sexta-feira, outubro 16, 2009

Heróis improváveis no Rio da Prata




É incrível como os mais improváveis peões surgem do desespero para salvar as figuras bigger than life, mesmo as grotescas. Na Quarta à noite jogava-se a passagem para o Mundial da África do Sul de duas míticas selecções de futebol. À carga emocional e histórica do jogo acrescia o facto de se tratar do mesmo cenário e dos mesmos actores da final do primeiro Mundial de futebol, em 1930: o estádio Centenário, em Montevideu, Uruguai contra Argentina. Nesses tempos longínquos os jogadores da camisola celeste bateram o enorme vizinho da margem sul do Rio da Prata, criando uma rivalidade entre irmãos que periodicamente se renova em partidas como esta.


Agora, no meio de futebol mal jogado, com lances muito duros (Maxi Pereira por mais do que uma vez ia lesionando Di Maria) e alguns jogadores inexplicavelmente a titulares, o resultado acabou por ser ditado pelo mal amado Bolatti, emprestado pelo Porto a um clube argentino, que deu a vitória e o apuramento ao seu país no templo desportivo uruguaio, a poucos minutos do fim. Menos do que o que faltava quando no anterior (e igualmente decisivo) jogo da Argentina contra o Peru, Martin Palermo, o veterano avançado que um dia falhou três penaltis no mesmo jogo, deu nos descontos a vitória aos das Pampas, aguentando-a na contenda definitivamente decidida em Montevideu.


Resta aos desiludidos Charruas uruguaios classificar-se no play-off. Maradona, esse, rebentando no seu anoraque qual boneco da Michelin azul-escuro, passou em meia hora da euforia saltitante à acusação ressentida. Só na América do Sul do "realismo mágico"é que a loucura e beleza do futebol alcança tais possibilidades literárias . Esperemos agora que o Uruguai se classifique e que a Argentina encontre a Inglaterra de Fabio Capello na África do Sul.

terça-feira, outubro 13, 2009

Algumas curiosidades das autárquicas

Em Oeiras ganhou Isaltino, condenado por casos graves. Em Braga triunfou, pela 10ª vez consecutiva, Mesquita Machado, responsável pela betonização da cidade e rosto máximo da promiscuidade câmara- construção civil - futebol - alguns sectores da igreja, além de presidente da assembleia geral da FPF. Em Felgueiras, Fátima perdeu com estrondo. No Marco de Canaveses, Avelino Ferreira Torres esteve longe de ganhar.
Os municípios "boçais", "rurais" e "atrasados" deram uma lição cívica aos concelhos "jovens", "cosmopolitas" e "dinâmicos".

 
Alguns antigos presidentes de câmara quiseram tentar a sua sorte nos municípios onde em tempos foram reis e senhores, além do supracitado Ferreira Torres, casos de José Raul dos Santos, em Ourique, e Acílio Gala, em Oliveira do Bairro. Não chegaram sequer perto de ganhar. Aplica-se aqui a máxima de não se dever voltar aos locais onde fomos felizes...

Quando nos seus discursos de vitória Rui Rio e António Costa mencionaram os adversários, logo a turba se lançou em assobios e pateadas. E isso foram apenas as partes que pudemos ver na televisão, porque é provável que pelo país fora se tenham verificado mais atitudes como estas. Alguém lhes podia explicar uma coisa muito simples chamada "respeito pelos vencidos"?

Entretanto, se os leitores precisarem de se rir um pouco, têm a preciosa ajuda da lista dos candidatos às câmaras dos distritos de Évora, Portalegre e Beja. Percebe-se porque é que os alentejanos são bem dispostos.

Tenho algumas saudades dos tempos em que as autárquicas eram em Dezembro: os resultados eram acompanhados ao calor do fogão a gás, vendo os munícipes a comemorar as vitórias ao frio, e as consequências discutidas na ceia de Natal. Agora, com este calor próprio de Verão, nem me parecem autárquicas como devem ser.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Balanço das autárquicas




Como já tenho dito, gosto particularmente de eleições autárquicas, pelo imenso micro-cosmos local que se torna visível nestas alturas, pelo Carnaval local em todas as campanhas, por se dar finalmente atenção ao "país real" e aos seus chefes políticos. As autárquicas são uma excelente forma de ir conhecendo o país, apesar de também darem azo a todos os lugares-comuns, que por vezes são de uma ignorância atroz.


Muito provavelmente Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres acabaram ontem as suas carreiras políticas, já que não conseguiram impedir as maiorias absolutas dos seus adversários do PSD. Absolvidos pelos tribunais, mas repelidos pelos eleitores nos seus antigos feudos, dificilmente obterão alguma relevância no futuro, se bem que regressos de fantasmas na política portuguesa não sejam assim tão raros. Já Narciso Miranda não irá certamente perder a oportunidade de chagar o mandato de Guilherme Pinto; o patético discurso de ontem, com a frase da noite - "esta candidatura ganhou perdendo as eleições" - mostra que ainda se julga o autêntico "Senhor de Matosinhos". Sempre entrou em guerrinhas com os sucessores, como aconteceu com Manuel Seabra, o que deu origem a um dos mais tristes episódios da política portuguesa, e os seus quase trinta anos de presidência (com muitos actos meritórios, reconheça-se) ganharam ares de culto de personalidade, com o epicentro nos inúmeros banhos de multidão na lota e no mercado.


