sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Ainda sobre Óscares (esta semana é só isto)


Deixo aqui as minhas apostas de dez actores e actrizes que vão ganhar um Óscar de representação nos próximos dez anos:

- Jonnhy Depp
- Liam Nesson (será Lincoln num filme de Spielberg)
- Matt Damon
- Edward Norton
- Robert Downey Jr
- Josh Brolin
- Leonardo Di Caprio
- George Clooney
- Kevin Bacon
- Jude Law

(Ainda pensei em pôr Christian Bale, mas já tem contrato para interpretar vários super-heróis nos próximos anos, e esses filmes dificilmente arrecadam prémios)

- Cate Blanchett
- Anette Benning
- Julianne Moore
- Angelina Jolie
- Kristin Scott-Thomas
- Judi Dench
- Winona Ryder (o regresso)
- Samantha Morton
- Laura Linney
- Meryl Streep (vai acabar por ganhar por saturação)

Não quer dizer que todos eles e elas arrebanhem os prémios na sua totalidade; mas aposto que pelo menos três de cada lista vão ganhar Óscares, principais ou secundários.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Previsível, com nuances

Do resultado dos Óscares acertei em todos menos o de Melhor Actor. Parece uma grande proeza mas não é. Mais imprevisíveis só mesmo esse e o de Melhor Actriz Secundária (Olé, Penélope!). Devia ter previsto que depois de não arriscar em Brockeback Mountain, Hollywood tinha de puxar os galões do "espírito liberal" e premiar o papel de Sean Penn em Milk, logo numa altura em que os californianos votaram contra o casamento homossexual. O filme teve as melhores críticas de quem o viu (eu não vi, confesso), Gus Van Sant é um realizador de créditos firmados e do protagonista espera-se sempre interpretação superlativa. Escreveu-se que Penn tinha aqui "o papel da sua vida", mas desses já ele teve uns quantos, e qualquer papel mediano que represente é "o papel da vida" de um actor mediano. Mas ficará sempre a ideia de que se tratou de um voto activista, político, social, premiando mais a causa do que as qualidades artísticas da obra.


E houve ainda mais uma falha: tinha-me esquecido de pôr a minha aposta para Melhor Filme Estrangeiro, que ia para Valsa com Bashir. Tinha forte concorrência de A Turma, mas acabou por ser suplantado por uma surpresa japonesa. É bom haver sempre alguns prémios inesperados.

Boa ideia também a de anunciarem os prémios de representação com cinco anteriores vencedores. É uma consagração mais profunda e sempre serve para atrir ao Kodac Theatre mais gente de vulto.


Do resto que vi, porque não estava com grande espírito para festas, achei algo sensaborão. Com uma excepção: a do miúdo de Slumdog Millionaire, todo ele risonho e traquinas, numa cerimónia em que por certo nem nos seus maiores sonhos ousara pensar figurar. Afinal, o cinema ainda pode operar maravilhas, como levar os esfarrapados de Bombaim à passadeira vermelha da Meca do Cinema.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Freida Pinto


 
 
 
Um dos grandes trunfos de Slumdog Millionaire é a sua protagonista, Freida Pinto. Que é igualmente a prova e um traço do bom trabalho que os portugueses realizaram na Índia, nos últimos séculos.

domingo, fevereiro 15, 2009

Dois filmes nomeados

No fim de uma semana complicada, volto aos posts, que andavam esquecidos
Já tinha visto os dois filmes com mais nomeações para os Óscares, Slumdog Millionaire e O Estranho Caso de Benjamin Button.
O primeiro é uma curiosa visita à Índia actual, com os seus bairros miseráveis (mas não tanto quanto os de África), as tensões entre comunidades, que custam a vida da mãe do protagonista, e a luta diária pela sobrevivência, onde valem pequenos delitos e que muitas vezes acabam na criminalidade pesada. E a sorte grande, as milionésimas hipóteses da vida mudar como da noite para o dia.
Dá para confirmar que Danny Boyle gosta muito de flashbacks e imagens a grande velocidade. Não é o meu género de cinema favorito, mas não desgostei nada do filme. As inúmeras nomeações e prémios que tem abarbatado é que me parecem francamente exagerados. É o tipo de trabalhos que por mostrar a "realidade" leva logo um coro de elogios - ou de críticas e ataques, como os que vêm da Índia, e que lhe dá logo a imagem de "ou se ama ou se odeia" - e o efeito bola de neve mediático transporta-o para um patamar que em casos normais seria o das três estrelas. Um filme "realista" sobre a "luta pela vida", conjugado com o final feliz e as coreografias à Bollywood.

