quarta-feira, setembro 30, 2009

O regresso dos Green Day





Os Green Day passaram pelo Pavilhão Atlântico na Segunda-Feira. Trouxeram o seu carrossel punk/opera rock e deram um concerto que sem ser extraordinário teve bastantes momentos altos.
 
A banda de Billy Joe (sempre com o seu ar de louco e os seus olhos esbugalhados) marcou-me, como a muito, na adolescência. Em meados dos anos noventa, o que estava a dar era o fulgurante Dookie e as suas músicas incandescentes de três minutos, como Basket Case e When I Come Around. Havia a concorrência dos histéricos Offspring para ver quem dominava o "teenager punk rock" californiano e conseguia mais discos de platina.
 
Os Green Day continuaram no mesma caminho, com alguns momentos marcantes, mas já em ligeiro declínio, até aos anos 2000, em que apareceram a fazer as primeiras partes de concertos de bandas que eram meras cópias pueris deles próprios, como os Blink 182, e ainda vendo os Offspring mantendo o sucesso. Já quase todos se tinham esquecido deles quando resolveram inverter o rumo e lançar o disco de opera-rock American Idiot. Como se sabe, um sucesso retumbante: regresso aos primeiros lugares das tabeças de vendas, boas críticas musicais e imensos Grammys e MTV Awards. Em suma, o regresso da glória dos tempos de Dookie, mas em versão crescida. Ao mesmo tempo, os Offspring definhavam entre a sua berraria e os Blink e restantes clonagens de punk para adolescentes sumiam de cena.


Este ano lançaram novo disco, 21st Century Breakdown, que tal como o anterior ainda traz consigo a crítica à guerra ao Iraque, aos efeitos da Administração Bush e a parte da sociedade americana (o espírito punk não desapareceu por completo). Vieram agora mostrá-lo ao vivo, em Portugal. Era uma daquelas bandas que me apetecia mesmo ver, e já não o esperava, mas chegou um bilhete salvador à última da hora. Assim, juntaram-se milhares de nostálgicos dos anos noventa, meia dúzia de tipos de crista, correntes e roupa negra esfarrapada julgando estar na Londres dos anos setenta, e uma legião de teenagers (um até chegou a ir tocar ao palco e nem se deu nada mal) com variadas t-shirts dos artistas, além dos fãs dedicados de camisa preta e gravata vermelha, à Billy Joel. Ficou na memória a expressão de louco nos ecrãs gigantes do vocalista, que até lançou camisolas com um canhão, a pirotecnia, o entusiasmo do público e o fim do concerto, com a belíssima Time of Your Life tocada a solo, sob um único foco de luz. Ficou apenas a faltar, entre uma ou outra, a velha When I Come Around, que tanto passava nas rádios em 1995. E talvez uns minutos a mais de espectáculo.








A grande ausente do concerto
O líder da direita


Não considero Paulo Portas um exemplo de sólido carácter nem merecedor de especial confiança. A sua carreira no Independente e no PP atestam-no. Os casos Moderna e da sua passagem pelo governo, os cumprimentos a Rumsfeld, as quezílias com Monteiro, e por fim a forma como voltou à liderança do partido, afastando Ribeiro e Castro, e depois disso o silêncio sobre a demissão de Nobre Guedes e outros problemas internos não contribuíram em nada para o tornar mais credível.

Mas há que lhe tirar o chapéu: o homem é um autêntico animal político, esteja onde estiver. Já no Independente o era, mesmo que fora da prática partidária. Consegue fazer pose de estado no Parlamento e nos ministérios, vai para os debates bem preparado e com os factos bem estudados (e o seu inseparável "oiça"), e anda por toda a parte, pelas ruas, pelas feiras, pelos mercados; cumprimenta, fala, toca pandeireta; tem experiência de campanha e de como se deve comportar perante a comunicação social; sabe, talvez por causa desses factores acumulados, que as campanhas mais eficazes são as do contacto directo, o "trabalho de formiga", e não as dos outdoors brilhantes ou carros de som, e por isso o CDS, dos cinco principais partidos, conseguiu ser de longe aquele que menos gastou; por fim, uma mensagem clara e fácil de perceber, populista na medida certa mas aquém da demagogia. O resultado está à vista.
Pensava que o partido iria crescer, mas nunca passar da casa dos 8%. Afinal, surpreendeu a maioria. Aproveitou o voto indeciso de direita do PSD, ultrapassou os dois dígitos, quase duplicou o grupo parlamentar e voltou a enganar as sondagens. Alcandorou-se assim no terceiro lugar, colocando sérios embaraços ao PS sem maioria, para previsível irritação de Francisco Louçã, cuja subida do Bloco, aquém dos 10% (por acaso achei que não ia chegar lá), tem um sabor agridoce. E voltou a ser o mais destacado líder da direita portuguesa, que ao contrário do que dizia o "coordenador" bloquista, não é assim tão estúpida.

terça-feira, setembro 29, 2009

O ideólogo perante a dura realidade



Já agora, como é que reagiu Pacheco Pereira aos resultados eleitorais? No Abrupto parece que nada se passou. Então e a sinistra "asfixia democrática", e os índices de situacionismo, desapareceram num ápice? Pelo que ouvi, o deputado eleito por Santarém terá aparecido ontem num programa televisivo falando de mais do mesmo. Espero que não tenha sugerido que os eleitores deram um tão mau resultado ao PSD por se sentirem com medo que o seu voto nas cabines de voto estivesse a ser vigiado. Depois de tanto atordoamento verbal, seria o cúmulo.
O preço da vingança interna


Há uma coisa que distinguiu PS e PSD (e em certa medida também o CDS) e que pode ter pesado em alguns votos: a união interna dos partidos, conseguindo as cúpulas reconciliar-se com os "rebeldes" e críticos e juntando-se em prol da luta eleitoral. Isso sucedeu no PS, onde depois de anos de contundência, de uma candidatura presidencial que humilhou o seu partido e até de comícios com o Bloco e de apoiar uma candidata independente trânsfuga do PS à câmara de Lisboa (Helena Roseta), além dos votos contra na AR a propostas socialistas, Manuel Alegre apareceu no fim, em Coimbra, a apelar ao voto em José Sócrates, depois de lhe ser proposta a renovação nas listas de deputados e da sua esperada recusa. Já Paulo Portas, depois dos triste episódios do seu regresso à liderança do partido, atribuiu ao ex-presidente e adversário interno Ribeiro e Castro um papel relevante, à frente das listas do CDS pelo Porto.



Um imenso contraste com a estratégia de Manuela Ferreira Leite, que por puro revanchismo afastou de supetão o grupo de Pedro Passos Coelho. Por muito menos do que tinha feito Alegre no PS, pagaram com a exclusão integral das listas a deputados, dando uma imagem no PSD de desunião, vingança privada e paz podre. Para além da estratégia falhada e da pobreza das ideias, as "facas longas" laranjas em nada terão contribuído para a imagem do partido e para a sua "política de verdade", como aliás se disse aquando da elaboração destas listas

Ninguém se admire agora por haver quem já esteja a levar os punhais ao amolador.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Síntese
Viajando de carro entre Porto e Lisboa, não pude assistir às reacções eleitorais, mas ouvi os resultados das legislativas até ao fim através da rádio. Já sabia da mais que previsível vitória do PS sem maioria absoluta e do inesperado terceiro lugar do CDS-PP. Fui acompanhando a emissão, os discursos, as reacções, os comentários dos opinion makers, etc. A vitória do PS por esses números não me espantou absolutamente nada, mas esperava que o PSD ficasse um pouco mais além do banho que levou em 2005 com Santana. Pelos vistos não conseguiu.
Na polarização que ontem tomou forma, só me espantei (eu e mais 80% da população, embora muitos já venham falar da "previsibilidade" desta resultado) com a ascensão do CDS-PP ao 3º lugar. Imaginava que o partido Portista fosse subir, mas que não chegasse sequer aos 9%. Afinal, aí estão os dois dígitos, mais deputados, alguns arrancados a ferros e uma situação inesperada para o governo. As corridas de Portas pelo país e o trabalho de formiga incessante, mais do que grandes comícios, deram bom resultado
Quase que apostei que o BE não chegava aos 10%, e não me enganei por uma unha negra. Quedou-se pelos 9,8 e duplicou o seu grupo parlamentar. Uma grande subida, sem dúvida, mas não tão grande como a chegaram a pintar. Não conseguiu tornar-se a terceira força partidária e dificilmente terá outra oportunidade para lá chegar. Mas Louçã parece não ter percebido isso, nem que o PS não precisa dele, com um discurso em que dava ideia que tinha ganho as eleições, o que lhe valeu algumas bicadas de Sócrates.
A CDU subiu em votos e conseguiu mais um mandato, além de ver o PS perder a sua maioria absoluta. à parte isso, é uma das derrotadas da noite, embora o desaire não seja profundo. ficou em quinto e certamente que acabou prejudicada pelos votos no Bloco. Mas ainda aposto que o vai ultrapassar em futuros actos eleitorais (para além das autárquicas).
Sobre os dois maiores partidos, simplesmente o óbvio: o PS ganhou, mesmo sem maioria absoluta e com menos 8% dos votos, e Sócrates aguenta-se. O PSD perdeu, quase não recuperou nada de 2005 e apenas se pode dar por contente com o fim da maioria absoluta. Mas o que fica claro é que a sua mensagem e imagem não passaram por demérito próprio.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Dos pequenos, rezará a história destas eleições?