Como sempre, houve surpresas. Para além de Felgueiras, não pude deixar de me espantar com as mudanças de cores de Beja, Barcelos, Trofa, ou outras menos visíveis, como Mesão Frio e Terras de Bouro, quase todas para o PS, o que alterou um pouco o mapa autárquico. Já Leiria era uma questão de tempo, e a perseverança de Raul Castro acabou por dar resultados. Em Faro, autarquia que muda a cada quatro anos, o triunfo de Macário Correia, por décimas, está longe de surpreender, até porque era uma aposta forte do PSD (embora tenham puxado a manta e perdido na retaguarda Tavira).


Nos grandes centros urbanos perdurou a estabilidade. Não houve uma câmara das mais importantes que tivesse mudados de mãos, e na maioria quem lá estava reforçou o seu mandato.

Mais uma vez se coloca a questão de quem terá ganho estas eleições, se o PS, se o PSD. Para mim, juntando tudo, houve um empate. Mas é mais gravoso para o PSD e para a liderança de Ferreira Leite, que depois das legislativas esperaria uma clara vitória, e que vê claramente as facas afiarem-se. Meneses, reforçado pela sua esmagadora vitória em Gaia (não esquecer que é o terceiro município do país), já o deu a entender.

 
A CDU mantém-se estável, mesmo com a perda significativa e simbólica de Beja, e noutro grau, da Marinha Grande. Aguentou parte do Alentejo e a importante "cintura industrial de Lisboa", nomeadamente Almada e Setúbal.


O CDS conseguiu estancar a hemorragia das locais, mas o que tinha era tão pouco que pior seria quase impossível. Partilha a vitória em muitos concelhos importantes com o PSD (embora só em poucos seja determinante) e quase tomou o seu antigo bastião de Mondim de Basto, palco do episódio mais trágico das autárquicas. E melhorou ainda o score na sua fiel Ponte de Lima ( aproveito para saudar o meu antigo colega de faculdade, Filipe Viana, na altura conhecido justamente pela alcunha de "Ponte de Lima", que teve de aguentar uma luta inglória). A nível local, porém, não consegue fazer a diferença; arrisca-se a tornar-se residual ou meramente a servir de muleta nalgumas coligações.

O Bloco de Esquerda nem isso. Tirando Salvaterra de Magos, e por causa de "Anita", vale pouco mais que zero. O recuo determinante em Lisboa e a incapacidade de Teixeira Lopes de chegar (mais uma vez) a vereador no Porto são os traços mais visíveis dessa semi-irrelevância. Esperemos que com isto Louçã se cale um pouco.

 
Depois, as grandes cidades. No Porto os resultados foram muito semelhantes aos de há quatro anos. Sem grandes ondas, e talvez moderando o seu tradicional sentido para a conflituosidade, Rio limitou-se a ver a desastrada campanha de Elisa Ferreira, que nos últimos dias parecia dar tudo por tudo para perder inequivocamente. Não tendo sido uma hecatombe, ficou um pouco abaixo do resultado de Francisco Assis há quatro anos. O Aleixo terá os dias contados, e ainda bem. Pior sorte terão os mercados do Bolhão e do Bom sucesso, e os jardins do Palácio de Cristal.

Em Lisboa houve algum suspense, mas apenas isso. António Costa manteve a câmara e alcançou maioria absoluta nas últimas horas da noite eleitoral. Tem agora mais espaço para "pôr a câmara em ordem". Espera-se que não abuse do poder que o povo da capital lhe entregou e que promova a facilidade no acesso à habitação no centro da cidade, a melhoria dos transportes públicos, que proteja os jardins e o património imobiliário, e que ouça atentamente o arquitecto Ribeiro Telles.

Quanto a Santana, aconteceu-lhe o inverso de 2001: à frente de uma coligação, perdeu a aposta. Na hora da derrota, pôs-se com tergiversações sobre transferências de votos e mais conversa fiada. Com este desaire (que deixou os seus apaniguados e respectivas catacumbas em forma caixa de comentários à beira de um ataque de nervos, invocando até Cunhal para carpir o "Menino-Guerreiro"), e duvidando-se que queira ser vereador sem pasta, pergunta-se por onde vai ele andar agora. Longe das responsabilidades políticas, espera-se, mas perto da ribalta.
Tomando em conta os ciclos normais deste tipo de eleições, diria que se está num ponto de viragem. O PS venceu folgadamente em 1989 e 1993, em 1997 ganhou à tangente, antes do desastre em 2001. O PSD ganhou claramente em 2001 e 2005, mas nestas já patinou. Seria previsível uma vitória socialista em 2013 se as regras do jogo não tivessem sido mudadas com a higiénica limitação de mandatos consecutivos. Assim, só Deus sabe o que vai acontecer saqui a quatro anos.

Vitória bipolarizada?

