pelos mais velhos, ocupam cada um o seu Fauteill, devidamente numerado, e representam a nata da francofonia, em todas as áreas. Podem ser expulsos por motivos excepcionais, como o Marechal Pétain ou o integralista Chales Maurras, o que é raro acontecer. Apenas uma grande alteração nas últimas décadas: a primeira eleição de uma mulher como para a imortal galeria, no caso Marguerite Yourcenar.
O irónico disto é que a "revolucionária" França, o país menos referido quando toca a instituições centenárias, ao contrário do que acontece com a Grã-Bretanha, é que soube conservar o seu símbolo institucional mais antigo, ao passo que outros as viram desaparecer ou perder o peso e a importância tradicionais. Um caso a ser avaliado com mais atenção pelo Centro de Estudos Políticos da UCP.
Mas numa nação de tão grandes paradoxos como é o hexágono, acaba por fazer algum sentido.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A estratégia do populismo
A ideia de Luís Filipe Menezes, de retirar a publicidade da RTP, está na ordem do dia. Apesar da oposição gerada à proposta, até de figuras como Nuno morais Sarmento, nem todos a olharão com muito maus olhos. Ainda hoje ouvi, vinda de dentro de uma tasca, uma conversa em que um homem exclamava com autoridade que "é só intervalos de dez minutos", e que achava muito bem que se retirassem os anúncios da TV pública. O outro concordava, com alguma hesitação. Isto significa que a ideia de Menezes, apesar de tudo, passa entre a população nas conversas de taverna, e ao que parece com aprovação. A estratégia produziu efeitos. Não é mesmo esse o objectivo dos populistas?

terça-feira, fevereiro 26, 2008

E eles a rir-se que nem uns perdidos

Depois de horas de pânico (Reds, reds!), fúria e repúdio, começa-se a perceber que a tomada de poder de O Insurgente "okupado"por malvados hackers a mando de Fidel não é mais do que auto-gozo dos próprios. Tive uma vaga suspeita disso quando me lembrei do Anacleto, aliás alimentado por alguns insurgentes. Além de que links com nome "5 Câncios" só pode ser tomado como uma brincadeira.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Óscares, ano 80
Mais uma edição de Óscares, depois da ameaça da greve dos argumentistas. A resolução tardia do diferendo não impediu que Jon Stewart estivesse em forma. com prejuízo do sono, aguentei-me até saber quem era o melhor actor, coisa que nem oferecia grandes dúvidas. Espantei-me com Óscar de melhor actriz da jovem, doce e pouco conhecida Marillon Cotillard, em lugar de julie Christie, mas é sabido que Hollywood se péla por biopics e por maluqinhos, e a icónica e trágica carreira de Piaf merecia a estatueta. aliás, deve ter sido a sessão entre as oitenta que já houve em que mais franceses foram premiados. A política de reconciliação com os EUA de Sarkozy já produz resultados.

Daniel Day-Lewis, pelo que ouço dizer, teve uma das melhores interpretações dos últimos anos, como aliás já nos habituou sempre que resolve voltar para as telas. entre a modéstia e a emoção, ficam na memória o beijo facial a Clooney e a genuflexão perante Helen Mirren, o que não admira, já que o actor um súbdito da Rainha. Também o Óscar ao descontraído Bardem não teve piada, tamanha era a antecipação. Já o triunfo de Tilda Swinton espantou; esperava tudo que a estatueta caísse nas mãos do Bob Dylan de Cate Blanchett; mas a divina australiana, nomeada para dois troféus, mostrou-se com divertido à vontade, consciente de que voltará a ganhar outra estatueta dourada (com o ritmo dos últimos anos, o mais provável é que qualquer dia esteja a competir com Merryl Streep em nomeações).

Tive certa pena que Persepolis não ganhasse o prémio de filme de animação, uma categoria que tem crescido em qualidade e visibilidade, mas de facto Ratatouille era demasiado forte para perder. De realçar vários filmes "menores" que ganharam vários Óscares (também "menores"), deixando Expiação, por exemplo, quase a nadar em seco.

Os Coen ganharam em filme e realização, como se previa. No Country for Old Men só existe entre nós em livro. Aposto que quando se estrear, daqui a dias, não lhe vai faltar público. Na mouche, senhores distribuidores nacionais. Quanto à dupla de grandes vencedores, é, se tirarmos Fargo, o coroar de uma carreira já longa, não isenta de tropeções, mas talentosa, segura, e com grandes momentos que certamente merecerão várias páginas na história do cinema

domingo, fevereiro 24, 2008

Enfim os No Smoking Orchestra ao vivo


Outro que certamente não apreciou a secessão do Kosovo e o seu reconhecimento pelo bloco ocidental é Emir Kusturica. Há umas semanas tive oportunidade de o ver ao vivo, no meio dos seus No Smoking Orchestra, depois de algumas tentativas falhadas em que não vieram ao Porto. Quando se decidiram a vir às duas principais cidades, eu estava por Lisboa nesse fim de semana e comprei bilhete para o Coliseu dos Recreios.
Quem conhece a obra cinematográfica do realizador sérvio mas não conhece a banda (que já tem uns largos anos de carreira) poderá saber sempre ao que vai se se lembrar das bandas sonoras de Underground, Gato Preto, Gato Branco e A Vida é um Milagre. Ou ainda do mais antigo Tempo dos Ciganos, que nunca vi e sobre o qual assentava esta tournée. O estilo é o popular "gipsie punk", e tem alguns seguidores, como os ainda mais frenéticos Gogol Bordello, cujo líder, Eugene Hutz, poderá ser visto em breve protagonizando a primeira incursão de Madonna na realização. Os elementos da banda são inúmeros e tocam tanto guitarra, baixo e bateria como violino, harmónica e saxofone. Uma salada balcânica simultaneamente ruidosa e melodiosa.
Os No Smoking Orchestra faziam parte da lista de grupos musicais que queria realmente ver in loco. Além dos filmes, o meu conhecimento da sua obra vinha de um disco ao vivo (há também o DVD) de um concerto que deram há uns anos em Buenos Aires. O que vi não andou nada longe do que já suspeitava.

