quarta-feira, abril 29, 2009

Diane Lane em Streets of Fire



Uma das mais festivas músicas dos anos oitenta. Andei anos a tentar saber qual era, até que a boa e velha rádio me respondeu a essa questão. Nowhere Fast é da autoria dos Fire Inc., um grupo episódico, que só existiu para criar a banda sonora de Streets of Fire, pelo que me é dado a perceber era uma road-ópera-rock-wagneriana-kitsch, envolvendo gangues de motards, glamourosas estrelas de rock e canastrões inconscientes a enfrentar os maus da fita. Só não imaginava que este êxito era interpretado por uma muito jovem Diane Lane, que aqui surgia como uma sensual e fascinante "princesa rocker". Por isso e para recordar mais um hino dos eighties, vale a pena deixar aqui o video.

terça-feira, abril 28, 2009

Os erros de Elisa


Depois de cogitações, rumores, discussões e apelos, Elisa Guimarães Ferreira tornou-se efectivamente na candidata do PS à Câmara do Porto. Reúne o currículo necessário para a empresa: tem experiência política e administrativa como deputada em Estraburgo e S. Bento e como Ministra do Ambiente e do Planeamento, cargos em que mostrou firmeza, convicção e conhecimento das matérias. Não é uma carreirista e, não sendo filiada no PS, não precisa de "ascender no partido". A sua candidatura foi lançada atempadamente. Não é uma populista, mas é conhecida e respeitada na cidade. Será sem dúvida uma candidata temível para Rui Rio. Ou seria.


A candidatura parecia à primeira vista ter todas as condições para triunfar, recolhendo alguma vantagem do desgaste e de alguns anticorpos dos oito anos da administração de Rio. Mas desde o início foram cometidos vários erros que podem afectar a sua credibilidade. Para começar, espalhar uma série de outdoors pela cidade inteira desde Fevereiro não parece ser de muito bom tom, tanto pelos gastos que comportam numa altura de crise financeira e económica, em que o PS deveria ser o primeiro a mostrar sobriedade, como pelas autárquicas ainda estarem longe. Dá ideia que se desvalorizam as europeias e se se dão as legislativas como dado adquirido.


Depois, e mais grave que isso, a candidatura conjunta ao Parlamento Europeu (num lugar elegível) e à CMP são um rude golpe na credibilidade que se exige a alguém que tem reais pretensões a ocupar a Câmara. Tal como acontece com Ana Gomes, para Sintra. Diz Elisa, como justificação, que se for eleita para a CMP não deixará de ocupar o lugar, desistindo do PE. Óptimo. Mas e se perder? Pelo que me disseram, recusar-se-ia a ficar como vereadora (ao contrário do que sucedeu com Francisco Assis) e regressaria a Estrasburgo, dado que o seu estatuto e o seu currículo não lhe permitiriam liderar a oposição. Não vi essas declarações, apenas mas contaram, pelo que carecem de confirmação. Mas caso sejam verdadeiras, são um golpe em qualquer mensagem de seriedade que se queira fazer passar. Além de considerar a Câmara como coisa menor se não for a presidência, a mensagem que fica é que falhada a eleição autárquica terá sempre um lugar à sua espera, e um dos mais cobiçados. Como se não bastasse, faz ver que o seu currículo pesa mais do que a intenção de servir a causa pública, não admitindo ficar na vereação. Considerará o lugar "desonroso", depois de ter sido ministra? Talvez fosse bom olhar o exemplo inverso de Francisco Assis, que ocupou o seu lugar na edilidade, ainda que sem pasta, mesmo tendo permanecido como eurodeputado.