 
O PS teve mais votos, mais mandatos, subiu muito em relação a 2005 e ganhou em Lisboa com maioria absoluta.
O PSD conservou o maior número de câmaras e reforçou-se nalgumas das maiores concelhos do país, como Porto, Gaia, Sintra e Cascais.
Podem clamar ambos vitória sem perder o sentido do ridículo. Amanhã, quando se fizerem as análises sérias, outras conclusões se poderão tirar.
Para já, as minhas alegrias são pela negativa: alegrei-me com as derrotas de Fátima Felgueiras, Narciso Miranda e o fim da carreira política de Ferreira Torres. Quanto a Santana, que se fartou de "andar por aí" durante toda a noite, veremos por onde andará no futuro.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Uma desilusão, um exemplo e um equívoco



A maior desilusão destas autárquicas, mesmo antes dos votos, tem um nome: Elisa Ferreira. Começou com a bi-candidatura ao Parlamento Europeu e à CMP, com desculpas apressadas e convincentes. Houve depois um período de acalmia antes de cair numa espiral de disparates: a história da "gamela" de Bruxelas (onde revelou que se trabalha pouco), acusações sem sentido, uma lista para a câmara de notáveis da cultura que não se imagina a trabalhar a tempo inteiro na câmara, uma campanha gráfica confusa e populista, e agora vem com a futebolização das eleições. Elisa acha que Rio, com as suas desavenças com o FCP, colheu "o apoio de seis milhões de benfiquistas", e ainda que "quem se portou impecavelmente foram os portistas, que disseram que uma coisa é futebol, outra é política e até o elegeram". Não diz é porque raio é que o autarca quereria esse apoio dos benfiquistas. Somos assim tantos no Porto? Nunca me apercebi. Toda a minha vida devo ter tido ilusões de óptica, ou então não conheci as pessoas certas. Mais um tiro na água de quem se esperava mais. Nem o apoio de Pinto da Costa lhe vale.
Também no Porto, e para que conste, relembro as circunstâncias da primeira vitória de Rui Rio. Fernando Gomes, que gozava de grande popularidade na cidade (tanto que teve maiorias esmagadoras), resolveu experimentar o cargo de ministro da Administração Interna e renunciar à Câmara. As coisas não correram bem, e voltou algum tempo depois a concorrer à CMP. Para grande surpresa, perdeu as eleições. Além de algum desgaste do seu projecto, a sua ida para Lisboa e a ideia de que regressava meramente para ocupar um lugar onde se tinha acomodado não caiu bem entre os portuenses, que não o reconduziram ao lugar. Uma lição cívica e um sinal de inteligência dos eleitores
Santana Lopes foi eleito para a CML em 2001. Em 2004, como se sabe, rumou ao Governo; antes, porém, acautelou-se e suspendeu o mandato autárquico, sem renúncia. Derrotado em Fevereiro de 2005, não assumiu o lugar de deputado e voltou a ocupar o gabinete da presidência na autarquia, desapossando Carmona Rodrigues a contragosto deste. Impedido por Marques Mendes de se recandidatar, conseguiu apanhar a candidatura este ano, colocando Manuela Ferreira Leite perante um facto consumado. Como se nada se tivesse passado antes, nem nunca tivesse circulado entre cargos mais apetecíveis no momento, Santana quer voltar a presidir à CML. Mais do que o seu percurso errático e das dívidas que deixou pelo caminho (e sem esquecer os casos dos contentores de Alcântara e promessas incumpridas por António Costa), seria bom que os lisboetas se lembrassem disto e meditassem no salutar exemplo que os portuenses deram há alguns anos.
Um Nobel de futurologia


Longe de se ter dissipado, o Obamismo impregnou os salões de Oslo. O Nobel da Paz ganhou hoje um novo sentido e um significado diferente: premeia por antecipação e pelas expectativas criadas, com alguma futurologia à mistura, e já não por uma carreira com resultados e mérito, obedecendo à ideia original de Alfred Nobel. Por outras palavras: um risco elevadíssimo ditado pelas tendências do momento.

Obama pode muito bem deixar uma obra notável e um grande contributo para resolver sérias ameaças à paz, mas antes disso conviria que acabassem com a sua santificação em vida. Esta atribuição do Nobel da Paz está entre o patético, o idealista e o provocatório. E não contribui muito para credibilizar o comité decisório.

