quinta-feira, maio 22, 2008

Nas asas das Águias - o êxodo dos judeus iemenitas

Ao ler este post de A. Teixeira publicado no Herdeiro de Aécio sobre as tribos israelitas e as migrações de judeus provenientes da África ou de outros territórios do Médio Oriente, lembrei-me do caso particular dos judeus iemenitas.

Perdidos na colónia britânica do Iémen, no canto sudoeste da Arábia, a velha comunidade judia, ali existente desde tempos imemoriais, encontrava-se na sua grande maioria na zona de Aden, o maior porto da região. Com a proclamação do Estado de Israel (de que se comemoraram há dias sessenta anos), a maioria muçulmana iniciou com um processo de hostilização e de agressões aos judeus, que envolveu incêndios a casas e armazéns e algumas dezenas de mortes. Tendo também notícias da criação do novo estado hebraico, os judeus resolveram então fazer o seu Êxodo e rumar a Israel. Como viviam praticamente na Idade Média, sem quaisquer meios motorizados (só havia um automóvel em Aden) ou telecomunicações, formaram uma extensa caravana, de contornos bíblicos, disposta a atravessar os desertos das Arábias, que muito surpreendeu as autoridades britânicas colocadas na ainda colónia.

Quando souberam da intenção de tal façanha, os israelitas resolveram formar uma ponte aérea para trazer todos os que quisessem ir para a "terra prometida". Assim, recorrendo a aviões americanos e britânicos, realizaram várias centenas de voos no espaço de ano e meio, transportando quase 50 mil pessoas, entre as quais se contavam igualmente alguns judeus da Etiópia. Os voos eram secretos, para impedir eventuais sabotagens árabes e garantir a segurança dos refugiados.

Todo este esforço ficou conhecido como Operação Tapete Mágico, ou Operação nas Asas das Águias. Se a primeira se percebe bem, a segunda precisa de uma explicação: no seu primitivismo, os judeus iemenitas não conheciam o avião, e ficaram naturalmente atemorizados com a perspectiva de voar naquelas máquinas enormes e brilhantes. Todavia, os seus sacerdotes encorajaram-nos a embarcar, dizendo que era apenas o cumprimento das profecias bíblicas, segundo as quais alcançariam a Terra Prometida montados nas asas de águias (em Êxodo 19:4 e Isaías 40:31). As águias em questão eram DC 3 americanos. Ainda que amedrontados, ficaram convencidos e deixaram que a sua fé os levasse de avião para Israel, adaptando-se rapidamente ao novo meio de transporte. Cumpria-se assim a profecia e chegaram novas levas de judeus a Israel, originários do sul da Arábia.
O que é que a EXPO comemorava mesmo?

Tendo em conta que passam hoje dez anos que abriu a EXPO 98, só estranho que ao anunciar isso ninguém se tenha lembrado do óbvio: que faz 510 anos que Vasco da Gama arribou a Calecute, culminando assim a primeira viagem marítima da Europa à Índia.

segunda-feira, maio 19, 2008

Os bancos, inimigos das cidades?
Tornou-se um lugar comum dizer que o capitalismo de hoje em dia é financeiro e especulativo, e não produtivo; que os bancos ganham lucros fabulosos por via dessa especulação; ou que a dada altura começaram a abrir agências bancárias como cogumelos.

Só que muitas vezes os lugares-comuns são a representação fiel da realidade, e os casos de cima seguem essa mesma regra. O capitalismo é muito mais especulativo, como se pode ver por estas subidas vertiginosas dos preços do petróleo e de bens alimentares, ou por alguns estranhos humores da bolsa. Poucas esquinas haverá sem a sua pequena agência bancária, anunciando as melhores taxas do mercado.

Essa mudança dos padrões económicos manifestou-se em diversas áreas, entre as quais uma certa imagem das cidades. Quem estiver atento verificará que os bancos, tirando as suas sedes históricas, funcionam normalmente em prédios modernos, sobretudo em mamarrachos revestidos a vidros fumados, castanhos ou pretos, construídos nos lugares onde antes havia edifícios da Belle Époque. Em Lisboa, nas Avenidas Novas, há inúmeros exemplos disso. Muitas vezes entalam-se entre pequenas pérolas arquitectónicas de há várias décadas, seriamente ameaçadas de demolição. Noutros casos, descaracterizam-se gravemente os edifícios. O exemplo que me vem à cabeça é o do Palácio Atlântico, no Porto, na Praça D. João I, outrora um dos mais elevados prédios do país, em belo mármore castanho, e hoje coberto por placas de cor creme. Felizmente, restaram as pinturas do pórtico e da entrada.
Depois, há os casos bem conhecidos de cafés de renome, palcos de tertúlias, discussões ou longos almoços de cavaqueira das "elites" locais, com as compridas salas de bilhar e vidraças para as movimentadas ruas da respectiva localidade, que ao longo do tempo foram desaparecendo para dar origem a mais uma agência com as tabuletas rosa, laranja, verde e todas as outras cores de que as instituições de crédito se quiseram munir para criar um efeito visual mais poderoso mas nem por isso mais atractivo. Tantas são que poder-se-ia atribuir a cada um dos principais partidos portugueses um banco diferente: ao PS caberia o BCP (na prática não anda muito longe disso), ao PSD o BPI, o PCP ver-se-ia convertido à classe dos capitalistas financeiros com o Santander Totta, o CDS arrebataria a estatal CGD, Os Verdes ficariam com o BES, e, tendo em conta o novo lilás que o BANIF adoptou, deixar-se-ia o banco madeirense aos cuidados do BE (além de que o Centauro que faz parte do novo símbolo é uma minoria que urge proteger).
Dessa poluição visual não sofrerá A Brasileira do Porto, se se tiver em conta as promessas de Artur Santos Silva. O edifício onde funciona o histórico café pertence ao BPI, e os actuais locatários, incluindo o Café di Roma, têm ordem de saída, apenas adiada por interposição de uma acção de suspensão. Seja como for, e mesmo crendo na palavra de Santos Silva, é um bom exemplo de como os bancos modelam, controlam e gerem as mudanças da vida urbana, condicionando as suas instituições e até o seu modelo de urbanismo. Estranhamente, o crescimento das agências é inversamente proporcional ao do número de bancos, com todas as fusões e aquisições que se verificaram nos últimos anos (apesar da entrada de bancos estrangeiros), que deram origem aos grupos actuais. Mas não haja dúvida: os letreiros berrantes são mesmo mais numerosos e ocuparam o seu próprio espaço, seja em blocos espelhados e desenhados à pressa, seja em edifícios de traça mais clássica que em tempos albergaram outras instituições, menos dadas a créditos e débitos, mas com outra relevância cívica e social. Era bom que pensássemos mais nisso ao dar de caras com mais um inestético anúncio bancário, ente mais uma dúzia num raio de 50 metros.
As previsões de Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa disse, nas suas habituais homilias dominicais nocturnas, que percebeu enfim que "Luís Filipe Menezes é emocionalmente instável". Que clarividência! Tantas previsões falhou que agora só se atreve a dizer o que toda a gente já está farta de saber fazendo isso passar por análises para o futuro.

quarta-feira, maio 14, 2008

Há meio século, o Porto aclamou Humberto Delgado

Este mês de Maio é mesmo a época de todas as efemérides, comemorações e aniversários. algumas sem grande importância, outras que merecem ser recordadas. É o caso do dia de hoje, quando passam 50 anos da maior manifestação política a que o Porto já assistiu: a chegada de Humberto Delgado, em plena campanha eleitoral.

O "General sem Medo", que dias antes atirara com o famoso "Salazar? Obviamente, demito-o" que tantas preocupações provocara no seio da União Nacional e da candidatura de Américo Tomás, candidatava-se com o apoio de quase toda a oposição política, numa lista de apoiantes que juntava nomes tão díspares como António Sérgio, Rolão Preto e Aquilino Ribeiro. Iniciou uma campanha "à americana" (Delgado era aliás um entusiasta da NATO e dos EUA), sempre em carros descapotáveis e com enormes comícios onde quer que fosse. O de Chaves, por exemplo, ficou famoso. Em quase todas as localidades, com pontuais excepções, era recebido com os eufóricos brados de "Humberto, Humberto". Até dada altura, os líderes da União Nacional, i.e. é, do próprio regime, pouco se importaram. Mas quando Delgado chegou de Foguete ao Porto, eram milhares e milhares os que os aguardavam em frente a S. Bento, enchendo toda a Baixa da cidade. O general teve de prescindir do seu carro para atravessar aquele mar de gente até à sede da sua candidatura, em Carlos Alberto, onde pela primeira vez falou à multidão entusiasmada. Houve também um comício que transbordou de emoção no Coliseu, e outras acções de campanha, que verdadeiramente atingiu a apoteose no Porto. As autoridades, até aí serenamente vigilantes, ficaram apreensivas. O Ministro do Interior, Trigo de Negreiros, em completo desespero, deu ordens ao Governo Civil para parar com as manifestações de apoio ao General, nem que fosse com recurso a disparos sobre a multidão; do Porto, obviamente, recusaram-se a cumprir qualquer ordem, recordando ao ministro os avisos que recebera.


