sábado, julho 11, 2009

A nossa Fitzcarraldo


Falou-se muito nos últimos dias sobre Maria João Pires, a sua intenção de abandonar Portugal e a situação de Belgais. Entre as opiniões mais diversas e como não conhecia a fundo o caso e as suas motivações, abstive-me de falar dele. Agora consigo distinguir melhor os seus contornos.


Maria João Pires é das pessoas que mais têm prestigiado o país nas últimas décadas. Sempre colheu aplausos sinceros de muitos quadrantes, e de há muito tempo (um amigo de meu avô, que morreu no início dos anos setenta, vivia no andar por baixo do dela, e sentava-se por vezes a ouvir as suas récitas de piano). Tem reconhecimento internacional e uma extensa obra gravada, sobretudo interpretações de Chopin. Também já tive oportunidade de assistir a um espectáculo seu, apesar de não ser um verdadeiro melómano, e gostei realmente do que vi e ouvi. E para além de todas as qualidades artísticas, ergueu o projecto de Belgais. Não é coisa pouca.


O facto de determinada pessoa ser um(a) incontornável artista não faz dela automaticamente objecto de veneração. Gente de todas as artes há e houve que foram autênticos trastes e insuportáveis pavões. Bem sei que as críticas aos artistas mais reconhecidos são muitas vezes mal vistas com os costumeiros "esta terra não o merece" ou "quem o critica não vale um centésimo". É a velha dificuldade de não pensar que génio ou talento não correspondem necessariamente ao carácter.


Muitas destas críticas surgem agora no episódio da decisão de Maria João Pires em abandonar definitivamente Portugal e instalar-se no Brasil. Já há uns anos a pianista tinha falado em "torturas" no seu país, e agora pretenderá renunciar à nacionalidade portuguesa por causa dos "coices e pontapés recebidos do Governo português". Tudo por causa dos problemas financeiros de Belgais e do recente arresto dos seus bens, porque ao que parece não tem recebido dinheiros públicos.

A sua atitude tem todos os traços dos caprichos das prima-donnas musicais. Em não lhe fazendo as vontades, amua e lança declarações ribombantes. Belgais poderá ser um projecto interessantíssimo, original e a todos os títulos louvável, mas não se pode tornar um mero sorvedouro de dinheiro. Nunca fui daqueles que acham que a cultura não pode ser subsidiada por dinheiros públicos. Os projectos que tenham interesse para o país podem e devem ser apoiados pelo Estado e demais entidades públicas. Mas tanto quanto sei, entre 2000 e 2006 o centro de Belgais recebeu cerca de dois milhões de euros do Ministério da Cultura. Não é coisa pouca. Além do mais, houve protocolos assinados com o Estado, por isso só haveria razões de protesto caso as obrigações não fossem cumpridas. Não parece ser esse o caso. O que transparece deste penoso processo é que Pires não tem grandes habilidades administrativas e de gestão. Não é vergonha nenhuma, já que a maioria das pessoas também não as tem. Mas ao lançar-se a um projecto daquela natureza, deveria ter pensado nisso melhor. Para mais, um centro de formação musical em plena campina de Idanha, no meio da Beira Baixa, uma das zonas mais desérticas do país, seria sempre tarefa hercúlea (ainda que louvável igualmente por se afastar do litoral e dos habituais centros urbanos, numa luta inglória contra a desertificação).


Por causa dessa incapacidade administrativa, Belgais está em queda e Pires prestes a instalar-se definitivamente no Brasil, desta feita a olhar para um projecto hoteleiro. Está no seu absoluto direito. Contudo, se alcançou a projecção que tem e se Belgais existe também se deverá sem dúvida ao país que agora pretende abandonar. Aqueles de quem se queixa proporcionaram-lhe o estatuto e os meios. A partir daí, caberia a si própria administrá-los. Não o soube, mesmo que as responsabilidades possam não ser exclusivas. Os projectos mais difíceis são assim mesmo, nascem (alguns nem isso) e por vezes soçobram.



Também me espanto com a preferência pelo Brasil. Será que lá há mais apoio cultural do Estado e mais mecenato? Tenho reais dúvidas sobre isso. Imagino Maria João Pires a tentar uma coisa ainda de maior envergadura, uma escola de música em plena Amazónia. Não seria ideia original: Werner Herzog já se lembrou de coisa parecida. Teríamos então uma espécie da Fitzcarraldo de saias e com sotaque português, sustentando Nova Belgais entre os cursos dos rios e a densa floresta.

A crítica à pianista não me impede no entanto de achar absolutamente estapafúrdias e (embora reveladoras) as ideias de alguns dos "liberais" do costume, autênticos néscios que lhe chamam"parasita",e que entre outras coisas sugerem que se podia dedicar à prostituição, na sua habitual incapacidade de ver na cultura algo mais que um retorno financeiro. A resposta é bem dada pelo soberbo artigo de Pedro Picoito.

quarta-feira, julho 08, 2009

Era bom, era

Parece que "Direito dá trabalho": segundo um inquérito da Católica , via Expresso, há "100% de empregabilidade" entre os seus antigos alunos de direito. Regozijar-me-ia se isso fosse verdade, mas infelizmente não é. Pode haver uma altíssima taxa de empregabilidade, mas nem todos os juristas que cursaram na UCP preenchem esses números, como é prova actual o autor destas linhas, e não só. A não ser que se trate apenas do caso da Escola de Direito da UCP em Lisboa, cujo director presta tais declarações ao jornal, o artigo peca por excessivo optimismo e sensacionalismo dissimulado. Sempre gostava de saber qual é a margem de erro desse inquérito. Ou então, conclui-se que os tempos não andam definitivamente bons para as sondagens.

terça-feira, julho 07, 2009

Entretanto, umas centenas de quilómetros acima

Em Pamplona, já começaram as Sanfermines!

A eterna novela madridista

Ronaldo chegou enfim à escaldante Madrid, um mês após a divulgação da sua contratação, pelo pródigo D. Florentino Perez, outro Creso da bola. Já há um ano que se falava neste negócio gigantesco, mas só se efectuou com o regresso de Perez, que importou igualmente Káká.

Os números do negócio espantaram e escandalizaram, e não é para menos: 94 milhões de Euros é muita coisa, muito mais do que os (à época) obscenos 75 por Zidane e 60 por Figo. Sim, eu ouço que o Real paga o que quer e ninguém tem nada a ver com isso, que Perez não é parvo, que os patrocínios e o "merchandising" vão cobrir tudo em poucos anos, etc. Também já ouvi antes e os resultados foram diferentes. O facto do Real não ser uma instituição pública não impede de ser criticado. Os clubes de futebol, com sócios adeptos e visibilidade, têm obrigação em dar algum exemplo ético e desportivo ao público. Tratando-se do Real Madrid, provavelmente o maior clube do mundo, ainda mais. Acontece que normalmente os clubes fazem exactamente o contrário do que deviam, e os merengues nos últimos anos têm dado um conjunto de tristes exemplos. Depois, Florentino já ocupou a cadeira madridista com a táctica dos "Zidanes e Pavones", que começou bem e acabou no ridículo. Na altura conseguiu-o vendendo terrenos à construção civil, de que é líder em Espanha. Agora, recorreu à banca e aposta tudo no "merchandising". A estratégia é potencialmente suicida, porque só com milhões de produtos vendidos é que a coisa vai ao sítio; e não nos esqueçamos que não estamos em 2000, que a construção civil em Espanha está em valentíssima recessão depois de anos de crescimento artificial e que a crise financeira retrai o consumo deste tipo de artigos. Para além dos passes, ainda há os salários.


A ideia de Florentino Perez é ficar na história, juntando o Real dos anos cinquenta, que imperava na Europa com os seus craques estrangeiros Puskas, Di Stefano e Kopa (até o Benfica lhe aparecer no caminho), à equipa dos anos oitenta, a Quinta del Buitre, grupo de jogadores espanhóis que dominou La Liga nos anos oitenta, mas que falhou estranhamente nas competições internacionais. Depois, há todas as apostas económicas mais próprias de um jogador de casino do que de um gestor inteligente e com pesadas responsabilidades. e que para mais, já apostou nas mesmas políticas e nem assim obteve grandes resultados.


Quanto a Ronaldo, acho que devia ter esperado mais uns dois anos no Manchester, mas neste caso sim, ele é que sabe da sua vida. O problema é que é mais uma estrela do jet-set internacional, mais virado para as objectivas do que para o "esférico", com fãs histéricas e um estranho gosto em matéria de vestuário e companhia feminina, como se conclui pelas andanças com a mais famosa parasita do mundo, a desnudada Paris Hilton. E pelas actuais performances na Selecção...


Temo que sem a sobriedade da pós-industrial Manchester e a sábia direcção de Alex Fergusson "Crisnaldo" se perca no emaranhado branco e rosa em que já se meteu. A recepção dos oitenta mil maluquinhos ontem no Santiago Bernabéu, que nem pude ainda ver, e todas as notícias que gravitam em torno dele, acrescentadas à própria cidade e à cultura do clube, são um caldo de pressão demasiado grande para um só jogador. Sinceramente, acredito que Káká vingue mais em Madrid do que Cristiano.