Ao contrário do que aconteceu nas Europeias, talvez porque as Legislativas "não se pode desperdiçar votos" e se apela ao "voto útil", os pequenos partidos têm sido muito escassas vezes objecto de notícias. Com algumas excepções, como um recente Prós-e-Contras, uma ou outra reportagem televisiva e alguns artigos como o do Público de hoje, impera quase um manto de silêncio sobre os que não têm representação parlamentar, para além daquela curioso argumento de que "o voto nesses partidos é um voto desperdiçado". Será curioso se algum deles chegar aos bancos do Parlamento, com tão pouca cobertura. Quem tiver boa memória lembrar-se-à certamente que o Bloco de Esquerda, logo na sua aparição em 1999, teve extensa atenção dos média (é verdade que também tinha algumas figuras conhecidas).

O MEP tem algumas possibilidades de lá chegar. O MMS já tenho dúvidas (aqueles anúncios de "enviar os políticos para a Conchichina" e da castração química dos pedófilos são do mais inquietante populismo que já vi), o resto, o PPM versão Câmara Pereira, o PNR "expulsem os emigrantes", o POUS da lírica Carmelinda, o MRPP desse excelente juslaboralista que é Garcia Pereira, permanecem iguais a si mesmos. Novidades são a Nova Democracia já não ser liderada por Manuel Monteiro (que no entanto corre por Braga), o MPT de Quartim Graça estar coligado com o Partido Humanista, e os nóveis Partido Trabalhista, chefiado por um senhor com ar de empreiteiro de Tondela, e o Partido pro Vida, que defende causas que considero nobres mas que gostaria muito de saber quais as ideias nas áreas da economia, assuntos externos, ambiente e obras públicas.


Dia 27, o dado de maior interesse entre estes pequenas agremiações será o de saber se o MEP consegue entrar no Parlamento. Pelos números das Europeias, isso seria possível, mas o "voto útil" pode tramá-los. Confesso que admiro o percurso de activista de Rui Marques, desde a missão do Lusitânia Expresso e da Fórum Estudante (uma revista de que era fã absoluto quando tinha 16, 17 anos, e de que guardo alguns números), até ao seu papel como Alto Comissário para a Emigração, passando pelo seu trabalho nas escolas de Timor e na participação do lançamento da revista Cais. Tenho uma certa curiosidade em ver como se comportaria na AR - e qual a sua visibilidade. A sua imagem humanista poderia sumir-se no meio das acusações entre "os Exmos Deputados", mas alguma coisa ficaria, por certo. Veremos se tem sorte no Domingo. Porque aos pequenos, como sempre, só sobrarão migalhas.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Uma imagem verdadeira da Roménia (agora a sério)


O meu post anterior era uma paródia suave a uma Roménia que cabe dentro daquilo que imaginação colectiva ocidental idealizou sobre os países balcânicos. Por falta de arte e engenho, e também de tempo, acabou por não ser uma coisa descabelada e alucinante, perceptível à primeira vista. Trata-se de um relato misturando factos reais, outros mais exagerados e algumas invenções.

O aeroporto não é assim tão rudimentar (e só levava bagagem de mão), não andei de táxi, pelo que a imagem dos taxistas é decalcada da caricatura portuguesa, não vi colunas armadas ou salteadores de estrada; as cidadelas estão apesar de tudo recuperadas e não há famílias ciganas lá a viver (aí, confesso, recordei-me das famílias africanas que se instalaram nos edifícios construídos nas cidades moçambicanas, como o Hotel Polana); os resorts não apontam quaisquer restrições étnicas. Não há muitos petroleiros mesmo à vista à beira-mar, como é óbvio, embora haja lanchas e jet-skis, e as únicas advertências quanto a indumentária respeitam a restaurantes que proíbem a entrada a gente em fato-de-banho (ainda por cima a maioria dos homens usa tangas). E já agora, o que escrevi sobre Bucareste é obviamente um exagero, embora não totalmente afastado da realidade (o problema dos cães era real mas está atenuado).
No entanto, e como diz António Teixeira no comentário a esse post, muitos dos que se referem a Portugal como "a cauda da Europa" poderiam ir dar uma volta à cintura de Bucareste, só para não se afastarem muito, ou à região da Moldávia (não ao país com o mesmo nome) para se tornarem mais benevolentes com o nosso país.


Quem tente ir de carro do aeroporto Optopeni, que serve a capital, a Constança, terá muitas dificuldades em chegar à auto-estrada, porque as indicações são nulas. Com algum azar, seguirá na direcção contrária, rumo a Oeste. Se se orientar, percorrerá a cintura de Bucareste em direcção à via pretendida, mas terá de ser paciente com as filas de pára-arranca por causa das obras; no tempo despendido, poderá admirar os inúmeros stands, barracões e estabelecimentos pré-fabricados de carácter comercial que se alinham junto à estrada, muitas vezes servidos de caminhos de terra. Pelo meio, na estrada e nas margens, passam cães de todo o tipo. Os indígenas é que nem sempre têm muita disposição para esperar e muitos ultrapassam celeremente as filas para se reenfiarem lá mais para a frente; o chico-espertismo português pede meças à forma de conduzir romena.


 
A auto-estrada que conduz à região do Mar Negro é boa, até porque atravessa a extensa planície da Valáquia, mas infelizmente ainda não está concluída, pelo que atravessado o Danúbio se tem de ir por estrada normal, com imenso trânsito à frente; na margem das estradas somam-se os tascos, restaurantes e bares, aguardando por locais ou camionistas.


Depois, a costa romena, pouco extensa. Constança, a capital natural dessa região, deve a sua importância ao facto de ser o grande porto do país (e o maior do Mar Negro), mas faz gala do passado grego e romano. a memória da cidade recorda Ovídio, o poeta exilado nestes lados. A referência da cidade é a praça com a sua estátua, atrás da qual há um museu de arqueologia e um conjunto de mosaicos romanos.

A Praça Ovídio


Mas a grande atracção de Constança é o soberbo casino, debruçado sobre o mar, a meio da corniche. Infelizmente está fechado; acredito que seja para remodelação, porque de outro modo não se entende como se desperdiça uma pérola semelhante, como casino propriamente dito ou como centro de recepções, festas ou celebrações. Não é difícil imaginar, na Belle Epoque, o rei Carol II, acompanhado pela sua Magda Lupescu, e dignitários romenos e convidados estrangeiros, nos salões e nas varandas debruçadas sobre o mar, antes dos ventos que sopravam na Europa e ameaçavam o país.


Além do casino e dos vestígios romanos, há ainda perto o farol genovês, uma mesquita e algumas igrejas dignas de nota e variados museus. Mas Constança, a antiga Tomis dos gregos, parece algo maltratada, apesar do seu estatuto de estância balnear e de aí afluir muita gente no Verão. Mas os tratos - pisos quebrados, cabos eléctricos pendentes por toda a parte, quais lianas, casas com valor arquitectónico abandonadas e quase a cair - não devem ser muito diferentes no resto do país.


Para sul, a costa está povoada com aqueles resorts artificiais do tempo do regime comunista, com nomes de planetas (ou Deuses) como Saturn, Jupiter ou Neptun. Alguns blocos de apartamentos, restaurantes perto do mar e praias semi-concessionadas. Ao que julgo saber, noutros tempos, Cunhal passou férias nestas bandas. Uma das praias parece o Nordeste brasileiro, tal a afluência de gente, o comércio de bugigangas e os pronto a comer nos caminhos de terra que levam ao areal. Ainda mais para sul há estaleiros e uma base naval, até se atingir a fronteira com a Bulgária, para lá da qual se estendem campos de cultivo, que imediatamente recordam a antiga propaganda soviética da produção cerealífera.

A Norte de de Constança fica a mais selectiva zona de Mamaia, uma península estreita ladeada de hotéis e alamedas, com a praia logo atrás. Há um cuidado maior nesta zona. O comércio é florescente e há até uma portagem para se lá entrar. Lembra um pouco mais "a Europa civilizada".

Toda esta região do Mar Negro sofreu bastante a influência otomana. Por isso, nas aldeias e pequenas cidades que se encontram ao longo da estrada, como Babadag - o nome é claramente turco - vêem-se invariavelmente mesquitas, e gente de tez mais morena do que o comum dos romenos. Muitas casas são de madeira, e nalgumas aldeias têm todas poços à sua frente, com bermas fundas na estrada, que indiciam saneamento muito básico (ou inexistência do mesmo). Mulheres de idade com lenços coloridos à cabeça conversam nos umbrais das portas. E há três coisas com que se pode contar sempre: cães, carroças puxadas por burro ou cavalo e carros de modelo Dacia 1200.



Esses sinais estão igualmente presentes em Tulcea, a última cidade em terra firme antes do Delta do Danúbio, uma enorme região natural formada por canais braços de rio e lagunas, por onde se espalha o grande rio. Uma zona bastante procurada por turistas, tanto que a cidade, estendida numa curva do rio, vive muito dessa actividade, para além de alguma indústria e do porto e comércio fluvial. Há barcos, barquinhos e vapores que levam os visitantes pelo três braços do Delta, entre os pântanos e os bosques, e os ecossistemas naturais, até à fronteira da Ucrânia, quase ali ao lado, ou mesmo a Sulina, a pequena cidade costeira, onde é quase impossível chegar por terra e que marca o fim do grande rio. Pelo meio, as aldeias desse povo expatriado e quase anfíbio, pescadores de origem russa e de longas barbas que são os lipovenos, descendentes dos que em tempos fugiram por quererem conservar os ritos da velha Igreja Ortodoxa Russa.