Prognósticos das autárquicas só no fim do jogo

 
As autárquicas são as piores eleições para fazer prognósticos. O seu carácter local e as situações particulares que a elas estão ligadas fazem com que inevitavelmente haja surpresas. Há sempre um dinossauro apeado da cadeira, uma sondagem que falha abruptamente, um terceiro que emerge. Podem ser boas ou más, consoante os gostos.
Em 2005 a melhor surpresa (para mim e para muitos) terá sido a derrota de Avelino Ferreira Torres em Amarante. Este ano, volta a tentar a sua sorte no Marco de Canaveses, que dominou durante mais de duas décadas. Duas sentenças opostas do Tribunal Constitucional permitiram a sua candidatura "independente", ameaçando a presidência de Manuel Moreira, quer teve certamente muitas dores de cabeça para colocar em ordem o estado calamitoso do concelho.
Não sei o que se passará em Lisboa. Por mim, Santana voltava para onde veio e continuaria a "andar por aí". No Porto, Rio está mais que confirmado; ajuda de Elisa Ferreira não falta. Mas não faltam autarquias em que pode haver surpresas. em princípio, Gaia e Sintra continuarão nas mãos de Meneses e Seara. Gondomar, Oeiras e Felgueiras também não devem expulsar os seus bem conhecidos "independentes" (muitos militantes partidários há nessas listas "independentes"), mas caso isso acontecesse, teria uma imensa piada. Matosinhos é um caso curioso, porque as sondagens, que ainda há pouco tempo davam a vitória a Narciso Miranda (que meteu na cabeça que a presidência Matosinhos era dele e de mais ninguém), mas agora são claramente mais favoráveis a Guilherme Pinto. Depois, há casos em que as candidaturas independentes baralham as apostas, como acontece em Coimbra ou Faro. Há capitais de distrito que pela saída dos seus autarcas não se sabe para que lado vão pender, como Viana e Setúbal. Saber-se-à se Mesquita Machado vai finalmente ser apeado por Ricardo Rio ou se ainda consegue cumprir o último mandato - está lá desde 1976. E se o CDS consegue estender-se para lá do seu bastião de Ponte de Lima, ou se o BE consegue mostrar alguma coisa fora dos círculos urbanos. O melhor mesmo é esperar para ver.

quinta-feira, outubro 08, 2009

E o Nobel da Literatura vai para uma alemã de origem romena que antes era romena de origem alemã

 


Tal como se esperava, a Academia de Estocolmo, sempre fiel às suas tradições, atribuiu o Nobel da Literatura deste ano a uma autora quase desconhecida, Herta Müller. Os especialistas na matéria, como sempre, apostavam nos consagrados Philip Roth, Vargas Llosa, Amos Oz, Milan Kundera, etc. Enganaram-se uma vez mais. Já era tempo de saberem que os suecos adoram trocar as voltas às apostas e nomear alguém de terceira linha. Mais vale não fazer prognósticos sobre os "consagrados", para ver se eles assim ganham algum ano - isso sim, seria surpreendente. Basta dar uma vista de olhos à lista dos galardoados dos últimos anos para perceber essa imensa evidência.

Observe-se agora: responsáveis da Academia disseram recentemente que o prémio "tem sido muito eurocêntrico". Entretanto, já é o terceiro autor de língua alemã a ganhá-lo nos últimos dez anos. É certo que os autores germanófonos deram não poucas contribuições à literatura europeia e mundial, mas tenho sérias dúvidas se actualmente serão superiores aos lusófonos - em maior número e distribuídos por mais países. Passa-se a vida a ouvir dizer que "como o Saramago ganhou em 98, dificilmente algum escritor lusófono ganhará nos próximos anos". E agora temos a senhora Herta Müller a juntar-se a Günter Grass (nada a opôr) e a uma Jelinek qualquer. Se há medíocres que escrevem em alemão a ganhar o Nobel, porque não um bom brasileiro ou um razoável português?

 
Ainda outra observação: Herta Müller nasceu em Timisoara, na região romena do Banato, mas mudou-se para a Alemanha, onde adquiriu a respectiva nacionalidade nos anos oitenta, daí dizerem que é alemã de origem romena. Na realidade, poder-se-ia dizer o inverso (como se deduz pelo nome e apelido), já que pertence ao grupo dos suabos, outrora maioritários, mas hoje uma minoria germânica do Banato. Um regresso às origens, como tantos outros naturais da mesma região e da Transilvânia (estava mesmo para escrever um post sobre isso, no seguimento de outro que deixei há dias). O assunto é particularmente focado em obras como Danúbio, do italiano Claudio Magris, que não por acaso também faz parte do distinto grupo dos eterno candidatos a ganhar o Nobel.
Campanha autárquica

Com as autárquicas à porta, sucedem-se os outdoors de toda a forma e tamanho. Houve tempos em que eram uma raridade, tempos esses em que imperava o cartaz colado à parede ou o mural artístico. Hoje pouco se cola. Subsistem os plásticos à volta dos postes, e até as freguesias optam pelo mais visível outdoor ou cartaz gigante. Podemos ver muitos deles aqui. Alguns são agradáveis do ponto de vista estético, sejam sóbrios ou imaginativos, mas há outros absolutamente de fugir (sobretudo na profusão de cores e palavras sobrepostas). Mas não se duvide que houve grandes progressos gráficos em relação às eleições de 2005, como se comprova. Pena é que haja menos razões para rir.

quarta-feira, outubro 07, 2009

A sapiência republicana do discípulo de Trotsky


Retido no fim de semana sem net, acompanhei ao de leve as comemorações da implantação da república, desta vez sem presidente. Parece todavia que as comemorações monárquicas tiveram mais impacto e maior adesão. Houve variadas formas de manifestações, à cabeça das quais o desfraldar da bandeira azul e branca na sede da Causa Real, ao Chiado. Desde Janeiro que não era ali hasteada (já tinha reparado nisso, e até pensei que tivessem mudado de instalações). Segundo as balbuciantes justificações da CML, um qualquer regulamento municipal proibia-o, embora até hoje, e durante sessenta anos, nunca tivesse havido a menor proibição por parte da edilidade lisboeta.

