quarta-feira, maio 20, 2009

Blogotúlia com Paulo Rangel


Ainda devia estar no comboio quando começou a tertúlia no Café Nicola, e por isso só cheguei a meio, perdendo a apresentação e as discussões da 1ª metade. Eis um relato, entre o simplificado e o denso, do que ouvi.

O que se seguiu ao intervalo trouxe confirmações do que já se sabia, tais como a opção pelo federalismo (o mainstream não é ser federalista, é ser eurocéptico), as diferenças para o PS no investimento público ("target, timely, temporarily"), recusa do referendo ("quem for a favor tem aqui a oportunidade de o mostrar pelo voto").

Mas falou da também a sua visão económica - que se traduz numa visão mais liberal do que a média portuguesa mas dentro dos parâmetros do Estado Social Europeu, que considerou, apesar das diferentes concretizações e do seu grau de aplicação, ser o mesmo. Do ponto de honra na recondução de Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia, e da confusão no PSE quanto a esse assunto. De uma certa "identidade europeia", assinalando provas disso mesmo, como a supressão de fronteiras, a moeda única e até os programas ERASMUS. Da sua própria visão dos "costumes", reafirmando-se como "católico progressista", ficou a intransigência quanto ao aborto e eutanásia, a sua posição gradualista de uma hipótese de "terceira via"no caso do "casamento gay" e a oposição à nova lei do divórcio, que considerou que transforma o casamento numa "união de facto reforçada", misturando duas figuras que deveriam ser distintas.


Para o fim, ficaram questões que devido à inexorável passagem do tempo, ficaram para trás. Depois de uma "questão" de Miguel Morgado, à partida sobre uma assembleia constituinte europeia que acabou por ser uma sabatina sobre sistemas constitucionais comparados (não tenho bem a certeza porque cedo perdi o fio à meada), com concordância algo condicionada do candidato, falou-se finalmente das relações externas. Falou brevemente da possibilidade que Portugal tem em trazer dinâmicas à UE pelo seu relacionamento privilegiado com África e Magrebe (com a concorrência da França), América Latina (com proeminência da Espanha) e mesmo com a Ásia. Nas relações com o Leste, Rangel avisou que não se podia abandonar a Sérvia, depois do golpe do Kosovo Lembrou casos relativamente simples de possíveis alargamentos, como a noruega, Islândia e Suíça. E falou dos casos verdadeiramente bicudos; a Turquia, para começar, a cuja entrada deixa sérias dúvidas, embora não se oponha frontalmente, mas que deveria, caso isso não acontecesse, ser objecto de uma sólida parceria estratégica por parte da UE; a Ucrânia, que traz consigo não apenas uma parte russófona e russófila mas também a Crimeia e a base de Sebastopol; o Cáucaso, em especial a Arménia e a Geórgia, com problemas semelhantes aos dos ucranianos, mas também parte da identidade europeia; a Bielorrússia, em que Lukashenko parece ter iniciado uma tímida aproximação à UE. E por fim a Rússia; Paulo Rangel lembrou João Paulo II, a sua visão de uma Europa ao Urais e o seu combate não somente ao comunismo mas igualmente ao capitalismo selvagem; e que a cultura russa, começando na literatura e na música, era parte integrante da cultura europeia. Ou seja, nunca a UE poderia olhar para o gigante russo como uma entidade totalmente estranha, mas a entrada na organização/federação já lhe parecia exagerada senão impossível.

(Já que se falou de tantas possíveis entradas, é pena que ninguém tenha lançado as hipóteses Israel e Cabo Verde, com tanto direito como a Turquia).

Final em beleza: na senda da recordação de Karol Woytila, a ideia de que em Portugal é muito difícil falar-se publicamente utilizando linguagem religiosa e teológica, quando se usa para todas as outras vertentes, porque logo aparecem demagogos bramindo pela "violação do estado laico". Uma ideia afinal tão fiel às liberdades públicas e políticas que Paulo Rangel pretende defender, em S. Bento ou em Estrasburgo.

terça-feira, maio 19, 2009

Ir onde estão os mais fracos
Pode-se falar do "esboroamento do cristianismo", ou que "cada vez mais as pessoas se fastam da Igreja", mas não há dúvidas que na última semana o catolicismo marcou pontos. A nível externo, com a visita do Papa à Terra Santa, onde visitou todos os locais de relevo por onde o Nazareno espalhou a sua Palavra, e em que sem declarações incendiárias e com a devida prudência, não deixou de condenar por igual o Holocausto e o muro da Cisjordânia, apelando emocionada mente ao fim das hostilidades. Claro que houve críticas, dos descontentes e fundamentalistas de sempre, numa terra devastada por fanatismos de toda a ordem.
Por cá, Nossa Senhora de Fátima saiu da capelinha e juntou-se às comemorações dos cinquenta anos do Cristo-Rei. Ouvir um responsável camarário de Almada dizer que nunca na cidade da outra banda tinha havido tal ajuntamento de pessoas (embora haja quem diga que há cinquenta anos houve mais) tem o seu significado. E muito embora não seja um grande devoto de Fátima, pelo clima quase pagão que por vezes lhes está subjacente, gostei de ver a singela figura da Senhora circular por entre hospitais e zonas socialmente degradadas, como o Intendente, e onde parece que Deus está ausente. Porque era precisamente para estas almas falhas de esperança e no fundo da vida que Maria deu à luz o Seu Filho.

quinta-feira, maio 14, 2009

Os danos da imprensa desportiva

Com um melancólico fim de campeonato e um empate bisonho frente ao Trofense, que tive a desventura de assistir ao vivo, Luís Filipe Vieira veio anunciar que iria haver "mudanças" no futebol do Benfica. Tanto bastou para que nos dias seguintes toda a imprensa desportiva viesse logo anunciar a saída de Quique Flores e as eminentes contratações de Jorge Jesus, Scolari, e o que mais se imagina.


Já se sabe que a imprensa desportiva, sem mais nada que contar, se agarra inevitavelmente ao Benfica, e em tempo de crise de resultados a sofreguidão aumenta exponencialmente. É vê-los a prever técnicos, anunciar jogadores "a caminho" e discorrer sobre as divergências dos dirigentes. O modelo é sempre igual. Mas agora ainda é pior: sem que haja qualquer indicação nesse sentido, já nem põem a hipótese remota de Quique ficar mesmo no próximo ano; os jogos que restam são vistos como um pró-forma. Ora mesmo que não esteja em jogo nada de substancial, seria penoso ver o Benfica vacilar de novo nesses desafios. Ficar em terceiro já é mau, mas em quarto e quinto é ainda pior, correndo-se o risco de se quedar atrás do Nacional da Choupana! Com que moral irá Flores orientar a equipa nos próximos jogos com toda a imprensa a deitar-se a adivinhar o seu sucessor? É de temer o pior. Em casos normais, o Braga nem seria um bicho de sete-cabeças, até porque já não demonstra o fulgor de há uns tempos (apesar da goleada ao Belenenses, que parece-me que se deveu mais à ansiedade e à prestação desastrosa da Cruz de Cristo), e muito menos o último adversário em casa, precisamente o Belém, mas até do jogo com estes tenho receio. Sem espírito para trabalhar e se se confirmar o guia de marcha, Quique Flores nada terá a esperar e já estará com a cabeça noutro lugar.

Mesmo que tenha tido um mau desempenho, o melhor ainda seria que ficasse, para que houvesse alguma constância e estabilidade. Mas assim parece impossível. Os nossos jornalistas desportivos, sem mais assunto em que pegar, pura e simplesmente regurgitam manchetes. E isso influencia e tem consequências concretas, provocam a desconfiança e a suspeita e podem acarretar decisões indesejadas. E nesta altura podiam falar de tanta coisa: do futebol internacional, da final da Taça do Rei que juntou os dois clássicos vencedores da prova, Athletic de Bilbao e Barcelona (que venceram, infelizmente), como da taça de Itália entre a Lázio e a Sampdoria, dos finais de andebol, etc. Mas não, optaram pelo rumor em detrimento da notícia factual. Só confirma que os jornais desportivos têm "informação" a mais e assuntos a menos, e que ocupam um lugar demasiado destacado na imprensa nacional para a importância que têm. Que saudades dos tempos em que A Bola, o último jornal do Bairro Alto, se publicava apenas duas vezes por semana. Essa é que era a dimensão acertada.





Há quinze anos dava-se este embate sublime, uma das vitórias mais gloriosas (e saborosas) de sempre. Como vão longe, esses tempos! Depois disso, o dilúvio.

quarta-feira, maio 13, 2009

O Fascismo de braços cruzados


Parece que agora estar de braços cruzados em outdoors de campanha eleitoral passou a ser uma forma de fascismo. Doravante, quem estiver em momento de pausa e de braços cruzados será imediatamente denunciado pela virtuosa União de Resistentes Anti-Fascistas. Acho muito bem: afinal de contas, é uma posição ligada ao ócio, e, por consequência, à burguesia exploradora e inimiga do trabalho. Espera-se que no seu próximo artigo Boaventura Sousa Santos desenvolva os tópicos sobre o novo Fascismo-Braçocruzadismo. Revolução sempre! Braços cruzados nunca mais!

terça-feira, maio 12, 2009

Um debate com todos


Infelizmente só pude ver a segunda metade do debate das Europeias, com os 13 candidatos, no belíssimo espaço do Museu da Electricidade, em Lisboa. Afinal havia espaço e tempo para todos, e sem os aplausos e chinfrineira do público a coisa correu razoavelmente bem. Pelo pouco que vi, não consegui ficar com uma ideia de todas as candidaturas. Havia candidatos que não conhecia, como o do Partido Humanista e o do MMS. Alguns são bloggers. A disposição esquerda/direita provocou-me algumas dúvidas (com o MEP, por exemplo).


