quarta-feira, agosto 12, 2009

Ah, a moral republicana



Rodrigo Moita de Deus propôs à CM de Lisboa, em nome do Movimento 31 da Armada, a troca da bandeira municipal pela azul e branca, "agradecendo que a devolvessem". Depois da operação nocturna, o humor corrosivo continua agora nas palavras dos seus autores (ou membros do blogue), enquanto que os neo-carbonários parecem andar à nora e não perceber nada de nada. Entretanto, a PJ aproveitou a sua ida à CML para os levar à esquadra, com recurso à manha.


Claro que o episódio do 31 não pretendia levar-se demasiado a sério, mas tão somente chamar a atenção para a historiografia oficial da república com uma acção simbólica. Há quem já clame pelas "necessárias medidas legais" e quem, mesmo não sendo republicano, invoque o primado da lei e da ordem. É claro e indiscutível que estas devem imperar em qualquer sociedade que se queira sã e livre. Que era precisamente o que os republicanos não queriam, ao instalar o seu regime pela calúnia, pelo agit-prop, pelas bombas e pelos tiros. Pergunto-me que espécie de legitimidade terão os defensores republicanos da ordem pública, que se preparam para comemorar os 100 anos do 5 de Outubro, quando defendem a obra da carbonária? Que respeito pela lei e pelos símbolos nacionais podem invocar, eles que rasgaram a Carta e colocaram as cores do partido na bandeira nacional, acabando com o branco e azul que sempre tinham sido as cores por trás das quinas (ou até antes, em tempos do 1º Rei)? A demagogia tende a confundir-se com a hipocrisia.

Já agora, desde quando é que o municipalismo é pertença exclusiva do "ideário republicano"? É ver as tradições desde a Idade Média e o que do municipalismo escreveram os autores Integralistas, por exemplo.


Temos depois a usual tentativa de colar o rótulo de "meninos bem" a todo aquele que se reclama monárquico. O truque é velho, mas tende a perder eficácia, com a passagem do tempo e o crescente esclarecimento das pessoas. Ontem, no Público, Rui Tavares tentava fazer crer que se tratava de um grupo de brincalhões que errava o alvo porque "desrespeitaram a equivalência hierárquica" (por causa da bandeira municipal) e que a acção em si foi uma cópia do que os republicanos tinham feito, tratando-se consequentemente de uma "aculturação pela república", em que os monárquicos teriam perdido cultura própria.

Como Rui Tavares não é ignorante nem simplório, acredito que o texto fosse mais uma imensa laracha ao gosto da época, a não ser que se tenha espalhado ao comprido. Porque a ideia era uma demonstração simbólica da reposição da ordem legítima pré 5 de Outubro; por isso se substitui a bandeira da edilidade, que era a que lá estava; por isso se procedeu a tal acção, sem desacatos ou bombas. A "vassalagem perante a república" não faz por isso o menor sentido. Em termos de "aculturação", as diferenças ficaram vincadas.

Já a ideia de "meninos-bem", como disse atrás, é chão que deu uvas. Há monárquicos de direita e de esquerda, dentro e fora dos partidos, em todos os estratos sociais, nas universidades, nas artes e letras, na diplomacia, na imprensa e nas forças armadas. Se durante uns tempos eram reduzidos à imagem dos bigodes enrolados e capotes alentejanos (por vezes por culpa própria, fechando-se um pouco à sociedade), hoje só os néscios - ou os demagogos, descendentes directos dos governantes de 1911- é que recorrem à caricatura.

Restam algumas tentativas de menorização do caso, como o do repórter da SIC que dizia que "daqui a dias o caso vai cair no total esquecimento". Pela mediatização que colheu, incluindo o destaque no Público, não parece. Se outras se seguirem, então, vai ser o bom e o bonito. Paciência. Sempre é melhor do que os "marqueses da Bacalhoa", as bombas e os tiros, não é?

segunda-feira, agosto 10, 2009

...e a bandeira voltou ao seu lugar



 99 anos depois, a bandeira azul e branca volta a flutuar num edifício público, mas precisamente na CM de Lisboa, de onde havia sido retirada a 5 de Outubro. Uma acção nocturna da malta do 31 da Armada repôs a legítima bandeira para onde devia estar. Não sei se é um prenúncio ou uma acção cairá no esquecimento, mas uma coisa é certa: em Portugal há gente que sabe conjugar a audácia com o humor. Nem todos entendem isso. De qualquer forma, um abraço ao 31 da Armada, aos autores concretos da "gracinha" (e que graça teve!)e o desejo de que esta bandeira se multiplique aos edifícios públicos por esse país fora.


Quim como Duckadam

Quando defendeu 4 penaltis frente ao Milan, entregando deste modo ao Benfica a Eusébio Cup, Quim alcançou a marca do grande Helmut Duckadam, que com as suas manápulas deu um título de campeão europeu ao Steaua de Bucareste. E também aí o adversário tinha peso, o Barcelona, ainda por cima num jogo realizado em Sevilha. Isto promete, agora também na baliza!
















Raúl Solnado


Já tinha pensado por mais do que uma vez, vendo Raúl Solnado, que todo o país verteria uma lágrima quando ele desaparecesse. Hoje levaram-no a enterrar, entre aplausos, lágrimas e sorrisos de homenagem. Não faltou gente à sua despedida, e muito mais haveria se não estivéssemos em Agosto.


Sempre simpatizei muito com Solnado. Teve programas com mais piada, outro com menos, mas como pude ver hoje nos seus primórdios televisivos, foi o verdadeiro pioneiro da stand-up-comedy em Portugal, sem esse nome, mas muitos anos antes de Seinfeld nos entrar pela casa dentro. Era um homem simpático, generoso, mais galhofeiro que histriónico, e que acima de tudo nunca perdeu o nível nem a compostura. Pôs o país inteiro a rir com a Guerra e a História da Minha Vida, acompanhou sucessivas gerações de actores, até aos mais novos, como se viu pelas colaborações recentes com Bruno Nogueira. E ainda provou (até a si mesmo) que não era somente um humorista, mas também um soberbo actor dramático, tendo impressionado o seu papel sóbrio e desencantado como inspector Otero, em a Balada da Praia dos Cães. Morre antes dos oitenta anos, devido a velhos problemas de coração. Deixa-nos óptimas memórias e um grande legado de representação, humor e sobretudo de forma de estar na vida. Oxalá o aproveitem devidamente. Seria a melhor homenagem a fazer a Raúl Solnado e à sua já famosa máxima "Façam o favor de ser felizes".



domingo, agosto 09, 2009

Férias

Também entrei ontem de férias, vindo descansar uns dias para o sítio do costume. Lá para os dias vinte darei um salto aos Cárpatos, mas antes disso há que revigorar o corpo e a alma com o sal do mar, o iodo e o aroma dos pinhais e das camarinhas. O nevoeiro por vezes aparece, mas isso até se aguenta. O pior é a nortada, mas arranjam-se sempre sucedâneos à praia. Mas a blogoesfera e a saída de posts não fica esquecida, isso não. Quanto muito, ligeiramente menos constante. E mais relaxada.

Vingançazinhas e deputados paraquedistas


Ainda falando da questão das listas de deputados do PSD, parece-me que a questão da "liderança" de Manuela Ferreira Leite tal como é vista pelos seus defensores resulta numa avaliação apressada ou revanchista. Um verdadeiro líder não é aquele que se impõe sobre tudo e todos, esmagando oposições e afastando potenciais adversários. É sobretudo aquele que demonstra capacidade de magnanimidade, de aglutinação, de união, que consegue juntar as baterias todas do mesmo lado em épocas de combate mais importante. Tomar atitudes revanchistas e de exclusão, por mais que Passos Coelho e seus apaniguados não se tivessem portado bem, mina o funcionamento interno de um partido que se quer no poder e provoca a desconfiança nos eleitores. Ou seja, em tempos que deveriam ser de união, Ferreira Leite conseguiu a fractura, como se verificou pelas críticas internas.

Para mais, este processo ainda trouxe à superfície um dos hábitos mais patéticos da partidocracia portuguesa: a colocação dos candidatos em círculos com os quais nada têm a ver. Também por isso a exclusão de Passos Coelho de Vila Real é ridícula (Montalvão Machado sempre pode argumentar que o seu pai é de Chaves), mas há ainda casos mais gritantes, como Bacelar Gouveia por Faro, Miguel Frasquilho, que numas autárquicas se candidatou a uma câmara dos arredores de Lisboa, em segundo pelo Porto ou o ex-líder do PSD-Açores por Castelo Branco, depois de ter encabeçado em 2005 a lista de Portalegre. E ainda a novidade Maria José Nogueira Pinto por Lisboa, quando a ex-dirigente do CDS-PP até nem estará contra António Costa na próxima batalha por Lisboa.

