quinta-feira, julho 24, 2008

Tudo tem um fim II


Por muito que Figo, Rui Costa e Paulo Sousa tenham sido os elementos da "Geração de Ouro" a obter mais sucesso internacional, o seu grande símbolo será sempre João Vieira Pinto. Atesta-o o facto de ter sido o único bicampeão de júniores das equipas de Queiroz que lograram o feito, além dos dois golos marcados à Nigéria em 1989. Passou um ano nos desperdícios do Atlético de Madrid e regressou vacinado contra idas para o estrangeiro. Formado no Boavista, ao qual deu muito dinheiro pelas suas transferências, tornou-se o craque da Luz e humilhou o chico-espertismo de Sousa Cintra e um Sporting que já se via campeão naquele mágico e inimaginável 6-3, de tal forma que ainda hoje é o único jogador a quem A Bola deu nota 10. continuou no Benfica como o "Menino de Ouro", ganhou uma Taça, suportou os piores tempos da Luz até que Vale e Azevedo e o gélido Jupp Heinkes o expulsaram do Benfica, coisa que provocou reacções de fúria e desespero. Ainda me lembro dos adeptos à porta do estádio, dia e noite, a clamar para que ficasse, ou de Maria João Seixas,abrindo o seu programa com uma mensagem de apoio ao jogador. Não tenho a menor dúvida de que em boa parte Vale e Azevedo acabou ali com as hipóteses de reeleição.


Depois, a tristeza de vê-lo no Sporting e a fazer dupla com Jardel, dupla essa em tempos sonhada para a Luz. Ou por vê-lo a socar um árbitro, momento fatal que deu início ao declínio da sua carreira e a nunca mais envergar as Quinas. Regresso ao Boavista, passagem pelo Braga, um vago projecto de jogar no Canadá, e por fim a declaração de adeus. com quase 37 anos, um filho já a jogar na 1ª divisão, centena e meia de golos no campeonato e, salvo erro, sendo o jogador com o maior número de jogos realizados na prova. Não, jogadores como este, geniais, imprevisíveis, impetuosos até demais, não se esquecem. São eles que escrevem capítulos inteiros na história do futebol. Obrigado por tudo, Capitão.

quarta-feira, julho 23, 2008

Tudo tem um fim

Radovan Karadžić está finalmente preso, depois de anos e anos de fugas e de interrogações sobre o seu paradeiro. Estava afinal de contas em Belgrado, sob a aparência de um pacato e barbudo especialista de medicina alternativa. O responsável por alguns dos piores crimes de guerra na Europa desde a Segunda Guerra (como os do cerco a Sarajevo e o massacre de Sebrenica), ex-líder dos sérvios da Bósnia e um dos homens mais procurados do Mundo poderá agora enfrentar a justiça do TPI da Haia. É o fim de uma longa perseguição e de muitas interrogações. Pergunto-me como terão reagido os comunistas do calibre dos nossos e os nacionalistas de extrema-direita, que nestas questões costumam adoptar posições muito idênticas (vide Milosevic).

Convém também recprdar que a Sérvia cumpriu mais uma das suas obrigações. Cabe à comunidade internacional e sobretudo à UE tomar isso em conta e não ignorar olimpicamente como aconteceu em 2000.

terça-feira, julho 22, 2008

A febre dos festivais

Localização de concertos à parte, reparei noutra coisa; na quantidade de festivais de pop-rock que houve e haverá este ano. Começou com o megalómano Rock in Rio, em Lisboa. Depois, o Alive, em Algés, roubou público à fase lisboeta do SBSR (mas não à portuense), embora preferisse mil vezes ouvir Duran Duran e Beck aos Rage Against the Machine, ainda que ladeados pelos Hives e pelos Gogol Bordello. No Sábado, Lou Reed competiu directamente com Leonard Cohen. E ainda faltam os Delta Tejo, Sudoeste e Paredes de Coura. Fala-se tanto na crise económica e social e na carestia de vida e nunca tivemos um overdose de música pop-rock como este ano, com dezenas de milhares de pessoas a acorrer em massa a inúmeros festivais. É um daqueles paradoxos em que Portugal é fértil. E nem sequer vai haver Vilar de Mouros. Mas os menos remediados sempre podem ir assistir ao Carviçais rock, perto de Moncorvo; escusam de gastar tanto dinheiro e sempre animam o deprimido interior transmontano, que merece todos os pretextos do mundo para o visitarem. Não esquecer que o Sabor, ali ao lado, não ficará intacto muito mais tempo.
Resolvida a questão

Aproveitando a breve referência ao festival Marés Vivas, que se realizou entre o Cabedelo e a Afurada, na margem Sul, trazendo artistas em hibernação (Sisters of Mercy) ou que precisam mais de pagar a renda da casa (James, Peter Murphy), penso que está encontrada a resposta à pergunta "é possível organizar um festival no Porto"? Sim, claro que é. Já no "queimódromo" do Parque da Cidade decorreu uma parte (a pior, com todo o respeito pela carreira dos emblemáticos ZZ TOP) do SBSR, num local desconfortável mas que já por si se presta a isso. E haverá certamente quem se lembre do Imperial ao Vivo, que em dois dias trouxe ao parque da Alfândega do Porto nomes como Beck, Smashing Pumpkins ou Charlatans; ou então os Pulp e o Nick Cave, nos antigos campos de treino das Antas. Mas se esses dois locais não são grande coisa, este ano da Graça de 2008 provou-nos que há espaço, tempo e público para mais eventos deste tipo. As dúvidas estão desfeitas e não há mais desculpas para não trazer mais coisas dessas ao Porto.
Desabafo contra Gaia
Há terras belíssimas em Portugal. E outras com as quais jamais nos reconciliaremos. Um desses casos é Gaia. A "outra banda" do Douro, enorme porção de terra entre o rio, Espinho e as Terras de Santa Maria, é um concelho que contém zonas urbanas, suburbanas, rurais e litorais, por vezes misturadas entre si. É uma cidade caótica rodeada de uma infinidade de freguesias e terrinhas que por vezes não se sabe onde acabam e onde começam. Para quem vem de fora, é o caos.
Vista da zona ribeirinha do Porto, Gaia tem aquela marginal recuperada, as célebres caves do vinho, e depois eleva-se a um patamar onde se vêem os viadutos do comboio e por fim imensas torres de betão, estragando o conjunto todo. A antipatia começa aí. Porém, se se viaja pelo concelho (já nem digo na comprida Avenida da República, que cruza a cidade alta), perde-se a paciência em menos de um ai. Há dias, vindo de um jantar na praia de Salgueiros - a tal zona litoral, em que a marginal do lado do mar está exemplarmente recuperada mas cujos edifícios do outra lado deixam muito a desejar - tentei voltar ao Porto pela ponte da Arrábida, tomando de novo o nó do Fojo. Pela Afurada estava fora de hipótese, por causa da confusão provocada pelo festival Marés Vivas, para mais em noite dos Prodigy e da sua rave industrial. Voltar mais por dentro revelou-se uma passeata desastrada, que só começou a acabar quando dei a volta na rotunda de Santo Ovídeo, uns quantos quilómetros a sul de onde queria entrar. É que para além das milhares de ruelas mal iluminadas das dezenas de terrinhas em que os nós das autoestradas foram construídas por cima de hortas e cruzam com vielas, a sinalização é de desesperar: não faltam placas a indicar as saídas para Lisboa e Aveiro, mas para o Porto é quase impossível. Tentativa patética de rivalidade ou o responsável pelas indicações acha que ainda (já?) é tudo o mesmo concelho? De qualquer forma, o passeio obrigatória até, aliviado, cruzar a Ponte, serviu para me enervar e para me indispor ainda mais com aquele concelho de além-Douro. E nem passei pela tenebrosa Vila d´Este, pelas Devesas ou por outros horrores mais camuflados.
Reconciliar-me com Gaia? Uma hipótese remota. Fusão municipal com o Porto? Apre, que a capital de distrito merece melhor sorte do que colar-se a subúrbios. Definitivamente, não.

sexta-feira, julho 18, 2008

Carlos Queiroz



A vinda de Queiroz para a Selecção Nacional deve deixar apreensivo quem quer que tenha um pouco de memória. Por qualquer razão, é considerado um "grande treinador", um autêntico génio, mas os resultados estão longe de ser satisfatórios.

Recordemos sucintamente a sua carreira: treinador dos Sub-20, com os quais ganhou dos títulos mundiais; seleccionador nacional, sem ir a qualquer prova; treinador do Sporting, ganhando uma Taça de Portugal; passagens por clubes japoneses, americanos, árabes, pela Selecção da África do Sul, pelo Real Madrid e como adjunto de Alex Fergusson no Manchester United. Nestes últimos vinte anos, ganhou os tais títulos com os sub-20, uma Taça de Portugal e levou a África do Sul a um Mundial. Apenas isso. No Sporting, onde esteve dois anos depois de substituir Bobby Robson, treinou jogadores como Figo, Paulo Sousa, Balakov ou Pedro Barbosa, e teve alguns resultados decepcionantes, como a famosa derrota por 6-3 frente ao Benfica de João Pinto. No Real Madrid acabou a época em 4º, apesar de ter à sua disposição algumas das maiores estrelas mundiais. É estranho como um técnico com tão pouco para mostrar é tão badalado.

Parece-me que Queiroz é um bom teórico, um razoável estratega, com bons conhecimentos futebolísticos, mas que falha na transmissão das suas ideias e na galvanização dos seus jogadores. Sem estas características não se ganham jogos. Aparentemente, os júniores compreendem-no melhor que os seniores, o que demonstrará que o crescimento de um jogador nem sempre é directamente proporcional ao da sua sua cultura táctica. Mas as diferenças podem ser vistas se comparado com antecessores como o citado Robson, ou Vicente del Bosque. Entre os professores da sua matéria, Queiroz é um investigador que se sente bem entre tácticas e cálculos matemáticos do que no meio da refrega campal. Fergusson teve dificuldade em dispensá-lo por isso, e talvez pelo seu ar calmo, fleumático e compenetrado. é talvez o melhor adjunto do Mundo, mas como homem do leme deixa muitíssimo a desejar.

É por isso que espero estar enganado quando penso que os tempos do "Sargentão" Scolari vão ser recordados com muita saudade.

quinta-feira, julho 17, 2008

Lisboa - Telheiras

Pelo tempo que tenho passado na capital desde há mais de um ano, e pelas imensas curiosidades que esta cidade desperta, começarei apartir de agora a deixar pequenos posts sobre Lisboa.



