terça-feira, março 31, 2009

Ainda no Público desse dia

A pergunta mais estúpida que vi em vários anos:

"Querer ter um filho é ainda um resquício da família tradicional"?

(Anabela Mota Ribeiro, numa entrevista a um casal gay anónimo, revista Pública, 29/03/09)

O ciclo da esquerda



Entre as ligações que o Samuel faz saltou-me à vista o texto de João Marques de Almeida, com o título "O Mundo não vai virar à esquerda", como resposta a um artigo do Público de Domingo da outra semana, que perguntava precisamente se o mundo virara à esquerda.


Em princípio, assim parece. Na Casa Branca, Obama promete uma nova relação do Estado com as pessoas e uma maior regulação das instituições financeiras – os recentes casos dos violentos sermões aos gestores da AIG são disso um bom exemplo. Na América do Sul, o Brasil, a Argentina, o Chile e o Uruguai têm governos de esquerda moderada, enquanto que a Bolívia, o Equador, a Nicarágua e agora o Paraguai são regidos por uma esquerda mais radical, com a Venezuela à frente. Também no El Salvador a esquerda acaba de derrubar a ARENA, que há vinte anos estava no poder. No México, o populista PRI (cuja classificação ideológica é ambígua, enquadrando-se mais no "extremo centro") ameaça tomar de novo as rédeas. Isto sem falar em Cuba. Já na Europa, até os governos de direita de países como a França, a Alemanha, a Itália e a Grécia tiveram de intervir mais na economia.


As excepções contam-se pelos dedos, mas também as há. No Chile, por exemplo, a direita está à frente das intenções de voto, com o esvaziamento do estigma Pinochet. E mais casos haverá, certamente. Mas ainda não se percebeu bem se é um reflexo da crise financeira e económica que se abateu sobre o Mundo e a rejeição do liberalismo outrora triunfante ou se se trata de um novo ciclo para vários anos, mais estrutural que conjuntural.

É bem provável que a segunda hipótese esteja mais próxima da verdade. O momento lembra, e o artigo do Público também, o início dos anos oitenta, pela sua inversão, quando Tatcher e Reagan ascenderam ao poder por muitos anos, ao mesmo tempo que outras figuras tão diferentes de direita, como Khol ou mesmo a nossa "modesta" AD, ao passo que na América Latina predominavam os ditadores militares anti-comunistas, com o beneplácito dos EUA. E, tal como agora, a França ia em sentido contrário, dando uma forte maioria a uma coligação de socialistas e comunistas e elegendo Miterrand para a presidência.

As diferenças estruturais viam-se no modelo económico - mais estatista em fins dos anos setenta, mas liberal agora - e sociológico, aqui mais nos Estados Unidos. Mas Revolução Conservadora iniciada por Reagan, com a conquista do Midwest e das classes médias, parece ser um modelo esgotado. Os fracassos da Administração Bush e do seu Compassionate Conservatism, mais a crise, assustaram os americanos e empurraram-nos para os braços dos liberals.


Não significa isto que os Estados Unidos virem "socialistas". Tal não aconteceu na presidência de Clinton e nem sequer nos tempos do New Deal. Há coisas que fazem parte do código genético americano e que jamais desaparecerão. Uma certa independência dos poderes federais e um característico Do it Yourself são parte constitutiva desses genes. Mas as loucuras de Wall Street e o optimismo do mercado levaram a uma mudança de atitude. E é preciso não esquecer que o Congresso já tinha maioria Democrata desde 2006. Mais do que uma mudança abrupta, há algo de simbólico na ascensão de Obama à Presidência, que é a marca do fim desses trinta anos de conservadorismo.