O filme de David Fincher nada tem a ver com aquilo com que o realizador de Sete Pecados Mortais habituou o seu público. A adaptação do pequeno conto de Scott Fitzgerald é um filme comprido, estranho, mas singelo, muito longe da carnificina e violência psicológica normais nas obras de Fincher. A história de um homem que recua no aspecto físico avançando na idade, por causa de um estranho sortilégio temporal, contada por uma mulher na sua cama de moribunda enquanto no exterior a furacão Catrina ensaia os primeiros ventos de destruição. Uma tocante história de amor, tendo no centro alguém que não tinha pontos de comparação com o seu caso, e que tinha de percorrer o seu caminho sabendo quando acabaria, e as pessoas mais próximas cientes do seu estado, reagindo como se isso nada tivesse de extraordinário. Um filme merecedor de uma ida ao cinema (para mais, Cate Blanchett é a co-protagonista, o que dobra o mérito da coisa), mas também ele um pouco aquém de uma obra.-prima merecedora de tantas nomeações. Brad Pitt está nomeado para o Óscar de Melhor Actor (tal como o seu par, Angelina Jolie), sobretudo tendo em conta a paciência que decerto terá tido para tanta caracterização, mas a interpretação em si também não desmerece.
A vaga de oscarizações destas duas obras percebe-se como um ano menos bom do cinema americano. São filmes estimáveis e respeitáveis, que merecem ser vistos - principalmente Benjamin Button - mas bastante aquém de grandes obras da Sétima Arte (ainda estou para ver Grand Torino, de Clint Eastwood).
A propósito, eis as minhas apostas para algumas categorias dos Óscares, tendo em conta outros prémios e anteriores nomeações:
-Melhor filme: Slumdog Millionaire (pelos prémios acumulados)
-Melhor Realizador: Danny Boyle(idem)
-Melhor Actor: Mickey Rourke (idem, e porque Sean Penn já tem um e a Academia gosta sempre de "renascimentos")
-Melhor Actriz: Kate Winslet (por todas as nomeações falhadas)
-Melhor Actor Secundário: Eath Ledger (por ser a título póstumo)
-Melhor Actriz Secundária (no desempate, porque eu quero que ela ganhe)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

O Bloco e o poder

O Bloco de Esquerda realizou a sua convenção, com apelos a medidas económicas "anti-capitalistas". O tempo passou e o nosso Bloco já vai em dez anos. Quem diria. Mas a verdade é que já nos vamos habituando à sua presença, e o movimento tornou-se sinónimo de "esquerdismo" e "politicamente correcto" por excelência, com a já desbotada expressão "esquerda-caviar".

Continua a ser um partido de díficil caracerização nas famílias ideológicas, quase tanto como o PSD. Amálgama de neo-trostquistas, ex-comunistas, maoístas recauchutados e desertores socialistas que se uniu para entrar no parlamento, talvez a classificação mais próxima seja a de esquerda radical.


O mais interessante - ou inquietante, dependendo das sensibilidades políticas - é que este partido é a mais bem sucedida tentativa de quebrar o domínio parlamentar de trinta e tal anos dos 4 habituais residentes do parlamento. De tal forma que já nem se deve falar em tentativa, mas em concretização. O caso mais conhecido até aqui fora o PRD inspirado e depois liderado pelo General Eanes, que logo na estreia, em 1985, entrou a matar com 18% e 45 deputados. Mas o deslumbramento e a irresponsável moção de censura ao governo de Cavaco foram disparos no pé e levaram-nos abaixo dos 5% primeiro, em legislativas antecipadas, e quatro anos depois à saída inglória do parlamento e posterior extinção. Houve também o caso do PSN, dos reformados de Manuel Sérgio, que conseguiu um mandato, mas a solidariedade derivou para a divisão e para as zangas e o partido escoou-se tão lesto como viera. Outros partidos que tiveram representação parlamentar iriam fazer parte do BE. A UDP chegou a entrar em S. Bento só de per si, com aquele inenarrável Américo Duarte, e mais umas legislaturas, com o PCP. O MDP-CDE, que nas constituintes obteve perto de 5% (quando Vasco Gonçalves dizia que iria ganhar as eleições), só também sumergido na APU voltou a entrar no hemiciclo.


Com a aliança PSR-UDP-Política XXI (herdeiro do extinto MDP)-FER, formou-se o Bloco de esquerda como o conhecemos. De resultados modestos nos primeiros anos, muito embora tivesse conseguido alguns deputados, ultrapassou os 6% em 2005 e pelas sondagens promete não ficar por aqui. A nível local é que as coisas parecem correr menos. Sem dúvida uma consequência sociológica dos seus apoiantes.


O Bloco é um partido com tendência a crescer em alturas de crise, com as suas iras, os seus protestos por tudo, o seu apoio incondicional às causas fracturantes, o seu aproveitamento mediático. E nota-se que cresce aproveitando a onda de contestação social às políticas de Sócrates, face à anémica ou atabalhoada oposição dos partidos à direita do PS ou a algumas limitações do PC em conseguir chegar a novo eleitorado. O Bloco vive da crise e da contestação, da crítica demolidora e de apelos constantes do contra. Cresce mais nas eleições nacionais porque aproveita o descontentamento, mas fica-se por resultados modestos nas locais por falta de implantação no terreno.


