domingo, junho 07, 2009

Primeiras impressões da noite eleitoral


- Vitória do PSD por números não muito longe das sondagens
- Derrota incrível do PS, abaixo de qualquer previsão
- Subida grande do BE, dentro do que se esperava
- CDU com um bom resultado, por pouco não conseguia o 3º
- CDS-PP aguenta-se bem, e como sempre teve mais votos do que o anunciado
- Pequenos partidos aquém do que prometeram (o MEP conseguiu apenas 1,5% dos votos)
- Brancos e nulos inesperadamente elevados
- Abstenção igual a si própria nas europeias: enorme. E nem sequer estava bom tempo
Sócrates é o principal derrotado da noite; o seu rosto grave e sem sorrisos assim o denotava; Vital é o rosto da derrota, levando o PS ao seu pior resultado desde os anos oitenta. A campanha da vitimização e as acusações da "roubalheira" voltaram-se contra ele. Parece-me que o seu fugaz regresso a terreno eleitoral mais não foi do que o esboço de um zombie político, cuja carreira nessa área há muito tinha acabado.
A CDU tem um resultado melhor do que o previsto e por pouco não ia ao 3º lugar. Sem figuras de proa, é possível que a enorme manifestação em Lisboa lhes tenha dado outra dinâmica. O Bloco pode cantar vitória, pelo 3º lugar e 3º deputado, em cima da meta. Mais mérito de Portas e compagnons de route do que de Louçã, que já apareceu com as "superioridades morais" do costume.
O CDS-PP como sempre ficou além do que as sondagens previam e conseguiu mesmo a melhor percentagem de há sete anos para cá. Meteu dois deputados, contra todos os vaticínios, e tem legitimidade para estar satisfeito.
Vencedor da noite: Paulo Rangel. Manuela Ferreira Leite tem o seu mérito, como é evidente, mas Rangel, que apareceu há relativamente pouco tempo na política nacional, mostrou uma imagem de rigor e combatividade que era o tónico de que o partido provavelmente precisaria. A vitória é escassa, apesar da diferença de 5 pontos para o PS, mas imprimirá certamente uma maior dinâmica eleitoral ao PSD, que parte agora reforçado para novos combates.
Ainda ontem, num jantar com amigos que também travaram conhecimento com Rangel carteiras e nas orais da faculdade, havia quem dissesse que ele iria "ser um dia Primeiro-Ministro". não sei se isso vai acontecer ou não, mas o certo é que Paulo Rangel marcou hoje definitivamente o seu espaço e tornou-se uma figura de monta na política nacional.

sexta-feira, junho 05, 2009

O declínio dos comícios



No livro de memórias de Freitas do Amaral, (A Transição para a Democracia, Bertrand Editora), publicado há uns meses, está uma fotografia nas páginas centrais que mostra um comício do CDS no Porto, em 1976. Pasma-se perante a amplitude da manifestação, com gente a perder de vista, provavelmente enchendo toda a Avenida dos Aliados. Noutras imagens vêem-se outros comícios dos centristas, em Ponte de Lima, Trás-os-Montes e Póvoa do Varzim (ocupando toda a praça de touros). Durante o PREC havia manifestações gigantes, como os comícios de Soares na Fonte Luminosa e nas Antas, Otelo cobrindo praças em Setúbal e partidos mais pequenos, como a UDP e o PDC, levando milhares ao pavilhão dos desportos de Lisboa. Claro que vinham de mais do que uma localidade, mas ainda assim são imagens que espantam. O CDS a cobrir os Aliados? Hoje, para fazer um comício no Porto, consegue umas mil pessoas no máximo e com "brindes" à mistura.

Um dos indícios do crescente desinteresse pela política, a partidária, pelo menos, é a imagem dos comícios cada vez mais vazios e trombudos, com uns monos arrebanhados pelas secções locais, normalmente com cantoria e comida à mistura. O contraste entre os comícios de hoje - especialmente se forem das europeias - e os de há 30 anos é gritante. E talvez nem seja preciso ir tão longe no tempo. Nos anos oitenta, a "onda laranja" de Cavaco cobria as Alamedas e Aliados e demais terreiros deste país. Na altura da decisão entre Guterres e Nogueira, não faltava animação (e gaffes), arruadas concorridas, líderes partidários a dançar nos mercados e comícios a atrair multidão a rodo.

Os comícios de rua pouco a pouco foram sendo trocados pelos "jantares-comício", em que a malta lá saía de casa a troco de um repasto para ir ouvir os candidatos da sua preferência. Também os artistas musicais encontraram um novo nicho de mercado, tocando nas acções de campanha de qualquer partido (ainda me lembro de um comício do PSD, no Porto, em 1995, em que findos os discursos de Cavaco e Nogueira redobrou a assistência quando os GNR subiram ao palco). A paixão e a vibração da política foram trocadas por umas festarolas como alguma oratória política pelo meio.

Estas europeias têm sido confrangedoras nesse aspecto. O PS não consegue encher um pequeno pavilhão em Coimbra, terreno de Vital, mesmo com a "estrela convidada" Zapatero. O PSD fica-se por sessões de esclarecimento e conferências, o CDS por jantares e o Bloco por acções de rua. Os extra-parlamentares já vão com muita sorte se alguma televisão filmar o candidato e os dois ou três membros da "comitiva". Só a CDU, graças à sempre fiel militância do PCP, ainda consegue organizar comícios que se vejam, em teatros ou nas praças, por vezes com surpreendente dimensão (vejam-se os oitenta mil da sua manifestação em Lisboa).

Nesse aspecto estou de acordo com Sócrates. Os comícios são sempre o sumo das campanhas, a ocasião para o entusiasmo se espalhar, o ponto de encontro por excelência entre os candidatos e seus apoiantes. Levar escassas centenas para uma acção num restaurante apenas prova a falência das ideias e a falta de atracção pela política, tornada coisa corriqueira e mesquinha, e a classe respectiva patética e pouco ou nada convincente. A praia, se o dia estiver bom, é tão mais atraente que as filas (?) nas urnas. É que há sinais que mostram o alheamento das pessoas por aquilo que deveria ser do interesse geral. Um comício é um sinal válido e um barómetro fiel. Cabe aos que os organizam meditar porque é que nem com "atracções musicais" as grandes enchentes de outrora, com bandeiras e slogans, quais claques de futebol à solta se conseguem ver nas clareiras destes grupinhos de militantes que tristemente acorreram a esta campanha das Europeias.
David Carradine 1936 - 2009



Há uns anos, David Carradine, conhecido pelos seus filmes de artes marciais, voltou à ribalta com Kill Bill, de Quentin Tarantino, em que era o objecto da vingança de Black Mamba (provavelmente o papel mais emblemático de Uma Thurman), por si abandonada no altar e quase morta.

Ontem, o acto que dava nome ao filme acabou por ser concretizado pelo próprio "Bill".

quinta-feira, junho 04, 2009

O Espaço de Vital


No cartaz da JS de que falei há dias houve um pormenor de que na altura não me dei conta, e que passou ao lado de todos, a começar pelos seus autores: o slogan "A Europa é Vital". Sabendo que o cabeça de lista do PS é federalista, esta frase é muito infeliz. É que recorda outro modelo europeu de federação muito em voga nos anos 30 e 40, o do Espaço Vital, o Lebensraum alemão, que motivou a expansão do 3º Reich e a 2ª Grande Guerra. O trocadilho acaba por ser inevitável. Por sorte, o slogan e o nome Vital não são de nenhum candidato de outro partido, senão ainda tínhamos o "Professor Doutor de Coimbra", que muito tem falado de "roubalheiras", a tecer acusações de nazismo e fascismo. No fundo, nada que ele não tenha já feito de forma mais velada.

quarta-feira, junho 03, 2009

Relembrar Lucas Pires


(Imagem tirada do Ephemera, via Portugal dos Pequeninos)

A minha atitude é sempre de infinita atenção. Tanto não adormecer sobre uma história que galopa, não adormecer em cima do cavalo - estar atento. a atenção é a única regra. (1983)


A poucos dias das "europeias", resolvi folhear e ler em parte A Revolução Europeia, uma antologia de textos de Francisco Lucas Pires publicada pelo gabinete português do Parlamento Europeu. Antes de se pensar em"discutir a Europa" de forma abstracta e blasée, confundindo-se agruras nacionais com problemas comunitários que nem sempre são os mesmos, ou magicando em "cartões amarelos" ao "sistema", faríamos melhor em ler o legado dos que pensaram na Europa na sua estrutura comunitária, mas também na sua essência e nas suas especificidades e contradições, como Lucas Pires. Também na blogoesfera nos chegaram os seus escritos. É claro que com o passar dos anos alguns ficaram datados, mas há sempre matéria para nos fazer pensar. E fica-se sempre a pensar em que lugar ou no que estaria ocupado o antigo dinamizador do "Grupo de Ofir" e líder do CDS se ainda fosse vivo.