Manobras e tricas já velhas, que parecem cada ano piores, que afastam os eleitores dos eleitos, e pior ainda: dão ideia que os partidos brincam com eles ao sabor das refregas internas. Muito longe da "política de verdade" que o PSD apregoa (muito embora os outros partidos não sejam muito diferentes). Se se pode colocar um cabeça de lista que nada tem a ver com o distrito, então não seria melhor adoptar um sistema proporcional puro, abrangendo a totalidade do território, em lugar da proporcionalidade por círculos? Então digam-no de vez, para se proceder a uma alteração do método eleitoral e acabar com a hipocrisia actual.
 
Razão tem o Blasfémias: só Daniel Campelo defendeu efectivamente os interesses dos eleitores do seu círculo distrital, mandando às malvas a invenção do "deputado nacional". Mas pagou por isso, pois pagou.

terça-feira, agosto 04, 2009

A piada política da silly season


O caso do convite do PS a Joana Amaral Dias entra por mérito próprio para o anedotário político do ano. A acusação de Louçã, com o seu habitual tom de Savoranola trotsquista, de que José Sócrates teria convidado a ex-deputada bloquista para as suas listas de Coimbra e para um cargo num qualquer instituto público, despoletou uma reacção enérgica do Primeiro Ministro, com acusações mútuas de "mentiras" e "falta de vergonha". Assistiu-se a trocas de mimos, acirrando ainda mais a crispação entre o PS e o BE. durante dias não se percebeu quem dizia a verdade. Houve tomadas de posição, esgrimiram-se argumentos de parte a parte, escreveram-se inúmeros posts; uns deram a razão a Sócrates fosse pelo seu direito a convidar quem quer que fosse, ou pela ausência de provas do hipotético convite; outros acharam que Sócrates vinha com uma das habituais "aldrabices" e davam razão a Louçã. E todos perguntavam onde estaria Joana, que só ela poderia repor a verdade dos factos.


Até que finalmente a ex-menina bonita do BE apareceu publicamente, a esclarecer tudo. Com o seu habitual ar blasée com uma cobertura de petulância, que, reconheça-se, lhe fica muito bem, perante Ana Lourenço (uma boa escolha e um bom contraste), explicou que o convite lhe tinha sido endereçado pelo Secretário de Estado das Obras Públicas Paulo Campos, seu conterrâneo de Coimbra, pelo telefone, e não através de contactos "íntimos e privados" (como Campos dissera anteriormente), mas que "não havia condições políticas" e por isso declinou. Ao que parece, o governante não era assim tão seu amigo e só se tinham visto uma vez.


Não me parecendo muito ético que se ande por aí a convidar gente de outros partidos para as próprias listas eleitorais, certo é que casos destes são frequentes noutras situações, como as autárquicas, por exemplo. Ao que tudo indica, o PS tentou aproveitar o ostracismo a que Amaral Dias tem sido votada no BE para a "pescar" e conseguir assim um trunfo à esquerda, roubando votos ao BE. É possível que Sócrates não estivesse realmente informado e que a iniciativa tivesse partido dos socialistas de Coimbra, nomeadamente Paulo Campos.

Do que não há a menor dúvida é que o convite, ou sugestão, ou seja lá o que for, não era exactamente uma notícia a ser divulgada pelo pregoeiro. Assim, fica-se a pensar como é que Francisco Louçã teve acesso à informação: ou Joana Amaral Dias lhe disse, o que dadas as circunstâncias parece de todo improvável, ou alguém soube e transmitiu ao "coordenador" bloquista, que aproveitou logo para alardear o caso aos quatro ventos e atirar-se a Sócrates.

Parece-me que Amaral Dias consegue sair desta historieta sem grandes beliscaduras, embora seja o cerne da questão. Se desta vez não ingressou como candidata rosa, há de acabar fatalmente no PS, probabilidade séria desde que foi mandatária da juventude de Soares. Sócrates também escapa entre os pingos da chuva, porque não parece que a ideia tenha vindo dele. Piores na imagem ficam mesmo Louçã e o até agora discreto secretário de estado. O primeiro porque não soube respeitar assunto alheio e utilizou-o para representar o habitual papel de moralista sem podres, fazendo uma triste figura. E Paulo Campos porque sai como o jogral de serviço, que fala de supostos contactos com uma "amiga" que afinal só viu uma vez, se desmente e se vê de novo desmentido pela "convidada" em directo no noticiário. Sobretudo aquela expressão "contactos íntimos e privados", acompanhada de um sorrisinho entre o cândido e o sarcástico de Joana Amaral Dias, deu-lhe uma imagem patética de tentativa D. Juan instrumental (sem sucesso notório) ao serviço da causa rosa.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Corazon Aquino



1933 - 2009
Desapareceu uma mulher corajosa, lutadora e generosa, que combateu a ditadura das Filipinas por meios pacíficos e que nunca usou o seu cargo presidencial para enriquecer, numa região em que a corrupção é um estado de espírito. Que descanse em paz.

sexta-feira, julho 31, 2009

Sobre a justiça

A ler este texto de Francisco Pereira Coutinho sobre a Justiça, no blogue Novas Políticas, fazendo um breve diagnóstico dos problemas do sector e apontando possíveis soluções. Tudo sem ferroadas políticas ou partidarite aguda.

quarta-feira, julho 29, 2009

O Vítor Baptista espanhol?

 



Um fantástico movimento de José Luis Caminero, do Atlético de Madrid, a sentar Nadal, o central do Barcelona (e tio do tenista Rafa Nadal), oferecendo o golo aos colchoneros num ano em que ganharam a dobradinha em Espanha. Esta jogada aparece numa cena com o seu quê de comicidade do filme Em Carne Viva, de Pedro Almodôvar. Caminero era na altura o maestro da Selecção Espanhola e esteve em destaque no Mundial de 1994 e no Europeu de 1996.

Há dias, Caminero foi detido por alegadamente fazer parte de um grupo de tráfico de droga e branqueamento de capitais. Entretanto, já está cá fora, mas o seu nome está já manchado. Esperemos que o homem que tais fintas conseguia dar não venha a ser o Vítor Baptista espanhol.

quinta-feira, julho 23, 2009

Pirataria


A vaga de pirataria que assola o Índico e a saída do Mar Vermelho com origem na Somália é tema corrente dos últimos meses. Uma das mais concorridas rotas marítimas do globo, ponto de ligação entre o Mediterrâneo e o Índico, e portanto da Europa e Ásia, passa por momentos de tensão e risco acentuados pela crise económica e financeira global.

Os habituais articulistas do tão ouvido "como é possível em pleno Século XXI" espantar-se-ão com este fenómeno que parece tão afastado dos "nossos dias". Hoje, pirataria é sinónimo de assaltantes de aviões, hackers informáticos e falsificadores de suportes musicais (e daquele partido sueco que ganhou um lugar no Parlamento Europeu). Por piratas originais, os dos mares, lembramo-nos sempre do Jolly Roger, dos desafortunados que dão sempre de caras com Astérix e Obélix, os corsários Drake e Jean Laffite, o sanguinário Black Beard e capitão Kidd; e, claro, Long John Silver e respectiva pandilha do imortal A Ilha do Tesouro, de Stevenson, que todos lemos no início da adolescência. Pelo cinema também nos veio o mito dos "Ladrões do Mar", através de Errol Flynn, Douglas Fairbanks, Gene Kelly, Roman Polansky (numa deriva mais descontraída, com Walter Matthau, e cujo navio do filme, o Neptuno , pode ser admirado no porto de Génova), e, mais recentemente e com grande sucesso, Johnny Depp e série Piratas das Caraíbas.


Ora o espanto nem terá muita razão de ser. Se os mares das Caraíbas já não são pasto de ingleses e holandeses renegados, e se os turcos e barbarescos já não aterrorizam o Mediterrâneo e as ilhas Atlânticas, os Mares da China e do Sudoeste Asiático já há muito que conhecem bem o fenómeno nos tempos actuais. O que se passa entre o Corno de África e o Golfo de Adem passa-se igualmente no Estreito de Malaca, onde o tráfego marítimo entre o Índico e o Pacífico (um quarto do comércio mundial) é constantemente ameaçado pelos ataques a navios mercantes de potentes embarcações que surgem entre as numerosas ilhas entre a Malásia e a Indonésia. Apesar de tudo, a pirataria decresceu consideravelmente a partir de 2006 desde os acordos com as guerrilhas de Aceh e de um maior patrulhamento da zona.

