terça-feira, novembro 03, 2009

Benfica a rodos em 2009/10

Ainda pouco falei do Benfica 2009-2010, excepto na partida no Restelo, o único jogo, de resto, a que assisti nesta época. A derrota de Sábado passado, em Braga, a primeira da época, parece-me um bom pretexto para tratar do assunto.

Era um pouco céptico na exoneração de Quique Flores, tanto pela necessidade de estabilidade técnica como pelas indemnizações a pagar. Provavelmente estaroa influenciado pelas prestações do Benfica no início da época, e por simpatizar com o ar digno e cavalheiresco do espanhol; mas a verdade é que o Benfica não melhorou o seu futebol, pelo contrário, e Quique nunca se incomodou em demasia com os pontos perdidos em empates melancólicos. Veio Jesus.

As aquisições pareceram-me correctas, mesmo tendo em conta os custos de alguns jogadores (Javi e Ramires, por exemplo) em contraste com as escassíssimas verbas que entraram, e que obrigaram o recurso ao crédito. Sou muito céptico em relação a este gênero de engenharias financeiras, porque comportam um risco pesado. Claro que por vezes há que arriscar, mas no estado em que estão as finanças dos clubes, pede-se alguma cautela. Mas no plano desportivo as "peças" adquiridas foram as certas e integraram-se bem nas que já lá estavam.


Na baliza apenas lamento que Moreira tenha sido relegado para terceira opção, apesar de gostar muito de Quim. Júlio César parece-me bom "keeper", mas tenho dúvidas se será um fora-de-série.


Na defesa, manteve-se Luisão, a pedido de Jesus. David Luiz tornou-se um central de primeira água, e terá apenas de aprender a conter um pouco os ímpetos para que os clubes mais ricos da Europa o cobiçem. Sidney e Miguel vítor são uma linha de reserva segura. Nas laterais, Maxi Pereira, com a raça que já mostrou, segura a direita sem grande rivalidade de Luís Filipe (até Ruben Amorim é preferido para segunda escolha). À esquerda a coisa não é tão clara. Shaffer é rápido, centra que é uma maravilha, mas tem algumas fragilidades a defender. César Peixoto tem técnica, mas o mesmo problema, e não me parece que resolva muita coisa. Aliás, teria preferido que se mantivesse Jorge Ribeiro, formado na Luz e com melhor remate, e não se fosse buscar o companheiro de Diana Chaves. Opções...




Depois, o meio campo. Quem pensasse que sairiam Katsouranis e logo depois Yebda imaginaria o desastre para aquela zona. Acontece que os grandes reforços estão aí: Ramires é um corredor incansável, entre a gazela e a carraça, sempre activo, sempre lutador, e ainda tem apetência para golos. Javi Garcia, uma incógnita com músculos à chegada, é essencial à frente da defesa, e além de ser forte e raçudo, tem inteligência táctica, que faz com que lance a bola em jogo e não a atire para a frente de qualquer maneira. Também estes ficarão pouco tempo na Luz. Ruben Amorim, a melhor surpresa da época passada, alterna entre o banco e o jogo, mas está lá sempre.

Aimar parece ter segurado os arames e mostra as qualidades que o tornaram num virtuoso. O único golo que marcou até agora é um portento, e os seus passes e cobranças de falta parecem telecomandados, tais as assistências para golo que têm proporcionado. Convém que simule um pouco menos, porque quando for realmente abalroado ninguém apitará a falta. Entretanto, Carlos Martins também parece de volta aos bons velhos tempos: quando joga, mostra o que vale e provoca sempre estragos. As lesões é que têm sido inclementes... Resta ainda Menezes, um brasileiro que mostrou alguma técnica, mas que ainda terá muito que palmilhar.



Por fim, o sector que mais tem dado nas vistas: o ataque. Oscar Cardozo revela-se cada vez mais um perigo na área, e não só com o pé direito. Saviola, o excelente atacante argentino, é o companheiro ideal, com a sua velocidade e técnica. Menos possante e explosivo que Suazo, compensa isso com outra hagilidade que o hondurenho que regressou ao Inter não possui. No banco, Nuno Gomes é um suplente de luxo, Weldon já mostrou serviço, revelando ser um jogador rápido, inteligente e com sentido de oportunidade. Mantorras tem como função galvanizar as massas, e se possível, marcar um golo, coisa que faz com poucos minutos em jogo. Keirrisson é o caso mais bicudo: com apenas vinte anos, já marcou imensos golos no Brasil, o que valeu a sua (caríssima) aquisição pelo Barcelona e posterior empréstimo, mas até agora não justificou minimamente o negócio.