Do que ouvi, e menos do que queria, Paulo Rangel esteve demasiado virado para a crítica interna no seu apelo final; Nuno Melo e Miguel Portas iam com a lição bem estudada. Ilda limitou-se a desfiar a bobine, embora tenha feito valer a sua experiência em Estrasburgo. Gostei de ver Laurinda Alves recordar os "pais da Europa" e o espírito cristão que levou à constituição da CECA, já que a memória é tantas vezes abastardada. Do Partido Humanista viram-se inócuas boas intenções. Do MMS também pouco retive. O Frederico, pelo PPM, desafiou abertamente a RTP e parece-me que saiu penalizado por isso (pena a troca "Nobre Guedes", por Nobre da Costa, no fim, e o esquecimento de Calvo Sotelo, em Espanha, mas o tempo era escasso). Carmelinda Pereira deve-se achar em 1976 (nacionalizar a banca para ser gerida por comissões de trabalhadores? Deus meu!). Orlando Alves mostrou-se combativo, como determina o lema do partido, mas com moderação. Alguma moderação também da parte de Humberto Nuno Oliveira, mas com as ideias já bem conhecidas. Quartim Graça pareceu-me ponderado mas mais discreto do que o desejável. Quanto a Vital Moreira, se dúvidas havia, dissiparam-se hoje: como cabeça de lista é um erro crasso. Mantém toda a presunção de "lente de Coimbra", tentou negar o indesmentível (a promessa de referendo ao Tratado Europeu) de maneira inconcebível, não estava totalmente dentro das matérias e nem sequer conserva a sua antiga qualidade, de resposta fácil e aguçada, que lhe permitia outrora esgrimir com os seus floretes verbais de forma muito eficaz. Cada vez que aparece, o PS perde votos, e nem as "Marinhas Grandes" ocasionais lhe valem.


Tirada inesperada da noite, de Miguel Portas: "que a direita ouça por uma vez os bispos quando falam da emigração, porque falam bem". Espera-se nos próximos dias o consequente protesto da Associação Ateísta pela "vergonhosa referência a uma confissão religiosa num debate laico".
Voo directo para a Grécia

Descobri que há voos directos ente Hamburgo e Atenas. Deve ser uma viagem interessante, esta, do Mar do Norte à Ática. E parece-me que haverá com certeza quem as aprecie devidamente.

quinta-feira, maio 07, 2009

Nasceu o I



Lançar um novo jornal diário na crise actual que afecta em particular o sector da imprensa revela audácia. O I, o anunciado periódico dirigido por Martim Avillez de Figueiredo, deu-se hoje finalmente a revelar. O ABC do PPM (ainda não percebi a função que ocupa na publicação, mas ao menos julgo que compreendi agora o sentido do nome do blogue) tem-no publicitado insistentemente, e ele aí está. No meio da tempestade jornalística que se faz sentir, será interessante verificar nos próximos tempos como se aguenta o I.

Tinha de ser a equipa da moda

Não sei como se diz "gatuno" em catalão, mas se não existia tal palavra, têm de a inventar. A tão desejada final entre Cristiano Ronaldo e Messi vai mesmo realizar-se, e para isso os catalães contaram com um misto de ajuda da arbitragem e de sorte inaudita. A tal equipa que "pratica o melhor futebol do mundo" e à qual nenhuma outra parecia conseguir travar só obteve o passaporte para Roma de forma medíocre e enviesada. A filial espanhola do Basileia vai ficar na história, sim, não pelos golos que marca mas como uma das que mais injustamente chegou a uma final europeia. Agora é esperar que o Melhor Jogador do Mundo trate da saúde a essa gente do canto do país vizinho. Quanto ao Chelsea, depois do golo do Liverpool que nunca se saberá se entrou das meias finais de 2005, da derrota em grandes penalidades da final do ano passado, e agora disto, deu mais um passo em frente para vencer o galardão de equipa mais desafortunada da última década.

terça-feira, maio 05, 2009

Tolices em cadeia

Alguns membros daquela alegre confraria que se dedica a publicar livros relatando os seus hábitos de pilhagem desenfreada e que dá pelo nome de Super Dragões (ou "gaiatos", para outros) assaltaram a loja da irmã de Cristiano Ronaldo. Percebe-se que tenha sido logo essa, como vingança pelo torpedo que CR7 enviou há dias para o fundo das redes de Helton. Estranho é vir do mesmo colectivo que volta e meia acusa os adversários de serem "invejosos". Se a moda pega, vamos ver tudo quanto é lojas de familiares de avançados serem assaltadas por adeptos dos clubes a quem esse jogador marcou golos.
Por falar em Madeira, Alberto João Jardim veio dizer que a equipa do Marítimo, tirando a defesa, devia ser "saneada" e "rifada", e que o plantel "é fraquíssimo". Já se sabe que o presidente do Governo da Madeira intromete-se em tudo o que diz respeito ao arquipélago, incluindo futebol, que aliás já lhe valeu uma monumental vaia em pleno estádio dos Barreiros. Semelhantes opiniões de um político sobre o seu clube só as vi de Berlusconi, que interrompeu uma programa televisivo para criticar as opções do treinador do seu Milan.
E a propósito de Berlusconi, a mulher de "sua Emittenza" pediu o divórcio, farta das tropelias do marido. e como reagiu o primeiro-ministro italiano? Afirmando que tudo não passa de "manobras da oposição de esquerda", que teriam influenciado a cônjuge. É neste patético estadista, neste projecto de Mussolini de Carnaval, como diria o capitão Haddock, que os italianos cada vez mais confiam os seus destinos. Na sua síntese, é um quadro arrasador do que é a Itália hoje em dia.

segunda-feira, maio 04, 2009

Vasco Granja


Morreu esta noite Vasco Granja, aos 83 anos de idade. Para quem passou a infância nos anos oitenta, é uma figura incontornável. Deu a conhecer a toda uma geração desenhos animados do mundo inteiro e dinamizou o gosto pela "BD" (expressão por si cunhada) em Portugal. A caricatura e a recordação que dele fazem são desenhos animados dos países então do outro lado da Cortina de Ferro. Curiosamente não me lembro tão bem desses como dos mais conhecidos Hanna-Barbera e Warner Bross, que também passavam pelo seu programa; ficou-me sobretudo na memória o Gribouille, um simpático monstro francês de esponja que desenhava. Uma parte da memória da minha infância devo-a a Vasco Granja, que só me recordo de ver pessoalmente numa entrevista a Morris, o criador de Lucky Luke, há muitos anos, no Salão Internacional de Banda Desenhada do Mercado Ferreira Borges. Que descanse em paz, ou se não for possível, na confusão eterna do seu mundo fantástico.


Adenda: o Gribouille

quarta-feira, abril 29, 2009

Diane Lane em Streets of Fire



Uma das mais festivas músicas dos anos oitenta. Andei anos a tentar saber qual era, até que a boa e velha rádio me respondeu a essa questão. Nowhere Fast é da autoria dos Fire Inc., um grupo episódico, que só existiu para criar a banda sonora de Streets of Fire, pelo que me é dado a perceber era uma road-ópera-rock-wagneriana-kitsch, envolvendo gangues de motards, glamourosas estrelas de rock e canastrões inconscientes a enfrentar os maus da fita. Só não imaginava que este êxito era interpretado por uma muito jovem Diane Lane, que aqui surgia como uma sensual e fascinante "princesa rocker". Por isso e para recordar mais um hino dos eighties, vale a pena deixar aqui o video.

terça-feira, abril 28, 2009

Os erros de Elisa


Depois de cogitações, rumores, discussões e apelos, Elisa Guimarães Ferreira tornou-se efectivamente na candidata do PS à Câmara do Porto. Reúne o currículo necessário para a empresa: tem experiência política e administrativa como deputada em Estraburgo e S. Bento e como Ministra do Ambiente e do Planeamento, cargos em que mostrou firmeza, convicção e conhecimento das matérias. Não é uma carreirista e, não sendo filiada no PS, não precisa de "ascender no partido". A sua candidatura foi lançada atempadamente. Não é uma populista, mas é conhecida e respeitada na cidade. Será sem dúvida uma candidata temível para Rui Rio. Ou seria.


A candidatura parecia à primeira vista ter todas as condições para triunfar, recolhendo alguma vantagem do desgaste e de alguns anticorpos dos oito anos da administração de Rio. Mas desde o início foram cometidos vários erros que podem afectar a sua credibilidade. Para começar, espalhar uma série de outdoors pela cidade inteira desde Fevereiro não parece ser de muito bom tom, tanto pelos gastos que comportam numa altura de crise financeira e económica, em que o PS deveria ser o primeiro a mostrar sobriedade, como pelas autárquicas ainda estarem longe. Dá ideia que se desvalorizam as europeias e se se dão as legislativas como dado adquirido.