Para começar, a imagem de marca da curta-metragem Rapace, de João Nicolau. As duas personagens que aí se vêem estão num café/snack, no meio de uma fiada de estabelecimentos da mesma natureza que se encontram na mesma rua (tal como um friso de bancos, também prsentes no filme). O dito café ostentou durante algum tempo, na sua montra, esta mesma fotografia, à laia de publicidade. Coloquei-a por se passar na Rua Prof. João Barreira, em Telheiras, um dos bairros mais recentes de Lisboa, na sua grande maioria constituído por prédios, e onde já passei algumas temporadas.

domingo, julho 13, 2008

A toxicodependência idolatrada

É fácil criticar e até ser moralista quando se fala de Amy Winehouse, como disse um jornalista do Público. Concedo. Mas também não é difícil ouvir-se as suas músicas a toda a hora, ler-se coisas sobre os seus desvarios, as suas detenções, os problemas conjugais, os concertos falhados, etc. que acabam por fatalmente criar uma opinião no público, que ora a desculpa, ora a condena, ou então limita-se a dizer que "esse mundo é mesmo assim".

Ora acontece que eu simpatizo pouco com Winehouse, as suas birras e a sua popularidade. Lembro-me dela no início da sua carreira (que em casos normais faria com que a apreciasse, naquele sentimento tão comum e possessivo do "eu conheci-a muito antes"), quando a vi num videoclip, ainda sem os vestidos curtos e o cabelo comprido e enrolado que a caracterizam hoje. Era num qualquer café, à noite, e comentei com um amigo que achava a voz poderosa, mas que a total falta de graciosidade da rapariga não lhe dariam notoriedade no futuro. Enganei-me redondamente, como está à vista. Mas se Amy é hoje muito conhecida, deve-se bem mais aos seus problemas pessoais do que à sua voz ou aos temas que canta. Não há semana que não passe que não se ouça falar da prisão do marido, de um espectáculo falhado ou de uma tentativa de reabilitação gorada, de tal forma que o seu maior êxito, Rehab, trata mesmo da recusa de se tratar. No recente Rock in Rio de Lisboa, voltou a fazer uma figura deprimente (quase não se aguentava em palco), perante 90 mil pessoas e em directo para rádios e televisão. Nos habituais comentários bloguísticos, houve quem condenasse tais atitudes e houve também que a defendesse, até com um comovente "ela mostrou que era tão humana como qualquer pessoa". A mim parece-me o contrário: quantos indivíduos se podem dar ao luxo de aparecer sob o efeito de álcool e estupefacientes no trabalho, reiteradamente, não cumprindo as suas tarefas com um mínimo de competência? Dir-se-á que com os artistas é diferente, que a criatividade tem os seus custos, que desde que cumpram não tem importância, que aquele mundo é mesmo assim. Poderá ser, e até não fará mal ao mundo se cumprirem em palco, mas acontece que de Amy mal se percebiam certas palavras, e que as pessoas que enchiam o recinto tinham dado uns preciosas 53 €uros sobretudo para a ouvir.

Depois, claro, além de toda a condescendência com os vícios dos artistas apenas por o serem, há as habituais desculpas para quem se droga, talvez porque o vício surja em momentos de particular debilidade emocional ou psicológica. Mas neste caso exagera-se. A droga é mais claramente tolerada do que o álcool e do que o fumo (de tabaco, evidentemente). Aquelas incríveis noções de um qualquer site que para aí havia, em que um betinho era alguém "desprezível" que não tomava drogas são elucidativas. Segundo algumas correntes, um tipo que se droga ou é um herói, caso se trate de uma figura pública, mormente do espectáculo, ou um coitadinho sem culpa nenhuma, mesmo que ninguém o tenha obrigado a ir por aí. Daí que muitas vezes um bêbado (e nos tempos mais recentes um simples fumador) seja visto com mais desprezo que um frequentador de um CAT. E que um música famoso tenha logo desculpas por ser "humano".


A um músico não se pede para ser desumano, pese toda a idolatria e endeusamento que deles se apropriam, e que por vezes são responsáveis por essas situações: pede-se que caso tenha público e deseje mantê-lo, o respeite e deixe as figuras deprimentes para os momentos de ócio. Que as pessoas dêem por bem gasto o dinheiro dos espectáculos e não recorram à pateada. E que não venham fazer-se de vítimas para a comunicação social. As pessoas comuns não têm jornais para as defender dos seus problemas do quotidiano, nem margem para se pedrar à vontade.

Eis porque aguento muito pouco Amy Winehouse. Para mais, continua com aquele rosto canino que tinha desde a primeira vez que a vi.

Mas já agora aproveito para falar de um amigo seu por quem tenho igual "estima": Peter Doherty. Um tipo que consegue ser ainda mais drogado, que acabou com a sua anterior e mui promissora banda, os Libertines, e que é mundialmente conhecido por ter namorado com Kate Moss e por andar sempre aos tombos. De tal forma que quando veio recentemente a Lisboa com a sua nova banda, os Babyshambles, para um concerto no Lux, a piada que circulava era "onde estáDoherty? Em Monsanto". As dependências tiraram-lhe o ar vivaço que já teve e tranformaram-no no que é hoje: um alucinado com cor de vampiro antes da refeição sanguínea, roupa e chapéu retirados do Madame Toussaud e aspecto geral cadavérico é o grande herói do rock dos nossos tempos. Havia tantos por onde escolher e tinha de ser logo um zombie destruidor de bons grupos musicais.

sexta-feira, julho 11, 2008

Anúncios parvos com efeitos contraproducentes
Há anúncios publicitários geniais e há outros que pela sua estupidez e infantilidade fazem com que o potencial cliente fuja a sete pés da marca. Estou a pensar em concreto numa coisa da TMN, com três tipos de turbante a andar numa praia, e em que um deles desata numa cantilena irritante e quase incompreensível, onde se apercebe "saldo" e pouco mais. As questões que se colocam são: quem é que criou tal coisa? Será que acham que atraem mais clientes com aquilo? Os actores estarão assim tão desesperados para fazer aquelas figuras, em especial o que canta? E sobretudo: não dá vontade de dar um tiro de bacamarte à televisão?

terça-feira, julho 08, 2008

Bela Crkva e os traços do Império


Recordando mais um texto de há uns tempos atrás do sempre indispensável Herdeiro de Aécio, sobre cidades prussianas que se tornaram polacas, alterando dessa forma o seu nome (o exemplo dado é o de Sttetin/Szczenin) e forçando as suas populações a emigração maciça, lembrei-me também dos casos, geograficamente mais a sul, das cidades do Império Austro-Húngaro. Essas não mudaram necessariamente de nome: algumas são conhecidas consoante a nacionalidade dos que se lhes referem. Noutros casos, porém, algumas designações perderam uso.
Na babel de etnias e de línguas que era o Império, todas as localidades tinham um nome germânico, ao qual se lhes acrescentava, caso ficassem fora de zona onde se falava alemão, o nome do idioma do território onde se situavam. O melhor exemplo disso vem no livro Danúbio, do italiano Claudio Magris, que acompanha o curso do grande rio e que é talvez a obra que melhor explica o espírito da Mitteleuropa, principalmente na passagem onde descreve os vários nomes de uma cidadezinha do Banato (região entre a sérvia, a Hungria e a Roménia), Bela Crkva.
O ponto de partida das nossas incursões é Bela Crkva (Igreja Branca), (...). O velho horário ferroviário geral do Império Habsburgo, em 1914, assinalava-a como Fehertemplom, segundo o critério de aplicação da designação predominante do lugar; a cidade, hoje jugoslava, fazia parte do Reino da Hungria. Agora os letreiros oficiais trilingues referem Bela Crkva, Fehertemplom, Biserica Alba - ou seja, os nomes sérvio, húngaro e romeno; o nome alemão, Weisskirchen, quase desapareceu.
Neste caso, tratando-se de uma cidade com um nome traduzível, qualquer língua o poderia fazer. Mas o mesmo se passa noutros sítios. A capital do Banato, por exemplo, é a cidade romena de Timisoara. Como denominações alternativas tem ainda Temešvár (em checo e eslovaco), Temeschburg (alemão), Temesvár (húngaro), ou Temišvar (sérvio-croata). Repare-se que além dos nomes alemães, os territórios sob soberania da coroa da Hungria tinham também o seu nome na "língua do Diabo", além do local. Bela Crkva é um exemplo quase extremo, por se situar no Voivodina - antes no Império, em território húngaro, hoje região da Sérvia - muito perto da fronteira com a Roménia e das Portas de Ferro, enorme garganta onde o Danúbio divide os dois países.
Mas designações desse tipo há várias. Encontram-se sobretudo nas fronteiras de estados da Europa Central ou de Leste (embora também seja comum na Croácia, por acaso antigo domínio húngaro, haver cidades que por vezes apresentem os antigos nomes italianos, sinal da presença veneziana), como Danúbio no-lo demonstra. Embora algumas tenham caído em desuso, são por vezes das poucas, senão mesmo o único traço, do domínio dos Habsburgos numa Europa hoje mais dividida, por ser tão multiétnica e multilingue.
Aqui podem encontrar-se inúmeros exemplos de cidades com nomes diversos.
A ironia e a subserviência

Tenho de dar razão ao Benfica na exposição que fez à UEFA em dizer que o Conselho de Justiça não tinha credibilidade", disse ainda o líder dos dragões com a sua habitual e refinada ironia.