Cheguei ao Coliseu com receio de que o concerto estivesse no início, mas ainda demorou uns minutos; já sabia que o Benfica estava a ganhar em Guimarães (um jogo decisivo), e queria tirar a limpo se todos os espectáculos da banda começavam da mesma forma. Pude confirmá-lo ao ouvir os acordes do hino russo, com o qual os artistas entraram em cena.
É certo que Kusturika, com a sua guitarra, é o principal chamariz, mas a verdade é que meio espectáculo fica por conta do incansável vocalista Nele Karajlić, que se exibiu com um fato e uma camisola desportiva por baixo (do Partizan?) e que não parou de chamar pelo público, de se passear entre o palco e a plateia ou de pôr todo o recinto com gritos de apoio ao Partizan, e creio que ao Kosovo sérvio também.
O carrossel balcânico rolou com profissionalismo e alegria, embora me pareça que tivesse faltado uma pitada a mais para ser um concerto memorável. Senti que carecia daquele espírito anárquico que se encontra na obra de Kusturica. Afinal, era o tour de Tempo dos Ciganos. Uns actos de loucura, mais do público que dos músicos, eram bem vindos. Só que os peninsulares presentes (fora alguns germânicos) eram ibéricos, não da montanhosa região a sul dos Habsburgos.
Mas nem por isso o concerto desmereceu grandes elogios. Houve alguns episódios memoráveis, como certos gritos de incitamento do vocalista imitados pelos ouvientes, a apresentação individual dos músicos (chamou-se de tudo ao realizador sérvio, de Von Karajan a David Bowie), e dois músicos tocando violino pegando cada um na vara com a boca, com as cordas por cima - Kusturica conseguiu o mesmo com a sua guitarra eléctrica. Não faltaram as míticas Bubamara, Unza Unza Time, Pitbull Terrier e Wanted Man, embora tenha sentido a ausência da frenética Vasja

O que eu não sabia é que o concerto acabava com o mesmo hino russo, depois da saída dos músicos. Houve até um grupinho que acompanhou a majestosa sinfonia de punho no ar e pose inspirada, não sei se por brincadeira ou convicção. Mas mesmo sem a anarquia do concerto de Buenos Aires, não dei por perdido o tempo e pude riscar mais um dos "concertos-que-tenho-de ver-até ao-fim-da-vida" da lista (além de que o Benfica ganhou à mesma hora por3-1). E até quem sabe, voltar a avistá-los num qualquer regresso, ou noutra ocasião em que se proporcione nova espiadela aos No Smoking Orchestra, que, está visto, dão-se bem em terreno de palco ou a coberto das imagens dos filmes do seu guitarrista. Pena mesmo é que tenham perdido o Kosovo. Que tal um novo tour para colher apoios para a causa?

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Depois do Je Mantiendrai, é o Blog da Rua Nove que encerra serviços. Definitivamente a blogoesfera portuguesa está esteticamente muito mais pobre.
O início da Grande Albânia

Pronto, os albaneses que ocupam aquela escalavrada terra que dá pelo nome de Kosovo sempre declararam unilateralmente a independência. A coisa já se previa há pelo menos um ano, mas só agora se concretizou. Claro que os EUA e as grandes potências europeias se apressaram a reconhecê-lo como estado independente, coisa que não era senão o seu objectivo primeiro. A Grande Albânia, sonho dos ilírios, de maioria muçulmana materializa-se, deixando de rastos o sonho da Grande Sérvia. O Kosovo, que só existiu na antiguidade com o esquecido nome de Dardania, e com características completamente diferentes, nasce assim como estado artificial de povo albanês em solo ex-sérvio, porque o bloco ocidental assim o quis, governado pelo ex-comandante do UÇK, uma milícia terrorista como ligações a grupos radicias islâmicos.

Mas a Rússia não está com meias medidas e tudo fará para embargar de iure o reconhecimento onusiano de semelhante estado. E faz outras retaliações, mostrando mais uma vez que está ao lado da Sérvia e reassumindo em pleno a liderança do bloco ortodoxo da Europa Oriental. A Grécia, Roménia e Chipre também não estão pelos ajustes, e só a Bulgária, estranhamente, é que dá o dito por não dito, ora contra o novo estado, ora a favor. Os tempos mais próximos prometem. Os sérvios não aguentarão novas humilhações. Desconfio bem que a paz podre que reina nos Balcãs não durará muito mais tempo.


Como complemento, este comprido texto do Estado Sentido, que com factos históricos e algumas revelações mostra bem como a vontade de certas de cúpulas pode invabilizar a harmonia internacional.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Estação do Rossio

É realmente bonita, a correspondente à estação de S. Bento em Lisboa. Aquele neo-manuelino paredes meias com o Rossio lembra gestas heróicas, períodos conturbados (o assassinato de Sidónio, por exemplo) e chegadas triunfais de personalidades ilustres, via sud-express, por vezes a caminho do Estoril.

Será que é verdade a história de que comunica com o vizinho Hotel Avenida Palace?

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Gratas recordações

Daqui a pouco encontramos um velho conhecido. Mais precisamente dos anos sessenta, ou da época 61-62, em que o Benfica se sagrou bi-campeão europeu. O adversário das meias finais era então o FC Nuremberga, que depois de nos ter ganho por 3-1, levou meia dúzia secos para casa, na Luz. Eusébio já não pisa o relvado, mas contra os gigantes Kholer e Charisteas de má memória temos as torres Cardozo e Makukula, prontos a obter um resultado digno. não têm de ser seis, metade chega perfeitamente.
Coincidências?
Estes dois posts e a entrevista que acompanha o segundo recordam-me estas linhas que aqui escrevi há uns meses. Como não sou nenhum profeta nem nenhuma mente iluminada, estou em crer que não é por acaso e que muitos pensam o mesmo. Tenha-se a posição política que se tiver, é sempre bom clarificar qual o grupo ou a ideologia que as forças partidárias sustentam. Coisa que há mais de 30 anos o PSD, essa União Nacional democrática, não faz.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Expiação

As críticas ao filme Expiação não foram inversamente proporcionais às do livro que o inspirou, de Ian McEwan (que me dizem ser uma obra prima), mas pouco faltou. De "filme inglês de qualidade" do ano, como se pode ver pelas nomeações para os Globos de Ouro, Bafta e Óscares, até ser considerado uma desilusão, um instrumento sem fôlego ou até "intragável", segundo Pedro Mexia. Tive algum desapontamento, é certo, pelas altas expectativas que tinha, mas dou-lhe pelo menos três estrelas. As interpretações são mais que satisfatórias, a narrativa term alguns momentos mortos dispensáveis, mas também outros em que flui livremente, o efeito surpresa está lá, os cenários são dignos de época e as cenas de Dunkerque são uma excelente recriação do espírito reinante da retirada falhada e do desespero dos soldados encurralados. Mas o que vale mesmo o bilhete é a imagem - e aqui concordo totalmente com Mexia - de Keira Knightley deslumbrante até mais não no seu vestido verde, que enche qualquer cena em que entre, e do seu ar entre o romântico e o poseur, aspirando o fumo do cigarro. Tudo isto no espaço fechado do cinema, que só por si daria causa para interdição total do filme por parte da ASAE.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

O desastre de Munique de 1958

Sem net durante alguns dias, não consegui alimentar" devidamente o blogue. Vamos se conseguimos recuperar o tempo perdido.
Ainda em tempo de efemérides, recordo o desastre de aviação do Manchester United em Munique, cujos 50 anos se relembraram agora. A 6 de Fevereiro de 1958, um avião que levantava voo do aeroporto de Munique, transportando a equipa do MU e alguns directores, jornalistas e adeptos despenhou-se ainda na pista, por causa do clima e de problemas técnicos (e atambém humanos, ao que parece). O avião vinha de Belgrado, onde os ingleses tinham empatado com o Estrela Vermelha a 3 golos, e fazia escala na capital da Baviera. Pereceram 8 jogadores do United e mais outros 12 tripulantes. entre os sobreviventes estavam o promissor Bobby Charlton e o técnico Matt Bubsy, por cuja vida se temeu durante alguns dias.