A despedida dos guerreiros


No post anterior falava de um jogador quase esquecido. Neste fim de semana, despediram-se dos relvados três futebolistas que certamente não o serão - até porque fazem parte da era da televisão, da internet e do marketing da modalidade, em que a imagem por vezes conta tanto como as jogadas. Falo evidentemente de Paolo Maldini, o mais internacional de sempre pela Squadra Azurra, o capitão do Milan que se sagrou por cinco vezes campeão europeu, o melhor defesa esquerdo de sempre, que na sua carreira só conheceu duas camisolas, a azurra da Selecção e a rossoneri de Milão; Pavel Nedved, o virtuoso maestro checo, visível ao longe pela sua melena loura, que comandou o seu país ao longo de vários torneios e que merecia mais troféus; e, obviamente, Luis Figo, o ídolo de toda uma geração, o mais internacional jogador português de sempre, o génio que despontou com os campeões de Riade e Lisboa e nunca mais parou de somar sucessos, atingindo o auge em 2001 - em que ganhou o prémio da FIFA de melhor jogador do Mundo (depois do Ballon d ´Or de melhor da Europa no ano anterior) e a Liga dos Campeões. Figo, o melhor de sempre desde Eusébio, de quem guardo um autógrafo do tempo em que ainda estava no Sporting, numa tarde em que o encontrei num hotel do Porto, e com quem viria a cruzar-me anos mais tarde em Frankfurt.

É todo um capítulo da história da modalidade que se vira, com a partida destes mitos dos relvados. E uma certa época que acabou: o futebol dos anos noventa.


domingo, maio 31, 2009

Jaguaré, o primeiro "loco latino" das balizas



Passada a final da Liga dos Campeões, em que os falhanços de Cristiano Ronaldo (ou, pela linguagem SMS, CR7), que dariam grandes golos, determinaram a vitória do Basel da Catalunha, passemos às memórias futebolísticas, aquelas do tempo em que mesmo pela rádio era difícil acompanhar um jogo, e em que as transferências entre a América do Sul e a Europa se faziam de transatlântico. Recordo Jaguaré, estrela brasileira dos anos trinta.

Jaguaré Bezerra de Vasconcelos nasceu no Rio de Janeiro em 1940, em data incerta. De origem modesta, começou a trabalhar como estivador, o que decerto o dotou de braços poderosos, e jogava a guarda-redes como passatempo, como de resto era comum na época. Até que chegou a o Vasco da Gama e à Selecção Brasileira, tendo-se tornado um ídolo das massas. Provavelmente foi o elemento primordial da enorme linhagem dos loucos guarda-redes sul-americanos, que teve como recentes representantes Higuita e Chilavert. Defendia com apenas um braço, driblava atacantes adversários e tinha como imagem de marca fazer girar a bola com o dedo indicador, qual malabarista.
Numa digressão à Europa, em princípios dos anos trinta, O Vasco de Jaguaré jogou em Espanha e em Portugal, contra uma equipa formada por jogadores do Benfica e do Casa Pia...e ganhou. A tournée produziu efeitos e o Barcelona contratou logo o guarda-redes, mas como teria de ser suplente do mítico Zamora, regressou logo ao Brasil, para representar o Corinthians, até que o Marselha o contratou em 1937. Tornou-se um ídolo na Provença, conquistou o título de campeão de França, e, momento histórico, marcou um penalti, no que se crê ter sido o primeiro golo de sempre marcado por um guarda-redes.

Com a aproximação da Guerra, Jaguaré deixou França e regressou ao Brasil. O que poucos sabem é que teve uma breve passagem pelo Académico do Porto, clube que na altura tinha uma equipa na 1ª divisão e que posteriormente abandonou o futebol profissional (teve êxito noutras modalidades, como prova a carreira da sua atleta Rosa Mota). Não sei se por oportunidade na escala entre Marselha e o Brasil, se por necessidade de emprego, o certo é que teve uma breve passagem por Portugal.
Depois do percurso europeu, voltou definitivamente ao Brasil. Com a carreira acabada e o dinheiro gasto, voltou à estiva, começou a beber e afundou-se na cachaça. O antigo artista dos relvados estava no fim. Em 1946, num desacato com a polícia acabou por ser espancado e morreu dos ferimentos, tendo sido enterrado como um vulgar vagabundo.
Triste fim para um autêntico aventureiro da bola e da sua época. "Le Jaguar", como era conhecido em Marselha, ofereceu saltos e emoções aos espectadores dos estádios, quando o futebol era ainda amador e os seus praticantes jogavam por amor à camisola ou simples gozo. Cruzou os oceanos rumo a uma Europa em ebulição, espartilhada por paixões e ódios. Passou por Espanha nos dias pré-Guerra Civil e espantou os estádios de uma França marcada pelo governo da Frente Popular, pela ameaça alemã e pelos confrontos intelectuais e de rua entre comunistas e socialistas contra os legitimistas Camelots du Roi, a Croix de Feu e o nacional sindicalista Faisceau. Pelas diabruras armadas em campo e por ser, segundo os anais do desporto, o primeiro guardas-redes goleador, tornou-se também por direito próprio o primeiro dos "locos latinos", os guarda-redes sul-americanos para quem, acima de tudo, o que conta é o espectáculo.


(Mais informação aqui e aqui)

sexta-feira, maio 29, 2009

Ruben A.



Se fosse vivo, Ruben A. (nome literário de Ruben Andresen Leitão), rapaz do Campo Alegre que faz referência na sua autobiografia à antiga Travessa do Sobreirinho, faria hoje 89 anos. A dita travessa é actualmente uma rua com o nome do escritor (nela situa-se a Casa das Artes, futura Cinemateca) e fica a dois passos de onde moro. Posso, com ligeiro abuso, considerar o homem que inventou a sigla "PPD" para o partido laranja como meu vizinho extemporâneo.

quarta-feira, maio 27, 2009

Educação sexual e o direito ao i-Pod


A discussão sobre o ensino de educação sexual tinha de dar numa tentativa de "fracturar" o tema. Vindos da costumeira JS, que em ano tri-eleitoral precisa ainda mais de ganhar votos ao Bloco. A educação sexual é matéria cuja implementação no ensino há muito que se discute. As divergências mais esperadas rondam a obrigatoriedade ou não da disciplina e as matérias a ser leccionadas, dependendo da ideia que os pais têm do assunto. Depois de anos de discussão, e apesar de severas desconfianças da Associação de Planeamento Familiar, não vejo assim com maus olhos a entrada de tal inovação no plano curricular, desde que seja dada nas competentes disciplinas, ou seja, em ciências naturais. apesar de tudo, confio no bom senso de Daniel Sampaio.


Em quem não tenho confiança absolutamente nenhuma é nos meninos da JS e nos seus apologistas jornalísticos. A representante da esquerda radical na redacção do Público, São José Almeida, atirou com um abjecto artigo na edição do último sábado, em que acusava os deputados do PS que se opõem à distribuição gratuita de preservativos nas escolas de medo ao "lobby católico". No meio da sua defesa incansável da JS e das propostas do seu "genial" dirigente, Duarte Cordeiro, e com uma linguagem em que só faltariam os termos "medieval" e "obscurantismo", a senhora não se deu certamente conta de que a oposição à ideia da se andar alegremente a dar preservativos às meninas e aos meninos ia da direita até ao centro-esquerda, e que só a partilhavam a ala mais à esquerda do PS, o Bloco e o PCP, minoritários. E que isso pode apenas ser motivado por um mero sentido de responsabilidade. Se os adolescentes quiserem adquirir preservativos, há farmácias e máquinas para o efeito. E sim, pode haver influências e princípios religiosos que levem a que as pessoas pensem de uma certa maneira, por muito que isto custe entender a São José Almeida (que estranho, usar nome tão canónico), que provavelmente também escreverá motivada pelas suas ideias radicais. A religião e o sentido do transcendente sempre influenciaram os homens e inculcaram-lhes princípios, e é com base neles que fazem as suas escolhas. O problema é que a mera referência a isso desperta logo os laicistas de serviço, que vêm logo "um ataque ao estado laico". Não só querem as referências religiosas fora do espaço público como pretendem ainda afastá-las da consciência dos que crêem.


Cada um acredita no que quer, mas não me parece nada gravoso que os responsáveis nacionais sejam influenciados pela doutrina cristã e pelos ensinamentos da Igreja, que afinal foram os que nortearam o país na sua história e que fazem parte do seu ADN. Bem pior e bem menos isento é que as normas que regem a sociedade fiquem sob os ditames de uma juventude política que tudo faz para que olhem para ela e para impedir a fuga de votos, e que como todas as "jotas", é composta sobretudo por carreiristas e oportunistas.



Ah, e o último cartaz da JS tem imensa piada: diz que "a Europa é Vital" (perceberam a graça, não perceberam? Europa...Vital com maiúscula...), e entre os slogans aparece um curioso "pelo direito ao TGV". Afinal, o comboio rápido não é uma necessidade, nem ao menos um "desígnio": é um direito, que por certo o Prof. Vital quererá que seja aposto nos Direitos Económicos, Sociais e Culturais da CRP. Se assim é, na plena posse da minha cidadania, invoco o meu direito ao i-Pod, que não tenho nenhum. Prezados jotinhas socialistas, dá para fazer um outdoor com a inscrição "pelo direito ao i-Pod"?

terça-feira, maio 26, 2009

E os Gandhi sobreviveram aos Tigres


A derrota final dos Tigres Tâmil na semana que passou é a prova de que os mais musculados grupos insurgentes podem ser aniquilados quando pelo seu radicalismo agressivo mergulham no maelstrom do terrorismo. Durante quase três décadas, os Tigres puseram o Sri Lanka a ferro e fogo, fizeram recuar os maioritários cingaleses e humilharam os indianos. Comandados pelo carismático e fanático Velupillai Prabhakaran, os guerrilheiros com a designação oficial de Tigres de Libertação do Tamil Eelam chegaram a ocupar um terço da antiga Taprobana, com o auxílio da sua marinha de lanchas rápidas e da sua força aérea. Apesar da sua organização como uma autêntica força armada convencional, distinguiram-se mais pelos atentados perpetrados por bombistas suicidas, armados com cintos-bomba, os famigerados "Black Tigers", incluindo mulheres, que tanto inspiraram os posteriores terroristas islâmicos. Outra cruel imagem de marca era a cápsula de cianeto, que ingeririam caso fossem cercados ou presos.