É bem a primeira vez que vejo Pinto da Costa a dar razão ao Benfica. Já a tão propalada "ironia", que tanto pode ser "fina" como "refinada" ou "mordaz", não há jornal, canal de TV, estação de rádio ou boletim de paróquia que se apresse a colá-la sempre que o presidente do FCP abre a boca. Até podiam fazer copy-pastes para essas ocasiões. E ainda dizem que o Benfica é que domina a comunicação social.

sexta-feira, julho 04, 2008

Os dominadores de Viena


Ainda sobre o Euro e a sua final, lembrei-me de um pormenor curioso: a cidade que acolheu o jogo já esteve nas mãos dos dois adversários da noite, a Espanha e a Alemanha. No primeiro caso, não se pode dizer que formalmente pertencia a Castela. Mas na altura em que Carlos V acumulou, graças a felizes coincidências hereditárias, os títulos de meia Europa, entre os quais os de Rei de Espanha e Imperador do Sacro Império, Viena estava sob o seu poder, embora os turcos a tenham tentado tomar em 1529. Não era ainda a capital imperial, mas preparava-se para o ser pouco tempo depois, durante quase quatrocentos anos, até ao colapso do Império. Com a morte de Carlos V, dividiram-se as coroas dos dois territórios entre dois Habsburgos: a Espanha para o seu filho Filipe II (ou I, para nós), o império para o seu irmão Maximiliano. Não mais Viena ficaria ligada a Espanha, excepto em dois momentos: um durante a Guerra da Sucessão de Espanha, em que o Arquiduque de Áustria foi declarado Rei depois da tomada de Madrid pelas forças chefiadas pelo Marquês das Minas; e outra no período napoleónico, quando o Rei de Espanha era um Bonaparte, e não um Bourbon ou um Habsburgo, e o Sacro Império se transformava sob o mando de Napoleão. Como se sabe, praticamente toda a Europa continental estava debaixo do mesmo tricórnio.
Já para descobrir a dominação da capital da valsa pelos alemães não precisamos de recuar tanto. A história é bem conhecida: o tristemente célebre Anschluss chegou depois do assassinato do ditador local, Engelbert Dolfuss (correspondente austríaco de Salazar) pelos nazis. Seguiu-se um breve governo pró-alemão embora contra a fusão dos dois países, a invasão da Áustria pela Alemanha e um plebiscito para confirmar a anexação. Depois de séculos de domínio austríaco sobre os inúmeros estados alemães, seriam estes a determinar o futuro da Europa Central. E muitos austríacos concordavam com a perda da sua independência, sonhando com o Terceiro Reich, um novo Sacro Império, pouco romano e totalmente germânico. Só em 1945 Viena seria resgatada dos alemães e dividida em várias zonas pelas forças aliadas, tal como em Berlim.

Domingo, a monumental, elegante e orgulhosa capital da pacata Áustria, enquadrada pela Catedral de Santo Estêvão e pela Karlskirshe, acolheu duas antigas potências que a dominaram. Duvido que haja muitos que se tenham lembrado do sistema político de Carlos V. Já do Anschluss, ainda está demasiado próximo para ser esquecido. De qualquer forma, a Alemanha perdeu. Mostra bem como os pesados Panzers não aguentaram a carga dos rápidos Tercios. Mas se tivesse ganho, os austríacos não teriam razões para se preocupação desse lado (ao contrário dos amantes do futebol).



(De relembrar que por pouco os turcos não chegaram à final. Mas esses nunca chegaram a dominar a cidade, ainda que também por uma unha negra, em 1529 e 1683)

quinta-feira, julho 03, 2008

Enfim livre

Seis anos de cativeiro é muito tempo, mesmo para uma mulher de armas como Ingrid Betancourt. Mas é igualmente reconfortante ver como grupos paramilitares de traficantes de droga transvestidos de "movimentos ideológicos" estão verdadeiramente debilitados.

terça-feira, julho 01, 2008

Impressões da final
Ao olhar para os espanhóis comemorando a merecidíssima vitória, embora escassa para o "carrossel" que mostraram, e depois para os alemães cabisbaixos, veio-me de repente a seguinte dúvida: como será mudar-se na adolescência do Rio de Janeiro para Estugarda?

sábado, junho 28, 2008

Por uma vez

Já fiz a minha escolha para Domingo. É uma vez sem exemplo. Merecem, apesar de tudo. Arriba España!

Os trabalhos de RangelDos 71 deputados que o PSD tem no Parlamento, só 41 votaram a favor de Paulo Rangel para a liderança do grupo parlamentar. Menos do que os que votaram em Santana Lopes. que por acaso, além de Mendes Bota e Miguel Relvas, ausentes do país, foi o único a não pôr os pés no acto. Andava por aí, provavelmente a pensar em mais injustiças de que é vítima. É bom recordar que tivemos esta criatura ressabiada e irresponsável como primeiro-ministro durante sete longos meses. E que os deputados do PSD o preferem a ele do que a Rangel, mostrando bem quanto apreciam a retórica "guerreira" à substância do discurso e dos assuntos em discussão, e portanto, a sua própria qualidade de legisladores eleitos. Mas é bom lembrar que foram para S. Bento precisamente no tempo de Santana, como consequência de uma das maiores derrotas do PSD.
Paulo Rangel terá complicações com essa gente. Veremos como correrá missão no hemiciclo. Na faculdade, onde me deu Ciência Política e Direito Constitucional, as suas aulas eram concorridíssimas e enchiam anfiteatros, e delas saíram algumas máximas curiosas (ai de quem chegasse atrasado: apanhava logo com uma directa mordaz e sibilante). No Parlamento, espera-se, mutatis mutandis, igual brilho, com outra responsabilidade.
A resposta à estupidez
Soube-se há dias que não se pode gozar com o feminismo, muito menos com as suas guias, ou neste caso, as suas "Marias; que não podem ser satirizadas, ridicularizadas ou caricaturadas; que o Inimigo Público, que já teve como alvo todos os partidos, figuras da política, clubes de futebol, religiões, grupos cívicos ou de quaisquer interesses, e que até agora nunca tinha sido invectivado em público, cometeu uma terrível falta e um sacrilégio horroroso ao colocar uma simples coluna com uma brincadeira sobre as feministas da pátria.
Felizmente, perante a histeria de algumas Marias e das suas seguidoras Paulistas, responderam hoje com a devida moeda. Mencionando algumas hortas devidas, com a verrina que os caracteriza. Não se dar por achados: eis a resposta a dar nestas ocasiões.
A propósito: será que alguém levou mesmo a sério aquelas ridículos e absolutamente intolerantes protestos, próprios de quem não se sabe rir de si mesmo e se acha acima de qualquer caricatura? será que as feministas não perceberam que só atraíram má publicidade aos seu Congresso, que se realiza este fim de semana? Ou terá sido por isso mesmo?
Da minha parte, fica a promessa: o Inimigo Público continuará a ser o suplemento a procurar imediatamente mal apanhe o jornal à Sexta (juntamente com o Ipsilon, claro).

quinta-feira, junho 26, 2008

Gente com lata


Segundo o Expresso de Sábado, o ex-secretário de estado de Cavaco e ex-administrador da Companhia das Lezírias e da PT, Salter Cid, vai pôr um processo a esta última empresa, porque acha que é insuficiente a sua reforma de...17.900 Euros.
Quando quiserem um bom exemplo de gente que está nos organismos públicos não com o sentido do bem comum e do interesse público mas unicamente para se servir a si próprio, pensem em Salter Cid. Espero é que não venham as pessoas do costume falar em "inveja" ou "moralismo". Há coisas que pura e simplesmente não podem passar em claro, e este abuso é uma delas. Tamanho descaramento é de uma falta de ética de de bradar aos céus.
Actualização - a continuação do Euro

Com vários problemas com a net e um fim de semana fora, isto anda um pouco parado. Convém actualizar o blogue.
Não falei por isso mesmo da vil eliminação da Selecção Nacional frente aos panzers alemães. Olhando para o percurso dos nossos adversários na fase de grupos, estava optimista. Infelizmente, Scolari voltou a não estudar convenientemente a equipa e a não saber fazer as mudanças quando devia; Ricardo voltou a falhar nas saídas; Paulo Ferreira errou todas as marcações; Bosingwa errou na forma como defendeu; o árbitro errou mais do que uma vez em benefício da Alemanha; e face a todos esses erros, estamos fora do Europeu. Fim à euforia que dominou todos estes dias. Com o regresso a casa, as notícias desportivas podem voltar a concentrar-se no defeso, em assuntos como o da partida do Porto ao Benfica ao "roubar-lhe" um jogador sul-americano por um balúrdio.
O que aconteceu à nossa equipa aconteceu às outras favoritas: a Croácia surpreendentemente batida pela Turquia no último minuto do prolongamento, depois de marcar no penúltimo. Os penaltis determinaram a sua sorte. A Rússia deu um banho de bola à Holanda tão grande como os laranjas já tinham dado aos adversários, e ainda podiam ser mais, caso não fossem tão perdulários. Os cento e tal mil neerlandeses tiveram assim de abandonar as cidades suíças, cuja população era menor do que o número de adeptos. Depois a Espanha carregou sobre uma Itália cínica como sempre mas sem Gattuso e Pirlo, impediu-a de marcar nos momentos do costume e expulsou-a de penaltis.Tendo em conta que já não lhe ganhava desde 1930, é uma grande surpresa.
Vitórias? A Alemanha não, por favor. É uma Grécia com mais centímetros e melhores avançados. A Turquia até podia ser, para melhor discutirem com os gregos, mas a inveja lusitana não me permite torcer por eles. Entre a Espanha ou Rússia, que vença a melhor e que ganhe depois na final. Mal por mal, antes estes que os germânicos.
PS: Sacanice! Os alemães venceram a Turquia nos últimos minutos com uma sorte enervante! Estes tipos ainda ganham o Euro. Que a Fúria ou o Urso Branco não permitam tal sacrilégio!

quinta-feira, junho 19, 2008

Stone Roses

Os Stone Roses: uma banda que apareceu no momento certo mas lançou o segundo disco tarde demais. Explodiram no fim dos anos oitenta, em plenos movimentos Madchester, Shoegazing, e na loucura Rave potenciada pela Hacienda de Manchester, pelo extasy e pelas viagens económicas a Ibiza. Foram durante breves meses os arautos de uma geração, mas pararam por demasiado tempo e o seu Second Coming só chegou em 1994. A queda do sucesso, as saídas de músicos, e as zangas deterioraram a banda. Em 1996 vi-os em Vilar de Mouros para um concerto melancólico e já sem garra, embora agradável (pelo menos para mim, que à época mal tinha ouvido falar deles). Mais duas actuações desastrosas e tomaram a única decisão possível: pôr fim ao grupo e ir cada um para seu lado.
À parte os projectos a solo, destacando-se o ex-vocalista Ian Brown, ficou o psicadelismo incandescente da sua música. Na onda de reuniões de bandas extintas que se faz sentir de há uns anos para cá, quem sabe se os Stone Roses não aparecem para um Third Coming e mais umas sessões ao vivo. Se o tempo passado não for demasiado, como no seu anterior retorno.
Deixo-vos com I Wanna Be Adored, a melhor amostra dos Stone Roses.

terça-feira, junho 17, 2008

O "novo" Nepal


Ainda Pedro Mexia, sobre o novo regime do Nepal

Os donos da novel república do Nepal serão grotescos e parecem directamente vindos dos anos vinte. são aliás comandados por um terrorista que ao que parece abandonou as acções violentas sem qualquer tipo de responsabilização. Teme-se pelo país, que ao que parece não deve saber muito bem o que se passou com outros países asiáticos que optaram por regimes com as mesmas referências.
Mas há que culpar igualmente o deposto rei Gyanendra pelos últimos anos que acabaram com a monarquia nepalesa. Depois da morte colectiva da família real, ao que se supõe pela loucura do filho mais velho, numa história suspeitíssima de que só restou um pretendente ao trono, Gyanendra, que já não era popular, reinou como se de um tirano todo-poderoso se tratasse, insensível ao povo, suspendendo a constituição e chamando a si todos os poderes. Acabou por traçar o seu próprio destino e o da monarquia nepalesa.