A tragédia podia ter acabado com a carreira ascendente do United, mas Bubsy conseguiu reunir os jogadores que lhe restavam, e a partir daquela o United trepou pela Inglaterra e por essa europa acima até conquistar a Taça dos Campeões europeus, ao Benfica, em 1968, com uma táctica que esgotou Eusébio e o Glorioso.

Viu-se um pouco dessa tenacidade quenado voltaram a ser campeões europeus em 1999, perante o Bayern. Mas aí só tiveram de recuperar de um golo de desvantagem. Em 58, a morte dos companheiros e o choque pelo desastre era um trauma dificílimo de ultrapassar. De certa forma, como se pôde ver numa recente entrevista a Bobby Charlton sobre o acontecimento, nunca deixará de pesar sempre na memória daqueles sobreviventes, nem no imaginário dos adeptos do MUnited, de tal forma que Morrissey até compôs uma música recordando a tragédia. Mas conseguiram levantar-se e ir mais além, mesmo que esse dia de Fevereiro de 1958 os tenha sempre acompanhado.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Padre António Vieira



Há quatrocentos anos nascia o "Imperador da Língua Portuguesa"

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O adeus do Je Mantiendrai e a recordação de Thesiger

O Je Mantiendrai fechou as portas. O distinto blogue, que se apresentava com a divisa neerlandesa, vai pregar noutra freguesia. Achava-lhe uma certa piada pela estética nobilesca e requintada, entre a aristocracia inglesa, a iconografia militar japonesa e demais preciosidades orientais, mais do que propriamente as ideias, demasiado pré-modernas para meu gosto.
O anónimo autor comunica-nos que irá para "terras mais distantes". Deixa-nos, como despedida, abundante prosa e imagens remetendo-nos para os aventureiros ingleses, que depois de cursarem em Eton e Oxford, e antes da reforma nos respectivos clubes, defenderam o Império Britânico onde o havia; para os exploradores do mundo ignoto; para os que não se limitaram aos livros mais trepidantes sobre o assunto, fazendo da sua carreira matéria para mais um, nos campos de batalha, nos mares, nas selvas, nas areias escaldantes. E a propósito do deserto, é pena que não tenha incluído algém um pouco arredado da memória nestas ocasiões, e que cumpriu esse desempenho de maneira exemplar: Sir Wilfred Thesiger.

E se não tívessemos aderido à CEE?

Não estivessemos na Europa integrados e pelas minhas contas já teríamos presenciado meia dúzia de pronunciamentos militares desde 1976, seguindo a velha tradição inaugurada por Saldanha em meados do século XIX.

Este pensamento do Combustões, mostrando algumas das virtudes da UE e do seu modelo de delegação de poderes, merecia ser mais explorado, como uma espécie de "wath if" caso não tívessemos assinado nada nem em 1986 nem daí em diante. A ideia não é contudo nova: Mário Soares confidenciou certo dia que se isso não tivesse acontecido, teríamos mergulhado numa guerra civil. Vai nova antologia de contos no seguimento deste?

domingo, fevereiro 03, 2008

Homenagem digna
A homenagem decorreu de forma sentida e respeitosa. A presença dos Bragança, um breve discurso, a deposição de uma coroa de flores na esquina onde está a lápide do infeliz Rei e do seu filho. E sobretudo o silêncio, o profundo silêncio daquela pequena multidão, testemunho do profundo respeito e reverência que se fazia sentir, sob um céu cinzento, tal como há cem anos, segundo as crónicas. Um silêncio só cortado pelas palmas e pelos gritos de "viva a monarquia" que se ouviram, e que encerraram a cerimónia. Mas que só surgiram no momento devido, ao contrário do que hoje acontece tantos em funerais e "momentos de silêncio".
Não pude ir depois a S. Vicente de Fora, mas pelo que ouvi correu com a solenidade e dignidade que se impunha.
Nota: um bando de anarquistas, de bandeiras negras e uma faixa com louvores aos regicidas, surgiram perto do fim, a meio da praça, e desapareceram tão rapidamente como tinham chegado. Deixaram uns papeluchos onde diziam estar "contra os monárquicos ou republicanos" quer "fossem fascistas e democratas", aos gritos de "viva a anarquia". Que diferença de atitude entre os que estiveram em silêncio na homenagem e os autênticos maltrapilhos equilibrando pinos para pedir "uma moedinha para o artista" e que glorificam o terrorismo.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Cem anos do atentado regicida





















Em memória D ´el-Rei D. Carlos I e de SAR D. Luís Filipe, Infante de Portugal, homens justos, preocupados com Portugal, vítimas da loucura e do radicalismo de alguns homens e dos seus ideais deformados.

Que o país nunca se esqueça e recorde sempre com pesar o que aconteceu naquela fatídica tarde de 1 de Fevereiro de 1908.

Que descansem em paz.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Na semana antecedente ao dia em que passam cem anos do Regicídio, já há grupinhos a fazer as suas comemorações privadas. A fazer o quê? A homenagear os assassinos Buíça e Costa, pois claro. Entre os festivaleiros encontra-se o Major Tomé, ex-líder da UDP. E há mesmo uma autarquia que realiza festas oficiais sobre o trágico acontecimento. A apologia do terrorismo ainda encontra partidários.
E amanhã, para os que estiverem Lisboa, ao Terreiro do Paço!

terça-feira, janeiro 29, 2008

Mas ainda há quem defenda Suharto?
Decididamente não há unanimidade possível mesmo sobre os piores ditadores. Então quando a coisa mete anti-fascismo, anti-comunismo ou anti-americanismo, há sempre quem desculpe acções inomináveis, crimes sem punição e fanatismos ideológicos. Desta vez, alguns blogues de direita optaram por ignorar ou menorizar as barbáries do regime de Suharto. Desilude-me neste caso particular o Combustões, blogue do qual em muitas ocasiões discordo, mas que leio sempre com interesse. Não é o ditador indonésio o principal culpado do que se passou em Timor? Então quem matou centenas de milhar de habitantes da ilha? E quem nos garante que não a invadiria mesmo que as forças portuguesas aí tivessem permanecido?
Depois vem a luta contra o comunismo e a aliança com potências ocidentais. Pergunto-me de que adianta tal luta se os resultados são piores. Faz-me lembrar os defensores dos Contras da América Central, os tais Freedom Fighters, que se revelaram uns autênticos bárbaros, tal como os indonésios. Se o defendemos pela unidade territorial (tarefa complicada, sem dúvida), então pela mesma razão teremos de dar o crédito a Ho Chi Min pela unificação do Vietname. Evitou que a Indonésia gerasse um novo Pol Pot? Pois a comparação de Suharto com o genocida do Cambodja não é absurda, e é mesmo feita pela Spectator, que não tem grande currículo de simpatias comunistas. Evitou-se um conservando-se outro. No campeonato de sangue derramado, o ditador de Java em nada se distingue dos outros. Não é preciso ser-se maoísta para se reconhecer isto, ou os trinta e tal anos de regime puramente militar, as mentiras escondidas e os milhares de milhões de dólares subtraídos em proveito próprio. Basta que haja um pouco de senso e reconhecer-se que em nome da luta contra o comunismo não vale tudo nem atropelar todos.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Necrologia de Janeiro