A verdade é que não havia um domínio direitista absoluto do mundo, nem sequer ocidental. Mais depressa se verificava uma derrota da esquerda mais radical, com a queda do Pacto de Varsóvia e da URSS e a metamorfose da China em potência capitalista, e a conversão da esquerda moderada sob a forma da Terceira Via, protagonizada pelo New Labour de Blair e o abandono de uma política de nacionalizações e de apoio nos sindicatos. O que se nota agora é mais uma derrota de várias direitas (e mais um abandono do modelo liberal, para que volte dentro de anos, como sempre) e o consequente predomínio da esquerda em sua substituição. Um ciclo definitivo? Só para os entusiasmados do momento, que quando as suas facções ganham adquirem ou reforçam uma visão determinista das coisas. Continuará a haver ciclos consoante as circunstâncias e os acontecimentos favoreçam esta ou aqueloutra ideologia. Mas não tenhamos dúvida de que nos próximos tempos será sobretudo a esquerda a mostrar-se triunfante.

quinta-feira, março 26, 2009

Traição contínua
As linhas do Corgo (Régua a Vila Real) e do Tâmega (Livração a Amarante) estão encerradas "por tempo indeterminado" desde ontem à noite, numa ordem dada em cima da hora pela administração da Refer que, em segredo, acordou com a CP um serviço de substituição rodoviário. O motivo oficial é a reabilitação daquelas linhas, mas a empresa não tem qualquer calendarização para iniciar os trabalhos, não dispõe dos projectos para tal e não abriu qualquer concurso público.Ontem à noite, o maquinista da automotora que costuma ficar na estação de Vila Real recebeu ordens para a trazer de volta à Régua antes da meia-noite, numa operação que faz recordar a forma como há 16 anos encerrou a linha do Tua (entre Mirandela e Bragança) com as composições a regressarem vazias durante a noite para evitar a contestação das populações.O PÚBLICO apurou que a Refer e a CP preparavam esta operação há já alguns meses, mas decidiram não a divulgar, preferindo fazê-lo em cima da hora. Ontem, às 21h, os sites das duas empresas não traziam ainda qualquer informação sobre esta suspensão. A ordem apanhou de surpresa os ferroviários da estação da Régua e da Livração que, subitamente, ficaram a saber que hoje já não haveria comboios para Vila Real e Amarante. Para a CP, que também omitiu estas alterações aos seus clientes, esta situação é vantajosa visto que o serviço é deficitário e poupa agora no combustível e no desgaste das composições, com a vantagem de ser a Refer a pagar os autocarros de substituição.


Mais uma prova da absoluto desrespeito da CP e da REFER pelos seus utentes, uma atitude que se está progressivamente a tornar rotineira. Depois de encerramentos contínuos de inúmeros troços de linha férrea, desde o fabuloso Sabor até vários percursos alentejanos, e quando se prepara, embora ainda não o admita, para eliminar a linha do Tua, um património único na Europa, a notícia da "suspensão" das linhas do Tâmega e do Corgo caiu que nem uma bomba entre os habituais utilizadores. Pela calada da noite, como quaisquer vulgares bandoleiros, aqueles que tinham obrigação de velar pelos caminhos de ferro acabaram com eles num ápice. A história da "suspensão indeterminada" é truque velho, demasiado datado para que alguém acredite, fora os desonestos.


Enquanto isso, discute-se o traçado do TGV, se entra em Lisboa pelo Norte ou pelo Sul, se passa ou não no aeroporto, se vai a Vigo ou a Ayamonte. O TGV é um dos Bezerros de Ouro do regime, tal como o EURO 2004 era "o desígnio nacional". Promete o futuro radioso à mão de semear por meros 40 Euros, depois de milhares de hectares expropriados, incontáveis discussões e projectos, milhões de Euros gastos nisto tudo e nas inevitáveis derrapagens.


E o ambiente, as energias renováveis, o cumprimento dos protocolos de redução das emissões de CO2, tudo alardeado com ar beatífico e de aluno cumpridor, quando o interior e o miolo das grandes cidades se esvazia inexoravelmente para os subúrbios dos blocos de betão de má qualidade decorados a marquises ensebadas no meio de campos semi-agrícolas. Para isso, constroem-se barragens concessionadas previamente à EDP, que podiam ser evitadas caso se aumentasse a potência de outras, destruindo-se património humano e natural, com a falsa promessa de que vão atrair turismo e emprego (isto é, construção civil), quando na realidade apenas "secam" tudo à sua volta, quais eucaliptais.