A abada que se esperava

Afinal não pude ir à Luz no dia das eleições, e consequentemente não pude votar em branco. Paciência. De pouco teria servido. Limitei-me a observar o triunfo de Vieira, a única coisa a esperar depois do Tribunal Cível de Lisboa esclarecer que não tinha sido preferida decisão de mérito (e que não havia medidas executivas) na providência cautelar interposta por Bruno Carvalho. Falando neste indivíduo, como é que alguém sonha sequer ser presidente de uma instituição quando entra nas suas instalações rodeado de seguranças e sai pelos fundos? É esta a empatia que quer estabelecer com os sócios? E como é que insiste em torpedear o acto eleitoral quando tem pouco mais de 2% dos votos e o desprezo quase generalizado dos benfiquistas? A credibilidade de Carvalho pode bem ser comparada com a de Guerra Madaleno, por exemplo.
No meio da gaffe de Vilarinho (ou não, às vezes apetece mesmo responder assim), da aclamação de Vieira e dos inúmeros comentadores de televisão, gostei de ver Luís Nazaré como novo Presidente da AG do Benfica. Menos gostei de confirmar que um dos vices é Rui Gomes da Silva, o criador do termo "cabala involuntária"...
Sigamos o rumo do clube nos próximos tempos. E que a nível futebolístico as coisas corram melhor.

sexta-feira, julho 03, 2009

Relembrar os feitos

Na despedida de Manuel Pinho, esse grande ex-estadista, a homenagem possível (também extensível ao grande obreiro Mário Lino). Com o patrocínio de S. Exª o Presidente da República Bolivariana da Venezuela e do programa Allgarve.

quinta-feira, julho 02, 2009

Os Golpes

Eis a nova sensação do pop-rock português. Os Golpes, banda de melodias épicas e estética à neo-Heróis do Mar com um toque de charme decadente de cabaré, lançaram o seu disco, Cruz Vermelha sobre Fundo Branco. Pude vê-los há dias numa sessão da FNAC do Chiado, com toda a sua energia e o seu entusiasmo, e já com uma mini-pelotão de fãs. O seu vocalista, Manuel Fúria, protagonizara antes o video dos Pontos Negros , de que em tempos tive oportunidade de falar. O cartão de apresentação é este A Marcha dos Golpes.


terça-feira, junho 30, 2009

Pina Bausch 1940 - 2009

No ano passado, quando a companhia de dança de Wuppertal veio a Portugal actuar no CCB, tive a oportunidade de ir ver o espectáculo com bilhete oferecido, mas como era em cima da hora e não conseguiria chegar a tempo tive de declinar, pensando "haverá outras oportunidades de ver um espectáculo de Pina Bausch".


Afinal não houve nem haverá. Depois de uma curta e letal doença, a dançarina e coreógrafa alemã, provavelmente a mais famosa do Mundo, despediu-se hoje, deixando órfã a dança contemporânea.
A Feira dos Pucarinhos de S. Pedro

Neste dia e na noite que passou, como já disse no post anterior, é S. Pedro o festejado, a encerrar o triunvirato de Santos Populares de Junho. Em Portugal, o portador das chaves dos Céus é celebrado em variadíssimos sítios, desde as largadas de touros do Montijo e respectivas procissões fluviais pelos esteiros do Tejo ao fogo de artifício dos pescadores da Afurada, passando pelas rusgas dos bairros da Póvoa de Varzim.

O S. Pedro que conheço é o de Vila Real. Oficialmente, o feriado é no Santo António, mas o mais festejado é mesmo o Pescador. Na noite de 28 para 29 de Junho o Largo da Capela Nova, dominado pela construção barroca de Nasoni, enche-se do artesanato da região: é a Feira dos Pucarinhos, em que os artesãos locais expõem as suas obras. Pelo chão espalham-se inúmeras peças da louça negra de Bisalhães - roscas, cântaros, travessas, bilhas, há de tudo, como na farmácia. Actualmente existem apenas quatro artesãos, mas já foram várias dezenas. Os tempos não perdoam. Ao lado, outra importante peça do artesanato local, os linhos da Agarez, também são postos à venda pelos seus laboriosos artistas. A meio, passam os fregueses ou simples curiosos, admirando as peças de barro e de linho. Perto, jogava-se ao panelo, que consistia numa roda de pessoas, em que se vai atirando uma panela de barro preto de uma pessoa para a outra, sem deixar cair no chão, cada vez mais rápido, e mais rápido, até que se parta. Quem o deixar cair ao chão tem de comprar nova peça...e o jogo recomeça.


Tinha uma ideia vaga dessas noites em que o chão do largo se enchia de objectos maravilhosos, mesmo que por vezes toscos, ou até por causa disso. Recentemente voltei a ir à Feira dos Pucarinhos. No largo, tudo se distribuía como esperava. Já pelas ruas circundantes do centro histórico abundavam outros tipos de artesanato e até peças africanas, bugigangas, quinquilharia, etc. A Avenida Carvalho Araújo, artéria central da cidade, estava quase toda transformada em feira, e a que não estava tinha um palco animado por bandas.


São os novos hábitos, que vão modificando o carácter das festas e dando-lhes novas formas. Os artesãos de louça negra e dos linhos são poucos, mas mantêm-se no posto, com novos concorrentes por perto. As ruas já não são pouso apenas para as tradicionais formas de artesanato. Mas nem tudo é tragado pela voragem dos tempos: o jogo do panelo, que quase tinha desaparecido, voltou a ser praticado por inúmeros grupos, como se comprova pelos cacos que se espalham pelo chão das ruelas. A feira continua, e pela noite fora as rodas de jogos multiplicam-se.

segunda-feira, junho 29, 2009

Pedro e Paulo


29 de Junho é dia de S. Pedro e S. Paulo. Normalmente, associa-se muito mais ao primeiro. É a Pedro que as festas populares são dedicadas, talvez pelo seu estatuto de discípulo de Cristo, de primeiro chefe da Igreja, cujas sandálias cabem a cada Sumo Pontífice; e sobretudo dever-se-à ao seu carácter humano, genuíno e simples, de homem sem grandes conhecimentos (era pescador), que segue Cristo por toda a parte, que desembainha a espada para O proteger, mas a quem por medo O nega três vezes, que fala sempre com o coração, que é o primeiro a reconhecer o Messias e que espalha a Sua palavra depois da Ascensão. No fundo, será o Santo com quem o homem comum terá mais empatia e mais facilidade em se identificar.

Paulo de Tarso é o "Apóstolo dos Gentios", um judeu com cidadania romana, de sólida educação e influências helenísticas, que depois da sua conversão pregou a Mensagem Cristã pela Ásia Menor, Grécia e, crê-se até à Península Ibérica. É o fundador da moral cristã e da separação desta dos velhos hábitos judaicos, que espalhou nas suas viagens e através das suas epístolas. A ele se deve a difusão do cristianismo fora da Palestina e a sua aceitação por vários povos.


Estas duas figuras maiores do cristianismo pouco têm em comum, e Pedro, o líder da Igreja, chegou mesmo a ser directamente repreendido pelo convertido Paulo. Um representa a simplicidade e o desapego de um homem que tudo largou para seguir a Cristo quando ouviu o chamamento. O outro é um carácter mais intelectual, o responsável do Cristianismo ter deixado de ser uma seita de judeus secessionistas, galgando o Mediterrâneo e alcançando novo estatuto em Roma e na Grécia, que lhe seria tão importante daí para a frente. Ambos, porém, tiveram a coragem de divulgar a Boa Nova com todos os perigos que isso acarretava. Ambos foram martirizados na Cidade Eterna. E ambos foram os verdadeiros fundadores da Igreja de Roma, apesar de toda a Cristandade os venerar.


Encerra-se hoje o Ano Paulino, dedicado a S. Paulo. Bento XVI quis assim homenagear o primeiro grande pensador cristão. S. Pedro está sempre presente em Roma, à vista de todos. A S. Paulo faltava alguma visibilidade, que não tem pelo seu próprio estatuto de "intelectual". Embora em alguns casos os dois sejam associados (como em nomes como a fortaleza de Pedro e Paulo, em são Petersburgo), um continuará a ser o santo popular e o outro uma espécie de Doutor da Igreja de estatuto superior. Mas o dia de hoje tem essa dupla importância: a de comemorar aqueles que são provavelmente, depois de Jesus, os dois homens mais importantes do Cristianismo

domingo, junho 28, 2009

Saviola


El Conejo já é do Benfica. Devo dizer que gosto muito do jogador, desde que ele se mudou de Buenos Aires para Barcelona (é ainda a aquisição mais cara de sempre dos culés). Teve um percurso mais incerto do que seria de esperar, andou pelo Mónaco e Sevilha, serviu ao Real Madrid para causar inveja (?) ao Barcelona e passou a maior parte da sua estadia entre os merengues no banco, tapado por outros avançados. Em Portugal, se não tiver lesões arreliadoras e jogar na sua posição, será um autêntico craque. A dupla com Cardozo e a sociedade com o seu amigo Aimar tem potencial para revelar futebol do melhor e causar estragos, inclusive nas competições europeias. A única coisa que me deixa um pé ligeiramente atrás são os cinco milhões de euros despendidos e o salário previsivelmente alto que Saviola irá ganhar, sobretudo quando se diz que não há dinheiro para Reyes. Com resultados financeiros negativos, sem ir à Liga dos Campeões e sem fazer (para já) grandes vendas, era bom que se tomasse cuidado nos gastos, que a vida só está fácil para o Real Madrid.