A alimentar o ataque, nas alas, temos Di Maria, que parece querer mostrar o que dele se esperava. continua a pecar no remate, mas quando se deixa de indivualismos é dificílimo de apanhar. Fábio Coentrão regressou em boa hora, e é talvez a maior revelação: técnica, garra e cruzamentos perfeitos - já leva não sei quantas assistências - são a história deste jogador neste época. Não esperava tanta maturidade nem tanta qualidade, confesso. Do outro lado, e já que se voltou a emprestar Adu, Não se sabe o que dará Urreta este ano. Na época passada deixou muito boas indicações...


Como já disse, Katsouranis e Suazo foram bem substituídos. Quanto a Reyes, sem muito dinheiro para o pagar e sem propostas de outros clubes, restou-lhe voltar ao Atlético de Madrid, onde é suplente de uma equipa à deriva. Gostava do jogador, mas ficou aquém do que sabe e pode dar. E Di Maria ou Coentrão não lhe dariam grandes oportunidades de brilhar. Como o Benfica tem parte do seu passe, ver-se-à se no futuro o espanhol voltará para passear o seu Lamborghini nas ruelas de Alfama.

Mas a equipa parece substancialmente melhor do que em Maio, disso não haja dúvida. Saviola, Ramires e Javi foram os jockers que vieram fazer o complemento a David Luiz, Cardozo e Aimar - neste caso, é um reencontro entre os dois amigos argentinos, que em conjunto tão boa conta deram do recado quando jogavam juntos no seu país, e que refazem uma dupla de renome internacional. Jesus mostra que sabe da poda e do que precisa. O problema serão os abrandamentos de ritmo, os efeitos do esforço físico e uma certa dificuldade da equipa reagir quando se apanha a levar um golo, como já se viu esta época. Mas com talento a rodos e um melhor conhecimento por parte do seu técnico do campeonato português, o Benfica tem tudo para incomodar os adversários e suplantá-los.

PS: o triunfo no Goodison Park terá tirado as dúvidas aos mais cépticos, depois da pesada goleada imposta na Luz. No total, foram sete golos sem resposta a um dos grandes do futebol inglês. Não estarão no seu melhor momento, até por causa das ausências, mas os Toffees tinham alguns nomes de respeito, como Tim Howard, Fellaimi, Saha ou Jô. Mas o Benfica bateu-os inapelavelmente.

Fica uma nota, uma mera curiosidade, mas ainda assim honrosa: revela o clássico Times que o Benfica, com esta vitória, tornou-se a primeira (e até agora única) equipa a vencer nos estádios dos dois clubes de Liverpool; há três anos, a histórica eliminatória em Anfield Road, e agora isto, pelos mesmos números. Uma vez mais, o Benfica a impôr o respeito entre os bretões. Confirme-se. Contra jornais ingleses bicentenários não há argumentos.


A hora do adeus do "lobo"


Com a morte de António Sérgio silenciou-se uma voz inimitável da rádio. O seu tom, entre o grave e o cavernoso, como um mensageiro de desgraças, era um marco radiofónico. Entre os seus pares era o "Mestre". Comecei só a segui-lo com o programa A Hora do Lobo, na Comercial. Já na altura tinha uma carreira de respeito como radialista. Esteve na Renascença, criou o Rotações e o Som da Frente (chegou-se até a editar um disco com as canções mais marcantes que saíram desta rubrica), e passou também pela mítica XFM, essa "rádio para uma imensa minoria", de que era um dos elementos marcantes. Estava agora na Radar - de certa forma, uma das descendentes da XFM - com o programa Viriato 25. Uma referência da rádio em Portugal e da vanguarda musical, marcou uma certa época (anos oitenta e noventa) que para muitos talvez já esteja ultrapassada, mas que legou inúmeras pérolas. Soube também, nas notícias da sua morte, que era um fervorosa benfiquista. Bom seria que outros seguissem o seu caminho. A rádio pode já ser velhinha, mas continua a fazer falta. Não se imagina uma viagem de carro nocturna solitária sem ela e sem aqueles, que como Sérgio, a tornam mágica.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Sugestão de fim de semana


A quem estiver por estes dias em Lisboa e arredores: a exposição Encompassing the Globe - Portugal e o Mundo nos Séculos VVI e XVII, uma visão da arte portuguesa ou influenciada pelos portugueses em todos os lados do globo, vai estar aberta no Museu Nacional de Arte antiga até dia 1 de Novembro. É caso para aproveitar, porque já houve uma adenda no prazo. A recuperada Custódia de Belém e os Painéis de S. Vicente vão continuar por lá, para nossa satisfação, mas o resto sai de cena.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Os Quais