Para Oeste da região do Delta fica a Moldávia romena. Em Braila, que tal como a sua vizinha Galati é uma cidade de gruas e fábricas, procura-se a ponte para se atravessar o Danúbio, sempre omnipresente com os seus vários canais. Não há: tem de se cruzar o rio no transbordador de ocasião e perde-se um tempo imprevisto. Passam barcaças carregadas de sucata e madeira. Tem de se atravessar Braila, com os seus prédios decrépitos, os seus rails metálicos e as suas avenidas mal empedradas. A paisagem que se deixa para trás recorda-nos inevitavelmente os filmes de Kusturica.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Uma breve e realista imagem da Roménia




Saída há vinte anos de uma longa tirania nacional-comunista (depois de antes e durante a guerra ficar sob alçada de governos autoritários e pró-fascistas), com uma grande instabilidade política nos anos que se seguiram e há dois na União Europeia, a Roménia é um país singular que tarda em desenvolver-se.




Começando pelo aeroporto, dir-se-ia antes um imenso aeródromo, onde a bagagem é despejada num monte no meio de uma sala e os seus proprietários têm de procurá-la em conjunto com os outros passageiros. À saída, quem quiser apanhar um táxi (geralmente um Dácia" com 30 anos) poderá fazê-lo; os preços são à partida baixos, mas é costume que os clientes tenham de dar a volta de quase 360º à cintura de Bucareste, quando não são levados a dar um passeio a Urcizeni ou terras semelhantes pelos façanhudos taxistas, que têm em regra no retrovisor um galhardete do Steaua ou do Dinamo e passam o tempo a reclamar contra os ciganos ou a dizer "Isto precisava era de um Antonescu/Ceausescu em cada esquina!" O nome do ditador varia consoante a idade dos taxistas.



Antes da capital, fale-se do resto do país. Para começar, vêem-se cães por toda a parte, muitos deles com três patas (dizem-nos contudo os indicadores de desenvolvimento que a percentagem de quadrúpedes propriamente ditos tem aumentado muito nos últimos tempos). As estradas são razoáveis nas regiões planas do sul, já que são alcatroadas e há apenas que prestar atenção aos buracos. Em zonas de curvas, apanhar uma carroça ou uma coluna do exército em manobras ou um rebanho de porcos pode ser motivo de demora. As aldeias são pitorescas, com as suas casas de telhados inclinados cobertos de colmo, as suas ruas de terra batida e as suas bermas e poços em frente a cada casa (o saneamento é algo básico); na região mais a leste cada uma tem a sua mesquita de tipo turco; não convém no entanto parar pela possibilidade de se ser alvo de ataque de salteadores armados de bacamarte ou de crianças ciganas lavando os vidros (também na cidade).


Os monumentos são grandiosos: as cidadelas da Transilvânia ostentam uma imponente e germânica silhueta entre a paisagem de colinas. no entanto, o visitante que se aproxime reparará nas ameias tombadas e nos telhados a precisar de reparações, para além das inúmeras famílias ciganas que as habitam. Fardos de palha acumulam-se nas praças interiores. Escapa a esta imagem o famosa Castelo de Bran (mais conhecido como "castelo do Drácula") já que recebeu avultados investimentos para receber os turistas. Nos campos em redor das cidades são mais notórios nas estradas os tractores e as carroças com fardos de palha.




Os resorts do Mar Negro, outrora reservados à elite do Partido, sofreram algumas melhorias. É vedada a entrada até um raio de cem metros das praias a ciganos, turcos, lipovenos e gente que ostente símbolos estrangeiros que não os americanos, da UE ou da NATO (ou pagando bem, russos). Quem tomar banho no mar - com a indumentária permitida - deverá tomar atenção às lanchas da polícia e ao óleo deixado pelos petroleiros que passam perto



Na capital, o trânsito flui demoradamente como qualquer grande cidade europeia, ou talvez mais, visto que 20% dos veículos é de tracção animal, e os restantes automóveis de gama média da marca Lada, na sua maioria anteriores a 1990 (cópias dos Renaults 12).




O tipo de pessoas que passa nas ruas não é muito diversificado: grande parte da população continua a vestir-se com trajes das zonas de origem, visto que dois terços dos habitantes de Bucareste são camponeses, muitos à trazidos quase à força; para deixar esses hábitos ancestrais, muitos usam uniforme militar (uma herança do antigo regime); reconhecem-se ainda skinheads, que por vezes funcionam como sucedâneos das forças policiais sempre que os problemas não tenha a ver com eles, e ciganos, vestidos como tal. A recente modernização do país e a entrada na UE mudou alguns estereótipos e já se vêm pessoas mais novas ostentando as camisolas dos clubes desportivos locais ou alguma roupa copiada aos ídolos O-Zone. Mais do que pessoas, há cães por toda a parte, muitos em matilha, pelo que andar em parques a partir do fim da tarde pode constituir uma aventura suicida. Anualmente há uma média de oitenta mortes na capital por ataques de cães, mas crê-se que o número será maior porque não se tem em conta quem vive na rua.


As compras fazem-se mais em mercados do que em lojas. Uma novidade recente são os DVDs, mas ainda não têm grande saída, já que os respectivos leitores são quase inexistentes, por isso a maior parte da população ainda recorre a cassetes VHS e Beta.



O símbolo de Bucareste é, como se sabe, o enorme Palácio do Povo. Construído por Ceausescu para reunir todos as grandes instituições administrativas do país, com as escadas de degraus à medida dos passos do Conducator e as famosas torneiras de ouro, abriga hoje não só as câmaras do Parlamento mas também a residência oficial do presidente e de todos os membros do governo - concubinas incluídas - e também dos ex-presidentes, e ainda salas para conferências, sedes de bancos e, nas caves, depósitos de armas e munições, não se dê o caso de haver outra revolução como em 1989. Tem também um imenso salão de baile onde Elena Basescu, filha do presidente e recentemente eleita deputada europeia, costuma dar as suas festas privadas.




A vida nocturna vive dos bares situados invariavelmente em caves, normalmente antigos abrigos subterrâneos, muitos dos quais proibidos a mulheres (outra situação que tem mudado com a entrada na UE), ciganos, turcos e húngaros. As bebidas normais costumam ser a cerveja artesanal feita na própria casa, cujo estranho sabor faz suspeitar dos seus componentes, vinho, aguardentes de castanha e licores variados de teor elevado de álcool. Os preços em Euros podem chegar até 1,50€ pelas bebidas mais caras, quase inacessíveis ao comum da população. Refira-se que a moeda romena, o Leu, vale cerca de 2,5 cêntimos, e que as notas de valor mais elevado chegam aos mil Lei.




Quase posta de parte no regime comunista, a religião voltou em força desde 1990. Da quase proibição passou-se para a quase obrigatoriedade, e os soldados que vão em missão juram pela pátria e pela Santa Igreja Ortodoxa Romena, com a protecção de São Constantino Brancoveanu. Também as cerimónias públicas têm sempre a benção da igreja.




O tempo no Verão é soalheiro, mas a indústria pesada e os poços de petróleo em constante laboração fazem com que uma permanente nuvem de poluição envolva as principais cidades, pelo que o sol raramente se vê em Bucareste. Um problema acrescido à frágil indústria turística romena, como tantos outros, mas cujos desenvolvimentos recentes dão motivos de esperança num futuro melhor.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Pólvora seca em véspera de eleições
António Preto e Helena Lopes da Costa não são propriamente pessoas devedoras de grande credibilidade. O facto de fazerem parte de qualquer lista eleitoral é matéria sobrenatural para lá da compreensão humana. Espanta-me que haja quem tenha a menor ideia de neles votar seja para o que for, excepto talvez os familiares e amigos. Por isso não me custa a crer que as jogadas internas de voto censitário no PSD de que são agora acusados sejam mesmo verdadeiras.
Sabe-se que apoiam Manuel Ferreira Leite e são candidatos às legislativas por Lisboa. No PSD diz-se "que o assunto já não é novo e que foi “ressuscitado” agora “por causa da campanha eleitoral”.
Por mais grave que seja - ainda que, sendo assunto interno de um partido, não se revista da mesma gravidade que teria caso envolvesse instituições e dinheiros públicos - parece haver aqui claras semelhanças com o que se passou antes das eleições de 2005. Na altura, é bom recordá-lo, surgiu o caso Freeport vindo do nada, através de uma denúncia anónima e amplamente publicitada por O Independente. O objectivo político de tramar Sócrates estava lá escarrapachado, o passa- palavra popular "isto apareceu agora para tramá-lo" começou a correr e por isso mesmo o tiro saiu pela culatra e o PS ganhou com a maioria que nos tem governado desde então.
Terá esta notícia sobre a compra de votos mais desenvolvimentos e impacto? Talvez Ferreira Leite, se se recordar de 2005, esperará que sim. Com toda a certeza a história iria apenas trazer mais votos ao PSD, com todo o aspecto de arranjo político que parece vir colado.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Assim vale a pena

Ir ao Restelo (estádio que não conhecia), convidado para ver o jogo, numa tarde soalheira e com uma maré vermelha no interior do recinto é sempre apelativo. Se dá para ver o Benfica a golear com os Jerónimos, o Tejo e os transatlânticos como cenário do fundo, melhor ainda. Tal como aconteceu ontem, em que uma equipa terrivelmente eficaz não deu hipóteses a um Belenenses de poucas ideias. Tudo isto num ambiente fantástico, com o público a cantar ininterruptamente com a marcha do marcador. E, repita-se, à tarde, como "antigamente". Únicos senãos: os acessos e as bilheteiras do estádio, a precisar de arranjos, e ter perdido o meu velho cachecol do Benfica; como estava com uma camisola do Steaua de Bucareste (azul e vermelha, portanto), ninguém saberia dizer qual dos clubes estava a apoiar. Pequenas misérias à parte, uma óptima tarde de futebol, antecedida de uns pasteis de Belém, e um "Benfica à Benfica". assim vale a pena.