Faço outro link, desta vez para umas linhas do Combustões, que demonstram isso mesmo:

Não sei se a monarquia voltará ao não áquele país. Tendo em conta que o novo regime proibiu manifestações monárquicas e certamente não admitirá movimentos pró-Tibete, é crível que a sua popularidade não deve durar muito. Mas se algum dia um novo rei vier a ocupar o trono nepalês, terá de ser outro que não Gyanendra, ou de espécie semelhante, mas sim um soberano que não se exima a olhar para o seu povo e que não se feche na fantasia do seu poder absoluto que força divina, constituição ou assembleia alguma lhe entregará.

sábado, junho 14, 2008

Democráticos? Pois sim

Dizem que agora é preciso um «plano B». Como assim, um plano B? Este «Tratado de Lisboa» já era o plano B. Não se esqueçam que o plano A, a infame «Constituição», foi rejeitado por países que ninguém se atreve a deixar para trás. Talvez apareça então um «plano C» que consista precisamente em deixar para trás a velhaca Irlanda. Já sabemos que quem discorda das ideias eurobeatas merece «castigo». Eis a «Europa democrática» destas santas cabeças.

Como bem ironiza Pedro Mexia, a "Europa Democrática" mostra a sua face quando é apanhada de calças na mão. Porque a referendo na Irlanda mostra exactamente como funciona a vontade do povo contra os euroburocratas bem pensantes que julgam possuir a panaceia para todos os males. Podem-lhes chamar nacionalistas, eurocépticos, atrasados, o que quiserem: os irlandeses exerceram o seu legítimo direito a recusar um modelo de construção europeia que lhes é estranho. E se mais referendos fossem feitos, outros resultados semelhantes surgiriam com certeza, como bem mostraram franceses e holandeses em 2005.
Põe em risco o "Tratado de Lisboa"? Põe. Mas paciência. Os senhores membros do Conselho Europeu deviam pensar que um tal passo jamais poderia ir contra a vontade popular, uma das pedras basilares desta mesma Europa dos 27. Caso contrário, se pensarem que bastam as suas magnas decisões por se imaginarem inatingíveis, não estarão muito distantes do Doutor Salazar no tempo em que a única Europa que tínhamos era a EFTA e as remessas dos emigrantes.

Está de parabéns













Completar 120 anos é digno de nota. Mais a mais se se pode dizer que está na moda (o que se deve também aos retratos de Almada). E ainda nem se lhe conhece a obra integral.

quinta-feira, junho 12, 2008

Resumos

Depois de um excelente "Dia da Raça" passado debaixo do sol - com os pequenos senãos de ter apanhado depois uma arreliadora constipação e de quebrar o recorde de espera num restaurante por uma refeição - lá pudemos ver Portugal a vingar-se de 96 e a vencer a República checa por 3-1. Um resultado excessivo, diga-se, por causa dos constantes calafrios que os checos impuseram na segunda parte e da raridade das oportunidades. Mas com a eficácia de um excelente Deco, ao lado de um Crisnaldo e subir de forma e de um Nuno Gomes lutador, a equipa mostrou eficácia e inteligência. tivemos ainda ajuda dos otomanos, que venceram nos descontos e despejaram um enorme balde de água fria sobre os helvéticos, que ficaram fora da competição. com pouco sorte, diga-se. Mas a Turquia, muito embora possa ficar fora, já é especialista em eliminar os anfitriões destas provas (Bélgica em 2000, Coreia em 2002 e agora a Suíça).
Não pude ver o primeiro jogo, mas parece que Portugal se superiorizou muito aos turcos. Com a Suíça já não temos que nos preocupar, podemos mesmo usar uma equipa alternativa. Fontes de maior preocupação serão as falhas da defesa esta tarde, as eternas saídas de Ricardo e a notória falta de adaptação de Paulo Ferreira à esquerda.
Sobre as outras equipas, e com apenas um jogo decorrido, podem-se tirar algumas notas, mas restam algumas incógnitas. Não me espantou a vitória da Alemanha sobre a Polónia, mas não sei se teremos voltado ao tempo dos "11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha". A Polónia terá sérias dificuldades em passar. A Croácia tem outros argumentos, e a frágil Áustria, embora esforçada, só por milagre porá os pés nos quartos de final.
Segue-se o "grupo da morte": a Holanda entrou da melhor forma e quase esmagou a temível Itália, campeã do Mundo em título. Um 3-0 surpreendente, mas merecido. Já a França, de novo sem Zidane, desiludiu. Não terá grandes facilidades em passar. Aposto mais na recuperação dos transalpinos. A Roménia tem um equipa interessante, com jogadores da craveira de um Mutu, Lobont ou Chivu, mas a sorte não quis nada com ela e pô-la no meio dos tubarões. Mas às vezes há surpresas: lembram-se do Euro 2000, em que juntamente com Portugal, os romenos expulsaram" Inglaterra e Alemanha?
Resta-nos depois uma Espanha que para não variar começou em grande em grande deve pensar. Acho que vão aos quartos mas não passam daí. A Rússia, supostamente uma "revelação" do certame, mostrou-se uma vez mais acabrunhada e apanhou com um 4-1. Não me parece que passem, nem eles nem os nossos carrascos de 2004, os gregos. A Suécia deve ocupar a outra vaga, mas deste grupo não sairá com certeza o vencedor do torneio. Oxalá não me engane: é só trocar Suécia por Portugal e temos os mesmos intervenientes que "abriram" e "fecharam" 2004.
depois desta fiada de prognósticos e de frases feitas, duas notas. Uma para os suíços e as suas incríveis restrições em nome do seu "sossego"; proibir manifestações de júbilo meia hora depois do final dos jogos não cabe na cabeça de ninguém. As interdições à exibição de material nas fan-zones de outras marcas que não as patrocinadoras é de uma radicalismo bem à helvética. Para isso não tinham co-organizado o Campeonato. Bem dizem que é o povo mais chato da Europa. Tanto pior para eles, que agora têm de aturar as manifestações "tugas" e dos restantes adeptos por baixo das barbas. Não tenho pena nenhuma.
A segunda constatação vai para um erro já cometido e sempre relembrado em Portugal: em Klagenfurt, cidade dos seus oitenta mil habitantes e capital da alpina Caríntia, construiu-se um estádio para trinta mil espectadores. É pouco crível que tenha grande utilização no futuro. Se assim for, sempre se prova que não somos só nós a apostar em elefantes brancos parados (em França e Espanha aconteceu o mesmo). Mas mais insano que isso é planear para a pequena cidade um jogo tão perigoso como o Alemanha-Polónia. Desacatos não faltaram, e até houve um morto. Agora, Klagenfurt vai receber o Croácia-Alemanha. Não sei se haverá lá mais festa ou sentimentos de coração nas mãos. Que dirá o controverso governador Jorg Haider?
Amanhã temos mais um dia e mais uma fornada de Euro. A seguir com a atenção possível.

terça-feira, junho 10, 2008

Elastica


Efémero grupo britânico, este, e muito pouco activo. Comandados por Justine Frischmann, antes namorada de Brett Andersson, vocalista dos Suede, (onde aliás tocou), e depois de Damon Albarn, dos Blur, os Elastica foram daquelas bandas que aproveitaram da melhor forma a vaga de britpop e o regresso do glam rock e com um par de singles tiveram impressionantes ascensão na tabela discográfica. A decadência do grunge pusera de novo os ingleses ao comando do pop-rock, e esta típica banda de músicas de dois minutos, entre o glam e o punk, chegou em 1995 a nº1 no Reino Unido, com o álbum Elastica, impulsionada pelos singles Stutter e Connection. Depois do entusiasmo inicial e de uma extensa tournée, passaram pelos problemas de drogas e de deserções costumeiras nas bandas rock, e só voltaram a lançar um álbum anos mais tarde, em 2000, pouco antes de se separarem definitivamente. Um pouco como no caso dos Stone roses, mas sem o mesmo mediatismo. Foram pouco a pouco sendo esquecidos, a não ser talvez em Inglaterra.
Lembrei-me deles ao recordar os anos da pop britânica reinantes dos anos noventa - embora aqui estejamos mais no domínio do punk - e ao encontrar alguns dos seus vídeos no Youtube, como Stutter, o seu primeiro êxito, demonstrativo do estilo dos Elastica e da autêntica rocker que era (ainda é?) a imparável Justine Frischmann.
 

sexta-feira, junho 06, 2008

O máximo responsável

O castigo aplicado pela UEFA ao Porto poderá ser exagerado se comparado com o do AC Milan há dois anos, e até com o do Marselha em tempos idos. Os encontros com árbitros não justificariam tal castigo. Mas do ponto de vista moral, e lembrando apenas todos aqueles casos descarados em que o clube das Antas passou impune, aqueles em que não se queixavam de ser perseguidos pela justiça, acaba por sr um justo castigo. Justo também pela pesporrência e chico-espertice demonstrada com o não recurso da perda dos seis pontos, como se pensassem "desta já nos safámos". não se safaram e conseguiram apenas trazer males maiores ao clube.

