quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Velho kemalismo vs neo-otomanismo



Há dias, um artigo de jornal referia a nova mudança estratégica da turca. O rumo que a Turquia tem vindo a tomar não deixa de ser nebuloso. Nos últimos anos, o governo de Erdogan, suportado pela "nova classe média piedosa" (em oposição às elites laicistas), sobreviveu a tentativas de golpes de estado, de proibição do partido, de conspirações, saindo reforçado dos sucessivos actos eleitorais. A tentativa de liberalizar o uso do véu nos espaços públicos terá sido a polémica mais mediática entre as duas grandes facções políticas. O que é certo é que ao crescimento económico do país, ditado pela nova classe de empreendedores, muitos provenientes da Anatólia, nota-se uma tentativa de moderar o laicismo e o poder dos militares, autêntica espada de Dâmocles sobre a cabeça dos governantes que se desviem do Kemalismo, perfeito totem ideológico do país.

O arrefecimento da vontade de entrar na União Europeia, o congelamento das relações com Israel e a aproximação aos vizinhos do Médio Oriente, como a Síria, assim como algum apadrinhamento das regiões balcânicas predominantemente muçulmanas, revela que a Turquia tomou um novo rumo, recuando aos tempos pré-Ataturk, recordando as origens. Pretende ser a potência da sua região, um pouco à imagem da Rússia. A diferença desta é que o seu raio de acção é muito maior, e no pós-comunismo tenta afirmar-se aglutinando a herança dos czares e a da URSS. Na Turquia, o kemalismo permanece, mas junta-se-lhe agora um revivalismo neo-otomano. aliás, não se percebe bem se se quererá fazer uma quadratura do círculo juntando as duas tendências opostas, ou se uma acabará por suplantar a outra.


É aqui que reside o interesse: saber se a Turquia seguirá o caminho dos últimos oitenta anos ou se quer voltar às origens que a tornaram num império colossal e temido. Pode optar pela primeira linha, aquela que tem sido rigorosamente vigiada pelos militares (que para isso já recorreram a golpes de estado, sendo que o último falhou, e os responsáveis está detidos), e tentar um novo rumo externo, tomando a dianteira do bloco do Médio Oriente, mais do que o Irão, com quem sempre teve uma relação conflituosa, e de parte dos Balcãs, coisa que os sempre inimigos gregos não a verão com bons olhos.


Mas pode, para além das relações externas, querer adquirir um velho-novo cunho. Este neo-otomanismo seria o rompimento com o kemalismo que tanto veneram, e o regresso aos valores do império, incluindo os religiosos. Nesse caso, que relações teriam com a UE, em particular com a Grécia? E com os vizinhos? Mudariam a capital de novo para Istambul, em claro desafio ao Ocidente? Reergueriam o estandarte verde? Restaurariam o Califado? Retirariam a imagem de Kemal Ataturk dos locais públicos (ou seja, de toda a parte)? É difícil de dizer e mesmo improvável. Em todo o caso, seria razão para gregos, sírios e árabes se apoquentarem. E passaria a ser o argumento final dos opositores à entrada da Turquia na UE.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Uma capela

Para completar o post anterior, deixo aqui duas imagens que demonstram bem a violência do temporal e das torrentes de lama que se abateram sobre a Madeira. Trata-se da capela de Nossa Senhora da Conceição, no lugar de Babosas, freguesia de Montes, nos arredores do Funchal. Ou melhor, tratava-se. Na fotografia de cima vê-se o pequeno templo que lá estava. O que restou agora é o que vemos na de baixo.












segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Catástrofe

A melhor forma de se perceber uma tragédia é ver as imagens dos seus efeitos. Estou sem televisão e ainda não percebi muito bem como ocorreu a catástrofe na Madeira, mas há fotografias que ajudam a perceber, como as enviadas pelos leitores do Público.


Provavelmente não se estaria à espera de uma tempestade tão arrasadora na ilha de clima ameno. Prova que a natureza nos prega partidas cruéis, mesmo que pensemos estar a salvo delas.

Não deixa de ser tristemente irónico que os oitenta milhões de Euros aprovados no Parlamento pelos partidos da oposição, que levaram de vencida o PS, terão afinal mito mais préstimo do que se poderia julgar à partida.