O Estado Novo aprendeu aí a lição, e dias depois, em Lisboa varreu todos os que estavam no exterior do liceu Camões e que não puderam entrar para assistir ao comício. A contrapropaganda e as proibições para "manter a ordem" fizeram a sua aparição. Nas eleições propriamente ditas teve lugar a monumental fraude que é conhecida, com urnas trocadas, pides a votarem várias vezes numa "eleição divertida" e, em certas localidades, Tomaz obteve mais votos do que os inscritos, assegurando assim a sua escolha. Humberto exilou-se no Brasil e encontraria a morte às mãos da PIDE num caso ainda difícil de deslindar. Um erro crasso da parte dos seus mentores. O Estado Novo, que até 58 nunca tivera grande oposição nem preocupações internas de maior, sofreu um enorme abalo com a candidatura de Delgado, a que se lhe juntou a sua morte e a guerra em África. A recepção no Porto foi talvez a maior e mais visível demonstração desse abalo inicial, que tornaria Humberto Delgado, porventura com algum exagero, num herói nacional, e cujo nome passaria a figurar no cimo da Avenida dos Aliados, recordando esse 14 de Maio em que o repetiram em altos brados, como nunca se ouvira antes.

terça-feira, maio 13, 2008

Um dos maiores


Além do Boavista, outras tristezas há, como ficar em quarto lugar (esse sim, seria o lugar natural dos do Bessa). Mas despedida do Maestro Rui costa provocou uma comoção e um afluxo de público como este ano não se tinha visto na Luz - além de uma vitória segura. Precisámos de chegar à última jornada para isso. Mas sobraram apenas a homenagem e o orgulho, como deve ser próprio de um grande clube. Rui saiu em festa aplaudido pelos seus, como estava escrito. Vestirá outras roupagens doravante. E eu poderei um dia dizer que não faltei, que estive lá, a assistir ao último passe de grande classe de um dos maiores jogadores portugueses de sempre.

domingo, maio 11, 2008

A desgraça do Boavista
A decisão da Comissão Disciplinar da Liga acabou por ser arrasadora para o Boavista: a descida de divisão. Depois de todos os problemas financeiros, ameaças de rescisão e de insolvência, épocas sem ir à UEFA e Sérgios Silvas, só faltava esta machadada, a anteceder a inevitável pázada de terra que provavelmente será o destino dos axadrezados. Sem meios para acudir às suas inúmeras dívidas, o clube, se os eventuais recursos nada alterarem, tem o destino traçado, graças às manigâncias dos Loureiros.


Um cenário em que o xadrez se torna apenas negro e que me entristece muito. Cresci com a convicção de que o Boavista era o quarto grande, e por influência de familiares e amigos ganhei apreço pelo clube, aliás perto da minha casa. Aprendi a jogar lá ténis e refiz-me sócio anos mais tarde, quando pela primeira vez a armada do Bessa jogou na Liga dos Campeões (estreando-se com um embaraçoso 0-3 em casa, frente ao Rosemborg). Vi jogos memoráveis, uns contra a equipa da casa, em que o meu Benfica venceu categoricamente, e outros apoiando os do Bessa. Lembro com saudade os jogos contra o Sporting em 96, que ditaram a saída de Queirós, em 97, na meia final da Taça, em em 2001, o jogo chave do título desse ano; contra o Porto, em especial em Janeiro de 2001, no dia em que se inaugurava a Capital Europeia da Cultura, em que o Boavista ganhou o primeiro lugar que não mais largaria; exibições fantásticas contra o Borussia de Dortmund, o Kiev, o Hertha de Berlim, o golão do meio do campo de Mário Silva ao Feyeenord, o enorme roubo frente à Roma, o massacre do Manchester United e a desilusão com o Celtic, nas meias finais da UEFA. E o jogo com o Aves, em que o Boavista se sagrou campeão e desfilou avenida abaixo, em que o público invadiu o relvado, boavisteiros e não só, abraçando-se, levando pedacinhos de relva, festejando efusivamente um campeão novo em folha.

Também me lembro do velho Bessa, do pião, do Topo Sul onde ficavam os Panteras Negras, das bancadas laterais com telhado de zinco, por cima da qual, no prédio atrás do Dallas se viam alguns mirones, ou por onde fugiam algumas bolas mais altas. E da construção gradual do novo estádio, o primeiro a ser começado e o último a ser inaugurado, com um jogo contra o Málaga, ou do Jogo das Estrelas, de Figo, Zidane, Schumaker e companhia, numa bancada ainda sem cadeiras.


Tudo isso me enche de saudade das noites e tardes do Bessa. Revolta-me o laxismo de vários anos, o chico-espertismo do Major, que continua impune, a hipocrisia e parcialidade de Nuno Cardoso, que deu dezenas de milhões de Euros ao Porto e uma migalha aos axadrezados para a construção dos respectivos estádios, a ingenuidade a roçar a estupidez dos dirigentes actuais quando um qualquer Sérgio Silva acenou com cheques de brincar, e os pesos e medidas diferentes para os castigos aplicados.


A possível descida de divisão do clube ainda é o menos: com algumas ajudas financeiras, seria apenas algum tempo no inferno, antes de regressar à divisão maior. O problema são as ciclópicas dívidas e a falta de investidores de peso que ajudem a aliviá-las. Da CMP nada virá, já que o boavisteiro Rui Rio não está para aí virado. Os salário em atraso (alguns funcionários não recebem há coisa de um ano!), as dívidas a outros clubes, ao fisco e à segurança porão provavelmente um cheque mate ao Boavista tal como o conhecemos. A SAD declarará falência, o clube fará ligeiras alterações da sigla e terá de recomeçar do zero, das distritais. Com a popularidade que apesar de tudo conserva, galgará em poucos anos os diversos escalões nacionais, tal como teve de fazer nos anos sessenta, em que andou pela terceira aos chutos no pelado campo do Bessa, onde toda a vida jogou. Voltará ao escalão maior e à Europa do futebol, recuperar as memórias das equipas das "camisolas esquisitas" que chegaram a provocar espanto e temor nas competições da UEFA.
A voz de Humberto
Hoje ouço pela primeira vez a voz do General no programa que está a passar na RTP1 da autoria de Lauro António.Uma voz gravada e desvanecida pela técnica do tempo mas ainda solta e determinada.De quem sabia o que queria.Como teria sido Portugal caso Salazar fosse demitido na altura?

Boa pergunta. Será mais uma razão para um conjunto de "What if"? No que toca à Guerra do Ultramar, em especial, pergunto-me como é que o Presidente do Conselho nomeado por Delgado reagiria.

Também nunca tinha ouvido as palavras do "General Sem Medo". Aquelas que foram reveladas, pronunciadas num comício em Chaves durante a campanha de 58, eram firmes, tronitruantes, e sobretudo iradas, muito iradas.

quarta-feira, maio 07, 2008

O futebol precisa de dinheiro, não é?
O Trofense subiu e vai-se estrear na primeira divisão de futebol. Seguir-se-lhe-à o Rio Ave, clube de Vila do Conde que dista uns 15 quilómetros da Trofa, ou o Vizela. O quarto classificado, o Gil Vicente, já não tem hipóteses.
O que é que estes 4 clubes têm em comum? Ficam todos na região entre Ave e Cávado, que já tem o Vitória de Guimarães e o Braga na primeira divisão e o Varzim e Desportivo das Aves na divisão de Honra, além do quarteto referido. O que eu gostava de saber é como é que uma das regiões económica e socialmente mais deprimidas do país, que assiste a uma crise aguda da sua indústria e implora pela ajuda do Governo e dos empresários, tem meios para colocar tanto clube de futebol nos escalões profissionais. O dinheiro falta num lado mas aparece noutro.

segunda-feira, maio 05, 2008

A Tragédia da Superga

 
Maio parece ser o mês de todas as efemérides. Algumas há que são mais facilmente recordadas, sejam mais recentes (o desaparecimento de Maddie, por exemplo), ou menos (o Maio de 68). Mas hoje vi no jornal um acontecimento que, embora algo esquecido, comoveu a Europa da altura do pós-guerra.

Aqui há tempos falei do desastre aéreo de Munique que vitimou parte da equipa do Manchester United, em 1958. Mas anos antes tinha havido um ainda pior. Em 1949, a fabulosa equipa do Torino veio a Portugal para um jogo particular com o Benfica, como convidado para a homenagem ao jogador Francisco Ferreira. Os rivais da Juventus tinham na altura a melhor equipa italiana, comandada pelo atacante Valentino Mazzola, muitos dos quais internacionais da Squadra Azurra, e estavam quase a atingir o quarto scudetto consecutivo. No regresso a Turim, depois de jogarem com o Benfica, o avião onde seguiam envolveu-se no nevoeiro, e quando tentava descer para recuperar visibilidade, com deficiente apoio radiofónico, bateu violentamente contra a Basílica da Superga, numa colina perto de Turim. Todos os que seguiam a bordo do avião pereceram.
O acidente provocou viva comoção em Itália e por toda a Europa. Em Portugal, onde os jogadores do Grande Torino tinham realizado a sua última partida, milhares de pessoas acorreram à Embaixada Italiana, na zona do Paço da Rainha, em Lisboa, para assinar o livro de condolências, como atesta o recente livro de fotos dos anos 50 da autoria de Joaquim Vieira. Nas quatro jornadas finais do campeonato italiano, o Torino lançou os jovens da sua formação. Todos os outros clubes os imitaram, e os turinenses venceram o campeonato. Só seriam novamente campeões nos anos setenta, altura em que também ganharam uma Taça UEFA. Depois disso, alternariam subidas e descidas na Série-A. Nunca mais surgiu uma equipa do Torino como aquela dos anos quarenta. O filho de Mazzola, Sandro, tornar-se-ia ele próprio um craque, mas pelo Inter de Milão. A tragédia da Superga seria um choque terrível para o futebol italiano e para o clube que continua, apesar das adversidades, a ser mais popular na sua cidade do que a poderosa Juventus, sua adversária eterna no Derby della Mole.

quarta-feira, abril 30, 2008

Turville e Dibley


Na última (e fabulosa) obra de Ian Mc Ewan, Na Praia de Chesil, tentei imaginar como seria a campestre aldeia de Turville, berço do protagonista Edward Mayhew. Só me veio à memória, como exemplo de pequeno povoado inglês no meio de campos verdes, capelas góticas e velhos lordships, a fictícia Dibley, cenário da série de britcom sobre as desventuras da vigária da aldeia e dos seus hilariantes (e algo representativos da sociedade rural britânica) moradores.

Qual não é o meu espanto, ao tentar saber mais coisas sobre Turville, ao descobrir que a aldeia do livro é mesmo a Dibley da série, com outro nome! Tal como eu a havia imaginado. Coincidência incrível ou sinal de que a velha "Inglaterra verde" está muito mais restrita do que pensava?
O caos laranja
Imagem retirada do Abrupto


Gostava de ter postado mais sobre a situação interna no PSD, mas desisti. A toda a hora e momento vem mais uma novidade, surge um novo candidato, divulga-se mais um apoio. É o caos laranja. As agências noticiosas e de faits-divers devem esfregar as mãos de contentes.