Ainda estamos em Janeiro e já houve uma data de mortes da famosos em 2008. Já aqui falei de Luís Pacheco e Edmund Hillary. E também de Butho, a roçar a passagem do ano. Suharto, que era o que mais merecia ir desta para melhor, dá sinais de recuperação. Se for apenas uma melhoria agónica, nem lamento.

Agora desapareceu Bobby Fisher. O ex-prodígio do xadrez andava há muito arredado dos tabuleiros, desde que quebrou o embargo à ex-Jugoslávia em 92, com passagens errantes entre a Europa Central e a Ásia do Pacífico. Andava totalmente paranóico, com tiradas anti-semitas violentíssimas e até júbilo pelo 11 de Setembro. Extraditado para a Islândia, conseguiu a cidadania da terra do gelo e lá morreu, há dias, de uma insuficiência renal. Tinha 64 anos, tantos quanto os quadrados do xadrez. Esperemos que as proezas de raciocínio sejam mais relembradas que as controvérsias do fim de vida.
Mais tocado fiquei com a surpreendente morte de Heath Ledger. Um actor versátil e tocante, por papeis tão diversos em filmes tais como Monsters Ball, As Quatro Penas Brancas, Os Irmãos Grimm, ou Brockeback Moutain, acabar assim, aos 28 anos, deixa um travo amargo na história contemporânea do cinema. Ledger tornar-se-ia provavelmente um "clássico", daqui a umas décadas. Não chegou ao estrelato nem provocou histeria como James Dean, mas também não era um debutante juvenil como River Phoenix ou Brandon Lee. Não sei que papel lhe reservará a história do cinema, mas o seu rasto perdurará certamente por algum tempo. Até por filmes que estão para vir, como I´m not there, em que encarnava um Bob Dylan numa fase da sua vida, e mais ainda, o novo Batman, em aparece como Joker, de face borratada e mais sinistra que o de Jack Nicholson. Terá sido este papel que mais lhe exigiu e que contribuiu para os seus problemas psicológicos. Um fantasma também para ele, e para todos os outros, agora que desapareceu.
PS: Afinal Suharto também morreu. como previa, era uma "melhora da morte". O mundo livrou-se de mais um ex-ditador.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Recordação da Monarquia do Norte

Passou-me a data, mas não o período e a memória dele: a 19 de Janeiro de 1919, uma junta militar, que se anunciou como Junta Governativa do Norte, chefiada por Paiva Couceiro, proclamava a Monarquia e desfraldava a bandeira monárquica. A "Monarquia do Norte" governou toda a região norte do país, até ao Vouga, exceptuando Chaves, durante cerca de vinte dias.

Isso significa que há 88 anos, a bandeira que encimava os edifícios oficias de todo o norte do país, tirando os flavienses, e acrescentando o alto de Monsanto, em Lisboa, era esta:

Poderemos alguma vez voltar a vê-la como bandeira nacional, simbolizando Portugal onde quer que esteja?

terça-feira, janeiro 22, 2008

Benfica - Feirense

O Benfica venceu o Feirense por magro 1-0, golo atabalhoado de Cardozo (mas com o pé direito, repararam?), Esteve a ponto de sofrer o empate, mas o resultado manteve-se até ao fim.
Nada de estranhar. Quando os jogadores entraram, foram seguidos por um conjunto de raparigas de branco com fogaças à cabeça. É que no dia seguinte celebrava-se a Festa das Fogaçeiras, em honra de S. Sebastião, evento que tem já 503 anos, e cujo ponto alto é o cortejo das fogaçeiras, entre os Paços do concelho e a Matriz (ou excepcionalmente, o Castelo), além de outras procissões, como a que transporta o andor do Santo que protegia da peste.

Por isso, lá está: os jogadores relaxaram para dar outro vigor e alguma esperança ao Feirense. Desta forma, os 5000 mil adeptos do clube das Terras de Santa Maria que estiveram na Luz voltaram com a sensação de ter defrontado o Benfica de igual para igual e de quase empatarem. E assim, certamente ficaram com outra disposição para as festas. Lá continua o SLB a patrocinar o que de melhor há nas tradições portuguesas.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Alguém me sabe dizer qual a razão dos bares dos Intercidades serem bem mais espaçosos que os dos Alfas Pendular? Os primeiros têm bancos espalhados ao longo da carruagem e duas pequenas mesas com bancos corridos. Os segundos, incluídos em comboios melhores e mais espaçosos, não têm um único banco e, excepção feita a um pequeno vão, dificilmente cabem duas pessoas no corredor, que também é mais curto. É uma medida para poupar espaço? Então as carruagens-bar dos tão almejados TGVs devem ser pouco maiores que caixas de sapatos.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Quatro anos e um dia

Não é bem como esquecer o próprio dia de aniversário, mas quase. Este blogue nasceu na madrugada de 16 de Janeiro de 2004. Era um Sábado. Faz portanto quatro anos (e um dia). Por várias vezes apeteceu-me acabar com ele - parar de escrever e não apagá-lo, entenda-se - mas lembrei-me sempre que havia ainda muitas coisas que gostava de teclar. Ainda é o caso, mesmo que não venha muitos a este espaço.
Quatro anos depois, A Ágora continuará a ser actualizada sempre que possível, sem periodicidade obrigatória ou preocupações que me tirem o sono. Caso contrário, também não estaria aqui, ao teclado.
Pré-obituário

A última frase do post anterior não a repito, por razões evidentes, em relação a Suharto, o ex-ditador indonésio, reduzido ao estado de uma múmia apenas ligado à vida por máquinas. O homem que eliminou milhões de indonésios, desde o sangrento golpe de estado e da repressão subsequente até ao fim do seu mandato, que invadiu Timor Leste com os cuidados que se conhecem, que brutalizou todos os povos do imenso arquipélago que se revoltaram, que açambarcou milhões de dólares dos cofres públicos indonésios, e a quem a Spectator chamou um dia "o Pol Pot indonésio" está praticamente morto. É um cadáver adiado. Já lhe preparam grandes funerais e um enorme mausoléu, entre templos. É pena. Já que escapou aos tribunais, merecia ser atirado para uma vala comum, como aconteceu a tantas e tantas vítimas do seu tenebroso regime.
Obituário




Já lá vão uns dias, mas não queria deixar de relembrar a morte do homem que, juntamente com o sherpa Tenzing Norgay, escalou antes de todos os outros o Everest. Não se imaginaria sem dúvida um apicultor neozelandês como um dos conquistadores do "tecto do mundo", mas a verdade é que este homem com ar desengonçado cometeu tal proeza, que surpreendeu o Reino Unido e o Mundo na dia da coroação da Rainha Isabel II, como um dos últimos feitos do império britânico em decadência e que abrilhantou a cerimónia. Aos 88 anos Sir Edmund Hillary, cavaleiro do império Britânico e condecorado com a Ordem da Jarreteira, morreu, depois de uma vida de escaladas e outras explorações (ainda no ano passado tinha estado na Antártida), apoios aos povos dos Himalaias e alguns dramas familiares, como a morte da mulher e da filha num acidente de avião no Nepal.