Na última convenção, Loução apelou a uma nova economia "socialista e anti-capitalista", o que significa que o discurso pode estar a radicalizar-se. Mas apelou igualmente a alianças como "movimentos de cidadãos", numa clara colagem ao MIC de Alegre e Roseta. À primeira vista parece uma inocente abordagem a independentes, mas numa altura destas, com perspectivas de crescimento nas sondagens, percebe-se a verdadeira ideia: a de ganhar mais votos aqui e ali (Sá Fernandes era outro exemplo, mas já lhes fugiu), a de conseguir o poder com as coligações que precisar, aproveitando o descontentamento e as divisões no PS. No fundo, a ideia de rejuvenescimento político do BE está a esgotar-se, e fica a clara sensação de um partido como os outros, que busca poder. Outra forma de o camuflar é haver um "coordenador" e dizer que não há líderes, como se Louçã não o fosse há anos. Nisso e em muitas outras coisas, parece-se com Paulo Portas. A sede de protagonismo e poder é outra característica, demasiado visível para se mascarar. Pode ser é que quando a situação económica e social, dê o seu tombo, quanto mais não seja por saturação.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

10 de Fevereiro, comemoração do radicalismo?

10 de Fevereiro pode bem ficar como uma data funesta para o Médio Oriente. Há trinta anos, consumava-se a Revolução Iraniana. Contrariamente às revoluções clássicas, materialistas, a reacção ao regime autoritário do Xá Reza Phalavi, resguardado pela tenebrosa Savak e querendo modernizar à força o país, com gastos sumptuosos pelo meio (a comemoração dos 2500 anos do Império em Persépolis, por exemplo), foi conduzida pelo clero e deu origem a uma sociedade teocrática, uma república controlada pelos religiosos e submetida aos ditames do Islão Xiita, em que os vícios eram e são severamente reprimidos e as mulheres adquiriram um papel submisso. A situação ficou um pouco mais suave depois da morte de Khomeiny, e o que se debate hoje é a capacidade do país, liderado pelo rufia Ahmadinejad, produzir energia nuclear.


Agora, a 10 de Fevereiro de 2009, as sondagens indicam que o Likud de "Bibi" Netanyahu, amputado dos moderados que transitaram para o Kadima e mais radical do que nunca, é o partido favorito para vencer as legislativas de hoje. Segue-se o partido de Tzipi Livni, e em terceiro lugar os nacionalistas ashkenazis do Beiteinu, do ex-segurança Avigor Lieberman. O histórico Partido Trabalhista, fundador de Israel, queda-se no quarto. O pesadelo de um governo Likud-Lieberman é bem real e ameaça trazer ainda mais violência à região. Mas os israelitas sempre foram imprevisíveis nas eleições. Espera-se que esta data não continue a ser sinónimo de viragem para o radicalismo (em ambos os casos religioso) no próximo Oriente.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Proença cumpriu


Duvidava que o Benfica perdesse este jogo, e até apostava no 1-1. Se tivesse pensado mais nos antecedentes do árbitro escolhido, poderia também apostar que prejudicaria o SLB num qualquer lance capital, e assim aconteceu, sem qualquer pudor. Estando o Benfica a ganhar e a dominar o jogo, uma qualquer pulga de azul e branco vestida resolveu atirar-se para o chão e obter assim o golo que jamais marcariam, tal a pobreza do chuveirinho. Assim se firmou o resultado, de forma fraudulenta. O normal num recinto onde quando lá joga o Benfica há sempre um apito para proteger o anfitrião. Fosse o contrário e o apito faria saír um amarelo para o jogador benfiquista autor do mergulho. A história já é antiga, e passa pelos balneários impregnados de bagaço, árbitros ameaçados nos túneis, seguranças privados e expulsões forjadas. A ver vamos se estes arranjinhos oportunos continuam. Se não os houver sempre, podemos ver o país coberto de vermelho lá para Maio.
Adenda: eis como começa o texto do jogo no Público (um jornal claramente portista)

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Woody Allen em Barcelona




Entre a torrente de filmes que valerá a pena ver, não podia deixar passar o Woody Allen do ano, Vicky Cristina Barcelona, para testemunhar o encontro entre o neurótico realizador novaiorquino e a luz do Mediterrâneo.