As linhas férreas foram uma forma de vencer as barreiras entre o litoral e o interior, penetrar nas serranias e nos planaltos, quebrar o isolamento de populações desde tempos imemoriais confinados ao seu horizonte montanhoso. Um projecto ambicioso, levado a cabo desde o Fontismo até aos últimos anos da Monarquia, em que os Reis iam pessoalmente à inauguração destes novos troços que mudaram o país para melhor, fosse no Carregado ou nas Pedras Salgadas. Agora, a república em que vivemos resolve unilateralmente e por interposta empresa pública acabar com meios de transporte, que além de ligarem populações carentes de outros meios de comunicação, eram já um património histórico testemunhando a vontade intrépida de ultrapassar obstáculos, como o haviam sido os Descobrimentos e o Douro vinhateiro. A isto tudo a CP obedece sem pestanejar, traindo o compromisso com os seus utentes, continuando a prestar-lhes maus serviços pelos mesmos preços sem sequer ouvir-lhes as queixas (o Intercidades não tem serviço de bar há seis meses). É bem o exemplo do que não deve ser uma empresa pública. Infelizmente, é a regra, e não a excepção.


Ainda me posso dar por feliz por ter conhecido a linha do Corgo, mesmo que amputada da sua metade até Chaves. Tinha planos para conhecer as do Tâmega e do Tua, mas infelizmente essas esperanças goram-se agora. Já não poderei conhecer essas velhas composições, as paisagens únicas que atravessam, nem os rostos das pessoas traídas pelos seus governantes, para quem não passam de pormenores do seu feudo de "progresso" e inimputabilidade.
PS: ver igualmente a Origem das Espécies
(Publicado em simultâneo no Estado Sentido)

terça-feira, março 24, 2009

Cinco anos de Lusa Voz



Parabéns atrasados ao Corcunda e aos cinco anos de O Pasquim da Reacção. O mais combativo "reaça" da blogoesfera continua o seu caminho, com persistência e admirável solidez doutrinária, por vezes desarmante. Um defensor de causas politicamente incorrectas nem sempre muito seguidas, mas que já granjeou inúmeros admiradores.

segunda-feira, março 23, 2009

Com o MMS
Pontual, exaustivo, esclarecedor, completo, é o que se pode dizer da reportagem do Estado Sentido no primeiro congresso do MMS. Aplausos para o Samuel de Paiva Pires, Nuno Castelo Branco e João de Brecht!
Sobre o movimento em si, a ideia com que fico é que é muito voluntarista (e prima pela organização), mas as ideias não deixam de causar alguma estranheza. Pelo que se ouviu, há algum populismo e muita contradição (é algo inusitado um movimento defender ideias liberais e depois verberar o "grande capital"). Esperemos para ver o MMS em acção, e para que no caminho, nos esclareça melhor.
Taça da Liga
Ganhando a Taça da Liga, o Benfica tornou-se o primeiro clube português a ganhar os quatro troféus nacionais oficialmente existentes. De forma enviesada, como se viu, com um penalty inexistente. Quim, com três defesas magistrais, encarregou-se da saga das grandes penalidades.
É pena ganhar assim um troféu, mas se lembramos que nas Antas aquele penalty fabricado nos prejudicou, é justo que reconheçamos o erro a nosso favor. Mas é bonito ouvir o juiz da partida pedir desculpa aos prejudicados. O que eu gostava de me lembrar era das desculpas do mesmo árbitro de outras partidas em que objectivamente prejudicou o Benfica (Ricardo Rocha ainda se deve lembrar com furor da camisola que atirou ao chão ). Mas aposto que nessa ocasião Lucílio não se deve ter coibido de se desculpar.

sexta-feira, março 20, 2009

Estado Sentido

A partir de agora vou começar a colaborar no Estado Sentido. Não, A Ágora não se vai esvaziar, ainda que ultimamente esteja sub-nutrida. Serão umas incursões com textos mistos destinadas a enriquecer (ou empobrecer?) a blogoesfera. Esperemos que o Samuel & Ciª não se arrependem e não faça lá má figura.

quinta-feira, março 19, 2009

Placebo em Paris

Reparo num post antigo que falei de um video fazendo apenas a sua ligação. Acho que na altura não sabia transpôr o Youtube directamente para o blogue. Assim, cá fica Where is my Mind, dos Pixies, cantado pelos Placebo em Paris, com a presença do intéprete original, Franck Black.