Depois, e mais grave que isso, a candidatura conjunta ao Parlamento Europeu (num lugar elegível) e à CMP são um rude golpe na credibilidade que se exige a alguém que tem reais pretensões a ocupar a Câmara. Tal como acontece com Ana Gomes, para Sintra. Diz Elisa, como justificação, que se for eleita para a CMP não deixará de ocupar o lugar, desistindo do PE. Óptimo. Mas e se perder? Pelo que me disseram, recusar-se-ia a ficar como vereadora (ao contrário do que sucedeu com Francisco Assis) e regressaria a Estrasburgo, dado que o seu estatuto e o seu currículo não lhe permitiriam liderar a oposição. Não vi essas declarações, apenas mas contaram, pelo que carecem de confirmação. Mas caso sejam verdadeiras, são um golpe em qualquer mensagem de seriedade que se queira fazer passar. Além de considerar a Câmara como coisa menor se não for a presidência, a mensagem que fica é que falhada a eleição autárquica terá sempre um lugar à sua espera, e um dos mais cobiçados. Como se não bastasse, faz ver que o seu currículo pesa mais do que a intenção de servir a causa pública, não admitindo ficar na vereação. Considerará o lugar "desonroso", depois de ter sido ministra? Talvez fosse bom olhar o exemplo inverso de Francisco Assis, que ocupou o seu lugar na edilidade, ainda que sem pasta, mesmo tendo permanecido como eurodeputado.


A ser verdade, tudo isto é deprimente e só dá gasolina aos que acusam os políticos de serem "todos iguais" e de "só quererem poleiro". Semelhante atitude não cairia bem entre o eleitorado portuense. Para mais, o PS-Porto, essa farândula de mediocridades em constantes lutas pelas migalhas do poder, que representa o pior dos aparelhos partidários (como se vê pelo episódio Narciso Miranda), não deve ver com bons olhos uma independente a encabeçar a tentativa de conquista da CMP e dificilmente deixará as suas conspiraçõezinhas de lado. Provavelmente não aprenderam nada com o choque da derrota de Fernando Gomes, o melhor autarca que o Porto teve em décadas, em 2001, depois de uma campanha sobranceira em que, tal como parece acontecer agora, se considerou a câmara como mero sucedâneo de poder. E podiam ainda ir buscar outro exemplo, mais antigo, este ao PSD, quando em 1993 candidataram António Taveira à CMP. Já depois do anúncio da candidatura, o senhor tomou posse como Secretário de Estado, para poucos meses depois se auto-exonerar para concorrer às autárquicas, como toda a gente sabia que ia acontecer. Sofreu uma derrota esmagadora perante esse mesmo Fernando Gomes. Curiosamente, Taveira era marido de...Elisa Ferreira, a própria.
É espantoso como os maus exemplos mais próximos não parecem servir de emeda. Depois ainda se admiram de Rio ganhar.

domingo, abril 26, 2009

Santo Condestável



A história portuguesa não tem tão poucos heróis como por vezes se pensa ou se quer fazer crer. Tem os suficientes para que um pequeno país nascido no Séc. XII e que consolidou as suas fronteiras actuais cem anos depois continue a existir e tenha dado um contributo enorme para a História Universal, deixando como traços a língua, os monumentos e arquitectura e os povos miscigenados, além de um sem número de memórias e relações diplomáticas com antigos parceiros e colónias. Entre esses heróis, ocupa lugar de destaque Nun ´Álvares Pereira.


Fazendo ontem arrumação à casa, saiu-me às mãos um pequeno livro de história da minha infância, daquela colecção da ASA, de cor laranja, muito em voga nos anos oitenta. Tive pela primeira vez contacto com a figura do Condestável, e ao longo dos tempos fui conhecendo a sua obra, a sua coragem e lealdade para com o Mestre de Aviz e a causa de Portugal, o seu génio militar, a sua religiosidade e o deu desapego das coisas terrenas no fim da vida. É possível que os seus feitos tenham sido um pouco mitificados e que a falta de documentação além dos escritos do cronista Fernão Lopes não nos mostre de forma mais transparente a vida do Condestável. Mas há coisas que não se podem desmentir: Nun´Álvares foi uma figura fulcral na luta pela independência, venceu os Atoleiros, Valverde e Aljubarrota contra exércitos muito maiores em número graças à sua determinação e à aplicação das tácticas com que a Inglaterra vinha coleccionando vitórias na Guerra dos Cem Anos, participou na incursão a Ceuta, início da grande aventura dos Descobrimentos, e mandou edificar o Convento do Carmo, onde passou os últimos anos numa vida monástica e despojada. Teve ainda outras ocasiões de demonstrar a sua piedade, distribuindo cereais pelo povo faminto em anos de fome, e o seu heroísmo, como na campanha do Minho, reconquistando para a causa de Aviz as praças e castelos que apoiavam D. Beatriz.


É por isso que a canonização de Nuno de Santa Maria deve encher os portugueses e o Estado Português de orgulho. O reconhecimento da sua santidade é a melhor homenagem que podiam fazer aos valores cristãos que sempre o nortearam. Sim, houve outros heróis portugueses, e na sua época, felizmente, eles não faltaram (começando pelo Mestre de Aviz, e prosseguindo com Álvaro Pais, João das Regras, Rui Pereira, sobrinho do Condestável, e tantos outros, conhecidos e anónimos). Mas há algo de diferente, de mais místico, de mais puro, uma aura de cavaleiro medieval que combate em prol dos seus ideais - não por acaso chamaram-lhe o "Galaad português - que tornam o agora São Nuno de Santa Maria uma figura incontornável da mitologia e da História de Portugal.

quinta-feira, abril 23, 2009

Ana Moreira


















Afinal sempre há consequências nefastas quando actores de teatro e cinema se põem a fazer telenovelas. Ana Moreira, provavelmente a actriz portuguesa mais fascinante desde Leonor Silveira, mudou-se para a TVI e desde então ficou com aquele ar horrível da fotografia da direita (onde até está favorecida, vista deste ângulo), que infelizmente carregou para algumas cenas de A Corte do Norte, de João Botelho, em exibição nos cinemas, e que lhe tira grande parte do seu encanto. Não sou adepto da tortura, mas para o/a responsável do novo look de Ana Moreira, para tamanho destruidor de encantos alheios, abriria uma excepção.
(É claro que pode ser opção da própria. Nesse caso, nada há mais a fazer senão chorar em silêncio e estender os olhos marejados de lágrimas balbuciando "porquês".)

segunda-feira, abril 20, 2009

E a cristofobia?
O Secretário Geral da ONU deve andar a ler muito o Arrastão. Só assim se explica que na abertura da conferência sobre o racismo das Nações Unidas, em Genebra, Ban Ki Moon se tenha referido logo à islamofobia. Que eu saiba, o Islão não é raça nenhuma, antes envolve questões religiosas e culturais. Mas se se faz essa interpretação ampla do conceito de racismo, fica a pergunta: então e a cristofobia, que se faz sentir em tantos países muçulmanos, como o Iraque (outrora com uma importante comunidade cristã, que agora foge do país em massa), o Paquistão e a Arábia Saudita (neste caso, é qualquer culto que não o sunita) e não só, caso da Índia? Não lhe merece nenhum reparo?
Um aniversário californiano
Parabéns a José in California. Não ao blogue, que ainda é jovem, mas ao seu autor, que atravessa mais uma primavera agora no eixo S. Diego-L.A. E que descreve de forma sucinta e clara a californian way of life do ponto de vista de alguém que decidiu passar os próximos anos do outro lado do oceano apostando na melhoria da sua formação profissional (Já antes de nível elevado) e em alargar sua vivência pessoal. Não é para todos.
A esperada desforra
Não tenho escrito muito sobre o Benfica, até porque de pouco tem valido a pena, mas faço-o hoje pela vitória gorda e particularmente saborosa. Foram quatro e podiam ser mais, tal a fragilidade da defesa sadina, que convidava a aumentar o marcador. Nuno e Cardozo não se fizeram rogados. Mas além de revelar claras melhorias exibicionais e tirar a barriga de misérias, esta goleada teve também o sabor da vingança: é que não me esqueci daquele osso na garganta que ficou de Dezembro, quando no último minuto do jogo um jogador do Setúbal atirou a bola com tanta sorte que proporcionou a Quim o frango do ano, originando um injustíssimo empate e um ponto literalmente caído do céu. As contas estão saldadas.
Há um ano

mais coisa menos coisa, o reencontro entre GNRs.