Com o avanço de Manuel Ferreira Leite, as coisas pareciam ter tomado um rumo, tal é a aura sebastianista da temível ex-ministra. Aguiar Branco desistiu logo, e Passos Coelho parecia ser um actor secundário (para não falar de Patinha Antão e Neto da Silva, simples figurantes). Mas eis senão quando Alberto João, himself, entra em cena, apoiado pelas distritais do Porto, Lisboa e Algarve, chefiadas pelas promessas de cacique Marco António, Cruzeiro e Bota, outro eterno pantomineiro laranja. A coisa começou a tomar ares de ópera bufa. Finalmente - e quem mais poderia ser? - o Menino-Guerreiro Santana Lopes, não contente com o lugar de chefe da bancada parlamentar, decide pela enésima vez candidatar-se à liderança, movido pelo eterno bicho que o levou a tantas candidaturas e ainda mais abandonos de projectos a meio. Motivo? "Portugal", claro está. De ópera bufa, passámos a teatro de revista do mais puro. Talvez seja a antiga promessa de reabilitar o Parque Mayer.
Jardim parece andar a gozar com tudo e todos. Amuou, voltou ao palco elogiando Santana, depois pediu aos militantes para não votarem em nenhum, proferiu novas afirmações ambíguas, etc. Num par de dias rivalizou com Menezes no dito por não dito. Entre as várias frases costumeiras, disse que estava "ideologicamente próximo de Santana". De que ideologia falará ele? Do tão propalado liberalismo? Impossível, com o peso do sector público na Madeira e o Governo Regional a imiscuir-se em tudo o que é crítica ao seu desempenho. Só se for nas off-shores. A social-democracia é algo musculada, e Santana nunca deixa cair o PPD. Conservadorismo? Uns laivos. Mas do que se trata mesmo, e ninguém disse em voz alta, é de populismo, tão bem simbolizado nas festas do Chão da Lagoa e no festivamente anunciado fim da crise económica por Lopes naquele período insano em que presidiu o executivo. O velho populismo que, mais do que qualquer outro partido, corrói o PSD, essa agremiação outrora comandada por uma elite liberal e com sentido de estado, mas que contou sempre, na sua maioria, com boa parte do aparelho de estado herdado do Estado Novo, os seus regedores locais e todas as classes sociais nele representadas.

E agora? Ferreira Leite ainda parece a mais bem colocada, mas as famosas "bases" podem reservar-lhe outra sorte. Ademais, nem todos se esqueceram com a nossa Dama de Ferro à lusitana teve um percurso aos altos e baixos nas finanças, com escasso sucesso, e que anteriormente tinha sido a Maria de Lurdes Rodrigues do seu tempo. Passos Coelho tem o problema da inexperiência e da visibilidade de cargos políticos de relevo, e não será certamente a presidência da Assembleia Municipal de Vila Real a dar-lha. Antão e Silva terão os seus minutos de fama em congresso. E do referido sector populista? Tenho as maiores dúvidas em acreditar que Jardim avance. Como não é parvo, sabe que fora da Madeira terá todas as dificuldades em se afirmar, e que lhe farão a cama por trás. Sem compreender o mundo que o rodeia como sempre, Santana é bem capaz de ir até ao fim, mesmo que não tenha mais apoios que Gomes da Silva e um ou outro iludido ou santanette. Ainda assim, mas também prevendo os escassos apoios de Lopes, continuo a pensar que Menezes não prolongará assim tanto as suas férias e que ainda terá os seus trunfos na manga. Até fins de Maio ainda vai correr muito sumo de laranja.

quinta-feira, abril 24, 2008

Dia Mundial do Livro

(e do Direito de Autor, para sermos literariamente correctos)

A razão? Uma velha data, da qual não há certezas, mas que pode ter sido, incrivelmente, um dia de luto para a literatura mundial: a 23 de Abril de 1616 morreram Miguel de Cervantes Saavedra e William Shakespeare.














Por vezes dão-se estas coincidências. Pois não desapareceram Bergman e Antonioni também no mesmo dia?

domingo, abril 20, 2008

Personalidades marcantes
Ainda a recuperar de uma noite longa e festiva nos arredores de Santa Maria da Feira, tento ver se há novas candidaturas à liderança do PSD e confirmo os que já avançaram. Aguiar Branco e Passos Coelho já se apresentaram à chamada. Dois nomes de quem não se sabe exactamente o que esperar, porque não sendo objectos regulares da procura dos media nem oradores particularmente efusivos ou mesmo talentosos, também não se lhes conhece muito bem as ideias.
Mais espantoso é o nome de Neto da Silva, cujo currículo político apresenta uma passagem pelo governo de Cavaco como Secretário de Estado do Comércio Externo, e que entre outras ideias de estalo quis construir uma torre moderníssima e altíssima para escritórios e centros de reunião, em plena margem do rio Minho, perto de Cerveira, entre a água, os campos e a serra. Não seu que hipóteses é que ele pensa que tem. Para o grande público, e provavelmente para as "bases" do PSD, o seu nome não deve dizer nada. Para mim, que já joguei futebol contra ele, posso considerá-lo uma personalidade particularmente "marcante". Espero que a sua estratégia seja menos perigosa para os adversários políticos do que para os do campo.
Pelo correr dos dias teremos oportunidade de ver mais nomes dos 834 que vão concorrer às directas. Patinha Antão mostra-se igualmente interessado. E ainda falta o mais esperado: Menezes. Será que o Benfica vai seguir os passos do PSD, dadas as semelhanças das respectivas situações?

sábado, abril 19, 2008

Alberto João Jardim acha que o PSD não pode ser dirigido por Aguiar Branco porque ele pertence à "alta burguesia do Porto", e o seu partido tem "raiz popular". Acho que Sá Carneiro concordaria totalmente com ele, contra a tal "burguesia do Porto", assim como Miguel Veiga.
A não-surpresa
A demissão de Menezes pode espantar nos primeiros segundos. "Então o homem está lá há meia dúzia de meses, promete grandes feitos,e agora via-se embora?" Mas quando se começa realmente a pensar, conclui-se que tudo aquilo bate certo. não há político mais incoerente, troca-tintas e impulsivo em Portugal do que Menezes. É certo que a coerência não é das maiores virtudes da classe, mas o ainda líder do PSD é um portento desse vício. Desde que disse que Gueterres de devia demitir (como demitiu) e meses mais tarde considerou tal acto "uma fuga vergonhosa" que isso se tornou claro. Nos últimos tempos nem prestei atenção às suas atoardas, excepto as demonstrações pelos seus subalternos de chicana política da mais baixa, no caso das acusações a Fernanda Câncio, sobretudo pelo patético Gomes da Silva, o genial inventor da "cabala involuntária". Tornaram-se tão comuns que já nem tinham graça.
Como o Menezes líder é igual ao Menezes pré-líder, e depois de ver as declarações de Mendes Bota, acredito piamente que se vai candidatar novamente às directas, com a "vaga de fundo" que Santana Lopes e Ângelo Correia estão já a lançar.

quinta-feira, abril 17, 2008

Reviravolta amarga

A ganhar por dois a zero ao intervalo, em Alvalade, com um banho de bola e os 9 mil (!) adeptos esfuziantes, levamos cinco do Sporting na segunda parte, contra apenas mais um. Eu sei que emoção e incerteza não faltam nestes derbys, mas escusavam de fazer esta figura depois de nos darem esperanças reforçadas. Dirigo-me, claro está, a Chalana e respectiva equipa técnica, que os jogadores cumpriram ordens e deram o que puderam. Não fossem as imbecis substituições e outro seria o resultado. Assim é mais um a juntar a todos os emocionantes Benfica-Sporting e vice-versa. Sempre ficam com alguma margem de manobra perante os 6-3, os 5-0 também para a mesma Taça, e não apenas os inconsequentes 7-1. Cada vez mais a época se aproxima do fim, graças a Deus. Só é pena não irmos à final da Taça. Afinal de contas, já há uma longa tradição de vencer finais do Jamor ao Porto.
As eleições no tempo de D. Camilo



No meu último post faço uma alusão às aventuras D. Camilo. Os livros da autoria de Giovanni Guareschi do padre com sangue na guelra, pároco de Brescello, uma aldeia da Emilia Romagna no vale do Pó, e a sua eterna luta com Peppone, o líder comunista local, de look à Estaline e tão belicoso quanto o seu clerical adversário, são um bom testemunho do confronto no pós-guerra entre a Democracia Cristã e o PCI, numa região marcadamente "vermelha". Os filmes, protagonizados por Fernandel deram-lhes uma cara e ajudaram a imortalizá-los. Conheci tais personagens ainda na adolescência e devorei então todas as obras relacionadas com eles. Anos mais tarde atravessei de comboio aquela região, e, pela descrição dos romances, pude perceber ao de leve o espírito que dela emanava: uma enorme planície, atravessada pelo Pó, barrado por vários diques, atravessada por campos imensos, despontando aqui e ali algumas aldeias, dominadas pelo seu campanário. À volta, um imenso e gelado nevoeiro de Inverno. Aquela região simultaneamente tão populosa e tão isolada era o cenário das aventuras de D. Camilo e das lutas locais entre os dois maiores partidos de então, hoje desaparecidos, cujos herdeiros, em parte, se aliaram. Na altura, não faltavam discursos violentos, e algumas acções envolviam pancadaria a ameaças. A DC tinha o beneplácito papal, e o PC tinha ainda a inspiração de Moscovo.
Lembrei-me disto por causa de um trecho escrito por Pedro Mexia, onde fala das primeiras eleições gerais no pós-guerra, que é pano de fundo dos romances de Guareschi.