Os ataques de piratas à volta do Corno de África datam, mais a sério, de 2005. A pulverização do estado somali, em 1991, entre vários territórios e Senhores da Guerra, conduziu à anarquia e à guerra civil, a que nem a intervenção da ONU conseguiu pôr cobro, gorada depois das imagens de corpos de marines americanos arrastados em Mogadíscio. A ausência de ordem no território (com a possível excepção da Somalilândia, a Norte), a miséria e as constantes guerras entre os Tribunais Islâmicos, o "governo "interino moderado apoiado pela Etiópia e os EUA, e milícias várias levaram à procura de novos meios de subsistência, e que logo se converteram nova fonte de lucros. Sem autoridade em terra, pescadores e guerrilheiros iniciaram-se em actos de pirataria, utilizando para tal barcos velozes e facilmente manobráveis, armados até aos dentes com armas ligeiras e levando até consigo contabilistas, tradutores e técnicos munidos de computadores portáteis, não só para se orientar no mar mas igualmente para calcular os valores apreendidos. Têm base em cidades costeiras como Haradhere, que graças à pirataria conhecem uma nova era de prosperidade. Multiplicam-se os pontos de fornecimento de produtos, restaurantes e locais de entretenimento, e a construção civil também prospera, com o efeito dominó do boom desta economia clandestina (como tudo na Somália). Não admira assim que piratas tenham o apoio maciço da população local e de vários senhores da guerra, já que todos beneficiam directamente com isso. A guerra e a luta pela sobrevivência que se verificam naquela terra sem dono, ou com demasiados donos, prolongam-se consequentemente no mar, sem autoridade que as impeça. E continuará a vingar enquanto não existir uma Somália minimamente normalizada. Ou seja, pode durar ainda muitos anos, porque a situação não dá mostras de melhorar. Antes pelo contrário, como se vê numa Mogadíscio sem rei nem roque, dividida entre duas facções que a pretendem controlar a qualquer preço.



Também a capacidade de actuação aumentou imensa e espantosamente, não só no raio de acção mas também na dimensão física das capturas. Em Novembro apoderaram-se do super petroleiro saudita Sirius Star, de 330 metros de cumprimento e com uma carga de dois milhões de barris de crude, a 450 milhas marítimas da costa de África, que causou grande espanto até mesmo em Haradhere. Só através de um resgate de perto de 15 milhões de dólares é que libertaram o navio e respectiva população. e em Setembro do mesmo ano capturaram o Faina, navio ucraniano que transportava tanques russos T-72 e artilharia anti-aérea. Devolveram-no à procedência contra o pagamento de 3 milhões de dólares.



Com tais perturbações ao comércio marítimo mundial, foi necessária a intervenção da Task Force internacional com base no porto de Djibouti, cujas tarefas eram até então de apoio a tropas americanas no Médio Oriente, e de vários outros estados, como a Rússia, a china e a Índia. Também a NATO enviou uma força naval permanente, uma flotilha de oito navios, comandados pela fragata portuguesa Corte-Real. A armada portuguesa teve por isso de patrulhar aquela vastíssima área e consegui impedir ataques a vários navios, capturando algumas embarcações piratas. Teve porém de libertar os seus ocupantes porque a Convenção da ONU sobre Direito do Mar só considera cmpetentes para julgar piratas as autoridades do próprio país de onde são provenientes ou daquele ao qual pertenceriam os eventuais lesados.

 
A Corte-Real regressou há dias a Portugal, mostrando com assinalável orgulho algumas lanchas capturadas aos piratas somalis. Pode parecer pouca coisa, mas só a presença portuguesa em águas do Índico revela não só o cumprimento dos seus deveres a nível internacional (o comércio marítimo afecta a todos), mas é igualmente uma mostra de prestígio e da confiança que é atribuída ဠnossa força naval por parte da NATO. E ainda outro aspecto importante, este mais do domínio da memória: quatro séculos depois de dominar o Índico, de ocupar a entrada do Golfo Pérsico e respectivos portos estratégicos de Ormuz e Mascate, de ameaçar subir o Mar Vermelho até ao Egipto, sob os Almeidas e os Albuquerques que tanto temor inspiraram naquelas paragens, Portugal regressa com a sua força naval para ajudar a limpar aquela região da pirataria que a infesta. A diferença é que num Mundo multipolar e tecnológico abarcando organizações internacionais de variada natureza, já não é uma actuação solitária, mas inserida num conjunto de várias nações unidas com um objectivo comum.



Assim se retomam velhos ciclos: a pirataria, que tantos julgavam coisa do passado, aí está, com outros meios mas com propósitos iguais. E Portugal, que no passado tanto combateu com assinalável sucesso naquela mesma região, envia o navio-almirante de uma importante operação naval da NATO. Há coisas que nunca mudam definitivamente.

Sugestão: e já que falamos em piratas, a Cinemateca Nacional exibe por estas alturas um ciclo de filmes de piratas, sempre às 22.30 na Esplanada. Quem estiver em Lisboa e puder ir tem aqui um bom entretenimento, bastante aconselhável a apreciadores do gênero.

terça-feira, julho 21, 2009

Ainda para comemorar a chegada do homem à Lua

REM e Bruce Springsteen, juntos nesta canção marcante dos anos noventa.



(Agradecendo a recordação ao Pedro Correia)

segunda-feira, julho 20, 2009

40 anos


Eis um daqueles acontecimentos que gostaria de ter presenciado no momento. Não há muitos assim, mas lamentavelmente nem sequer era nascido. É por essas e por outras que as gerações anteriores, nomeadamente a dos anos sessenta, recordam e elogiam constantemente o "seu tempo".
Embora, segundo alguns, como Hergé, já outros tivessem chegado antes de Armstrong, Aldrin & Ciª.

sexta-feira, julho 17, 2009

As confusões de Raposo (ou nem o Daniel Oliveira, na outra coluna, caía nesta)


Não serei a pessoa mais competente para explicar (se é que é possível) o post de Henrique Raposo sobre a Encíclica Caritas in veritate. José Tolentino de Mendonça, mais meditativo, e O Corcunda, bastante mais contundente, já lhes deram a devida resposta. Mas o que me intriga é esta tentativa de reduzir o Catolicismo e mesmo o todo Cristianismo a uma mera ideologia de séculos recentes, que é "liberal" quando convém mas que se cola ao marxismo quando se torna inconveniente. É esse utilitarismo que prova que Raposo faz uma enorme confusão quando fala de Marx e dos "Summer hits de Louçã". Confunde uma doutrina e um pensamento de séculos e séculos com materialismos com os quais nada tem que ver e que até são o oposto. Reduz a um mero conjunto de ideias aquilo que para os cristãos é a Verdade revelada pelo Filho de Deus e pelo Espírito Santo através dos Seus seguidores. A Caritas in veritate é o seguimento lógico de outras Encíclicas, como a Rerum Novarum ou a Populorum Progressio, que se debruçaram sobre questões sociais emergentes numa perspectiva cristã, sem necessidade de pegar em ideologias feitas à pressa.

Para além do topete de querer, literalmente, ensinar a Bíblia ao Papa (para mais com uns sessenta anos de profundo estudo e meditação), ainda deixa a misteriosa questão no ar: "no dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus, qual é a parte que o Papa não entende?" Quem não entende a pergunta sou eu, que não vejo relação nenhuma com a crítica anterior, a não ser que Raposo esteja a enfiar os pés pelas mãos e a dar uma de marxista (ou de jacobino, para quem "o clero deve remeter-se à sacristia", o que na era do computador é problemático) . A questão a ser colocada deveria ser: na evidência do Cristianismo ser uma religião com raízes bem fundas e não uma ideologia recente, qual é a parte que Henrique Raposo não entende?

quarta-feira, julho 15, 2009

220 anos

Há 220 anos, um Augusto Senhor, no seu diário, descrevia aquele dia de forma lacónica: "Rien".


segunda-feira, julho 13, 2009

Maldição no Bessa?
O Boavista anda mesmo com azar. Num evento em que certamente ganharia alguns euros, o cancelamento do concerto dos Depeche Mode no âmbito do Festival Super Bock Super Rock é um autêntico balde de água fria. Claro que quase ninguém iria só por causa dos delicodoces Nouvelle Vague e das restantes bandas suporte. Pôr à última hora os estafados Xutos e os inócuos The Gift não deve ter amarrado lá muito público. Não sei se o Boavista seria compensado pelo número de bilhetes vendidos ou se teria uma verba fixa; na primeira hipótese, é mais uma desgraça a juntar ao rol interminável; na segunda, já seria o Bessa a emanar essa pouca sorte, qual maldição axadrezada. Há já muito que naquele estádio não acontece nada de bom. Exige-se rapidamente a água benta do Padre Carrara, ou se não for suficiente, um exorcista. Mas do mal o menos: não se lembrarem de chamar os Ban em lugar de Xutos e Gift já evitou desgraças maiores.

sábado, julho 11, 2009

A nossa Fitzcarraldo


Falou-se muito nos últimos dias sobre Maria João Pires, a sua intenção de abandonar Portugal e a situação de Belgais. Entre as opiniões mais diversas e como não conhecia a fundo o caso e as suas motivações, abstive-me de falar dele. Agora consigo distinguir melhor os seus contornos.