O radicalismo de Prabhakaran ia contra qualquer ideia de autonomia, preferindo sempre o confronto à conciliação, e não hesitou em atacar as forças indianas de manutenção da paz na ilha, matando inúmeros soldados. Vale a pena recordar que a Índia prestava até aí algum apoio aos Tâmil. Mas a violência dos Tigres obrigou as autoridades do sub-continente a virar-se para Colombo, e mais ainda quando num atentado suicida assassinaram o primeiro-ministro Rajiv Gandhi. Poucos anos depois, também o presidente cingalês Pramasada sofreu igual destino, com o mesmo modus operandi. Os Tigres continuaram com os seus ataques constantes (incluindo ataques aéreos) e os seus atentados, até ao início do ano, em que uma fortíssima ofensiva cingalesa os acantonou num último reduto, até conseguirem eliminar Prabhakaran, e consequentemente obter a rendição incondicional. O fanático líder acabou por sofrer a sorte habitual dos que colocam a luta armada à frente das negociações e dos acordos e não parecem capazes de viver sem ela, um pouco à imagem do que aconteceu a Savimbi. No fim, nem a cápsula de cianeto conseguiu usar.


O conflito durou largos anos, e só ultimamente voltou a ser notícia nos noticiários do mundo. Apesar de toda a tragédia humana envolvente e dos milhares de civis encurralados entre duas forças, de onde saíram bastantes vítimas, não houve para com estes a mesma atenção e a mesma solidariedade que costuma haver com Gaza, o que prova bem que a importância de um conflito varia conforme as partes envolvidas e o seu grau de mediatismo.


Espera-se que com o fim anunciado dos Tigres, Colombo proceda agora à pacificação da ilha e dê aos Tâmil o necessário grau de autonomia, liberta que está da pressão da guerrilha. O mais irónico, ou mais inesperada lição de moral, é que no mesmo fim-de-semana em que Prabhakaran pereceu, o Partido do Congresso, chefiado por Sonia e Rahul Gandhi, viúva e filho mais velho da mais conhecida vítima dos Tamil, Rajiv Gandhi, e pelo primeiro-ministro Singh, ganharam as eleições na União Indiana e consolidaram o poder do Partido do Congresso.

segunda-feira, maio 25, 2009

Nem os sofismas os salvam

Sporting da Covilhã = Serra da Estrela = Montes Hermínios = Hermínio Loureiro = Oliveira de Azeméis


Estive no Bessa, depois de anos de ausência, com mais uns seis mil espectadores (moldura notável para a Divisão de Honra). Assisti a um descalabro triste e desconsolado, que levou o Boavista à 2ª B, escalão do qual saíra há 40 anos, quando aquele campo era ainda um pelado. À laia de Octávio Machado, o silogismo primário de cima deveria explicar a dramática queda em detrimento da Oliveirense, por coincidência o clube da cidade do Presidente da Liga Hermínio Loureiro, que muito provavelmente será o seu próximo presidente da câmara. Mas nem isso serve de pretexto. Os nervos traíram os axadrezados, que foram goleados pelos serranos quando bastava o empate para a manutenção (a Oliveirense também empatou). Acabou por ser o corolário de um ano muito complicado, com um passivo gritante e salários em atraso.


Pelo mesmo caminho seguiu o Belenenses, rumo à Honra (que ironia!). Significa isto que os dois únicos clubes que foram campeões nacionais à parte os 3 grandes desceram no mesmo fim de semana, deixando o futebol português cada vez mais afastado dos seus clássicos. Quem sabe se por não terem recebido apoios das respectivas câmaras, que se endividaram por outros. De semelhante indiferença não se pode queixar o promovido União de Leiria, que não pagou um tusto pelo seu estádio de trinta mil lugares, ao qual comparecem quinhentos sofredores de 15 em 15 dias, e que é um sorvedouro para a edilidade.



Triste fim de semana desportivo. Valham-nos o histórico algarvio Olhanense, de volta aos grandes após 35 anos de deserto, e o Chaves, que regressa enfim ao futebol profissional.

quinta-feira, maio 21, 2009

O último filme da sua vida





Morreu esta noite João Pedro Bénard da Costa, o homem que esteve durante quase trinta anos à frente da Cinemateca Nacional. O cinema está de luto. E a crónica jornalística. E a difusão do pensamento cristão e dos seus pensadores de relevo. E a cultura em geral, com o desaparecimento de um homem que dava valor à memória, e que nos dava conta, através das páginas dos jornais onde escreveu durante quase meio século, da sua vivência cinéfila, cristã e literária.

Adenda: ao ler o texto de hoje de Pedro Mexia sobre o seu antigo director, no Público, relembro aqui outro artigo, este no DN, igualmente acerca Benard, que o mesmo Mexia escreveu há anos, quando ainda nem o devia conhecer. E ainda a cidade favorita de JBC, Mântua.



quarta-feira, maio 20, 2009

Blogotúlia com Paulo Rangel


Ainda devia estar no comboio quando começou a tertúlia no Café Nicola, e por isso só cheguei a meio, perdendo a apresentação e as discussões da 1ª metade. Eis um relato, entre o simplificado e o denso, do que ouvi.

O que se seguiu ao intervalo trouxe confirmações do que já se sabia, tais como a opção pelo federalismo (o mainstream não é ser federalista, é ser eurocéptico), as diferenças para o PS no investimento público ("target, timely, temporarily"), recusa do referendo ("quem for a favor tem aqui a oportunidade de o mostrar pelo voto").

Mas falou da também a sua visão económica - que se traduz numa visão mais liberal do que a média portuguesa mas dentro dos parâmetros do Estado Social Europeu, que considerou, apesar das diferentes concretizações e do seu grau de aplicação, ser o mesmo. Do ponto de honra na recondução de Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia, e da confusão no PSE quanto a esse assunto. De uma certa "identidade europeia", assinalando provas disso mesmo, como a supressão de fronteiras, a moeda única e até os programas ERASMUS. Da sua própria visão dos "costumes", reafirmando-se como "católico progressista", ficou a intransigência quanto ao aborto e eutanásia, a sua posição gradualista de uma hipótese de "terceira via"no caso do "casamento gay" e a oposição à nova lei do divórcio, que considerou que transforma o casamento numa "união de facto reforçada", misturando duas figuras que deveriam ser distintas.


Para o fim, ficaram questões que devido à inexorável passagem do tempo, ficaram para trás. Depois de uma "questão" de Miguel Morgado, à partida sobre uma assembleia constituinte europeia que acabou por ser uma sabatina sobre sistemas constitucionais comparados (não tenho bem a certeza porque cedo perdi o fio à meada), com concordância algo condicionada do candidato, falou-se finalmente das relações externas. Falou brevemente da possibilidade que Portugal tem em trazer dinâmicas à UE pelo seu relacionamento privilegiado com África e Magrebe (com a concorrência da França), América Latina (com proeminência da Espanha) e mesmo com a Ásia. Nas relações com o Leste, Rangel avisou que não se podia abandonar a Sérvia, depois do golpe do Kosovo Lembrou casos relativamente simples de possíveis alargamentos, como a noruega, Islândia e Suíça. E falou dos casos verdadeiramente bicudos; a Turquia, para começar, a cuja entrada deixa sérias dúvidas, embora não se oponha frontalmente, mas que deveria, caso isso não acontecesse, ser objecto de uma sólida parceria estratégica por parte da UE; a Ucrânia, que traz consigo não apenas uma parte russófona e russófila mas também a Crimeia e a base de Sebastopol; o Cáucaso, em especial a Arménia e a Geórgia, com problemas semelhantes aos dos ucranianos, mas também parte da identidade europeia; a Bielorrússia, em que Lukashenko parece ter iniciado uma tímida aproximação à UE. E por fim a Rússia; Paulo Rangel lembrou João Paulo II, a sua visão de uma Europa ao Urais e o seu combate não somente ao comunismo mas igualmente ao capitalismo selvagem; e que a cultura russa, começando na literatura e na música, era parte integrante da cultura europeia. Ou seja, nunca a UE poderia olhar para o gigante russo como uma entidade totalmente estranha, mas a entrada na organização/federação já lhe parecia exagerada senão impossível.

(Já que se falou de tantas possíveis entradas, é pena que ninguém tenha lançado as hipóteses Israel e Cabo Verde, com tanto direito como a Turquia).