domingo, fevereiro 21, 2010

Martim Moniz

Há estações do metro de Lisboa com a sua piada (e outras francamente escuras e decadentes). Mas poucas terão a deliciosa ironia da do Martim Moniz: apresenta na decoração figuras de cruzados e bispos (em homenagem ao guerreiro entalado que deu o nome à praça), naquela que é precisamente a zona com mais muçulmanos por metro quadrado em Lisboa.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Um deserto?
Eis o possível futuro resultado do sorvedouro de recursos, gente e meios que é o litoral português, entre Braga e Setúbal, em especial a Grande Lisboa. Os aziagos áugures que profetizavam um deserto em Portugal podiam estar cobertos de razão. A visão da travessia de um deserto entre uma e outra pequena cidade é bem real, infelizmente. Impõe-se a pergunta costumeira e sem resposta: que fazer? Certo é que se um país condena uma parte do seu território a tornar-se um deserto, perde também a soberania correspondente.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Nova Yorke também pode ser pia
Tal como pensava, em Wathever Works, Larry David é um alter ego de Woody Allen, só que ainda mais neurótico que o realizador. Um misantropo desagradável, niilista e com complexos de toda a ordem (a começar pelos de superioridade), que só se amacia com uma mente simples.
No filme, uma família típica do Sul profundo, do Mississipi, chega em diferentes vagas e por razões diferentes (mas interligadas) a Nova York, e com o tempo e os contactos com os indígenas, esquece os seus hábitos conservadores, abandona a religião e adopta modos de vida pouco convencionais, que até aí lhe eram estranhos.
Tal metamorfose cria a impressão que a Big Apple é mesmo a "Babilónia" dos tempos modernos, a cidade "sem Deus", hedonista e niilista, segundo certos grupos evangélicos americanos. Isso e o dia de hoje recordaram-me a minha passagem pela cidade, há uns anos, também em Fevereiro. Era Quarta-Feira de Cinzas (felizmente passei o Carnaval sem sequer me lembrar da data), tal como agora. Visitando a St Patricks´s Cathedral, vi multidões de pessoas formando filas e mais filas para que os sacerdotes lhes colocassem na testa a marca das cinzas, em forma de cruz. Recebiam-nas e depois saíam, indo à sua vida. Havia de tudo, de todas as classes sociais, de todas as raças, de todas as idades. Havia executivos de gabardina e pasta, adolescentes vestidos à break-dancer, mulheres com ar de estar entre a escola dos filhos e o trabalho, velhos com todo o tempo do Mundo. No fundo, o que ali estava era uma pequena representação de Nova York: uma grande parte dos seus crentes, levados naquela manhã ao tempo pela sua Fé, tão multiplicadamente heterogénea e cosmopolita como a própria cidade.

domingo, fevereiro 14, 2010

Prematura e apressada

Quando vi nas bancas a notícia de que Paulo Rangel avançaria para a liderança do PSD fiquei sem saber o que pensar. Sendo certa a anunciada candidatura de José Pedro Aguiar Branco, a posição de Rangel não faz o menor sentido. É sabido que o líder do grupo parlamentar laranja não desistiu antecipadamente em favor do euro-deputado. Sendo os dois do mesmo grupo interno do partido, com ideias semelhantes (embora de estilos muito diferentes), conhecendo-se há muito, e tendo mesmo Rangel sido Secretário de Estado de Aguiar Branco quando este era Ministro da Justiça no breve governo de Santana Lopes, que razões haverá para este avanço?

Parece que Rangel ultrapassou o estigma de "novo turco" no PSD. A prestação como líder parlamentar e a exaltante vitória nas Europeias catapultaram-no para um lugar de destaque no partido e no panorama político nacional. Embalado pela popularidade ganha em tão pouco tempo, e provavelmente com algum deslumbre, Rangel resolveu avançar, ao contrário do que dissera há tempos, argumentando com a alteração de circunstâncias, que o terá levado a dar esse passo. A meu ver, um pouco maior do que a perna.

Parece-me, antes de mais, que esta candidatura à revelia de Aguiar Branco não faz justiça ao líder parlamentar do PSD. Sabemos como em política quem quer chegar ao topo tem por vezes de remover "obstáculos", mesmo com alguns empurrões ou golpezinhos. Ainda assim, não esperava esta atitude vinda de Rangel ao seu antigo Ministro. Para quem quer ser um exemplo ético para o país, não é um bom começo de caminhada. Depois, a razão supracitada de pertencer à mesma família política e ao mesmo círculo (onde também cabe Rui Rio, por exemplo) deixa adivinhar que dividirão os apoios dos que à partida votariam numa única candidatura. Pedro Passos Coelho deve achar todo este processo muito interessante.


Depois, claro, o facto de Rangel ser um militante recente joga contra ele e será com certeza usado pelos adversários. O bom desempenho como líder parlamentar (a que pode juntar o célebre discurso do 25 de Abril de 2007) deu-lhe também reconhecimento, mas Aguiar Branco também o é, tem cumprido o papel com descrição mas competência, e o facto de só avançar depois de resolvida a discussão do OE dá-lhe credibilidade. O efeito das Europeias e a mediatização daí decorrente deram alento a Rangel, mas o certo é que a derrota nas Legislativas desinchou um pouco o balão de entusiasmo.
Como o tenho como pessoa de visão, não acredito que avance completamente às cegas. Lembro-me de o ouvir referir o exemplo dos políticos franceses, como Miterrand, que iam aos vários actos eleitorais, coleccionando derrotas sobre derrotas, até por fim chegarem ao lugar pretendido. É possível que seja essa a ideia de Paulo Rangel: apresentar-se a sufrágio, não ganhar, mas ir reunindo experiência a apoios, até ver chegada a sua hora. Pode ser. Em todo o caso, corre o risco de se queimar e de perder aliados. E não deixo de pensar que há um certo deslumbramento com os acontecimentos recentes (o discurso desta semana no Parlamento Europeu, dramatizado e histriónico, é disso prova, e não terá caído bem entre os euro-deputados nacionais) que o levou a dar esta guinada para a cúpula laranja. É, por isso mesmo, é uma candidatura prematura, apressada e inoportuna, de quem se deveria constituir como reserva válida mas que resolveu meter a carne toda no assador. Passos Coelho tem assim o caminho mais aberto para a liderança do partido, e quem sabe, do país.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Invictus