Mas a maior nota de perplexidade vem da confiança cega no seu "Grande Timoneiro". Antes das declarações de Pinto da Costa, ouviam-se mil e uma opiniões, das críticas ao Departamento Jurídico pela estratégia tomada aos mais patéticos "até a UEFA tem inveja de nós". Depois das ditas declarações, tudo acalmou um pouco: sim senhor, houve recurso, o presidente vai ser ilibado, vai-se na mesma à Champions. E se se confirmar a punição, vão pedir contas a quem? A todos menos a Pinto da Costa, claro está, a quem "reforçam a confiança". Em qualquer instituição os desaires são antes de mais assacados ao máximo responsável. No FCP, pelo contrário, é sempre este que se safa. Os culpados são sempre outros, nunca o presidente: este é infalível, omnisciente e eterno. Como diz Filipe Nunes Vicente, quando ganhou foi contra tudo e contra todos, quando perde é por culpa de tudo e de todos. Menos dele. E esta é uma das maiores aberrações daquele clube: com o tempo, deixou de ser uma colectividade para se transformar praticamente num one man club, concentrado nas mãos e na vontade de uma única pessoa em quem os outros confiam cegamente, e que periodicamente é reentronizado numas eleições formais e plebiscitárias sem qualquer concorrente à vista. Se a maioria dos sucessos que obtiveram se devem a ele, também os desaires e sobretudo a mancha de vergonha que agora alastra pelos canais noticosos internacionais são da sua responsabilidade. Tanto pior para os portistas: ao dar-lhe todo o poder incondicionalmente, ficaram com a obrigação de arcar com erros que Pinto da Costa cometeu. A questão é saber se já se deram conta disso.

Cinemateca precisa-se

 
Esteve previsto para fins de Maio, mas adiaram. Sabe-se contudo que mais dia, menos dia os cinemas Cidade do Porto fecham mesmo as portas. O que significará tão somente o seguinte: que no perímetro da cidade restarão as salas do Dolce Vita das Antas, num extremo, e o cubículo do Teatro do Campo Alegre. Quem quiser ver mais cinema terá de ir aos shoppings de Gaia, Matosinhos, Rio Tinto e Maia.

Longe vão os tempos do Foco, Pedro Cem, Lumière, Charlot ou, mais recentemente, Nun´Álvares, além de muitos outros. Construiu-se um Central Shopping que está completamente às moscas. Tirou-se o cinema da Baixa - o renovado Batalha está muito bem, mas filmes só quando calha - e transformaram-se salas históricas em IURDS, como o Vale Formoso, isso quando não ficam uma ruína, caso do Águia d´Ouro, para o qual ninguém tem soluções.

 
A agudíssima crise no Porto é tanto mais aviltante e deprimente se nos lembrarmos que se trata da cidade pioneira do cinema em Portugal e a terra e morada do mais antigo realizador do mundo em actividade. Sintomático será que o animatógrafo de Aurélio da Paz dos Reis tenha sucumbido para dar origem a uma rua no Carvalhido.

Por isso mesmo, urge acelerar o processo de criação de uma secção da cinemateca no Porto. Sítio não falta, basta aproveitar a Casa das Artes, espaço incrivelmente fechado há já uns tempos, demonstrando um desperdício a toda a prova dos equipamentos culturais de qualidade. Há espaço de sobra, jardins, dois auditórios, etc. A ideia já tem circulado, embora não conste do abaixo-assinado disponível desde há uns dias. Fica aí o endereço e a esperança de que se reverta, ao menos em parte, a triste condição do cinema portuense.

domingo, junho 01, 2008

A previsão dos candidatos

Manuela Ferreira Leite lá ganhou as directas no PSD com escassa margem de avanço, mesmo sobre Santana Lopes. Absolutamente previsível e previsto. A ex-ministra de Cavaco terá agora muito trabalho pela frente, embora seja razoável crer que possa pelo menos tirar a maioria absoluta a Sócrates.
Mas esta candidatura a três lembra-me uma sarcástica caracterização que Miguel Sousa Tavares traçou em tempos num artigo: a de que quando havia eleições para a liderança do PSD havia sempre o candidato "credível", o candidato "do futuro" e o candidato Santana Lopes. Uma análise e uma previsão certeira, como hoje se provou supinamente. Só falta saber onde colocar Patinha Antão.
O videoclip mais britânico de sempre






Descobri que Don´t look Back in Anger, dos Oasis, é o mais british dos videoclips. Como se sabe, a banda dos irmãos Gallagher foi a mais popular dos anos noventa no Reino Unido, tendo ficado muito à frente em discos de platina (mas não necessariamente em qualidade) dos seus rivais Blur. Em 95/96 a banda esteve no seu auge com o álbum Morning Glory, com músicas que se tornaram clássicos dos anos noventa como Wonderwall, e o número de crianças chamadas Liam ou Noel aumentou brutalmente. Depois de muitas zangas, copos e escândalos, o grupo deixou de interessar ao resto do mundo e resguardou-se na sua sempre alta taxa de popularidade no Reino Unido.Don´t look back in Anger é também das mais conhecidas músicas desse álbum. Além da música, muito Beatles (como era próprio dos Oasis), tipicamente britpop, o videoclip transpira Britishness: o London cab, a mansão com o seu garden, a própria postura e visual da banda (com a inevitável pandeireta, porventura o instrumento mais utilizado da britpop), etc. Mas há um pormenor que atribui só por si o galardão à banda: a presença de Patrick Macnee, o célebre John Steed da série dos anos sessenta Os Vingadores, que aprendi a conhecer nos Agora Escolha e que a RTP-Memória em boa hora repôs. Steed é o gentleman inglês em todo o seu esplendor, com os seus fatos impecáveis, o seu chapéu de coco, e o seu guarda-chuva que o salva em mais do que uma ocasião, sabe também lutar com mestria e manejar armas e cumpriu o serviço militar na Segunda Guerra. É o elemento imutável da série, acompanhado de uma agente que tanto pode ser Emma Peel como Tara King, ou outra. Houve ainda uma infleiz adaptação ao cinema, com Raçph Fiennes e Uma Thurman. No clip aparece como o velho condutor do táxi, e pelo meio vê-se a sua silhueta rodando o guarda-chuva. Com tão ilustre personagem, que provavelmente fará inveja ao Prof. Espada, não tenho quaisquer dúvidas que o nº1 dos telediscos british iria certinho para Don´t look Back in Anger.

sexta-feira, maio 30, 2008

Russos e ingleses

Por muito que se fale em Cristiano Ronaldo e na sua participação (decisiva) na conquista da Liga dos Campeões pelo Manchester, as vitórias nas competições europeias deste ano ficam inegavelmente ligadas a dois países: Reino Unido e Rússia. As escolhas dos recintos das finais e o simples engenho encarregou-se de cruzar estes estados que até andam de candeias às avessas que se devem a casos de espionagem - em especial o do envenenamento de Litvinenko - que se esperam entre duas potências com ambições internacionais.
Na Taça UEFA, no estádio do Manchester City, o surpreendente Zenit S. Petersburgo venceu sem discussão o Glasgow Rangers. Os jogadores da sumptuosa cidade dos czares não deixaram o crédito de golear o Bayern por mãos alheias e não deram hipóteses aos proletários da industrial Glasgow Leais à Rainha.
O Manchester United, como se sabe, e num encontro de craques, teve a sorte dos penaltis no escorregadio relvado de Moscovo contra o Chelsea de Avram Grant e levou a sua terceira Taça dos Campeões.
Méritos à parte, constata-se que os russos foram ganhar a Inglaterra a uma equipa britânica (escocesa pró-Inglaterra); e duas equipas inglesas foram medir forças em Moscovo, tendo uma delas por sinal um presidente russo. O que tira todas as dúvidas sobre quais as nações dominantes do futebol europeu este ano - sim, os russos também o foram (e merecem parabéns pela decoração do estádio e pelo logótipo da final).
Tudo isto para dizer o seguinte: a Supertaça europeia deste ano vai valer a pena. Bom seria que mudassem para um estádio mais majestoso do que o acanhado Louis II do Mónaco.

quarta-feira, maio 28, 2008

Linha do Tua ameaçada
Já há muito que devia ter postado isto, mas mais vale tarde do que nunca. Está online uma petição para impedir a destruição da histórica linha do Tua, uma das últimas de Trás-os-Montes, coisa que acontecerá se a barragem projectada para a zona, com uma cota planeada, for avante. É o próprio Douro, como património da humanidade, que se encontra em perigo.
Fica este aviso telegráfico, mas voltarei a este assunto brevemente e com mais pormenores.

terça-feira, maio 27, 2008

A faraónica sede da Caixa


Uma das evidências do que falei no post dos bancos e urbanismo é a sede da CGD, em Lisboa. Tive oportunidade, há pouco tempo, de observar mais atentamente o ciclópico edifício entre o Campo Pequeno, o Arco do Cego e a Avenida de Roma. Da autoria do Arquitecto Arsénio Cordeiro, e terminado em 1993, é um expoente do novo-riquismo Cavaquista da altura, bem expresso noutros sinais exteriores de "riqueza" (contemporâneo da CGD são o CCB e a Torre do Tombo, do mesmo autor). Quem der alguns passos ao lado da construção não pode deixar de ficar espantado com as suas dimensões hiperbólicas, o comprimento desmesurado, o volume esmagador, recordando as obras totalitárias da URSS, da Itália de Mussolini e da Roménia de Ceausescu, e que certamente seria do agrado de Duarte Pacheco. Aliás, outra comparação pode ser feita com as loucuras romenas: o edifício, aquando do início da sua utilização para que aí funcionassem todos os serviços centrais da Caixa, estava subocupado, tal como ainda acontece com o "Palácio do Povo" de Bucareste. De forma a explorar melhor toda aquela massa enorme e conseguir alguma rentabilidade, Rui Vilar criou a Culturgest, uma empresa de gestão de espaços culturais dependente do banco, da qual ressalta o grande auditório, com 700 lugares. Foi a solução encontrada para de alguma forma humanizar aquele elefante branco, meio soviético, meio neoclássico, com entradas formadas por uma espécie de cúpulas em estilo neobizantino fashion (quanto é que essas cúpulas não terão custado, Deus meu!), que esmaga e domina toda a área vizinha. O bairro do Arco do Cego fica ali todo acanhado. Meia Avenida João XXI pertence-lhe. E a praça de touros do Campo Pequeno perde o protagonismo de zona que lhe caberia. Em suma, toda uma vasta área pertence ao monolito cor de creme.