(Imagem tirada daqui)

sexta-feira, setembro 11, 2009

As explicações de Carolina
Eis a explicação que se exigia; Carolina Patrocínio quebrou enfim o silêncio sobre a crucial questão das frutas sem caroço e da tarefa da empregada nesse contexto.E ficamos também a saber que Pedro Granger não precisa que ninguém lhe tire os caroços das cerejas. E também que Carolina é "uma jovem de convicções". Na alta política onde a "mandatária para a juventude" da campanha do PS se move, é essencial saber com quem podemos contar. Falta apenas desvendar se aquela história do "detesto perder, prefiro fazer batota" não é nada daquilo que se ficou a pensar.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Andie McDowell em Vila Real?



Abre hoje a primeira edição do Douro Film Harvest, espalhado em localidades como Vila Real, Lamego, Régua e Torre de Moncorvo. Para já, a pergunta que se impõe é: Andie McDowell irá mesmo à sessão em sua homenagem no Teatro de Vila Real? Só acredito vendo (embora infelizmente eu não possa lá ir). Caso não altere a sua agenda, será um sucesso imenso para o jovem acontecimento. Porque nós merecemos, como diria a própria num dos seus estafados anúncios a cremes hidratantes.

Já agora, Milos Forman também prometeu aparecer em Lamego, noutra sessão. E Kyle Eastwood, filho do grande Clint, irá tocar no Pinhão com a sua banda de jazz.

E depois do Douro Film, chega-nos o Douro Jazz. Não há dúvida, a região está finalmente a desenvolver o seu incrível potencial. Que assim continue. Mais vale tarde do que nunca.
Adenda: Sim, Andie McDowell veio mesmo à cerimónia de Vila Real, com ligeiro atraso e palavras de circunstância ("tenho muito a descobrir em Portugal"). Devo-lhe as minhas desculpas porque duvidei da sua vinda. Endereçá-las-ei pessoalmente na sua próxima estadia no nosso país.
A imobilidade das lideranças

Não ando muito a par da pré-campanha e acompanhei apenas em parte os debates entre os principais candidatos. Do caso "Fim do Jornal Nacional" fiquei com a ideia, tal como a maioria das pessoas, que se tratava de um favor desastrado sem aviso prévio a Sócrates e que o prejudicou mais do que ajudou (embora as lágrimas de Moura Guedes pouco efeito façam no meu coração empedernido).
Constato é outra coisa, óbvia mas inquietante para todos os que falam na "renovação do panorama político": os líderes partidários , com excepção de Manuel Ferreira Leite (que pese o facto de ser mulher, é tudo menos uma imagem de frescura e novidade na política), são os mesmíssimos de há 4 anos. Sócrates é o chefe de Governo que pretende manter-se no poder mesmo sabendo que a maioria absoluta já lá vai; Jerónimo, para a média de tempo que os SGs do PCP ocupam no lugar, até está há pouco tempo; Portas, na ânsia do poder, não soube fazer a travessia do deserto que se impunha e voltou a reger o Caldas; Louçã, esse, camuflado no cargo de "coordenador" do BE, para dar uma ideia de "libertarianismo" e "democracia popular" como se não houvesse hierarquias, é o eterno rosto do Bloco. Depois há quem porque é que cada vez menos os partidos atraem. Fácil de ver, não é?

quarta-feira, setembro 02, 2009

Chegada

Chegada a capital, depois de atravessar os Carpatos. Aldeias ao longo da estrada, com telhados inclinados e portoes de madeira, carrocas por toda a parte, caes pela estrada fora e cidades magnificas e multicolores, no meio de extensos vales rodeados de picos majestosos, eis a impressao com que fiquei da Transilvania. Ainda assim, estafado pelas muitas horas de carro. A ver vamos o que nos reserva a palna Val]aquia.

sábado, agosto 29, 2009

Dacia

Esta a ser exaustivo mas produtivo, este percurso pelos extremos da Nova Europa. Planicie e costa, para ja. S]o lhes digo que quem acha que Portugal esta na cauda da Europa nunca andou pela cintura de Bucareste.

quarta-feira, agosto 26, 2009

A igualdade segundo os "primeiro-republicanos"



Na exposição sobre Sidónio Pais que está aberta ao público em Caminha até Outubro, vê-se, entre documentos, objectos pessoais (como a célebre farda azul) e notícias e invocações várias ao "Presidente-Rei", um panfleto anónimo da época, fortemente anti-sidonista e pró-República Velha, que acusava Sidónio, entre outras coisas, de reabilitar e "trazer monárquicos para o poder" (ou seja, permitir que voltassem do exílio). Mas o que mais saltava à vista era a acusação de que a eleição por sufrágio universal do presidente, a primeira de sempre da república, era um truque para que "os caciques monárquicos da província manipulassem os seus eleitores" e chegassem ao poder através do presidente por si eleito. Por outras palavras, os eleitores em geral - e os da "província" em particular - eram uns tontos controlados pelas tais "elites monárquicas" e convinha que as mentes esclarecidas dos republicanos de Lisboa e Porto fossem zelosos e salvaguardassem a situação, elegendo, através da sua esmagadora maioria parlamentar escolhida num universo eleitoral conscensiosamente limitado, a figura decorativa e emproada que melhor lhes servisse no momento. Tudo em nome da suposta "república democrática" e da "liberdade e igualdade". Sidónio mudou as regras do jogo, e tal como seria de esperar, acabou varado pelos tiros na Estação do Rossio, forma usual dos republicanos radicais se livrarem de que lhes fazia frente.


Sem ser sidonista, coisa que hoje faz pouco sentido, mas como homenagem à alma do "Presidente-Rei", saí da exposição e fui comer um "sidónio", delicioso bolo de amêndoas e ovos que tem esse nome em memória do estadista nascido em Caminha.

segunda-feira, agosto 24, 2009

A península ocasional



Protegendo a embocadura do rio Minho, dominado pelo galego Monte de Santa Tecla, equidistante de duas costas, mas indubitavelmente portuguesa, a Ínsua cumpriu, ao longo dos séculos, a sua função de convento, fortaleza e farol. Hoje é uma curiosidade para os turistas (que tanto vandalismo lhe fizeram) que apanhem um barco para lá, já que as correntes do Minho só aos nadadores de elite permitem que a alcancem à força dos braços. As muralhas estão em perfeito estado de conservação, mas as casamatas são semi-escombros e o convento está meio arruinado. Os azulejos da capela há muito foram roubados e resta o pequeno claustro, com um mínimo de dignidade, além da mina de água doce, que poucos encontram. Tal é o estado actual da fortaleza setecentista que defendeu Portugal nos combates com os vizinhos da Galiza e que impediu os exércitos franceses a mando de Soult atravessassem logo ali para Portugal (os poucos que o conseguiram perderam-se no pinhal do Camarido e foram presa fácil para os pescadores locais). Tiveram de dar a volta e só atravessaram em...Chaves.


Diz a vox populi local, e comprovam-no os factos, que de cinquenta em cinquenta os movimentos de mares e de areias transformam durante alguns dias a Ínsua numa península. Da última vez que deveria ter acontecido, no Verão de 2001, a coisa ficou a meio, mas sempre se chegava lá a pé com água pela cintura. Já lá tinha ido algumas vezes de barco, pelo que a sensação de atravessar o canal a pé foi inédita; era ver dezenas e dezenas de pessoas a fazer o mesmo, numa marcha de banhistas que dificilmente alguma outra época teria repetição.


A verdade é que noutras eras atravessava-se para a ilha a pé enxuto, e a comprová-lo estão as fotografias que se podem ver nas paredes do Palma, um dos mais populares bares/restaurantes de Moledo. Em 1947 a Ínsua converteu-se brevemente em península, e organizaram-se marchas e procissões para lá ir.


Mas a sua natureza é insular, como o comprova o nome, tornou-se um ex-líbris da região e deu o nome a um conhecido clube de Moledo (fundado entre outros por António Pedro da Costa). Já se pensou em convertê-la em resort, mas o difícil acesso, e as condições precárias no Inverno, aliadas ao mar que por vezes bate nas muralhas do forte, tornam a empresa incomportável. Antes assim. Continuará a ser a sentinela solitária do Minho, com a ajuda do seu farol, e dará sempre um toque único ao cenário de uma das mais belas praias à face da Terra.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Olha, voltou o "terrorismo ideológico"


Desta feita em Cascais. Isto espalha-se mais rápido do que a Gripe A.





E a justa homenagem...