Gostei do filme, mas não é nehuma obra-prima. Sem ficar desapontado, esperava mais: que Barcelona fosse uma nova lufada de inspiração, como havia sido Londres. A influência meridional e mediterrânica está lá (há luz por toda a parte, estamos no Verão). Mas a capital catalã fica-se pelos postais turísticos mais conhecidos (Sagrada Família, Parque Guell, Casa Millá) não se conseguindo captar a sua verdadeira essência. Consegue-se mais apanhar Oviedo nos vinte minutos em que a fita sepassa lá do que Barcelona (falo de cor porque não conheço nehuma das duas). A trama surpreende um pouco até meio, com a troca de posições entre a estouvada Cristina e a prudente Vicky na sua relação com o pintor Juan Manuel Gonzalo (Javier Bardem), mas depois deixa-se andar em piloto automático, num andamento suporífero salvo pela aparição da personagem de Penélope Cruz, uma neurótica que ameaça sempre deixar o seu caso com o artista numa eterna história de faca e alguidar. Refresca inteiramente o filme no momento mais modorrento. Como diz Lauro António, as duas raparigas americanas são personagens de Woody Allen, enquanto que as de Bardem e Cruz provêm directamente do cinema de Pedro Almodôvar. E é sobretudo ela que salva o filme, num momento em que já nada fazia lembrar que ela apareceria.


Não sendo um filme maior de Allen, vale bem o dinheiro do bilhete. Penélope tem uma interpretação fabulosa, Bardem tem piada com artista boémio que faz as mais descaradas propostas sem um franzir de sobrolho, Scarlett fica sempre bem no postal com o seu cabelo luminoso, e é bom ver um filme de Woody Allen num ambiente mais solarengo, para variar. E sobretudo, deu para conhecer a encantadora Rebecca Hall, para mim até agora desconhecida, mas a quem prestarei mais atenção doravante.


Homens da Luta contra o regime iraniano



Os Homens da Luta, no seu périplo pela América, não se coibiram de participar numa manifestação contra Ahmadinejad. Note-se aos 2:38 as breves palavras que deram a uma TV "hispânica" ou sul-americana, e a partir dos 4:23, Neto discursando perante iranianos atónitos, com um inglês entrecortado com muitos "pás" à mistura, enquanto Falâncio entoa os seus intermináveis e revolucionários "kiriki" de intervenção como música de fundo.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Enfim um bom artigo de Mário Soares, que afinal não perdeu de todo a lucidez. Já se começou a distanciar do Chavismo em voga na América Latina, embora devesse fazer a distinção entre Lula e os restantes caudilhos. Mas mete água no ponto 4, em que fala de Bento XVI: de facto, a conferência de Ratisbona não constituiu uma gaffe, mas um mal entendido aproveitado pelo oportunismo islâmico; dificilmente poder-se-iam beatificar muitos republicanos espanhóis dos anos trinta, cujo traço comum era um anti-clericalismo que faria Afonso Costa parecer um carmelita descalço; e quanto ao bispo lefebvrista Wiliamsson, apesar da sua opinião alucinada, não negou o Holocausto, mas sim os números e os meios. Convém não exagerar, e além disso, matérias de excomunhão são do decisões internas da Igreja. Soares também não gostaria de ver D. Jorge Ortiga criticar as eleições internas da Internacional Socialista, pois não?
Isto é de loucos!

Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, decidiu condenar Portugal por ter impedido a entrada do chamado "Barco do Aborto"* em porto nacional. Não deixa de ser uma novidade, esta invocação dos direitos humanos para esse tipo de actividades extra-curriculares de uma certa medicina. A ser assim, num futuro bem próximo, veremos o mesmo Tribunal criar um novo tipo de prémio destinado a recompensar a título póstumo, as experiências dos doutores Morell, Mengele e claro está, dos peritos soviéticos na ablação do córtex e do hipotálamo. A bem de um prometedor progresso da humanidade. O pior disto tudo é que fiquei muito ralado, porque ao ser condenada desta forma, a chamada república portuguesa acabou de subir um ponto na minha consideração. Será preocupante?

*Com a experiência que a História nos deu, a bandeira hasteada nesta traineira é um perfeito substituto da Jolly Rogers de outros tempos. Não está mal. É a tradição batava.


Na altura, achei (e continuo a achar) que a actuação do ministério da defesa, com o envio de fragatas armadas, pecou por demasiado ostensiva, mas as razões em si eram válidas: impedir que um barco estrangeiro cometesse ilegalidades em território português (ainda por cima abortos). Esta decisão apenas descredibiliza a entidade que o pronunciou, e retira-lhe legitimidade, já que considera que uma hipotética liberdade de expressão legitima um crime punível com prisão. Não sei se há possibilidade de recurso, mas o Estado Português não devia deixar passar isto sem protestar. Ao dar razão a extremistas, como as criaturas da Womens on Waves e da UMAR, para quem o aborto é "um direito humano", o Tribunal converte-se num caricatura cuja respeitabilidade fica seriamente posta em causa.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Toca a quebrar tabus
Uma "revista feminina" chamada Happy Woman costuma pôr coisas na capa como "não sei quantas razões para não ter filhos", ou "trezentas razões para não casar", "divórcio: sem medo", e ainda "as melhores formas de enganar o seu companheiro". O tipo de felicidade tal como a entendem os escribas e responsáveis desta publicação é um bocadinho difícil de entender. Mas chamou-me mais a atenção um anúncio recente, com o subtítulo "Não gosto de tabus". Bem, se assim é, podiam ser mais ousadas. Como tal, proponho desde já quebrar alguns tabus e introduzir artigos sobre violação feminina, pedofilia, canibalismo, genocídio à lupa, e como tema de viagem e cultura uma semana com as mulheres de uma típica família de Meca (submetendo-se a todos os costumes dos anfitriões). As leitoras da Happy Woman, no seu afã em quebrar todos os tabus opressores, vão positivamente adorar!
Amigos dos animais?