Maria João Pires é das pessoas que mais têm prestigiado o país nas últimas décadas. Sempre colheu aplausos sinceros de muitos quadrantes, e de há muito tempo (um amigo de meu avô, que morreu no início dos anos setenta, vivia no andar por baixo do dela, e sentava-se por vezes a ouvir as suas récitas de piano). Tem reconhecimento internacional e uma extensa obra gravada, sobretudo interpretações de Chopin. Também já tive oportunidade de assistir a um espectáculo seu, apesar de não ser um verdadeiro melómano, e gostei realmente do que vi e ouvi. E para além de todas as qualidades artísticas, ergueu o projecto de Belgais. Não é coisa pouca.


O facto de determinada pessoa ser um(a) incontornável artista não faz dela automaticamente objecto de veneração. Gente de todas as artes há e houve que foram autênticos trastes e insuportáveis pavões. Bem sei que as críticas aos artistas mais reconhecidos são muitas vezes mal vistas com os costumeiros "esta terra não o merece" ou "quem o critica não vale um centésimo". É a velha dificuldade de não pensar que génio ou talento não correspondem necessariamente ao carácter.


Muitas destas críticas surgem agora no episódio da decisão de Maria João Pires em abandonar definitivamente Portugal e instalar-se no Brasil. Já há uns anos a pianista tinha falado em "torturas" no seu país, e agora pretenderá renunciar à nacionalidade portuguesa por causa dos "coices e pontapés recebidos do Governo português". Tudo por causa dos problemas financeiros de Belgais e do recente arresto dos seus bens, porque ao que parece não tem recebido dinheiros públicos.

A sua atitude tem todos os traços dos caprichos das prima-donnas musicais. Em não lhe fazendo as vontades, amua e lança declarações ribombantes. Belgais poderá ser um projecto interessantíssimo, original e a todos os títulos louvável, mas não se pode tornar um mero sorvedouro de dinheiro. Nunca fui daqueles que acham que a cultura não pode ser subsidiada por dinheiros públicos. Os projectos que tenham interesse para o país podem e devem ser apoiados pelo Estado e demais entidades públicas. Mas tanto quanto sei, entre 2000 e 2006 o centro de Belgais recebeu cerca de dois milhões de euros do Ministério da Cultura. Não é coisa pouca. Além do mais, houve protocolos assinados com o Estado, por isso só haveria razões de protesto caso as obrigações não fossem cumpridas. Não parece ser esse o caso. O que transparece deste penoso processo é que Pires não tem grandes habilidades administrativas e de gestão. Não é vergonha nenhuma, já que a maioria das pessoas também não as tem. Mas ao lançar-se a um projecto daquela natureza, deveria ter pensado nisso melhor. Para mais, um centro de formação musical em plena campina de Idanha, no meio da Beira Baixa, uma das zonas mais desérticas do país, seria sempre tarefa hercúlea (ainda que louvável igualmente por se afastar do litoral e dos habituais centros urbanos, numa luta inglória contra a desertificação).


Por causa dessa incapacidade administrativa, Belgais está em queda e Pires prestes a instalar-se definitivamente no Brasil, desta feita a olhar para um projecto hoteleiro. Está no seu absoluto direito. Contudo, se alcançou a projecção que tem e se Belgais existe também se deverá sem dúvida ao país que agora pretende abandonar. Aqueles de quem se queixa proporcionaram-lhe o estatuto e os meios. A partir daí, caberia a si própria administrá-los. Não o soube, mesmo que as responsabilidades possam não ser exclusivas. Os projectos mais difíceis são assim mesmo, nascem (alguns nem isso) e por vezes soçobram.



Também me espanto com a preferência pelo Brasil. Será que lá há mais apoio cultural do Estado e mais mecenato? Tenho reais dúvidas sobre isso. Imagino Maria João Pires a tentar uma coisa ainda de maior envergadura, uma escola de música em plena Amazónia. Não seria ideia original: Werner Herzog já se lembrou de coisa parecida. Teríamos então uma espécie da Fitzcarraldo de saias e com sotaque português, sustentando Nova Belgais entre os cursos dos rios e a densa floresta.

A crítica à pianista não me impede no entanto de achar absolutamente estapafúrdias e (embora reveladoras) as ideias de alguns dos "liberais" do costume, autênticos néscios que lhe chamam"parasita",e que entre outras coisas sugerem que se podia dedicar à prostituição, na sua habitual incapacidade de ver na cultura algo mais que um retorno financeiro. A resposta é bem dada pelo soberbo artigo de Pedro Picoito.

quarta-feira, julho 08, 2009

Era bom, era

Parece que "Direito dá trabalho": segundo um inquérito da Católica , via Expresso, há "100% de empregabilidade" entre os seus antigos alunos de direito. Regozijar-me-ia se isso fosse verdade, mas infelizmente não é. Pode haver uma altíssima taxa de empregabilidade, mas nem todos os juristas que cursaram na UCP preenchem esses números, como é prova actual o autor destas linhas, e não só. A não ser que se trate apenas do caso da Escola de Direito da UCP em Lisboa, cujo director presta tais declarações ao jornal, o artigo peca por excessivo optimismo e sensacionalismo dissimulado. Sempre gostava de saber qual é a margem de erro desse inquérito. Ou então, conclui-se que os tempos não andam definitivamente bons para as sondagens.

terça-feira, julho 07, 2009

Entretanto, umas centenas de quilómetros acima

Em Pamplona, já começaram as Sanfermines!

A eterna novela madridista

Ronaldo chegou enfim à escaldante Madrid, um mês após a divulgação da sua contratação, pelo pródigo D. Florentino Perez, outro Creso da bola. Já há um ano que se falava neste negócio gigantesco, mas só se efectuou com o regresso de Perez, que importou igualmente Káká.

Os números do negócio espantaram e escandalizaram, e não é para menos: 94 milhões de Euros é muita coisa, muito mais do que os (à época) obscenos 75 por Zidane e 60 por Figo. Sim, eu ouço que o Real paga o que quer e ninguém tem nada a ver com isso, que Perez não é parvo, que os patrocínios e o "merchandising" vão cobrir tudo em poucos anos, etc. Também já ouvi antes e os resultados foram diferentes. O facto do Real não ser uma instituição pública não impede de ser criticado. Os clubes de futebol, com sócios adeptos e visibilidade, têm obrigação em dar algum exemplo ético e desportivo ao público. Tratando-se do Real Madrid, provavelmente o maior clube do mundo, ainda mais. Acontece que normalmente os clubes fazem exactamente o contrário do que deviam, e os merengues nos últimos anos têm dado um conjunto de tristes exemplos. Depois, Florentino já ocupou a cadeira madridista com a táctica dos "Zidanes e Pavones", que começou bem e acabou no ridículo. Na altura conseguiu-o vendendo terrenos à construção civil, de que é líder em Espanha. Agora, recorreu à banca e aposta tudo no "merchandising". A estratégia é potencialmente suicida, porque só com milhões de produtos vendidos é que a coisa vai ao sítio; e não nos esqueçamos que não estamos em 2000, que a construção civil em Espanha está em valentíssima recessão depois de anos de crescimento artificial e que a crise financeira retrai o consumo deste tipo de artigos. Para além dos passes, ainda há os salários.


A ideia de Florentino Perez é ficar na história, juntando o Real dos anos cinquenta, que imperava na Europa com os seus craques estrangeiros Puskas, Di Stefano e Kopa (até o Benfica lhe aparecer no caminho), à equipa dos anos oitenta, a Quinta del Buitre, grupo de jogadores espanhóis que dominou La Liga nos anos oitenta, mas que falhou estranhamente nas competições internacionais. Depois, há todas as apostas económicas mais próprias de um jogador de casino do que de um gestor inteligente e com pesadas responsabilidades. e que para mais, já apostou nas mesmas políticas e nem assim obteve grandes resultados.


Quanto a Ronaldo, acho que devia ter esperado mais uns dois anos no Manchester, mas neste caso sim, ele é que sabe da sua vida. O problema é que é mais uma estrela do jet-set internacional, mais virado para as objectivas do que para o "esférico", com fãs histéricas e um estranho gosto em matéria de vestuário e companhia feminina, como se conclui pelas andanças com a mais famosa parasita do mundo, a desnudada Paris Hilton. E pelas actuais performances na Selecção...


Temo que sem a sobriedade da pós-industrial Manchester e a sábia direcção de Alex Fergusson "Crisnaldo" se perca no emaranhado branco e rosa em que já se meteu. A recepção dos oitenta mil maluquinhos ontem no Santiago Bernabéu, que nem pude ainda ver, e todas as notícias que gravitam em torno dele, acrescentadas à própria cidade e à cultura do clube, são um caldo de pressão demasiado grande para um só jogador. Sinceramente, acredito que Káká vingue mais em Madrid do que Cristiano.