Além de escritor, dramaturgo, colunista da bola e blogger, Jacinto Lucas Pires é agora também músico, ou mais exactamente vocalista de Os Quais, banda que divide com Tomás Cunha Ferreira, e que lançou este ano Meio Disco, com o selo da AmorFúria. Vi no outro dia na FNAC do Chiado, em Lisboa, a sua performance e os seus gostos musicais (e a sua colecção de vinyl), e achei uma certa piada. Pop simultaneamente etérea e saltitante, mas despretensiosa. Os videoclips, que também os há, são simples nos meios, mas imaginativos e com talento q.b. Em até há "violência gratuita", "romance", e clérigos pelo meio. Saramago bem se podia aproveitar disso.



terça-feira, outubro 27, 2009

Abaixo o Mundial ibérico!

Está em marcha a "candidatura ibérica" ao Mundial de futebol de 2009. As federações espanhola e portuguesa já chegaram a acordo, sob o lema "dois povos, um objectivo", e nos próximos dias apresentam o logótipo.


Gostei muito do Euro 2004 e do ambiente do Mundial 2006. Falando do primeiro, lançaram-no com o pomposo e patético subtítulo não-oficial de "grande desígnio nacional". Vivemos em permanente festa durante quase um mês, o turismo e o comércio tiveram uma grande subida e ficamos com estádio amplos e modernos. Simplesmente, os recintos revelaram-se sobre-dimensionados, em especial os de Leiria e Aveiro (agora o do Bessa), a festa passou e o crescimento económico revelou-se pontual. Ficámos com um conjunto de elefantes brancos que endividaram as respectivas autarquias.


Sob pretexto de se aproveitarem os estádios, começou-se a falar de uma candidatura conjunta com Espanha ao mundial de 2018. E a coisa avançou mesmo. Só que agora vêm-nos dizer que afinal de contas a FIFA só aceita estádios com um mínimo de quarenta mil lugares. Resultado: só a Luz, Dragão e Alvalade é que preenchem o requisito de capacidade. O resto, que era o grande pretexto para o Mundial, fica de fora.


Se a palavra "candidatura ibérica" me deixa de pé atrás, a absoluta desnecessidade deste evento, por nada acrescentar ao país, deixa-me absolutamente do contra. Os benefícios irão quase todos por inteiro para os do costume, isto é, os grandes aglomerados urbanos de Lisboa e Porto. Espanha colherá os louros do Mundial e beneficiará de maior visibilidade, já que só havendo três estádios do lado português com certeza que só contarão para a abertura do evento ou uma meia final, e nunca os dois. A Portugal ficará reservado o lugar de parceiro pobre, com estádios a apodrecer por falta de uso (e mais uma mentira sobre o seu aproveitamento), com a benesse única de melhorar o seu turismo naquele ano.


A consequência máxima é uma maior dependência face à Espanha. Depois da económica, viria a desportiva e até a mediática. Daria a impressão de um estado ibérico único, sob a égide de Madrid. Seria bom relembrar que Portugal não só é um estado muito mais antigo que a Espanha e que quando esteve mais próximo de nada beneficiou, em especial depois do desastre de Alcácer-Quibir, sob os Filipes, em crescente caminho para se tornar uma mera província. Há sempre, como sabemos, os "iberistas" locais de ocasião, que nos atiram para cima com os dados económicos dos últimos trinta anos (até o facto de haver melhor futebol já ouvi!). Mas para além dos números de poucas décadas e outros elementos utilitaristas, não ouço grandes argumentos. Pergunto-me porque é que não se mudam para Espanha e adquirem a respectiva nacionalidade, deixando o grosso dos portugueses em paz. Claro que depois teriam de aguentar com os problemas dos vizinhos sem queixumes.