Como tantas outras pessoas, vi as famosas vacas açorianas a pastar em Lisboa, na Praça de Espanha, cercadas num redil provisório (e com a relva quase toda comida), como publicidade às ilhas. Passei lá de noite, à boleia, já que naquele sítio quase não se pode circular sem ser de carro e rimo-nos com a imagem.


Ao contrário do Nuno Castelo Branco, nada tenho contra a operação de marketing. Afinal de contas, ninguém melhor do que os tratadores sabem do que elas precisam. Além de que os bichos não tinham um ar nada maltratado, bem pelo contrário: estavam com ar bem nutrido e pachorrento, como se nunca tivessem saído dos habituais verdes prados a que estão habituadas. Mesmo não sendo dos Açores, mas do Ribatejo, zona onde a humidade é mais que muita.


Mas à parte alguns comentários pacíficos, vieram os radicais do costume, em busca de protagonismo mediático. Destacou-se aqui uma associação chamada "ANIMAL", dirigida por um certo Miguel Moutinho. Ao que parece, a campanha é absurda porque, além dos animais estarem "stressados", estão igualmente a ser «usados» em publicidade, que é é condenável em si mesmo, uma vez que se baseia numa visão utilitária dos animais, que assim são tratados como peças que podem ser usadas em manobras publicitárias e não como indivíduos inerentemente respeitáveis .

Eu não olho para os animais como "meros objectos inanimados", como preconizam as teses mecanicistas cartesianas, mas "indivíduos inerentemente respeitáveis"? Indivíduos, uma manada de vacas? Bom, por esse caminho, não tarda nada temos petições a exigir o direito a casar com as vacas, ou que os simpáticos ruminantes possam votar e ser eleitos em cargos políticos. e se são indivíduos, porque é que não podem ser utilizados em publicidade? Ou serão mais do que os actores? É caso para perguntar: afinal, onde está realmente o absurdo?


Podia ser um mero fait-divers, não fosse o mesmo indivíduo e o seu grupinho de pretensos "amigos dos animais" um reincidente no disparate de querer equiparar animais a pessoas. Já tinha ficado com uma ideia do que é esta ANIMAL. Num artigo de jornal falava-se num filme documental sobre touradas, Pega de Caras, em que a meio há um debate entre um ganadeiro e o mesmíssimo Miguel Moutinho. Diz o segundo: "O nosso objectivo é acabar com as touradas. A tourada é um acto bárbaro, não tem lugar no nosso tempo". Responde o ganadeiro: "Eu respeito as instituições protectoras dos animais. Mas eles também têm de respeitar a minha profissão e o espectáculo dos touros. Porque se há alguém que cuida e ama a festa dos touros e os touros são os próprios toureiros". Que respondeu o ANIMAL-mor? "Dizer que os toureiros são os melhores amigos dos touros é o mesmo que dizer que os pedófilpo são os melhores amigos das crianças e que os proxenetas são os melhores amigos das prostitutas".


Para terminar, a mesma personagem escreveu um texto qualquer intitulado "O Vegetarianismo como Obrigação ética". Deixa portanto o vegetarianismo de ser uma opção alimentícia e de vida para ser uma "obrigação ética". Pudera: o contrário implicaria o sacrifício de "indivíduos inerentemente respeitáveis".

Percebo e concordo com algumas medidas de salvaguarda dos animais, como as condições de transporte, de tratamento e de abate. Abomino os abandonos de pobres animais domésticos, e nem consigo perceber para que é que a pessoa os quer se depois os abandonam. Tive um cão quando era pequeno e jamais me passaria pela cabeça abandoná-lo (ainda me lembro do desgosto que tive com a morte dele). Mas estas atitudes primam pelo radicalismo, pela ignorância e pela insensatez. Ao ouvir coisas destas dá-me a sensação de estar perante um filme dos irmãos Marx. Entre todas as modas activistas, esta é uma das mais perniciosas, desenvolvida por neo-hippies com vagas influências orientais e em certas ocasiões com uma linguagem próxima do terrorismo. Pense-se no assassino do polémico Pim Fortuyn, ou em Brigitte Bardot, uma das pessoas que mais ódio devota à espécie humana (comparou a sua gravidez a um cancro no ventre) transformada em caquética fã de Le Pen, no apologista do infanticídio Peter Singer ou nos insultuosos PETAs e o seu terrorismo publicitário e fica-se com uma ideia até que ponto podem chegar os mais radicais desta causa.