A ser verdade, tudo isto é deprimente e só dá gasolina aos que acusam os políticos de serem "todos iguais" e de "só quererem poleiro". Semelhante atitude não cairia bem entre o eleitorado portuense. Para mais, o PS-Porto, essa farândula de mediocridades em constantes lutas pelas migalhas do poder, que representa o pior dos aparelhos partidários (como se vê pelo episódio Narciso Miranda), não deve ver com bons olhos uma independente a encabeçar a tentativa de conquista da CMP e dificilmente deixará as suas conspiraçõezinhas de lado. Provavelmente não aprenderam nada com o choque da derrota de Fernando Gomes, o melhor autarca que o Porto teve em décadas, em 2001, depois de uma campanha sobranceira em que, tal como parece acontecer agora, se considerou a câmara como mero sucedâneo de poder. E podiam ainda ir buscar outro exemplo, mais antigo, este ao PSD, quando em 1993 candidataram António Taveira à CMP. Já depois do anúncio da candidatura, o senhor tomou posse como Secretário de Estado, para poucos meses depois se auto-exonerar para concorrer às autárquicas, como toda a gente sabia que ia acontecer. Sofreu uma derrota esmagadora perante esse mesmo Fernando Gomes. Curiosamente, Taveira era marido de...Elisa Ferreira, a própria.
É espantoso como os maus exemplos mais próximos não parecem servir de emeda. Depois ainda se admiram de Rio ganhar.

domingo, abril 26, 2009

Santo Condestável



A história portuguesa não tem tão poucos heróis como por vezes se pensa ou se quer fazer crer. Tem os suficientes para que um pequeno país nascido no Séc. XII e que consolidou as suas fronteiras actuais cem anos depois continue a existir e tenha dado um contributo enorme para a História Universal, deixando como traços a língua, os monumentos e arquitectura e os povos miscigenados, além de um sem número de memórias e relações diplomáticas com antigos parceiros e colónias. Entre esses heróis, ocupa lugar de destaque Nun ´Álvares Pereira.


Fazendo ontem arrumação à casa, saiu-me às mãos um pequeno livro de história da minha infância, daquela colecção da ASA, de cor laranja, muito em voga nos anos oitenta. Tive pela primeira vez contacto com a figura do Condestável, e ao longo dos tempos fui conhecendo a sua obra, a sua coragem e lealdade para com o Mestre de Aviz e a causa de Portugal, o seu génio militar, a sua religiosidade e o deu desapego das coisas terrenas no fim da vida. É possível que os seus feitos tenham sido um pouco mitificados e que a falta de documentação além dos escritos do cronista Fernão Lopes não nos mostre de forma mais transparente a vida do Condestável. Mas há coisas que não se podem desmentir: Nun´Álvares foi uma figura fulcral na luta pela independência, venceu os Atoleiros, Valverde e Aljubarrota contra exércitos muito maiores em número graças à sua determinação e à aplicação das tácticas com que a Inglaterra vinha coleccionando vitórias na Guerra dos Cem Anos, participou na incursão a Ceuta, início da grande aventura dos Descobrimentos, e mandou edificar o Convento do Carmo, onde passou os últimos anos numa vida monástica e despojada. Teve ainda outras ocasiões de demonstrar a sua piedade, distribuindo cereais pelo povo faminto em anos de fome, e o seu heroísmo, como na campanha do Minho, reconquistando para a causa de Aviz as praças e castelos que apoiavam D. Beatriz.


É por isso que a canonização de Nuno de Santa Maria deve encher os portugueses e o Estado Português de orgulho. O reconhecimento da sua santidade é a melhor homenagem que podiam fazer aos valores cristãos que sempre o nortearam. Sim, houve outros heróis portugueses, e na sua época, felizmente, eles não faltaram (começando pelo Mestre de Aviz, e prosseguindo com Álvaro Pais, João das Regras, Rui Pereira, sobrinho do Condestável, e tantos outros, conhecidos e anónimos). Mas há algo de diferente, de mais místico, de mais puro, uma aura de cavaleiro medieval que combate em prol dos seus ideais - não por acaso chamaram-lhe o "Galaad português - que tornam o agora São Nuno de Santa Maria uma figura incontornável da mitologia e da História de Portugal.