Parece que Invictus não caiu no goto dos críticos de cinema, que o classificam como 2um bom filme", mas apenas uma obra menor de Eastwood, atribuindo-lhe por norma três estrelas. Eu dava-lhe quatro à vontade. Por causa dessas críticas , nem estava com grande vontade de o ver (o perigo que são as influências dos "entendidos" na Sétima Arte), mas lá cedi, aproveitando para regressar ao velho Nun´Álvares, em boa hora reaberto.

Além de todas as considerações históricas conhecidas sobre a transição do Apartheid para uma sociedade multi-racial, mostra-se o papel central de Nelson Mandela noutras vetentes que à partida poderiam parecer secundárias ou de nula importância, mas que pelo seu simbolismo e capacidade de exaltação, contribuíram para a conciliação sul-africana. Mandela percebeu que tinha nos Springbocks, a equipa de rugby da África do Sul (até então apenas apreciada pelos brancos, e hostilizada pelos negros), e no Mundial da modalidade que se disputaria em 1995, uma possibilidade real de unir o país através do apoio à sua equipa. Impediu assim que as instâncias desportivas extinguissem os bocks e deu-lhes todo o apoio, até atingirem o almejado (e à partida inimaginável) milagre: a vitória no Mundial, sobre os temíveis All Blacks da Nova Zelândia. Com isso, deu um passo de gigante na união do país. De súbito, os negros passaram a apoiar uma equipa que até aí era património" dos brancos, em especial dos afrikaners, e um símbolo do Apartheid.

É essa autêntica gesta que Eastwood nos conta, primeiro com algum comedimento, mas com uma última meia-hora, a do jogo, seus antecedentes e consequências, de ininterrupta emoção, de pura adrenalina cinéfila, que deveria figurar entre as mais excitantes do ano. A cena do avião é absolutamente fenomenal. Morgan Freeman, um dos que mais lutou para que este filme fosse feito, consegue finalmente dar corpo a Mandela, com uma interpretação comedida mas muito realista, sem rodriguinhos. Matt Damon está também muito bem no papel de François Pienaar, o capitão dos Bocks, na sua frustração inicial, nas suas dúvidas, e por fim na sua determinação. As nomeações para os Óscares foram justíssimas. Além da direcção de actores e de uma fita sem momentos mortos, Eastwood conseguiu ainda captar imagens reais do jogo, nomeadamente do público, adaptadas depois ao filme, naquele tom ligeiramente baço e desbotado, mas muito belo, que é já imagem de marca das suas obras. Também aqui esta não foge à regra das restantes.



E além do mais, o timing é muitíssimo bem escolhido. Dir-se-ia que o filme decidiu comemorar efemérides: está em exibição nos cinemas de todo o mundo precisamente hoje, quando passam vinte anos da libertação de Nelson Mandella (cujas imagens reais surgem logo no início). E, embora lançado em 2009, só se espalhou pelas salas em 2010, ano em que a África do Sul será também objecto de notícias do desporto, recebendo novamente um grande evento: o Mundial de futebol. Trará esta prova, tal como a de 1995, algo de novo aos sul-africanos?

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

João Pereira, o tradicionalista


Há quem nunca se esqueça da tradição. João Pereira é uma dessas pessoas. Em todos os jogos entre Benfica e Sporting, cumpre sem mácula a nobre tradição de conseguir sempre irritar os adeptos leoninos.

(Convenhamos que ganhar por 4-1 com Kardek e Éder Luís como dupla de ataque, e deixar no banco Saviola, Aimar Cardozo e Maxi Pereira, está apenas ao alcance de um grande equipa. Mas o Sporting está com a moral no fundo do poço).

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Ucrânia: nova aliada da Rússia?