Mas o que mais me irrita é que a maioria destas pessoas vem de um ambiente urbano e jamais teve vivência rural. As respostas dadas pelo dirigente da ANIMAL aos ganadeiros revelam, além de fraca educação, uma pesporrência, uma arrogância intelectual despropositada e patética. São os parolos da cidade, os criadores de animais em aquário, os ecologistas de manual, que não fazem a menor ideia do que é a vida rural, tal como a maioria dos portugueses, citadinos ou suburbanos. Não sou aficionado nem nunca assisti a uma tourada, mas tenho mil vezes mais simpatia pelos campinos, forcados e ganadeiros, que sabem o que são as agruras do campo e convivem com os animais, deles tratam e preservam as ainda existentes tradições de valentia, do que a patetice urbano-chique dos auto-intitulados "amigos dos animais".

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Lisboa-Gaza
Leio que a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou a geminação da capital portuguesa com a cidade de Gaza, uma proposta do Bloco de Esquerda, com aprovação do PCP e abstenção dos restantes partidos.
Vinda de quem vem nem me admira, há sempre a eterna invocação do "povo martirizado". Mas já que vamos nessa, podiam também propôr a geminação com Grozny, Rangun, Kandahar, e sobretudo Lhassa. Nesta, em especial sempre gostava de saber o que diz o PCP.
A propósito, será que essa história da geminação implica visitas e recepções recíprocas entre as autoridades municipais de cada cidade? É que se assim é, ainda vamos ver António Costa a entregar a chave de Lisboa a um clérigo e a um bombista, com direito a discurso forçado sobre "os laços culturais" e os "traços de união".
(Quem quiser protestar contra o disparate, pode assinar a respectiva petição).

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Efeméride esquecida

Passou-me a data da instauração da Monarquia do Norte, há uma semana. E logo nos noventa anos do dia em que a bandeira com a coroa real flutuou de novo nas varandas do Porto. Repito apenas as palavras que disse há um ano. Um acontecimento importante para o país, que como sempre a comunicação social, por ignorância ou oportunismo, deixou passar, com raríssimas excepções. Mas a culpa será também dos monárquicos, por se esquecerem ou pouco referirem o acontecimento - contra mim falo, como é óbvio. felizmente, houve quem não se esquecesse. Mas o movimento nunca chegou a unir os monárquicos, já que faltava o crucial apoio de D. Manuel II, que sempre recusou que a restauração da monarquia assentasse numa revolta armada. Talvez por isso os republicanos conseguiram virar as coisas a seu favor e através do seu exército civil, a Carbonária, dominar os monárquicos que se acantonaram em Monsanto, Lisboa, para depois voltar a controlar o país por inteiro.


O mais provável é que depois deste quasi esquecimento das semanas em que o Norte do país voltou a aclamar o rei, a 31 de Janeiro se ouçam as habituais hossanas e recordações da revolta republicana de 1890, também no Porto, e dos seus "bravos", como se de uma façanha homérica se tratasse. E no entanto, esta não teve, nem de longe nem de perto, o apoio nem a longevidade da Monarquia do Norte.

Ps: um aditamento precioso e esclarecedor sobre assunto, no Estado Sentido. Para quem quiser conhecer estes acontecimentos com grande pormenor, pode recorrer à obra escrita com conhecimento de causa por Rocha Martins, reeditados em dois tomos, pela Bonecos Rebeldes.

Valsa com Bashir


Nem de propósito, um dos melhores filmes em exibição nas salas é Valsa com Bashir, do cineasta israelita Ari Folman. Com um buraco negro no lugar da sua memória de soldado do Tsahal na Guerra do Líbano, em 82, Folman reconstitui-a graças a variados testemunhos, até descobrir que tinha estado presente em Sabra e Shatila, os massacres de palestinianos efectuados pela falange libanesa, onde o Tsahal agiu com oportuna omissão. A revista da memória é simultaneamente tenebrosa e fascinante, e Folman resolveu colocá-la em documentário, mas em versão animada. O título deve-se a uma cena, em que um soldado israelita, no meio do tiroteio dos snipers em Beirute, desata numa desesperada fuzilaria para todos os lados, como se de uma dança com a metralhadora como par. Nas paredes, vêem-se grandes cartazes com a efígie de Bashir Gemayel. Líder do partido cristão Kataeb/Falange, fundado pelo seu pai, Pierre Gemayel, e das suas milícias paramilitares, Bashir tinha acabado de ser designado presidente do Líbano, com apenas 35 anos, mas seria assassinado à bomba antes de tomar posse. Toldados pelo ódio, com sede de vingança pela morte do seu carismático líder, os falangistas entraram nos campos palestinianos de Sabra e Shatila e mataram indiscriminadamente milhares de palestinianos, enquanto que os israelitas montavam cerco e esperavam pelo fim do massacre sem mover um dedo. O acto provocou a fúria na opinião pública em Israel e rolaram cabeça, tendo Ariel Sharon, na altura ministro da defesa, sido considerado responsável moral por inacção e exonerado de todos os cargos.
O filme tem um tom desencantado, mostrando a transição entre a figura romântica dos Israelitas que saídos do Holocausto defendiam o país contra o muito mais numeroso inimigo árabe, e a intervenção das suas tropas em países estrangeiros, por razões estratégicas. E tem também a virtude de mostrar a barbárie mas também a consciência e a responsabilidade daqueles que assumem as suas culpas e as expõem. Se é verdade que os israelitas não são santos e cometem inúmeros abusos, não é menos verdade que sabem muitas vezes reconhecê-lo e que só num estado de direito poderia existir um filme tão salutar como este. Será que para lá das suas fronteiras, naquele tórrido Médio Oriente, o mesmo poderia acontecer