A ausência de Cavaco Silva dos habituais discursos em frente à câmara de Lisboa revela bem o diminuto interesse atribuído ao "5 de Outubro". A razão oficial foi a aproximação das eleições autárquicas. O quer só reforça a ideia da importância menor destas comemorações, para mais presididas pela presidente da AML: em 2001, em pleno dia de reflexão das presidenciais, Jorge Sampaio e todos os outros candidatos - à excepção de Ferreira do Amaral, por casmurrice - estiveram presentes na cerimónia de abertura do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura. Tendo em conta um e outro acto eleitoral e o impacto de cada um dos eventos, forçosamente se conclui que a relevância do "5 de Outubro" roça a nulidade.

Mas as movimentações monárquicas fazem-se notar. Francisco Louçã passou a semana a disparar contra tudo e todos, depois do tão anunciado terceiro lugar do Bloco se converter numa miragem. O alvo era agora Paulo Portas, que ouviu tudo, desde a acusação de ser de "extrema-direita", até ter "destruído o país", e de "remar contra a maioria da população portuguesa no referendo à IVG". Muito interessante, vindo do "coordenador" de um movimento com laivos de extrema-esquerda, cujos componentes ajudaram à destruição da economia do país em 1975, e que tanto gostam de se anunciar como grupo de protesto, "contra-corrente", "ovelha negra", etc. Todas as dúvidas sobre a honestidade intelectual e o fanatismo ideológico do representante da Quarta Internacional em Portugal ficaram definitivamente dissipadas.


Mas como a querer afirmar isso de forma ainda mais acentuada, Louçã veio agora chamar aos monárquicos "um pequeno grupo de patuscos atrás de um milionário banqueiro que conduziu um dos maiores escândalos da criminalidade económica em Portugal," que "lá apareceu pelo Tejo a gritar as saudades da monarquia", porque são todos de "direita reaccionária" que "reclama o regresso ao passado, o regresso ao atraso, à monarquia e à diferença”. A coisa resvalou para o insultozinho piadético sem piada nenhuma, a guetização ideológica, o lugar-comum marxista e a pura calúnia. Onde é que as acções de Teixeira Pinto levaram à "criminalidade económica"? Tem Louçã provas do que diz ou é mais uma das suas atoardas justiceiristas, querendo-se mostrar como o homem probo (talvez um sub-gênero do envelhecido "Homem Novo") no meio do "pântano da corrupção"? E porque razão quiseram as cúpulas do BCP afastar Teixeira Pinto quando este tinha um processo de renovação do banco, não se recordará o deputado trotsquista?

Quanto à confinação dos monárquicos na "direita reaccionária", só mostra o sectarismo e mesmo a ignorância de quem desconhece(?) que há monárquicos de diversos quadrantes políticos, à esquerda e à direita, em todos os estratos sociais e em todas as instituições. Muitos mais do que na sua miscelânea de esquerda radical e tocadores de djambé que atrai pontualmente alguns descontentes com o PS. Para Louçã, todo aquele que não faça parte do seu círculo ideológico próximo é imediatamente rotulado de "direita", e se for monárquico, torna-se um "reaccionário" (só falta mesmo "fascista"). Acresce que só o poder moderador cabe ao Rei, que reina mas não governa, que a vassalagem já não existe, excepto nominalmente a nível de protectorados que nada têm a ver com a monarquia, e que qualquer súbdito de um reino ou principado europeu tem tanta ou mais liberdade e direitos que qualquer república. Sobre o regresso ao atraso, calculo que deva haver aí certa confusão entre a liberdade que a monarquia sempre trouxe, fosse em 1385, 1640 ou 1834 (perdoem-me os tradicionalistas), e o PREC, do qual deve sentir muitas saudades. Tudo coisas que Francisco Louçã deveria saber, com toda a importância que se atribui. Mas mesmo que lho provassem na cara, a sua desonestidade intelectual e o seu radicalismo, que o impede de compreender ideias alheias, tornariam qualquer argumentação sólida num imenso desperdício de tempo.

sábado, outubro 03, 2009

Dois anos de Estado Sentido

Parabéns também ao Estado Sentido, a que me orgulho de pertencer. Em dois anos tornou-se um blogue de referência (apesar de eu estar lá). Mérito sobretudo do Samuel, que lançou o barco e trouxe "remadores" de primeira qualidade. E que continua no bom caminho. Por um sentido de estado.
Os primeiro jogos olímpicos numa cidade lusófona



O Rio de Janeiro está de parabéns pela vitória na organização dos Jogos Olímpicos sobre concorrentes tão poderosas como Chicago (de Obama), Tóquio e Madrid. Com a realização do Mundial de Futebol de 2014 no Brasil, e depois com os jogos em 2016, o Brasil será o grande organizador de eventos desportivos da próxima década. Prevê-se uma tarefa árdua e muitas dores de cabeça aos brasileiros.