Com Pronúncia do Norte na Capital do Império



"Os corpos no lago eram de gente no desemprego"


Infelizmente não estive lá.

sexta-feira, abril 17, 2009

Conhecer a Tailândia em mais de duas linhas
Enquanto assistia nos noticiários nacionais à crise tailandesa provocada pelos apoiantes do ex-primeiro ministro Thaksin, pensava de imediato nos inúmeros testemunhos de Miguel Castelo Branco naquele país há já uns tempos, em especial nos acontecimentos de há meses, protagonizados pelo movimento "amarelo", de sentido contrário. Mas as coisas pareciam assumir agora um tom bem mais violento e insurreccional, como a vergonha do adiamento da cimeira da ASEAN (vergonha para quem a provocou, bem entendido). O Combustões não deixou de cobrir in loco toda a situação, em momentos mais descontraídos e noutros mais aquecidos, entre outras paragens mais bizarras, até ao inevitável estertor da insurreição. Um trabalho reconhecido agora por Pedro Rolo Duarte, e que apenas faz com que conheça e queira conhecer mais coisas sobre este país entre a tradição e a modernidade que é a Tailândia. Uma leitura sempre recomendável, complementado igualmente com o Visto de Bangkok, de Nuno Caldeira da Silva.

quarta-feira, abril 15, 2009

A estranha escolha de Paulo Rangel
Paulo Rangel é um jurista com uma carreira sólida, conhece bem o direito internacional (matéria que leccionou) e comunitário, é um bom tribuno e conhecerá como poucos as grandes questões europeias, sobretudo no que à justiça dizem respeito. É além do mais alguém que pensa pela sua própria cabeça, tanto quanto o seu cargo lhe permite. A sua fulgurante ascensão na política não terá deixado indiferente Rui Rio, que vê o seu antigo conselheiro ultrapassá-lo em notoriedade política, e que por isso mesmo tentou pôr Marques Mendes como cabeça de lista do PSD às próximas eleições europeias. Rangel tem ainda a invejável condição de não ser um ex-jota laranja ou um boy acomodado. E o confronto com Vital Moreira, constitucionalista de outra geração, será certamente excitante. Mas não deixa de ser estranho que meses após o convidar para dirigir a tribuna social-democrata na Parlamento, Manuela Ferreira Leite o alcandore agora a primeiro dos eurodeputados. Com tantas opções no seu partido (entre os quais Marques Mendes, precisamente), apostar um mesmo trunfo para duas funções diferentes - e incompatíveis - no espaço de um ano parece táctica desconexa da líder laranja. Talvez uma tentativa de se afirmar, lançando um nome conotado consigo, mas que corre o risco de abrir ainda mais brechas no PSD. Espera-se agora os seguintes nomes da lista, para que se possa falar do que importa.

domingo, abril 12, 2009

Páscoa

Já ouvi as primeiras Aleluias, na missa pascal nocturna a que tenho ido nos últimos anos, na pequena igreja a meia encosta do Alvão. De manhã cedo, lá terei de me levantar para receber o compasso, ainda antes das nove. Mas sem compasso nem a Páscoa é a mesma. O pequeno grupo que se faz ouvir com uma sineta, trazendo o Menino a beijar, presidido pelo padre ou pelo seminarista de serviço, calcorreando caminhos por vezes sob a chuva, é sempre o primeiro e mais singelo testemunho do anúncio da Ressureição.

Uma Santa Páscoa a todos.
Semana ocupada
Fazer mudanças é sempre complicado, mas fazê-las de um lugar que está associado à nossa memória de sempre e à nossa infância mais remota, lembrando-nos amargas recordações recentes, é ainda pior. Emalar, desembrulhar, transportar, carregar, separar e rearrumar, todo um ritual de gestos e cuidados que moem física e psicologicamente. Cada pequeno objecto traz-nos uma recordação; outros há que nunca vimos e que nos revelam toda uma vida, como se fosse a exploração envergonhada de um diário íntimo que ficou fechado anos a fio numa gaveta. Mas o seu destino, antes mais modesto, vai-se enriquecendo a pouco e pouco. Os livros, esses, têm seu próprio espaço há muito delineado. Coisas que jamais imaginara, autores esquecidos como Francisco Costa ou Manuel Ribeiro, edições raras de Pascoaes, livros ideológicos do integralismo ao marxismo, coisas germanófilas dos anos quarenta, livros do e sobre o Eça, manuais de direito e de agricultura, a enorme História da Administração Pública, policiais, biografias (Maquiavel, Lenine, Albuquerque), etc, etc, etc. Um bom exercício de bibliotecário, de arrumação e catalogação, espera-me nos tempos mais próximos. Hélas, aos soluços.

sexta-feira, abril 03, 2009

Afinal sempre é verdade




Há um novo conselheiro familiar no meio. Tem poderes irresistíveis e promete rivalizar com Karambas e Bambos. Resultados comprovados em qualquer sala de audiências do país.


Mas atenção: é pessoa dada a grandes paixões futebolísticas.

terça-feira, março 31, 2009

Ainda no Público desse dia

A pergunta mais estúpida que vi em vários anos:

"Querer ter um filho é ainda um resquício da família tradicional"?

(Anabela Mota Ribeiro, numa entrevista a um casal gay anónimo, revista Pública, 29/03/09)

O ciclo da esquerda



Entre as ligações que o Samuel faz saltou-me à vista o texto de João Marques de Almeida, com o título "O Mundo não vai virar à esquerda", como resposta a um artigo do Público de Domingo da outra semana, que perguntava precisamente se o mundo virara à esquerda.


Em princípio, assim parece. Na Casa Branca, Obama promete uma nova relação do Estado com as pessoas e uma maior regulação das instituições financeiras – os recentes casos dos violentos sermões aos gestores da AIG são disso um bom exemplo. Na América do Sul, o Brasil, a Argentina, o Chile e o Uruguai têm governos de esquerda moderada, enquanto que a Bolívia, o Equador, a Nicarágua e agora o Paraguai são regidos por uma esquerda mais radical, com a Venezuela à frente. Também no El Salvador a esquerda acaba de derrubar a ARENA, que há vinte anos estava no poder. No México, o populista PRI (cuja classificação ideológica é ambígua, enquadrando-se mais no "extremo centro") ameaça tomar de novo as rédeas. Isto sem falar em Cuba. Já na Europa, até os governos de direita de países como a França, a Alemanha, a Itália e a Grécia tiveram de intervir mais na economia.


As excepções contam-se pelos dedos, mas também as há. No Chile, por exemplo, a direita está à frente das intenções de voto, com o esvaziamento do estigma Pinochet. E mais casos haverá, certamente. Mas ainda não se percebeu bem se é um reflexo da crise financeira e económica que se abateu sobre o Mundo e a rejeição do liberalismo outrora triunfante ou se se trata de um novo ciclo para vários anos, mais estrutural que conjuntural.

É bem provável que a segunda hipótese esteja mais próxima da verdade. O momento lembra, e o artigo do Público também, o início dos anos oitenta, pela sua inversão, quando Tatcher e Reagan ascenderam ao poder por muitos anos, ao mesmo tempo que outras figuras tão diferentes de direita, como Khol ou mesmo a nossa "modesta" AD, ao passo que na América Latina predominavam os ditadores militares anti-comunistas, com o beneplácito dos EUA. E, tal como agora, a França ia em sentido contrário, dando uma forte maioria a uma coligação de socialistas e comunistas e elegendo Miterrand para a presidência.

As diferenças estruturais viam-se no modelo económico - mais estatista em fins dos anos setenta, mas liberal agora - e sociológico, aqui mais nos Estados Unidos. Mas Revolução Conservadora iniciada por Reagan, com a conquista do Midwest e das classes médias, parece ser um modelo esgotado. Os fracassos da Administração Bush e do seu Compassionate Conservatism, mais a crise, assustaram os americanos e empurraram-nos para os braços dos liberals.


Não significa isto que os Estados Unidos virem "socialistas". Tal não aconteceu na presidência de Clinton e nem sequer nos tempos do New Deal. Há coisas que fazem parte do código genético americano e que jamais desaparecerão. Uma certa independência dos poderes federais e um característico Do it Yourself são parte constitutiva desses genes. Mas as loucuras de Wall Street e o optimismo do mercado levaram a uma mudança de atitude. E é preciso não esquecer que o Congresso já tinha maioria Democrata desde 2006. Mais do que uma mudança abrupta, há algo de simbólico na ascensão de Obama à Presidência, que é a marca do fim desses trinta anos de conservadorismo.

A verdade é que não havia um domínio direitista absoluto do mundo, nem sequer ocidental. Mais depressa se verificava uma derrota da esquerda mais radical, com a queda do Pacto de Varsóvia e da URSS e a metamorfose da China em potência capitalista, e a conversão da esquerda moderada sob a forma da Terceira Via, protagonizada pelo New Labour de Blair e o abandono de uma política de nacionalizações e de apoio nos sindicatos. O que se nota agora é mais uma derrota de várias direitas (e mais um abandono do modelo liberal, para que volte dentro de anos, como sempre) e o consequente predomínio da esquerda em sua substituição. Um ciclo definitivo? Só para os entusiasmados do momento, que quando as suas facções ganham adquirem ou reforçam uma visão determinista das coisas. Continuará a haver ciclos consoante as circunstâncias e os acontecimentos favoreçam esta ou aqueloutra ideologia. Mas não tenhamos dúvida de que nos próximos tempos será sobretudo a esquerda a mostrar-se triunfante.

quinta-feira, março 26, 2009

Traição contínua
As linhas do Corgo (Régua a Vila Real) e do Tâmega (Livração a Amarante) estão encerradas "por tempo indeterminado" desde ontem à noite, numa ordem dada em cima da hora pela administração da Refer que, em segredo, acordou com a CP um serviço de substituição rodoviário. O motivo oficial é a reabilitação daquelas linhas, mas a empresa não tem qualquer calendarização para iniciar os trabalhos, não dispõe dos projectos para tal e não abriu qualquer concurso público.Ontem à noite, o maquinista da automotora que costuma ficar na estação de Vila Real recebeu ordens para a trazer de volta à Régua antes da meia-noite, numa operação que faz recordar a forma como há 16 anos encerrou a linha do Tua (entre Mirandela e Bragança) com as composições a regressarem vazias durante a noite para evitar a contestação das populações.O PÚBLICO apurou que a Refer e a CP preparavam esta operação há já alguns meses, mas decidiram não a divulgar, preferindo fazê-lo em cima da hora. Ontem, às 21h, os sites das duas empresas não traziam ainda qualquer informação sobre esta suspensão. A ordem apanhou de surpresa os ferroviários da estação da Régua e da Livração que, subitamente, ficaram a saber que hoje já não haveria comboios para Vila Real e Amarante. Para a CP, que também omitiu estas alterações aos seus clientes, esta situação é vantajosa visto que o serviço é deficitário e poupa agora no combustível e no desgaste das composições, com a vantagem de ser a Refer a pagar os autocarros de substituição.