PS: até pode, em parte, mas de forma clandestina e com a hostilidade das respectivas autoridades nacionais. Provou-o o também documentário animado Persépolis, sobre o Irão, baseado na BD com o mesmo nome, um filme irónico mas comovente.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Israel e o futuro próximo

Um dos magnos problemas com que Obama se deparará será com o intrincado e quase irresolúvel problema israelo-palestiniano. Décadas de ódio e ameaças não permitem ver uma solução à vista; sempre que se avista uma luz de um lado, do outro alguém se encarrega de criar problemas. Tem sido um pesadelo recorrente de qualquer presidente americano, pressionados que são por todo o tipo de lóbis.


Não falei da actual frente de batalha de Gaza, momentaneamente parada, que começou no fim de 2008. Os "foguetões" do Hamas faziam prever a ofensiva israelita, como muito bem sabiam os detentores de Gaza. Israel naturalmente tinha de ripostar e mostrar aos integristas islâmicos que controlam aquela faixa caótica que não estava disposta a aceitar o seu comportamento. O problema é o mesmo de sempre: as razões de direito e de facto assistem aos israelitas, o modus operandi é que é sempre discutível.


Ataques por ar, terra e mar provocariam sempre razias no caos humano e material que é Gaza. Sabendo-se que depósitos de armas são instalados em escolas e outros armazéns pouco ortodoxos, percebe-se logo que os custos humanos serão duros. Torna-se difícil aos israelitas evitá-los, e não são panfletos atirados do ar a avisar qual alvo dos bombardeamentos com meia hora de antecedência que vão permitir o contrário. Mais culpas terão de ser assacadas pelos responsáveis pela destruição de um hospital da ONU bem identificável, além de outros equipamentos. A legitimidade de Israel é por vezes levada ao exagero e provoca abusos nítidos, como já acontecera no Líbano, há dois anos.



Entretanto, viram-se as manifs do costume. Milhares de pessoas desfilando contra "o genocídio em Gaza", misturando anarco-libertários, radicais, pacifistas, comunistas (de protestar contra a repressão no Tibete é que estes nunca se lembram) e extremistas islâmicos, queimando bandeiras israelitas e americanas e ostentando cartazes com coisas tão edificantes como "God bless Hitler" ou "Islam will dominate the world". Uma mistura perigosíssima de fanáticos, que de comum têm esse mesmo fanatismo. Contra natura, pois claro, mas Hitler e Estaline também assinaram pactos de não-agressão.



Entretanto, a intervenção israelita em Gaza está interrompida. Os mísseis do Hamas pararam de silvar. Mas ninguém acredita que isto fique por aqui. Enquanto a ordem e os tratados não forem cumpridos no essencial, nada se pode esperar de bom. E o essencial é que Israel cumpra as disposições contidas nas tréguas, que o Hamas recue e seja dominado, e que se reconstrua Gaza. Tudo isso demorará tempo a fazer, se o fizerem, claro. Até porque os ódios não se apagam de um momento para o outro.


Importante será que o Likud não alcance a maioria nas próximas legislativas. Se o conseguir, a situação piorará inevitavelmente. Diz-se cinicamente que a intervenção no Líbano é uma campanha pré-eleitoral mais acirrada. Pode ser. Mas se servir para Tzipi Livni se mantenha no poder em coligação com os trabalhistas, até servirá para algo mais do que enfraquecer militarmente o Hamas. O regresso de Netanyahu ao poder significará uma posição intransigente e a expansão dos colonatos.