Viktor Ianucovitch terá ganho as eleições presidenciais ucranianas, como se previa com a dose de prudência necessária. É o fim anunciado da Revolução Laranja, de fins de 2004. Então, o virtual ganhador das eleições deste fim de semana era apeado pelos ucranianos apoiantes de Viktor Iushenko, depois de provadas as fraudes que o deixaram à frente na segunda volta. Numa fractura Oeste-Este, ganhou o candidato pró-ocidental, e a sua apoiante, Iulia Timoshenko, que se tornaria Primeira-Ministra e figura tutelar e carismática da Ucrânia; do outro ficou Ianucovitch, apoiado pela parte russófona ucraniana, concentrada na bacia do Don, e evidentemente pelo Kremlin. Convém não esquecer que este enorme estado do Mar Negro já pertenceu em parte ao Império Otomano, que o seu extremo ocidental estava sob domínio dos Habsburgos, e que Kiev é um dos berços dos nação russa, que nunca se conformaram com a secessão da ex-segunda maior república soviética. Além de que a Rússia tem a sua frota do Mar Negro sediada em Sebastopol, um acordo de usufruto para manter aquela força naval na Crimeia, antiga região cedida à Ucrânia, mas fortemente pró-russa. Sempre atenta ao seu "raio de influência", Moscovo tentava levar os seus aliados internos ao poder e impedir a aproximação do país à UE e aos Estados Unidos, com o risco de o ver entrar na NATO. Pelo meio ficou o episódio mediático e grotesco da tentativa de envenenamento de Iuschenko (um método bem conhecido do KGB, como ilustrou o episódio Litvinenko), que lhe desfigurou em parte a cara mas não o impediu de se tornar presidente.


Passados cinco anos de instabilidade política, trocas de cadeiras governamentais e da ameaça russa (e concretização parcial) do corte de gás natural, a situação alterou-se completamente. Iuschenko teve um resultado humilhante na primeira volta das eleições - menos de seis por cento e o quinto lugar - e o seu opositor de 2004 ficou na calha para ganhar à segunda volta.


A sua opositora, que com ele trocou o cargo de chefe de governo e que entretanto se desentendeu com o Presidente, assumiu-se como política de primeira plano. A sua imagem de marca, de cara angelical e inconfundível trança de camponesa, já lhe deram o epíteto de "Joana D ´Arc". é uma mulher de baixa estatura mas de espírito firme e autoritário, e com tentações de culto de personalidade, como se pôde concluir com os panfletos que a mostravam de toda a forma e feitio (astronauta, camponesa, etc) e que estiveram recentemente à vista do público na exposição de cartazes políticos no novo Museu do Design, em Lisboa. Com a anunciada derrota, Timoshenko já dramatizou o discurso e ameaça recorrer aos tribunais. Mas ninguém acredita que o escrutínio de agora seja invalidado. Ianucovitch assumirá a presidência e Iulia será a provável líder da oposição. Os sinais da Revolução Laranja foram varridos (tal como os de outras "revoluções coloridas" de Leste), e a divisão entre apoiantes da Rússia e do Ocidente permanece. Com um aliado dos russos à frente dos destinos do país, ver-se-à para onde vai a Ucrânia. Apenas uma certeza: a NATO bem pode desistir dos seus intentos em angariar novos membros por aquelas bandas. E a Rússia bem pode ter reavido um aliado de peso.


Mais e melhores informações da situação ucraniana podem servistas no blogue de José Milhazes, Da Rússia.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Hergé e os judeus



Embora conheça todos os álbuns de Tintin (excepto o incompleto Alph Art, por essa mesma razão), uma das coisas que mais gostava de fazer era de lê-los a todos nas versões originais, isto é, a preto e branco, com aquele traço a carvão que ficou para sempre nesse magnífico Au pays des Soviets. Sei que pelo menos quatro deles são vendidos nessas versões, mas ignoro se houve mais edições. Abriu recentemente uma loja do herói belga em Lisboa, na Avenida de Roma, por isso talvez tenha sorte.


Nessas edições notam-se diferenças em relação aos coloridos, ou porque estão datados, ou por razões de conveniência, muitas vezes política. Como se sabe, Tintin nasceu como repórter do Petit Vintième, suplemento juvenil do jornal onde o seu criador trabalhava e que era dirigido pelo padre Wallez, um sacerdote ultratradicionalista com admiração por Mussolini e que iria apoiar o movimento Rexista de Leon Degrelle (de resto também ele amigo de Hergé, e segundo o próprio, inspiração física de Tintin). Por causa disso, muitas vezes o conotaram com posições pró-fascistas, anti-semitas e pró-nazis, tendo como base alguns dos livros originais.


Um dos casos é A Estrela Misteriosa, que data de 1941, época em que a Bélgica estava ocupada pela Alemanha nazi. No livro, com um cenário inicial apocalíptico, uma expedição europeia, em que participam Tintin e Haddock, vai em busca de um metal caído do espaço, e é constituída exclusivamente por cientistas de países do Eixo ou neutros (entre os quais um português). A expedição rival é americana, usa em vão todos os truques para chegar primeiro, e é financiada por um banqueiro judeu, com todos os traços inerentes.


Mais tarde, Hergé mudaria nomes e o carácter do financiador, mas também um interessante quadradinho que surge quase no início. Aí, dois judeus caricaturados falam um com o outro, perante a eminência da colisão da Terra com uma estrela, e um deles afirma que seria bom porque assim não teria de devolver o dinheiro que devia aos fornecedores.