Mais uma prova da absoluto desrespeito da CP e da REFER pelos seus utentes, uma atitude que se está progressivamente a tornar rotineira. Depois de encerramentos contínuos de inúmeros troços de linha férrea, desde o fabuloso Sabor até vários percursos alentejanos, e quando se prepara, embora ainda não o admita, para eliminar a linha do Tua, um património único na Europa, a notícia da "suspensão" das linhas do Tâmega e do Corgo caiu que nem uma bomba entre os habituais utilizadores. Pela calada da noite, como quaisquer vulgares bandoleiros, aqueles que tinham obrigação de velar pelos caminhos de ferro acabaram com eles num ápice. A história da "suspensão indeterminada" é truque velho, demasiado datado para que alguém acredite, fora os desonestos.


Enquanto isso, discute-se o traçado do TGV, se entra em Lisboa pelo Norte ou pelo Sul, se passa ou não no aeroporto, se vai a Vigo ou a Ayamonte. O TGV é um dos Bezerros de Ouro do regime, tal como o EURO 2004 era "o desígnio nacional". Promete o futuro radioso à mão de semear por meros 40 Euros, depois de milhares de hectares expropriados, incontáveis discussões e projectos, milhões de Euros gastos nisto tudo e nas inevitáveis derrapagens.


E o ambiente, as energias renováveis, o cumprimento dos protocolos de redução das emissões de CO2, tudo alardeado com ar beatífico e de aluno cumpridor, quando o interior e o miolo das grandes cidades se esvazia inexoravelmente para os subúrbios dos blocos de betão de má qualidade decorados a marquises ensebadas no meio de campos semi-agrícolas. Para isso, constroem-se barragens concessionadas previamente à EDP, que podiam ser evitadas caso se aumentasse a potência de outras, destruindo-se património humano e natural, com a falsa promessa de que vão atrair turismo e emprego (isto é, construção civil), quando na realidade apenas "secam" tudo à sua volta, quais eucaliptais.


As linhas férreas foram uma forma de vencer as barreiras entre o litoral e o interior, penetrar nas serranias e nos planaltos, quebrar o isolamento de populações desde tempos imemoriais confinados ao seu horizonte montanhoso. Um projecto ambicioso, levado a cabo desde o Fontismo até aos últimos anos da Monarquia, em que os Reis iam pessoalmente à inauguração destes novos troços que mudaram o país para melhor, fosse no Carregado ou nas Pedras Salgadas. Agora, a república em que vivemos resolve unilateralmente e por interposta empresa pública acabar com meios de transporte, que além de ligarem populações carentes de outros meios de comunicação, eram já um património histórico testemunhando a vontade intrépida de ultrapassar obstáculos, como o haviam sido os Descobrimentos e o Douro vinhateiro. A isto tudo a CP obedece sem pestanejar, traindo o compromisso com os seus utentes, continuando a prestar-lhes maus serviços pelos mesmos preços sem sequer ouvir-lhes as queixas (o Intercidades não tem serviço de bar há seis meses). É bem o exemplo do que não deve ser uma empresa pública. Infelizmente, é a regra, e não a excepção.


Ainda me posso dar por feliz por ter conhecido a linha do Corgo, mesmo que amputada da sua metade até Chaves. Tinha planos para conhecer as do Tâmega e do Tua, mas infelizmente essas esperanças goram-se agora. Já não poderei conhecer essas velhas composições, as paisagens únicas que atravessam, nem os rostos das pessoas traídas pelos seus governantes, para quem não passam de pormenores do seu feudo de "progresso" e inimputabilidade.
PS: ver igualmente a Origem das Espécies
(Publicado em simultâneo no Estado Sentido)

terça-feira, março 24, 2009

Cinco anos de Lusa Voz



Parabéns atrasados ao Corcunda e aos cinco anos de O Pasquim da Reacção. O mais combativo "reaça" da blogoesfera continua o seu caminho, com persistência e admirável solidez doutrinária, por vezes desarmante. Um defensor de causas politicamente incorrectas nem sempre muito seguidas, mas que já granjeou inúmeros admiradores.

segunda-feira, março 23, 2009

Com o MMS
Pontual, exaustivo, esclarecedor, completo, é o que se pode dizer da reportagem do Estado Sentido no primeiro congresso do MMS. Aplausos para o Samuel de Paiva Pires, Nuno Castelo Branco e João de Brecht!
Sobre o movimento em si, a ideia com que fico é que é muito voluntarista (e prima pela organização), mas as ideias não deixam de causar alguma estranheza. Pelo que se ouviu, há algum populismo e muita contradição (é algo inusitado um movimento defender ideias liberais e depois verberar o "grande capital"). Esperemos para ver o MMS em acção, e para que no caminho, nos esclareça melhor.
Taça da Liga
Ganhando a Taça da Liga, o Benfica tornou-se o primeiro clube português a ganhar os quatro troféus nacionais oficialmente existentes. De forma enviesada, como se viu, com um penalty inexistente. Quim, com três defesas magistrais, encarregou-se da saga das grandes penalidades.
É pena ganhar assim um troféu, mas se lembramos que nas Antas aquele penalty fabricado nos prejudicou, é justo que reconheçamos o erro a nosso favor. Mas é bonito ouvir o juiz da partida pedir desculpa aos prejudicados. O que eu gostava de me lembrar era das desculpas do mesmo árbitro de outras partidas em que objectivamente prejudicou o Benfica (Ricardo Rocha ainda se deve lembrar com furor da camisola que atirou ao chão ). Mas aposto que nessa ocasião Lucílio não se deve ter coibido de se desculpar.

sexta-feira, março 20, 2009

Estado Sentido

A partir de agora vou começar a colaborar no Estado Sentido. Não, A Ágora não se vai esvaziar, ainda que ultimamente esteja sub-nutrida. Serão umas incursões com textos mistos destinadas a enriquecer (ou empobrecer?) a blogoesfera. Esperemos que o Samuel & Ciª não se arrependem e não faça lá má figura.

quinta-feira, março 19, 2009

Placebo em Paris

Reparo num post antigo que falei de um video fazendo apenas a sua ligação. Acho que na altura não sabia transpôr o Youtube directamente para o blogue. Assim, cá fica Where is my Mind, dos Pixies, cantado pelos Placebo em Paris, com a presença do intéprete original, Franck Black.

segunda-feira, março 16, 2009

Notas de Paris
Depois do pantagruélico Ponto Come (agora acompanhado pelo Ponto Come em Paris), o Embaixador Francisco Seixas da Costa, um dos mais destacados diplomatas portugueses e ilustre vilarealense, resolveu dedicar Duas ou Três Coisas à blogoesfera. Entra já para a coluna de ligações.

terça-feira, março 10, 2009

O fim de uma tradição

Desde 1986 que os sportinguistas comemoram anualmente um famoso 7-1 com que então venceram o Benfica, com um jocker de Manuel Fernandes. Um resultado que recordam constantemente com orgulho mal disfarçado, apesar de terem ficado em quarto lugar no campeonato, vencido precisamente pelo Benfica, que para mais também os bateu na final da Taça de Portugal.


Desconfio bem que a partir de hoje essa atitude vai desaparecer, ou no mínimo, esmorecer. É que nem todas as tradições são eternas.

domingo, março 08, 2009

Gastronomia de Trás-os-Montes
No jornal, na parte referente a eventos, surge-me o nome da Semana Gastronómica de Trás-os-Montes, na Alfândega do Porto. O convite é tentador, e raramente me faço rogado a tudo o que venha dessa região mágica. Mas não hoje. Depois de um almoço caseiro que incluiu alheiras de Montalegre, temperadas com azeite de Vila Flor, acompanhadas de batatas de Vila Real, e, caso apetecesse, um vinho do Douro ao lado, creio que fiquei bem servido de gastronomia transmontana para precisar de sair e ir ao encontro dela no meio de stands barulhentos.
Os lutadores não morrem descalços

A morte de Nino Vieira recordou-me a de Jonas Savimbi, há sete anos. Embora o líder da
UNITA nunca tenha chegado à chefia de estado, nem sequer ao exílio no estrangeiro, como quando Nino se refugiou em Gaia a convite do amigo Valentim Loureiro, passou igualmente pelo combate contra Portugal, pela auto-determinação, e depois pela guerra civil contra o poder do MPLA e seus aliados, nomeadamente Cuba.