Curiosamente, a vinda do argentino faz com que as três grandes contratações do Barcelona no Verão de 2001 acabassem por vir parar a Portugal: Geovanni, Rochemback, e agora Saviola, com evidentes prejuízos financeiros para os blaugranas, que gastaram bastante dinheiro com a sua aquisição para os deixar ir por quase nada.
No Olimpo da música moderna


Se Michael Jackson desapareceu relativamente novo, há que não esquecer outros monstros sagrados da música do último século. Além de Lennon, assassinado à porta de casa, temos casos tragicamente semelhantes como Elvis, Piaf, Morrisson, Hendrix, Marley ou Brel (ou, noutra escala, Cobain). A morte prematura elevou-os à condição de lendas e impediu-os que envelhecessem em mansões de cinquenta quartos, realizando digressões pontuais e decadentes e relançando "ultimates collections" em nome da editora. Aos desaparecidos em actuação é o que os mantém imortais. Jackson tem companheiros à altura no Olimpo da música moderna.

sexta-feira, junho 26, 2009

Michael Jackson 1958-2009



Ainda que não seja totalmente surpreendente, por todos os problemas que o "Rei da Pop"tinha de sobra, tanto que se especulava se poderia fazer nova tournée agendada para Julho, a notícia repentina da morte de Michael Jackson não deixa de impressionar. Nunca fui particularmente fã da sua música, mas é inegável que marcou uma época e que se tornou autenticamente num dos grandes ícones do fim do Sec. XX. Não esquecer que é o seu o disco mais vendido da história - Thriller, de 1982, com mais de quarenta milhões de cópias vendidas - além de outros êxitos maiores, como Bad, Dangerous ou HIStory, que não impediram porém de contrair imensas dívidas. Para além de todas os escândalos, controvérsias, taras e problemas de saúde que o levariam a este triste desfecho, fica para a história um dos mais famosos músicos de sempre, dançarino de excepção, cujas músicas e sobretudo os fabulosos telediscos se tornaram uma marca da cultura do seu tempo.
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PS: ainda protagonizou uma aventura juvenil no Porto, em pleno S. João. Consegue-se imaginá-lo a jogar à bola com os miúdos da Ribeira?

quarta-feira, junho 24, 2009

900 anos?


Onde? Guimarães? Coimbra? Viseu?

terça-feira, junho 23, 2009

Outro S. João perdido

Esta noite, de 23 para 24, tem lugar um dos mais grandiosos e genuínos festejos populares: o S. João. O profeta do Jordão, primo de Jesus, que segundo as escrituras vestia-se de pele de camelo, comia gafanhotos e mel e foi supliciado sob os caprichos de Salomé, tornou-se um santo popular e "rapioqueiro", ao qual são dedicadas as mais brejeiras quadras. É em Braga, Vila do Conde, Gaia (menos a Afurada, que prefere S. Pedro) e principalmente no Porto, além de outras localidades, que o santo é mais festejado. Nem sequer é o padroeiro portuense oficial (lugares ocupados por Nossa Senhora da Vandoma e pelo quase anónimo S. Pantaleão), mas nem por isso deixa de ser o patrono de uma das noites mais longas do ano.

Pelo quarto ano consecutivo, e por razões diferentes, não vou poder ir ao santo do meu nome e da minha cidade. Mais uma vez adio as sardinhas, o convívio, o martelo de plástico com o seu som característico, o espectáculo dos balões de ar quente a salpicar o céu e os bailaricos de rua, que nos últimos tempos acabavam em Nevogilde. Ou a repetição da única vez que do muro da Ribeira vi o fogo de artifício da meia-noite, lançado da ponte e do rio, fazendo depois o percurso pedestre até à Foz (parando em todos os arraiais), onde já no Molhe se via sempre o dia a nascer. E nem terei enfim a oportunidade de ver como são as Fontainhas nesta noite mágica, com a cascata sanjoanina e a sua vista para o Douro. E tantas, tantas tradições que vêm de longe e se mantêm.

(Fotos tiradas do Cidade Surpreendente).

A quem puder ir, que se divirta o mais que puder e um bom S. João!
O paraíso somali



Assim como a vizinha Etiópia é a terra prometida dos Rastafarianos, a Somália é a terra prometida dos libertarians, neo-liberais e anarco-capitalistas de todo o mundo. Uma terra sem governos controladores, onde o Free Market, Free Minds é a única regra. Laissez faire, laissez passer, rumo ao paraíso sem regulação somali.

(Via Estado Sentido)

segunda-feira, junho 22, 2009

"Eixo do Mal" em evidência


Tenho acompanhado o processo pós-eleitoral do Irão saltitando entre interesse pela evolução dos acontecimentos e a indiferença da sorte dos persas. Se os protestos contra os resultados oficiais são massivos, duvida-se que sejam suficientes para uma mudança substancial do regime teocrático em vigor. Os Guardiões revolucionários aceitam nova recontagem de alguns votos, e os "moussavistas" exigem uma reeleição. O choque nas ruas era inevitável, mas talvez não passem de fúrias espontâneas que em alguns dias passem de moda. Recorde-se Tiananmen em 89, Praga em 68 ou Budapeste em 56: nenhuma delas alterou o que quer que fosse, excepto talvez algum endurecimento dos regimes que as abortaram. Até porque, mesmo que tenha havido fraudes na votação, deve haver um número substancial de apoiantes de Ahmadinejahd pouco disposto a grandes mudanças, pelo que o regime não cairia sem uma sangrenta guerra civil. Por seu lado, o passado de Moussavi inspira pouca ou nenhuma confiança, pelo seu papel fulcral na opressão sob as barbas de Khomeiny, e até por ter sido um dos poucos cuja candidatura o Conselho de Guardiões da Revolução aceitou, na sua restrita filtragem. Os seus apoiantes podem estar sedentos de mudança, mas o candidato nem tanto, ainda que possa ser um Humberto Delgado iraniano, voltado contra o regime que o criou, ou um Begin persa, com um passado violento mas que como estadista procurou a conciliação com adversários externos.

Ainda assim, os "revolucionários" da situação e adeptos de Ahmadinejad têm cometido erros, como a prisão de familiares do ex-Presidente Rafsanjani, e a utilização nos actos de maior repressão das manifestações de elementos do Hamas, que se encontram no Irão para serem treinados militarmente. a utilização de mercenários estrangeiros decerto que não cairá bem na população nem na comunidade internacional.


No extremo leste da Ásia, a outra metade restante do "Eixo do Mal", a Coreia do Norte intensifica os exercícios com mísseis que atingem uma distância cada vez maior. As sanções já foram propostas e aceites, mas Pyongyang afirma que as considera "um acto de guerra". Quando vê as coisas mal paradas, o paranóico regime kimjongilista ameaça logo com a guerra. Resta saber se se sente acossado e pretende mesmo incendiar tudo em redor, num acto de derradeira fúria suicida e assassina, ou se pretende com isso ganhar algumas vantagens económicas. Certo é que os vizinhos estão a perder a paciência com a insolência do povo do "Querido Líder" e estão dispostos a encostá-lo à parede para acabar com a eterna ameaça latente...ainda que isso comporte riscos óbvios.

sexta-feira, junho 19, 2009

Separados à nascença?











Bill Murray (à esquerda) e Claudio Ranieri (à direita).

terça-feira, junho 16, 2009

E a Feira do Livro regressou aos Aliados


A Feira do Livro do Porto, que acabou no domingo, esteve plantada este ano na Avenida dos Aliados. Já lá tinha estado, parece, noutros tempos, mas para mim, que só a conhecia na Rotunda da Boavista e no Palácio de Cristal, constitui uma novidade. É sempre grato ver um evento destes ao ar livre e no centro da cidade, mas fiquei com a sensação de que estava mais reduzida do que nos anos anteriores, por causa da limitação de espaço. Até porque já tinha passado pela Feira de Lisboa, no mais amplo Parque Eduardo VII, o que talvez me tenha deixado essa impressão. Outro problema era a chuva - nas duas vezes que lá passei - que como já é usual e alguns previam, marca sempre presença em tempos de Feira, como o pôde certamente comprovar José Mário Silva, que lá conheci no outro dia.


Ainda assim, era uma ideia antiga que se pôs em prática. Além do mais, pode ser que acontecimentos destes tragam mais pessoas à Baixa, que bem está precisada. Sempre permite, com os horários alargados, que mais gente passe pelos Aliados e disfarce aquela sensação de vazio em que o espaço central portuense se transforma ao final da tarde.
Provincianismos pseudo-urbanos

Ainda do Minho desiludi-me com o novo figurino da velha estrada entre Moledo e Vila Praia de Âncora. Repararam o pavimento que estava muito gasto e fizeram uma ciclovia, o que se aceita (apesar de eu ter feito dezenas de vezes aquele troço de bicicleta sem o menor problema). Pena é que o carácter rural nocturno tenha desaparecido com as dezenas de novos candeeiros eléctricos plantados de dois em dois metros, estrada fora. Transformou-se uma estrada bucólica numa avenida sem casas e para mais gasta-se imensa electricidade. E é para isto que se anda a montar parques eólicos no alto das serras. Ah, o progresso, o desejo de ser urbano e moderno de qualquer forma...