E ao que parece, não é o 31 da Armada.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Ah, a moral republicana



Rodrigo Moita de Deus propôs à CM de Lisboa, em nome do Movimento 31 da Armada, a troca da bandeira municipal pela azul e branca, "agradecendo que a devolvessem". Depois da operação nocturna, o humor corrosivo continua agora nas palavras dos seus autores (ou membros do blogue), enquanto que os neo-carbonários parecem andar à nora e não perceber nada de nada. Entretanto, a PJ aproveitou a sua ida à CML para os levar à esquadra, com recurso à manha.


Claro que o episódio do 31 não pretendia levar-se demasiado a sério, mas tão somente chamar a atenção para a historiografia oficial da república com uma acção simbólica. Há quem já clame pelas "necessárias medidas legais" e quem, mesmo não sendo republicano, invoque o primado da lei e da ordem. É claro e indiscutível que estas devem imperar em qualquer sociedade que se queira sã e livre. Que era precisamente o que os republicanos não queriam, ao instalar o seu regime pela calúnia, pelo agit-prop, pelas bombas e pelos tiros. Pergunto-me que espécie de legitimidade terão os defensores republicanos da ordem pública, que se preparam para comemorar os 100 anos do 5 de Outubro, quando defendem a obra da carbonária? Que respeito pela lei e pelos símbolos nacionais podem invocar, eles que rasgaram a Carta e colocaram as cores do partido na bandeira nacional, acabando com o branco e azul que sempre tinham sido as cores por trás das quinas (ou até antes, em tempos do 1º Rei)? A demagogia tende a confundir-se com a hipocrisia.

Já agora, desde quando é que o municipalismo é pertença exclusiva do "ideário republicano"? É ver as tradições desde a Idade Média e o que do municipalismo escreveram os autores Integralistas, por exemplo.


Temos depois a usual tentativa de colar o rótulo de "meninos bem" a todo aquele que se reclama monárquico. O truque é velho, mas tende a perder eficácia, com a passagem do tempo e o crescente esclarecimento das pessoas. Ontem, no Público, Rui Tavares tentava fazer crer que se tratava de um grupo de brincalhões que errava o alvo porque "desrespeitaram a equivalência hierárquica" (por causa da bandeira municipal) e que a acção em si foi uma cópia do que os republicanos tinham feito, tratando-se consequentemente de uma "aculturação pela república", em que os monárquicos teriam perdido cultura própria.

Como Rui Tavares não é ignorante nem simplório, acredito que o texto fosse mais uma imensa laracha ao gosto da época, a não ser que se tenha espalhado ao comprido. Porque a ideia era uma demonstração simbólica da reposição da ordem legítima pré 5 de Outubro; por isso se substitui a bandeira da edilidade, que era a que lá estava; por isso se procedeu a tal acção, sem desacatos ou bombas. A "vassalagem perante a república" não faz por isso o menor sentido. Em termos de "aculturação", as diferenças ficaram vincadas.

Já a ideia de "meninos-bem", como disse atrás, é chão que deu uvas. Há monárquicos de direita e de esquerda, dentro e fora dos partidos, em todos os estratos sociais, nas universidades, nas artes e letras, na diplomacia, na imprensa e nas forças armadas. Se durante uns tempos eram reduzidos à imagem dos bigodes enrolados e capotes alentejanos (por vezes por culpa própria, fechando-se um pouco à sociedade), hoje só os néscios - ou os demagogos, descendentes directos dos governantes de 1911- é que recorrem à caricatura.

Restam algumas tentativas de menorização do caso, como o do repórter da SIC que dizia que "daqui a dias o caso vai cair no total esquecimento". Pela mediatização que colheu, incluindo o destaque no Público, não parece. Se outras se seguirem, então, vai ser o bom e o bonito. Paciência. Sempre é melhor do que os "marqueses da Bacalhoa", as bombas e os tiros, não é?

segunda-feira, agosto 10, 2009

...e a bandeira voltou ao seu lugar



 99 anos depois, a bandeira azul e branca volta a flutuar num edifício público, mas precisamente na CM de Lisboa, de onde havia sido retirada a 5 de Outubro. Uma acção nocturna da malta do 31 da Armada repôs a legítima bandeira para onde devia estar. Não sei se é um prenúncio ou uma acção cairá no esquecimento, mas uma coisa é certa: em Portugal há gente que sabe conjugar a audácia com o humor. Nem todos entendem isso. De qualquer forma, um abraço ao 31 da Armada, aos autores concretos da "gracinha" (e que graça teve!)e o desejo de que esta bandeira se multiplique aos edifícios públicos por esse país fora.


Quim como Duckadam

Quando defendeu 4 penaltis frente ao Milan, entregando deste modo ao Benfica a Eusébio Cup, Quim alcançou a marca do grande Helmut Duckadam, que com as suas manápulas deu um título de campeão europeu ao Steaua de Bucareste. E também aí o adversário tinha peso, o Barcelona, ainda por cima num jogo realizado em Sevilha. Isto promete, agora também na baliza!
















Raúl Solnado


Já tinha pensado por mais do que uma vez, vendo Raúl Solnado, que todo o país verteria uma lágrima quando ele desaparecesse. Hoje levaram-no a enterrar, entre aplausos, lágrimas e sorrisos de homenagem. Não faltou gente à sua despedida, e muito mais haveria se não estivéssemos em Agosto.


Sempre simpatizei muito com Solnado. Teve programas com mais piada, outro com menos, mas como pude ver hoje nos seus primórdios televisivos, foi o verdadeiro pioneiro da stand-up-comedy em Portugal, sem esse nome, mas muitos anos antes de Seinfeld nos entrar pela casa dentro. Era um homem simpático, generoso, mais galhofeiro que histriónico, e que acima de tudo nunca perdeu o nível nem a compostura. Pôs o país inteiro a rir com a Guerra e a História da Minha Vida, acompanhou sucessivas gerações de actores, até aos mais novos, como se viu pelas colaborações recentes com Bruno Nogueira. E ainda provou (até a si mesmo) que não era somente um humorista, mas também um soberbo actor dramático, tendo impressionado o seu papel sóbrio e desencantado como inspector Otero, em a Balada da Praia dos Cães. Morre antes dos oitenta anos, devido a velhos problemas de coração. Deixa-nos óptimas memórias e um grande legado de representação, humor e sobretudo de forma de estar na vida. Oxalá o aproveitem devidamente. Seria a melhor homenagem a fazer a Raúl Solnado e à sua já famosa máxima "Façam o favor de ser felizes".



domingo, agosto 09, 2009

Férias

Também entrei ontem de férias, vindo descansar uns dias para o sítio do costume. Lá para os dias vinte darei um salto aos Cárpatos, mas antes disso há que revigorar o corpo e a alma com o sal do mar, o iodo e o aroma dos pinhais e das camarinhas. O nevoeiro por vezes aparece, mas isso até se aguenta. O pior é a nortada, mas arranjam-se sempre sucedâneos à praia. Mas a blogoesfera e a saída de posts não fica esquecida, isso não. Quanto muito, ligeiramente menos constante. E mais relaxada.

Vingançazinhas e deputados paraquedistas


Ainda falando da questão das listas de deputados do PSD, parece-me que a questão da "liderança" de Manuela Ferreira Leite tal como é vista pelos seus defensores resulta numa avaliação apressada ou revanchista. Um verdadeiro líder não é aquele que se impõe sobre tudo e todos, esmagando oposições e afastando potenciais adversários. É sobretudo aquele que demonstra capacidade de magnanimidade, de aglutinação, de união, que consegue juntar as baterias todas do mesmo lado em épocas de combate mais importante. Tomar atitudes revanchistas e de exclusão, por mais que Passos Coelho e seus apaniguados não se tivessem portado bem, mina o funcionamento interno de um partido que se quer no poder e provoca a desconfiança nos eleitores. Ou seja, em tempos que deveriam ser de união, Ferreira Leite conseguiu a fractura, como se verificou pelas críticas internas.

Para mais, este processo ainda trouxe à superfície um dos hábitos mais patéticos da partidocracia portuguesa: a colocação dos candidatos em círculos com os quais nada têm a ver. Também por isso a exclusão de Passos Coelho de Vila Real é ridícula (Montalvão Machado sempre pode argumentar que o seu pai é de Chaves), mas há ainda casos mais gritantes, como Bacelar Gouveia por Faro, Miguel Frasquilho, que numas autárquicas se candidatou a uma câmara dos arredores de Lisboa, em segundo pelo Porto ou o ex-líder do PSD-Açores por Castelo Branco, depois de ter encabeçado em 2005 a lista de Portalegre. E ainda a novidade Maria José Nogueira Pinto por Lisboa, quando a ex-dirigente do CDS-PP até nem estará contra António Costa na próxima batalha por Lisboa.

Manobras e tricas já velhas, que parecem cada ano piores, que afastam os eleitores dos eleitos, e pior ainda: dão ideia que os partidos brincam com eles ao sabor das refregas internas. Muito longe da "política de verdade" que o PSD apregoa (muito embora os outros partidos não sejam muito diferentes). Se se pode colocar um cabeça de lista que nada tem a ver com o distrito, então não seria melhor adoptar um sistema proporcional puro, abrangendo a totalidade do território, em lugar da proporcionalidade por círculos? Então digam-no de vez, para se proceder a uma alteração do método eleitoral e acabar com a hipocrisia actual.
 