Final em beleza: na senda da recordação de Karol Woytila, a ideia de que em Portugal é muito difícil falar-se publicamente utilizando linguagem religiosa e teológica, quando se usa para todas as outras vertentes, porque logo aparecem demagogos bramindo pela "violação do estado laico". Uma ideia afinal tão fiel às liberdades públicas e políticas que Paulo Rangel pretende defender, em S. Bento ou em Estrasburgo.

terça-feira, maio 19, 2009

Ir onde estão os mais fracos
Pode-se falar do "esboroamento do cristianismo", ou que "cada vez mais as pessoas se fastam da Igreja", mas não há dúvidas que na última semana o catolicismo marcou pontos. A nível externo, com a visita do Papa à Terra Santa, onde visitou todos os locais de relevo por onde o Nazareno espalhou a sua Palavra, e em que sem declarações incendiárias e com a devida prudência, não deixou de condenar por igual o Holocausto e o muro da Cisjordânia, apelando emocionada mente ao fim das hostilidades. Claro que houve críticas, dos descontentes e fundamentalistas de sempre, numa terra devastada por fanatismos de toda a ordem.
Por cá, Nossa Senhora de Fátima saiu da capelinha e juntou-se às comemorações dos cinquenta anos do Cristo-Rei. Ouvir um responsável camarário de Almada dizer que nunca na cidade da outra banda tinha havido tal ajuntamento de pessoas (embora haja quem diga que há cinquenta anos houve mais) tem o seu significado. E muito embora não seja um grande devoto de Fátima, pelo clima quase pagão que por vezes lhes está subjacente, gostei de ver a singela figura da Senhora circular por entre hospitais e zonas socialmente degradadas, como o Intendente, e onde parece que Deus está ausente. Porque era precisamente para estas almas falhas de esperança e no fundo da vida que Maria deu à luz o Seu Filho.

quinta-feira, maio 14, 2009

Os danos da imprensa desportiva

Com um melancólico fim de campeonato e um empate bisonho frente ao Trofense, que tive a desventura de assistir ao vivo, Luís Filipe Vieira veio anunciar que iria haver "mudanças" no futebol do Benfica. Tanto bastou para que nos dias seguintes toda a imprensa desportiva viesse logo anunciar a saída de Quique Flores e as eminentes contratações de Jorge Jesus, Scolari, e o que mais se imagina.


Já se sabe que a imprensa desportiva, sem mais nada que contar, se agarra inevitavelmente ao Benfica, e em tempo de crise de resultados a sofreguidão aumenta exponencialmente. É vê-los a prever técnicos, anunciar jogadores "a caminho" e discorrer sobre as divergências dos dirigentes. O modelo é sempre igual. Mas agora ainda é pior: sem que haja qualquer indicação nesse sentido, já nem põem a hipótese remota de Quique ficar mesmo no próximo ano; os jogos que restam são vistos como um pró-forma. Ora mesmo que não esteja em jogo nada de substancial, seria penoso ver o Benfica vacilar de novo nesses desafios. Ficar em terceiro já é mau, mas em quarto e quinto é ainda pior, correndo-se o risco de se quedar atrás do Nacional da Choupana! Com que moral irá Flores orientar a equipa nos próximos jogos com toda a imprensa a deitar-se a adivinhar o seu sucessor? É de temer o pior. Em casos normais, o Braga nem seria um bicho de sete-cabeças, até porque já não demonstra o fulgor de há uns tempos (apesar da goleada ao Belenenses, que parece-me que se deveu mais à ansiedade e à prestação desastrosa da Cruz de Cristo), e muito menos o último adversário em casa, precisamente o Belém, mas até do jogo com estes tenho receio. Sem espírito para trabalhar e se se confirmar o guia de marcha, Quique Flores nada terá a esperar e já estará com a cabeça noutro lugar.

Mesmo que tenha tido um mau desempenho, o melhor ainda seria que ficasse, para que houvesse alguma constância e estabilidade. Mas assim parece impossível. Os nossos jornalistas desportivos, sem mais assunto em que pegar, pura e simplesmente regurgitam manchetes. E isso influencia e tem consequências concretas, provocam a desconfiança e a suspeita e podem acarretar decisões indesejadas. E nesta altura podiam falar de tanta coisa: do futebol internacional, da final da Taça do Rei que juntou os dois clássicos vencedores da prova, Athletic de Bilbao e Barcelona (que venceram, infelizmente), como da taça de Itália entre a Lázio e a Sampdoria, dos finais de andebol, etc. Mas não, optaram pelo rumor em detrimento da notícia factual. Só confirma que os jornais desportivos têm "informação" a mais e assuntos a menos, e que ocupam um lugar demasiado destacado na imprensa nacional para a importância que têm. Que saudades dos tempos em que A Bola, o último jornal do Bairro Alto, se publicava apenas duas vezes por semana. Essa é que era a dimensão acertada.





Há quinze anos dava-se este embate sublime, uma das vitórias mais gloriosas (e saborosas) de sempre. Como vão longe, esses tempos! Depois disso, o dilúvio.

quarta-feira, maio 13, 2009

O Fascismo de braços cruzados


Parece que agora estar de braços cruzados em outdoors de campanha eleitoral passou a ser uma forma de fascismo. Doravante, quem estiver em momento de pausa e de braços cruzados será imediatamente denunciado pela virtuosa União de Resistentes Anti-Fascistas. Acho muito bem: afinal de contas, é uma posição ligada ao ócio, e, por consequência, à burguesia exploradora e inimiga do trabalho. Espera-se que no seu próximo artigo Boaventura Sousa Santos desenvolva os tópicos sobre o novo Fascismo-Braçocruzadismo. Revolução sempre! Braços cruzados nunca mais!

terça-feira, maio 12, 2009

Um debate com todos


Infelizmente só pude ver a segunda metade do debate das Europeias, com os 13 candidatos, no belíssimo espaço do Museu da Electricidade, em Lisboa. Afinal havia espaço e tempo para todos, e sem os aplausos e chinfrineira do público a coisa correu razoavelmente bem. Pelo pouco que vi, não consegui ficar com uma ideia de todas as candidaturas. Havia candidatos que não conhecia, como o do Partido Humanista e o do MMS. Alguns são bloggers. A disposição esquerda/direita provocou-me algumas dúvidas (com o MEP, por exemplo).


Do que ouvi, e menos do que queria, Paulo Rangel esteve demasiado virado para a crítica interna no seu apelo final; Nuno Melo e Miguel Portas iam com a lição bem estudada. Ilda limitou-se a desfiar a bobine, embora tenha feito valer a sua experiência em Estrasburgo. Gostei de ver Laurinda Alves recordar os "pais da Europa" e o espírito cristão que levou à constituição da CECA, já que a memória é tantas vezes abastardada. Do Partido Humanista viram-se inócuas boas intenções. Do MMS também pouco retive. O Frederico, pelo PPM, desafiou abertamente a RTP e parece-me que saiu penalizado por isso (pena a troca "Nobre Guedes", por Nobre da Costa, no fim, e o esquecimento de Calvo Sotelo, em Espanha, mas o tempo era escasso). Carmelinda Pereira deve-se achar em 1976 (nacionalizar a banca para ser gerida por comissões de trabalhadores? Deus meu!). Orlando Alves mostrou-se combativo, como determina o lema do partido, mas com moderação. Alguma moderação também da parte de Humberto Nuno Oliveira, mas com as ideias já bem conhecidas. Quartim Graça pareceu-me ponderado mas mais discreto do que o desejável. Quanto a Vital Moreira, se dúvidas havia, dissiparam-se hoje: como cabeça de lista é um erro crasso. Mantém toda a presunção de "lente de Coimbra", tentou negar o indesmentível (a promessa de referendo ao Tratado Europeu) de maneira inconcebível, não estava totalmente dentro das matérias e nem sequer conserva a sua antiga qualidade, de resposta fácil e aguçada, que lhe permitia outrora esgrimir com os seus floretes verbais de forma muito eficaz. Cada vez que aparece, o PS perde votos, e nem as "Marinhas Grandes" ocasionais lhe valem.


Tirada inesperada da noite, de Miguel Portas: "que a direita ouça por uma vez os bispos quando falam da emigração, porque falam bem". Espera-se nos próximos dias o consequente protesto da Associação Ateísta pela "vergonhosa referência a uma confissão religiosa num debate laico".
Voo directo para a Grécia

Descobri que há voos directos ente Hamburgo e Atenas. Deve ser uma viagem interessante, esta, do Mar do Norte à Ática. E parece-me que haverá com certeza quem as aprecie devidamente.

quinta-feira, maio 07, 2009

Nasceu o I



Lançar um novo jornal diário na crise actual que afecta em particular o sector da imprensa revela audácia. O I, o anunciado periódico dirigido por Martim Avillez de Figueiredo, deu-se hoje finalmente a revelar. O ABC do PPM (ainda não percebi a função que ocupa na publicação, mas ao menos julgo que compreendi agora o sentido do nome do blogue) tem-no publicitado insistentemente, e ele aí está. No meio da tempestade jornalística que se faz sentir, será interessante verificar nos próximos tempos como se aguenta o I.