A abada que se esperava

Afinal não pude ir à Luz no dia das eleições, e consequentemente não pude votar em branco. Paciência. De pouco teria servido. Limitei-me a observar o triunfo de Vieira, a única coisa a esperar depois do Tribunal Cível de Lisboa esclarecer que não tinha sido preferida decisão de mérito (e que não havia medidas executivas) na providência cautelar interposta por Bruno Carvalho. Falando neste indivíduo, como é que alguém sonha sequer ser presidente de uma instituição quando entra nas suas instalações rodeado de seguranças e sai pelos fundos? É esta a empatia que quer estabelecer com os sócios? E como é que insiste em torpedear o acto eleitoral quando tem pouco mais de 2% dos votos e o desprezo quase generalizado dos benfiquistas? A credibilidade de Carvalho pode bem ser comparada com a de Guerra Madaleno, por exemplo.
No meio da gaffe de Vilarinho (ou não, às vezes apetece mesmo responder assim), da aclamação de Vieira e dos inúmeros comentadores de televisão, gostei de ver Luís Nazaré como novo Presidente da AG do Benfica. Menos gostei de confirmar que um dos vices é Rui Gomes da Silva, o criador do termo "cabala involuntária"...
Sigamos o rumo do clube nos próximos tempos. E que a nível futebolístico as coisas corram melhor.

sexta-feira, julho 03, 2009

Relembrar os feitos

Na despedida de Manuel Pinho, esse grande ex-estadista, a homenagem possível (também extensível ao grande obreiro Mário Lino). Com o patrocínio de S. Exª o Presidente da República Bolivariana da Venezuela e do programa Allgarve.

quinta-feira, julho 02, 2009

Os Golpes

Eis a nova sensação do pop-rock português. Os Golpes, banda de melodias épicas e estética à neo-Heróis do Mar com um toque de charme decadente de cabaré, lançaram o seu disco, Cruz Vermelha sobre Fundo Branco. Pude vê-los há dias numa sessão da FNAC do Chiado, com toda a sua energia e o seu entusiasmo, e já com uma mini-pelotão de fãs. O seu vocalista, Manuel Fúria, protagonizara antes o video dos Pontos Negros , de que em tempos tive oportunidade de falar. O cartão de apresentação é este A Marcha dos Golpes.


terça-feira, junho 30, 2009

Pina Bausch 1940 - 2009

No ano passado, quando a companhia de dança de Wuppertal veio a Portugal actuar no CCB, tive a oportunidade de ir ver o espectáculo com bilhete oferecido, mas como era em cima da hora e não conseguiria chegar a tempo tive de declinar, pensando "haverá outras oportunidades de ver um espectáculo de Pina Bausch".


Afinal não houve nem haverá. Depois de uma curta e letal doença, a dançarina e coreógrafa alemã, provavelmente a mais famosa do Mundo, despediu-se hoje, deixando órfã a dança contemporânea.
A Feira dos Pucarinhos de S. Pedro

Neste dia e na noite que passou, como já disse no post anterior, é S. Pedro o festejado, a encerrar o triunvirato de Santos Populares de Junho. Em Portugal, o portador das chaves dos Céus é celebrado em variadíssimos sítios, desde as largadas de touros do Montijo e respectivas procissões fluviais pelos esteiros do Tejo ao fogo de artifício dos pescadores da Afurada, passando pelas rusgas dos bairros da Póvoa de Varzim.

O S. Pedro que conheço é o de Vila Real. Oficialmente, o feriado é no Santo António, mas o mais festejado é mesmo o Pescador. Na noite de 28 para 29 de Junho o Largo da Capela Nova, dominado pela construção barroca de Nasoni, enche-se do artesanato da região: é a Feira dos Pucarinhos, em que os artesãos locais expõem as suas obras. Pelo chão espalham-se inúmeras peças da louça negra de Bisalhães - roscas, cântaros, travessas, bilhas, há de tudo, como na farmácia. Actualmente existem apenas quatro artesãos, mas já foram várias dezenas. Os tempos não perdoam. Ao lado, outra importante peça do artesanato local, os linhos da Agarez, também são postos à venda pelos seus laboriosos artistas. A meio, passam os fregueses ou simples curiosos, admirando as peças de barro e de linho. Perto, jogava-se ao panelo, que consistia numa roda de pessoas, em que se vai atirando uma panela de barro preto de uma pessoa para a outra, sem deixar cair no chão, cada vez mais rápido, e mais rápido, até que se parta. Quem o deixar cair ao chão tem de comprar nova peça...e o jogo recomeça.


Tinha uma ideia vaga dessas noites em que o chão do largo se enchia de objectos maravilhosos, mesmo que por vezes toscos, ou até por causa disso. Recentemente voltei a ir à Feira dos Pucarinhos. No largo, tudo se distribuía como esperava. Já pelas ruas circundantes do centro histórico abundavam outros tipos de artesanato e até peças africanas, bugigangas, quinquilharia, etc. A Avenida Carvalho Araújo, artéria central da cidade, estava quase toda transformada em feira, e a que não estava tinha um palco animado por bandas.


São os novos hábitos, que vão modificando o carácter das festas e dando-lhes novas formas. Os artesãos de louça negra e dos linhos são poucos, mas mantêm-se no posto, com novos concorrentes por perto. As ruas já não são pouso apenas para as tradicionais formas de artesanato. Mas nem tudo é tragado pela voragem dos tempos: o jogo do panelo, que quase tinha desaparecido, voltou a ser praticado por inúmeros grupos, como se comprova pelos cacos que se espalham pelo chão das ruelas. A feira continua, e pela noite fora as rodas de jogos multiplicam-se.

segunda-feira, junho 29, 2009

Pedro e Paulo


29 de Junho é dia de S. Pedro e S. Paulo. Normalmente, associa-se muito mais ao primeiro. É a Pedro que as festas populares são dedicadas, talvez pelo seu estatuto de discípulo de Cristo, de primeiro chefe da Igreja, cujas sandálias cabem a cada Sumo Pontífice; e sobretudo dever-se-à ao seu carácter humano, genuíno e simples, de homem sem grandes conhecimentos (era pescador), que segue Cristo por toda a parte, que desembainha a espada para O proteger, mas a quem por medo O nega três vezes, que fala sempre com o coração, que é o primeiro a reconhecer o Messias e que espalha a Sua palavra depois da Ascensão. No fundo, será o Santo com quem o homem comum terá mais empatia e mais facilidade em se identificar.

Paulo de Tarso é o "Apóstolo dos Gentios", um judeu com cidadania romana, de sólida educação e influências helenísticas, que depois da sua conversão pregou a Mensagem Cristã pela Ásia Menor, Grécia e, crê-se até à Península Ibérica. É o fundador da moral cristã e da separação desta dos velhos hábitos judaicos, que espalhou nas suas viagens e através das suas epístolas. A ele se deve a difusão do cristianismo fora da Palestina e a sua aceitação por vários povos.


Estas duas figuras maiores do cristianismo pouco têm em comum, e Pedro, o líder da Igreja, chegou mesmo a ser directamente repreendido pelo convertido Paulo. Um representa a simplicidade e o desapego de um homem que tudo largou para seguir a Cristo quando ouviu o chamamento. O outro é um carácter mais intelectual, o responsável do Cristianismo ter deixado de ser uma seita de judeus secessionistas, galgando o Mediterrâneo e alcançando novo estatuto em Roma e na Grécia, que lhe seria tão importante daí para a frente. Ambos, porém, tiveram a coragem de divulgar a Boa Nova com todos os perigos que isso acarretava. Ambos foram martirizados na Cidade Eterna. E ambos foram os verdadeiros fundadores da Igreja de Roma, apesar de toda a Cristandade os venerar.


Encerra-se hoje o Ano Paulino, dedicado a S. Paulo. Bento XVI quis assim homenagear o primeiro grande pensador cristão. S. Pedro está sempre presente em Roma, à vista de todos. A S. Paulo faltava alguma visibilidade, que não tem pelo seu próprio estatuto de "intelectual". Embora em alguns casos os dois sejam associados (como em nomes como a fortaleza de Pedro e Paulo, em são Petersburgo), um continuará a ser o santo popular e o outro uma espécie de Doutor da Igreja de estatuto superior. Mas o dia de hoje tem essa dupla importância: a de comemorar aqueles que são provavelmente, depois de Jesus, os dois homens mais importantes do Cristianismo

domingo, junho 28, 2009

Saviola


El Conejo já é do Benfica. Devo dizer que gosto muito do jogador, desde que ele se mudou de Buenos Aires para Barcelona (é ainda a aquisição mais cara de sempre dos culés). Teve um percurso mais incerto do que seria de esperar, andou pelo Mónaco e Sevilha, serviu ao Real Madrid para causar inveja (?) ao Barcelona e passou a maior parte da sua estadia entre os merengues no banco, tapado por outros avançados. Em Portugal, se não tiver lesões arreliadoras e jogar na sua posição, será um autêntico craque. A dupla com Cardozo e a sociedade com o seu amigo Aimar tem potencial para revelar futebol do melhor e causar estragos, inclusive nas competições europeias. A única coisa que me deixa um pé ligeiramente atrás são os cinco milhões de euros despendidos e o salário previsivelmente alto que Saviola irá ganhar, sobretudo quando se diz que não há dinheiro para Reyes. Com resultados financeiros negativos, sem ir à Liga dos Campeões e sem fazer (para já) grandes vendas, era bom que se tomasse cuidado nos gastos, que a vida só está fácil para o Real Madrid.