segunda-feira, março 16, 2009

Notas de Paris
Depois do pantagruélico Ponto Come (agora acompanhado pelo Ponto Come em Paris), o Embaixador Francisco Seixas da Costa, um dos mais destacados diplomatas portugueses e ilustre vilarealense, resolveu dedicar Duas ou Três Coisas à blogoesfera. Entra já para a coluna de ligações.

terça-feira, março 10, 2009

O fim de uma tradição

Desde 1986 que os sportinguistas comemoram anualmente um famoso 7-1 com que então venceram o Benfica, com um jocker de Manuel Fernandes. Um resultado que recordam constantemente com orgulho mal disfarçado, apesar de terem ficado em quarto lugar no campeonato, vencido precisamente pelo Benfica, que para mais também os bateu na final da Taça de Portugal.


Desconfio bem que a partir de hoje essa atitude vai desaparecer, ou no mínimo, esmorecer. É que nem todas as tradições são eternas.

domingo, março 08, 2009

Gastronomia de Trás-os-Montes
No jornal, na parte referente a eventos, surge-me o nome da Semana Gastronómica de Trás-os-Montes, na Alfândega do Porto. O convite é tentador, e raramente me faço rogado a tudo o que venha dessa região mágica. Mas não hoje. Depois de um almoço caseiro que incluiu alheiras de Montalegre, temperadas com azeite de Vila Flor, acompanhadas de batatas de Vila Real, e, caso apetecesse, um vinho do Douro ao lado, creio que fiquei bem servido de gastronomia transmontana para precisar de sair e ir ao encontro dela no meio de stands barulhentos.
Os lutadores não morrem descalços

A morte de Nino Vieira recordou-me a de Jonas Savimbi, há sete anos. Embora o líder da
UNITA nunca tenha chegado à chefia de estado, nem sequer ao exílio no estrangeiro, como quando Nino se refugiou em Gaia a convite do amigo Valentim Loureiro, passou igualmente pelo combate contra Portugal, pela auto-determinação, e depois pela guerra civil contra o poder do MPLA e seus aliados, nomeadamente Cuba.

Outras semelhanças seriam o espírito vingativo e a desconfiança permanente. Não sei o que teria sido Savimbi se tivesse chegado ao poder, mas calculo que se teria tornado num autocrata que afastaria os mais próximos à mínima suspeita. Como estadista e político, tanto Nino Vieira como Malheiro Savimbi falharam. O seu lugar era na luta constante, no comando de homens no mato, no carisma da guerrilha. Nunca poderiam acabar os seus dias num sofá ou numa cadeira de rodas, entre as recordações do passado e as fotografias entre os "camaradas de armas". Homens assim, guerreiros incansáveis por vezes perdidos na sua paranóia e sem o génio ou a manha dos estadistas, morrem sempre passados pelas armas, normalmente disparando os últimos tiros contra os inimigos.

sexta-feira, março 06, 2009

Triste desfecho para um estranho caso
Afonso Tiago, engenheiro português a trabalhar com bolsa em Berlim, estava desaparecido na capital alemã desde uma gélida noite de inícios de Janeiro, depois de se encontrar com os amigos na noite berlinense. Um caso misteriosíssimo, sem rasto nem pistas, quase "sobrenatural", a expressão que segundo Cavaco Silva, de visita a Berlim, a polícia alemã terá usado para o classificar. Apesar de tudo, não faltaram meios nem esforços para o encontrar.
Hoje, com o princípio do degelo do Spree, encontrou-se o corpo de jovem investigador no fundo do rio. Aparentemente, não se tratou de crime, ou pelo menos de roubo. Mas sabe Deus a causa deste lamentável desfecho, que infelizmente, sem que ninguém o confessasse abertamente, era o mais esperado. Mas até à descoberta fatal, há sempre esperança de que se trate de um devaneio ou uma neura fazendo com que uma pessoa se torne incomunicável. Desgraçadamente, não era o caso. Que descanse em paz.
Um Estado que mata os líderes é um estado falhado
Quando na Segunda, logo de manhã, ouvi na rádio as notícias do assassinato de Nino Vieira, veio-me logo à cabeça exactamente o que outros escreveram antes: a Guiné-Bissau é o autêntico estado falhado. Cabrais, Manés, Ninos, foram todos mortos pelos conterrâneos, num rasto de destruição e impunidade. Assim, não há país que resista.