Outra demonstração da ânsia de "urbanidade" são as novas cidades e vilas. As candidatas ao galardão urbano lá conseguiram o seu objectivo: Senhora da Hora (tinha mesmo necessidade de vida urbana, com o Porto e Matosinhos do outro lado da estrada), Samora Correia, Borba, Valença e S. Pedro do Sul(!) são agora cidades. Os meus pequenos parabéns, mas tirando, e a muito custo, Valença (já que a única cidade do seu distrito era até agora Viana), considero que nenhuma delas o mereceria ser. Aliás, freguesia alguma deveria ser cidade, por maior que fosse. E os critérios de atribuição (sobretudo os "históricos, culturais e arquitectónicos") deviam ser mais rigorosos. Para já, reina a total discricionariedade.


Por causa desta vontade sem razão, vemos vilas medianas a alcançar este estatuto sem razão aparente. Já aqui deixei alguns exemplos. Dá-me arrepios só de pensar nas próximas a ser promovidas. Mais uma vez, a ânsia de ser urbano a todo o custo, de se poder dizer que se é "da cidade", de fugir da ruralidade como o diabo da cruz, leva não só a estes disparates como ao êxodo para os grandes centros urbanos, geralmente para os subúrbios, que crescem na directa proporção da desertificação dos centros. Um erro provinciano de resultados desastrosos. Como se viver numa aldeia ou vila, às vezes com outra qualidade de vida, fosse por si só uma vergonha. Provavelmente até o será, segundo a mentalidade pequeno-burguesa que converteu automaticamente a ruralidade em "atraso" e a vida urbana definitivamente em "evolução". Joguinhos semânticos mascarados de progresso, não percebendo que o mundo rural e o urbano são diferentes sem serem necessariamente inferiores ou superiores. E que além do mais foram os responsáveis por grande parte da destruição patrimonial do país, à boleia com o desaparecimento progressivo do espaço rural.

domingo, junho 14, 2009

Tradições minhotas de Monção a Tarascon

Aproveitei os feriados para ir ao Alto-Minho. Entre as celebrações do Corpo de Deus e a festa do mar em Âncora, só tardiamente me apercebi que em Monção era dia da ancestral Festa da Coca.


Como em todas as tradições em que S. Jorge mata o dragão, o combate entre o Bem e o Mal dá-se entre um cavaleiro e um gigantone com rodas, empurrado por vários homens, cobertos com a "carapaça" da coca, em forma de dragão malévolo, com um pescoço que se move. Tem lugar no centro da vila, na praça DeulaDeu, que relembra a grande heroína de Monção. O cavaleiro tem de cortar a orelha à Coca e só desta forma é considerado vencedor. O problema é por vezes o próprio cavalo, que foge com medo da figura, provocando o riso geral e impossibilitando a façanha a "S. Jorge". Esta é a tal festa que perdi e que o meu pai chegou a assistir noutros tempos da sua infância, que passou por aquela vila debruçada sobre o Minho.



A representação da Coca lembra-me a Tarasque, o monstro lendário, de enormes dentes, forte carapaça e cauda de escorpião que atormentava a Provença, e que segundo a lenda, terá sido amansado por Santa Marta, que ali andava em evangelização. A cidade de Tarascon (também conhecida pelo célebre Tartarin de Tarascon, das novelas de aventuras de Alphonse Daudet) deveria o seu nome à Tarasque. Alguma ligação haverá entre esta tenebrosa criatura e a Coca, já que em algumas cidades de Espanha, nas procissões do Corpo de Deus, surgem figuras simbolizando a Tarasca. Mais ainda: Monção está geminada com Tarascon-sur-Ariége, que fica já perto dos Pirinéus mas cujo nome não deverá ser alheio à origem do da Tarascon da Provença. Mais indícios que indicam que entre a Tarasque e a Coca haverá um qualquer parentesco. E que há sempre um santo por perto capaz de os dominar.

terça-feira, junho 09, 2009

Benfica, Benfica...


O Benfica rescindiu com Quique, após várias semanas de indefinições em que as relações se envenenaram visivelmente. Contratou o Richard Gere do futebol português, porque "sabe como se joga em Portugal" e "é uma raposa" (embora tenha sido claramente derrotado em casa pelo espanhol, apesar de desfalques no Benfica e de uma arbitragem muito caseira). Talvez pela pelagem brilhante. Com isto tudo, gastou-se precioso dinheiro, quebrou-se outra projecto técnico e volta-se a mudar de treinador, de esquema de jogo, talvez de mais jogadores, etc. E atrasa-se a pré-época. Resultado mais que previsível: mais um ano medíocre.


Agora demitem-se à força os órgãos sociais do clube e antecipam-se em 3 meses as eleições gerais para "permitir mais estabilidade directiva" (i.e. não dar tempo a que outras listas tenham tempo de se formar convenientemente).

Se achava que o projecto de Vieira estava esgotado, agora ainda tenho mais razões para não querer saia. Nem só de basquete vive o Benfica.

Não sei em quem hei de votar (aquele Bruno Carvalho não convence nem Jesualdo Ferreira), mas dia 3 lá estarei a exercer os direitos e a cumprir os deveres que emanam do meu cartão de sócio.

segunda-feira, junho 08, 2009

Já a pensar nas legislativas


Depois das europeias já se fazem contas às legislativas. A SIC lançou uma sondagem que atribui perto de 40% ao PS. Depois dos despistes de hoje, será bom terem alguma cautela.


Entre as diferenças que se diz que podem fazer com que as legislativas tenham resultados diversos das europeias estão os seus candidatos. Sócrates será ele próprio o candidato e não terá de auxiliar um errático como Vital. Ferreira Leite não terá a combatividade e a imagem renovadora de Rangel; Portas não terá Nuno Melo nem Diogo Feyo, dois dos seus melhores deputados. Tudo isso é verdade, mas os diversos candidatos distritais aí estarão e terão uma palavra a dizer. Também os candidatos às autárquicas tentarão aproveitar a onda para os seus embates, logo a seguir, e vice-versa, sobretudo nas principais cidades - Rio e António Costa podem ser importantes muletas. Já agora, o Bloco também já não terá os candidatos às europeias, que lhe emprestaram uma aura de moderação. Com as tiradas de Louçã ("o PSD teve pouco mais do que em 2005 com Santana e isso não é vitória nenhuma") e Rosas ("nós comemoramos a consolidação eleitoral, outros o facto de não estarem mortos"), a demagogia costumeira pode afastar alguns eleitores que neles votaram como protesto.


Nota curiosa: Paulo Rangel e Diogo Feyo são da mesma idade, são conterrâneos, formaram-se no mesmo curso e tiveram percursos profissionais semelhantes; apenas divergiram na escolha partidária. Agora voltam a sentar-se lado a lado no Parlamento Europeu, na bancada do PPE, embora eleitos por partidos diferentes. Ele há coincidências engraçadas.

domingo, junho 07, 2009

Primeiras impressões da noite eleitoral


- Vitória do PSD por números não muito longe das sondagens
- Derrota incrível do PS, abaixo de qualquer previsão
- Subida grande do BE, dentro do que se esperava
- CDU com um bom resultado, por pouco não conseguia o 3º
- CDS-PP aguenta-se bem, e como sempre teve mais votos do que o anunciado
- Pequenos partidos aquém do que prometeram (o MEP conseguiu apenas 1,5% dos votos)
- Brancos e nulos inesperadamente elevados
- Abstenção igual a si própria nas europeias: enorme. E nem sequer estava bom tempo
Sócrates é o principal derrotado da noite; o seu rosto grave e sem sorrisos assim o denotava; Vital é o rosto da derrota, levando o PS ao seu pior resultado desde os anos oitenta. A campanha da vitimização e as acusações da "roubalheira" voltaram-se contra ele. Parece-me que o seu fugaz regresso a terreno eleitoral mais não foi do que o esboço de um zombie político, cuja carreira nessa área há muito tinha acabado.
A CDU tem um resultado melhor do que o previsto e por pouco não ia ao 3º lugar. Sem figuras de proa, é possível que a enorme manifestação em Lisboa lhes tenha dado outra dinâmica. O Bloco pode cantar vitória, pelo 3º lugar e 3º deputado, em cima da meta. Mais mérito de Portas e compagnons de route do que de Louçã, que já apareceu com as "superioridades morais" do costume.
O CDS-PP como sempre ficou além do que as sondagens previam e conseguiu mesmo a melhor percentagem de há sete anos para cá. Meteu dois deputados, contra todos os vaticínios, e tem legitimidade para estar satisfeito.
Vencedor da noite: Paulo Rangel. Manuela Ferreira Leite tem o seu mérito, como é evidente, mas Rangel, que apareceu há relativamente pouco tempo na política nacional, mostrou uma imagem de rigor e combatividade que era o tónico de que o partido provavelmente precisaria. A vitória é escassa, apesar da diferença de 5 pontos para o PS, mas imprimirá certamente uma maior dinâmica eleitoral ao PSD, que parte agora reforçado para novos combates.
Ainda ontem, num jantar com amigos que também travaram conhecimento com Rangel carteiras e nas orais da faculdade, havia quem dissesse que ele iria "ser um dia Primeiro-Ministro". não sei se isso vai acontecer ou não, mas o certo é que Paulo Rangel marcou hoje definitivamente o seu espaço e tornou-se uma figura de monta na política nacional.

sexta-feira, junho 05, 2009

O declínio dos comícios



No livro de memórias de Freitas do Amaral, (A Transição para a Democracia, Bertrand Editora), publicado há uns meses, está uma fotografia nas páginas centrais que mostra um comício do CDS no Porto, em 1976. Pasma-se perante a amplitude da manifestação, com gente a perder de vista, provavelmente enchendo toda a Avenida dos Aliados. Noutras imagens vêem-se outros comícios dos centristas, em Ponte de Lima, Trás-os-Montes e Póvoa do Varzim (ocupando toda a praça de touros). Durante o PREC havia manifestações gigantes, como os comícios de Soares na Fonte Luminosa e nas Antas, Otelo cobrindo praças em Setúbal e partidos mais pequenos, como a UDP e o PDC, levando milhares ao pavilhão dos desportos de Lisboa. Claro que vinham de mais do que uma localidade, mas ainda assim são imagens que espantam. O CDS a cobrir os Aliados? Hoje, para fazer um comício no Porto, consegue umas mil pessoas no máximo e com "brindes" à mistura.