Nota importante: é a primeira cidade lusófona a organizar uns Jogos Olímpicos. A Cidade Maravilhosa, com a sua beleza natural, tem um importante desafio pela frente, com toda a criminalidade e problemas sociais de que sofre. Poucas cidades no Mundo conseguem agregar o inferno e o paraíso no seu espaço. Cabe aos cariocas fazer valer a parte paradisíaca e mostrar que o Brasil é mais do que uma potência regional. Nada melhor do que o cenário único e invejável do Rio.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Angela Merkel, take 2, agora com os Liberais




Com o cenário pós-eleitoral e as polémicas entre orgãos de soberania, pouca atenção se deu às legislativas na Alemanha, quase tão importantes para nós como as nossas próprias eleições. Angela Merkel reforçou a sua liderança, não tanto pelos ganhos eleitorais em relação a 2005, que foram escassos, mas pelo desaire do SPD e pela subida significativa dos Liberais, habituais fiéis da balança entre os dois grandes partidos. A Chanceler faz valer o seu carisma ao conseguir afastar um peso pesado concorrente do governo. Com o FDP terá maioria no Bundestag e haverá com certeza reformas na política interna (à frente dos Negócios Estrangeiros ficará, tal como acontece habitualmente nas coligações governamentais alemãs, o líder do partido mais pequeno, neste caso o liberal Guido Westerwelle), sobretudo económica e financeira, matérias que não são consensuais entre os dois novos parceiros.

Um pouco à semelhança com o que se passa cá, os dois partidos mais à esquerda também cresceram. Os Verdes e Die Linke (uma espécie de mistura de Bloco de Esquerda com PCP) subiram, retirando votos aos SPD, talvez porque alinhou mais ao centro. Acaba por ser o grande derrotado, em proveito de partidos mais esquerdistas e dos liberais, que lhes roubaram votos ao centro.


Um pentapartidarismo que se poderá assemelhar ao nosso, à primeira vista, mas com algumas diferenças fáceis de descobrir. O SPD corresponde ao "nosso" PS e a CDU/CSU ao CDS-PP; já o FDP será uma fracção do PSD, que também englobaria parte da CDU (a alemã); o Linke seria, como já se disse, a fusão entre o Bloco e o PCP; e os Verdes seriam formados pelo PEV e franjas do Bloco. Parece complicado, mas está lá quase tudo em partes dispersas.
O espectáculo da república


O discurso de acusações do PR ao partido do governo só teve o condão de aumentar a crispação na política portuguesa. Isto em pleno período inter-eleitoral.

Assiste-se por um lado a uma manifestação da obsessão securitária do "árbitro do regime", bem expressa anteriormente pela proibição de voos sobre a vivenda "Mariani II", e de desconfianças graves de quem devia ser isento. Do outro, sucedem-se as intrigas de quem pouca confiança inspira, com jornais de um lado da trincheira e do outro metidos ao barulho. Os apoiantes de cada uma das facções acusam-se mutuamente de "má-fé" e "maquiavelismo". Nunca, nem em tempos da coabitação Soares-Cavaco, o mau ambiente entre a presidência e o governo chegou a este patamar.


E ainda querem comemorar a "república" do 5 de Outubro, ou instalar a quarta república. Que ideia peregrina! Acabe-se mas é com a dita e reinstaure-se a Monarquia. Há muito que se prega, mas parece que só agora é que se começa a prestar a devida atenção. Será que isto só lá vai com o crescente apodrecimento do regime?

PS: Cavaco e Sócrates almoçam hoje juntos. Ao nível a que as coisas chegaram, é de temer que um deles aponte para cima e diga ao outro "olha ali a república a voar", e aproveitando-se da breve distracção e basbaque do interlocutor, abra uma das pedras dos anéis (ou o alfinete da gravata) e deite o conteúdo venenoso na sopa do outro. Pelo menos noutras repúblicas, como a Romana, era prática corrente.

quarta-feira, setembro 30, 2009

O regresso dos Green Day





Os Green Day passaram pelo Pavilhão Atlântico na Segunda-Feira. Trouxeram o seu carrossel punk/opera rock e deram um concerto que sem ser extraordinário teve bastantes momentos altos.
 
A banda de Billy Joe (sempre com o seu ar de louco e os seus olhos esbugalhados) marcou-me, como a muito, na adolescência. Em meados dos anos noventa, o que estava a dar era o fulgurante Dookie e as suas músicas incandescentes de três minutos, como Basket Case e When I Come Around. Havia a concorrência dos histéricos Offspring para ver quem dominava o "teenager punk rock" californiano e conseguia mais discos de platina.
 
Os Green Day continuaram no mesma caminho, com alguns momentos marcantes, mas já em ligeiro declínio, até aos anos 2000, em que apareceram a fazer as primeiras partes de concertos de bandas que eram meras cópias pueris deles próprios, como os Blink 182, e ainda vendo os Offspring mantendo o sucesso. Já quase todos se tinham esquecido deles quando resolveram inverter o rumo e lançar o disco de opera-rock American Idiot. Como se sabe, um sucesso retumbante: regresso aos primeiros lugares das tabeças de vendas, boas críticas musicais e imensos Grammys e MTV Awards. Em suma, o regresso da glória dos tempos de Dookie, mas em versão crescida. Ao mesmo tempo, os Offspring definhavam entre a sua berraria e os Blink e restantes clonagens de punk para adolescentes sumiam de cena.