Que descanse em paz.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Nada de referendo
Como é óbvio, o facto da escolha do "deserto" para novo aeroporto de Lisboa não me desagradar não quer dizer que a semana passada tenham sido só rosas sem espinhos do governo PS. Como se suspeitava, Sócrates não pretende mesmo um referendo do Tratado da UE por considerar que há o perigo de não ser aprovado, e com o argumento patético de que não mentiu ao prometer em tempos a consulta popular por "ser diferente do Tratado constitucional". Pura retórica, e mal utilizada. Alguém deveria dizer ao PM que os referendos onde tal perigo de não aprovação está salvaguardado têm outra forma, e são conhecidos como plebiscitos.

domingo, janeiro 13, 2008

Reacções de alguns blogues ao novo aeroporto




"O Cantinho do engenheiro": o Governo decidiu-se por Alcochete. Não é perto de casa, mas serve, contanto que surjam novos templos gastronómicos, haja algum sector onde se possa fumar um bom Romeo e Julieta e degustar um vinho do Douro ou uma Melo Abreu."

"Jamais", dizia ele. Veremos como a Lusoponte, a CIP, a Associação Comercial do Porto, a Companhia das Lezírias e todos os lóbis interessados se vão apoderar do aeroporto"

"Mais um gasto faraónico do estado socialista e centralista em detrimento dos cidadãos. Ao menos que fosse no Porto, o que representaria a vitória dos verdadeiros liberais sobre o estatismo do Terreiro do Paço".

"A opção por Alcochete é totalmente ideológica e serve para reforçar o Alentejo comunista, e os sectores politicamente correctos, além de ficar demasiado próximo do norte de África. Se Hayeck fosse vivo diria exactamente isto"

"Palavras que odeio: jamais"

"A posição agora anunciada, que demonstra bem o paradoxo marsupial deste governo, só pode deixar-nos pessimistas quanto ao futuro das liberdades neste país. O novo aeroporto deveria ficar na Ota, porque além de ser perto da Marmeleira, daria para fazer inúmeros "Retratos de Trabalho". Pobre país o nosso!"

"Eu hoje acordei nas nuvens"


"A decisão do Governo é uma boa oportunidade para pôr aqui uma resenha sobre história dos aeroportos, dos irmãos Wright à actualidade"


"O Estado português tardo-meta-moderno, essa republiqueta sem remissão, voltou a esbanjar recursos imensos em estudos infinitos. Coisa igual jamais sucederia na Tailândia; bastaria o rei escolher logo onde se situaria o aeroporto."


"O primeiro-Ministro volta a tomar uma grande decisão de grande sensatez e sabedoria, mostrando que está a tornar Portugal num país mais moderno, civilizado e desburocratizado. A Ota era a opção ideal, mas descbri agora nas entrelinhas da Constituição que afinal era o local errado, até porque era mais próxima de Fátima, esse atentado ao estado laico."


"Sócrates decidiu-se por Alcochete. É na Margem sul, mas que interesse tem isso? Usam-se lanchas e táxis marítimos, que o Mar da Palha não é maior que a Laguna Venneta"


O Engenheiro Sócrates mudou vergonhosamente de opinião, com o derrotado engenheiro Lino a seu lado. Este país afunda-se na imoralidade, como decerto previa o estadista de Santa Comba nos seus saudosos tempos".

"Apesar de ser uma decisão socialista, e por isso presumivelmente anti-tradicionalista, creio que Aristóteles, Burke e Voegelin não se lhe oporiam"

Ps: isto é ficção bloguítica. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

No campo de tiro

Reviravolta na decisão da localização do aeroporto de Lisboa: o campo de tiro de Alcochete é o escolhido, em detrimento da Ota, depois de um período em que a escolha dos prados do Oeste era um facto consumado. Não sendo expert em matéria de engenharia ou económica, fico com a sensação de que é uma melhor escolha. Até por se basear num exaustivo estudo do LNEC, coisa que já devia ter acontecido há imenso tempo. Mas olhando para as vantagens e desvantagens comparativas, parece-me melhor, Tem menos custos, evita uma massificação ainda maior de veículos e construções a norte de Lisboa, é mais perto, terá melhor acessos ao porto de Sines e escusa-se de se andar a terraplanar colinas, a drenar charcos e a estabelecer estacas para sustento de estruturas. Acresce que a zona agora escolhida, é realmente um deserto, como temia o ministro Mário Lino. E ainda bem: menos expropriações, e menos custosas, menos populações deslocadas, menor impacto na qualidade de vida. Não se percebe porque raio queria o senhor que houvesse escolas e coisas parecidas nas imediações. Os terrenos em causa são uma imensidão plana coberta de eucaliptos, perto de uma autoestrada muito boa para circular mas sub-aproveitada, a A-13.

Há, claro, alguns contras, como o aquífero que passa na região, que provavelmente terá de ser objecto de especiais cuidados para evitar a poluição das águas. E obviamente a construção de nova travessia no Tejo, por muito que isso inquiete Almeida Santos. O estigma "Margem Sul" não deixará de pôr muita gente de nariz torcido.

Outra razão: a maior distância do Porto pode dar outra importância a Pedras Rubras, como único aeroporto importante a norte do Tejo. A Ota previsivelmente secundarizá-lo-ia. Alcochete pode dar-lhe outra dimensão. Assim espero, desde que a ANA não resolva fazer das suas.