Outras semelhanças seriam o espírito vingativo e a desconfiança permanente. Não sei o que teria sido Savimbi se tivesse chegado ao poder, mas calculo que se teria tornado num autocrata que afastaria os mais próximos à mínima suspeita. Como estadista e político, tanto Nino Vieira como Malheiro Savimbi falharam. O seu lugar era na luta constante, no comando de homens no mato, no carisma da guerrilha. Nunca poderiam acabar os seus dias num sofá ou numa cadeira de rodas, entre as recordações do passado e as fotografias entre os "camaradas de armas". Homens assim, guerreiros incansáveis por vezes perdidos na sua paranóia e sem o génio ou a manha dos estadistas, morrem sempre passados pelas armas, normalmente disparando os últimos tiros contra os inimigos.

sexta-feira, março 06, 2009

Triste desfecho para um estranho caso
Afonso Tiago, engenheiro português a trabalhar com bolsa em Berlim, estava desaparecido na capital alemã desde uma gélida noite de inícios de Janeiro, depois de se encontrar com os amigos na noite berlinense. Um caso misteriosíssimo, sem rasto nem pistas, quase "sobrenatural", a expressão que segundo Cavaco Silva, de visita a Berlim, a polícia alemã terá usado para o classificar. Apesar de tudo, não faltaram meios nem esforços para o encontrar.
Hoje, com o princípio do degelo do Spree, encontrou-se o corpo de jovem investigador no fundo do rio. Aparentemente, não se tratou de crime, ou pelo menos de roubo. Mas sabe Deus a causa deste lamentável desfecho, que infelizmente, sem que ninguém o confessasse abertamente, era o mais esperado. Mas até à descoberta fatal, há sempre esperança de que se trate de um devaneio ou uma neura fazendo com que uma pessoa se torne incomunicável. Desgraçadamente, não era o caso. Que descanse em paz.
Um Estado que mata os líderes é um estado falhado
Quando na Segunda, logo de manhã, ouvi na rádio as notícias do assassinato de Nino Vieira, veio-me logo à cabeça exactamente o que outros escreveram antes: a Guiné-Bissau é o autêntico estado falhado. Cabrais, Manés, Ninos, foram todos mortos pelos conterrâneos, num rasto de destruição e impunidade. Assim, não há país que resista.

quarta-feira, março 04, 2009


O Graça Moura do PS

Alguém disse certo dia, com propriedade, que Vital Moreira era o Vasco Graça Moura do PS. O ex-presidente da Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses era (e é) um vulto intelectual respeitado, formalmente independente, mas mais laranja que qualquer PSD com cartão de militante e invocação de Sá Carneiro pronta a lançar. Para ele, o governo de Cavaco Silva era o paraíso terrestre, o PSD o melhor partido possível e os seus adversários uns sicários do pior, merecedores de todo o desprezo. A certa altura, o PSD convidou-o o tomar parte num dos primeiros lugares numa lista ao Parlamento Europeu, onde se mantém.

Da mesmo forma, para Vital Moreira, constitucionalista e professor em Coimbra, o governo não é merecedor da menor crítica, e ai de quem ousar contrariar o rumo do Primeiro-Ministro, a quem defende arduamente nas páginas do Público. Embora não seja filiado no PS (depois de uns bons anos no PCP), representa bem o socratismo do momento: "moderno" q.b. nos costumes, acrescentando anda umas pitadas de anticlericalismo militante, e "flexível" dentro do necessário na economia. Tanta disposição e habilidade na defesa indefensável de todas as medidas do Governo merecia uma recompensa. Encabeçar a lista para as europeias de Junho é maneira do PS lhe agradecer tantos e tão prestimosos serviços. Embora o "cosmopolistimos" apregoado pelo partido não lhe assente muito bem. Lá irá Estrasburgo receber este lídimo exemplar da retórica da academia coimbrã.











sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Ainda sobre Óscares (esta semana é só isto)


Deixo aqui as minhas apostas de dez actores e actrizes que vão ganhar um Óscar de representação nos próximos dez anos:

- Jonnhy Depp
- Liam Nesson (será Lincoln num filme de Spielberg)
- Matt Damon
- Edward Norton
- Robert Downey Jr
- Josh Brolin
- Leonardo Di Caprio
- George Clooney
- Kevin Bacon
- Jude Law

(Ainda pensei em pôr Christian Bale, mas já tem contrato para interpretar vários super-heróis nos próximos anos, e esses filmes dificilmente arrecadam prémios)

- Cate Blanchett
- Anette Benning
- Julianne Moore
- Angelina Jolie
- Kristin Scott-Thomas
- Judi Dench
- Winona Ryder (o regresso)
- Samantha Morton
- Laura Linney
- Meryl Streep (vai acabar por ganhar por saturação)

Não quer dizer que todos eles e elas arrebanhem os prémios na sua totalidade; mas aposto que pelo menos três de cada lista vão ganhar Óscares, principais ou secundários.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Previsível, com nuances

Do resultado dos Óscares acertei em todos menos o de Melhor Actor. Parece uma grande proeza mas não é. Mais imprevisíveis só mesmo esse e o de Melhor Actriz Secundária (Olé, Penélope!). Devia ter previsto que depois de não arriscar em Brockeback Mountain, Hollywood tinha de puxar os galões do "espírito liberal" e premiar o papel de Sean Penn em Milk, logo numa altura em que os californianos votaram contra o casamento homossexual. O filme teve as melhores críticas de quem o viu (eu não vi, confesso), Gus Van Sant é um realizador de créditos firmados e do protagonista espera-se sempre interpretação superlativa. Escreveu-se que Penn tinha aqui "o papel da sua vida", mas desses já ele teve uns quantos, e qualquer papel mediano que represente é "o papel da vida" de um actor mediano. Mas ficará sempre a ideia de que se tratou de um voto activista, político, social, premiando mais a causa do que as qualidades artísticas da obra.


E houve ainda mais uma falha: tinha-me esquecido de pôr a minha aposta para Melhor Filme Estrangeiro, que ia para Valsa com Bashir. Tinha forte concorrência de A Turma, mas acabou por ser suplantado por uma surpresa japonesa. É bom haver sempre alguns prémios inesperados.

Boa ideia também a de anunciarem os prémios de representação com cinco anteriores vencedores. É uma consagração mais profunda e sempre serve para atrir ao Kodac Theatre mais gente de vulto.


Do resto que vi, porque não estava com grande espírito para festas, achei algo sensaborão. Com uma excepção: a do miúdo de Slumdog Millionaire, todo ele risonho e traquinas, numa cerimónia em que por certo nem nos seus maiores sonhos ousara pensar figurar. Afinal, o cinema ainda pode operar maravilhas, como levar os esfarrapados de Bombaim à passadeira vermelha da Meca do Cinema.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Freida Pinto


 
 
 
Um dos grandes trunfos de Slumdog Millionaire é a sua protagonista, Freida Pinto. Que é igualmente a prova e um traço do bom trabalho que os portugueses realizaram na Índia, nos últimos séculos.

domingo, fevereiro 15, 2009

Dois filmes nomeados

No fim de uma semana complicada, volto aos posts, que andavam esquecidos
Já tinha visto os dois filmes com mais nomeações para os Óscares, Slumdog Millionaire e O Estranho Caso de Benjamin Button.
O primeiro é uma curiosa visita à Índia actual, com os seus bairros miseráveis (mas não tanto quanto os de África), as tensões entre comunidades, que custam a vida da mãe do protagonista, e a luta diária pela sobrevivência, onde valem pequenos delitos e que muitas vezes acabam na criminalidade pesada. E a sorte grande, as milionésimas hipóteses da vida mudar como da noite para o dia.
Dá para confirmar que Danny Boyle gosta muito de flashbacks e imagens a grande velocidade. Não é o meu género de cinema favorito, mas não desgostei nada do filme. As inúmeras nomeações e prémios que tem abarbatado é que me parecem francamente exagerados. É o tipo de trabalhos que por mostrar a "realidade" leva logo um coro de elogios - ou de críticas e ataques, como os que vêm da Índia, e que lhe dá logo a imagem de "ou se ama ou se odeia" - e o efeito bola de neve mediático transporta-o para um patamar que em casos normais seria o das três estrelas. Um filme "realista" sobre a "luta pela vida", conjugado com o final feliz e as coreografias à Bollywood.

O filme de David Fincher nada tem a ver com aquilo com que o realizador de Sete Pecados Mortais habituou o seu público. A adaptação do pequeno conto de Scott Fitzgerald é um filme comprido, estranho, mas singelo, muito longe da carnificina e violência psicológica normais nas obras de Fincher. A história de um homem que recua no aspecto físico avançando na idade, por causa de um estranho sortilégio temporal, contada por uma mulher na sua cama de moribunda enquanto no exterior a furacão Catrina ensaia os primeiros ventos de destruição. Uma tocante história de amor, tendo no centro alguém que não tinha pontos de comparação com o seu caso, e que tinha de percorrer o seu caminho sabendo quando acabaria, e as pessoas mais próximas cientes do seu estado, reagindo como se isso nada tivesse de extraordinário. Um filme merecedor de uma ida ao cinema (para mais, Cate Blanchett é a co-protagonista, o que dobra o mérito da coisa), mas também ele um pouco aquém de uma obra.-prima merecedora de tantas nomeações. Brad Pitt está nomeado para o Óscar de Melhor Actor (tal como o seu par, Angelina Jolie), sobretudo tendo em conta a paciência que decerto terá tido para tanta caracterização, mas a interpretação em si também não desmerece.
A vaga de oscarizações destas duas obras percebe-se como um ano menos bom do cinema americano. São filmes estimáveis e respeitáveis, que merecem ser vistos - principalmente Benjamin Button - mas bastante aquém de grandes obras da Sétima Arte (ainda estou para ver Grand Torino, de Clint Eastwood).
A propósito, eis as minhas apostas para algumas categorias dos Óscares, tendo em conta outros prémios e anteriores nomeações:
-Melhor filme: Slumdog Millionaire (pelos prémios acumulados)
-Melhor Realizador: Danny Boyle(idem)
-Melhor Actor: Mickey Rourke (idem, e porque Sean Penn já tem um e a Academia gosta sempre de "renascimentos")
-Melhor Actriz: Kate Winslet (por todas as nomeações falhadas)
-Melhor Actor Secundário: Eath Ledger (por ser a título póstumo)
-Melhor Actriz Secundária (no desempate, porque eu quero que ela ganhe)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

O Bloco e o poder

O Bloco de Esquerda realizou a sua convenção, com apelos a medidas económicas "anti-capitalistas". O tempo passou e o nosso Bloco já vai em dez anos. Quem diria. Mas a verdade é que já nos vamos habituando à sua presença, e o movimento tornou-se sinónimo de "esquerdismo" e "politicamente correcto" por excelência, com a já desbotada expressão "esquerda-caviar".