Tinha de ser a equipa da moda

Não sei como se diz "gatuno" em catalão, mas se não existia tal palavra, têm de a inventar. A tão desejada final entre Cristiano Ronaldo e Messi vai mesmo realizar-se, e para isso os catalães contaram com um misto de ajuda da arbitragem e de sorte inaudita. A tal equipa que "pratica o melhor futebol do mundo" e à qual nenhuma outra parecia conseguir travar só obteve o passaporte para Roma de forma medíocre e enviesada. A filial espanhola do Basileia vai ficar na história, sim, não pelos golos que marca mas como uma das que mais injustamente chegou a uma final europeia. Agora é esperar que o Melhor Jogador do Mundo trate da saúde a essa gente do canto do país vizinho. Quanto ao Chelsea, depois do golo do Liverpool que nunca se saberá se entrou das meias finais de 2005, da derrota em grandes penalidades da final do ano passado, e agora disto, deu mais um passo em frente para vencer o galardão de equipa mais desafortunada da última década.

terça-feira, maio 05, 2009

Tolices em cadeia

Alguns membros daquela alegre confraria que se dedica a publicar livros relatando os seus hábitos de pilhagem desenfreada e que dá pelo nome de Super Dragões (ou "gaiatos", para outros) assaltaram a loja da irmã de Cristiano Ronaldo. Percebe-se que tenha sido logo essa, como vingança pelo torpedo que CR7 enviou há dias para o fundo das redes de Helton. Estranho é vir do mesmo colectivo que volta e meia acusa os adversários de serem "invejosos". Se a moda pega, vamos ver tudo quanto é lojas de familiares de avançados serem assaltadas por adeptos dos clubes a quem esse jogador marcou golos.
Por falar em Madeira, Alberto João Jardim veio dizer que a equipa do Marítimo, tirando a defesa, devia ser "saneada" e "rifada", e que o plantel "é fraquíssimo". Já se sabe que o presidente do Governo da Madeira intromete-se em tudo o que diz respeito ao arquipélago, incluindo futebol, que aliás já lhe valeu uma monumental vaia em pleno estádio dos Barreiros. Semelhantes opiniões de um político sobre o seu clube só as vi de Berlusconi, que interrompeu uma programa televisivo para criticar as opções do treinador do seu Milan.
E a propósito de Berlusconi, a mulher de "sua Emittenza" pediu o divórcio, farta das tropelias do marido. e como reagiu o primeiro-ministro italiano? Afirmando que tudo não passa de "manobras da oposição de esquerda", que teriam influenciado a cônjuge. É neste patético estadista, neste projecto de Mussolini de Carnaval, como diria o capitão Haddock, que os italianos cada vez mais confiam os seus destinos. Na sua síntese, é um quadro arrasador do que é a Itália hoje em dia.

segunda-feira, maio 04, 2009

Vasco Granja


Morreu esta noite Vasco Granja, aos 83 anos de idade. Para quem passou a infância nos anos oitenta, é uma figura incontornável. Deu a conhecer a toda uma geração desenhos animados do mundo inteiro e dinamizou o gosto pela "BD" (expressão por si cunhada) em Portugal. A caricatura e a recordação que dele fazem são desenhos animados dos países então do outro lado da Cortina de Ferro. Curiosamente não me lembro tão bem desses como dos mais conhecidos Hanna-Barbera e Warner Bross, que também passavam pelo seu programa; ficou-me sobretudo na memória o Gribouille, um simpático monstro francês de esponja que desenhava. Uma parte da memória da minha infância devo-a a Vasco Granja, que só me recordo de ver pessoalmente numa entrevista a Morris, o criador de Lucky Luke, há muitos anos, no Salão Internacional de Banda Desenhada do Mercado Ferreira Borges. Que descanse em paz, ou se não for possível, na confusão eterna do seu mundo fantástico.


Adenda: o Gribouille

quarta-feira, abril 29, 2009

Diane Lane em Streets of Fire



Uma das mais festivas músicas dos anos oitenta. Andei anos a tentar saber qual era, até que a boa e velha rádio me respondeu a essa questão. Nowhere Fast é da autoria dos Fire Inc., um grupo episódico, que só existiu para criar a banda sonora de Streets of Fire, pelo que me é dado a perceber era uma road-ópera-rock-wagneriana-kitsch, envolvendo gangues de motards, glamourosas estrelas de rock e canastrões inconscientes a enfrentar os maus da fita. Só não imaginava que este êxito era interpretado por uma muito jovem Diane Lane, que aqui surgia como uma sensual e fascinante "princesa rocker". Por isso e para recordar mais um hino dos eighties, vale a pena deixar aqui o video.

terça-feira, abril 28, 2009

Os erros de Elisa


Depois de cogitações, rumores, discussões e apelos, Elisa Guimarães Ferreira tornou-se efectivamente na candidata do PS à Câmara do Porto. Reúne o currículo necessário para a empresa: tem experiência política e administrativa como deputada em Estraburgo e S. Bento e como Ministra do Ambiente e do Planeamento, cargos em que mostrou firmeza, convicção e conhecimento das matérias. Não é uma carreirista e, não sendo filiada no PS, não precisa de "ascender no partido". A sua candidatura foi lançada atempadamente. Não é uma populista, mas é conhecida e respeitada na cidade. Será sem dúvida uma candidata temível para Rui Rio. Ou seria.


A candidatura parecia à primeira vista ter todas as condições para triunfar, recolhendo alguma vantagem do desgaste e de alguns anticorpos dos oito anos da administração de Rio. Mas desde o início foram cometidos vários erros que podem afectar a sua credibilidade. Para começar, espalhar uma série de outdoors pela cidade inteira desde Fevereiro não parece ser de muito bom tom, tanto pelos gastos que comportam numa altura de crise financeira e económica, em que o PS deveria ser o primeiro a mostrar sobriedade, como pelas autárquicas ainda estarem longe. Dá ideia que se desvalorizam as europeias e se se dão as legislativas como dado adquirido.


Depois, e mais grave que isso, a candidatura conjunta ao Parlamento Europeu (num lugar elegível) e à CMP são um rude golpe na credibilidade que se exige a alguém que tem reais pretensões a ocupar a Câmara. Tal como acontece com Ana Gomes, para Sintra. Diz Elisa, como justificação, que se for eleita para a CMP não deixará de ocupar o lugar, desistindo do PE. Óptimo. Mas e se perder? Pelo que me disseram, recusar-se-ia a ficar como vereadora (ao contrário do que sucedeu com Francisco Assis) e regressaria a Estrasburgo, dado que o seu estatuto e o seu currículo não lhe permitiriam liderar a oposição. Não vi essas declarações, apenas mas contaram, pelo que carecem de confirmação. Mas caso sejam verdadeiras, são um golpe em qualquer mensagem de seriedade que se queira fazer passar. Além de considerar a Câmara como coisa menor se não for a presidência, a mensagem que fica é que falhada a eleição autárquica terá sempre um lugar à sua espera, e um dos mais cobiçados. Como se não bastasse, faz ver que o seu currículo pesa mais do que a intenção de servir a causa pública, não admitindo ficar na vereação. Considerará o lugar "desonroso", depois de ter sido ministra? Talvez fosse bom olhar o exemplo inverso de Francisco Assis, que ocupou o seu lugar na edilidade, ainda que sem pasta, mesmo tendo permanecido como eurodeputado.


A ser verdade, tudo isto é deprimente e só dá gasolina aos que acusam os políticos de serem "todos iguais" e de "só quererem poleiro". Semelhante atitude não cairia bem entre o eleitorado portuense. Para mais, o PS-Porto, essa farândula de mediocridades em constantes lutas pelas migalhas do poder, que representa o pior dos aparelhos partidários (como se vê pelo episódio Narciso Miranda), não deve ver com bons olhos uma independente a encabeçar a tentativa de conquista da CMP e dificilmente deixará as suas conspiraçõezinhas de lado. Provavelmente não aprenderam nada com o choque da derrota de Fernando Gomes, o melhor autarca que o Porto teve em décadas, em 2001, depois de uma campanha sobranceira em que, tal como parece acontecer agora, se considerou a câmara como mero sucedâneo de poder. E podiam ainda ir buscar outro exemplo, mais antigo, este ao PSD, quando em 1993 candidataram António Taveira à CMP. Já depois do anúncio da candidatura, o senhor tomou posse como Secretário de Estado, para poucos meses depois se auto-exonerar para concorrer às autárquicas, como toda a gente sabia que ia acontecer. Sofreu uma derrota esmagadora perante esse mesmo Fernando Gomes. Curiosamente, Taveira era marido de...Elisa Ferreira, a própria.
É espantoso como os maus exemplos mais próximos não parecem servir de emeda. Depois ainda se admiram de Rio ganhar.

domingo, abril 26, 2009

Santo Condestável



A história portuguesa não tem tão poucos heróis como por vezes se pensa ou se quer fazer crer. Tem os suficientes para que um pequeno país nascido no Séc. XII e que consolidou as suas fronteiras actuais cem anos depois continue a existir e tenha dado um contributo enorme para a História Universal, deixando como traços a língua, os monumentos e arquitectura e os povos miscigenados, além de um sem número de memórias e relações diplomáticas com antigos parceiros e colónias. Entre esses heróis, ocupa lugar de destaque Nun ´Álvares Pereira.