Para os que protestam pela decisão e acusam lobbies vários, como a CIP, lamenta-se pelo investimento que tinham feito anteriormente. Não venham é tentar convencer que os lobbies ganharam todos, como já vi escrito, ou que "é tudo para o Sul e nada para o centro". Nota-se logo muito ressabiamento. Como se não houvesse inúmeros grupos de influência, talvez mais ainda, pró-Ota. E que eu saiba o Alentejo não é lá muito beneficiado face a Coimbra ou Leiria. Qualquer decisão destas tem sempre as suas razões políticas, dê por onde der. Mas esta tinha também razões técnicas de relevo. Por isso, entendo que terá sido a melhor. Espero é que seja igualmente ponto final nesta discussão que se arrasta há anos e que tantos recursos tem exigido.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Pequenos Forever!
Nesta época em que em Portugal cada vez há mais proibições e menos e menos permissões (com excepção para o aborto), coisa que nos deveria fazer pensar, uma das normas mais anómalas, aberrantes e antidemocráticas que nos surgiram nos últimos tempos terá sido a Lei dos Partidos Políticos nº 2/2003, de 22 de Agosto no seu artigo 18º nº 1, Al. b), em que uma formação política é judicialmente extinta pelo TC, a requerimento do MP, se tiver menos de 5000 filiados. A coisa passou mais ou menos despercebida até há pouco tempo, quando o TC notificou todos os partidos a fazerem prova desse número de militantes. Agora, o mesmo Tribunal indeferiu um recurso de fiscalização abstracta da Lei, apresentado por cinco pequenos partidos. Razão? "O tribunal em causa só pode proceder a essa apreciação num momento posterior, ou seja, depois de iniciado um processo suscitado pelo Ministério Público de extinção de uma força política que não cumpra os requisitos estabelecidos por lei".
Um mau serviço prestado por uma entidade que deveria assegurar os direitos de cidadãos que se sintam ameaçados por uma qualquer norma. Já é estúpido que só se possa recorrer ao TC depois de passar pelos tribunais, coisa que uma data de titulares de cargos públicos não precisam. E mais estúpido ainda é que nenhum desses responsáveis tenha suscitado anteriormente a inconstitucionalidade da Lei ao Tribunal. Provavelmente porque não tenham tido interesse nisso. Repare-se que já data de 2003, e desde aí tivemos três governos, com três partidos no poder.
Se no futuro próximo tal norma for aplicada depois do consentimento do TC, será motivo para desobediência civil. Qual a razão para este disparate? O não querer subsidiar partidos menores? Não há problema, eles que se governem por si mesmos. Extingui-los é um acto de puro terrorismo político, dando a entender que só meia dúzia de tendências ou ideias é que valem. Partidos ecologistas, monárquico-fadistas, nacionalistas ou maoístas vão assim desta para melhor, ficando os seus escassos apoiantes sem quem os represente. E m nome de quê e de quem? E acima de tudo, com que direito os maiores partidos fazem isto aos mais pequenos? Esquecer-se-ão de que uma das regras da Democracia é que as minorias se podem sempre tornar maiorias?
Também não me parece haver aqui nenhuma moda estrangeira. Em Itália, apesar das recentes fusões entere os grandes, há uma infinidade de pequenos partidos, como aqui se mostra, e sempre houve governos multipartidários. Nos EUA, apesar do oligopólio de Democratas e Republicanos, também não faltam micro-associações partidárias para todos os gostos. No Brasil, só partidos socialistas e trabalhistas é um ror deles. E assim por diante. Em Portugal, e só aqui, querem acabar com eles. Se masis não houver, espero que todos eles, Nova Democracia, POUS, PNR, PCTP-MRPP, PPM, MPT, PDA, PSN, e o que mais houver, combinenm uma manif em conjunto frente a S. Bento. Eu, se puder, vou dar-lhes apoio. Quanto mais barulho melhor.



terça-feira, janeiro 08, 2008

Luís Pacheco 1925 - 2008




Só na segunda, com a leitura das capas dos jornais, é que soube que Luís Pacheco tinha morrido. Agora que andava a consultar o Diário Remendado. Não me admirei assim muito, dada a saúde precária do escritor e os problemas que o atormentavam ultimamente. Ainda assim, a morte toca sempre. Em pouco mais de um ano, perdeu-se Cesariny e Pacheco.

Uma figura bigger than life, esta, que teve oito filhos, andou envolvido com menores, esteve preso e chocou a sociedade com a sua libertinagem. Esteve também ligado ao PCP, coisa que parece algo esquisita dada a disciplina férrea e sorumbática que este partido exige aos seus militantes. Podem ver várias confirmações disso mesmo numa entrevista que deu há menos de um ano. Mas a melhor é a que deu no Esplanar, realizada por João Pedro George, uma das pessoas que mais lutou pela recordação da sua obra (e pelo próprio escritor).

Mesmo que tragam sempre alguma abjecção por arrasto, os libertinos, e particularmente os autores libertinos, são terrivelmente necessários. A sua enorme liberdade chega a assustar, faz-nos imaginar uma sociedade desconchavada, sem rei nem roque. Parecido com Pacheco, nos últimos anos, lembro-me de João César Monteiro (e noutro plano, mais insistentamente provocante, de Vilhena e d´O Meu Pipi). Que também já desapareceu. Quem nos resta agora, dessa chocante mas libérrima minoria?

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Vêem como os blogues podem ser úteis?

Acrescento ao último post: a blogoesfera multiplica-se numa rede solidária revelando onde é que se pode fumar por esse país fora. Há bares, restaurantes e cafés que resistem e resistirão à invasora prospecção. Aproveitem, fumadores. Consultem este blogue, mais aquele e aqueloutro.

sábado, janeiro 05, 2008

Proibição do fumo

Já sei que a maioria anda muito contente com a nova lei do tabaco. Acabaram os "não tenho que aguentar o fumo dos outros na cara", e outras frases que se começaram a ouvir de há 3 anos para cá. Mas pela minha parte, como já tinha dito, não concordo (e sou apenas fumador mundano). Estaria plenamente de acordo com regras que dessem a liberdade aos proprietários dos estabelecimentos de permitirem ou não o fumo, conforme desejassem. Até podiam proibir todos. Mas imposições destas, com fortíssimo cunho moral vindo do outro lado do Atlântico, não, obrigado. Pequenos cafés de aldeia, que serviam de ponto de encontro, vão-se ressentir disso. Os bares e discotecas, que têm função de lazer e de convívio, estão transformados em estabelecimentos promotores de saúde. Nos casinos, por norma locais de excepção para o jogo, também estão na mira. Os clubes de jazz e as míticas imagens de espirais de fumo são meras recordações.
E é deprimentíssimo ver gente à porta dos cafés, à chuva e ao frio, a fumar. Não me venham dizer que têm todos os mesmo direitos. Uns podem estar lá dentro e outros não. Num shopping, onde raio se pode vir cá fora, com corredores e corredores? E não duvidem, daqui a pouco até cá fora vão começar a restringir o fumo. É esperar e ver.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Já começam a comemorar os cem anos da República?