Curiosamente, a vinda do argentino faz com que as três grandes contratações do Barcelona no Verão de 2001 acabassem por vir parar a Portugal: Geovanni, Rochemback, e agora Saviola, com evidentes prejuízos financeiros para os blaugranas, que gastaram bastante dinheiro com a sua aquisição para os deixar ir por quase nada.
No Olimpo da música moderna


Se Michael Jackson desapareceu relativamente novo, há que não esquecer outros monstros sagrados da música do último século. Além de Lennon, assassinado à porta de casa, temos casos tragicamente semelhantes como Elvis, Piaf, Morrisson, Hendrix, Marley ou Brel (ou, noutra escala, Cobain). A morte prematura elevou-os à condição de lendas e impediu-os que envelhecessem em mansões de cinquenta quartos, realizando digressões pontuais e decadentes e relançando "ultimates collections" em nome da editora. Aos desaparecidos em actuação é o que os mantém imortais. Jackson tem companheiros à altura no Olimpo da música moderna.

sexta-feira, junho 26, 2009

Michael Jackson 1958-2009



Ainda que não seja totalmente surpreendente, por todos os problemas que o "Rei da Pop"tinha de sobra, tanto que se especulava se poderia fazer nova tournée agendada para Julho, a notícia repentina da morte de Michael Jackson não deixa de impressionar. Nunca fui particularmente fã da sua música, mas é inegável que marcou uma época e que se tornou autenticamente num dos grandes ícones do fim do Sec. XX. Não esquecer que é o seu o disco mais vendido da história - Thriller, de 1982, com mais de quarenta milhões de cópias vendidas - além de outros êxitos maiores, como Bad, Dangerous ou HIStory, que não impediram porém de contrair imensas dívidas. Para além de todas os escândalos, controvérsias, taras e problemas de saúde que o levariam a este triste desfecho, fica para a história um dos mais famosos músicos de sempre, dançarino de excepção, cujas músicas e sobretudo os fabulosos telediscos se tornaram uma marca da cultura do seu tempo.
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PS: ainda protagonizou uma aventura juvenil no Porto, em pleno S. João. Consegue-se imaginá-lo a jogar à bola com os miúdos da Ribeira?

quarta-feira, junho 24, 2009

900 anos?


Onde? Guimarães? Coimbra? Viseu?

terça-feira, junho 23, 2009

Outro S. João perdido

Esta noite, de 23 para 24, tem lugar um dos mais grandiosos e genuínos festejos populares: o S. João. O profeta do Jordão, primo de Jesus, que segundo as escrituras vestia-se de pele de camelo, comia gafanhotos e mel e foi supliciado sob os caprichos de Salomé, tornou-se um santo popular e "rapioqueiro", ao qual são dedicadas as mais brejeiras quadras. É em Braga, Vila do Conde, Gaia (menos a Afurada, que prefere S. Pedro) e principalmente no Porto, além de outras localidades, que o santo é mais festejado. Nem sequer é o padroeiro portuense oficial (lugares ocupados por Nossa Senhora da Vandoma e pelo quase anónimo S. Pantaleão), mas nem por isso deixa de ser o patrono de uma das noites mais longas do ano.

Pelo quarto ano consecutivo, e por razões diferentes, não vou poder ir ao santo do meu nome e da minha cidade. Mais uma vez adio as sardinhas, o convívio, o martelo de plástico com o seu som característico, o espectáculo dos balões de ar quente a salpicar o céu e os bailaricos de rua, que nos últimos tempos acabavam em Nevogilde. Ou a repetição da única vez que do muro da Ribeira vi o fogo de artifício da meia-noite, lançado da ponte e do rio, fazendo depois o percurso pedestre até à Foz (parando em todos os arraiais), onde já no Molhe se via sempre o dia a nascer. E nem terei enfim a oportunidade de ver como são as Fontainhas nesta noite mágica, com a cascata sanjoanina e a sua vista para o Douro. E tantas, tantas tradições que vêm de longe e se mantêm.

(Fotos tiradas do Cidade Surpreendente).

A quem puder ir, que se divirta o mais que puder e um bom S. João!
O paraíso somali



Assim como a vizinha Etiópia é a terra prometida dos Rastafarianos, a Somália é a terra prometida dos libertarians, neo-liberais e anarco-capitalistas de todo o mundo. Uma terra sem governos controladores, onde o Free Market, Free Minds é a única regra. Laissez faire, laissez passer, rumo ao paraíso sem regulação somali.

(Via Estado Sentido)

segunda-feira, junho 22, 2009

"Eixo do Mal" em evidência


Tenho acompanhado o processo pós-eleitoral do Irão saltitando entre interesse pela evolução dos acontecimentos e a indiferença da sorte dos persas. Se os protestos contra os resultados oficiais são massivos, duvida-se que sejam suficientes para uma mudança substancial do regime teocrático em vigor. Os Guardiões revolucionários aceitam nova recontagem de alguns votos, e os "moussavistas" exigem uma reeleição. O choque nas ruas era inevitável, mas talvez não passem de fúrias espontâneas que em alguns dias passem de moda. Recorde-se Tiananmen em 89, Praga em 68 ou Budapeste em 56: nenhuma delas alterou o que quer que fosse, excepto talvez algum endurecimento dos regimes que as abortaram. Até porque, mesmo que tenha havido fraudes na votação, deve haver um número substancial de apoiantes de Ahmadinejahd pouco disposto a grandes mudanças, pelo que o regime não cairia sem uma sangrenta guerra civil. Por seu lado, o passado de Moussavi inspira pouca ou nenhuma confiança, pelo seu papel fulcral na opressão sob as barbas de Khomeiny, e até por ter sido um dos poucos cuja candidatura o Conselho de Guardiões da Revolução aceitou, na sua restrita filtragem. Os seus apoiantes podem estar sedentos de mudança, mas o candidato nem tanto, ainda que possa ser um Humberto Delgado iraniano, voltado contra o regime que o criou, ou um Begin persa, com um passado violento mas que como estadista procurou a conciliação com adversários externos.

Ainda assim, os "revolucionários" da situação e adeptos de Ahmadinejad têm cometido erros, como a prisão de familiares do ex-Presidente Rafsanjani, e a utilização nos actos de maior repressão das manifestações de elementos do Hamas, que se encontram no Irão para serem treinados militarmente. a utilização de mercenários estrangeiros decerto que não cairá bem na população nem na comunidade internacional.


No extremo leste da Ásia, a outra metade restante do "Eixo do Mal", a Coreia do Norte intensifica os exercícios com mísseis que atingem uma distância cada vez maior. As sanções já foram propostas e aceites, mas Pyongyang afirma que as considera "um acto de guerra". Quando vê as coisas mal paradas, o paranóico regime kimjongilista ameaça logo com a guerra. Resta saber se se sente acossado e pretende mesmo incendiar tudo em redor, num acto de derradeira fúria suicida e assassina, ou se pretende com isso ganhar algumas vantagens económicas. Certo é que os vizinhos estão a perder a paciência com a insolência do povo do "Querido Líder" e estão dispostos a encostá-lo à parede para acabar com a eterna ameaça latente...ainda que isso comporte riscos óbvios.

sexta-feira, junho 19, 2009

Separados à nascença?











Bill Murray (à esquerda) e Claudio Ranieri (à direita).

terça-feira, junho 16, 2009

E a Feira do Livro regressou aos Aliados


A Feira do Livro do Porto, que acabou no domingo, esteve plantada este ano na Avenida dos Aliados. Já lá tinha estado, parece, noutros tempos, mas para mim, que só a conhecia na Rotunda da Boavista e no Palácio de Cristal, constitui uma novidade. É sempre grato ver um evento destes ao ar livre e no centro da cidade, mas fiquei com a sensação de que estava mais reduzida do que nos anos anteriores, por causa da limitação de espaço. Até porque já tinha passado pela Feira de Lisboa, no mais amplo Parque Eduardo VII, o que talvez me tenha deixado essa impressão. Outro problema era a chuva - nas duas vezes que lá passei - que como já é usual e alguns previam, marca sempre presença em tempos de Feira, como o pôde certamente comprovar José Mário Silva, que lá conheci no outro dia.