Um dos indícios do crescente desinteresse pela política, a partidária, pelo menos, é a imagem dos comícios cada vez mais vazios e trombudos, com uns monos arrebanhados pelas secções locais, normalmente com cantoria e comida à mistura. O contraste entre os comícios de hoje - especialmente se forem das europeias - e os de há 30 anos é gritante. E talvez nem seja preciso ir tão longe no tempo. Nos anos oitenta, a "onda laranja" de Cavaco cobria as Alamedas e Aliados e demais terreiros deste país. Na altura da decisão entre Guterres e Nogueira, não faltava animação (e gaffes), arruadas concorridas, líderes partidários a dançar nos mercados e comícios a atrair multidão a rodo.

Os comícios de rua pouco a pouco foram sendo trocados pelos "jantares-comício", em que a malta lá saía de casa a troco de um repasto para ir ouvir os candidatos da sua preferência. Também os artistas musicais encontraram um novo nicho de mercado, tocando nas acções de campanha de qualquer partido (ainda me lembro de um comício do PSD, no Porto, em 1995, em que findos os discursos de Cavaco e Nogueira redobrou a assistência quando os GNR subiram ao palco). A paixão e a vibração da política foram trocadas por umas festarolas como alguma oratória política pelo meio.

Estas europeias têm sido confrangedoras nesse aspecto. O PS não consegue encher um pequeno pavilhão em Coimbra, terreno de Vital, mesmo com a "estrela convidada" Zapatero. O PSD fica-se por sessões de esclarecimento e conferências, o CDS por jantares e o Bloco por acções de rua. Os extra-parlamentares já vão com muita sorte se alguma televisão filmar o candidato e os dois ou três membros da "comitiva". Só a CDU, graças à sempre fiel militância do PCP, ainda consegue organizar comícios que se vejam, em teatros ou nas praças, por vezes com surpreendente dimensão (vejam-se os oitenta mil da sua manifestação em Lisboa).

Nesse aspecto estou de acordo com Sócrates. Os comícios são sempre o sumo das campanhas, a ocasião para o entusiasmo se espalhar, o ponto de encontro por excelência entre os candidatos e seus apoiantes. Levar escassas centenas para uma acção num restaurante apenas prova a falência das ideias e a falta de atracção pela política, tornada coisa corriqueira e mesquinha, e a classe respectiva patética e pouco ou nada convincente. A praia, se o dia estiver bom, é tão mais atraente que as filas (?) nas urnas. É que há sinais que mostram o alheamento das pessoas por aquilo que deveria ser do interesse geral. Um comício é um sinal válido e um barómetro fiel. Cabe aos que os organizam meditar porque é que nem com "atracções musicais" as grandes enchentes de outrora, com bandeiras e slogans, quais claques de futebol à solta se conseguem ver nas clareiras destes grupinhos de militantes que tristemente acorreram a esta campanha das Europeias.
David Carradine 1936 - 2009



Há uns anos, David Carradine, conhecido pelos seus filmes de artes marciais, voltou à ribalta com Kill Bill, de Quentin Tarantino, em que era o objecto da vingança de Black Mamba (provavelmente o papel mais emblemático de Uma Thurman), por si abandonada no altar e quase morta.

Ontem, o acto que dava nome ao filme acabou por ser concretizado pelo próprio "Bill".

quinta-feira, junho 04, 2009

O Espaço de Vital


No cartaz da JS de que falei há dias houve um pormenor de que na altura não me dei conta, e que passou ao lado de todos, a começar pelos seus autores: o slogan "A Europa é Vital". Sabendo que o cabeça de lista do PS é federalista, esta frase é muito infeliz. É que recorda outro modelo europeu de federação muito em voga nos anos 30 e 40, o do Espaço Vital, o Lebensraum alemão, que motivou a expansão do 3º Reich e a 2ª Grande Guerra. O trocadilho acaba por ser inevitável. Por sorte, o slogan e o nome Vital não são de nenhum candidato de outro partido, senão ainda tínhamos o "Professor Doutor de Coimbra", que muito tem falado de "roubalheiras", a tecer acusações de nazismo e fascismo. No fundo, nada que ele não tenha já feito de forma mais velada.

quarta-feira, junho 03, 2009

Relembrar Lucas Pires


(Imagem tirada do Ephemera, via Portugal dos Pequeninos)

A minha atitude é sempre de infinita atenção. Tanto não adormecer sobre uma história que galopa, não adormecer em cima do cavalo - estar atento. a atenção é a única regra. (1983)


A poucos dias das "europeias", resolvi folhear e ler em parte A Revolução Europeia, uma antologia de textos de Francisco Lucas Pires publicada pelo gabinete português do Parlamento Europeu. Antes de se pensar em"discutir a Europa" de forma abstracta e blasée, confundindo-se agruras nacionais com problemas comunitários que nem sempre são os mesmos, ou magicando em "cartões amarelos" ao "sistema", faríamos melhor em ler o legado dos que pensaram na Europa na sua estrutura comunitária, mas também na sua essência e nas suas especificidades e contradições, como Lucas Pires. Também na blogoesfera nos chegaram os seus escritos. É claro que com o passar dos anos alguns ficaram datados, mas há sempre matéria para nos fazer pensar. E fica-se sempre a pensar em que lugar ou no que estaria ocupado o antigo dinamizador do "Grupo de Ofir" e líder do CDS se ainda fosse vivo.

A despedida dos guerreiros


No post anterior falava de um jogador quase esquecido. Neste fim de semana, despediram-se dos relvados três futebolistas que certamente não o serão - até porque fazem parte da era da televisão, da internet e do marketing da modalidade, em que a imagem por vezes conta tanto como as jogadas. Falo evidentemente de Paolo Maldini, o mais internacional de sempre pela Squadra Azurra, o capitão do Milan que se sagrou por cinco vezes campeão europeu, o melhor defesa esquerdo de sempre, que na sua carreira só conheceu duas camisolas, a azurra da Selecção e a rossoneri de Milão; Pavel Nedved, o virtuoso maestro checo, visível ao longe pela sua melena loura, que comandou o seu país ao longo de vários torneios e que merecia mais troféus; e, obviamente, Luis Figo, o ídolo de toda uma geração, o mais internacional jogador português de sempre, o génio que despontou com os campeões de Riade e Lisboa e nunca mais parou de somar sucessos, atingindo o auge em 2001 - em que ganhou o prémio da FIFA de melhor jogador do Mundo (depois do Ballon d ´Or de melhor da Europa no ano anterior) e a Liga dos Campeões. Figo, o melhor de sempre desde Eusébio, de quem guardo um autógrafo do tempo em que ainda estava no Sporting, numa tarde em que o encontrei num hotel do Porto, e com quem viria a cruzar-me anos mais tarde em Frankfurt.

É todo um capítulo da história da modalidade que se vira, com a partida destes mitos dos relvados. E uma certa época que acabou: o futebol dos anos noventa.


domingo, maio 31, 2009

Jaguaré, o primeiro "loco latino" das balizas



Passada a final da Liga dos Campeões, em que os falhanços de Cristiano Ronaldo (ou, pela linguagem SMS, CR7), que dariam grandes golos, determinaram a vitória do Basel da Catalunha, passemos às memórias futebolísticas, aquelas do tempo em que mesmo pela rádio era difícil acompanhar um jogo, e em que as transferências entre a América do Sul e a Europa se faziam de transatlântico. Recordo Jaguaré, estrela brasileira dos anos trinta.

Jaguaré Bezerra de Vasconcelos nasceu no Rio de Janeiro em 1940, em data incerta. De origem modesta, começou a trabalhar como estivador, o que decerto o dotou de braços poderosos, e jogava a guarda-redes como passatempo, como de resto era comum na época. Até que chegou a o Vasco da Gama e à Selecção Brasileira, tendo-se tornado um ídolo das massas. Provavelmente foi o elemento primordial da enorme linhagem dos loucos guarda-redes sul-americanos, que teve como recentes representantes Higuita e Chilavert. Defendia com apenas um braço, driblava atacantes adversários e tinha como imagem de marca fazer girar a bola com o dedo indicador, qual malabarista.
Numa digressão à Europa, em princípios dos anos trinta, O Vasco de Jaguaré jogou em Espanha e em Portugal, contra uma equipa formada por jogadores do Benfica e do Casa Pia...e ganhou. A tournée produziu efeitos e o Barcelona contratou logo o guarda-redes, mas como teria de ser suplente do mítico Zamora, regressou logo ao Brasil, para representar o Corinthians, até que o Marselha o contratou em 1937. Tornou-se um ídolo na Provença, conquistou o título de campeão de França, e, momento histórico, marcou um penalti, no que se crê ter sido o primeiro golo de sempre marcado por um guarda-redes.