Fazendo ontem arrumação à casa, saiu-me às mãos um pequeno livro de história da minha infância, daquela colecção da ASA, de cor laranja, muito em voga nos anos oitenta. Tive pela primeira vez contacto com a figura do Condestável, e ao longo dos tempos fui conhecendo a sua obra, a sua coragem e lealdade para com o Mestre de Aviz e a causa de Portugal, o seu génio militar, a sua religiosidade e o deu desapego das coisas terrenas no fim da vida. É possível que os seus feitos tenham sido um pouco mitificados e que a falta de documentação além dos escritos do cronista Fernão Lopes não nos mostre de forma mais transparente a vida do Condestável. Mas há coisas que não se podem desmentir: Nun´Álvares foi uma figura fulcral na luta pela independência, venceu os Atoleiros, Valverde e Aljubarrota contra exércitos muito maiores em número graças à sua determinação e à aplicação das tácticas com que a Inglaterra vinha coleccionando vitórias na Guerra dos Cem Anos, participou na incursão a Ceuta, início da grande aventura dos Descobrimentos, e mandou edificar o Convento do Carmo, onde passou os últimos anos numa vida monástica e despojada. Teve ainda outras ocasiões de demonstrar a sua piedade, distribuindo cereais pelo povo faminto em anos de fome, e o seu heroísmo, como na campanha do Minho, reconquistando para a causa de Aviz as praças e castelos que apoiavam D. Beatriz.


É por isso que a canonização de Nuno de Santa Maria deve encher os portugueses e o Estado Português de orgulho. O reconhecimento da sua santidade é a melhor homenagem que podiam fazer aos valores cristãos que sempre o nortearam. Sim, houve outros heróis portugueses, e na sua época, felizmente, eles não faltaram (começando pelo Mestre de Aviz, e prosseguindo com Álvaro Pais, João das Regras, Rui Pereira, sobrinho do Condestável, e tantos outros, conhecidos e anónimos). Mas há algo de diferente, de mais místico, de mais puro, uma aura de cavaleiro medieval que combate em prol dos seus ideais - não por acaso chamaram-lhe o "Galaad português - que tornam o agora São Nuno de Santa Maria uma figura incontornável da mitologia e da História de Portugal.

quinta-feira, abril 23, 2009

Ana Moreira


















Afinal sempre há consequências nefastas quando actores de teatro e cinema se põem a fazer telenovelas. Ana Moreira, provavelmente a actriz portuguesa mais fascinante desde Leonor Silveira, mudou-se para a TVI e desde então ficou com aquele ar horrível da fotografia da direita (onde até está favorecida, vista deste ângulo), que infelizmente carregou para algumas cenas de A Corte do Norte, de João Botelho, em exibição nos cinemas, e que lhe tira grande parte do seu encanto. Não sou adepto da tortura, mas para o/a responsável do novo look de Ana Moreira, para tamanho destruidor de encantos alheios, abriria uma excepção.
(É claro que pode ser opção da própria. Nesse caso, nada há mais a fazer senão chorar em silêncio e estender os olhos marejados de lágrimas balbuciando "porquês".)

segunda-feira, abril 20, 2009

E a cristofobia?
O Secretário Geral da ONU deve andar a ler muito o Arrastão. Só assim se explica que na abertura da conferência sobre o racismo das Nações Unidas, em Genebra, Ban Ki Moon se tenha referido logo à islamofobia. Que eu saiba, o Islão não é raça nenhuma, antes envolve questões religiosas e culturais. Mas se se faz essa interpretação ampla do conceito de racismo, fica a pergunta: então e a cristofobia, que se faz sentir em tantos países muçulmanos, como o Iraque (outrora com uma importante comunidade cristã, que agora foge do país em massa), o Paquistão e a Arábia Saudita (neste caso, é qualquer culto que não o sunita) e não só, caso da Índia? Não lhe merece nenhum reparo?
Um aniversário californiano
Parabéns a José in California. Não ao blogue, que ainda é jovem, mas ao seu autor, que atravessa mais uma primavera agora no eixo S. Diego-L.A. E que descreve de forma sucinta e clara a californian way of life do ponto de vista de alguém que decidiu passar os próximos anos do outro lado do oceano apostando na melhoria da sua formação profissional (Já antes de nível elevado) e em alargar sua vivência pessoal. Não é para todos.
A esperada desforra
Não tenho escrito muito sobre o Benfica, até porque de pouco tem valido a pena, mas faço-o hoje pela vitória gorda e particularmente saborosa. Foram quatro e podiam ser mais, tal a fragilidade da defesa sadina, que convidava a aumentar o marcador. Nuno e Cardozo não se fizeram rogados. Mas além de revelar claras melhorias exibicionais e tirar a barriga de misérias, esta goleada teve também o sabor da vingança: é que não me esqueci daquele osso na garganta que ficou de Dezembro, quando no último minuto do jogo um jogador do Setúbal atirou a bola com tanta sorte que proporcionou a Quim o frango do ano, originando um injustíssimo empate e um ponto literalmente caído do céu. As contas estão saldadas.
Há um ano

mais coisa menos coisa, o reencontro entre GNRs.





Com Pronúncia do Norte na Capital do Império



"Os corpos no lago eram de gente no desemprego"


Infelizmente não estive lá.

sexta-feira, abril 17, 2009

Conhecer a Tailândia em mais de duas linhas
Enquanto assistia nos noticiários nacionais à crise tailandesa provocada pelos apoiantes do ex-primeiro ministro Thaksin, pensava de imediato nos inúmeros testemunhos de Miguel Castelo Branco naquele país há já uns tempos, em especial nos acontecimentos de há meses, protagonizados pelo movimento "amarelo", de sentido contrário. Mas as coisas pareciam assumir agora um tom bem mais violento e insurreccional, como a vergonha do adiamento da cimeira da ASEAN (vergonha para quem a provocou, bem entendido). O Combustões não deixou de cobrir in loco toda a situação, em momentos mais descontraídos e noutros mais aquecidos, entre outras paragens mais bizarras, até ao inevitável estertor da insurreição. Um trabalho reconhecido agora por Pedro Rolo Duarte, e que apenas faz com que conheça e queira conhecer mais coisas sobre este país entre a tradição e a modernidade que é a Tailândia. Uma leitura sempre recomendável, complementado igualmente com o Visto de Bangkok, de Nuno Caldeira da Silva.

quarta-feira, abril 15, 2009

A estranha escolha de Paulo Rangel
Paulo Rangel é um jurista com uma carreira sólida, conhece bem o direito internacional (matéria que leccionou) e comunitário, é um bom tribuno e conhecerá como poucos as grandes questões europeias, sobretudo no que à justiça dizem respeito. É além do mais alguém que pensa pela sua própria cabeça, tanto quanto o seu cargo lhe permite. A sua fulgurante ascensão na política não terá deixado indiferente Rui Rio, que vê o seu antigo conselheiro ultrapassá-lo em notoriedade política, e que por isso mesmo tentou pôr Marques Mendes como cabeça de lista do PSD às próximas eleições europeias. Rangel tem ainda a invejável condição de não ser um ex-jota laranja ou um boy acomodado. E o confronto com Vital Moreira, constitucionalista de outra geração, será certamente excitante. Mas não deixa de ser estranho que meses após o convidar para dirigir a tribuna social-democrata na Parlamento, Manuela Ferreira Leite o alcandore agora a primeiro dos eurodeputados. Com tantas opções no seu partido (entre os quais Marques Mendes, precisamente), apostar um mesmo trunfo para duas funções diferentes - e incompatíveis - no espaço de um ano parece táctica desconexa da líder laranja. Talvez uma tentativa de se afirmar, lançando um nome conotado consigo, mas que corre o risco de abrir ainda mais brechas no PSD. Espera-se agora os seguintes nomes da lista, para que se possa falar do que importa.

domingo, abril 12, 2009

Páscoa

Já ouvi as primeiras Aleluias, na missa pascal nocturna a que tenho ido nos últimos anos, na pequena igreja a meia encosta do Alvão. De manhã cedo, lá terei de me levantar para receber o compasso, ainda antes das nove. Mas sem compasso nem a Páscoa é a mesma. O pequeno grupo que se faz ouvir com uma sineta, trazendo o Menino a beijar, presidido pelo padre ou pelo seminarista de serviço, calcorreando caminhos por vezes sob a chuva, é sempre o primeiro e mais singelo testemunho do anúncio da Ressureição.

Uma Santa Páscoa a todos.
Semana ocupada
Fazer mudanças é sempre complicado, mas fazê-las de um lugar que está associado à nossa memória de sempre e à nossa infância mais remota, lembrando-nos amargas recordações recentes, é ainda pior. Emalar, desembrulhar, transportar, carregar, separar e rearrumar, todo um ritual de gestos e cuidados que moem física e psicologicamente. Cada pequeno objecto traz-nos uma recordação; outros há que nunca vimos e que nos revelam toda uma vida, como se fosse a exploração envergonhada de um diário íntimo que ficou fechado anos a fio numa gaveta. Mas o seu destino, antes mais modesto, vai-se enriquecendo a pouco e pouco. Os livros, esses, têm seu próprio espaço há muito delineado. Coisas que jamais imaginara, autores esquecidos como Francisco Costa ou Manuel Ribeiro, edições raras de Pascoaes, livros ideológicos do integralismo ao marxismo, coisas germanófilas dos anos quarenta, livros do e sobre o Eça, manuais de direito e de agricultura, a enorme História da Administração Pública, policiais, biografias (Maquiavel, Lenine, Albuquerque), etc, etc, etc. Um bom exercício de bibliotecário, de arrumação e catalogação, espera-me nos tempos mais próximos. Hélas, aos soluços.

sexta-feira, abril 03, 2009

Afinal sempre é verdade




Há um novo conselheiro familiar no meio. Tem poderes irresistíveis e promete rivalizar com Karambas e Bambos. Resultados comprovados em qualquer sala de audiências do país.