As personagens passaram, como o seu tempo marcado pela divisão e pelas recordações das agruras da guerra. Mas não foram de modo algum esquecidas e ornaram-se mesmo atracções turísticas. Hoje em dia, existe em Brescello um museu dedicado a D. Camilo e a Peppone. Até o clube desportivo local adoptou para símbolo as suas efígies.


domingo, abril 13, 2008

Itália: sempre entre dois blocos

 

A Itália vai a votos. Uma banalidade, nos últimos sessenta anos. Como nação unida, raras vezes teve estabilidade: um pouco na República Romana, com alguns imperadores, como Augusto, e na monarquia dos Sabóia - em especial com Mussolini, por razões óbvias. Entretanto, assistiu ao derrube e assassínio de imperadores, às invasões bárbaras, à constituição de pequenos estados, a estar entre os Bizantinos, os Habsburgos e os Otomanos, a suportar Napoleão, e finalmente a unir-se sob a domínio piemontês. Pelo meio houve reinos divididos, ducados e condottieres, repúblicas marítimas e estados pontifícios. Seguiu-se a 1ª Guerra, o estado fascista, a 2ª Guerra e a invasão alemã, suportando a fantoche República de Saló, e depois o parcial referendo que criou a república que não pára de coleccionar governos. Desde o início que a Democracia Cristã e o Partido Comunista se impuseram face aos demais, corporizando uma espécie de luta Vaticano vs Moscovo, de que os livros e filmes de D. Camillo são fiéis testemunhas. A DC, mesmo nunca tendo por si só alcançado a maioria absoluta, logrou sempre coligar-se com outros partidos, como o Liberal, o Republicano, o Social Democrata, e a certa altura, o socialista, quebradas as últimas amarras com o PCI. Ao longo das décadas, uma classe política misturou-se com o estado, envelheceu e corporizou os seus piores vícios. O PCI, arredado por vontade parlamentar, paulatinamente afastou-se da URSS, tornou-se eurocomunista nos anos setenta, e com o fim do Pacto de Varsóvia virou socialista, convertendo-se nos Democratas de Esquerda. Já nos anos noventa, os sucessivos escândalos fizeram enfim ruír a massa governamental e implicaram o fim dos partidos que a compunham. Nasceram então várias pequenas formações democratas cristãs e socialistas, deu-se espaço de crescimento à Liga Norte e ao seu truculento líder Umberto Bossi, e até o neo-fascista MSI, que nos anos setenta tivera um crescimento notório, se dividiu, tendo a maioria comandada por Alessandro Fini criado uma nova formação conservadora.

A maior novidade desse terramoto político foi a entrada da política do boss da comunicação social italiana e presidente do AC Milan, Sílvio Berlusconi, e a criação do seu mediático e audiovisual partido Forza Italia, que logo em 94 levou a melhor ao DS e alcançou o governo. Poucos meses depois da sua estreia política Berlusconi, aliado a Bossi e a Fini, chegava a chefe do governo. Manteve o cargo durante dois anos, até que uma vasta coligação chefiada por Romano Prodi, onde se acantonavam centristas, socialistas e ex-comunistas, o derrotou. Mais cinco anos de Prodi, Massimo D ´Alema e Amato e Berlusconi regressou ao poder. E, em 2006, com a sua Unione, outra coligação que ia dos comunistas aos centristas católicos, Prodi, depois de 5 anos à frente da Comissão Europeia, voltava ao governo. Até à recente dissolução da câmara dos deputados e novo acto eleitoral, que se prevê que será ganho por Berlusconi, pela terceira vez.

O cenário é cada vez mais instável e não há razões para optimismos. A economia cai a pique, há um descrédito quase total da classe política, e a crise social está instalada, com novas reivindicações regionalistas da Liga Norte e com a sintomática crise do lixo em Nápoles, que transformou a bela cidade vizinha do Vesúvio num contentor gigante controlado pela Camorra. Toda a ingovernabilidade das últimas décadas é a principal culpada, evidentemente. Mas depois das fracturas que varreram a antiga classe política nos anos noventa, esperar-se-iam melhoras. Que não aconteceram. Há partidos para todos os gostos em Itália - quem não se lembra do célebre partido de Ciciollina, depois de sair do correspondente ao nosso BE? Por causa do seu sistema proporcional, as câmaras de deputados e senadores está dividida em pequenos blocos que se fazem valer da sua necessidade para obterem as suas reivindicações. São o terror de qualquer governo, e exactamente por isso é que o executivo Prodi caiu. Mais a mais, não houve tempo para referendar uma reforma eleitoral que permitiria uma menor divisão parlamentar e um maior predomínio dos principais partidos, o que contraria Berlusconi e o seu novo partido-coligação, o Partido da Liberdade. Talvez para forçar tais reformas, Walter Veltroni, ex-jornalista, ex-presidente da câmara de Roma e actual líder dos Democratas, o novo partido com inspiração americana que engloba a Oliveira, a Margarida e os antigos Democratas de Esquerda, apresentou-se sozinho, sem coligações ou outros escolhos. No entanto, a incapacidade do governo de Prodi em resolver quaisquer problemas urgentes, até pela camisa de forças ideológicas que tinha, fará com que Sua Emitenzza regresse ao governo.


Berlusconi, nas suas famosas e humorísticas tiradas, já se comparou a Jesus Cristo e a Napoleão. Em qualquer país normal, uma pessoa que diga tais coisas estaria no manicómio. Em Itália, está à frente do governo. Só mesmo em tal nação, ou conjunto de nações transalpinas, é que uma personagem tão odiada e amada, tão ridícula quanto poderosa, é que dominaria a cena política. Duvida-se no entanto que o seu novo partido de direita consiga resolver os problemas que não eliminou em vários anos de anteriores governos. O antigo neo-fascista Fini espreita a sua oportunidade, com paciência, embora esta tenha limites, como já demonstrou. Ao lado, a democrata-cristã UDC, de Buttiglione, já não quer nada com os antigos aliados. E à esquerda, Veltroni sabe que o futuro será seu, agora que se libertou da tralha ideológica e dos anacrónicos pró-comunistas. Não sabe é quando, como Durão Barroso. Nem o que poderá fazer quando um dia chegar ao poder.

quinta-feira, abril 10, 2008

O cinema de luto
O último mês acaba por ser um autêntico velório cinematográfico. Arthur C. Clarke antes da Páscoa. Não sendo um leitor de ficção científica, a sua obra apenas me chegou através do kubrickiano e a todos os títulos magnífico (mas também inquietante) 2001: Odisseia no Espaço. Mais ou menos no mesmo dia uma operação à partida sem problemas levou-nos Anthony Minghella, realizador que tinha ressuscitado os clássicos românticos com O Paciente Inglês, voltado a Itália com o remake de O Talentoso Mr. Ripley, e de que no ano passado nos tinha chegado um interessante Assalto e Intromissão, que não teve a repercussão que certamente merecia.
Agora, e com cinco dias de intervalo, perderam-se mais dois nomes do cinema: Charlton Heston e Jules Dassin.
O primeiro quase dispensa apresentações, tantas foram as vezes que os filmes que protagonizou passaram pelo pequeno ecrã. Conhecido pelos seus épicos, o filme que normalmente se alude à laia de lembrança é Ben Hur, com o qual ganhou o Óscar de melhor actor em 1959. Mais depressa recordo Os Dez Mandamentos, o correspondente à Barragem de Assuão das telas, quase impossível de se ver seguido na totalidade (só consegui uma vez, depois de umas quantas tentativas), obra que deu estatuto lendário e megalómano a Cecil B. de Mille. Nos últimos anos era notícia sobretudo por ser o presidente do controverso American Rifle Association, que defende o uso das armas pelo cidadão comum, na prossecução de um ideal caro aos americanos. Passou pela última vez nas telas como o moribundo macaco do do file de Tim Burton Planeta dos Macacos, remake de um filme de que ele próprio tinha sido protagonista.
Jules Dassi teve um percurso diferente. Nos Estados Unidos realizou vários Film Noir, mas com a política de perseguição McCarthista emigrou para a França e Grécia, onde realizou filmes como Topkapi, e sobretudo Nunca aos Domingos, do qual era protagonista, mas de onde quase se viu arredado pela inesquecível Melina Mercouri, com quem viria a casar anos mais tarde, e pela sua banda sonora retratando a vida popular no Pireu.
Março e Abril "só" nos levaram estas memórias vivas do cinema.

La Lys - um morticínio há noventa anos


Há noventa anos acontecia o desastre (quase anunciado) de La Lys. Nas trincheiras da Flandres, a IIª Divisão do CEP - Corpo Expedicionário Português - sofria uma humilhante e enormíssima derrota. Num só dia, sete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros pela poderosa máquina de guerra prussiana, superior em número, em treino e em equipamento. O CEP, a que alguns previdentes chamaram Carneiros Exportados de Portugal, era composto por soldados mal treinados e armados, com pouca experiência de combate, comandados por uma oficialidade medíocre, habituada aos quartéis, a África (poucos) e à pancada de rua tão comum nesses tempos atribulados. Estavam enfraquecidos pelo tempo e pelas condições a que estavam sujeitos, desmotivados e sem os reforços previstos. Tinham ido em grande parte contrariados, obrigados pela República, que pretendia a todo o custo uma qualquer glória que a legitimasse a nível internacional. Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães, "a importância portuguesa no mundo" e até que Portugal seria invadido. Ou seja, um conjunto de desculpas esfarrapadas para legitimar tal intervenção para além da estrita defesa das colónias, e que aliás era desaconselhada pela Inglaterra, que apenas aí via um estorvo.
O resultado de Afonso Costa, João Chagas e Jaime Cortesão andarem a brincar às guerras é conhecido. Em quatro horas dessa madrugada de 9 de Abril, milhares de mortos abatidos pela artilharia germânica na forte ofensiva comandada pelo lendário Erich Von Ludendorff, pânico generalizado entre as hostes portuguesas, e o avanço rápido dos alemães entre o vazio provocado pelas brechas da 2ª divisão.