Com a aproximação da Guerra, Jaguaré deixou França e regressou ao Brasil. O que poucos sabem é que teve uma breve passagem pelo Académico do Porto, clube que na altura tinha uma equipa na 1ª divisão e que posteriormente abandonou o futebol profissional (teve êxito noutras modalidades, como prova a carreira da sua atleta Rosa Mota). Não sei se por oportunidade na escala entre Marselha e o Brasil, se por necessidade de emprego, o certo é que teve uma breve passagem por Portugal.
Depois do percurso europeu, voltou definitivamente ao Brasil. Com a carreira acabada e o dinheiro gasto, voltou à estiva, começou a beber e afundou-se na cachaça. O antigo artista dos relvados estava no fim. Em 1946, num desacato com a polícia acabou por ser espancado e morreu dos ferimentos, tendo sido enterrado como um vulgar vagabundo.
Triste fim para um autêntico aventureiro da bola e da sua época. "Le Jaguar", como era conhecido em Marselha, ofereceu saltos e emoções aos espectadores dos estádios, quando o futebol era ainda amador e os seus praticantes jogavam por amor à camisola ou simples gozo. Cruzou os oceanos rumo a uma Europa em ebulição, espartilhada por paixões e ódios. Passou por Espanha nos dias pré-Guerra Civil e espantou os estádios de uma França marcada pelo governo da Frente Popular, pela ameaça alemã e pelos confrontos intelectuais e de rua entre comunistas e socialistas contra os legitimistas Camelots du Roi, a Croix de Feu e o nacional sindicalista Faisceau. Pelas diabruras armadas em campo e por ser, segundo os anais do desporto, o primeiro guardas-redes goleador, tornou-se também por direito próprio o primeiro dos "locos latinos", os guarda-redes sul-americanos para quem, acima de tudo, o que conta é o espectáculo.


(Mais informação aqui e aqui)

sexta-feira, maio 29, 2009

Ruben A.



Se fosse vivo, Ruben A. (nome literário de Ruben Andresen Leitão), rapaz do Campo Alegre que faz referência na sua autobiografia à antiga Travessa do Sobreirinho, faria hoje 89 anos. A dita travessa é actualmente uma rua com o nome do escritor (nela situa-se a Casa das Artes, futura Cinemateca) e fica a dois passos de onde moro. Posso, com ligeiro abuso, considerar o homem que inventou a sigla "PPD" para o partido laranja como meu vizinho extemporâneo.

quarta-feira, maio 27, 2009

Educação sexual e o direito ao i-Pod


A discussão sobre o ensino de educação sexual tinha de dar numa tentativa de "fracturar" o tema. Vindos da costumeira JS, que em ano tri-eleitoral precisa ainda mais de ganhar votos ao Bloco. A educação sexual é matéria cuja implementação no ensino há muito que se discute. As divergências mais esperadas rondam a obrigatoriedade ou não da disciplina e as matérias a ser leccionadas, dependendo da ideia que os pais têm do assunto. Depois de anos de discussão, e apesar de severas desconfianças da Associação de Planeamento Familiar, não vejo assim com maus olhos a entrada de tal inovação no plano curricular, desde que seja dada nas competentes disciplinas, ou seja, em ciências naturais. apesar de tudo, confio no bom senso de Daniel Sampaio.


Em quem não tenho confiança absolutamente nenhuma é nos meninos da JS e nos seus apologistas jornalísticos. A representante da esquerda radical na redacção do Público, São José Almeida, atirou com um abjecto artigo na edição do último sábado, em que acusava os deputados do PS que se opõem à distribuição gratuita de preservativos nas escolas de medo ao "lobby católico". No meio da sua defesa incansável da JS e das propostas do seu "genial" dirigente, Duarte Cordeiro, e com uma linguagem em que só faltariam os termos "medieval" e "obscurantismo", a senhora não se deu certamente conta de que a oposição à ideia da se andar alegremente a dar preservativos às meninas e aos meninos ia da direita até ao centro-esquerda, e que só a partilhavam a ala mais à esquerda do PS, o Bloco e o PCP, minoritários. E que isso pode apenas ser motivado por um mero sentido de responsabilidade. Se os adolescentes quiserem adquirir preservativos, há farmácias e máquinas para o efeito. E sim, pode haver influências e princípios religiosos que levem a que as pessoas pensem de uma certa maneira, por muito que isto custe entender a São José Almeida (que estranho, usar nome tão canónico), que provavelmente também escreverá motivada pelas suas ideias radicais. A religião e o sentido do transcendente sempre influenciaram os homens e inculcaram-lhes princípios, e é com base neles que fazem as suas escolhas. O problema é que a mera referência a isso desperta logo os laicistas de serviço, que vêm logo "um ataque ao estado laico". Não só querem as referências religiosas fora do espaço público como pretendem ainda afastá-las da consciência dos que crêem.


Cada um acredita no que quer, mas não me parece nada gravoso que os responsáveis nacionais sejam influenciados pela doutrina cristã e pelos ensinamentos da Igreja, que afinal foram os que nortearam o país na sua história e que fazem parte do seu ADN. Bem pior e bem menos isento é que as normas que regem a sociedade fiquem sob os ditames de uma juventude política que tudo faz para que olhem para ela e para impedir a fuga de votos, e que como todas as "jotas", é composta sobretudo por carreiristas e oportunistas.



Ah, e o último cartaz da JS tem imensa piada: diz que "a Europa é Vital" (perceberam a graça, não perceberam? Europa...Vital com maiúscula...), e entre os slogans aparece um curioso "pelo direito ao TGV". Afinal, o comboio rápido não é uma necessidade, nem ao menos um "desígnio": é um direito, que por certo o Prof. Vital quererá que seja aposto nos Direitos Económicos, Sociais e Culturais da CRP. Se assim é, na plena posse da minha cidadania, invoco o meu direito ao i-Pod, que não tenho nenhum. Prezados jotinhas socialistas, dá para fazer um outdoor com a inscrição "pelo direito ao i-Pod"?

terça-feira, maio 26, 2009

E os Gandhi sobreviveram aos Tigres


A derrota final dos Tigres Tâmil na semana que passou é a prova de que os mais musculados grupos insurgentes podem ser aniquilados quando pelo seu radicalismo agressivo mergulham no maelstrom do terrorismo. Durante quase três décadas, os Tigres puseram o Sri Lanka a ferro e fogo, fizeram recuar os maioritários cingaleses e humilharam os indianos. Comandados pelo carismático e fanático Velupillai Prabhakaran, os guerrilheiros com a designação oficial de Tigres de Libertação do Tamil Eelam chegaram a ocupar um terço da antiga Taprobana, com o auxílio da sua marinha de lanchas rápidas e da sua força aérea. Apesar da sua organização como uma autêntica força armada convencional, distinguiram-se mais pelos atentados perpetrados por bombistas suicidas, armados com cintos-bomba, os famigerados "Black Tigers", incluindo mulheres, que tanto inspiraram os posteriores terroristas islâmicos. Outra cruel imagem de marca era a cápsula de cianeto, que ingeririam caso fossem cercados ou presos.



O radicalismo de Prabhakaran ia contra qualquer ideia de autonomia, preferindo sempre o confronto à conciliação, e não hesitou em atacar as forças indianas de manutenção da paz na ilha, matando inúmeros soldados. Vale a pena recordar que a Índia prestava até aí algum apoio aos Tâmil. Mas a violência dos Tigres obrigou as autoridades do sub-continente a virar-se para Colombo, e mais ainda quando num atentado suicida assassinaram o primeiro-ministro Rajiv Gandhi. Poucos anos depois, também o presidente cingalês Pramasada sofreu igual destino, com o mesmo modus operandi. Os Tigres continuaram com os seus ataques constantes (incluindo ataques aéreos) e os seus atentados, até ao início do ano, em que uma fortíssima ofensiva cingalesa os acantonou num último reduto, até conseguirem eliminar Prabhakaran, e consequentemente obter a rendição incondicional. O fanático líder acabou por sofrer a sorte habitual dos que colocam a luta armada à frente das negociações e dos acordos e não parecem capazes de viver sem ela, um pouco à imagem do que aconteceu a Savimbi. No fim, nem a cápsula de cianeto conseguiu usar.


O conflito durou largos anos, e só ultimamente voltou a ser notícia nos noticiários do mundo. Apesar de toda a tragédia humana envolvente e dos milhares de civis encurralados entre duas forças, de onde saíram bastantes vítimas, não houve para com estes a mesma atenção e a mesma solidariedade que costuma haver com Gaza, o que prova bem que a importância de um conflito varia conforme as partes envolvidas e o seu grau de mediatismo.


Espera-se que com o fim anunciado dos Tigres, Colombo proceda agora à pacificação da ilha e dê aos Tâmil o necessário grau de autonomia, liberta que está da pressão da guerrilha. O mais irónico, ou mais inesperada lição de moral, é que no mesmo fim-de-semana em que Prabhakaran pereceu, o Partido do Congresso, chefiado por Sonia e Rahul Gandhi, viúva e filho mais velho da mais conhecida vítima dos Tamil, Rajiv Gandhi, e pelo primeiro-ministro Singh, ganharam as eleições na União Indiana e consolidaram o poder do Partido do Congresso.

segunda-feira, maio 25, 2009

Nem os sofismas os salvam

Sporting da Covilhã = Serra da Estrela = Montes Hermínios = Hermínio Loureiro = Oliveira de Azeméis


Estive no Bessa, depois de anos de ausência, com mais uns seis mil espectadores (moldura notável para a Divisão de Honra). Assisti a um descalabro triste e desconsolado, que levou o Boavista à 2ª B, escalão do qual saíra há 40 anos, quando aquele campo era ainda um pelado. À laia de Octávio Machado, o silogismo primário de cima deveria explicar a dramática queda em detrimento da Oliveirense, por coincidência o clube da cidade do Presidente da Liga Hermínio Loureiro, que muito provavelmente será o seu próximo presidente da câmara. Mas nem isso serve de pretexto. Os nervos traíram os axadrezados, que foram goleados pelos serranos quando bastava o empate para a manutenção (a Oliveirense também empatou). Acabou por ser o corolário de um ano muito complicado, com um passivo gritante e salários em atraso.