Não é só a proibição do tabaco que marca o início do novo ano. Se isto tiver algum fundamento, então vai haver problemas graves. Mas da parte de um Ministério da Educação incompetente, insensível ao máximo, que é que se espera mais?
PS: afinal parece que era um boato. Assim sendo, até me parece que a Lei é razoável. Mas nunca fiando.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Ah, e como hoje passamos para 2008, um bom ano para todos. E um abraço especial de retribuição para o Pedro Correia
Cruzes e otomanos ofendidos

Segundo os jornais, um advogado turco queixou-se à UEFA e à FIFA da camisola que o Inter de Milão usou no jogo em que recebeu o Fenerbahce para a Liga dos Campeões. A dita camisola, equipamento alternativo à habitual nerazurra, tem uma enorme cruz vermelha a meio e lembrou-lhe "as cruzadas" e "os templários", e também "os dias sangrentos do passado", pelo que pediu a anulação do jogo e a perda dos três pontos ganhos pelo Inter.












Já temos visto casos bizarros como este, mas aqui a desfaçatez confunde-se com a ignorância. Seria bom dizer ao senhor turco em questão, além de o mandar dar uma volta ao bilhar grande, que a tal cruz vermelha da camisola (bem bonita, por sinal) é o estandarte de Milão, e que aparece também no emblema dos rivais AC Milan. E recordar-lhe que a bandeira do seu país, assim como a camisola da selecção turca, ostenta o crescente, símbolo da ameaça otomana sobre a Europa durante séculos.
O Benfica também tem uma desse tipo. Olha, é isso, vou comprar uma dessas e usá-la para quando for à Turquia. Ou não...Ou sim! Então eles lá não vendem tantas t-shirts vermelhas com o crescente e a estrela?
A melhor resposta a dar ao sujeito é que sim senhor, a cruz recorda as cruzadas de propósito, enaltecendo o seu papel higienizador, e que não só anunciam uma expedição para libertar Jerusalém como também o propósito de se cercar e tomar Istambul, expulsando de lá os infiéis turcos e devolvendo-lhe o nome de Constantinopla, recriando o Império Bizantino. Mas disso depois trata o AEK de Atenas, que o Inter também não tem de fazer o trabalho todo. Seja como for, palpita-me que essa camisola vai fazer sucesso no mercado. Mesmo com as queixas dos ofendidos do costume.

sábado, dezembro 29, 2007

Ainda sobre Benazir Bhutto, o Herdeiro de Aécio relembra outros casos semelhantes, particularmente nas dinastias reinantes no território do sub-continente indiano Indira e o filho, por exemplo). Recordo também o infame general Zia, que pereceu num suspeito acidente aéreo. Mortes destas são prática corrente por lá. E Ghandi não teve melhor sorte.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Benazir
Sabia à partida que era um risco que corria, mas não hesitou em voltar ao Paquistão, e apesar dos tremendos atentados que se verificaram à sua chegada, continuou em campanha, ou, temerária, a afrontar Musharraf. Por várias vezes esteve em perigo de vida. Acabou por perdê-la, por via de um dos muitos fanáticos que procurava combater e que crescem como cogumelos no Paquistão.
Benazir Bhutto podia não ser a melhor governante do mundo, e podia mesmo ser culpada de casos de corrupção com ganhos próprios. Mas esta mulher elegante, altiva, determinada e corajosa era o rosto da civilização e da liberdade, num país onde a barbárie corre pelas ruas. Pagou-o com a vida. Em vão? Impossível dizê-lo, mas nos próximos tempos será certamente, já que beneficiou os militares que governam o Paquistão e provocou o caos, a ira e o desespero, mesmo entre antigos rivais, como Sharif. O ano de 2007 acaba em tragédia. Mais uma, naquela região dominada por fanáticos.
Le mouton à cinq pattes

Não sabia, mas Fernandel e Louis de Funés entraram num mesmo filme, Le mouton à cinq pattes, embora o primeiro seja a personagem principal. Ou antes, AS personagens principais, já que interpreta nada menos que seis - o pai e os cinco filhos, todos muito diferentes, entre os quais há um padre que diz mal da sua vida por constantemente o confundirem com "o outro, o do cinema". Quanto a Funés, devia estar no início de carreira, a avaliar pelo cabelo que ainda tinha. Encontrar-se-à em DVD por cá? Tarefa complicada, senão inútil.



Afinal enganei-me: vi no fim deste artigo que houve pelo menos cinco filmes em que os dois actores contracenaram. A cara de cavalo de Fernandel devia fazer um belo efeito perante as expressões elásticas e alteradas de Funés...

segunda-feira, dezembro 24, 2007

O Nascimento

Prendas, doces e pratos vários, árvores, iluminações, pais natais, tudo isso é muito bonito. Mas o que se comemora mesmo nesta época é isto:


Votos de um Santo Natal.
Propostas de mais estados

Aproveitando a boleia do Kosovo, podem-se criar e recriar novos mapas da Europa. A República sérvia da Bósnia, pode-se tornar independente ou optar por se unir ao resto da Sérvia, como compensação. A Voivodina pode por seu lado querer guiar os seus destinos argumentando que faziam parte do Império Austro-Húngaro. E os albaneses da Macedónia? Ficarão eles quietos?
Depois, claro, há que recordar que em Itália Bossi ainda é vivo e proclamar a independência da sua querida Padânia, com o argumento de estar a ser roubado pela "Roma ladrona". O pior é se Veneza e Génova resolvem voltar ao antigo modelo de repúblicas marítimas, com Doge e tudo. A Toscana também podia regressar à autonomia dos Medici. E no Sul, sentindo-se ofendidos e ostracizados, aproveitavam para declarar o regresso do Reino das Duas Sicílias (que tem dois pretendentes Bourbons).
Claro que tudo isto podia dar ideias à Borgonha, submetida a séculos de colonialismo de Paris. Para não falar da ingovernável Bélgica ou das pretensões escocesas em serem um novo estado da Commonwealth. Por sua vez, a Baviera pode estar farta dos prussianos de Berlim, assim como os Hanseáticos de Hamburgo. Os landgraves de novo, seria boa ideia? E Gdansk, quereria ser de novo Cidade Livre? Ou Kalininegrado ser Koenigsberg? Mais vale não passarmos à Rússia, senão não saímos de lá.
De novo nos Balcãs, não sei se a Macedónia não voltará a piscar o olho aos tessalonicenses, como S. Paulo. A Grécia que tenha cuidado também com Creta, que a cultura minóica era bem diversa. E a Transnístria, aquela faixa de terra pertencente de jure à Moldávia, e que mais parece uma miniatura da antiga União Soviética? É para agora, o reconhecimento?
Resta-nos a vizinha Espanha. Catalães e Bascos já se sabe, vão mesmo para a cisão. dúvidas há se os navarros querem seguir os Euskera ou não. E os galegos? Aragão? Canárias? Estas era melhor não, senão a Madeira aproveitava a boleia. E depois os Açores, que para o efeito já têm hino e tudo.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