Em tempos de ocupação, ficava sempre bem atribuir aos hebreus um carácter perverso e pecaminoso. É conhecida a extensa propaganda anti-semita feita pelos meios culturais do Reich, como o filme Jud Suss, à qual também a BD não escapou, coisa que seria ainda menos fácil numa publicação como o Vingtième Siécle. Mais tarde, na primeira versão de No País do Ouro Negro, concebido ainda durante a ocupação, Tintin é raptado por elementos do Irgun, o movimento terrorista que lutava contra o Mandato britânico da Palestina. Na versão moderna, os raptores são árabes.
Apesar das simpatias políticas de Hergé e do seu anti-comunismo, duvido que se possa considerar o autor como um pró-fascista ou sequer ou colaboracionista dos nazis. A negá-lo estão as obras anteriores à Guerra, em especial O Ceptro de Ottokar, em que se faz uma violenta sátira contra o Anchluss, e em que o repórter impede que o reino balcânico da Sildávia seja anexado pela Bordúria, um estado totalitário onde pontifica a Guarda de Aço (clara inspiração na Guarda de Ferro romena, de Codreanu), chefiada por Musstler - um anagrama de Hitler e Mussolini.
Mas já as referências pouco abonatórias aos judeus fazem pensar que haveria um certo sentimento se antipatia. Hergé, que pôs Tintin a defender os índios, os negros, os chineses e os ciganos, é bem menos condescendente nas suas primeiras obras face aos hebreus, e também aos americanos. Mais do que acompanhar uma moda de hostilidades de uma certa época, Hergé parece devotar também muito pouca simpatia pelo capitalismo e pelo grande mercado, representado exactamente por estes povos. É um sentimento muito europeu (do Centro e Sul), particularmente católico, de repulsa do capitalismo e da vida moderna, contrapondo a amizade, a coragem e a abnegação. Tintin é por excelência um herói do Velho Mundo, sem super-poderes nem armas, que apesar de se inscrever numa determinada era, nem por isso o público o considera datado. Tanto que os anunciados filmes de Steven Spielberg baseados no repórter aí vêm. Enorme ironia: será um judeu americano a fazer de Tintin um produto para as grandes massas no novo Mundo; tudo aquilo que Hergé criticava vai-se apropriar assim da sua maior criação. Desejá-lo-ia o autor? A adaptação ao cinema já era um plano do seu conhecimento, e a sua Fundação deu o aval. No fundo, o capitalismo americano reinante conseguiu atrair um dos seus adversários, sem o considerar um Cavalo de Tróia. E ao que parece, os judeus não se importaram muito com as primeiras versões.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Chico-espertismo alfacinhas suportados pelos dinheiros públicos



A ida do Red Bull Air Race para Lisboa provocou as convulsões esperadas, como tudo o que acontece neste género de coisas. Poderia ser uma mera iniciativa da Red Bull, em que Lisboa e Oeiras não se pudessem opor, e em que António Costa, muito solícito, tivesse avisado antes os seus homólogos de Porto e Gaia. A ser assim, não se poderia acusar as entidades locais ou o governo central de "roubarem" a corrida, mas tão somente a empresa austríaca de bebidas energéticas de a mudar de lugar. A indignação portuense deveria ser assim canalizada para a Red Bull, e não para os novos locatários da prova.


Simplesmente, os custos da operação são muito superiores aos que eram suportados pelas autarquias de Porto e Gaia. De 400 mil euros para 3,5 milhões vai qualquer coisa. O Turismo de Portugal dá uma ajuda, é certo, mas porque não se lembrou disso nos três anos anteriores? Esquecimento, ou os seus responsáveis não saem para fora dos gabinetes?

Toda a operação é de um provincianismo que mete dó. A polémica estourou em Dezembro, mas só agora é que se teve um conhecimento mais real dos números. Por muito que não aprecie a figura e as ideias de Santana Lopes, dou-lhe razão neste caso. A transferência da prova com apoios estatais e mais dinheiros das câmaras que a vão promover representam um acréscimo de gastos de dinheiros públicos. O tradicional chico-espertismo português travestido de fato de negócios e ar institucional: como não se atraem novos investimentos de fora, como deveria ser a regra, vai-se buscar a outras cidades do mesmo país. A isso chama-se incapacidade de atrair investimento estrangeiro e concorrência desleal, com o patrocínio do Estado.

E não era Lisboa que há bem pouco tempo tinha as contas em pantanas e um gigantesco buraco orçamental? António Costa diz que o primeiro meio-mandato era pôr a casa em ordem. Por muito boa gestão que tenha feito, é impossível pensar que as contas foram regularizadas em tão pouco tempo. Problemas supervinientes haverá, certamente, mais importantes e que necessitem de mais recursos. Veja-se a quantidade de casas devolutas na Capital, por vezes autênticas jóias desprezadas, creio mesmo que alguns Prémio Valmor. Mas prefere-se levar a Air Race para o Tejo com consequente aumento de custos a recuperar uma cidade desmazelada e ferida. Opções sem nexo, ou disparates que prejudicam uns sem melhorar a vida de outros, com o suporte do erário público.