A sede da CGD podia até ser parecida com a actual, mas em dimensões mais suaves e diminutas, (e sem as horríveis cúpulas). Não seria difícil juntar os serviços centrais e a Culturgest numa obra um tudo de nada mais modesta. Mas não. Tinha de ser em grande, como qualquer obra de relevo em Portugal. Os nossos governantes, especialmente os que têm a tutela das obras públicas, e os gestores de empresas estatais julgam-se certamente reencarnações dos faraós. Mas a sede do maior banco português não é apenas um monumento visível ao desperdício de fundos (pelas empresas públicas) ou um dos maiores edifícios comerciais da Europa: é também mais um exemplo de como os bancos alteram e dominam o skyline de uma cidade, ou parte dela, e de como o simbolismo do seu poder se torna tão incomodamente concreto e visível.

sábado, maio 24, 2008

Pequenos ódios

Respondendo ao desafio do Samuel Paiva Pires, do Estado Sentido, aqui deixo seis coisas pelas quais não nutro grande afeição:
- Deitar-me e levantar-me cedo (esta deve ser a mais respondida)
- Risinhos parvos, altos e indiscretos
- Arquitectura de tijoleira de casa de banho e vidros fumados, que depois dos subúrbios atacam indisfarçadamente as cidades
- Esta atmosfera climatérica chata, nublada mas sem realmente chover (especialmente quando o sol devia rondar)
- Salada avinagrada, tomate, pepino e queijo, "alimentos" que me despertam a mais viva repugnância
- Para finalizar, um sentimento: a mentira descarada e consciente

sexta-feira, maio 23, 2008

Lucas Pires

Nos dez anos da morte de Francisco Lucas Pires, não há melhor homenagem do que relembrar o blogue com o seu nome, administrado pelos seus 4 filhos, com alguns dos textos que escreveu.

quinta-feira, maio 22, 2008

Nas asas das Águias - o êxodo dos judeus iemenitas

Ao ler este post de A. Teixeira publicado no Herdeiro de Aécio sobre as tribos israelitas e as migrações de judeus provenientes da África ou de outros territórios do Médio Oriente, lembrei-me do caso particular dos judeus iemenitas.

Perdidos na colónia britânica do Iémen, no canto sudoeste da Arábia, a velha comunidade judia, ali existente desde tempos imemoriais, encontrava-se na sua grande maioria na zona de Aden, o maior porto da região. Com a proclamação do Estado de Israel (de que se comemoraram há dias sessenta anos), a maioria muçulmana iniciou com um processo de hostilização e de agressões aos judeus, que envolveu incêndios a casas e armazéns e algumas dezenas de mortes. Tendo também notícias da criação do novo estado hebraico, os judeus resolveram então fazer o seu Êxodo e rumar a Israel. Como viviam praticamente na Idade Média, sem quaisquer meios motorizados (só havia um automóvel em Aden) ou telecomunicações, formaram uma extensa caravana, de contornos bíblicos, disposta a atravessar os desertos das Arábias, que muito surpreendeu as autoridades britânicas colocadas na ainda colónia.

Quando souberam da intenção de tal façanha, os israelitas resolveram formar uma ponte aérea para trazer todos os que quisessem ir para a "terra prometida". Assim, recorrendo a aviões americanos e britânicos, realizaram várias centenas de voos no espaço de ano e meio, transportando quase 50 mil pessoas, entre as quais se contavam igualmente alguns judeus da Etiópia. Os voos eram secretos, para impedir eventuais sabotagens árabes e garantir a segurança dos refugiados.

Todo este esforço ficou conhecido como Operação Tapete Mágico, ou Operação nas Asas das Águias. Se a primeira se percebe bem, a segunda precisa de uma explicação: no seu primitivismo, os judeus iemenitas não conheciam o avião, e ficaram naturalmente atemorizados com a perspectiva de voar naquelas máquinas enormes e brilhantes. Todavia, os seus sacerdotes encorajaram-nos a embarcar, dizendo que era apenas o cumprimento das profecias bíblicas, segundo as quais alcançariam a Terra Prometida montados nas asas de águias (em Êxodo 19:4 e Isaías 40:31). As águias em questão eram DC 3 americanos. Ainda que amedrontados, ficaram convencidos e deixaram que a sua fé os levasse de avião para Israel, adaptando-se rapidamente ao novo meio de transporte. Cumpria-se assim a profecia e chegaram novas levas de judeus a Israel, originários do sul da Arábia.
O que é que a EXPO comemorava mesmo?

Tendo em conta que passam hoje dez anos que abriu a EXPO 98, só estranho que ao anunciar isso ninguém se tenha lembrado do óbvio: que faz 510 anos que Vasco da Gama arribou a Calecute, culminando assim a primeira viagem marítima da Europa à Índia.

segunda-feira, maio 19, 2008

Os bancos, inimigos das cidades?
Tornou-se um lugar comum dizer que o capitalismo de hoje em dia é financeiro e especulativo, e não produtivo; que os bancos ganham lucros fabulosos por via dessa especulação; ou que a dada altura começaram a abrir agências bancárias como cogumelos.

Só que muitas vezes os lugares-comuns são a representação fiel da realidade, e os casos de cima seguem essa mesma regra. O capitalismo é muito mais especulativo, como se pode ver por estas subidas vertiginosas dos preços do petróleo e de bens alimentares, ou por alguns estranhos humores da bolsa. Poucas esquinas haverá sem a sua pequena agência bancária, anunciando as melhores taxas do mercado.

Essa mudança dos padrões económicos manifestou-se em diversas áreas, entre as quais uma certa imagem das cidades. Quem estiver atento verificará que os bancos, tirando as suas sedes históricas, funcionam normalmente em prédios modernos, sobretudo em mamarrachos revestidos a vidros fumados, castanhos ou pretos, construídos nos lugares onde antes havia edifícios da Belle Époque. Em Lisboa, nas Avenidas Novas, há inúmeros exemplos disso. Muitas vezes entalam-se entre pequenas pérolas arquitectónicas de há várias décadas, seriamente ameaçadas de demolição. Noutros casos, descaracterizam-se gravemente os edifícios. O exemplo que me vem à cabeça é o do Palácio Atlântico, no Porto, na Praça D. João I, outrora um dos mais elevados prédios do país, em belo mármore castanho, e hoje coberto por placas de cor creme. Felizmente, restaram as pinturas do pórtico e da entrada.
Depois, há os casos bem conhecidos de cafés de renome, palcos de tertúlias, discussões ou longos almoços de cavaqueira das "elites" locais, com as compridas salas de bilhar e vidraças para as movimentadas ruas da respectiva localidade, que ao longo do tempo foram desaparecendo para dar origem a mais uma agência com as tabuletas rosa, laranja, verde e todas as outras cores de que as instituições de crédito se quiseram munir para criar um efeito visual mais poderoso mas nem por isso mais atractivo. Tantas são que poder-se-ia atribuir a cada um dos principais partidos portugueses um banco diferente: ao PS caberia o BCP (na prática não anda muito longe disso), ao PSD o BPI, o PCP ver-se-ia convertido à classe dos capitalistas financeiros com o Santander Totta, o CDS arrebataria a estatal CGD, Os Verdes ficariam com o BES, e, tendo em conta o novo lilás que o BANIF adoptou, deixar-se-ia o banco madeirense aos cuidados do BE (além de que o Centauro que faz parte do novo símbolo é uma minoria que urge proteger).
Dessa poluição visual não sofrerá A Brasileira do Porto, se se tiver em conta as promessas de Artur Santos Silva. O edifício onde funciona o histórico café pertence ao BPI, e os actuais locatários, incluindo o Café di Roma, têm ordem de saída, apenas adiada por interposição de uma acção de suspensão. Seja como for, e mesmo crendo na palavra de Santos Silva, é um bom exemplo de como os bancos modelam, controlam e gerem as mudanças da vida urbana, condicionando as suas instituições e até o seu modelo de urbanismo. Estranhamente, o crescimento das agências é inversamente proporcional ao do número de bancos, com todas as fusões e aquisições que se verificaram nos últimos anos (apesar da entrada de bancos estrangeiros), que deram origem aos grupos actuais. Mas não haja dúvida: os letreiros berrantes são mesmo mais numerosos e ocuparam o seu próprio espaço, seja em blocos espelhados e desenhados à pressa, seja em edifícios de traça mais clássica que em tempos albergaram outras instituições, menos dadas a créditos e débitos, mas com outra relevância cívica e social. Era bom que pensássemos mais nisso ao dar de caras com mais um inestético anúncio bancário, ente mais uma dúzia num raio de 50 metros.
As previsões de Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa disse, nas suas habituais homilias dominicais nocturnas, que percebeu enfim que "Luís Filipe Menezes é emocionalmente instável". Que clarividência! Tantas previsões falhou que agora só se atreve a dizer o que toda a gente já está farta de saber fazendo isso passar por análises para o futuro.

quarta-feira, maio 14, 2008

Há meio século, o Porto aclamou Humberto Delgado

Este mês de Maio é mesmo a época de todas as efemérides, comemorações e aniversários. algumas sem grande importância, outras que merecem ser recordadas. É o caso do dia de hoje, quando passam 50 anos da maior manifestação política a que o Porto já assistiu: a chegada de Humberto Delgado, em plena campanha eleitoral.

O "General sem Medo", que dias antes atirara com o famoso "Salazar? Obviamente, demito-o" que tantas preocupações provocara no seio da União Nacional e da candidatura de Américo Tomás, candidatava-se com o apoio de quase toda a oposição política, numa lista de apoiantes que juntava nomes tão díspares como António Sérgio, Rolão Preto e Aquilino Ribeiro. Iniciou uma campanha "à americana" (Delgado era aliás um entusiasta da NATO e dos EUA), sempre em carros descapotáveis e com enormes comícios onde quer que fosse. O de Chaves, por exemplo, ficou famoso. Em quase todas as localidades, com pontuais excepções, era recebido com os eufóricos brados de "Humberto, Humberto". Até dada altura, os líderes da União Nacional, i.e. é, do próprio regime, pouco se importaram. Mas quando Delgado chegou de Foguete ao Porto, eram milhares e milhares os que os aguardavam em frente a S. Bento, enchendo toda a Baixa da cidade. O general teve de prescindir do seu carro para atravessar aquele mar de gente até à sede da sua candidatura, em Carlos Alberto, onde pela primeira vez falou à multidão entusiasmada. Houve também um comício que transbordou de emoção no Coliseu, e outras acções de campanha, que verdadeiramente atingiu a apoteose no Porto. As autoridades, até aí serenamente vigilantes, ficaram apreensivas. O Ministro do Interior, Trigo de Negreiros, em completo desespero, deu ordens ao Governo Civil para parar com as manifestações de apoio ao General, nem que fosse com recurso a disparos sobre a multidão; do Porto, obviamente, recusaram-se a cumprir qualquer ordem, recordando ao ministro os avisos que recebera.