Os portugueses foram carne para canhão nesse desgraçada aventura, uma das maiores derrotas lusas a par de Alcácer-Quibir ou Alcântara. Portugal ficou entre os vencedores da Guerra, mas pouco recebeu por isso. Pelo contrário, os gastos deixaram as finanças públicas em estado lastimável, escassearam os bens de primeira necessidade e deram-se revoltas populares violentamente rechaçadas. Curiosamente, morreram quase tantos soldados como em toda a Guerra Colonial. Invoca-se o nacionalismo do Estado Novo para justificar a pesada operação mantida em África. Mas ao menos aí defendíamos o que era nosso e a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente. Em La Lys, defendíamos apenas uma noção republicana de nacionalismo enviando uns pobres coitados que mal sabiam disparar uma arma para as horríveis trincheiras, fazer frente a forças imensamente superiores. Uma triste memória e um crime que a República em vão tentou apagar, mas que seria mais um motivo para a sua impopularidade e subsequente queda, em 1926, curiosamente às mãos do comandante dessa desafortunada 2ª divisão do CEP: Gomes da Costa.



Paz às suas almas, desses pobres soldados tombados a 9 de Abril de 1918. Há noventa anos.

Atlântico
A Atlântico está suspensa, desde este mês, por falta de fundos de publicidade. É possível que volte, mas não será certamente fácil. Mas não é uma situação que espante: numa altura em que as publicações em formato papel estão em queda, uma revista liberal-conservadora de pensamentos, ideias e ensaios, com algumas secções de descompressão pelo meio e focada na política, com custo de 4 €uros, jamais teria grande mercado (ironicamente, uma das "damas" de alguns dos seus colaboradores), e se me é permitido, ultimamente o seu grafismo, como aquela duvidosa língua pintada com terceiromundistas bandeiras da CPLP, deixava muito a desejar. Talvez tenha aberto o caminho para outras publicações do género, inclusivamente o seu próprio regresso (lembremo-nos dos consecutivos projectos de Miguel Portas). Durou três anos e já é muito bom. Até lá, teremos sempre o blogue.

quarta-feira, abril 09, 2008

O galo e o ódio

Domingo à noite tivemos uma repetição do Benfica-Boavista do ano passado, desta feita no Bessa. Bolas na barra, duplas defesas impossíveis, bolas acrobaticamente cortadas sobre a linha, e agora até penaltys sonegados por essa incompetência de apito na boca chamada Lucílio Baptista. Um massacre constante do Benfica intervalado pelo penalty que Quim defendeu e por outra oportunidade de golo que os homens de xadrez tiveram em contra ataque, na segunda parte. Um daqueles desafios que se durasse até à alvorada ficaria inevitavelmente em zero-zero. É daqueles actos de feitiçaria de que o futebol é pródigo, e que tão injustamente castigam quem se esforça.
Na véspera, o Porto lá conseguiu o anunciado tri-campeonato com meia dúzia dados aos pobres amadorenses, que ultimamente não sabem o que são salários. A festa pelas bandas do estádio durou até às tantas, mas felizmente, como estava em Lisboa, não dei por nada. Ouvi buzinas, sim, mas por causa das filas de trânsito que entupiam os acessos entre as zonas de Belém e Docas. Ainda assim, e apesar do título estar nas mãos, o presidente da colectividade andrade, acossado pela acusação de corrupção, veio fazer, na inauguração de uma sala portista qualquer, um discurso em que atacou aquilo que considera ser "os vermes" e "o ódio" que "corariam de vergonha e morreriam de inveja" e prometeu o Tetra para o ano. Inconcebível como o tipo que mais "vermes" alimenta e mais ódio espalhou no futebol português continua a fazer-se de vítima e a achar-se acima da justiça, mesmo quando ganha o campeonato mais fácil da sua carreira. Ao fim de vinte e tal anos de carreira de sucesso no futebol português, Pinto da Costa continua com a sua política do "contra tudo e contra todos". Há pessoa que por mais que ganhem, nunca atingirão o mínimo do sentido de grandeza

terça-feira, abril 08, 2008

Lembranças de oitocentos

Não há nada com o velho Eça para mostrar que algumas desgraças não são assim tão inéditas nem "sinais dos tempos" como isso. E que ciclicamente as rebeldias dos discípulos acontecem. A tecnologia é que é diferente.

Um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e límpido foi sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas (...). O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio e remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte; mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as ideias. Ao meu lado, um velho, encolhido na alta gola dum macfarlane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho:
- Que querem eles? É embirração com o professor... é política?
O velho abanou a cabeça, espirrando:
- Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem ideias... Creio que queriam cançonetas... É o amor da porcaria e da troça.
Então, indignado, berrei:
- Silêncio, brutos!

De A Cidade e as Serras, bem lembrado n´O Cachimbo de Magritte

quinta-feira, abril 03, 2008

Já à disposição do público

Accelerate: o último álbum dos R.E.M.

E também alguns comentários blogoesféricos sobre o novíssimo Opus.

terça-feira, abril 01, 2008

Não é piada de 1 de Abril

Na semana de todos os escândalos desportivos, em que Pinto da Costa foi finalmente acusado de corromper árbitros (provando-se assim que não é omnipotente), o mais bizarro de todos vem-nos de Inglaterra.

Max Mosley, presidente da Federação Internacional de Automobilismo e filho de Oswald Mosley, é o protagonista de uma reportagem do controverso News of the World, porque terá andado numa orgia sado-masoquista com cinco prostitutas num cenário com motivos nazis, a lembrar um campo de concentração e dando ordens em alemão.
Se há escândalos envolvendo criatividade, este é um deles.  A ser verdade, provavelmente o material usado pertencesse ao espólio do seu extremoso pai. Prova-se mais uma vez que quem sai aos seus não degenera.

sábado, março 29, 2008

Paródia parlamentar
A proposta de casamento unilateral deixa-me com seriíssimas dúvidas, tendo em conta o elevadíssimo número de divórcios; além do mais, parece considerar o matrimónio uma relação banal, sem carácter permanente, um contrato tão impessoal como outro qualquer.
Mas pior do que isso terá sido a sessão no plenário onde se discutiram as várias propostas: o BE com queixas do tipo "roubaram-me a minha proposta fracturante"; o PS (sobretudo a sua Jota) com um "toma lá que a nossa proposta é mais fracturante que a vossa" totalmente explícito; e o CDS, pela voz do impagável Nuno Melo, com uma história pueril da Maria e do Manel e do golpe do baú.
Provavelmente ontem era de dia de paródia no hemiciclo e eu não sabia de nada. Sempre é melhor do que as cenas de pancadaria de Taiwan.

quinta-feira, março 27, 2008

O perseguido
Muito bom, o artigo que Rui Tavares escreveu ontem no Público. Desmonta peça por peça o choradinho que Pacheco Pereira decidiu fazer a propósito dos cinco anos desse rotundo fracasso mais conhecido como "guerra do Iraque", a mesma que o Presidente americano deu como terminada em Abril de 2003. Parece que aqueles que defenderam a necessidade da guerra nessa altura (e se mantêm na sua) estão a ser "perseguidos", e que é "proibido" tomar essa opinião nos dias que correm. Para além disso, diz que as razões não foram o argumento das armas de destruição maciça nem o de Sadam apoiar a Al-Qaeda, o que é absolutamente falso e só pode enganar quem estiver distraído.
Tratando-se de Pacheco Pereira, não sei se as palavras dele devam causar mais indignação ou dó. Uma pessoa com inegável independência de pensamento e capacidades intelectuais como o colunista do Público devia conservar um pouco de pudor ao afirmar tais coisas. A mim a memória não me falha, e lembro-me perfeitamente que em 2002/03, quando alguém se opunha ou colocava reservas a uma intervenção no Iraque, era não raras vezes apelidado, por vozes furiosas, de "anti-americano", "pró-terrorista", "cobarde", etc., conotado com a extrema-esquerda ou a direita cavernícola ou comparado com os pacifistas e apaziguadores "herdeiros de Chamberlain". Não era preciso deixar a discussão aquecer muito: qualquer dúvida dava logo origem a estes vitupérios.
É pena que Pacheco Pereira se esqueça disto. Infelizmente, está mais preocupado com a sua auto-vitimização ou com a "censura" de que é objecto (esta então é de morte!) do que com as razões daqueles que se opunham a tal intervenção, ou com o que se veio a revelar um gigantesco e vergonhoso logro. Prefere atirar as culpas para cima de quem avisava do que dos que erraram em toda a linha. Infelizmente, é um pecado antigo de que dificilmente se livrará. Ainda em tempos de Cavaco Silva destacou-se por ser um dos primeiros a usar a expressão "politicamente correcto" com que apelidava a comunicação social, que, segundo ele, atacava sem dó nem piedade o governo do PSD e tratava o PS nas palminhas (e que como não podia deixar de ser, era toda). A mesma estratégia, a mesma vaidade intelectual (para não falar de desonestidade), o mesmo erro. Só que as pessoas já se vão habituando e cansando. Já não caiem nesta vitimização tola e sem sentido, que tem como consequência voltar-se contra o próprio Pacheco Pereira e desacreditá-lo. Uma pena. E um desperdício.

terça-feira, março 25, 2008

Agora são os casamentos

 
Esta história dos serviços fiscais quererem agora fiscalizar toda e qualquer conta relacionada com os casamentos, do valor das prendas ao do bouquet, não me entra pela cabeça. Já se percebeu que este governo, com a maioria que possui, tem tendência a regular a vida de todos os dias de maneira abusiva e prepotente. Mas esta nova regra (ou nem tanto, atendendo às palavras do Secretário de Estado), numa altura em que qualquer passo errado do executivo é escrutinado com mil olhos por todos os colunistas, peca pela falta de oportunidade, de sentido do ridículo e de descrição. Ou então pretendem mostrar, da pior maneira, que não há fuga ao fisco possível, mesmo que isso signifique a vergonha de se perguntar aos convidados, caso não haja lista, quanto custou a prenda. Ou muito me engano ou este conjunto de regras vai trazer tanta polémica que os seus autores terão forçosamente de recuar, sob pena de verem novas manifestações de rua, mas desta vez dos noivos. Ou preferirão impor a união de facto?