quinta-feira, abril 23, 2009

Ana Moreira


















Afinal sempre há consequências nefastas quando actores de teatro e cinema se põem a fazer telenovelas. Ana Moreira, provavelmente a actriz portuguesa mais fascinante desde Leonor Silveira, mudou-se para a TVI e desde então ficou com aquele ar horrível da fotografia da direita (onde até está favorecida, vista deste ângulo), que infelizmente carregou para algumas cenas de A Corte do Norte, de João Botelho, em exibição nos cinemas, e que lhe tira grande parte do seu encanto. Não sou adepto da tortura, mas para o/a responsável do novo look de Ana Moreira, para tamanho destruidor de encantos alheios, abriria uma excepção.
(É claro que pode ser opção da própria. Nesse caso, nada há mais a fazer senão chorar em silêncio e estender os olhos marejados de lágrimas balbuciando "porquês".)

segunda-feira, abril 20, 2009

E a cristofobia?
O Secretário Geral da ONU deve andar a ler muito o Arrastão. Só assim se explica que na abertura da conferência sobre o racismo das Nações Unidas, em Genebra, Ban Ki Moon se tenha referido logo à islamofobia. Que eu saiba, o Islão não é raça nenhuma, antes envolve questões religiosas e culturais. Mas se se faz essa interpretação ampla do conceito de racismo, fica a pergunta: então e a cristofobia, que se faz sentir em tantos países muçulmanos, como o Iraque (outrora com uma importante comunidade cristã, que agora foge do país em massa), o Paquistão e a Arábia Saudita (neste caso, é qualquer culto que não o sunita) e não só, caso da Índia? Não lhe merece nenhum reparo?
Um aniversário californiano
Parabéns a José in California. Não ao blogue, que ainda é jovem, mas ao seu autor, que atravessa mais uma primavera agora no eixo S. Diego-L.A. E que descreve de forma sucinta e clara a californian way of life do ponto de vista de alguém que decidiu passar os próximos anos do outro lado do oceano apostando na melhoria da sua formação profissional (Já antes de nível elevado) e em alargar sua vivência pessoal. Não é para todos.
A esperada desforra
Não tenho escrito muito sobre o Benfica, até porque de pouco tem valido a pena, mas faço-o hoje pela vitória gorda e particularmente saborosa. Foram quatro e podiam ser mais, tal a fragilidade da defesa sadina, que convidava a aumentar o marcador. Nuno e Cardozo não se fizeram rogados. Mas além de revelar claras melhorias exibicionais e tirar a barriga de misérias, esta goleada teve também o sabor da vingança: é que não me esqueci daquele osso na garganta que ficou de Dezembro, quando no último minuto do jogo um jogador do Setúbal atirou a bola com tanta sorte que proporcionou a Quim o frango do ano, originando um injustíssimo empate e um ponto literalmente caído do céu. As contas estão saldadas.
Há um ano

mais coisa menos coisa, o reencontro entre GNRs.





Com Pronúncia do Norte na Capital do Império



"Os corpos no lago eram de gente no desemprego"


Infelizmente não estive lá.

sexta-feira, abril 17, 2009

Conhecer a Tailândia em mais de duas linhas
Enquanto assistia nos noticiários nacionais à crise tailandesa provocada pelos apoiantes do ex-primeiro ministro Thaksin, pensava de imediato nos inúmeros testemunhos de Miguel Castelo Branco naquele país há já uns tempos, em especial nos acontecimentos de há meses, protagonizados pelo movimento "amarelo", de sentido contrário. Mas as coisas pareciam assumir agora um tom bem mais violento e insurreccional, como a vergonha do adiamento da cimeira da ASEAN (vergonha para quem a provocou, bem entendido). O Combustões não deixou de cobrir in loco toda a situação, em momentos mais descontraídos e noutros mais aquecidos, entre outras paragens mais bizarras, até ao inevitável estertor da insurreição. Um trabalho reconhecido agora por Pedro Rolo Duarte, e que apenas faz com que conheça e queira conhecer mais coisas sobre este país entre a tradição e a modernidade que é a Tailândia. Uma leitura sempre recomendável, complementado igualmente com o Visto de Bangkok, de Nuno Caldeira da Silva.