O Estado Novo aprendeu aí a lição, e dias depois, em Lisboa varreu todos os que estavam no exterior do liceu Camões e que não puderam entrar para assistir ao comício. A contrapropaganda e as proibições para "manter a ordem" fizeram a sua aparição. Nas eleições propriamente ditas teve lugar a monumental fraude que é conhecida, com urnas trocadas, pides a votarem várias vezes numa "eleição divertida" e, em certas localidades, Tomaz obteve mais votos do que os inscritos, assegurando assim a sua escolha. Humberto exilou-se no Brasil e encontraria a morte às mãos da PIDE num caso ainda difícil de deslindar. Um erro crasso da parte dos seus mentores. O Estado Novo, que até 58 nunca tivera grande oposição nem preocupações internas de maior, sofreu um enorme abalo com a candidatura de Delgado, a que se lhe juntou a sua morte e a guerra em África. A recepção no Porto foi talvez a maior e mais visível demonstração desse abalo inicial, que tornaria Humberto Delgado, porventura com algum exagero, num herói nacional, e cujo nome passaria a figurar no cimo da Avenida dos Aliados, recordando esse 14 de Maio em que o repetiram em altos brados, como nunca se ouvira antes.

terça-feira, maio 13, 2008

Um dos maiores


Além do Boavista, outras tristezas há, como ficar em quarto lugar (esse sim, seria o lugar natural dos do Bessa). Mas despedida do Maestro Rui costa provocou uma comoção e um afluxo de público como este ano não se tinha visto na Luz - além de uma vitória segura. Precisámos de chegar à última jornada para isso. Mas sobraram apenas a homenagem e o orgulho, como deve ser próprio de um grande clube. Rui saiu em festa aplaudido pelos seus, como estava escrito. Vestirá outras roupagens doravante. E eu poderei um dia dizer que não faltei, que estive lá, a assistir ao último passe de grande classe de um dos maiores jogadores portugueses de sempre.

domingo, maio 11, 2008

A desgraça do Boavista
A decisão da Comissão Disciplinar da Liga acabou por ser arrasadora para o Boavista: a descida de divisão. Depois de todos os problemas financeiros, ameaças de rescisão e de insolvência, épocas sem ir à UEFA e Sérgios Silvas, só faltava esta machadada, a anteceder a inevitável pázada de terra que provavelmente será o destino dos axadrezados. Sem meios para acudir às suas inúmeras dívidas, o clube, se os eventuais recursos nada alterarem, tem o destino traçado, graças às manigâncias dos Loureiros.


Um cenário em que o xadrez se torna apenas negro e que me entristece muito. Cresci com a convicção de que o Boavista era o quarto grande, e por influência de familiares e amigos ganhei apreço pelo clube, aliás perto da minha casa. Aprendi a jogar lá ténis e refiz-me sócio anos mais tarde, quando pela primeira vez a armada do Bessa jogou na Liga dos Campeões (estreando-se com um embaraçoso 0-3 em casa, frente ao Rosemborg). Vi jogos memoráveis, uns contra a equipa da casa, em que o meu Benfica venceu categoricamente, e outros apoiando os do Bessa. Lembro com saudade os jogos contra o Sporting em 96, que ditaram a saída de Queirós, em 97, na meia final da Taça, em em 2001, o jogo chave do título desse ano; contra o Porto, em especial em Janeiro de 2001, no dia em que se inaugurava a Capital Europeia da Cultura, em que o Boavista ganhou o primeiro lugar que não mais largaria; exibições fantásticas contra o Borussia de Dortmund, o Kiev, o Hertha de Berlim, o golão do meio do campo de Mário Silva ao Feyeenord, o enorme roubo frente à Roma, o massacre do Manchester United e a desilusão com o Celtic, nas meias finais da UEFA. E o jogo com o Aves, em que o Boavista se sagrou campeão e desfilou avenida abaixo, em que o público invadiu o relvado, boavisteiros e não só, abraçando-se, levando pedacinhos de relva, festejando efusivamente um campeão novo em folha.

Também me lembro do velho Bessa, do pião, do Topo Sul onde ficavam os Panteras Negras, das bancadas laterais com telhado de zinco, por cima da qual, no prédio atrás do Dallas se viam alguns mirones, ou por onde fugiam algumas bolas mais altas. E da construção gradual do novo estádio, o primeiro a ser começado e o último a ser inaugurado, com um jogo contra o Málaga, ou do Jogo das Estrelas, de Figo, Zidane, Schumaker e companhia, numa bancada ainda sem cadeiras.


Tudo isso me enche de saudade das noites e tardes do Bessa. Revolta-me o laxismo de vários anos, o chico-espertismo do Major, que continua impune, a hipocrisia e parcialidade de Nuno Cardoso, que deu dezenas de milhões de Euros ao Porto e uma migalha aos axadrezados para a construção dos respectivos estádios, a ingenuidade a roçar a estupidez dos dirigentes actuais quando um qualquer Sérgio Silva acenou com cheques de brincar, e os pesos e medidas diferentes para os castigos aplicados.


A possível descida de divisão do clube ainda é o menos: com algumas ajudas financeiras, seria apenas algum tempo no inferno, antes de regressar à divisão maior. O problema são as ciclópicas dívidas e a falta de investidores de peso que ajudem a aliviá-las. Da CMP nada virá, já que o boavisteiro Rui Rio não está para aí virado. Os salário em atraso (alguns funcionários não recebem há coisa de um ano!), as dívidas a outros clubes, ao fisco e à segurança porão provavelmente um cheque mate ao Boavista tal como o conhecemos. A SAD declarará falência, o clube fará ligeiras alterações da sigla e terá de recomeçar do zero, das distritais. Com a popularidade que apesar de tudo conserva, galgará em poucos anos os diversos escalões nacionais, tal como teve de fazer nos anos sessenta, em que andou pela terceira aos chutos no pelado campo do Bessa, onde toda a vida jogou. Voltará ao escalão maior e à Europa do futebol, recuperar as memórias das equipas das "camisolas esquisitas" que chegaram a provocar espanto e temor nas competições da UEFA.
A voz de Humberto
Hoje ouço pela primeira vez a voz do General no programa que está a passar na RTP1 da autoria de Lauro António.Uma voz gravada e desvanecida pela técnica do tempo mas ainda solta e determinada.De quem sabia o que queria.Como teria sido Portugal caso Salazar fosse demitido na altura?

Boa pergunta. Será mais uma razão para um conjunto de "What if"? No que toca à Guerra do Ultramar, em especial, pergunto-me como é que o Presidente do Conselho nomeado por Delgado reagiria.

Também nunca tinha ouvido as palavras do "General Sem Medo". Aquelas que foram reveladas, pronunciadas num comício em Chaves durante a campanha de 58, eram firmes, tronitruantes, e sobretudo iradas, muito iradas.

quarta-feira, maio 07, 2008

O futebol precisa de dinheiro, não é?
O Trofense subiu e vai-se estrear na primeira divisão de futebol. Seguir-se-lhe-à o Rio Ave, clube de Vila do Conde que dista uns 15 quilómetros da Trofa, ou o Vizela. O quarto classificado, o Gil Vicente, já não tem hipóteses.
O que é que estes 4 clubes têm em comum? Ficam todos na região entre Ave e Cávado, que já tem o Vitória de Guimarães e o Braga na primeira divisão e o Varzim e Desportivo das Aves na divisão de Honra, além do quarteto referido. O que eu gostava de saber é como é que uma das regiões económica e socialmente mais deprimidas do país, que assiste a uma crise aguda da sua indústria e implora pela ajuda do Governo e dos empresários, tem meios para colocar tanto clube de futebol nos escalões profissionais. O dinheiro falta num lado mas aparece noutro.

segunda-feira, maio 05, 2008

A Tragédia da Superga

 
Maio parece ser o mês de todas as efemérides. Algumas há que são mais facilmente recordadas, sejam mais recentes (o desaparecimento de Maddie, por exemplo), ou menos (o Maio de 68). Mas hoje vi no jornal um acontecimento que, embora algo esquecido, comoveu a Europa da altura do pós-guerra.

Aqui há tempos falei do desastre aéreo de Munique que vitimou parte da equipa do Manchester United, em 1958. Mas anos antes tinha havido um ainda pior. Em 1949, a fabulosa equipa do Torino veio a Portugal para um jogo particular com o Benfica, como convidado para a homenagem ao jogador Francisco Ferreira. Os rivais da Juventus tinham na altura a melhor equipa italiana, comandada pelo atacante Valentino Mazzola, muitos dos quais internacionais da Squadra Azurra, e estavam quase a atingir o quarto scudetto consecutivo. No regresso a Turim, depois de jogarem com o Benfica, o avião onde seguiam envolveu-se no nevoeiro, e quando tentava descer para recuperar visibilidade, com deficiente apoio radiofónico, bateu violentamente contra a Basílica da Superga, numa colina perto de Turim. Todos os que seguiam a bordo do avião pereceram.
O acidente provocou viva comoção em Itália e por toda a Europa. Em Portugal, onde os jogadores do Grande Torino tinham realizado a sua última partida, milhares de pessoas acorreram à Embaixada Italiana, na zona do Paço da Rainha, em Lisboa, para assinar o livro de condolências, como atesta o recente livro de fotos dos anos 50 da autoria de Joaquim Vieira. Nas quatro jornadas finais do campeonato italiano, o Torino lançou os jovens da sua formação. Todos os outros clubes os imitaram, e os turinenses venceram o campeonato. Só seriam novamente campeões nos anos setenta, altura em que também ganharam uma Taça UEFA. Depois disso, alternariam subidas e descidas na Série-A. Nunca mais surgiu uma equipa do Torino como aquela dos anos quarenta. O filho de Mazzola, Sandro, tornar-se-ia ele próprio um craque, mas pelo Inter de Milão. A tragédia da Superga seria um choque terrível para o futebol italiano e para o clube que continua, apesar das adversidades, a ser mais popular na sua cidade do que a poderosa Juventus, sua adversária eterna no Derby della Mole.

quarta-feira, abril 30, 2008

Turville e Dibley


Na última (e fabulosa) obra de Ian Mc Ewan, Na Praia de Chesil, tentei imaginar como seria a campestre aldeia de Turville, berço do protagonista Edward Mayhew. Só me veio à memória, como exemplo de pequeno povoado inglês no meio de campos verdes, capelas góticas e velhos lordships, a fictícia Dibley, cenário da série de britcom sobre as desventuras da vigária da aldeia e dos seus hilariantes (e algo representativos da sociedade rural britânica) moradores.