Este ano lançaram novo disco, 21st Century Breakdown, que tal como o anterior ainda traz consigo a crítica à guerra ao Iraque, aos efeitos da Administração Bush e a parte da sociedade americana (o espírito punk não desapareceu por completo). Vieram agora mostrá-lo ao vivo, em Portugal. Era uma daquelas bandas que me apetecia mesmo ver, e já não o esperava, mas chegou um bilhete salvador à última da hora. Assim, juntaram-se milhares de nostálgicos dos anos noventa, meia dúzia de tipos de crista, correntes e roupa negra esfarrapada julgando estar na Londres dos anos setenta, e uma legião de teenagers (um até chegou a ir tocar ao palco e nem se deu nada mal) com variadas t-shirts dos artistas, além dos fãs dedicados de camisa preta e gravata vermelha, à Billy Joel. Ficou na memória a expressão de louco nos ecrãs gigantes do vocalista, que até lançou camisolas com um canhão, a pirotecnia, o entusiasmo do público e o fim do concerto, com a belíssima Time of Your Life tocada a solo, sob um único foco de luz. Ficou apenas a faltar, entre uma ou outra, a velha When I Come Around, que tanto passava nas rádios em 1995. E talvez uns minutos a mais de espectáculo.








A grande ausente do concerto
O líder da direita


Não considero Paulo Portas um exemplo de sólido carácter nem merecedor de especial confiança. A sua carreira no Independente e no PP atestam-no. Os casos Moderna e da sua passagem pelo governo, os cumprimentos a Rumsfeld, as quezílias com Monteiro, e por fim a forma como voltou à liderança do partido, afastando Ribeiro e Castro, e depois disso o silêncio sobre a demissão de Nobre Guedes e outros problemas internos não contribuíram em nada para o tornar mais credível.

Mas há que lhe tirar o chapéu: o homem é um autêntico animal político, esteja onde estiver. Já no Independente o era, mesmo que fora da prática partidária. Consegue fazer pose de estado no Parlamento e nos ministérios, vai para os debates bem preparado e com os factos bem estudados (e o seu inseparável "oiça"), e anda por toda a parte, pelas ruas, pelas feiras, pelos mercados; cumprimenta, fala, toca pandeireta; tem experiência de campanha e de como se deve comportar perante a comunicação social; sabe, talvez por causa desses factores acumulados, que as campanhas mais eficazes são as do contacto directo, o "trabalho de formiga", e não as dos outdoors brilhantes ou carros de som, e por isso o CDS, dos cinco principais partidos, conseguiu ser de longe aquele que menos gastou; por fim, uma mensagem clara e fácil de perceber, populista na medida certa mas aquém da demagogia. O resultado está à vista.
Pensava que o partido iria crescer, mas nunca passar da casa dos 8%. Afinal, surpreendeu a maioria. Aproveitou o voto indeciso de direita do PSD, ultrapassou os dois dígitos, quase duplicou o grupo parlamentar e voltou a enganar as sondagens. Alcandorou-se assim no terceiro lugar, colocando sérios embaraços ao PS sem maioria, para previsível irritação de Francisco Louçã, cuja subida do Bloco, aquém dos 10% (por acaso achei que não ia chegar lá), tem um sabor agridoce. E voltou a ser o mais destacado líder da direita portuguesa, que ao contrário do que dizia o "coordenador" bloquista, não é assim tão estúpida.

terça-feira, setembro 29, 2009

O ideólogo perante a dura realidade



Já agora, como é que reagiu Pacheco Pereira aos resultados eleitorais? No Abrupto parece que nada se passou. Então e a sinistra "asfixia democrática", e os índices de situacionismo, desapareceram num ápice? Pelo que ouvi, o deputado eleito por Santarém terá aparecido ontem num programa televisivo falando de mais do mesmo. Espero que não tenha sugerido que os eleitores deram um tão mau resultado ao PSD por se sentirem com medo que o seu voto nas cabines de voto estivesse a ser vigiado. Depois de tanto atordoamento verbal, seria o cúmulo.
O preço da vingança interna


Há uma coisa que distinguiu PS e PSD (e em certa medida também o CDS) e que pode ter pesado em alguns votos: a união interna dos partidos, conseguindo as cúpulas reconciliar-se com os "rebeldes" e críticos e juntando-se em prol da luta eleitoral. Isso sucedeu no PS, onde depois de anos de contundência, de uma candidatura presidencial que humilhou o seu partido e até de comícios com o Bloco e de apoiar uma candidata independente trânsfuga do PS à câmara de Lisboa (Helena Roseta), além dos votos contra na AR a propostas socialistas, Manuel Alegre apareceu no fim, em Coimbra, a apelar ao voto em José Sócrates, depois de lhe ser proposta a renovação nas listas de deputados e da sua esperada recusa. Já Paulo Portas, depois dos triste episódios do seu regresso à liderança do partido, atribuiu ao ex-presidente e adversário interno Ribeiro e Castro um papel relevante, à frente das listas do CDS pelo Porto.