Mas atenção: é pessoa dada a grandes paixões futebolísticas.

terça-feira, março 31, 2009

Ainda no Público desse dia

A pergunta mais estúpida que vi em vários anos:

"Querer ter um filho é ainda um resquício da família tradicional"?

(Anabela Mota Ribeiro, numa entrevista a um casal gay anónimo, revista Pública, 29/03/09)

O ciclo da esquerda



Entre as ligações que o Samuel faz saltou-me à vista o texto de João Marques de Almeida, com o título "O Mundo não vai virar à esquerda", como resposta a um artigo do Público de Domingo da outra semana, que perguntava precisamente se o mundo virara à esquerda.


Em princípio, assim parece. Na Casa Branca, Obama promete uma nova relação do Estado com as pessoas e uma maior regulação das instituições financeiras – os recentes casos dos violentos sermões aos gestores da AIG são disso um bom exemplo. Na América do Sul, o Brasil, a Argentina, o Chile e o Uruguai têm governos de esquerda moderada, enquanto que a Bolívia, o Equador, a Nicarágua e agora o Paraguai são regidos por uma esquerda mais radical, com a Venezuela à frente. Também no El Salvador a esquerda acaba de derrubar a ARENA, que há vinte anos estava no poder. No México, o populista PRI (cuja classificação ideológica é ambígua, enquadrando-se mais no "extremo centro") ameaça tomar de novo as rédeas. Isto sem falar em Cuba. Já na Europa, até os governos de direita de países como a França, a Alemanha, a Itália e a Grécia tiveram de intervir mais na economia.


As excepções contam-se pelos dedos, mas também as há. No Chile, por exemplo, a direita está à frente das intenções de voto, com o esvaziamento do estigma Pinochet. E mais casos haverá, certamente. Mas ainda não se percebeu bem se é um reflexo da crise financeira e económica que se abateu sobre o Mundo e a rejeição do liberalismo outrora triunfante ou se se trata de um novo ciclo para vários anos, mais estrutural que conjuntural.

É bem provável que a segunda hipótese esteja mais próxima da verdade. O momento lembra, e o artigo do Público também, o início dos anos oitenta, pela sua inversão, quando Tatcher e Reagan ascenderam ao poder por muitos anos, ao mesmo tempo que outras figuras tão diferentes de direita, como Khol ou mesmo a nossa "modesta" AD, ao passo que na América Latina predominavam os ditadores militares anti-comunistas, com o beneplácito dos EUA. E, tal como agora, a França ia em sentido contrário, dando uma forte maioria a uma coligação de socialistas e comunistas e elegendo Miterrand para a presidência.

As diferenças estruturais viam-se no modelo económico - mais estatista em fins dos anos setenta, mas liberal agora - e sociológico, aqui mais nos Estados Unidos. Mas Revolução Conservadora iniciada por Reagan, com a conquista do Midwest e das classes médias, parece ser um modelo esgotado. Os fracassos da Administração Bush e do seu Compassionate Conservatism, mais a crise, assustaram os americanos e empurraram-nos para os braços dos liberals.


Não significa isto que os Estados Unidos virem "socialistas". Tal não aconteceu na presidência de Clinton e nem sequer nos tempos do New Deal. Há coisas que fazem parte do código genético americano e que jamais desaparecerão. Uma certa independência dos poderes federais e um característico Do it Yourself são parte constitutiva desses genes. Mas as loucuras de Wall Street e o optimismo do mercado levaram a uma mudança de atitude. E é preciso não esquecer que o Congresso já tinha maioria Democrata desde 2006. Mais do que uma mudança abrupta, há algo de simbólico na ascensão de Obama à Presidência, que é a marca do fim desses trinta anos de conservadorismo.

A verdade é que não havia um domínio direitista absoluto do mundo, nem sequer ocidental. Mais depressa se verificava uma derrota da esquerda mais radical, com a queda do Pacto de Varsóvia e da URSS e a metamorfose da China em potência capitalista, e a conversão da esquerda moderada sob a forma da Terceira Via, protagonizada pelo New Labour de Blair e o abandono de uma política de nacionalizações e de apoio nos sindicatos. O que se nota agora é mais uma derrota de várias direitas (e mais um abandono do modelo liberal, para que volte dentro de anos, como sempre) e o consequente predomínio da esquerda em sua substituição. Um ciclo definitivo? Só para os entusiasmados do momento, que quando as suas facções ganham adquirem ou reforçam uma visão determinista das coisas. Continuará a haver ciclos consoante as circunstâncias e os acontecimentos favoreçam esta ou aqueloutra ideologia. Mas não tenhamos dúvida de que nos próximos tempos será sobretudo a esquerda a mostrar-se triunfante.

quinta-feira, março 26, 2009

Traição contínua
As linhas do Corgo (Régua a Vila Real) e do Tâmega (Livração a Amarante) estão encerradas "por tempo indeterminado" desde ontem à noite, numa ordem dada em cima da hora pela administração da Refer que, em segredo, acordou com a CP um serviço de substituição rodoviário. O motivo oficial é a reabilitação daquelas linhas, mas a empresa não tem qualquer calendarização para iniciar os trabalhos, não dispõe dos projectos para tal e não abriu qualquer concurso público.Ontem à noite, o maquinista da automotora que costuma ficar na estação de Vila Real recebeu ordens para a trazer de volta à Régua antes da meia-noite, numa operação que faz recordar a forma como há 16 anos encerrou a linha do Tua (entre Mirandela e Bragança) com as composições a regressarem vazias durante a noite para evitar a contestação das populações.O PÚBLICO apurou que a Refer e a CP preparavam esta operação há já alguns meses, mas decidiram não a divulgar, preferindo fazê-lo em cima da hora. Ontem, às 21h, os sites das duas empresas não traziam ainda qualquer informação sobre esta suspensão. A ordem apanhou de surpresa os ferroviários da estação da Régua e da Livração que, subitamente, ficaram a saber que hoje já não haveria comboios para Vila Real e Amarante. Para a CP, que também omitiu estas alterações aos seus clientes, esta situação é vantajosa visto que o serviço é deficitário e poupa agora no combustível e no desgaste das composições, com a vantagem de ser a Refer a pagar os autocarros de substituição.


Mais uma prova da absoluto desrespeito da CP e da REFER pelos seus utentes, uma atitude que se está progressivamente a tornar rotineira. Depois de encerramentos contínuos de inúmeros troços de linha férrea, desde o fabuloso Sabor até vários percursos alentejanos, e quando se prepara, embora ainda não o admita, para eliminar a linha do Tua, um património único na Europa, a notícia da "suspensão" das linhas do Tâmega e do Corgo caiu que nem uma bomba entre os habituais utilizadores. Pela calada da noite, como quaisquer vulgares bandoleiros, aqueles que tinham obrigação de velar pelos caminhos de ferro acabaram com eles num ápice. A história da "suspensão indeterminada" é truque velho, demasiado datado para que alguém acredite, fora os desonestos.


Enquanto isso, discute-se o traçado do TGV, se entra em Lisboa pelo Norte ou pelo Sul, se passa ou não no aeroporto, se vai a Vigo ou a Ayamonte. O TGV é um dos Bezerros de Ouro do regime, tal como o EURO 2004 era "o desígnio nacional". Promete o futuro radioso à mão de semear por meros 40 Euros, depois de milhares de hectares expropriados, incontáveis discussões e projectos, milhões de Euros gastos nisto tudo e nas inevitáveis derrapagens.


E o ambiente, as energias renováveis, o cumprimento dos protocolos de redução das emissões de CO2, tudo alardeado com ar beatífico e de aluno cumpridor, quando o interior e o miolo das grandes cidades se esvazia inexoravelmente para os subúrbios dos blocos de betão de má qualidade decorados a marquises ensebadas no meio de campos semi-agrícolas. Para isso, constroem-se barragens concessionadas previamente à EDP, que podiam ser evitadas caso se aumentasse a potência de outras, destruindo-se património humano e natural, com a falsa promessa de que vão atrair turismo e emprego (isto é, construção civil), quando na realidade apenas "secam" tudo à sua volta, quais eucaliptais.


As linhas férreas foram uma forma de vencer as barreiras entre o litoral e o interior, penetrar nas serranias e nos planaltos, quebrar o isolamento de populações desde tempos imemoriais confinados ao seu horizonte montanhoso. Um projecto ambicioso, levado a cabo desde o Fontismo até aos últimos anos da Monarquia, em que os Reis iam pessoalmente à inauguração destes novos troços que mudaram o país para melhor, fosse no Carregado ou nas Pedras Salgadas. Agora, a república em que vivemos resolve unilateralmente e por interposta empresa pública acabar com meios de transporte, que além de ligarem populações carentes de outros meios de comunicação, eram já um património histórico testemunhando a vontade intrépida de ultrapassar obstáculos, como o haviam sido os Descobrimentos e o Douro vinhateiro. A isto tudo a CP obedece sem pestanejar, traindo o compromisso com os seus utentes, continuando a prestar-lhes maus serviços pelos mesmos preços sem sequer ouvir-lhes as queixas (o Intercidades não tem serviço de bar há seis meses). É bem o exemplo do que não deve ser uma empresa pública. Infelizmente, é a regra, e não a excepção.