quarta-feira, abril 15, 2009

A estranha escolha de Paulo Rangel
Paulo Rangel é um jurista com uma carreira sólida, conhece bem o direito internacional (matéria que leccionou) e comunitário, é um bom tribuno e conhecerá como poucos as grandes questões europeias, sobretudo no que à justiça dizem respeito. É além do mais alguém que pensa pela sua própria cabeça, tanto quanto o seu cargo lhe permite. A sua fulgurante ascensão na política não terá deixado indiferente Rui Rio, que vê o seu antigo conselheiro ultrapassá-lo em notoriedade política, e que por isso mesmo tentou pôr Marques Mendes como cabeça de lista do PSD às próximas eleições europeias. Rangel tem ainda a invejável condição de não ser um ex-jota laranja ou um boy acomodado. E o confronto com Vital Moreira, constitucionalista de outra geração, será certamente excitante. Mas não deixa de ser estranho que meses após o convidar para dirigir a tribuna social-democrata na Parlamento, Manuela Ferreira Leite o alcandore agora a primeiro dos eurodeputados. Com tantas opções no seu partido (entre os quais Marques Mendes, precisamente), apostar um mesmo trunfo para duas funções diferentes - e incompatíveis - no espaço de um ano parece táctica desconexa da líder laranja. Talvez uma tentativa de se afirmar, lançando um nome conotado consigo, mas que corre o risco de abrir ainda mais brechas no PSD. Espera-se agora os seguintes nomes da lista, para que se possa falar do que importa.

domingo, abril 12, 2009

Páscoa

Já ouvi as primeiras Aleluias, na missa pascal nocturna a que tenho ido nos últimos anos, na pequena igreja a meia encosta do Alvão. De manhã cedo, lá terei de me levantar para receber o compasso, ainda antes das nove. Mas sem compasso nem a Páscoa é a mesma. O pequeno grupo que se faz ouvir com uma sineta, trazendo o Menino a beijar, presidido pelo padre ou pelo seminarista de serviço, calcorreando caminhos por vezes sob a chuva, é sempre o primeiro e mais singelo testemunho do anúncio da Ressureição.

Uma Santa Páscoa a todos.
Semana ocupada
Fazer mudanças é sempre complicado, mas fazê-las de um lugar que está associado à nossa memória de sempre e à nossa infância mais remota, lembrando-nos amargas recordações recentes, é ainda pior. Emalar, desembrulhar, transportar, carregar, separar e rearrumar, todo um ritual de gestos e cuidados que moem física e psicologicamente. Cada pequeno objecto traz-nos uma recordação; outros há que nunca vimos e que nos revelam toda uma vida, como se fosse a exploração envergonhada de um diário íntimo que ficou fechado anos a fio numa gaveta. Mas o seu destino, antes mais modesto, vai-se enriquecendo a pouco e pouco. Os livros, esses, têm seu próprio espaço há muito delineado. Coisas que jamais imaginara, autores esquecidos como Francisco Costa ou Manuel Ribeiro, edições raras de Pascoaes, livros ideológicos do integralismo ao marxismo, coisas germanófilas dos anos quarenta, livros do e sobre o Eça, manuais de direito e de agricultura, a enorme História da Administração Pública, policiais, biografias (Maquiavel, Lenine, Albuquerque), etc, etc, etc. Um bom exercício de bibliotecário, de arrumação e catalogação, espera-me nos tempos mais próximos. Hélas, aos soluços.

sexta-feira, abril 03, 2009

Afinal sempre é verdade




Há um novo conselheiro familiar no meio. Tem poderes irresistíveis e promete rivalizar com Karambas e Bambos. Resultados comprovados em qualquer sala de audiências do país.