Razão tem o Blasfémias: só Daniel Campelo defendeu efectivamente os interesses dos eleitores do seu círculo distrital, mandando às malvas a invenção do "deputado nacional". Mas pagou por isso, pois pagou.

terça-feira, agosto 04, 2009

A piada política da silly season


O caso do convite do PS a Joana Amaral Dias entra por mérito próprio para o anedotário político do ano. A acusação de Louçã, com o seu habitual tom de Savoranola trotsquista, de que José Sócrates teria convidado a ex-deputada bloquista para as suas listas de Coimbra e para um cargo num qualquer instituto público, despoletou uma reacção enérgica do Primeiro Ministro, com acusações mútuas de "mentiras" e "falta de vergonha". Assistiu-se a trocas de mimos, acirrando ainda mais a crispação entre o PS e o BE. durante dias não se percebeu quem dizia a verdade. Houve tomadas de posição, esgrimiram-se argumentos de parte a parte, escreveram-se inúmeros posts; uns deram a razão a Sócrates fosse pelo seu direito a convidar quem quer que fosse, ou pela ausência de provas do hipotético convite; outros acharam que Sócrates vinha com uma das habituais "aldrabices" e davam razão a Louçã. E todos perguntavam onde estaria Joana, que só ela poderia repor a verdade dos factos.


Até que finalmente a ex-menina bonita do BE apareceu publicamente, a esclarecer tudo. Com o seu habitual ar blasée com uma cobertura de petulância, que, reconheça-se, lhe fica muito bem, perante Ana Lourenço (uma boa escolha e um bom contraste), explicou que o convite lhe tinha sido endereçado pelo Secretário de Estado das Obras Públicas Paulo Campos, seu conterrâneo de Coimbra, pelo telefone, e não através de contactos "íntimos e privados" (como Campos dissera anteriormente), mas que "não havia condições políticas" e por isso declinou. Ao que parece, o governante não era assim tão seu amigo e só se tinham visto uma vez.


Não me parecendo muito ético que se ande por aí a convidar gente de outros partidos para as próprias listas eleitorais, certo é que casos destes são frequentes noutras situações, como as autárquicas, por exemplo. Ao que tudo indica, o PS tentou aproveitar o ostracismo a que Amaral Dias tem sido votada no BE para a "pescar" e conseguir assim um trunfo à esquerda, roubando votos ao BE. É possível que Sócrates não estivesse realmente informado e que a iniciativa tivesse partido dos socialistas de Coimbra, nomeadamente Paulo Campos.

Do que não há a menor dúvida é que o convite, ou sugestão, ou seja lá o que for, não era exactamente uma notícia a ser divulgada pelo pregoeiro. Assim, fica-se a pensar como é que Francisco Louçã teve acesso à informação: ou Joana Amaral Dias lhe disse, o que dadas as circunstâncias parece de todo improvável, ou alguém soube e transmitiu ao "coordenador" bloquista, que aproveitou logo para alardear o caso aos quatro ventos e atirar-se a Sócrates.

Parece-me que Amaral Dias consegue sair desta historieta sem grandes beliscaduras, embora seja o cerne da questão. Se desta vez não ingressou como candidata rosa, há de acabar fatalmente no PS, probabilidade séria desde que foi mandatária da juventude de Soares. Sócrates também escapa entre os pingos da chuva, porque não parece que a ideia tenha vindo dele. Piores na imagem ficam mesmo Louçã e o até agora discreto secretário de estado. O primeiro porque não soube respeitar assunto alheio e utilizou-o para representar o habitual papel de moralista sem podres, fazendo uma triste figura. E Paulo Campos porque sai como o jogral de serviço, que fala de supostos contactos com uma "amiga" que afinal só viu uma vez, se desmente e se vê de novo desmentido pela "convidada" em directo no noticiário. Sobretudo aquela expressão "contactos íntimos e privados", acompanhada de um sorrisinho entre o cândido e o sarcástico de Joana Amaral Dias, deu-lhe uma imagem patética de tentativa D. Juan instrumental (sem sucesso notório) ao serviço da causa rosa.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Corazon Aquino



1933 - 2009
Desapareceu uma mulher corajosa, lutadora e generosa, que combateu a ditadura das Filipinas por meios pacíficos e que nunca usou o seu cargo presidencial para enriquecer, numa região em que a corrupção é um estado de espírito. Que descanse em paz.

sexta-feira, julho 31, 2009

Sobre a justiça

A ler este texto de Francisco Pereira Coutinho sobre a Justiça, no blogue Novas Políticas, fazendo um breve diagnóstico dos problemas do sector e apontando possíveis soluções. Tudo sem ferroadas políticas ou partidarite aguda.

quarta-feira, julho 29, 2009

O Vítor Baptista espanhol?

 



Um fantástico movimento de José Luis Caminero, do Atlético de Madrid, a sentar Nadal, o central do Barcelona (e tio do tenista Rafa Nadal), oferecendo o golo aos colchoneros num ano em que ganharam a dobradinha em Espanha. Esta jogada aparece numa cena com o seu quê de comicidade do filme Em Carne Viva, de Pedro Almodôvar. Caminero era na altura o maestro da Selecção Espanhola e esteve em destaque no Mundial de 1994 e no Europeu de 1996.

Há dias, Caminero foi detido por alegadamente fazer parte de um grupo de tráfico de droga e branqueamento de capitais. Entretanto, já está cá fora, mas o seu nome está já manchado. Esperemos que o homem que tais fintas conseguia dar não venha a ser o Vítor Baptista espanhol.

quinta-feira, julho 23, 2009

Pirataria


A vaga de pirataria que assola o Índico e a saída do Mar Vermelho com origem na Somália é tema corrente dos últimos meses. Uma das mais concorridas rotas marítimas do globo, ponto de ligação entre o Mediterrâneo e o Índico, e portanto da Europa e Ásia, passa por momentos de tensão e risco acentuados pela crise económica e financeira global.

Os habituais articulistas do tão ouvido "como é possível em pleno Século XXI" espantar-se-ão com este fenómeno que parece tão afastado dos "nossos dias". Hoje, pirataria é sinónimo de assaltantes de aviões, hackers informáticos e falsificadores de suportes musicais (e daquele partido sueco que ganhou um lugar no Parlamento Europeu). Por piratas originais, os dos mares, lembramo-nos sempre do Jolly Roger, dos desafortunados que dão sempre de caras com Astérix e Obélix, os corsários Drake e Jean Laffite, o sanguinário Black Beard e capitão Kidd; e, claro, Long John Silver e respectiva pandilha do imortal A Ilha do Tesouro, de Stevenson, que todos lemos no início da adolescência. Pelo cinema também nos veio o mito dos "Ladrões do Mar", através de Errol Flynn, Douglas Fairbanks, Gene Kelly, Roman Polansky (numa deriva mais descontraída, com Walter Matthau, e cujo navio do filme, o Neptuno , pode ser admirado no porto de Génova), e, mais recentemente e com grande sucesso, Johnny Depp e série Piratas das Caraíbas.


Ora o espanto nem terá muita razão de ser. Se os mares das Caraíbas já não são pasto de ingleses e holandeses renegados, e se os turcos e barbarescos já não aterrorizam o Mediterrâneo e as ilhas Atlânticas, os Mares da China e do Sudoeste Asiático já há muito que conhecem bem o fenómeno nos tempos actuais. O que se passa entre o Corno de África e o Golfo de Adem passa-se igualmente no Estreito de Malaca, onde o tráfego marítimo entre o Índico e o Pacífico (um quarto do comércio mundial) é constantemente ameaçado pelos ataques a navios mercantes de potentes embarcações que surgem entre as numerosas ilhas entre a Malásia e a Indonésia. Apesar de tudo, a pirataria decresceu consideravelmente a partir de 2006 desde os acordos com as guerrilhas de Aceh e de um maior patrulhamento da zona.

Os ataques de piratas à volta do Corno de África datam, mais a sério, de 2005. A pulverização do estado somali, em 1991, entre vários territórios e Senhores da Guerra, conduziu à anarquia e à guerra civil, a que nem a intervenção da ONU conseguiu pôr cobro, gorada depois das imagens de corpos de marines americanos arrastados em Mogadíscio. A ausência de ordem no território (com a possível excepção da Somalilândia, a Norte), a miséria e as constantes guerras entre os Tribunais Islâmicos, o "governo "interino moderado apoiado pela Etiópia e os EUA, e milícias várias levaram à procura de novos meios de subsistência, e que logo se converteram nova fonte de lucros. Sem autoridade em terra, pescadores e guerrilheiros iniciaram-se em actos de pirataria, utilizando para tal barcos velozes e facilmente manobráveis, armados até aos dentes com armas ligeiras e levando até consigo contabilistas, tradutores e técnicos munidos de computadores portáteis, não só para se orientar no mar mas igualmente para calcular os valores apreendidos. Têm base em cidades costeiras como Haradhere, que graças à pirataria conhecem uma nova era de prosperidade. Multiplicam-se os pontos de fornecimento de produtos, restaurantes e locais de entretenimento, e a construção civil também prospera, com o efeito dominó do boom desta economia clandestina (como tudo na Somália). Não admira assim que piratas tenham o apoio maciço da população local e de vários senhores da guerra, já que todos beneficiam directamente com isso. A guerra e a luta pela sobrevivência que se verificam naquela terra sem dono, ou com demasiados donos, prolongam-se consequentemente no mar, sem autoridade que as impeça. E continuará a vingar enquanto não existir uma Somália minimamente normalizada. Ou seja, pode durar ainda muitos anos, porque a situação não dá mostras de melhorar. Antes pelo contrário, como se vê numa Mogadíscio sem rei nem roque, dividida entre duas facções que a pretendem controlar a qualquer preço.