domingo, março 23, 2008

Aleluia
Boa Páscoa a todos
Ir ao Barroso, a Montalegre, e mais além, com estes dias de quasi Inverno, já é temerário. Mas ir à região com melhor carne nacional numa Sexta-Feira Santa, quando se faz questão de cumprir as tradições restritivas da quadra, é completamente estúpido.
Cinemateca no Porto?
Também eu aproveito para felicitar Pedro Mexia pela recente nomeação para sub-director de Cinemateca. E já agora, para relembrar uma ideia esquecida: para quando o núcleo da nobre instituição cinéfila no Porto, na Casa das Artes? Eram uma coisa a pensar, acho eu. Caro Pedro: assim que meter mãos à obra, vá pensando no assunto. Provavelmente voltarei a escrever sobre isto.
A Lei Seca dos piercings
Não sou de todo apreciador de tatuagens e de piercings e nunca pensei em usar qualquer dessas extravagâncias tribais no meu corpo. São inestéticos, tiram qualquer beleza e a sua colocação deve ser uma hipérbole de uma ida ao dentista. Também não vou repetir o que mihares já disseram contra a patética ideia de Renato Sampaio de proibir menores de 18 anos de colocarem esses acrescentos inanes. Devia ser complicado pôr polícias a tentar procurar vestígios de tatuagens em adolescentes. Mas pior do que isso: já viram a rede clandestina de piercings e tatoos que surgiriam, ao nível de uma Lei Seca corporal? Um negócio de China, não é? E bem mais perigoso que os danos que o diligente líder do Ps - Porto pretende evitar. Qual será a próxima proposta genial deste calibre?

segunda-feira, março 17, 2008

Esperança

O Portugal dos Pequeninos aborrece-me de morte muitas vezes, pelo pessimismo quase doentio, pelo desencanto, pela fúria sem razão (ou pelas razões que só o autor conhece) que adquiriu a dado momento, o que faz com que frequentemente o deixe passar ao lado. Mas às vezes vogo por lá. E encontro preciosidades comoventes e admiráveis como esta. afinal,também por lá se encontra Esperança.

Quando Bento XVI esteve na Turquia, deslocou-se ao meio do mato para celebrar uma missa para pouco mais de centena e meia de pessoas. A Ratzinger não interessa o "número" mas antes a qualidade dos fiéis. Este Papa não é impressionável pela multidão e não concebe o seu magistério com um gigantesco e permanente "talk show". Nem tão pouco entende ser essa a missão da Igreja nos dias que correm. Os dois volumes da longa entrevista que concedeu ao jornalista alemão Peter Seewald - "O Sal da Terra" e "Deus e o Mundo" -, ainda como cardeal, explicam a Igreja do futuro Papa Bento. No texto de Vasco Pulido Valente no Público de sábado (sem link), reflecte-se sobre a vitória de Zapatero e a "consagração" de um "novo mundo", aparentemente definitivo, que "derrotou" a Igreja. Passarão por Espanha e pela Terra dezenas de Zapateros e a Igreja do Ressuscitado, erguida sobre a pedra bruta que derrotou o mundo, permanecerá. O verdadeiro cristão é aquele que não omite a Cruz na sua vida. Como o mais pequeno grão de trigo que cai no solo, morre e só assim dá fruto, também a Igreja representada por Ratzinger não vem para "rasurar" nenhuma "memória histórica" ou impor-se como uma "ideologia". Pelo contrário. O Igreja vela contra "a prepotência da ideologia e dos seus órgãos políticos", na defesa de uma "nova liberdade" que não é mais do que a "consciência da nova «substância» que nos foi dada" por aqueles que, ao longo da história do homem, com o seu martírio e com a sua morte, "renovaram o mundo" (Carta Encíclica Spe Salvi). Não são os Zapateros desta vida videirinha quem nos "salva". A esperança, o outro nome da fé, é a única resposta contra o "homem precário" que governa no mundo.

Eliade em Portugal


Mais de sessenta anos depois, o Diário Português de Mircea Eliade é enfim traduzido para a língua do país que o acolheu no início dos anos 40. Eliade era então adido cultural da embaixada romena em Portugal, e viveu em Lisboa e Cascais (na rua da Saudade, com as traseiras sobre o mar, onde aliás uma placa relembra o morador). Filósofo, antropólogo e historiador, escreveu sobre religiões, história da Roménia e antropologia filosófica. Doutorou-se com uma tese sobre a prática do Yoga, depois de uma estadia na Índia. Politicamente esteve próxima da Guarda de Ferro, um movimento anti-semita que agregava fascismo e cristianismo ortodoxo, comandado pelo famigerado Corneliu Codreanu, mas não deixou de ser um apoiante do Conducator Ion Antonescu. Por causa dessa ligação, refugiou-se em França, depois da Guerra, e nos anos 50 mudou-se para o Estados Unidos, onde alcançou a cadeira de História das Religiões na Universidade de Chicago. Tornou-se cidadão americano e morreu em 1986, na "Windy City".

 
Deixa-nos agora as suas impressões sobre Portugal (por vezes fracas), Salazar (por vezes exaltantes) e os percursos, convivências e relações que manteve por cá. E ao que parece, esta edição não passou despercebida. Se não o tivesse encontrado com surpresa na montra de uma livraria, a blogoesfera ter-me-ia certamente avisado.

quinta-feira, março 13, 2008

Primo de Rivera e Che Guevara: mitos perigosos







Há algumas semelhanças entre as fotografias dos dois homens acima representados. Não certamente pelo seu aspecto - escanhoado, penteado e aprumado, o de cima, de longas melenas, barba e boina, o de baixo. Refiro-me às fotografias em si, cinzentas e um pouco funéreas, como se tornaram as suas memórias. Mas há sobretudo parecenças no que quiseram fazer do seu exemplo e do seu legado.
- Ambos foram acérrimos defensores dos seus ideais, e combateram por isso.
- Ambos promoveram a violência para os difundir e implantar
- Ambos foram fuzilados pelos seus inimigos, sem julgamento legítimo
- Ambos foram utilizados pelos respectivos regimes ditatoriais vencedores (a Espanha franquista e Cuba e castrista) como heróis e mártires
- Ambos são idolatrados pelos seus seguidores-
- Ambos são odiados pelos adversários
Claro que há depois todo um conjunto de diferenças: Che Guevara tornou-se um ícone mundial, muito mais famoso e popular que José António Primo de Rivera, fundador da Falange, que mesmo no seu país, Espanha, é mais uma figura de culto de uma minoria do que um herói nacional, pelo facto de ser fascista. E a fotografia do Che tirada por Albert Korda, captando-lhe o olhar, deu-lhe um estatuto utópico que as imagens de José António, sempre em pose mais rígida (talvez pelo facto de ser aristocrata) e com olhar menos expressivo, nunca tiveram. Qualquer pessoa reconhece o argentino, mas poucos saberão dizer quem é o castelhano. E depois toda uma propaganda eficaz (o sonhador vs o fascista) encarregou-se de solidificar os respectivos estatutos.
Certo é que, à sua maneira, são ícones dos seus grupos políticos. Viveram e combateram com coragem e convicção. Morreram pelas suas ideias às mãos inimigas, acabando assim por chegar a "mártires". Mas são mártires, e mitos, perigosos. Se os seus ideais à partida eram justos, a forma como os espalharam foi a pior possível. A Guerra Civil de Espanha não passou de uma súmula imparável de barbáries, concluída pelos franquistas sob o lema Cara al Sol do Ausente, como chamavam a Primo de Rivera. E inúmeras inspirações guevaristas ainda hoje produzem violências injustificadas, como as célebres FARC colombianas. Sim, lutaram bravamente pelas suas ideias. Infelizmente, todos esses esforços foram provavelmente mais nefastos que benéficos e não tornaram certamente o mundo um lugar melhor para viver.
Santos Silva teve razão
Já no caso das declarações de Augusto Santos Silva em Chaves não vi nada de que discordasse, excepto talvez considerar que Salazar era fascista. O facto de se estar em vésperas de um gigantesco protesto contra o Governo não é razão para se ir gritar insultos à porta de uma reunião do partido que sustenta esse mesmo Governo. Chamar-lhes "fascistas", então, é patético, mas também já nos habituámos a que qualquer pessoa seja assim apelidado quando não concorda com saudosistas dos piquetes, apelos contra o "imperialismo" ou baladeiros de setenta.
Santos Silva disse o óbvio: a liberdade não se deve a Cunhal, mas a Soares e a outros como ele. Não reclamou exclusividade, como o acusaram, limitou-se a dividir as águas e a pôr os mitos dos "combatentes pela liberdade", que mais não eram do que admiradores do sr. Brejnev, no seu devido lugar. E se na altura era de extrema-esquerda, só prova que abriu os olhos e ganhou sensatez. Se um passado adolescente em pequenos partidos dessa área política fosse entrave a que se falasse de liberdade, quantos e quantos colunistas e fazedores de opinião não teriam de se remeter ao silêncio.

quarta-feira, março 12, 2008

Um protesto justificado

A enorme manifestação dos professores em Lisboa, no sábado, não consistiu apenas em ajuntamentos de sindicalistas para pregar o bota-abaixo: viu-se um grito de protesto como nunca essa classe de profissionais tinha mostrado. Não admira: na pior equipa ministerial que se vislumbrou nos últimos anos na educação, os professores são o bode expiatório para tantas semi-reformas e reformas adiadas, trocas de ministros, ignorância e "eduquês". Cortaram as verbas a Roberto Carneiro quando mais era necessário e tiveram de inventar mais não sei quantas alterações. Agora veio esta inefável ministra, de rosto rígido e imutável, e o seu Válter Lemos (que, recorde-se, quando era vereador da Câmara de Penamacor faltou à maioria das sessões), esse arrogante funcionário sem ponta de talento, tratar os professores ao pontapé. Não se diga que não. Não é só o novo Estatuto que o demonstra: basta relembrar os casos de violência nas escolas, gravados e publicamente revelados, e o desinteresse e menorização que a ministra lhes votou. acompanhados de um incrível "os professores não podem ter medo". Pois não: fosse a senhora ameaçada em plena aula numa Básica de um "bairro problemático" e queria ver como é que reagia.