Mas atenção: é pessoa dada a grandes paixões futebolísticas.

terça-feira, março 31, 2009

Ainda no Público desse dia

A pergunta mais estúpida que vi em vários anos:

"Querer ter um filho é ainda um resquício da família tradicional"?

(Anabela Mota Ribeiro, numa entrevista a um casal gay anónimo, revista Pública, 29/03/09)

O ciclo da esquerda



Entre as ligações que o Samuel faz saltou-me à vista o texto de João Marques de Almeida, com o título "O Mundo não vai virar à esquerda", como resposta a um artigo do Público de Domingo da outra semana, que perguntava precisamente se o mundo virara à esquerda.


Em princípio, assim parece. Na Casa Branca, Obama promete uma nova relação do Estado com as pessoas e uma maior regulação das instituições financeiras – os recentes casos dos violentos sermões aos gestores da AIG são disso um bom exemplo. Na América do Sul, o Brasil, a Argentina, o Chile e o Uruguai têm governos de esquerda moderada, enquanto que a Bolívia, o Equador, a Nicarágua e agora o Paraguai são regidos por uma esquerda mais radical, com a Venezuela à frente. Também no El Salvador a esquerda acaba de derrubar a ARENA, que há vinte anos estava no poder. No México, o populista PRI (cuja classificação ideológica é ambígua, enquadrando-se mais no "extremo centro") ameaça tomar de novo as rédeas. Isto sem falar em Cuba. Já na Europa, até os governos de direita de países como a França, a Alemanha, a Itália e a Grécia tiveram de intervir mais na economia.


As excepções contam-se pelos dedos, mas também as há. No Chile, por exemplo, a direita está à frente das intenções de voto, com o esvaziamento do estigma Pinochet. E mais casos haverá, certamente. Mas ainda não se percebeu bem se é um reflexo da crise financeira e económica que se abateu sobre o Mundo e a rejeição do liberalismo outrora triunfante ou se se trata de um novo ciclo para vários anos, mais estrutural que conjuntural.

É bem provável que a segunda hipótese esteja mais próxima da verdade. O momento lembra, e o artigo do Público também, o início dos anos oitenta, pela sua inversão, quando Tatcher e Reagan ascenderam ao poder por muitos anos, ao mesmo tempo que outras figuras tão diferentes de direita, como Khol ou mesmo a nossa "modesta" AD, ao passo que na América Latina predominavam os ditadores militares anti-comunistas, com o beneplácito dos EUA. E, tal como agora, a França ia em sentido contrário, dando uma forte maioria a uma coligação de socialistas e comunistas e elegendo Miterrand para a presidência.

As diferenças estruturais viam-se no modelo económico - mais estatista em fins dos anos setenta, mas liberal agora - e sociológico, aqui mais nos Estados Unidos. Mas Revolução Conservadora iniciada por Reagan, com a conquista do Midwest e das classes médias, parece ser um modelo esgotado. Os fracassos da Administração Bush e do seu Compassionate Conservatism, mais a crise, assustaram os americanos e empurraram-nos para os braços dos liberals.


Não significa isto que os Estados Unidos virem "socialistas". Tal não aconteceu na presidência de Clinton e nem sequer nos tempos do New Deal. Há coisas que fazem parte do código genético americano e que jamais desaparecerão. Uma certa independência dos poderes federais e um característico Do it Yourself são parte constitutiva desses genes. Mas as loucuras de Wall Street e o optimismo do mercado levaram a uma mudança de atitude. E é preciso não esquecer que o Congresso já tinha maioria Democrata desde 2006. Mais do que uma mudança abrupta, há algo de simbólico na ascensão de Obama à Presidência, que é a marca do fim desses trinta anos de conservadorismo.