quarta-feira, março 04, 2009


O Graça Moura do PS

Alguém disse certo dia, com propriedade, que Vital Moreira era o Vasco Graça Moura do PS. O ex-presidente da Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses era (e é) um vulto intelectual respeitado, formalmente independente, mas mais laranja que qualquer PSD com cartão de militante e invocação de Sá Carneiro pronta a lançar. Para ele, o governo de Cavaco Silva era o paraíso terrestre, o PSD o melhor partido possível e os seus adversários uns sicários do pior, merecedores de todo o desprezo. A certa altura, o PSD convidou-o o tomar parte num dos primeiros lugares numa lista ao Parlamento Europeu, onde se mantém.

Da mesmo forma, para Vital Moreira, constitucionalista e professor em Coimbra, o governo não é merecedor da menor crítica, e ai de quem ousar contrariar o rumo do Primeiro-Ministro, a quem defende arduamente nas páginas do Público. Embora não seja filiado no PS (depois de uns bons anos no PCP), representa bem o socratismo do momento: "moderno" q.b. nos costumes, acrescentando anda umas pitadas de anticlericalismo militante, e "flexível" dentro do necessário na economia. Tanta disposição e habilidade na defesa indefensável de todas as medidas do Governo merecia uma recompensa. Encabeçar a lista para as europeias de Junho é maneira do PS lhe agradecer tantos e tão prestimosos serviços. Embora o "cosmopolistimos" apregoado pelo partido não lhe assente muito bem. Lá irá Estrasburgo receber este lídimo exemplar da retórica da academia coimbrã.











sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Ainda sobre Óscares (esta semana é só isto)


Deixo aqui as minhas apostas de dez actores e actrizes que vão ganhar um Óscar de representação nos próximos dez anos:

- Jonnhy Depp
- Liam Nesson (será Lincoln num filme de Spielberg)
- Matt Damon
- Edward Norton
- Robert Downey Jr
- Josh Brolin
- Leonardo Di Caprio
- George Clooney
- Kevin Bacon
- Jude Law

(Ainda pensei em pôr Christian Bale, mas já tem contrato para interpretar vários super-heróis nos próximos anos, e esses filmes dificilmente arrecadam prémios)

- Cate Blanchett
- Anette Benning
- Julianne Moore
- Angelina Jolie
- Kristin Scott-Thomas
- Judi Dench
- Winona Ryder (o regresso)
- Samantha Morton
- Laura Linney
- Meryl Streep (vai acabar por ganhar por saturação)

Não quer dizer que todos eles e elas arrebanhem os prémios na sua totalidade; mas aposto que pelo menos três de cada lista vão ganhar Óscares, principais ou secundários.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Previsível, com nuances

Do resultado dos Óscares acertei em todos menos o de Melhor Actor. Parece uma grande proeza mas não é. Mais imprevisíveis só mesmo esse e o de Melhor Actriz Secundária (Olé, Penélope!). Devia ter previsto que depois de não arriscar em Brockeback Mountain, Hollywood tinha de puxar os galões do "espírito liberal" e premiar o papel de Sean Penn em Milk, logo numa altura em que os californianos votaram contra o casamento homossexual. O filme teve as melhores críticas de quem o viu (eu não vi, confesso), Gus Van Sant é um realizador de créditos firmados e do protagonista espera-se sempre interpretação superlativa. Escreveu-se que Penn tinha aqui "o papel da sua vida", mas desses já ele teve uns quantos, e qualquer papel mediano que represente é "o papel da vida" de um actor mediano. Mas ficará sempre a ideia de que se tratou de um voto activista, político, social, premiando mais a causa do que as qualidades artísticas da obra.


E houve ainda mais uma falha: tinha-me esquecido de pôr a minha aposta para Melhor Filme Estrangeiro, que ia para Valsa com Bashir. Tinha forte concorrência de A Turma, mas acabou por ser suplantado por uma surpresa japonesa. É bom haver sempre alguns prémios inesperados.

Boa ideia também a de anunciarem os prémios de representação com cinco anteriores vencedores. É uma consagração mais profunda e sempre serve para atrir ao Kodac Theatre mais gente de vulto.