Ainda assim, era uma ideia antiga que se pôs em prática. Além do mais, pode ser que acontecimentos destes tragam mais pessoas à Baixa, que bem está precisada. Sempre permite, com os horários alargados, que mais gente passe pelos Aliados e disfarce aquela sensação de vazio em que o espaço central portuense se transforma ao final da tarde.
Provincianismos pseudo-urbanos

Ainda do Minho desiludi-me com o novo figurino da velha estrada entre Moledo e Vila Praia de Âncora. Repararam o pavimento que estava muito gasto e fizeram uma ciclovia, o que se aceita (apesar de eu ter feito dezenas de vezes aquele troço de bicicleta sem o menor problema). Pena é que o carácter rural nocturno tenha desaparecido com as dezenas de novos candeeiros eléctricos plantados de dois em dois metros, estrada fora. Transformou-se uma estrada bucólica numa avenida sem casas e para mais gasta-se imensa electricidade. E é para isto que se anda a montar parques eólicos no alto das serras. Ah, o progresso, o desejo de ser urbano e moderno de qualquer forma...


Outra demonstração da ânsia de "urbanidade" são as novas cidades e vilas. As candidatas ao galardão urbano lá conseguiram o seu objectivo: Senhora da Hora (tinha mesmo necessidade de vida urbana, com o Porto e Matosinhos do outro lado da estrada), Samora Correia, Borba, Valença e S. Pedro do Sul(!) são agora cidades. Os meus pequenos parabéns, mas tirando, e a muito custo, Valença (já que a única cidade do seu distrito era até agora Viana), considero que nenhuma delas o mereceria ser. Aliás, freguesia alguma deveria ser cidade, por maior que fosse. E os critérios de atribuição (sobretudo os "históricos, culturais e arquitectónicos") deviam ser mais rigorosos. Para já, reina a total discricionariedade.


Por causa desta vontade sem razão, vemos vilas medianas a alcançar este estatuto sem razão aparente. Já aqui deixei alguns exemplos. Dá-me arrepios só de pensar nas próximas a ser promovidas. Mais uma vez, a ânsia de ser urbano a todo o custo, de se poder dizer que se é "da cidade", de fugir da ruralidade como o diabo da cruz, leva não só a estes disparates como ao êxodo para os grandes centros urbanos, geralmente para os subúrbios, que crescem na directa proporção da desertificação dos centros. Um erro provinciano de resultados desastrosos. Como se viver numa aldeia ou vila, às vezes com outra qualidade de vida, fosse por si só uma vergonha. Provavelmente até o será, segundo a mentalidade pequeno-burguesa que converteu automaticamente a ruralidade em "atraso" e a vida urbana definitivamente em "evolução". Joguinhos semânticos mascarados de progresso, não percebendo que o mundo rural e o urbano são diferentes sem serem necessariamente inferiores ou superiores. E que além do mais foram os responsáveis por grande parte da destruição patrimonial do país, à boleia com o desaparecimento progressivo do espaço rural.

domingo, junho 14, 2009

Tradições minhotas de Monção a Tarascon

Aproveitei os feriados para ir ao Alto-Minho. Entre as celebrações do Corpo de Deus e a festa do mar em Âncora, só tardiamente me apercebi que em Monção era dia da ancestral Festa da Coca.


Como em todas as tradições em que S. Jorge mata o dragão, o combate entre o Bem e o Mal dá-se entre um cavaleiro e um gigantone com rodas, empurrado por vários homens, cobertos com a "carapaça" da coca, em forma de dragão malévolo, com um pescoço que se move. Tem lugar no centro da vila, na praça DeulaDeu, que relembra a grande heroína de Monção. O cavaleiro tem de cortar a orelha à Coca e só desta forma é considerado vencedor. O problema é por vezes o próprio cavalo, que foge com medo da figura, provocando o riso geral e impossibilitando a façanha a "S. Jorge". Esta é a tal festa que perdi e que o meu pai chegou a assistir noutros tempos da sua infância, que passou por aquela vila debruçada sobre o Minho.



A representação da Coca lembra-me a Tarasque, o monstro lendário, de enormes dentes, forte carapaça e cauda de escorpião que atormentava a Provença, e que segundo a lenda, terá sido amansado por Santa Marta, que ali andava em evangelização. A cidade de Tarascon (também conhecida pelo célebre Tartarin de Tarascon, das novelas de aventuras de Alphonse Daudet) deveria o seu nome à Tarasque. Alguma ligação haverá entre esta tenebrosa criatura e a Coca, já que em algumas cidades de Espanha, nas procissões do Corpo de Deus, surgem figuras simbolizando a Tarasca. Mais ainda: Monção está geminada com Tarascon-sur-Ariége, que fica já perto dos Pirinéus mas cujo nome não deverá ser alheio à origem do da Tarascon da Provença. Mais indícios que indicam que entre a Tarasque e a Coca haverá um qualquer parentesco. E que há sempre um santo por perto capaz de os dominar.

terça-feira, junho 09, 2009

Benfica, Benfica...


O Benfica rescindiu com Quique, após várias semanas de indefinições em que as relações se envenenaram visivelmente. Contratou o Richard Gere do futebol português, porque "sabe como se joga em Portugal" e "é uma raposa" (embora tenha sido claramente derrotado em casa pelo espanhol, apesar de desfalques no Benfica e de uma arbitragem muito caseira). Talvez pela pelagem brilhante. Com isto tudo, gastou-se precioso dinheiro, quebrou-se outra projecto técnico e volta-se a mudar de treinador, de esquema de jogo, talvez de mais jogadores, etc. E atrasa-se a pré-época. Resultado mais que previsível: mais um ano medíocre.


Agora demitem-se à força os órgãos sociais do clube e antecipam-se em 3 meses as eleições gerais para "permitir mais estabilidade directiva" (i.e. não dar tempo a que outras listas tenham tempo de se formar convenientemente).

Se achava que o projecto de Vieira estava esgotado, agora ainda tenho mais razões para não querer saia. Nem só de basquete vive o Benfica.

Não sei em quem hei de votar (aquele Bruno Carvalho não convence nem Jesualdo Ferreira), mas dia 3 lá estarei a exercer os direitos e a cumprir os deveres que emanam do meu cartão de sócio.

segunda-feira, junho 08, 2009

Já a pensar nas legislativas


Depois das europeias já se fazem contas às legislativas. A SIC lançou uma sondagem que atribui perto de 40% ao PS. Depois dos despistes de hoje, será bom terem alguma cautela.


Entre as diferenças que se diz que podem fazer com que as legislativas tenham resultados diversos das europeias estão os seus candidatos. Sócrates será ele próprio o candidato e não terá de auxiliar um errático como Vital. Ferreira Leite não terá a combatividade e a imagem renovadora de Rangel; Portas não terá Nuno Melo nem Diogo Feyo, dois dos seus melhores deputados. Tudo isso é verdade, mas os diversos candidatos distritais aí estarão e terão uma palavra a dizer. Também os candidatos às autárquicas tentarão aproveitar a onda para os seus embates, logo a seguir, e vice-versa, sobretudo nas principais cidades - Rio e António Costa podem ser importantes muletas. Já agora, o Bloco também já não terá os candidatos às europeias, que lhe emprestaram uma aura de moderação. Com as tiradas de Louçã ("o PSD teve pouco mais do que em 2005 com Santana e isso não é vitória nenhuma") e Rosas ("nós comemoramos a consolidação eleitoral, outros o facto de não estarem mortos"), a demagogia costumeira pode afastar alguns eleitores que neles votaram como protesto.


Nota curiosa: Paulo Rangel e Diogo Feyo são da mesma idade, são conterrâneos, formaram-se no mesmo curso e tiveram percursos profissionais semelhantes; apenas divergiram na escolha partidária. Agora voltam a sentar-se lado a lado no Parlamento Europeu, na bancada do PPE, embora eleitos por partidos diferentes. Ele há coincidências engraçadas.

domingo, junho 07, 2009

Primeiras impressões da noite eleitoral


- Vitória do PSD por números não muito longe das sondagens
- Derrota incrível do PS, abaixo de qualquer previsão
- Subida grande do BE, dentro do que se esperava
- CDU com um bom resultado, por pouco não conseguia o 3º
- CDS-PP aguenta-se bem, e como sempre teve mais votos do que o anunciado
- Pequenos partidos aquém do que prometeram (o MEP conseguiu apenas 1,5% dos votos)
- Brancos e nulos inesperadamente elevados
- Abstenção igual a si própria nas europeias: enorme. E nem sequer estava bom tempo
Sócrates é o principal derrotado da noite; o seu rosto grave e sem sorrisos assim o denotava; Vital é o rosto da derrota, levando o PS ao seu pior resultado desde os anos oitenta. A campanha da vitimização e as acusações da "roubalheira" voltaram-se contra ele. Parece-me que o seu fugaz regresso a terreno eleitoral mais não foi do que o esboço de um zombie político, cuja carreira nessa área há muito tinha acabado.
A CDU tem um resultado melhor do que o previsto e por pouco não ia ao 3º lugar. Sem figuras de proa, é possível que a enorme manifestação em Lisboa lhes tenha dado outra dinâmica. O Bloco pode cantar vitória, pelo 3º lugar e 3º deputado, em cima da meta. Mais mérito de Portas e compagnons de route do que de Louçã, que já apareceu com as "superioridades morais" do costume.
O CDS-PP como sempre ficou além do que as sondagens previam e conseguiu mesmo a melhor percentagem de há sete anos para cá. Meteu dois deputados, contra todos os vaticínios, e tem legitimidade para estar satisfeito.
Vencedor da noite: Paulo Rangel. Manuela Ferreira Leite tem o seu mérito, como é evidente, mas Rangel, que apareceu há relativamente pouco tempo na política nacional, mostrou uma imagem de rigor e combatividade que era o tónico de que o partido provavelmente precisaria. A vitória é escassa, apesar da diferença de 5 pontos para o PS, mas imprimirá certamente uma maior dinâmica eleitoral ao PSD, que parte agora reforçado para novos combates.
Ainda ontem, num jantar com amigos que também travaram conhecimento com Rangel carteiras e nas orais da faculdade, havia quem dissesse que ele iria "ser um dia Primeiro-Ministro". não sei se isso vai acontecer ou não, mas o certo é que Paulo Rangel marcou hoje definitivamente o seu espaço e tornou-se uma figura de monta na política nacional.