Também a capacidade de actuação aumentou imensa e espantosamente, não só no raio de acção mas também na dimensão física das capturas. Em Novembro apoderaram-se do super petroleiro saudita Sirius Star, de 330 metros de cumprimento e com uma carga de dois milhões de barris de crude, a 450 milhas marítimas da costa de África, que causou grande espanto até mesmo em Haradhere. Só através de um resgate de perto de 15 milhões de dólares é que libertaram o navio e respectiva população. e em Setembro do mesmo ano capturaram o Faina, navio ucraniano que transportava tanques russos T-72 e artilharia anti-aérea. Devolveram-no à procedência contra o pagamento de 3 milhões de dólares.



Com tais perturbações ao comércio marítimo mundial, foi necessária a intervenção da Task Force internacional com base no porto de Djibouti, cujas tarefas eram até então de apoio a tropas americanas no Médio Oriente, e de vários outros estados, como a Rússia, a china e a Índia. Também a NATO enviou uma força naval permanente, uma flotilha de oito navios, comandados pela fragata portuguesa Corte-Real. A armada portuguesa teve por isso de patrulhar aquela vastíssima área e consegui impedir ataques a vários navios, capturando algumas embarcações piratas. Teve porém de libertar os seus ocupantes porque a Convenção da ONU sobre Direito do Mar só considera cmpetentes para julgar piratas as autoridades do próprio país de onde são provenientes ou daquele ao qual pertenceriam os eventuais lesados.

 
A Corte-Real regressou há dias a Portugal, mostrando com assinalável orgulho algumas lanchas capturadas aos piratas somalis. Pode parecer pouca coisa, mas só a presença portuguesa em águas do Índico revela não só o cumprimento dos seus deveres a nível internacional (o comércio marítimo afecta a todos), mas é igualmente uma mostra de prestígio e da confiança que é atribuída ဠnossa força naval por parte da NATO. E ainda outro aspecto importante, este mais do domínio da memória: quatro séculos depois de dominar o Índico, de ocupar a entrada do Golfo Pérsico e respectivos portos estratégicos de Ormuz e Mascate, de ameaçar subir o Mar Vermelho até ao Egipto, sob os Almeidas e os Albuquerques que tanto temor inspiraram naquelas paragens, Portugal regressa com a sua força naval para ajudar a limpar aquela região da pirataria que a infesta. A diferença é que num Mundo multipolar e tecnológico abarcando organizações internacionais de variada natureza, já não é uma actuação solitária, mas inserida num conjunto de várias nações unidas com um objectivo comum.



Assim se retomam velhos ciclos: a pirataria, que tantos julgavam coisa do passado, aí está, com outros meios mas com propósitos iguais. E Portugal, que no passado tanto combateu com assinalável sucesso naquela mesma região, envia o navio-almirante de uma importante operação naval da NATO. Há coisas que nunca mudam definitivamente.

Sugestão: e já que falamos em piratas, a Cinemateca Nacional exibe por estas alturas um ciclo de filmes de piratas, sempre às 22.30 na Esplanada. Quem estiver em Lisboa e puder ir tem aqui um bom entretenimento, bastante aconselhável a apreciadores do gênero.

terça-feira, julho 21, 2009

Ainda para comemorar a chegada do homem à Lua

REM e Bruce Springsteen, juntos nesta canção marcante dos anos noventa.



(Agradecendo a recordação ao Pedro Correia)

segunda-feira, julho 20, 2009

40 anos


Eis um daqueles acontecimentos que gostaria de ter presenciado no momento. Não há muitos assim, mas lamentavelmente nem sequer era nascido. É por essas e por outras que as gerações anteriores, nomeadamente a dos anos sessenta, recordam e elogiam constantemente o "seu tempo".
Embora, segundo alguns, como Hergé, já outros tivessem chegado antes de Armstrong, Aldrin & Ciª.

sexta-feira, julho 17, 2009

As confusões de Raposo (ou nem o Daniel Oliveira, na outra coluna, caía nesta)


Não serei a pessoa mais competente para explicar (se é que é possível) o post de Henrique Raposo sobre a Encíclica Caritas in veritate. José Tolentino de Mendonça, mais meditativo, e O Corcunda, bastante mais contundente, já lhes deram a devida resposta. Mas o que me intriga é esta tentativa de reduzir o Catolicismo e mesmo o todo Cristianismo a uma mera ideologia de séculos recentes, que é "liberal" quando convém mas que se cola ao marxismo quando se torna inconveniente. É esse utilitarismo que prova que Raposo faz uma enorme confusão quando fala de Marx e dos "Summer hits de Louçã". Confunde uma doutrina e um pensamento de séculos e séculos com materialismos com os quais nada tem que ver e que até são o oposto. Reduz a um mero conjunto de ideias aquilo que para os cristãos é a Verdade revelada pelo Filho de Deus e pelo Espírito Santo através dos Seus seguidores. A Caritas in veritate é o seguimento lógico de outras Encíclicas, como a Rerum Novarum ou a Populorum Progressio, que se debruçaram sobre questões sociais emergentes numa perspectiva cristã, sem necessidade de pegar em ideologias feitas à pressa.

Para além do topete de querer, literalmente, ensinar a Bíblia ao Papa (para mais com uns sessenta anos de profundo estudo e meditação), ainda deixa a misteriosa questão no ar: "no dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus, qual é a parte que o Papa não entende?" Quem não entende a pergunta sou eu, que não vejo relação nenhuma com a crítica anterior, a não ser que Raposo esteja a enfiar os pés pelas mãos e a dar uma de marxista (ou de jacobino, para quem "o clero deve remeter-se à sacristia", o que na era do computador é problemático) . A questão a ser colocada deveria ser: na evidência do Cristianismo ser uma religião com raízes bem fundas e não uma ideologia recente, qual é a parte que Henrique Raposo não entende?

quarta-feira, julho 15, 2009

220 anos

Há 220 anos, um Augusto Senhor, no seu diário, descrevia aquele dia de forma lacónica: "Rien".


segunda-feira, julho 13, 2009

Maldição no Bessa?
O Boavista anda mesmo com azar. Num evento em que certamente ganharia alguns euros, o cancelamento do concerto dos Depeche Mode no âmbito do Festival Super Bock Super Rock é um autêntico balde de água fria. Claro que quase ninguém iria só por causa dos delicodoces Nouvelle Vague e das restantes bandas suporte. Pôr à última hora os estafados Xutos e os inócuos The Gift não deve ter amarrado lá muito público. Não sei se o Boavista seria compensado pelo número de bilhetes vendidos ou se teria uma verba fixa; na primeira hipótese, é mais uma desgraça a juntar ao rol interminável; na segunda, já seria o Bessa a emanar essa pouca sorte, qual maldição axadrezada. Há já muito que naquele estádio não acontece nada de bom. Exige-se rapidamente a água benta do Padre Carrara, ou se não for suficiente, um exorcista. Mas do mal o menos: não se lembrarem de chamar os Ban em lugar de Xutos e Gift já evitou desgraças maiores.

sábado, julho 11, 2009

A nossa Fitzcarraldo


Falou-se muito nos últimos dias sobre Maria João Pires, a sua intenção de abandonar Portugal e a situação de Belgais. Entre as opiniões mais diversas e como não conhecia a fundo o caso e as suas motivações, abstive-me de falar dele. Agora consigo distinguir melhor os seus contornos.


Maria João Pires é das pessoas que mais têm prestigiado o país nas últimas décadas. Sempre colheu aplausos sinceros de muitos quadrantes, e de há muito tempo (um amigo de meu avô, que morreu no início dos anos setenta, vivia no andar por baixo do dela, e sentava-se por vezes a ouvir as suas récitas de piano). Tem reconhecimento internacional e uma extensa obra gravada, sobretudo interpretações de Chopin. Também já tive oportunidade de assistir a um espectáculo seu, apesar de não ser um verdadeiro melómano, e gostei realmente do que vi e ouvi. E para além de todas as qualidades artísticas, ergueu o projecto de Belgais. Não é coisa pouca.


O facto de determinada pessoa ser um(a) incontornável artista não faz dela automaticamente objecto de veneração. Gente de todas as artes há e houve que foram autênticos trastes e insuportáveis pavões. Bem sei que as críticas aos artistas mais reconhecidos são muitas vezes mal vistas com os costumeiros "esta terra não o merece" ou "quem o critica não vale um centésimo". É a velha dificuldade de não pensar que génio ou talento não correspondem necessariamente ao carácter.


Muitas destas críticas surgem agora no episódio da decisão de Maria João Pires em abandonar definitivamente Portugal e instalar-se no Brasil. Já há uns anos a pianista tinha falado em "torturas" no seu país, e agora pretenderá renunciar à nacionalidade portuguesa por causa dos "coices e pontapés recebidos do Governo português". Tudo por causa dos problemas financeiros de Belgais e do recente arresto dos seus bens, porque ao que parece não tem recebido dinheiros públicos.