Do resto que vi, porque não estava com grande espírito para festas, achei algo sensaborão. Com uma excepção: a do miúdo de Slumdog Millionaire, todo ele risonho e traquinas, numa cerimónia em que por certo nem nos seus maiores sonhos ousara pensar figurar. Afinal, o cinema ainda pode operar maravilhas, como levar os esfarrapados de Bombaim à passadeira vermelha da Meca do Cinema.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Freida Pinto


 
 
 
Um dos grandes trunfos de Slumdog Millionaire é a sua protagonista, Freida Pinto. Que é igualmente a prova e um traço do bom trabalho que os portugueses realizaram na Índia, nos últimos séculos.

domingo, fevereiro 15, 2009

Dois filmes nomeados

No fim de uma semana complicada, volto aos posts, que andavam esquecidos
Já tinha visto os dois filmes com mais nomeações para os Óscares, Slumdog Millionaire e O Estranho Caso de Benjamin Button.
O primeiro é uma curiosa visita à Índia actual, com os seus bairros miseráveis (mas não tanto quanto os de África), as tensões entre comunidades, que custam a vida da mãe do protagonista, e a luta diária pela sobrevivência, onde valem pequenos delitos e que muitas vezes acabam na criminalidade pesada. E a sorte grande, as milionésimas hipóteses da vida mudar como da noite para o dia.
Dá para confirmar que Danny Boyle gosta muito de flashbacks e imagens a grande velocidade. Não é o meu género de cinema favorito, mas não desgostei nada do filme. As inúmeras nomeações e prémios que tem abarbatado é que me parecem francamente exagerados. É o tipo de trabalhos que por mostrar a "realidade" leva logo um coro de elogios - ou de críticas e ataques, como os que vêm da Índia, e que lhe dá logo a imagem de "ou se ama ou se odeia" - e o efeito bola de neve mediático transporta-o para um patamar que em casos normais seria o das três estrelas. Um filme "realista" sobre a "luta pela vida", conjugado com o final feliz e as coreografias à Bollywood.

O filme de David Fincher nada tem a ver com aquilo com que o realizador de Sete Pecados Mortais habituou o seu público. A adaptação do pequeno conto de Scott Fitzgerald é um filme comprido, estranho, mas singelo, muito longe da carnificina e violência psicológica normais nas obras de Fincher. A história de um homem que recua no aspecto físico avançando na idade, por causa de um estranho sortilégio temporal, contada por uma mulher na sua cama de moribunda enquanto no exterior a furacão Catrina ensaia os primeiros ventos de destruição. Uma tocante história de amor, tendo no centro alguém que não tinha pontos de comparação com o seu caso, e que tinha de percorrer o seu caminho sabendo quando acabaria, e as pessoas mais próximas cientes do seu estado, reagindo como se isso nada tivesse de extraordinário. Um filme merecedor de uma ida ao cinema (para mais, Cate Blanchett é a co-protagonista, o que dobra o mérito da coisa), mas também ele um pouco aquém de uma obra.-prima merecedora de tantas nomeações. Brad Pitt está nomeado para o Óscar de Melhor Actor (tal como o seu par, Angelina Jolie), sobretudo tendo em conta a paciência que decerto terá tido para tanta caracterização, mas a interpretação em si também não desmerece.
A vaga de oscarizações destas duas obras percebe-se como um ano menos bom do cinema americano. São filmes estimáveis e respeitáveis, que merecem ser vistos - principalmente Benjamin Button - mas bastante aquém de grandes obras da Sétima Arte (ainda estou para ver Grand Torino, de Clint Eastwood).
A propósito, eis as minhas apostas para algumas categorias dos Óscares, tendo em conta outros prémios e anteriores nomeações:
-Melhor filme: Slumdog Millionaire (pelos prémios acumulados)
-Melhor Realizador: Danny Boyle(idem)
-Melhor Actor: Mickey Rourke (idem, e porque Sean Penn já tem um e a Academia gosta sempre de "renascimentos")
-Melhor Actriz: Kate Winslet (por todas as nomeações falhadas)
-Melhor Actor Secundário: Eath Ledger (por ser a título póstumo)
-Melhor Actriz Secundária (no desempate, porque eu quero que ela ganhe)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

O Bloco e o poder

O Bloco de Esquerda realizou a sua convenção, com apelos a medidas económicas "anti-capitalistas". O tempo passou e o nosso Bloco já vai em dez anos. Quem diria. Mas a verdade é que já nos vamos habituando à sua presença, e o movimento tornou-se sinónimo de "esquerdismo" e "politicamente correcto" por excelência, com a já desbotada expressão "esquerda-caviar".