Acresce ainda o insensato Estatuto dos Alunos, que permite aos meninos faltar às aulas à vontade, as horas extra transformadas em momentos recreativos com os professores a aturá-los, gastando energia e perdendo preciosos tempo, as alterações a meio do ano lectivo, etc.

Sobre algumas coisas ridículas que ouvi nos últimos dias, não será demais recordar que houve gente na Manif. que nunca tenha estado em nenhuma anteriormente, que raramente faz greve e que nem ao menos está sindicalizada; e que nem todos os "stôres" são comunistas, eu, aliás, nunca me lembro de no ciclo e no secundário ter tido professores dessa área política; é possível que os houvesse, mas lembro-me mais de ter sido ensinado por monárquicos ou militantes activos do CDS, por exemplo. Bem podem os defensores da ministra, que provavelmente percebem tanto do assunto como eu de cultivo de Kiwis, vir defendê-la achando que o que é preciso é "pôr os profs no seu lugar". Melhor fariam em defender que esta equipa fosse para o seu lugar: para a rua. E não era para se manifestar.

segunda-feira, março 10, 2008

Mais do mesmo
Chegado do vento gelado de Trás-os-Montes, duas notícias, uma esperada, outra mais repentina: a vitória de Zapatero sem maioria absoluta, e a subida ligeira do PP, o que prenuncia uma legislatura semelhante à dos últimos 4 anos, mas com a economia em queda; e a demissão de Camacho, por achar que não podia dar mais nada à equipa do Benfica. uma despedida digna mas que contrasta com a sua partida em 2004, vencedor e popular. O futebol definitivamente acabou, esta época. Que venha Chalana orientar a equipa, e que se prepare condignamente a próxima temporada. Esta só nos promete mais do mesmo.

sábado, março 08, 2008

Infelicidades em barda
Uma expulsão aos 9´ (deve ser record mundial), uma lesão aos 20´, um golo sofrido de forma totalmente infeliz, uma expulsão perdoada ao adversário, assim como uma bola irregularmente agarrda pelo seu guarda-redes, imensos lesionados e castigados...assim era quase impossível. O Benfica mostrou grande espírito contra a bem organizada e afortunada turma dos arredores de Madrid, mas nem isso evitou o desaire na Luz.
Com alguma sorte e raça, ainda damos um salto a Espanha e vamos dar a volta à eliminatória, mas ontem aquilo só valeu pelo golo do meio da rua de Mantorras e porque me ofereceram o bilhete. Ah, e aquela bandeira dos NN com a efígie do Cosme Damião também tinha bastante graça.

terça-feira, março 04, 2008

Eleições em Espanha


Aproximam-se as eleições para as Cortes Espanholas, como igual confronto de 2004: Zapatero x Rajoy. Devo dizer que nenhum deles é senhor das minhas simpatias. O actual Presidente do Governo, ou o "Bambi", como é conhecido, chegou ao executivo de forma totalmente inesperada, por causa da péssima gestão dos atentados terroristas de 2004 pelos Populares. Pôs então em prática a sua "agenda modernizadora", com a legalização dos casamentos e até da adopção de crianças por casais homossexuais, a simplificação do divórcio, o afrontamento à Igreja Católica, o apaziguamento e os acordos com terrositas sem remissão e a insensata Lei da Memória Histórica, que no fundo toma partido por uma das facções da Guerra civil, como no regime franquista, mas pela outra parte. Num país onde as feridas do fratricida combate de 36/39 nunca sararam totalmente, Zapatero atira gasolina para a fogueira, não sei se de propósito, se inconscientemente. A Constituição de 1977 aprovou o regime democrático sob a monarquia, no pressuposto de que os vencidos da Guerra civil não o eram mais, e de que as referências dos nacionalistas deixariam de ser as do Estado Espanhol. Por outras palavras, a Guerra só ali terminava verdadeiramente, num pacto de paz aposta pela esmagadora maioria dos espanhóis, cujo principal símbolo era a legalização do Partido Comunista. A nova Lei recentemente aprovada desrespeita o espírito da Constituição e pode trazer consequências nefastas ao complicado caldo político que se vive no país, atravessado por regionalismos extremos.

Do outro lado, Rajoy, que esteve a dois passos de ser Prsidente do Governo em 2004, por escolha pessoal de Aznar, não parece ter aprendido muito. Nestes quatro anos, o seu PP instrumentalizou muitas das manifestações de rua contra o governo e a sua política face ao terrorismo, transformando-as em comícios não-oficiais. Nunca reconheceu os erros que lhe tiraram a vitória, nomeadamente o tríptico de mentiras Prestige - Iraque - Atentados (eram da ETA, lembram-se?), conduzidas da pior forma. Se Zapatero merecia caír do seu lugar, este galego castelhanizado jamais merecia lá chegar.

Estas eleições deverão confirmar também o extremar das forças políticas presentes. À parte os dois principais partidos, o resto são movimentos regionalistas/nacionalistas, como o velho Partido Nacionalista Vasco, a CIU, o Bloco Galego e outros, da Cantábria às Canárias. O centro, herdeiro da UCD de Suarez, é irrelevante ou deixou-se engolir pelo PP; a Izquierda Unida, mistura de Bloco de Esquerda com CDU, que alberga o outrora pujante PCE, pode ficar mesmo sem representação parlamentar (Saramago já declarou que apoiava o PSOE); novidade só mesmo o novo movimento anti-nacionalista apadrinhado por Fernando Savater, cujo sucesso, dado o seu vazio ideológico, é duvidoso.

Tendo em conta que os movimentos herdeiros do franquismo, como os Carlistas e a Falange, são residuais, conclui-se que a política partidária em Espanha está totalmente bipolarizada entre os dois maiores partidos. E que as franjas mais radicais herdeiras dos ferozes antagonistas dos anos trinta foram por eles engolidos. Mais do que a conversão à moderação, pode significar o extremar de poisções entre dois blocos, coisa quw já se verifica. Os tempos de Gonzalez, em que o PSOE era um partido socialista moderado, adepto da CEE e da NATO e recusando o marxismo, ou aquele em que um deconhecido Aznar transformou a velha Aliança Popular de Fraga Iribarne num moderno partido de centro-direita, já lá vão. Não é crível que volte a haver novo confronto armado (está lá o soft power da UE), mas o antagonismo que se verifica, e em que não faltam confrontos ente anarquistas gedelhudos e falangistas de braço erguido, é tudo menos saudável, mormente agora que se espera que a economia espanhola quebre consideravelmente. O PSOE deverá novamente ganhar sem maioria, e os próximos anos serão de mais "modernização da sociedade" e paz podre. E depois? Intervirá de novo Juan Carlos I nos destinos da sua nação?
Banal

Um derby banal. Resultado (relativamente)positivo para o Benfica em alvalade, jogo disputado com raça mas nem sempre com bom futebol, casos para analisar e as eternas queixas do sporting, com não sei quantos penaltys não assinalados a favor, não sei quantas expulsões perdoadas ao Benfica e não sei quantas lamentações de serem sempre os prejudicados. Nada de novo. Fora do normal, mesmo, só o golo de Cardozo, por ser de cabeça, e o Rodrigo Tinóni, ou coisa que o valha, novo craque do ataque do Sporting, a fazer um cruzamente para golo, com Quim a ser mal batido (outra invulgaridade).

segunda-feira, março 03, 2008

Asquith e as instituições


Isso de ligações familiares tem muito que se lhe diga. Helena Bonham Carter, por exemplo, é bisneta de HH Asquith, Primeiro Ministro britânico durante oito anos, e que ocupava o cargo quando rebentou a 1ª Guerra Mundial.
O post de Pedro Mexia ajudou-me a recordar este político liberal inglês e uma máxima que deixou, e que descobri num livro que me ocupou durante o último verão. Trata-se dos Diários de Paris, do Embaixador Marcello Mathias (filho), onde relata a sua passagem pelo UNESCO entre 2001 e 2003, no seu último posto de Carreira. Não faltam considerações sobre pintura, literatura, história, alusões oportunas, o ponto da vista sobre os acontecimentos do dia-a-dia, a luta contra a doença e uns pós da vida de um diplomata perto da reforma. O livro acaba com as memórias da capital francesa no pós-guerra, quando o seu pai lá foi colocado como o primeiro embaixador português em França.
Mas a frase que me interessa é que vem ao caso. Teria Asquith dito que só havia três instituições eternas: a Câmara dos Lordes, a Academia Francesa e o Estado-Maior Prussiano. Não sei de quando data tão solene afirmação, mas é decerto anterior À 1ª Guerra Mundial.
Como se sabe, o Estado-Maior da Prússia (durante décadas uma inspiração para tantos oficiais, como Spínola) não sobreviveu muitos mais anos. Caiu em desuso depois do Grande Guerra, reemergiu como Wehrmacht sob os nazis, antes de desaparecer por completo com a própria designação Prússia e o seu território original, que numa reviravolta da história sobrou para os polacos e russos, separado do território alemão.
A Câmara dos Lordes também já teve outra importância. Perdeu de forma drástica o seu carácter hereditário e poderá também perder brevemente os seus poderes judiciais, como última instância de apelação de recursos. Ou seja, está longe da relevância que sem dúvida tinha nos tempos de Asquith.
A Academia Francesa, instituída pelo Cardeal Richelieu, permanece imutável, com uma breve interrupção durante a Revolução, mas que Bonaparte reabriu. Os seus membros, os Immortels, são vitalícios, são eleitos pelos mais velhos, ocupam cada um o seu Fauteill, devidamente numerado, e representam a nata da francofonia, em todas as áreas. Podem ser expulsos por motivos excepcionais, como o Marechal Pétain ou o integralista Chales Maurras, o que é raro acontecer. Apenas uma grande alteração nas últimas décadas: a primeira eleição de uma mulher como para a imortal galeria, no caso Marguerite Yourcenar.
O irónico disto é que a "revolucionária" França, o país menos referido quando toca a instituições centenárias, ao contrário do que acontece com a Grã-Bretanha, é que soube conservar o seu símbolo institucional mais antigo, ao passo que outros as viram desaparecer ou perder o peso e a importância tradicionais. Um caso a ser avaliado com mais atenção pelo Centro de Estudos Políticos da UCP.
Mas numa nação de tão grandes paradoxos como é o hexágono, acaba por fazer algum sentido.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A estratégia do populismo
A ideia de Luís Filipe Menezes, de retirar a publicidade da RTP, está na ordem do dia. Apesar da oposição gerada à proposta, até de figuras como Nuno morais Sarmento, nem todos a olharão com muito maus olhos. Ainda hoje ouvi, vinda de dentro de uma tasca, uma conversa em que um homem exclamava com autoridade que "é só intervalos de dez minutos", e que achava muito bem que se retirassem os anúncios da TV pública. O outro concordava, com alguma hesitação. Isto significa que a ideia de Menezes, apesar de tudo, passa entre a população nas conversas de taverna, e ao que parece com aprovação. A estratégia produziu efeitos. Não é mesmo esse o objectivo dos populistas?