Comigo não contam para a nova prova no Tejo. Até porque em estuário tão largo, a espectacularidade dos loopings dos aviões, uma prova de concentração mas um movimento belíssimo nas margens abruptas do Douro, perder-se-à seguramente no ar, com pequenos pontos longe da vista dos espectadores.

domingo, janeiro 31, 2010

Os livres pensadores do terrorismo


Gostava de saber porque se intitulam de "livres-pensadores" indivíduos que comemoram assassinatos de adversários como forma de espalhar ou "impor" as suas ideias. Alguém os prende? Alguém os impede de pensar? Ou sequer de defender a liquidação de quem não encaixa nos seus ideaizinhos, ainda que sejam indigentes? E quem pensa de forma diferente, não é livre?
Quando ao rótulo de "livre pensador" um apologista de pistoleiros e bombistas (que acha que o ministério de João Franco, sob o reinado de D. Carlos, era "totalitário") ainda acrescenta o de "historiador", então estamos perante uma mente que urgentemente devia procurar auxílio psiquiátrico. Também há no Conde Ferreira gente que se acha D. Sebastião ou D. Quixote.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Woody e Larry

Por esta altura da estação costuma aparecer nos cinemas o costumeiro filme de Woody Allen. Já me perguntava se haveria algum este ano, e em que cidade europeia, quando de súbito vi um cartaz de cinema respondendo à minha questão. Há realmente novo filme, chama-se Whatever Works, e estreia-se em Fevereiro. Ao que parece, o realizador resolveu voltar à sua Nova Yok. Mas o interessante é o protagonista do filme: trata-se nada mais nada menos do que Larry David, o conhecido argumentista de Seinfeld e da série dele próprio, Calma, Larry. Woody já lançou diversos alter egos nos seus filmes (embora não o faça há uns tempos), mas nenhum terá tantas características comuns como David: é igualmente judeu, novaiorquino, e um pouco neurótico. Um verdadeiro ser da mesma espécie, que trará algo de velho à filmografia do velho Allen, antes que este volte a cruzar o Atlântico para uma qualquer urbe do Velho Mundo.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Ideias para subverter modas passageiras
A moda dos vampiros juvenis e apaixonados, popularizada pela saga Twilight, chegou a Portugal. Por toda a parte se vêem cartazes anunciando uma nova série da TVI, de seu nome Destino Imortal, transpondo para Portugal esta mistura de vampiros com Morangos com Açúcar (por acaso, uma criação do mesmo canal). Mas olhando para os cartazes, surgem-nos uma ameaçadora Evelina Pereira, uma Catarina Wallenstein desbotada, tal como os correligionários ao lado, e uma Maria João Luís e um Rogério Samora pálidos mas com ar cândido, quase ingénuo. Ora com essas expressões podia-se criar qualquer coisa com mais nonsense, com mais humor. Há uns anos surgiu o Ninja das Caldas, uma produção nacional de baixo custo com conhecido sucesso. Levando por diante esse modelo, podia aparecer qualquer coisa como os Vampiros de Oliveira de Azeméis, o Drácula de Loulé, o Nosferatu de Espinho ou o Blade do Monte da Caparica. Se as televisões generalistas não pegarem nisto, algum cineasta amador há de o fazer.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Coisas que por vezes passam despercebidas


O mito do "apoio popular" do 5 de Outubro cai perante as evidências. A imagem propagandística e oficial da implantação da república, da autoria de Joshua Benoliel, mostra uma Praça do Município, em Lisboa, a abarrotar de gente, perante os semblantes solenes dos oradores. Mas a foto original autêntica revela o vazio da praça. Também a olissipógrafa Marina Tavares Dias a mostra e refere, no seu último álbum (uma espécie de best of da sua magnífica colecção Lisboa Desaparecida), que o público presente não ultrapassaria as cem pessoas. Mais ou menos o número dos curiosos que costumam assistir à cerimónia anual, no mesmo espaço.


Tendo em conta que o número de manifestantes que na noite de quatro para cinco de Outubro passado ergueu a bandeira azul e branca era de duzentos, fica-se a pensar que a República cairia com mais facilidade do estaríamos à espera...










quarta-feira, janeiro 20, 2010

Este blogue já tem idade para ir para à primária

A Ágora
Por João Pedro Pimenta. Blog de expressão portuense, benfiquista, monárquica, católica e politicamente indeterminada. Pelo menos até ver...

Esquecer-se de um aniversário importante é sinal de memória fraca e desleixo. Que diria uma mulher de quem o marido ou namorado se tivesse esquecido dos seus anos? Ou um filho de um pai? Não se sentiria bem, por certo. Pois deixei, uma vez mais, passar, o aniversário de A Ágora. No dia 16 de Janeiro, este blogue completou seis anos de actividade. É verdade, meia dúzia. Não posso deixar de dizer que é assinalável. Mas é estranho este esquecimento, quando em 2009 acabou por ser o ano mais produtivo. Ainda assim, não cheguei aos mil posts, consequências de um blogue escrito a duas mãos. Mas falta pouco. Será em 2010, seguramente. A única forma de ser perdoado por este lamentável lapso de memória é continuar a blogar .