Um imenso contraste com a estratégia de Manuela Ferreira Leite, que por puro revanchismo afastou de supetão o grupo de Pedro Passos Coelho. Por muito menos do que tinha feito Alegre no PS, pagaram com a exclusão integral das listas a deputados, dando uma imagem no PSD de desunião, vingança privada e paz podre. Para além da estratégia falhada e da pobreza das ideias, as "facas longas" laranjas em nada terão contribuído para a imagem do partido e para a sua "política de verdade", como aliás se disse aquando da elaboração destas listas

Ninguém se admire agora por haver quem já esteja a levar os punhais ao amolador.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Síntese
Viajando de carro entre Porto e Lisboa, não pude assistir às reacções eleitorais, mas ouvi os resultados das legislativas até ao fim através da rádio. Já sabia da mais que previsível vitória do PS sem maioria absoluta e do inesperado terceiro lugar do CDS-PP. Fui acompanhando a emissão, os discursos, as reacções, os comentários dos opinion makers, etc. A vitória do PS por esses números não me espantou absolutamente nada, mas esperava que o PSD ficasse um pouco mais além do banho que levou em 2005 com Santana. Pelos vistos não conseguiu.
Na polarização que ontem tomou forma, só me espantei (eu e mais 80% da população, embora muitos já venham falar da "previsibilidade" desta resultado) com a ascensão do CDS-PP ao 3º lugar. Imaginava que o partido Portista fosse subir, mas que não chegasse sequer aos 9%. Afinal, aí estão os dois dígitos, mais deputados, alguns arrancados a ferros e uma situação inesperada para o governo. As corridas de Portas pelo país e o trabalho de formiga incessante, mais do que grandes comícios, deram bom resultado
Quase que apostei que o BE não chegava aos 10%, e não me enganei por uma unha negra. Quedou-se pelos 9,8 e duplicou o seu grupo parlamentar. Uma grande subida, sem dúvida, mas não tão grande como a chegaram a pintar. Não conseguiu tornar-se a terceira força partidária e dificilmente terá outra oportunidade para lá chegar. Mas Louçã parece não ter percebido isso, nem que o PS não precisa dele, com um discurso em que dava ideia que tinha ganho as eleições, o que lhe valeu algumas bicadas de Sócrates.
A CDU subiu em votos e conseguiu mais um mandato, além de ver o PS perder a sua maioria absoluta. à parte isso, é uma das derrotadas da noite, embora o desaire não seja profundo. ficou em quinto e certamente que acabou prejudicada pelos votos no Bloco. Mas ainda aposto que o vai ultrapassar em futuros actos eleitorais (para além das autárquicas).
Sobre os dois maiores partidos, simplesmente o óbvio: o PS ganhou, mesmo sem maioria absoluta e com menos 8% dos votos, e Sócrates aguenta-se. O PSD perdeu, quase não recuperou nada de 2005 e apenas se pode dar por contente com o fim da maioria absoluta. Mas o que fica claro é que a sua mensagem e imagem não passaram por demérito próprio.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Dos pequenos, rezará a história destas eleições?



Ao contrário do que aconteceu nas Europeias, talvez porque as Legislativas "não se pode desperdiçar votos" e se apela ao "voto útil", os pequenos partidos têm sido muito escassas vezes objecto de notícias. Com algumas excepções, como um recente Prós-e-Contras, uma ou outra reportagem televisiva e alguns artigos como o do Público de hoje, impera quase um manto de silêncio sobre os que não têm representação parlamentar, para além daquela curioso argumento de que "o voto nesses partidos é um voto desperdiçado". Será curioso se algum deles chegar aos bancos do Parlamento, com tão pouca cobertura. Quem tiver boa memória lembrar-se-à certamente que o Bloco de Esquerda, logo na sua aparição em 1999, teve extensa atenção dos média (é verdade que também tinha algumas figuras conhecidas).

O MEP tem algumas possibilidades de lá chegar. O MMS já tenho dúvidas (aqueles anúncios de "enviar os políticos para a Conchichina" e da castração química dos pedófilos são do mais inquietante populismo que já vi), o resto, o PPM versão Câmara Pereira, o PNR "expulsem os emigrantes", o POUS da lírica Carmelinda, o MRPP desse excelente juslaboralista que é Garcia Pereira, permanecem iguais a si mesmos. Novidades são a Nova Democracia já não ser liderada por Manuel Monteiro (que no entanto corre por Braga), o MPT de Quartim Graça estar coligado com o Partido Humanista, e os nóveis Partido Trabalhista, chefiado por um senhor com ar de empreiteiro de Tondela, e o Partido pro Vida, que defende causas que considero nobres mas que gostaria muito de saber quais as ideias nas áreas da economia, assuntos externos, ambiente e obras públicas.


Dia 27, o dado de maior interesse entre estes pequenas agremiações será o de saber se o MEP consegue entrar no Parlamento. Pelos números das Europeias, isso seria possível, mas o "voto útil" pode tramá-los. Confesso que admiro o percurso de activista de Rui Marques, desde a missão do Lusitânia Expresso e da Fórum Estudante (uma revista de que era fã absoluto quando tinha 16, 17 anos, e de que guardo alguns números), até ao seu papel como Alto Comissário para a Emigração, passando pelo seu trabalho nas escolas de Timor e na participação do lançamento da revista Cais. Tenho uma certa curiosidade em ver como se comportaria na AR - e qual a sua visibilidade. A sua imagem humanista poderia sumir-se no meio das acusações entre "os Exmos Deputados", mas alguma coisa ficaria, por certo. Veremos se tem sorte no Domingo. Porque aos pequenos, como sempre, só sobrarão migalhas.