Pelo mesmo caminho seguiu o Belenenses, rumo à Honra (que ironia!). Significa isto que os dois únicos clubes que foram campeões nacionais à parte os 3 grandes desceram no mesmo fim de semana, deixando o futebol português cada vez mais afastado dos seus clássicos. Quem sabe se por não terem recebido apoios das respectivas câmaras, que se endividaram por outros. De semelhante indiferença não se pode queixar o promovido União de Leiria, que não pagou um tusto pelo seu estádio de trinta mil lugares, ao qual comparecem quinhentos sofredores de 15 em 15 dias, e que é um sorvedouro para a edilidade.



Triste fim de semana desportivo. Valham-nos o histórico algarvio Olhanense, de volta aos grandes após 35 anos de deserto, e o Chaves, que regressa enfim ao futebol profissional.

quinta-feira, maio 21, 2009

O último filme da sua vida





Morreu esta noite João Pedro Bénard da Costa, o homem que esteve durante quase trinta anos à frente da Cinemateca Nacional. O cinema está de luto. E a crónica jornalística. E a difusão do pensamento cristão e dos seus pensadores de relevo. E a cultura em geral, com o desaparecimento de um homem que dava valor à memória, e que nos dava conta, através das páginas dos jornais onde escreveu durante quase meio século, da sua vivência cinéfila, cristã e literária.

Adenda: ao ler o texto de hoje de Pedro Mexia sobre o seu antigo director, no Público, relembro aqui outro artigo, este no DN, igualmente acerca Benard, que o mesmo Mexia escreveu há anos, quando ainda nem o devia conhecer. E ainda a cidade favorita de JBC, Mântua.



quarta-feira, maio 20, 2009

Blogotúlia com Paulo Rangel


Ainda devia estar no comboio quando começou a tertúlia no Café Nicola, e por isso só cheguei a meio, perdendo a apresentação e as discussões da 1ª metade. Eis um relato, entre o simplificado e o denso, do que ouvi.

O que se seguiu ao intervalo trouxe confirmações do que já se sabia, tais como a opção pelo federalismo (o mainstream não é ser federalista, é ser eurocéptico), as diferenças para o PS no investimento público ("target, timely, temporarily"), recusa do referendo ("quem for a favor tem aqui a oportunidade de o mostrar pelo voto").

Mas falou da também a sua visão económica - que se traduz numa visão mais liberal do que a média portuguesa mas dentro dos parâmetros do Estado Social Europeu, que considerou, apesar das diferentes concretizações e do seu grau de aplicação, ser o mesmo. Do ponto de honra na recondução de Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia, e da confusão no PSE quanto a esse assunto. De uma certa "identidade europeia", assinalando provas disso mesmo, como a supressão de fronteiras, a moeda única e até os programas ERASMUS. Da sua própria visão dos "costumes", reafirmando-se como "católico progressista", ficou a intransigência quanto ao aborto e eutanásia, a sua posição gradualista de uma hipótese de "terceira via"no caso do "casamento gay" e a oposição à nova lei do divórcio, que considerou que transforma o casamento numa "união de facto reforçada", misturando duas figuras que deveriam ser distintas.


Para o fim, ficaram questões que devido à inexorável passagem do tempo, ficaram para trás. Depois de uma "questão" de Miguel Morgado, à partida sobre uma assembleia constituinte europeia que acabou por ser uma sabatina sobre sistemas constitucionais comparados (não tenho bem a certeza porque cedo perdi o fio à meada), com concordância algo condicionada do candidato, falou-se finalmente das relações externas. Falou brevemente da possibilidade que Portugal tem em trazer dinâmicas à UE pelo seu relacionamento privilegiado com África e Magrebe (com a concorrência da França), América Latina (com proeminência da Espanha) e mesmo com a Ásia. Nas relações com o Leste, Rangel avisou que não se podia abandonar a Sérvia, depois do golpe do Kosovo Lembrou casos relativamente simples de possíveis alargamentos, como a noruega, Islândia e Suíça. E falou dos casos verdadeiramente bicudos; a Turquia, para começar, a cuja entrada deixa sérias dúvidas, embora não se oponha frontalmente, mas que deveria, caso isso não acontecesse, ser objecto de uma sólida parceria estratégica por parte da UE; a Ucrânia, que traz consigo não apenas uma parte russófona e russófila mas também a Crimeia e a base de Sebastopol; o Cáucaso, em especial a Arménia e a Geórgia, com problemas semelhantes aos dos ucranianos, mas também parte da identidade europeia; a Bielorrússia, em que Lukashenko parece ter iniciado uma tímida aproximação à UE. E por fim a Rússia; Paulo Rangel lembrou João Paulo II, a sua visão de uma Europa ao Urais e o seu combate não somente ao comunismo mas igualmente ao capitalismo selvagem; e que a cultura russa, começando na literatura e na música, era parte integrante da cultura europeia. Ou seja, nunca a UE poderia olhar para o gigante russo como uma entidade totalmente estranha, mas a entrada na organização/federação já lhe parecia exagerada senão impossível.

(Já que se falou de tantas possíveis entradas, é pena que ninguém tenha lançado as hipóteses Israel e Cabo Verde, com tanto direito como a Turquia).

Final em beleza: na senda da recordação de Karol Woytila, a ideia de que em Portugal é muito difícil falar-se publicamente utilizando linguagem religiosa e teológica, quando se usa para todas as outras vertentes, porque logo aparecem demagogos bramindo pela "violação do estado laico". Uma ideia afinal tão fiel às liberdades públicas e políticas que Paulo Rangel pretende defender, em S. Bento ou em Estrasburgo.

terça-feira, maio 19, 2009

Ir onde estão os mais fracos
Pode-se falar do "esboroamento do cristianismo", ou que "cada vez mais as pessoas se fastam da Igreja", mas não há dúvidas que na última semana o catolicismo marcou pontos. A nível externo, com a visita do Papa à Terra Santa, onde visitou todos os locais de relevo por onde o Nazareno espalhou a sua Palavra, e em que sem declarações incendiárias e com a devida prudência, não deixou de condenar por igual o Holocausto e o muro da Cisjordânia, apelando emocionada mente ao fim das hostilidades. Claro que houve críticas, dos descontentes e fundamentalistas de sempre, numa terra devastada por fanatismos de toda a ordem.
Por cá, Nossa Senhora de Fátima saiu da capelinha e juntou-se às comemorações dos cinquenta anos do Cristo-Rei. Ouvir um responsável camarário de Almada dizer que nunca na cidade da outra banda tinha havido tal ajuntamento de pessoas (embora haja quem diga que há cinquenta anos houve mais) tem o seu significado. E muito embora não seja um grande devoto de Fátima, pelo clima quase pagão que por vezes lhes está subjacente, gostei de ver a singela figura da Senhora circular por entre hospitais e zonas socialmente degradadas, como o Intendente, e onde parece que Deus está ausente. Porque era precisamente para estas almas falhas de esperança e no fundo da vida que Maria deu à luz o Seu Filho.

quinta-feira, maio 14, 2009

Os danos da imprensa desportiva

Com um melancólico fim de campeonato e um empate bisonho frente ao Trofense, que tive a desventura de assistir ao vivo, Luís Filipe Vieira veio anunciar que iria haver "mudanças" no futebol do Benfica. Tanto bastou para que nos dias seguintes toda a imprensa desportiva viesse logo anunciar a saída de Quique Flores e as eminentes contratações de Jorge Jesus, Scolari, e o que mais se imagina.


Já se sabe que a imprensa desportiva, sem mais nada que contar, se agarra inevitavelmente ao Benfica, e em tempo de crise de resultados a sofreguidão aumenta exponencialmente. É vê-los a prever técnicos, anunciar jogadores "a caminho" e discorrer sobre as divergências dos dirigentes. O modelo é sempre igual. Mas agora ainda é pior: sem que haja qualquer indicação nesse sentido, já nem põem a hipótese remota de Quique ficar mesmo no próximo ano; os jogos que restam são vistos como um pró-forma. Ora mesmo que não esteja em jogo nada de substancial, seria penoso ver o Benfica vacilar de novo nesses desafios. Ficar em terceiro já é mau, mas em quarto e quinto é ainda pior, correndo-se o risco de se quedar atrás do Nacional da Choupana! Com que moral irá Flores orientar a equipa nos próximos jogos com toda a imprensa a deitar-se a adivinhar o seu sucessor? É de temer o pior. Em casos normais, o Braga nem seria um bicho de sete-cabeças, até porque já não demonstra o fulgor de há uns tempos (apesar da goleada ao Belenenses, que parece-me que se deveu mais à ansiedade e à prestação desastrosa da Cruz de Cristo), e muito menos o último adversário em casa, precisamente o Belém, mas até do jogo com estes tenho receio. Sem espírito para trabalhar e se se confirmar o guia de marcha, Quique Flores nada terá a esperar e já estará com a cabeça noutro lugar.