A verdade é que não havia um domínio direitista absoluto do mundo, nem sequer ocidental. Mais depressa se verificava uma derrota da esquerda mais radical, com a queda do Pacto de Varsóvia e da URSS e a metamorfose da China em potência capitalista, e a conversão da esquerda moderada sob a forma da Terceira Via, protagonizada pelo New Labour de Blair e o abandono de uma política de nacionalizações e de apoio nos sindicatos. O que se nota agora é mais uma derrota de várias direitas (e mais um abandono do modelo liberal, para que volte dentro de anos, como sempre) e o consequente predomínio da esquerda em sua substituição. Um ciclo definitivo? Só para os entusiasmados do momento, que quando as suas facções ganham adquirem ou reforçam uma visão determinista das coisas. Continuará a haver ciclos consoante as circunstâncias e os acontecimentos favoreçam esta ou aqueloutra ideologia. Mas não tenhamos dúvida de que nos próximos tempos será sobretudo a esquerda a mostrar-se triunfante.

quinta-feira, março 26, 2009

Traição contínua
As linhas do Corgo (Régua a Vila Real) e do Tâmega (Livração a Amarante) estão encerradas "por tempo indeterminado" desde ontem à noite, numa ordem dada em cima da hora pela administração da Refer que, em segredo, acordou com a CP um serviço de substituição rodoviário. O motivo oficial é a reabilitação daquelas linhas, mas a empresa não tem qualquer calendarização para iniciar os trabalhos, não dispõe dos projectos para tal e não abriu qualquer concurso público.Ontem à noite, o maquinista da automotora que costuma ficar na estação de Vila Real recebeu ordens para a trazer de volta à Régua antes da meia-noite, numa operação que faz recordar a forma como há 16 anos encerrou a linha do Tua (entre Mirandela e Bragança) com as composições a regressarem vazias durante a noite para evitar a contestação das populações.O PÚBLICO apurou que a Refer e a CP preparavam esta operação há já alguns meses, mas decidiram não a divulgar, preferindo fazê-lo em cima da hora. Ontem, às 21h, os sites das duas empresas não traziam ainda qualquer informação sobre esta suspensão. A ordem apanhou de surpresa os ferroviários da estação da Régua e da Livração que, subitamente, ficaram a saber que hoje já não haveria comboios para Vila Real e Amarante. Para a CP, que também omitiu estas alterações aos seus clientes, esta situação é vantajosa visto que o serviço é deficitário e poupa agora no combustível e no desgaste das composições, com a vantagem de ser a Refer a pagar os autocarros de substituição.


Mais uma prova da absoluto desrespeito da CP e da REFER pelos seus utentes, uma atitude que se está progressivamente a tornar rotineira. Depois de encerramentos contínuos de inúmeros troços de linha férrea, desde o fabuloso Sabor até vários percursos alentejanos, e quando se prepara, embora ainda não o admita, para eliminar a linha do Tua, um património único na Europa, a notícia da "suspensão" das linhas do Tâmega e do Corgo caiu que nem uma bomba entre os habituais utilizadores. Pela calada da noite, como quaisquer vulgares bandoleiros, aqueles que tinham obrigação de velar pelos caminhos de ferro acabaram com eles num ápice. A história da "suspensão indeterminada" é truque velho, demasiado datado para que alguém acredite, fora os desonestos.


Enquanto isso, discute-se o traçado do TGV, se entra em Lisboa pelo Norte ou pelo Sul, se passa ou não no aeroporto, se vai a Vigo ou a Ayamonte. O TGV é um dos Bezerros de Ouro do regime, tal como o EURO 2004 era "o desígnio nacional". Promete o futuro radioso à mão de semear por meros 40 Euros, depois de milhares de hectares expropriados, incontáveis discussões e projectos, milhões de Euros gastos nisto tudo e nas inevitáveis derrapagens.


E o ambiente, as energias renováveis, o cumprimento dos protocolos de redução das emissões de CO2, tudo alardeado com ar beatífico e de aluno cumpridor, quando o interior e o miolo das grandes cidades se esvazia inexoravelmente para os subúrbios dos blocos de betão de má qualidade decorados a marquises ensebadas no meio de campos semi-agrícolas. Para isso, constroem-se barragens concessionadas previamente à EDP, que podiam ser evitadas caso se aumentasse a potência de outras, destruindo-se património humano e natural, com a falsa promessa de que vão atrair turismo e emprego (isto é, construção civil), quando na realidade apenas "secam" tudo à sua volta, quais eucaliptais.