Os algarvios já vieram reclamar, e com razão, que a ausência de uma estrutura como o Estádio do Algarve não faz sentido. Na sua bacoquice habitual, Gilberto Madaíl nada disse de nota. O projecto da sua vida parece ser entrar no Mundial mesmo como figura subalterna, mero talo de apoio a uma Espanha pujante. Pudesse eu decidir pela Federação, e só aceitaria o torneio a meias se entrassem cinco a sete estádios portugueses, nenhum deles dos clubes grandes, que já têm uso que chegue. Se a FIFA e a federação espanhola não aceitassem, passassem bem. De mentiras, projectos faraónicos de baixo uso, deslumbramentos perigosos e subserviência perante a vizinhança já estamos fartos. Nestas condições, só absolutamente contra este projecto de mundial ibérico de futebol, contrário aos interesses de Portugal, e espero que seja outra candidatura a ganhar.
Executivo
O novo governo tomou posse, quatro semanas após as legislativas. Estava outro dia a ver num café de esquina a goleada que o Benfica aplicou ao Everton, quando de súbito a composição do executivo correu em rodapé. Desviei o olhar das corridas de Di Maria e Saviola e atentei na lista. Alguns eram esperados, é certo, mesmo Rui Pereira, mas acho que ver Augusto Santos Silva na Defesa ninguém esperava - pelo menos deu para a generalidade dos blogues fazer a piadinha do "o malhador vai malhar com a soldadesca". Alberto Martins na Justiça? Se quando esteve na Reforma e Plano nada reformou, não se espere agora ver um tipo que transpira burocracia por todos os poros a fazer grande trabalho num sector que é tudo menos fácil. Temos Vieira da Silva na Economia (é sempre gratificante saltar das discussões com os sindicatos para os diálogos com os conselhos de administração) e um conjunto de figuras desconhecidas do grande público à frente de vários ministérios. Fala-se insistentemente da nova ministra da cultura, Gabriela Canavilhas, ao que parece mais pela sua allure do que pela sua carreira de pianista e de da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Entre pessoas conhecidas ouço também o nome da nova titular do Ministério do Ambiente, Dulce Pássaro, que a confirmar-se a confiança que Sócrates lhe deposita, não fará melhor trabalho do que o seu antecessor, o invisível Nunes Correia (e era tão necessário, sobretudo nas questões dos PIN ´s e das plataformas logísticas).
A mais mediática é sem dúvida Isabel Alçada, de quem já se adivinhava a nomeação para a Educação. Num ministério sob fogo, talvez o mais contestado da última legislatura, espera-se que a experiência no ensino e nos sindicatos leve a uma maior ponderação de decisões e algum apaziguamento com a classe dos professores, crispada com a inenarrável Lurdes Rodrigues. A autora da colecção Uma Aventura e Viagens no Tempo, referências de literatura juvenil de mais do que uma geração, entre as quais se inscreve o autor destas linhas, tal como Os Cinco eram para os nossos pais, terá de se munir de enorme bom senso; o seu marido Rui Vilar pode ser uma ajuda preciosa. Essencial será também que o grupo de Secretários de Estado respectivo seja substituído, com o indescritível Valter Lemos à cabeça. Talvez assim haja alguma paz no sector.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Convidados ingratos




Situada no alto de uma colina entre os rios Sousa e Cavalum, sobranceira à auto-estrada entre Porto e Vila Real, Penafiel é uma cidade que ganhou esse estatuto em 1770, para além do de sede de Diocese, ainda que por meia dúzia de anos - uma ideia do Marquês de Pombal para retirar poder ao bispado do Porto. É atravessada pela estrada nacional 15, que serve de avenida principal, e tem belas igrejas, como a Matriz, a Misericórdia, Carmo, Calvário, e a neo-bizantina Nossa Senhora da Piedade, num ponto elevado. Há ainda ruelas apertadas na malha urbana mais antiga, solares, praças graníticas, fontes, um pelourinho, casas do fim do Séc. XIX cobertas de azulejos e com varandas em ferro forjado, chalets, etc. O quartel militar activo até há poucos anos vem mencionado em Os Grãs-Capitães, de Jorge de Sena. Existem vários miradouros para a paisagem circundante, onde se destacam as vinhas da Aveleda. Mas o que salta mesmo à vista na cidade são as igrejas.


Coisas que em grande parte não existiriam, bem como estatuto da cidade, se as opiniões de Saramago sobre a Bíblia e sobre a religião em geral, proferidas pelo escritor, que era convidado numa sessão literária precisamente em Penafiel, tivessem tido aplicação prática. Isso e muito mais: provavelmente a civilização como a conhecemos. Mas tanto Saramago como os seus seguidores, que dizem coisas como "A Igreja Católica é a maior assassina da história", "só os ignorantes é que são crentes", e que falam da Inquisição, desaparecida há três séculos, como quem fala de receitas de culinária, nunca devem ter pensado muito bem no assunto. Ou então o grau de loucura e de fanatismo ainda é mais grave do que se pensa.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Outros vexames (para poupar o argentino)

Como técnico, Diego Maradona é realmente um desastre. Vá lá que classificou o seu país para o Mundial, mas por um triz. Mas pelo meio igualou o record da pior derrota de sempre da Argentina, de 6-1, e frente à mediana (para sermos generosos) Bolívia, num jogo em que Di Maria acabou por ser expulso por agressão a Ronald Garcia, o conhecido craque que se destacou no Alverca. A justificação para o desastre só podia ser "a altitude" de La Paz.