Continua a ser um partido de díficil caracerização nas famílias ideológicas, quase tanto como o PSD. Amálgama de neo-trostquistas, ex-comunistas, maoístas recauchutados e desertores socialistas que se uniu para entrar no parlamento, talvez a classificação mais próxima seja a de esquerda radical.


O mais interessante - ou inquietante, dependendo das sensibilidades políticas - é que este partido é a mais bem sucedida tentativa de quebrar o domínio parlamentar de trinta e tal anos dos 4 habituais residentes do parlamento. De tal forma que já nem se deve falar em tentativa, mas em concretização. O caso mais conhecido até aqui fora o PRD inspirado e depois liderado pelo General Eanes, que logo na estreia, em 1985, entrou a matar com 18% e 45 deputados. Mas o deslumbramento e a irresponsável moção de censura ao governo de Cavaco foram disparos no pé e levaram-nos abaixo dos 5% primeiro, em legislativas antecipadas, e quatro anos depois à saída inglória do parlamento e posterior extinção. Houve também o caso do PSN, dos reformados de Manuel Sérgio, que conseguiu um mandato, mas a solidariedade derivou para a divisão e para as zangas e o partido escoou-se tão lesto como viera. Outros partidos que tiveram representação parlamentar iriam fazer parte do BE. A UDP chegou a entrar em S. Bento só de per si, com aquele inenarrável Américo Duarte, e mais umas legislaturas, com o PCP. O MDP-CDE, que nas constituintes obteve perto de 5% (quando Vasco Gonçalves dizia que iria ganhar as eleições), só também sumergido na APU voltou a entrar no hemiciclo.


Com a aliança PSR-UDP-Política XXI (herdeiro do extinto MDP)-FER, formou-se o Bloco de esquerda como o conhecemos. De resultados modestos nos primeiros anos, muito embora tivesse conseguido alguns deputados, ultrapassou os 6% em 2005 e pelas sondagens promete não ficar por aqui. A nível local é que as coisas parecem correr menos. Sem dúvida uma consequência sociológica dos seus apoiantes.


O Bloco é um partido com tendência a crescer em alturas de crise, com as suas iras, os seus protestos por tudo, o seu apoio incondicional às causas fracturantes, o seu aproveitamento mediático. E nota-se que cresce aproveitando a onda de contestação social às políticas de Sócrates, face à anémica ou atabalhoada oposição dos partidos à direita do PS ou a algumas limitações do PC em conseguir chegar a novo eleitorado. O Bloco vive da crise e da contestação, da crítica demolidora e de apelos constantes do contra. Cresce mais nas eleições nacionais porque aproveita o descontentamento, mas fica-se por resultados modestos nas locais por falta de implantação no terreno.


Na última convenção, Loução apelou a uma nova economia "socialista e anti-capitalista", o que significa que o discurso pode estar a radicalizar-se. Mas apelou igualmente a alianças como "movimentos de cidadãos", numa clara colagem ao MIC de Alegre e Roseta. À primeira vista parece uma inocente abordagem a independentes, mas numa altura destas, com perspectivas de crescimento nas sondagens, percebe-se a verdadeira ideia: a de ganhar mais votos aqui e ali (Sá Fernandes era outro exemplo, mas já lhes fugiu), a de conseguir o poder com as coligações que precisar, aproveitando o descontentamento e as divisões no PS. No fundo, a ideia de rejuvenescimento político do BE está a esgotar-se, e fica a clara sensação de um partido como os outros, que busca poder. Outra forma de o camuflar é haver um "coordenador" e dizer que não há líderes, como se Louçã não o fosse há anos. Nisso e em muitas outras coisas, parece-se com Paulo Portas. A sede de protagonismo e poder é outra característica, demasiado visível para se mascarar. Pode ser é que quando a situação económica e social, dê o seu tombo, quanto mais não seja por saturação.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

10 de Fevereiro, comemoração do radicalismo?

10 de Fevereiro pode bem ficar como uma data funesta para o Médio Oriente. Há trinta anos, consumava-se a Revolução Iraniana. Contrariamente às revoluções clássicas, materialistas, a reacção ao regime autoritário do Xá Reza Phalavi, resguardado pela tenebrosa Savak e querendo modernizar à força o país, com gastos sumptuosos pelo meio (a comemoração dos 2500 anos do Império em Persépolis, por exemplo), foi conduzida pelo clero e deu origem a uma sociedade teocrática, uma república controlada pelos religiosos e submetida aos ditames do Islão Xiita, em que os vícios eram e são severamente reprimidos e as mulheres adquiriram um papel submisso. A situação ficou um pouco mais suave depois da morte de Khomeiny, e o que se debate hoje é a capacidade do país, liderado pelo rufia Ahmadinejad, produzir energia nuclear.


Agora, a 10 de Fevereiro de 2009, as sondagens indicam que o Likud de "Bibi" Netanyahu, amputado dos moderados que transitaram para o Kadima e mais radical do que nunca, é o partido favorito para vencer as legislativas de hoje. Segue-se o partido de Tzipi Livni, e em terceiro lugar os nacionalistas ashkenazis do Beiteinu, do ex-segurança Avigor Lieberman. O histórico Partido Trabalhista, fundador de Israel, queda-se no quarto. O pesadelo de um governo Likud-Lieberman é bem real e ameaça trazer ainda mais violência à região. Mas os israelitas sempre foram imprevisíveis nas eleições. Espera-se que esta data não continue a ser sinónimo de viragem para o radicalismo (em ambos os casos religioso) no próximo Oriente.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Proença cumpriu


Duvidava que o Benfica perdesse este jogo, e até apostava no 1-1. Se tivesse pensado mais nos antecedentes do árbitro escolhido, poderia também apostar que prejudicaria o SLB num qualquer lance capital, e assim aconteceu, sem qualquer pudor. Estando o Benfica a ganhar e a dominar o jogo, uma qualquer pulga de azul e branco vestida resolveu atirar-se para o chão e obter assim o golo que jamais marcariam, tal a pobreza do chuveirinho. Assim se firmou o resultado, de forma fraudulenta. O normal num recinto onde quando lá joga o Benfica há sempre um apito para proteger o anfitrião. Fosse o contrário e o apito faria saír um amarelo para o jogador benfiquista autor do mergulho. A história já é antiga, e passa pelos balneários impregnados de bagaço, árbitros ameaçados nos túneis, seguranças privados e expulsões forjadas. A ver vamos se estes arranjinhos oportunos continuam. Se não os houver sempre, podemos ver o país coberto de vermelho lá para Maio.
Adenda: eis como começa o texto do jogo no Público (um jornal claramente portista)

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Woody Allen em Barcelona




Entre a torrente de filmes que valerá a pena ver, não podia deixar passar o Woody Allen do ano, Vicky Cristina Barcelona, para testemunhar o encontro entre o neurótico realizador novaiorquino e a luz do Mediterrâneo.

Gostei do filme, mas não é nehuma obra-prima. Sem ficar desapontado, esperava mais: que Barcelona fosse uma nova lufada de inspiração, como havia sido Londres. A influência meridional e mediterrânica está lá (há luz por toda a parte, estamos no Verão). Mas a capital catalã fica-se pelos postais turísticos mais conhecidos (Sagrada Família, Parque Guell, Casa Millá) não se conseguindo captar a sua verdadeira essência. Consegue-se mais apanhar Oviedo nos vinte minutos em que a fita sepassa lá do que Barcelona (falo de cor porque não conheço nehuma das duas). A trama surpreende um pouco até meio, com a troca de posições entre a estouvada Cristina e a prudente Vicky na sua relação com o pintor Juan Manuel Gonzalo (Javier Bardem), mas depois deixa-se andar em piloto automático, num andamento suporífero salvo pela aparição da personagem de Penélope Cruz, uma neurótica que ameaça sempre deixar o seu caso com o artista numa eterna história de faca e alguidar. Refresca inteiramente o filme no momento mais modorrento. Como diz Lauro António, as duas raparigas americanas são personagens de Woody Allen, enquanto que as de Bardem e Cruz provêm directamente do cinema de Pedro Almodôvar. E é sobretudo ela que salva o filme, num momento em que já nada fazia lembrar que ela apareceria.


Não sendo um filme maior de Allen, vale bem o dinheiro do bilhete. Penélope tem uma interpretação fabulosa, Bardem tem piada com artista boémio que faz as mais descaradas propostas sem um franzir de sobrolho, Scarlett fica sempre bem no postal com o seu cabelo luminoso, e é bom ver um filme de Woody Allen num ambiente mais solarengo, para variar. E sobretudo, deu para conhecer a encantadora Rebecca Hall, para mim até agora desconhecida, mas a quem prestarei mais atenção doravante.