A sua atitude tem todos os traços dos caprichos das prima-donnas musicais. Em não lhe fazendo as vontades, amua e lança declarações ribombantes. Belgais poderá ser um projecto interessantíssimo, original e a todos os títulos louvável, mas não se pode tornar um mero sorvedouro de dinheiro. Nunca fui daqueles que acham que a cultura não pode ser subsidiada por dinheiros públicos. Os projectos que tenham interesse para o país podem e devem ser apoiados pelo Estado e demais entidades públicas. Mas tanto quanto sei, entre 2000 e 2006 o centro de Belgais recebeu cerca de dois milhões de euros do Ministério da Cultura. Não é coisa pouca. Além do mais, houve protocolos assinados com o Estado, por isso só haveria razões de protesto caso as obrigações não fossem cumpridas. Não parece ser esse o caso. O que transparece deste penoso processo é que Pires não tem grandes habilidades administrativas e de gestão. Não é vergonha nenhuma, já que a maioria das pessoas também não as tem. Mas ao lançar-se a um projecto daquela natureza, deveria ter pensado nisso melhor. Para mais, um centro de formação musical em plena campina de Idanha, no meio da Beira Baixa, uma das zonas mais desérticas do país, seria sempre tarefa hercúlea (ainda que louvável igualmente por se afastar do litoral e dos habituais centros urbanos, numa luta inglória contra a desertificação).


Por causa dessa incapacidade administrativa, Belgais está em queda e Pires prestes a instalar-se definitivamente no Brasil, desta feita a olhar para um projecto hoteleiro. Está no seu absoluto direito. Contudo, se alcançou a projecção que tem e se Belgais existe também se deverá sem dúvida ao país que agora pretende abandonar. Aqueles de quem se queixa proporcionaram-lhe o estatuto e os meios. A partir daí, caberia a si própria administrá-los. Não o soube, mesmo que as responsabilidades possam não ser exclusivas. Os projectos mais difíceis são assim mesmo, nascem (alguns nem isso) e por vezes soçobram.



Também me espanto com a preferência pelo Brasil. Será que lá há mais apoio cultural do Estado e mais mecenato? Tenho reais dúvidas sobre isso. Imagino Maria João Pires a tentar uma coisa ainda de maior envergadura, uma escola de música em plena Amazónia. Não seria ideia original: Werner Herzog já se lembrou de coisa parecida. Teríamos então uma espécie da Fitzcarraldo de saias e com sotaque português, sustentando Nova Belgais entre os cursos dos rios e a densa floresta.

A crítica à pianista não me impede no entanto de achar absolutamente estapafúrdias e (embora reveladoras) as ideias de alguns dos "liberais" do costume, autênticos néscios que lhe chamam"parasita",e que entre outras coisas sugerem que se podia dedicar à prostituição, na sua habitual incapacidade de ver na cultura algo mais que um retorno financeiro. A resposta é bem dada pelo soberbo artigo de Pedro Picoito.

quarta-feira, julho 08, 2009

Era bom, era

Parece que "Direito dá trabalho": segundo um inquérito da Católica , via Expresso, há "100% de empregabilidade" entre os seus antigos alunos de direito. Regozijar-me-ia se isso fosse verdade, mas infelizmente não é. Pode haver uma altíssima taxa de empregabilidade, mas nem todos os juristas que cursaram na UCP preenchem esses números, como é prova actual o autor destas linhas, e não só. A não ser que se trate apenas do caso da Escola de Direito da UCP em Lisboa, cujo director presta tais declarações ao jornal, o artigo peca por excessivo optimismo e sensacionalismo dissimulado. Sempre gostava de saber qual é a margem de erro desse inquérito. Ou então, conclui-se que os tempos não andam definitivamente bons para as sondagens.

terça-feira, julho 07, 2009

Entretanto, umas centenas de quilómetros acima

Em Pamplona, já começaram as Sanfermines!

A eterna novela madridista

Ronaldo chegou enfim à escaldante Madrid, um mês após a divulgação da sua contratação, pelo pródigo D. Florentino Perez, outro Creso da bola. Já há um ano que se falava neste negócio gigantesco, mas só se efectuou com o regresso de Perez, que importou igualmente Káká.

Os números do negócio espantaram e escandalizaram, e não é para menos: 94 milhões de Euros é muita coisa, muito mais do que os (à época) obscenos 75 por Zidane e 60 por Figo. Sim, eu ouço que o Real paga o que quer e ninguém tem nada a ver com isso, que Perez não é parvo, que os patrocínios e o "merchandising" vão cobrir tudo em poucos anos, etc. Também já ouvi antes e os resultados foram diferentes. O facto do Real não ser uma instituição pública não impede de ser criticado. Os clubes de futebol, com sócios adeptos e visibilidade, têm obrigação em dar algum exemplo ético e desportivo ao público. Tratando-se do Real Madrid, provavelmente o maior clube do mundo, ainda mais. Acontece que normalmente os clubes fazem exactamente o contrário do que deviam, e os merengues nos últimos anos têm dado um conjunto de tristes exemplos. Depois, Florentino já ocupou a cadeira madridista com a táctica dos "Zidanes e Pavones", que começou bem e acabou no ridículo. Na altura conseguiu-o vendendo terrenos à construção civil, de que é líder em Espanha. Agora, recorreu à banca e aposta tudo no "merchandising". A estratégia é potencialmente suicida, porque só com milhões de produtos vendidos é que a coisa vai ao sítio; e não nos esqueçamos que não estamos em 2000, que a construção civil em Espanha está em valentíssima recessão depois de anos de crescimento artificial e que a crise financeira retrai o consumo deste tipo de artigos. Para além dos passes, ainda há os salários.


A ideia de Florentino Perez é ficar na história, juntando o Real dos anos cinquenta, que imperava na Europa com os seus craques estrangeiros Puskas, Di Stefano e Kopa (até o Benfica lhe aparecer no caminho), à equipa dos anos oitenta, a Quinta del Buitre, grupo de jogadores espanhóis que dominou La Liga nos anos oitenta, mas que falhou estranhamente nas competições internacionais. Depois, há todas as apostas económicas mais próprias de um jogador de casino do que de um gestor inteligente e com pesadas responsabilidades. e que para mais, já apostou nas mesmas políticas e nem assim obteve grandes resultados.


Quanto a Ronaldo, acho que devia ter esperado mais uns dois anos no Manchester, mas neste caso sim, ele é que sabe da sua vida. O problema é que é mais uma estrela do jet-set internacional, mais virado para as objectivas do que para o "esférico", com fãs histéricas e um estranho gosto em matéria de vestuário e companhia feminina, como se conclui pelas andanças com a mais famosa parasita do mundo, a desnudada Paris Hilton. E pelas actuais performances na Selecção...


Temo que sem a sobriedade da pós-industrial Manchester e a sábia direcção de Alex Fergusson "Crisnaldo" se perca no emaranhado branco e rosa em que já se meteu. A recepção dos oitenta mil maluquinhos ontem no Santiago Bernabéu, que nem pude ainda ver, e todas as notícias que gravitam em torno dele, acrescentadas à própria cidade e à cultura do clube, são um caldo de pressão demasiado grande para um só jogador. Sinceramente, acredito que Káká vingue mais em Madrid do que Cristiano.



A abada que se esperava

Afinal não pude ir à Luz no dia das eleições, e consequentemente não pude votar em branco. Paciência. De pouco teria servido. Limitei-me a observar o triunfo de Vieira, a única coisa a esperar depois do Tribunal Cível de Lisboa esclarecer que não tinha sido preferida decisão de mérito (e que não havia medidas executivas) na providência cautelar interposta por Bruno Carvalho. Falando neste indivíduo, como é que alguém sonha sequer ser presidente de uma instituição quando entra nas suas instalações rodeado de seguranças e sai pelos fundos? É esta a empatia que quer estabelecer com os sócios? E como é que insiste em torpedear o acto eleitoral quando tem pouco mais de 2% dos votos e o desprezo quase generalizado dos benfiquistas? A credibilidade de Carvalho pode bem ser comparada com a de Guerra Madaleno, por exemplo.
No meio da gaffe de Vilarinho (ou não, às vezes apetece mesmo responder assim), da aclamação de Vieira e dos inúmeros comentadores de televisão, gostei de ver Luís Nazaré como novo Presidente da AG do Benfica. Menos gostei de confirmar que um dos vices é Rui Gomes da Silva, o criador do termo "cabala involuntária"...
Sigamos o rumo do clube nos próximos tempos. E que a nível futebolístico as coisas corram melhor.

sexta-feira, julho 03, 2009

Relembrar os feitos

Na despedida de Manuel Pinho, esse grande ex-estadista, a homenagem possível (também extensível ao grande obreiro Mário Lino). Com o patrocínio de S. Exª o Presidente da República Bolivariana da Venezuela e do programa Allgarve.

quinta-feira, julho 02, 2009

Os Golpes

Eis a nova sensação do pop-rock português. Os Golpes, banda de melodias épicas e estética à neo-Heróis do Mar com um toque de charme decadente de cabaré, lançaram o seu disco, Cruz Vermelha sobre Fundo Branco. Pude vê-los há dias numa sessão da FNAC do Chiado, com toda a sua energia e o seu entusiasmo, e já com uma mini-pelotão de fãs. O seu vocalista, Manuel Fúria, protagonizara antes o video dos Pontos Negros , de que em tempos tive oportunidade de falar. O cartão de apresentação é este A Marcha dos Golpes.