O erro do Kosovo


Mais dia menos dia o Kosovo é declarado estado independente, com reconhecimento onusiano. Apesar da "moratória" pedida ao novo governo da região para não declararem a independência unilateralmente (já viram como isso afectaria a assinatura do Tratado Europeu?), o objectivo é mesmo a criação de um novo estado, coisa que nem é disfarçada. Estranha ironia: tanto se combateu para impedir o alastramento da Grande Sérvia (e da Grande Macedónia, da Magna Grécia e da Grande Alemanha) e agora prepara-se tudo para aceitar a Grande Albânia. Parece que o país mais atrasado da Europa, antiga prisão isolada na margem do Adriático, tem no fim de contas mais estatuto do que se pensava.
Desde Rambouillet, acordo incompleto que escondia a independência por trás da autonomia, dos bombardeamentos da Sérvia e da ocupação do Kosovo pela NATO que o destino da região estava traçado. Por causa da maioria albanesa, a Sérvia mais uma vez se reduz, agora à sua mínima expressão (isso se a Voivodina também não lhe apetecer fundar um estadozinho). Uma humilhação a um único país como não se via desde a 2ª Guerra.
Não que tenham sido meras vítimas: foram os sérvios que começaram com a repressão nos anos 80, provocaram a guerra da secessão da Jugoslávia e tentaram fazer uma limpeza étnica no Kosovo. A NATO tinha a razão do seu lado quando lançou uma força para repelir tais operações, mas perdeu-a ao bombardear alvos incontáveis em solo sérvio e quando se começou a determinar a independência do Kosovo. Os sérvios pagam, mais uma vez, por todos os outros, a troco de muito pouco.
Mais descarado é o topete dos arquitectos de tais divisões, com os EUA à cabeça e boa parte da UE a segui-los. Se é este tipo de "cooperação" que tantos atlantistas louvam, então dispensa-se. Assim como recadinhos de José Manuel Fernandes (têm cá um efeito!), contra os "projectos da Rússia", que apoia a Sérvia e muito bem. É só mais uma bela amostra da incompetência internacional americana dos últimos anos. Clinton tem boa parte da culpa, mas Bush continuou-a da pior forma, como que a rematar o seu imenso desastre global. E ainda há os que se insurgem contra os que colocam a culpa no Presidente, vendo anti-americanismo ao raio-x. Pena que a visão que defendem conduza ao desastre e a anomalias como o Kosovo.
O presidente monárquico

Houve quem recordasse, por estes dias, a efeméride do assassinato de Sidónio Pais, na estação do Rossio, a 14 de Dezembro de 1918; a célebre frase "Morro bem, salvem a Pátria" acabou por ser desmentida nas memórias de Rosado Fernandes, cujo avô terá ouvido as afirmações verdadeiras. Mas convém também lembrar que a 16, o "Presidente-Rei" era substituído por um presidente monárquico (porventura o único que houve em Portugal), o almirante João do Canto e Castro, que, ironia das coisas, teve de reprimir a Monarquia do Norte, de Paiva Couceiro, e movimentos similares. Na ausência de biografia detalhada sobre o efémero presidente, que eu conheça, ao menos, é caso para pensar se viveria angustiado por ser obrigado a combater essa corrente, ou se se teria reconfortado no "cumprimento do cargo" e do "dever". Presidir a um governo ou à chefia de estado em Portugal por essa altura era tarefa complicada, sobretudo para um monárquico que devia ser visto com desconfiança pelos que o rodeavam entre Belém e S. Bento.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Polémicas Atlânticas e silêncios cúmplices



A polémica que dominou alguma blogoesfera nas últimas semanas parece-me um tufão em alguidar de água turva mas tem que se lhe diga.
O post que desencadeou toda a polémica é discutível, duro e tem o seu quê de brutal. ainda bem: as verdades devem ser ditas, e numa revista como a Atlântico, que pretende ser "politicamente incorrecta" estão claramente no espaço indicado. Mas assim não o entendeu a maioria dos seus elementos.

O assunto que serviu de base à polémica é uma risível causa menor. Tudo começou por causa do artigo de Francisco José Viegas sobre a reacção à campanha do Orgulhohetero, da cerveja Tagus.
Reacção essa absolutamente despropositada e ridícula, com os já célebres Panteras Rosa e o inevitável Bloco de Esquerda como "reaccionários" de serviço, falando de "opressão", "poder homofóbico" ou "extrema-direita. Uma coisa totalmente digna da Contra- Informação.

Como é seu timbra, André Azevedo Alves veio concordar com o posta usando uma linguagem que lhe é costumeira: as "patrulhas ideológicas". Tanto bastou para a explosão de Tiago Mendes no texto já conhecido.

Concordando com a crítica aos excessos da trupe rosa, não posso todavia deixar de reconhecer que Tiago Mendes estava carregado de razão em boa parte da posta. Quando diz Alguém que se assume como “ultra-conservador, neo-liberal de extrema-direita” (não me apetece procurar links), que vive obcecado com o patrulhamento do que ele apelida de extrema-esquerda, está coberto de razão. Poucas vezes encontrei na blogoesfera alguém tão intolerante como AAA, e que não hesita em defender avidamente Pinochets, Senadores McCarthys ou Pat Robertsons contra o " politicamente correcto da extrema esquerda", ou o que ele acha que pertence a esse grupo, como o New York Times, ou em invocar constantemente essa taliban evangélica que é Ann Coulter.
Outra parte na mouche é esta: dão-se alvíssaras a quem encontrar, naquilo que o André Azevedo Alves escreve há anos sobre o que quer que tenha uma dimensão social e humana, uma molécula que seja de amor, de compreensão ou de compaixão de inspiração cristã. Também já me tinha apercebido que sentimentos cristãos só mesmo o da Doutrina e um pouco de Fé. Caridade, Esperança, Alegria, onde estão elas?
Quanto à parte da excelsa educação do AAA, que ao que parece não é timbre do TM, ficam aqui uns bons exemplos dela. Não faltando os ditos "patrulhamentos ideológicos", claro.

O que mais me admirou foi a reacção dos Atlânticos, ou da sua maioria. Tudo a cair em cima de Tiago Mendes e a deixar incólume a pobre vítima dos "patrulhamentos ideológicos". Num silêncio cúmplice, parece haver muita simpatia pelas ideias Insurgentes, como silêncio tem sido o que impera sempre que se elogiam McCarthys e Ann Coulters. Quando Tiago Mendes denuncia estas ideias, Aqui Del-Rei que ele está feito com o Daniel Oliveira, a Fernanda Câncio e o Demo! Afinal, onde está a suposta direita liberal, o corte com a herança Salazarista do respeitinho, a defesa da liberdade de expressão? E que ideia é essa de ficarem todos tão chocados com a "falta de educação" (que nem é assim tanto, não o mandou a nenhuma parte menos condigna, nem insultou a sua mãe) do TM? Onde ficou guardado o "politicamente correcto", afinal? Ou uma qualquer defesa da classe impera?

Não me alongo mais. Apenas queria escrever mesmo sobre as atoardas impunes do AAA e o facto de finalmente alguém lhe esfregar aquilo no ecrã. E estou farto de fazer links. além do mais, é Sexta. Para uma muito melhor síntese do que aconteceu, fiquem com este último.