Continua a ser um partido de díficil caracerização nas famílias ideológicas, quase tanto como o PSD. Amálgama de neo-trostquistas, ex-comunistas, maoístas recauchutados e desertores socialistas que se uniu para entrar no parlamento, talvez a classificação mais próxima seja a de esquerda radical.


O mais interessante - ou inquietante, dependendo das sensibilidades políticas - é que este partido é a mais bem sucedida tentativa de quebrar o domínio parlamentar de trinta e tal anos dos 4 habituais residentes do parlamento. De tal forma que já nem se deve falar em tentativa, mas em concretização. O caso mais conhecido até aqui fora o PRD inspirado e depois liderado pelo General Eanes, que logo na estreia, em 1985, entrou a matar com 18% e 45 deputados. Mas o deslumbramento e a irresponsável moção de censura ao governo de Cavaco foram disparos no pé e levaram-nos abaixo dos 5% primeiro, em legislativas antecipadas, e quatro anos depois à saída inglória do parlamento e posterior extinção. Houve também o caso do PSN, dos reformados de Manuel Sérgio, que conseguiu um mandato, mas a solidariedade derivou para a divisão e para as zangas e o partido escoou-se tão lesto como viera. Outros partidos que tiveram representação parlamentar iriam fazer parte do BE. A UDP chegou a entrar em S. Bento só de per si, com aquele inenarrável Américo Duarte, e mais umas legislaturas, com o PCP. O MDP-CDE, que nas constituintes obteve perto de 5% (quando Vasco Gonçalves dizia que iria ganhar as eleições), só também sumergido na APU voltou a entrar no hemiciclo.


Com a aliança PSR-UDP-Política XXI (herdeiro do extinto MDP)-FER, formou-se o Bloco de esquerda como o conhecemos. De resultados modestos nos primeiros anos, muito embora tivesse conseguido alguns deputados, ultrapassou os 6% em 2005 e pelas sondagens promete não ficar por aqui. A nível local é que as coisas parecem correr menos. Sem dúvida uma consequência sociológica dos seus apoiantes.


O Bloco é um partido com tendência a crescer em alturas de crise, com as suas iras, os seus protestos por tudo, o seu apoio incondicional às causas fracturantes, o seu aproveitamento mediático. E nota-se que cresce aproveitando a onda de contestação social às políticas de Sócrates, face à anémica ou atabalhoada oposição dos partidos à direita do PS ou a algumas limitações do PC em conseguir chegar a novo eleitorado. O Bloco vive da crise e da contestação, da crítica demolidora e de apelos constantes do contra. Cresce mais nas eleições nacionais porque aproveita o descontentamento, mas fica-se por resultados modestos nas locais por falta de implantação no terreno.


Na última convenção, Loução apelou a uma nova economia "socialista e anti-capitalista", o que significa que o discurso pode estar a radicalizar-se. Mas apelou igualmente a alianças como "movimentos de cidadãos", numa clara colagem ao MIC de Alegre e Roseta. À primeira vista parece uma inocente abordagem a independentes, mas numa altura destas, com perspectivas de crescimento nas sondagens, percebe-se a verdadeira ideia: a de ganhar mais votos aqui e ali (Sá Fernandes era outro exemplo, mas já lhes fugiu), a de conseguir o poder com as coligações que precisar, aproveitando o descontentamento e as divisões no PS. No fundo, a ideia de rejuvenescimento político do BE está a esgotar-se, e fica a clara sensação de um partido como os outros, que busca poder. Outra forma de o camuflar é haver um "coordenador" e dizer que não há líderes, como se Louçã não o fosse há anos. Nisso e em muitas outras coisas, parece-se com Paulo Portas. A sede de protagonismo e poder é outra característica, demasiado visível para se mascarar. Pode ser é que quando a situação económica e social, dê o seu tombo, quanto mais não seja por saturação.