Qual não é o meu espanto, ao tentar saber mais coisas sobre Turville, ao descobrir que a aldeia do livro é mesmo a Dibley da série, com outro nome! Tal como eu a havia imaginado. Coincidência incrível ou sinal de que a velha "Inglaterra verde" está muito mais restrita do que pensava?
O caos laranja
Imagem retirada do Abrupto


Gostava de ter postado mais sobre a situação interna no PSD, mas desisti. A toda a hora e momento vem mais uma novidade, surge um novo candidato, divulga-se mais um apoio. É o caos laranja. As agências noticiosas e de faits-divers devem esfregar as mãos de contentes.

Com o avanço de Manuel Ferreira Leite, as coisas pareciam ter tomado um rumo, tal é a aura sebastianista da temível ex-ministra. Aguiar Branco desistiu logo, e Passos Coelho parecia ser um actor secundário (para não falar de Patinha Antão e Neto da Silva, simples figurantes). Mas eis senão quando Alberto João, himself, entra em cena, apoiado pelas distritais do Porto, Lisboa e Algarve, chefiadas pelas promessas de cacique Marco António, Cruzeiro e Bota, outro eterno pantomineiro laranja. A coisa começou a tomar ares de ópera bufa. Finalmente - e quem mais poderia ser? - o Menino-Guerreiro Santana Lopes, não contente com o lugar de chefe da bancada parlamentar, decide pela enésima vez candidatar-se à liderança, movido pelo eterno bicho que o levou a tantas candidaturas e ainda mais abandonos de projectos a meio. Motivo? "Portugal", claro está. De ópera bufa, passámos a teatro de revista do mais puro. Talvez seja a antiga promessa de reabilitar o Parque Mayer.
Jardim parece andar a gozar com tudo e todos. Amuou, voltou ao palco elogiando Santana, depois pediu aos militantes para não votarem em nenhum, proferiu novas afirmações ambíguas, etc. Num par de dias rivalizou com Menezes no dito por não dito. Entre as várias frases costumeiras, disse que estava "ideologicamente próximo de Santana". De que ideologia falará ele? Do tão propalado liberalismo? Impossível, com o peso do sector público na Madeira e o Governo Regional a imiscuir-se em tudo o que é crítica ao seu desempenho. Só se for nas off-shores. A social-democracia é algo musculada, e Santana nunca deixa cair o PPD. Conservadorismo? Uns laivos. Mas do que se trata mesmo, e ninguém disse em voz alta, é de populismo, tão bem simbolizado nas festas do Chão da Lagoa e no festivamente anunciado fim da crise económica por Lopes naquele período insano em que presidiu o executivo. O velho populismo que, mais do que qualquer outro partido, corrói o PSD, essa agremiação outrora comandada por uma elite liberal e com sentido de estado, mas que contou sempre, na sua maioria, com boa parte do aparelho de estado herdado do Estado Novo, os seus regedores locais e todas as classes sociais nele representadas.

E agora? Ferreira Leite ainda parece a mais bem colocada, mas as famosas "bases" podem reservar-lhe outra sorte. Ademais, nem todos se esqueceram com a nossa Dama de Ferro à lusitana teve um percurso aos altos e baixos nas finanças, com escasso sucesso, e que anteriormente tinha sido a Maria de Lurdes Rodrigues do seu tempo. Passos Coelho tem o problema da inexperiência e da visibilidade de cargos políticos de relevo, e não será certamente a presidência da Assembleia Municipal de Vila Real a dar-lha. Antão e Silva terão os seus minutos de fama em congresso. E do referido sector populista? Tenho as maiores dúvidas em acreditar que Jardim avance. Como não é parvo, sabe que fora da Madeira terá todas as dificuldades em se afirmar, e que lhe farão a cama por trás. Sem compreender o mundo que o rodeia como sempre, Santana é bem capaz de ir até ao fim, mesmo que não tenha mais apoios que Gomes da Silva e um ou outro iludido ou santanette. Ainda assim, mas também prevendo os escassos apoios de Lopes, continuo a pensar que Menezes não prolongará assim tanto as suas férias e que ainda terá os seus trunfos na manga. Até fins de Maio ainda vai correr muito sumo de laranja.

quinta-feira, abril 24, 2008

Dia Mundial do Livro

(e do Direito de Autor, para sermos literariamente correctos)

A razão? Uma velha data, da qual não há certezas, mas que pode ter sido, incrivelmente, um dia de luto para a literatura mundial: a 23 de Abril de 1616 morreram Miguel de Cervantes Saavedra e William Shakespeare.














Por vezes dão-se estas coincidências. Pois não desapareceram Bergman e Antonioni também no mesmo dia?

domingo, abril 20, 2008

Personalidades marcantes
Ainda a recuperar de uma noite longa e festiva nos arredores de Santa Maria da Feira, tento ver se há novas candidaturas à liderança do PSD e confirmo os que já avançaram. Aguiar Branco e Passos Coelho já se apresentaram à chamada. Dois nomes de quem não se sabe exactamente o que esperar, porque não sendo objectos regulares da procura dos media nem oradores particularmente efusivos ou mesmo talentosos, também não se lhes conhece muito bem as ideias.
Mais espantoso é o nome de Neto da Silva, cujo currículo político apresenta uma passagem pelo governo de Cavaco como Secretário de Estado do Comércio Externo, e que entre outras ideias de estalo quis construir uma torre moderníssima e altíssima para escritórios e centros de reunião, em plena margem do rio Minho, perto de Cerveira, entre a água, os campos e a serra. Não seu que hipóteses é que ele pensa que tem. Para o grande público, e provavelmente para as "bases" do PSD, o seu nome não deve dizer nada. Para mim, que já joguei futebol contra ele, posso considerá-lo uma personalidade particularmente "marcante". Espero que a sua estratégia seja menos perigosa para os adversários políticos do que para os do campo.
Pelo correr dos dias teremos oportunidade de ver mais nomes dos 834 que vão concorrer às directas. Patinha Antão mostra-se igualmente interessado. E ainda falta o mais esperado: Menezes. Será que o Benfica vai seguir os passos do PSD, dadas as semelhanças das respectivas situações?

sábado, abril 19, 2008

Alberto João Jardim acha que o PSD não pode ser dirigido por Aguiar Branco porque ele pertence à "alta burguesia do Porto", e o seu partido tem "raiz popular". Acho que Sá Carneiro concordaria totalmente com ele, contra a tal "burguesia do Porto", assim como Miguel Veiga.
A não-surpresa
A demissão de Menezes pode espantar nos primeiros segundos. "Então o homem está lá há meia dúzia de meses, promete grandes feitos,e agora via-se embora?" Mas quando se começa realmente a pensar, conclui-se que tudo aquilo bate certo. não há político mais incoerente, troca-tintas e impulsivo em Portugal do que Menezes. É certo que a coerência não é das maiores virtudes da classe, mas o ainda líder do PSD é um portento desse vício. Desde que disse que Gueterres de devia demitir (como demitiu) e meses mais tarde considerou tal acto "uma fuga vergonhosa" que isso se tornou claro. Nos últimos tempos nem prestei atenção às suas atoardas, excepto as demonstrações pelos seus subalternos de chicana política da mais baixa, no caso das acusações a Fernanda Câncio, sobretudo pelo patético Gomes da Silva, o genial inventor da "cabala involuntária". Tornaram-se tão comuns que já nem tinham graça.
Como o Menezes líder é igual ao Menezes pré-líder, e depois de ver as declarações de Mendes Bota, acredito piamente que se vai candidatar novamente às directas, com a "vaga de fundo" que Santana Lopes e Ângelo Correia estão já a lançar.

quinta-feira, abril 17, 2008

Reviravolta amarga

A ganhar por dois a zero ao intervalo, em Alvalade, com um banho de bola e os 9 mil (!) adeptos esfuziantes, levamos cinco do Sporting na segunda parte, contra apenas mais um. Eu sei que emoção e incerteza não faltam nestes derbys, mas escusavam de fazer esta figura depois de nos darem esperanças reforçadas. Dirigo-me, claro está, a Chalana e respectiva equipa técnica, que os jogadores cumpriram ordens e deram o que puderam. Não fossem as imbecis substituições e outro seria o resultado. Assim é mais um a juntar a todos os emocionantes Benfica-Sporting e vice-versa. Sempre ficam com alguma margem de manobra perante os 6-3, os 5-0 também para a mesma Taça, e não apenas os inconsequentes 7-1. Cada vez mais a época se aproxima do fim, graças a Deus. Só é pena não irmos à final da Taça. Afinal de contas, já há uma longa tradição de vencer finais do Jamor ao Porto.
As eleições no tempo de D. Camilo



No meu último post faço uma alusão às aventuras D. Camilo. Os livros da autoria de Giovanni Guareschi do padre com sangue na guelra, pároco de Brescello, uma aldeia da Emilia Romagna no vale do Pó, e a sua eterna luta com Peppone, o líder comunista local, de look à Estaline e tão belicoso quanto o seu clerical adversário, são um bom testemunho do confronto no pós-guerra entre a Democracia Cristã e o PCI, numa região marcadamente "vermelha". Os filmes, protagonizados por Fernandel deram-lhes uma cara e ajudaram a imortalizá-los. Conheci tais personagens ainda na adolescência e devorei então todas as obras relacionadas com eles. Anos mais tarde atravessei de comboio aquela região, e, pela descrição dos romances, pude perceber ao de leve o espírito que dela emanava: uma enorme planície, atravessada pelo Pó, barrado por vários diques, atravessada por campos imensos, despontando aqui e ali algumas aldeias, dominadas pelo seu campanário. À volta, um imenso e gelado nevoeiro de Inverno. Aquela região simultaneamente tão populosa e tão isolada era o cenário das aventuras de D. Camilo e das lutas locais entre os dois maiores partidos de então, hoje desaparecidos, cujos herdeiros, em parte, se aliaram. Na altura, não faltavam discursos violentos, e algumas acções envolviam pancadaria a ameaças. A DC tinha o beneplácito papal, e o PC tinha ainda a inspiração de Moscovo.
Lembrei-me disto por causa de um trecho escrito por Pedro Mexia, onde fala das primeiras eleições gerais no pós-guerra, que é pano de fundo dos romances de Guareschi.



As personagens passaram, como o seu tempo marcado pela divisão e pelas recordações das agruras da guerra. Mas não foram de modo algum esquecidas e ornaram-se mesmo atracções turísticas. Hoje em dia, existe em Brescello um museu dedicado a D. Camilo e a Peppone. Até o clube desportivo local adoptou para símbolo as suas efígies.