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Ciganos, ursos dançantes e cisnes assados.




Escrevi muito sobre impressões romenas nos últimos tempos, e das suas minorias germânicas e húngaras. Não me lembrei de falar sobre aquela que mais dores de cabeça tem trazido, a mais óbvia: os ciganos. Já todos terão visto ciganos romenos a pedir ou a tocar música na rua e nos transportes públicos (às vezes com um cãozinho ou um macaco para enternecer), ou em certos casos a vender revistas como o Borda d´Água ou a lavar vidros dos carros nos semáforos. Não são pessoas que se olhe sem franzir o sobrolho ou de forma paternalista, dado o seu aspecto muitas vezes hirsuto, os modos duvidosos, e a fama que sempre acompanhou este povo, tanto por preconceito como por razões mais válidas. O seu nomadismo e os seus ancestrais hábitos de comunidade fechada, que não se rege por leis externas dos estados onde se acolitam, tornam-nos visitas incómodas.

Mas na Roménia, ao contrário do que cá se pensa, são também uma minoria. Raramente são bem vistos e frequentemente são discriminados. Tal como noutros países, vivem à margem da sociedade. Acredita-se que sejam provenientes da Índia e que tenham vindo da Ásia com os guerreiros mongóis da Horda Dourada. Espalharam-se pela Europa toda no Século XV, mas permaneceram sobretudo no leste do continente. Até ao nascimento do moderno estado romeno, em meados do Século XIX, permaneceram num regime de servidão e semi-escravatura. Com o regime pró-eixo do Conducator Ion Antonescu, muitos foram deportados para a Bessarábia, e grande parte morreu em campos de concentração. Depois, Ceausescu deportou muitos deles para a inóspita planície de Barragan, onde seriam menos visíveis. Mesmo após 1989 a sua situação não mudou logo, se bem que os mais recentes relatórios da União Europeia testemunhem progressos no seu tratamento. Ainda assim, não se sabe correctamente o seu número: os dados oficiais romenos dizem 500 mil; mas a UE estima que sejam perto de dois milhões d ciganos. Claro que a sua Diáspora torna todas as estimativas muito mais complicadas. Também já ouvi dizer, a pessoas que conhecem melhor o país, que não passam de duzentos mil; outros afirmam que os viram por toda a parte, a começar pelo aeroporto. E o incómodo com esse povo continua, como testemunhou Madona, há pouco tempo, em Agosto, poucos dias antes da minha passagem, quando num concerto em Bucareste ouviu vaias do público ao referir-se à discriminação dos ciganos.

Sendo os mais pobres dentro da pobreza romena, espalharam-se pela Europa e causaram aí sérios embaraços ao governo romeno, que estava em negociações para a adesão à UE. Alguns primam pelo caricato:



Entre outros acontecimentos estranhos desse êxodo, alguns grupos de ciganos capturavam cisnes dos lagos de Viena para os assar e comer, à vista de todos. A coisa provocou pânico entre os negociadores romenos, mas, como se sabe, tudo acabou em bem e a Roménia aderiu à UE. Um dos efeitos imediatos, aliás, recaiu sobre uma ancestral e mítica prática cigana: a UE proibiu as exibições de ursos dançantes, treinados pelos seus donos, os ursari, que desde há séculos os levavam a dançar em feiras, circos, cerimónias religiosas e até políticas, da era do Império Bizantino (e também na Europa ocidental até certa altura). Agora, com os tempos modernos e os defensores dos "direitos dos animais", graças ao qual a Playmobil não lançou um boneco representando estes bichos, não mais se verão saltimbancos a exibir ursos a dançar nas feiras. Em compensação, as memórias burlescas mas deprimentes dos cisnes a assar no espeto nos parques vienenses são mais duradouras, e são ilustrativas de um povo que vive num enclave permanente, onde quer que esteja, e que é quase um conjunto de zombies por onde quer que passe.

sábado, janeiro 16, 2010

Haiti: sobre a miséria, o apocalipse


Só na noite de quarta-feira é que soube da catástrofe haitiana. E só no dia seguinte é que pude ver as suas proporções. Mais do que uma catástrofe humanitária, viu-se o colapso de um estado, já de si pouco seguro e corroído pela sua instabilidade, violência e estranhas tradições.

Os sismos não raras vezes desencadeiam cataclismos imensos, como aqueles que assistimos normalmente na Ásia nos últimos anos (China, Paquistão, Irão, Malásia, etc), e deixam marcas profundas. Por aqui, o Sul do país também para sempre ficou marcado pela terramoto de 1755, do qual nos lembramos em momentos em que a terra se lembra de mexer um pouco, como aconteceu em Dezembro último, com uns abanõezinhos que puseram imensa gente a aderir a grupos no Facebook com nomes como "eu sobrevivi ao sismo de Dezembro", como se uma grande peripécia se tratasse.

Neste caso, à magnitude dos estragos junta-se a visibilidade de um país e suas estruturas de governação literalmente por terra. As ruínas do palácio presidencial e da catedral ilustram isso na perfeição. O que não sucederia aos frágeis bairros de lata ou às casas alcandoradas nas colinas de Port-au-Prince.