sexta-feira, junho 05, 2009

O declínio dos comícios



No livro de memórias de Freitas do Amaral, (A Transição para a Democracia, Bertrand Editora), publicado há uns meses, está uma fotografia nas páginas centrais que mostra um comício do CDS no Porto, em 1976. Pasma-se perante a amplitude da manifestação, com gente a perder de vista, provavelmente enchendo toda a Avenida dos Aliados. Noutras imagens vêem-se outros comícios dos centristas, em Ponte de Lima, Trás-os-Montes e Póvoa do Varzim (ocupando toda a praça de touros). Durante o PREC havia manifestações gigantes, como os comícios de Soares na Fonte Luminosa e nas Antas, Otelo cobrindo praças em Setúbal e partidos mais pequenos, como a UDP e o PDC, levando milhares ao pavilhão dos desportos de Lisboa. Claro que vinham de mais do que uma localidade, mas ainda assim são imagens que espantam. O CDS a cobrir os Aliados? Hoje, para fazer um comício no Porto, consegue umas mil pessoas no máximo e com "brindes" à mistura.

Um dos indícios do crescente desinteresse pela política, a partidária, pelo menos, é a imagem dos comícios cada vez mais vazios e trombudos, com uns monos arrebanhados pelas secções locais, normalmente com cantoria e comida à mistura. O contraste entre os comícios de hoje - especialmente se forem das europeias - e os de há 30 anos é gritante. E talvez nem seja preciso ir tão longe no tempo. Nos anos oitenta, a "onda laranja" de Cavaco cobria as Alamedas e Aliados e demais terreiros deste país. Na altura da decisão entre Guterres e Nogueira, não faltava animação (e gaffes), arruadas concorridas, líderes partidários a dançar nos mercados e comícios a atrair multidão a rodo.

Os comícios de rua pouco a pouco foram sendo trocados pelos "jantares-comício", em que a malta lá saía de casa a troco de um repasto para ir ouvir os candidatos da sua preferência. Também os artistas musicais encontraram um novo nicho de mercado, tocando nas acções de campanha de qualquer partido (ainda me lembro de um comício do PSD, no Porto, em 1995, em que findos os discursos de Cavaco e Nogueira redobrou a assistência quando os GNR subiram ao palco). A paixão e a vibração da política foram trocadas por umas festarolas como alguma oratória política pelo meio.

Estas europeias têm sido confrangedoras nesse aspecto. O PS não consegue encher um pequeno pavilhão em Coimbra, terreno de Vital, mesmo com a "estrela convidada" Zapatero. O PSD fica-se por sessões de esclarecimento e conferências, o CDS por jantares e o Bloco por acções de rua. Os extra-parlamentares já vão com muita sorte se alguma televisão filmar o candidato e os dois ou três membros da "comitiva". Só a CDU, graças à sempre fiel militância do PCP, ainda consegue organizar comícios que se vejam, em teatros ou nas praças, por vezes com surpreendente dimensão (vejam-se os oitenta mil da sua manifestação em Lisboa).

Nesse aspecto estou de acordo com Sócrates. Os comícios são sempre o sumo das campanhas, a ocasião para o entusiasmo se espalhar, o ponto de encontro por excelência entre os candidatos e seus apoiantes. Levar escassas centenas para uma acção num restaurante apenas prova a falência das ideias e a falta de atracção pela política, tornada coisa corriqueira e mesquinha, e a classe respectiva patética e pouco ou nada convincente. A praia, se o dia estiver bom, é tão mais atraente que as filas (?) nas urnas. É que há sinais que mostram o alheamento das pessoas por aquilo que deveria ser do interesse geral. Um comício é um sinal válido e um barómetro fiel. Cabe aos que os organizam meditar porque é que nem com "atracções musicais" as grandes enchentes de outrora, com bandeiras e slogans, quais claques de futebol à solta se conseguem ver nas clareiras destes grupinhos de militantes que tristemente acorreram a esta campanha das Europeias.
David Carradine 1936 - 2009



Há uns anos, David Carradine, conhecido pelos seus filmes de artes marciais, voltou à ribalta com Kill Bill, de Quentin Tarantino, em que era o objecto da vingança de Black Mamba (provavelmente o papel mais emblemático de Uma Thurman), por si abandonada no altar e quase morta.

Ontem, o acto que dava nome ao filme acabou por ser concretizado pelo próprio "Bill".

quinta-feira, junho 04, 2009

O Espaço de Vital


No cartaz da JS de que falei há dias houve um pormenor de que na altura não me dei conta, e que passou ao lado de todos, a começar pelos seus autores: o slogan "A Europa é Vital". Sabendo que o cabeça de lista do PS é federalista, esta frase é muito infeliz. É que recorda outro modelo europeu de federação muito em voga nos anos 30 e 40, o do Espaço Vital, o Lebensraum alemão, que motivou a expansão do 3º Reich e a 2ª Grande Guerra. O trocadilho acaba por ser inevitável. Por sorte, o slogan e o nome Vital não são de nenhum candidato de outro partido, senão ainda tínhamos o "Professor Doutor de Coimbra", que muito tem falado de "roubalheiras", a tecer acusações de nazismo e fascismo. No fundo, nada que ele não tenha já feito de forma mais velada.

quarta-feira, junho 03, 2009

Relembrar Lucas Pires


(Imagem tirada do Ephemera, via Portugal dos Pequeninos)

A minha atitude é sempre de infinita atenção. Tanto não adormecer sobre uma história que galopa, não adormecer em cima do cavalo - estar atento. a atenção é a única regra. (1983)


A poucos dias das "europeias", resolvi folhear e ler em parte A Revolução Europeia, uma antologia de textos de Francisco Lucas Pires publicada pelo gabinete português do Parlamento Europeu. Antes de se pensar em"discutir a Europa" de forma abstracta e blasée, confundindo-se agruras nacionais com problemas comunitários que nem sempre são os mesmos, ou magicando em "cartões amarelos" ao "sistema", faríamos melhor em ler o legado dos que pensaram na Europa na sua estrutura comunitária, mas também na sua essência e nas suas especificidades e contradições, como Lucas Pires. Também na blogoesfera nos chegaram os seus escritos. É claro que com o passar dos anos alguns ficaram datados, mas há sempre matéria para nos fazer pensar. E fica-se sempre a pensar em que lugar ou no que estaria ocupado o antigo dinamizador do "Grupo de Ofir" e líder do CDS se ainda fosse vivo.

A despedida dos guerreiros


No post anterior falava de um jogador quase esquecido. Neste fim de semana, despediram-se dos relvados três futebolistas que certamente não o serão - até porque fazem parte da era da televisão, da internet e do marketing da modalidade, em que a imagem por vezes conta tanto como as jogadas. Falo evidentemente de Paolo Maldini, o mais internacional de sempre pela Squadra Azurra, o capitão do Milan que se sagrou por cinco vezes campeão europeu, o melhor defesa esquerdo de sempre, que na sua carreira só conheceu duas camisolas, a azurra da Selecção e a rossoneri de Milão; Pavel Nedved, o virtuoso maestro checo, visível ao longe pela sua melena loura, que comandou o seu país ao longo de vários torneios e que merecia mais troféus; e, obviamente, Luis Figo, o ídolo de toda uma geração, o mais internacional jogador português de sempre, o génio que despontou com os campeões de Riade e Lisboa e nunca mais parou de somar sucessos, atingindo o auge em 2001 - em que ganhou o prémio da FIFA de melhor jogador do Mundo (depois do Ballon d ´Or de melhor da Europa no ano anterior) e a Liga dos Campeões. Figo, o melhor de sempre desde Eusébio, de quem guardo um autógrafo do tempo em que ainda estava no Sporting, numa tarde em que o encontrei num hotel do Porto, e com quem viria a cruzar-me anos mais tarde em Frankfurt.

É todo um capítulo da história da modalidade que se vira, com a partida destes mitos dos relvados. E uma certa época que acabou: o futebol dos anos noventa.