As linhas férreas foram uma forma de vencer as barreiras entre o litoral e o interior, penetrar nas serranias e nos planaltos, quebrar o isolamento de populações desde tempos imemoriais confinados ao seu horizonte montanhoso. Um projecto ambicioso, levado a cabo desde o Fontismo até aos últimos anos da Monarquia, em que os Reis iam pessoalmente à inauguração destes novos troços que mudaram o país para melhor, fosse no Carregado ou nas Pedras Salgadas. Agora, a república em que vivemos resolve unilateralmente e por interposta empresa pública acabar com meios de transporte, que além de ligarem populações carentes de outros meios de comunicação, eram já um património histórico testemunhando a vontade intrépida de ultrapassar obstáculos, como o haviam sido os Descobrimentos e o Douro vinhateiro. A isto tudo a CP obedece sem pestanejar, traindo o compromisso com os seus utentes, continuando a prestar-lhes maus serviços pelos mesmos preços sem sequer ouvir-lhes as queixas (o Intercidades não tem serviço de bar há seis meses). É bem o exemplo do que não deve ser uma empresa pública. Infelizmente, é a regra, e não a excepção.


Ainda me posso dar por feliz por ter conhecido a linha do Corgo, mesmo que amputada da sua metade até Chaves. Tinha planos para conhecer as do Tâmega e do Tua, mas infelizmente essas esperanças goram-se agora. Já não poderei conhecer essas velhas composições, as paisagens únicas que atravessam, nem os rostos das pessoas traídas pelos seus governantes, para quem não passam de pormenores do seu feudo de "progresso" e inimputabilidade.
PS: ver igualmente a Origem das Espécies
(Publicado em simultâneo no Estado Sentido)

terça-feira, março 24, 2009

Cinco anos de Lusa Voz



Parabéns atrasados ao Corcunda e aos cinco anos de O Pasquim da Reacção. O mais combativo "reaça" da blogoesfera continua o seu caminho, com persistência e admirável solidez doutrinária, por vezes desarmante. Um defensor de causas politicamente incorrectas nem sempre muito seguidas, mas que já granjeou inúmeros admiradores.

segunda-feira, março 23, 2009

Com o MMS
Pontual, exaustivo, esclarecedor, completo, é o que se pode dizer da reportagem do Estado Sentido no primeiro congresso do MMS. Aplausos para o Samuel de Paiva Pires, Nuno Castelo Branco e João de Brecht!
Sobre o movimento em si, a ideia com que fico é que é muito voluntarista (e prima pela organização), mas as ideias não deixam de causar alguma estranheza. Pelo que se ouviu, há algum populismo e muita contradição (é algo inusitado um movimento defender ideias liberais e depois verberar o "grande capital"). Esperemos para ver o MMS em acção, e para que no caminho, nos esclareça melhor.
Taça da Liga
Ganhando a Taça da Liga, o Benfica tornou-se o primeiro clube português a ganhar os quatro troféus nacionais oficialmente existentes. De forma enviesada, como se viu, com um penalty inexistente. Quim, com três defesas magistrais, encarregou-se da saga das grandes penalidades.
É pena ganhar assim um troféu, mas se lembramos que nas Antas aquele penalty fabricado nos prejudicou, é justo que reconheçamos o erro a nosso favor. Mas é bonito ouvir o juiz da partida pedir desculpa aos prejudicados. O que eu gostava de me lembrar era das desculpas do mesmo árbitro de outras partidas em que objectivamente prejudicou o Benfica (Ricardo Rocha ainda se deve lembrar com furor da camisola que atirou ao chão ). Mas aposto que nessa ocasião Lucílio não se deve ter coibido de se desculpar.