Mesmo que tenha tido um mau desempenho, o melhor ainda seria que ficasse, para que houvesse alguma constância e estabilidade. Mas assim parece impossível. Os nossos jornalistas desportivos, sem mais assunto em que pegar, pura e simplesmente regurgitam manchetes. E isso influencia e tem consequências concretas, provocam a desconfiança e a suspeita e podem acarretar decisões indesejadas. E nesta altura podiam falar de tanta coisa: do futebol internacional, da final da Taça do Rei que juntou os dois clássicos vencedores da prova, Athletic de Bilbao e Barcelona (que venceram, infelizmente), como da taça de Itália entre a Lázio e a Sampdoria, dos finais de andebol, etc. Mas não, optaram pelo rumor em detrimento da notícia factual. Só confirma que os jornais desportivos têm "informação" a mais e assuntos a menos, e que ocupam um lugar demasiado destacado na imprensa nacional para a importância que têm. Que saudades dos tempos em que A Bola, o último jornal do Bairro Alto, se publicava apenas duas vezes por semana. Essa é que era a dimensão acertada.





Há quinze anos dava-se este embate sublime, uma das vitórias mais gloriosas (e saborosas) de sempre. Como vão longe, esses tempos! Depois disso, o dilúvio.

quarta-feira, maio 13, 2009

O Fascismo de braços cruzados


Parece que agora estar de braços cruzados em outdoors de campanha eleitoral passou a ser uma forma de fascismo. Doravante, quem estiver em momento de pausa e de braços cruzados será imediatamente denunciado pela virtuosa União de Resistentes Anti-Fascistas. Acho muito bem: afinal de contas, é uma posição ligada ao ócio, e, por consequência, à burguesia exploradora e inimiga do trabalho. Espera-se que no seu próximo artigo Boaventura Sousa Santos desenvolva os tópicos sobre o novo Fascismo-Braçocruzadismo. Revolução sempre! Braços cruzados nunca mais!

terça-feira, maio 12, 2009

Um debate com todos


Infelizmente só pude ver a segunda metade do debate das Europeias, com os 13 candidatos, no belíssimo espaço do Museu da Electricidade, em Lisboa. Afinal havia espaço e tempo para todos, e sem os aplausos e chinfrineira do público a coisa correu razoavelmente bem. Pelo pouco que vi, não consegui ficar com uma ideia de todas as candidaturas. Havia candidatos que não conhecia, como o do Partido Humanista e o do MMS. Alguns são bloggers. A disposição esquerda/direita provocou-me algumas dúvidas (com o MEP, por exemplo).


Do que ouvi, e menos do que queria, Paulo Rangel esteve demasiado virado para a crítica interna no seu apelo final; Nuno Melo e Miguel Portas iam com a lição bem estudada. Ilda limitou-se a desfiar a bobine, embora tenha feito valer a sua experiência em Estrasburgo. Gostei de ver Laurinda Alves recordar os "pais da Europa" e o espírito cristão que levou à constituição da CECA, já que a memória é tantas vezes abastardada. Do Partido Humanista viram-se inócuas boas intenções. Do MMS também pouco retive. O Frederico, pelo PPM, desafiou abertamente a RTP e parece-me que saiu penalizado por isso (pena a troca "Nobre Guedes", por Nobre da Costa, no fim, e o esquecimento de Calvo Sotelo, em Espanha, mas o tempo era escasso). Carmelinda Pereira deve-se achar em 1976 (nacionalizar a banca para ser gerida por comissões de trabalhadores? Deus meu!). Orlando Alves mostrou-se combativo, como determina o lema do partido, mas com moderação. Alguma moderação também da parte de Humberto Nuno Oliveira, mas com as ideias já bem conhecidas. Quartim Graça pareceu-me ponderado mas mais discreto do que o desejável. Quanto a Vital Moreira, se dúvidas havia, dissiparam-se hoje: como cabeça de lista é um erro crasso. Mantém toda a presunção de "lente de Coimbra", tentou negar o indesmentível (a promessa de referendo ao Tratado Europeu) de maneira inconcebível, não estava totalmente dentro das matérias e nem sequer conserva a sua antiga qualidade, de resposta fácil e aguçada, que lhe permitia outrora esgrimir com os seus floretes verbais de forma muito eficaz. Cada vez que aparece, o PS perde votos, e nem as "Marinhas Grandes" ocasionais lhe valem.


Tirada inesperada da noite, de Miguel Portas: "que a direita ouça por uma vez os bispos quando falam da emigração, porque falam bem". Espera-se nos próximos dias o consequente protesto da Associação Ateísta pela "vergonhosa referência a uma confissão religiosa num debate laico".
Voo directo para a Grécia

Descobri que há voos directos ente Hamburgo e Atenas. Deve ser uma viagem interessante, esta, do Mar do Norte à Ática. E parece-me que haverá com certeza quem as aprecie devidamente.

quinta-feira, maio 07, 2009

Nasceu o I



Lançar um novo jornal diário na crise actual que afecta em particular o sector da imprensa revela audácia. O I, o anunciado periódico dirigido por Martim Avillez de Figueiredo, deu-se hoje finalmente a revelar. O ABC do PPM (ainda não percebi a função que ocupa na publicação, mas ao menos julgo que compreendi agora o sentido do nome do blogue) tem-no publicitado insistentemente, e ele aí está. No meio da tempestade jornalística que se faz sentir, será interessante verificar nos próximos tempos como se aguenta o I.

Tinha de ser a equipa da moda

Não sei como se diz "gatuno" em catalão, mas se não existia tal palavra, têm de a inventar. A tão desejada final entre Cristiano Ronaldo e Messi vai mesmo realizar-se, e para isso os catalães contaram com um misto de ajuda da arbitragem e de sorte inaudita. A tal equipa que "pratica o melhor futebol do mundo" e à qual nenhuma outra parecia conseguir travar só obteve o passaporte para Roma de forma medíocre e enviesada. A filial espanhola do Basileia vai ficar na história, sim, não pelos golos que marca mas como uma das que mais injustamente chegou a uma final europeia. Agora é esperar que o Melhor Jogador do Mundo trate da saúde a essa gente do canto do país vizinho. Quanto ao Chelsea, depois do golo do Liverpool que nunca se saberá se entrou das meias finais de 2005, da derrota em grandes penalidades da final do ano passado, e agora disto, deu mais um passo em frente para vencer o galardão de equipa mais desafortunada da última década.

terça-feira, maio 05, 2009

Tolices em cadeia

Alguns membros daquela alegre confraria que se dedica a publicar livros relatando os seus hábitos de pilhagem desenfreada e que dá pelo nome de Super Dragões (ou "gaiatos", para outros) assaltaram a loja da irmã de Cristiano Ronaldo. Percebe-se que tenha sido logo essa, como vingança pelo torpedo que CR7 enviou há dias para o fundo das redes de Helton. Estranho é vir do mesmo colectivo que volta e meia acusa os adversários de serem "invejosos". Se a moda pega, vamos ver tudo quanto é lojas de familiares de avançados serem assaltadas por adeptos dos clubes a quem esse jogador marcou golos.
Por falar em Madeira, Alberto João Jardim veio dizer que a equipa do Marítimo, tirando a defesa, devia ser "saneada" e "rifada", e que o plantel "é fraquíssimo". Já se sabe que o presidente do Governo da Madeira intromete-se em tudo o que diz respeito ao arquipélago, incluindo futebol, que aliás já lhe valeu uma monumental vaia em pleno estádio dos Barreiros. Semelhantes opiniões de um político sobre o seu clube só as vi de Berlusconi, que interrompeu uma programa televisivo para criticar as opções do treinador do seu Milan.
E a propósito de Berlusconi, a mulher de "sua Emittenza" pediu o divórcio, farta das tropelias do marido. e como reagiu o primeiro-ministro italiano? Afirmando que tudo não passa de "manobras da oposição de esquerda", que teriam influenciado a cônjuge. É neste patético estadista, neste projecto de Mussolini de Carnaval, como diria o capitão Haddock, que os italianos cada vez mais confiam os seus destinos. Na sua síntese, é um quadro arrasador do que é a Itália hoje em dia.

segunda-feira, maio 04, 2009

Vasco Granja


Morreu esta noite Vasco Granja, aos 83 anos de idade. Para quem passou a infância nos anos oitenta, é uma figura incontornável. Deu a conhecer a toda uma geração desenhos animados do mundo inteiro e dinamizou o gosto pela "BD" (expressão por si cunhada) em Portugal. A caricatura e a recordação que dele fazem são desenhos animados dos países então do outro lado da Cortina de Ferro. Curiosamente não me lembro tão bem desses como dos mais conhecidos Hanna-Barbera e Warner Bross, que também passavam pelo seu programa; ficou-me sobretudo na memória o Gribouille, um simpático monstro francês de esponja que desenhava. Uma parte da memória da minha infância devo-a a Vasco Granja, que só me recordo de ver pessoalmente numa entrevista a Morris, o criador de Lucky Luke, há muitos anos, no Salão Internacional de Banda Desenhada do Mercado Ferreira Borges. Que descanse em paz, ou se não for possível, na confusão eterna do seu mundo fantástico.


Adenda: o Gribouille