A União Europeia, que já treina a polícia palestianana e que tem sido generosa na ajuda financeira e na construção de infra-estruturas, teria aqui uma oportunidade de ouro de fazer valer os seus galões: a deslocação de uma força militar para Gaza, com mandato onusiano, que controlasse os radicais do Hamas e os impedisse de lançar rockets, fazendo com que Israel recuasse militarmente mostraria um Europa com mais do que soft-power. Mas isso, claro, é uma ideia peregrina. Para controlar o Hamas, que conta com bom armamento e milhares de voluntários prontos a matar-se, só mesmo uma força numerosa e que não se ficasse pelos disparos para o ar. Mas os tempos económicos são pouco favoráveis a projectos desse tipo. Para mais, subsistem os problemas do costume: a Europa não é um todo, e teria de haver disponibilidade e comum acordo entre os principais países, só que a Grã-Bretanha só pensa em retirar, a Alemanha só tem tropas de "vigia", proibidas de intervir activamente, em Espanha Sapatero é um ambíguo com que dificilmente se pode contar, a França enviaria um pequeno contingente excepto se fosse muito do seu interesse nacional, e a Itália, militarmente falando, pouco conta (os italianos são tão maus soldados!). A "nova Europa" poderia enviar uma força de algum peso, mas lá está, a crise financeira não o permite, e quanto ao resto, Portugal unido, tem pouco peso, sem contar com países neutrais, como a Suécia (longe vão os tempos de Gustavo Adolfo). Para mais, não se sabe o que diria a opinião pública, que, a avaliar pelas manifestações dos últimos tempos, tem imenso receio em afrontar os radicais islâmicos. Numa delas, aliás, ficou a imagem inquietante de uma turba em Milão, que, depois de queimar a bandeira de Israel na praça do Duomo, se deitou a rezar para Meca em frente às escadarias da Catedral. Uma demonstração do despeito de certos fanáticos, mas que entretanto já teve consequências: o governo italiano proibiu manifestações frente a templos religiosos. Berlusconi sempre serve para alguma coisa. Mas se alguém se lembrasse de fazer uma missa campal em frente a uma mesquita, nem digo na Arábia Saudita, mas no Paquistão ou na Argélia, o que sucederia?

quarta-feira, janeiro 21, 2009



President Obama and Secretary of State Rodham Clinton


Não pude ver a tomada de posse de Barack Obama, o seu discurso e a enorme multidão que assistiu à cerimónia, no frio de Washington. Para alguma coisa me há de servir o Youtube. Noto apenas que toda a cobertura mediática é proporcional ao entusiasmo que o novo presidente americano despertou nos últimos meses. O seu carisma e vontade de mudança são razões plausíveis, mas o facto simbólico de não ser branco também ajuda e muito. O grande problema será estar à altura das enormíssimas expectativas que criou, ora pela desastrada comissão de Bush, ora pelo discurso renovador que trouxe à política americana, ou ainda pelos exageros do costume, aos quais Obama é alheio. Certo é que não começou a chover mel e que daqui a uns tempos começará a colher ódios (aliás já começou). A decisão primeira de começar a fechar Guntánamo é de louvar, mas bem maiores serão os problemas a partir daqui.



Fico também com curiosidade de ver o papel espinhoso de Hillary Clinton como Secretária de Estado, como sucessora de Condoleeza Rice (e de outra democrata que decerto conheceu bem, Madeleine Albright). Há um ano, é bom recordá-lo, quase todos a viam como futura chefe de estado americana. Não conseguiu atingir esse objectivo que durante anos almejou, mas responsabilidades não lhe faltam. Falhada a presidência, Hillary não deixará de tentar deixar a sua marca na história noutras funções.
A herança de Walker Bush e o contágio do ridículo

Bush desandou, por fim, como era desejo de grande parte da população mundial e americana. Um presidência eivada de erros, equívocos, abusos de poder e tensões. Um homem sem grandes conhecimentos ou rasgo, pouco inteligente, que deve o cargo ao apelido, e que acaba por ser um bom exemplo do oposto da meritocracia, tão contrário ao espírito americano. Deixou-se guiar por todos quanto o rodeavam, nomeadamente o grupo neoconservador e alguns oportunistas de sempre, como Rumsfeld e Cheney. Não deixará saudades. Sai com uma crise financeira e económica gravíssima, o seu projecto do Iraque numa incógnita, o Afeganistão mais inseguro do que nunca e o prestígio americano americano abalado por Guantánamos, Abu Grahibs e outras vilezas. O maior pecado de Bush será mesmo a forma incrível como desperdiçou todo o capital de simpatia que os EUA recolheram no 11 de Setembro. Tal coktail de inabilidade, falta de visão e incúria é quase uma proeza.

Bush terá sido também o maior alvo de sátiras nos últimos anos. Mas a sátira, quando exagerada, acaba por se tornar tão ridícula quanto o seu objecto. Nisto se inclui a plataforma Bush Bye Bye Party. Se a ideia, abstractamente colocada, tinha a sua piada, com alguns spots imaginativos (como a festinha do casal chinês, humor negro corrosivo), já as mil e tal festas sugeridas, devidamente localizadas e realizadas um pouco por todo o mundo caiem na mesma patetice que se vê em Bush. Se há uma organização global para comemorar por toda a parte a saída (anunciada) do último inquilino da Casa Branca, então que se fará quando um Mugabe, um Kim il Sung (e respectiva prole) e Than Shwe caírem do poder?
Agradecimentos

...pelos seus amáveis e lisonjeiros posts, ao Combustões, Estado Sentido e Corcunda. E a descoberta coincidência de A Ágora ser apenas um dia mais velha que o Nova Floresta, também de parabéns.