Homens da Luta contra o regime iraniano



Os Homens da Luta, no seu périplo pela América, não se coibiram de participar numa manifestação contra Ahmadinejad. Note-se aos 2:38 as breves palavras que deram a uma TV "hispânica" ou sul-americana, e a partir dos 4:23, Neto discursando perante iranianos atónitos, com um inglês entrecortado com muitos "pás" à mistura, enquanto Falâncio entoa os seus intermináveis e revolucionários "kiriki" de intervenção como música de fundo.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Enfim um bom artigo de Mário Soares, que afinal não perdeu de todo a lucidez. Já se começou a distanciar do Chavismo em voga na América Latina, embora devesse fazer a distinção entre Lula e os restantes caudilhos. Mas mete água no ponto 4, em que fala de Bento XVI: de facto, a conferência de Ratisbona não constituiu uma gaffe, mas um mal entendido aproveitado pelo oportunismo islâmico; dificilmente poder-se-iam beatificar muitos republicanos espanhóis dos anos trinta, cujo traço comum era um anti-clericalismo que faria Afonso Costa parecer um carmelita descalço; e quanto ao bispo lefebvrista Wiliamsson, apesar da sua opinião alucinada, não negou o Holocausto, mas sim os números e os meios. Convém não exagerar, e além disso, matérias de excomunhão são do decisões internas da Igreja. Soares também não gostaria de ver D. Jorge Ortiga criticar as eleições internas da Internacional Socialista, pois não?
Isto é de loucos!

Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, decidiu condenar Portugal por ter impedido a entrada do chamado "Barco do Aborto"* em porto nacional. Não deixa de ser uma novidade, esta invocação dos direitos humanos para esse tipo de actividades extra-curriculares de uma certa medicina. A ser assim, num futuro bem próximo, veremos o mesmo Tribunal criar um novo tipo de prémio destinado a recompensar a título póstumo, as experiências dos doutores Morell, Mengele e claro está, dos peritos soviéticos na ablação do córtex e do hipotálamo. A bem de um prometedor progresso da humanidade. O pior disto tudo é que fiquei muito ralado, porque ao ser condenada desta forma, a chamada república portuguesa acabou de subir um ponto na minha consideração. Será preocupante?

*Com a experiência que a História nos deu, a bandeira hasteada nesta traineira é um perfeito substituto da Jolly Rogers de outros tempos. Não está mal. É a tradição batava.


Na altura, achei (e continuo a achar) que a actuação do ministério da defesa, com o envio de fragatas armadas, pecou por demasiado ostensiva, mas as razões em si eram válidas: impedir que um barco estrangeiro cometesse ilegalidades em território português (ainda por cima abortos). Esta decisão apenas descredibiliza a entidade que o pronunciou, e retira-lhe legitimidade, já que considera que uma hipotética liberdade de expressão legitima um crime punível com prisão. Não sei se há possibilidade de recurso, mas o Estado Português não devia deixar passar isto sem protestar. Ao dar razão a extremistas, como as criaturas da Womens on Waves e da UMAR, para quem o aborto é "um direito humano", o Tribunal converte-se num caricatura cuja respeitabilidade fica seriamente posta em causa.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Toca a quebrar tabus
Uma "revista feminina" chamada Happy Woman costuma pôr coisas na capa como "não sei quantas razões para não ter filhos", ou "trezentas razões para não casar", "divórcio: sem medo", e ainda "as melhores formas de enganar o seu companheiro". O tipo de felicidade tal como a entendem os escribas e responsáveis desta publicação é um bocadinho difícil de entender. Mas chamou-me mais a atenção um anúncio recente, com o subtítulo "Não gosto de tabus". Bem, se assim é, podiam ser mais ousadas. Como tal, proponho desde já quebrar alguns tabus e introduzir artigos sobre violação feminina, pedofilia, canibalismo, genocídio à lupa, e como tema de viagem e cultura uma semana com as mulheres de uma típica família de Meca (submetendo-se a todos os costumes dos anfitriões). As leitoras da Happy Woman, no seu afã em quebrar todos os tabus opressores, vão positivamente adorar!
Amigos dos animais?

Como tantas outras pessoas, vi as famosas vacas açorianas a pastar em Lisboa, na Praça de Espanha, cercadas num redil provisório (e com a relva quase toda comida), como publicidade às ilhas. Passei lá de noite, à boleia, já que naquele sítio quase não se pode circular sem ser de carro e rimo-nos com a imagem.


Ao contrário do Nuno Castelo Branco, nada tenho contra a operação de marketing. Afinal de contas, ninguém melhor do que os tratadores sabem do que elas precisam. Além de que os bichos não tinham um ar nada maltratado, bem pelo contrário: estavam com ar bem nutrido e pachorrento, como se nunca tivessem saído dos habituais verdes prados a que estão habituadas. Mesmo não sendo dos Açores, mas do Ribatejo, zona onde a humidade é mais que muita.


Mas à parte alguns comentários pacíficos, vieram os radicais do costume, em busca de protagonismo mediático. Destacou-se aqui uma associação chamada "ANIMAL", dirigida por um certo Miguel Moutinho. Ao que parece, a campanha é absurda porque, além dos animais estarem "stressados", estão igualmente a ser «usados» em publicidade, que é é condenável em si mesmo, uma vez que se baseia numa visão utilitária dos animais, que assim são tratados como peças que podem ser usadas em manobras publicitárias e não como indivíduos inerentemente respeitáveis .

Eu não olho para os animais como "meros objectos inanimados", como preconizam as teses mecanicistas cartesianas, mas "indivíduos inerentemente respeitáveis"? Indivíduos, uma manada de vacas? Bom, por esse caminho, não tarda nada temos petições a exigir o direito a casar com as vacas, ou que os simpáticos ruminantes possam votar e ser eleitos em cargos políticos. e se são indivíduos, porque é que não podem ser utilizados em publicidade? Ou serão mais do que os actores? É caso para perguntar: afinal, onde está realmente o absurdo?


Podia ser um mero fait-divers, não fosse o mesmo indivíduo e o seu grupinho de pretensos "amigos dos animais" um reincidente no disparate de querer equiparar animais a pessoas. Já tinha ficado com uma ideia do que é esta ANIMAL. Num artigo de jornal falava-se num filme documental sobre touradas, Pega de Caras, em que a meio há um debate entre um ganadeiro e o mesmíssimo Miguel Moutinho. Diz o segundo: "O nosso objectivo é acabar com as touradas. A tourada é um acto bárbaro, não tem lugar no nosso tempo". Responde o ganadeiro: "Eu respeito as instituições protectoras dos animais. Mas eles também têm de respeitar a minha profissão e o espectáculo dos touros. Porque se há alguém que cuida e ama a festa dos touros e os touros são os próprios toureiros". Que respondeu o ANIMAL-mor? "Dizer que os toureiros são os melhores amigos dos touros é o mesmo que dizer que os pedófilpo são os melhores amigos das crianças e que os proxenetas são os melhores amigos das prostitutas".


Para terminar, a mesma personagem escreveu um texto qualquer intitulado "O Vegetarianismo como Obrigação ética". Deixa portanto o vegetarianismo de ser uma opção alimentícia e de vida para ser uma "obrigação ética". Pudera: o contrário implicaria o sacrifício de "indivíduos inerentemente respeitáveis".

Percebo e concordo com algumas medidas de salvaguarda dos animais, como as condições de transporte, de tratamento e de abate. Abomino os abandonos de pobres animais domésticos, e nem consigo perceber para que é que a pessoa os quer se depois os abandonam. Tive um cão quando era pequeno e jamais me passaria pela cabeça abandoná-lo (ainda me lembro do desgosto que tive com a morte dele). Mas estas atitudes primam pelo radicalismo, pela ignorância e pela insensatez. Ao ouvir coisas destas dá-me a sensação de estar perante um filme dos irmãos Marx. Entre todas as modas activistas, esta é uma das mais perniciosas, desenvolvida por neo-hippies com vagas influências orientais e em certas ocasiões com uma linguagem próxima do terrorismo. Pense-se no assassino do polémico Pim Fortuyn, ou em Brigitte Bardot, uma das pessoas que mais ódio devota à espécie humana (comparou a sua gravidez a um cancro no ventre) transformada em caquética fã de Le Pen, no apologista do infanticídio Peter Singer ou nos insultuosos PETAs e o seu terrorismo publicitário e fica-se com uma ideia até que ponto podem chegar os mais radicais desta causa.


Mas o que mais me irrita é que a maioria destas pessoas vem de um ambiente urbano e jamais teve vivência rural. As respostas dadas pelo dirigente da ANIMAL aos ganadeiros revelam, além de fraca educação, uma pesporrência, uma arrogância intelectual despropositada e patética. São os parolos da cidade, os criadores de animais em aquário, os ecologistas de manual, que não fazem a menor ideia do que é a vida rural, tal como a maioria dos portugueses, citadinos ou suburbanos. Não sou aficionado nem nunca assisti a uma tourada, mas tenho mil vezes mais simpatia pelos campinos, forcados e ganadeiros, que sabem o que são as agruras do campo e convivem com os animais, deles tratam e preservam as ainda existentes tradições de valentia, do que a patetice urbano-chique dos auto-intitulados "amigos dos animais".