O Haiti é uma das terras mais estranhas e miseráveis do globo. Dividindo a ilha da Hispaniola, a segunda maior das Caraíbas, com a vizinha República Dominicana, este estado montanhoso, onde a população é negra ou mulata e fala francês e crioulo é o país mais pobre das Américas. Quando há uns anos, na faculdade, tive de fazer algumas pesquisas para a cadeira de Direito Internacional Público sobre as acções de peacekeeping em 1994, na altura da eleição de Jean-Bertrand Aristide, vi imagens da miséria profunda daquele povo: os bidonvilles com lixeiras à mistura, onde sobressai a enorme Citée du Soleil, onde por vezes se queimam pneus com homens presos lá dentro, as pessoas a tomar banho nos esgotos, as gaivotas penduradas no Porto, antes de servirem de refeição, etc.


A metade francófona da Hispaniola tem um história trágica e violenta. Era a colónia francesa de Saint-Domingue, preciosa e fértil, movida pela força dos escravos trazidos de África, mas estes revoltaram-se em 1803, chefiados pela intrépido Toussaint Louverture. O líder negro conseguiu grandes feitos, mas acabou por ser preso pelos franceses, e morreria numa fortaleza do Jura. Mas a revolta triunfou e o Haiti proclamou a independência. Seguiu-se um século de auto-proclamados imperadores, como Dessalines, tiranetes vários, uma prolongada intervenção norte-americana, até à chegada, em 1957, de François Duvalier, o célebre Papa-Doc. Este impôs um sinistro regime, brutalizando e aterrorizando a população com a sua milícia pessoal, os sinistros Tonton Macoutes, e com práticas vodu, que a população segue, a par do cristianismo. Depois da sua morte, sucedeu-lhe o estouvado filho, Baby-Doc, até que uma revolução em 1986 o expulsou. Depois de anos de instabilidade, Aristide foi eleito presidente, prometendo uma nova era de prosperidade e justiça social, em que os paupérrimos negros teriam as mesmas oportunidades que a elite mulata, que vivia nos seus bairros desafogados nas colinas. Teve de fugir por causa de um golpe de estado, mas com a ajuda dos Estados Unidos voltou ao Haiti em 1994. Mas o seu governo nada resolveu, caracterizou-se por opressão e corrupção, e também Aristide acabou por deixar o cargo no seguimento de revoltas. René Préval seguiu-se na presidência, até agora. Com um pouco mais de estabilidade, mas na miséria de sempre.



É este país de mulatos remediados e negros miseráveis, montanhoso, pobre, com uma larga história de violência, imerso no vodu e no culto a figuras como o Baron Samedi, que está agora a atravessar o caos. Mais de cem mil mortos, mais de um milhão de desalojados (o epicentro deu-se na capital, Port-au-Prince), corpos amontoados, todas as estruturas estatais destruídas, falta de hospitais para os feridos, doenças, fome, e provavelmente, tumultos e pilhagens. O desespero, em suma. E neste país, que apenas nominalmente o é, podemos ver o inferno dos que não tinham quase nada e que mesmo isso perderam. Escombros, lama e ajuda humanitária, é tudo o que resta num território, que de facto, já não é um estado. Ou talvez seja apenas o estado pós-apocalíptico.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Sunday, silly sunday



Planear ficar em casa a trabalhar num dia de chuva e esquecer a chave numa curta saída até que os vizinhos que têm uma cópia cheguem é o cúmulo da distracção conjugado com a falta de oportunidade. No dia em que mais devia evitar sair, tive de andar a evitar poças de água e goteiras, com um frio glacial à mistura. Sempre deu para entrar num livraria e folhear uma volumosa biografia de Bruce Chatwin. A certa altura, saltou-me à vista uma passagem, sobre uma curta visita do escritor-viajante a Lisboa, em 1977, em trânsito do Brasil para Inglaterra: "Cidade triste, cartazes comunistas por todos os lados; um com metralhadoras portáteis, enxada e chave inglesa. Que curioso terem escolhido o emblema de Caim".
A referência é evidentemente ao PRP-BR (que ainda tem um site a navegar), esse partido-movimento armado que deu brado no PREC. Estranho é que em 1977, tal força oficialmente já não existisse: ou os cartazes estavam muito usados, ou Chatwin, na sua prosa com fantasia misturada, falava de murais de rua. Não impede que seja uma descrição deprimente e pouco abonatório de um período mais infeliz da vida portuguesa. E curiosa, a referência a Caim. Ficariam aborrecidos os PRPs com tal comparação? Ficariam contentes, dada a sua actividade violenta? Saberiam ao menos quem era o irmão de Abel? Certo é que a alusão do escritor era premonitória, já que alguns elementos do movimento transitariam mais tarde para as FP-25.
Resta acrescentar que escrevi esse trecho ilustrativo num Moleskine, um caderno também muito publicitado graças a Chatwin.