terça-feira, fevereiro 26, 2008

E eles a rir-se que nem uns perdidos

Depois de horas de pânico (Reds, reds!), fúria e repúdio, começa-se a perceber que a tomada de poder de O Insurgente "okupado"por malvados hackers a mando de Fidel não é mais do que auto-gozo dos próprios. Tive uma vaga suspeita disso quando me lembrei do Anacleto, aliás alimentado por alguns insurgentes. Além de que links com nome "5 Câncios" só pode ser tomado como uma brincadeira.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Óscares, ano 80
Mais uma edição de Óscares, depois da ameaça da greve dos argumentistas. A resolução tardia do diferendo não impediu que Jon Stewart estivesse em forma. com prejuízo do sono, aguentei-me até saber quem era o melhor actor, coisa que nem oferecia grandes dúvidas. Espantei-me com Óscar de melhor actriz da jovem, doce e pouco conhecida Marillon Cotillard, em lugar de julie Christie, mas é sabido que Hollywood se péla por biopics e por maluqinhos, e a icónica e trágica carreira de Piaf merecia a estatueta. aliás, deve ter sido a sessão entre as oitenta que já houve em que mais franceses foram premiados. A política de reconciliação com os EUA de Sarkozy já produz resultados.

Daniel Day-Lewis, pelo que ouço dizer, teve uma das melhores interpretações dos últimos anos, como aliás já nos habituou sempre que resolve voltar para as telas. entre a modéstia e a emoção, ficam na memória o beijo facial a Clooney e a genuflexão perante Helen Mirren, o que não admira, já que o actor um súbdito da Rainha. Também o Óscar ao descontraído Bardem não teve piada, tamanha era a antecipação. Já o triunfo de Tilda Swinton espantou; esperava tudo que a estatueta caísse nas mãos do Bob Dylan de Cate Blanchett; mas a divina australiana, nomeada para dois troféus, mostrou-se com divertido à vontade, consciente de que voltará a ganhar outra estatueta dourada (com o ritmo dos últimos anos, o mais provável é que qualquer dia esteja a competir com Merryl Streep em nomeações).

Tive certa pena que Persepolis não ganhasse o prémio de filme de animação, uma categoria que tem crescido em qualidade e visibilidade, mas de facto Ratatouille era demasiado forte para perder. De realçar vários filmes "menores" que ganharam vários Óscares (também "menores"), deixando Expiação, por exemplo, quase a nadar em seco.

Os Coen ganharam em filme e realização, como se previa. No Country for Old Men só existe entre nós em livro. Aposto que quando se estrear, daqui a dias, não lhe vai faltar público. Na mouche, senhores distribuidores nacionais. Quanto à dupla de grandes vencedores, é, se tirarmos Fargo, o coroar de uma carreira já longa, não isenta de tropeções, mas talentosa, segura, e com grandes momentos que certamente merecerão várias páginas na história do cinema

domingo, fevereiro 24, 2008

Enfim os No Smoking Orchestra ao vivo


Outro que certamente não apreciou a secessão do Kosovo e o seu reconhecimento pelo bloco ocidental é Emir Kusturica. Há umas semanas tive oportunidade de o ver ao vivo, no meio dos seus No Smoking Orchestra, depois de algumas tentativas falhadas em que não vieram ao Porto. Quando se decidiram a vir às duas principais cidades, eu estava por Lisboa nesse fim de semana e comprei bilhete para o Coliseu dos Recreios.
Quem conhece a obra cinematográfica do realizador sérvio mas não conhece a banda (que já tem uns largos anos de carreira) poderá saber sempre ao que vai se se lembrar das bandas sonoras de Underground, Gato Preto, Gato Branco e A Vida é um Milagre. Ou ainda do mais antigo Tempo dos Ciganos, que nunca vi e sobre o qual assentava esta tournée. O estilo é o popular "gipsie punk", e tem alguns seguidores, como os ainda mais frenéticos Gogol Bordello, cujo líder, Eugene Hutz, poderá ser visto em breve protagonizando a primeira incursão de Madonna na realização. Os elementos da banda são inúmeros e tocam tanto guitarra, baixo e bateria como violino, harmónica e saxofone. Uma salada balcânica simultaneamente ruidosa e melodiosa.
Os No Smoking Orchestra faziam parte da lista de grupos musicais que queria realmente ver in loco. Além dos filmes, o meu conhecimento da sua obra vinha de um disco ao vivo (há também o DVD) de um concerto que deram há uns anos em Buenos Aires. O que vi não andou nada longe do que já suspeitava.

Cheguei ao Coliseu com receio de que o concerto estivesse no início, mas ainda demorou uns minutos; já sabia que o Benfica estava a ganhar em Guimarães (um jogo decisivo), e queria tirar a limpo se todos os espectáculos da banda começavam da mesma forma. Pude confirmá-lo ao ouvir os acordes do hino russo, com o qual os artistas entraram em cena.
É certo que Kusturika, com a sua guitarra, é o principal chamariz, mas a verdade é que meio espectáculo fica por conta do incansável vocalista Nele Karajlić, que se exibiu com um fato e uma camisola desportiva por baixo (do Partizan?) e que não parou de chamar pelo público, de se passear entre o palco e a plateia ou de pôr todo o recinto com gritos de apoio ao Partizan, e creio que ao Kosovo sérvio também.
O carrossel balcânico rolou com profissionalismo e alegria, embora me pareça que tivesse faltado uma pitada a mais para ser um concerto memorável. Senti que carecia daquele espírito anárquico que se encontra na obra de Kusturica. Afinal, era o tour de Tempo dos Ciganos. Uns actos de loucura, mais do público que dos músicos, eram bem vindos. Só que os peninsulares presentes (fora alguns germânicos) eram ibéricos, não da montanhosa região a sul dos Habsburgos.
Mas nem por isso o concerto desmereceu grandes elogios. Houve alguns episódios memoráveis, como certos gritos de incitamento do vocalista imitados pelos ouvientes, a apresentação individual dos músicos (chamou-se de tudo ao realizador sérvio, de Von Karajan a David Bowie), e dois músicos tocando violino pegando cada um na vara com a boca, com as cordas por cima - Kusturica conseguiu o mesmo com a sua guitarra eléctrica. Não faltaram as míticas Bubamara, Unza Unza Time, Pitbull Terrier e Wanted Man, embora tenha sentido a ausência da frenética Vasja

O que eu não sabia é que o concerto acabava com o mesmo hino russo, depois da saída dos músicos. Houve até um grupinho que acompanhou a majestosa sinfonia de punho no ar e pose inspirada, não sei se por brincadeira ou convicção. Mas mesmo sem a anarquia do concerto de Buenos Aires, não dei por perdido o tempo e pude riscar mais um dos "concertos-que-tenho-de ver-até ao-fim-da-vida" da lista (além de que o Benfica ganhou à mesma hora por3-1). E até quem sabe, voltar a avistá-los num qualquer regresso, ou noutra ocasião em que se proporcione nova espiadela aos No Smoking Orchestra, que, está visto, dão-se bem em terreno de palco ou a coberto das imagens dos filmes do seu guitarrista. Pena mesmo é que tenham perdido o Kosovo. Que tal um novo tour para colher apoios para a causa?

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Depois do Je Mantiendrai, é o Blog da Rua Nove que encerra serviços. Definitivamente a blogoesfera portuguesa está esteticamente muito mais pobre.
O início da Grande Albânia

Pronto, os albaneses que ocupam aquela escalavrada terra que dá pelo nome de Kosovo sempre declararam unilateralmente a independência. A coisa já se previa há pelo menos um ano, mas só agora se concretizou. Claro que os EUA e as grandes potências europeias se apressaram a reconhecê-lo como estado independente, coisa que não era senão o seu objectivo primeiro. A Grande Albânia, sonho dos ilírios, de maioria muçulmana materializa-se, deixando de rastos o sonho da Grande Sérvia. O Kosovo, que só existiu na antiguidade com o esquecido nome de Dardania, e com características completamente diferentes, nasce assim como estado artificial de povo albanês em solo ex-sérvio, porque o bloco ocidental assim o quis, governado pelo ex-comandante do UÇK, uma milícia terrorista como ligações a grupos radicias islâmicos.

Mas a Rússia não está com meias medidas e tudo fará para embargar de iure o reconhecimento onusiano de semelhante estado. E faz outras retaliações, mostrando mais uma vez que está ao lado da Sérvia e reassumindo em pleno a liderança do bloco ortodoxo da Europa Oriental. A Grécia, Roménia e Chipre também não estão pelos ajustes, e só a Bulgária, estranhamente, é que dá o dito por não dito, ora contra o novo estado, ora a favor. Os tempos mais próximos prometem. Os sérvios não aguentarão novas humilhações. Desconfio bem que a paz podre que reina nos Balcãs não durará muito mais tempo.


Como complemento, este comprido texto do Estado Sentido, que com factos históricos e algumas revelações mostra bem como a vontade de certas de cúpulas pode invabilizar a harmonia internacional.