Ainda me posso dar por feliz por ter conhecido a linha do Corgo, mesmo que amputada da sua metade até Chaves. Tinha planos para conhecer as do Tâmega e do Tua, mas infelizmente essas esperanças goram-se agora. Já não poderei conhecer essas velhas composições, as paisagens únicas que atravessam, nem os rostos das pessoas traídas pelos seus governantes, para quem não passam de pormenores do seu feudo de "progresso" e inimputabilidade.
PS: ver igualmente a Origem das Espécies
(Publicado em simultâneo no Estado Sentido)

terça-feira, março 24, 2009

Cinco anos de Lusa Voz



Parabéns atrasados ao Corcunda e aos cinco anos de O Pasquim da Reacção. O mais combativo "reaça" da blogoesfera continua o seu caminho, com persistência e admirável solidez doutrinária, por vezes desarmante. Um defensor de causas politicamente incorrectas nem sempre muito seguidas, mas que já granjeou inúmeros admiradores.

segunda-feira, março 23, 2009

Com o MMS
Pontual, exaustivo, esclarecedor, completo, é o que se pode dizer da reportagem do Estado Sentido no primeiro congresso do MMS. Aplausos para o Samuel de Paiva Pires, Nuno Castelo Branco e João de Brecht!
Sobre o movimento em si, a ideia com que fico é que é muito voluntarista (e prima pela organização), mas as ideias não deixam de causar alguma estranheza. Pelo que se ouviu, há algum populismo e muita contradição (é algo inusitado um movimento defender ideias liberais e depois verberar o "grande capital"). Esperemos para ver o MMS em acção, e para que no caminho, nos esclareça melhor.
Taça da Liga
Ganhando a Taça da Liga, o Benfica tornou-se o primeiro clube português a ganhar os quatro troféus nacionais oficialmente existentes. De forma enviesada, como se viu, com um penalty inexistente. Quim, com três defesas magistrais, encarregou-se da saga das grandes penalidades.
É pena ganhar assim um troféu, mas se lembramos que nas Antas aquele penalty fabricado nos prejudicou, é justo que reconheçamos o erro a nosso favor. Mas é bonito ouvir o juiz da partida pedir desculpa aos prejudicados. O que eu gostava de me lembrar era das desculpas do mesmo árbitro de outras partidas em que objectivamente prejudicou o Benfica (Ricardo Rocha ainda se deve lembrar com furor da camisola que atirou ao chão ). Mas aposto que nessa ocasião Lucílio não se deve ter coibido de se desculpar.

sexta-feira, março 20, 2009

Estado Sentido

A partir de agora vou começar a colaborar no Estado Sentido. Não, A Ágora não se vai esvaziar, ainda que ultimamente esteja sub-nutrida. Serão umas incursões com textos mistos destinadas a enriquecer (ou empobrecer?) a blogoesfera. Esperemos que o Samuel & Ciª não se arrependem e não faça lá má figura.

quinta-feira, março 19, 2009

Placebo em Paris

Reparo num post antigo que falei de um video fazendo apenas a sua ligação. Acho que na altura não sabia transpôr o Youtube directamente para o blogue. Assim, cá fica Where is my Mind, dos Pixies, cantado pelos Placebo em Paris, com a presença do intéprete original, Franck Black.

segunda-feira, março 16, 2009

Notas de Paris
Depois do pantagruélico Ponto Come (agora acompanhado pelo Ponto Come em Paris), o Embaixador Francisco Seixas da Costa, um dos mais destacados diplomatas portugueses e ilustre vilarealense, resolveu dedicar Duas ou Três Coisas à blogoesfera. Entra já para a coluna de ligações.

terça-feira, março 10, 2009

O fim de uma tradição

Desde 1986 que os sportinguistas comemoram anualmente um famoso 7-1 com que então venceram o Benfica, com um jocker de Manuel Fernandes. Um resultado que recordam constantemente com orgulho mal disfarçado, apesar de terem ficado em quarto lugar no campeonato, vencido precisamente pelo Benfica, que para mais também os bateu na final da Taça de Portugal.


Desconfio bem que a partir de hoje essa atitude vai desaparecer, ou no mínimo, esmorecer. É que nem todas as tradições são eternas.

domingo, março 08, 2009

Gastronomia de Trás-os-Montes
No jornal, na parte referente a eventos, surge-me o nome da Semana Gastronómica de Trás-os-Montes, na Alfândega do Porto. O convite é tentador, e raramente me faço rogado a tudo o que venha dessa região mágica. Mas não hoje. Depois de um almoço caseiro que incluiu alheiras de Montalegre, temperadas com azeite de Vila Flor, acompanhadas de batatas de Vila Real, e, caso apetecesse, um vinho do Douro ao lado, creio que fiquei bem servido de gastronomia transmontana para precisar de sair e ir ao encontro dela no meio de stands barulhentos.
Os lutadores não morrem descalços

A morte de Nino Vieira recordou-me a de Jonas Savimbi, há sete anos. Embora o líder da
UNITA nunca tenha chegado à chefia de estado, nem sequer ao exílio no estrangeiro, como quando Nino se refugiou em Gaia a convite do amigo Valentim Loureiro, passou igualmente pelo combate contra Portugal, pela auto-determinação, e depois pela guerra civil contra o poder do MPLA e seus aliados, nomeadamente Cuba.

Outras semelhanças seriam o espírito vingativo e a desconfiança permanente. Não sei o que teria sido Savimbi se tivesse chegado ao poder, mas calculo que se teria tornado num autocrata que afastaria os mais próximos à mínima suspeita. Como estadista e político, tanto Nino Vieira como Malheiro Savimbi falharam. O seu lugar era na luta constante, no comando de homens no mato, no carisma da guerrilha. Nunca poderiam acabar os seus dias num sofá ou numa cadeira de rodas, entre as recordações do passado e as fotografias entre os "camaradas de armas". Homens assim, guerreiros incansáveis por vezes perdidos na sua paranóia e sem o génio ou a manha dos estadistas, morrem sempre passados pelas armas, normalmente disparando os últimos tiros contra os inimigos.

sexta-feira, março 06, 2009

Triste desfecho para um estranho caso
Afonso Tiago, engenheiro português a trabalhar com bolsa em Berlim, estava desaparecido na capital alemã desde uma gélida noite de inícios de Janeiro, depois de se encontrar com os amigos na noite berlinense. Um caso misteriosíssimo, sem rasto nem pistas, quase "sobrenatural", a expressão que segundo Cavaco Silva, de visita a Berlim, a polícia alemã terá usado para o classificar. Apesar de tudo, não faltaram meios nem esforços para o encontrar.
Hoje, com o princípio do degelo do Spree, encontrou-se o corpo de jovem investigador no fundo do rio. Aparentemente, não se tratou de crime, ou pelo menos de roubo. Mas sabe Deus a causa deste lamentável desfecho, que infelizmente, sem que ninguém o confessasse abertamente, era o mais esperado. Mas até à descoberta fatal, há sempre esperança de que se trate de um devaneio ou uma neura fazendo com que uma pessoa se torne incomunicável. Desgraçadamente, não era o caso. Que descanse em paz.
Um Estado que mata os líderes é um estado falhado
Quando na Segunda, logo de manhã, ouvi na rádio as notícias do assassinato de Nino Vieira, veio-me logo à cabeça exactamente o que outros escreveram antes: a Guiné-Bissau é o autêntico estado falhado. Cabrais, Manés, Ninos, foram todos mortos pelos conterrâneos, num rasto de destruição e impunidade. Assim, não há país que resista.

quarta-feira, março 04, 2009


O Graça Moura do PS

Alguém disse certo dia, com propriedade, que Vital Moreira era o Vasco Graça Moura do PS. O ex-presidente da Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses era (e é) um vulto intelectual respeitado, formalmente independente, mas mais laranja que qualquer PSD com cartão de militante e invocação de Sá Carneiro pronta a lançar. Para ele, o governo de Cavaco Silva era o paraíso terrestre, o PSD o melhor partido possível e os seus adversários uns sicários do pior, merecedores de todo o desprezo. A certa altura, o PSD convidou-o o tomar parte num dos primeiros lugares numa lista ao Parlamento Europeu, onde se mantém.

Da mesmo forma, para Vital Moreira, constitucionalista e professor em Coimbra, o governo não é merecedor da menor crítica, e ai de quem ousar contrariar o rumo do Primeiro-Ministro, a quem defende arduamente nas páginas do Público. Embora não seja filiado no PS (depois de uns bons anos no PCP), representa bem o socratismo do momento: "moderno" q.b. nos costumes, acrescentando anda umas pitadas de anticlericalismo militante, e "flexível" dentro do necessário na economia. Tanta disposição e habilidade na defesa indefensável de todas as medidas do Governo merecia uma recompensa. Encabeçar a lista para as europeias de Junho é maneira do PS lhe agradecer tantos e tão prestimosos serviços. Embora o "cosmopolistimos" apregoado pelo partido não lhe assente muito bem. Lá irá Estrasburgo receber este lídimo exemplar da retórica da academia coimbrã.