Mas sejamos justos com el Pibe: já houve outros resultados humilhantes para a equipa argentina. O mais conhecido talvez seja a goleada caseira por 5-0 que sofreram em plena Buenos Aires, nas eliminatórias para o Mundial 94, alegremente aplicada pela saudosa Colômbia de Valderrama, Rincon, Valência e Faustino Asprilla (o quarto golo é uma obra prima), essa equipa que dava antes de mais espectáculo e alegria. Recordem esse momento inolvidável.


quarta-feira, outubro 21, 2009

O Maradona de Kusturica



A propósito da Argentina e do seu treinador, tenho aqui a oportunidade de postar uma coisa pensada há já algum tempo.
Entre Fevereiro e Março passou discretamente pelas salas de cinema o filme de Maradona, do realizador/músico sérvio Emir Kusturica. O género estaria oficialmente dentro do documentário, mas na prática trata-se de um filme de propaganda, um pouco ao estilo de Michael Moore. Kusturica, nacionalista sérvio, activista anti-independência do Kosovo e realizador de filmes memoráveis (particularmente nos anos noventa), tem-se dedicado mais nos últimos tempos à sua carreira com os No Smoking Orchestra, com a qual tem visitado Portugal regularmente. Não deixou contudo de desenvolver um projecto antigo, o de homenagear o ídolo dos argentinos e napolitanos, vencedor quase a solo do Mundial de futebol 1986 e tristemente caído nas malhas da cocaína, Diego Maradona. Para isso, deslocou-se várias vezes à Argentina, onde o esperava um ex-craque com o volume de um tonel, assistiu a ritos da igreja maradoniana, levou-o a Belgrado e não cessou de focar a sua "mensagem revolucionária". Um dos pontos altos do filme é aliás um comício de Hugo Chavez, com el pibe ao lado, em que o presidente venezuelano brindou os assistentes com as suas habituais pantominices.

Na sua actual forma rubicunda, Maradona revela, como se esperava, um ego do tamanho do mundo. Considera-se um a espécie de self made player com ajuda divina. Diz tudo o que pensa de forma desbragada, mesmo que leve a contradições estranhas. Mostra o bairro onde cresceu, em La Boca, Buenos Aires, a ida para a Europa, Barcelona, primeiro (e a épica cena de pancadaria num jogo com o Athletic Bilbao), e Nápoles, depois. Na Campânia cometeu as maiores proezas, só igualadas pela conquista do Mundial de 1986 e a famosa "Mão de Deus" contra Inglaterra, cena repetida vezes sem conta no filme.

A meio da fita vem a sua declaração de amor a Cuba e a Fidel Castro. Utilizando um jargão muito comum na América Latina, El Pibe afirma que "graças a Fidel é que não falamos inglês", mostrando o quão gosta dos Estados Unidos. É uma teoria um pouco rebuscada, porque dificilmente se imagina como é que uma ilha das Caraíbas conseguiu tal proeza - não me lembro de nenhum muro impedindo a presença de norte-americanos - e mesmo em tempos pré-1959 a população falava espanhol. Há recriminações à ditadura militar dos anos setenta e oitenta, pois claro, mas a seguir diz que recusou-se a cumprimentar o Príncipe de Gales porque este teria "as mãos manchadas de sangue". Suponho que se estaria a referir à Guerra das Malvinas. Quem efectivamente esteve lá foi o Príncipe André, não Carlos, e quanto à guerra, nunca chegou a ser efectivamente declarada (pela Rainha), antes se tratou de uma resposta do governo britânico face à invasão argentina. Além de incriminar o príncipe sabe-se lá porquê, acaba por tomar o partido da junta ditatorial argentina, responsável pelo início das hostilidades e pela humilhante derrota que acabaria por ditar a sua queda. No fundo, a mesma posição de Fidel Castro, que numa posição contra-natura prestou o seu apoio àquele regime. Diga-se também que enquanto durou a sangrenta ditadura argentina, el Pibe jogou sempre pela equipa nacional. Transparece logo um violento sentimento anti-anglo-saxónico, confirmado ao longo do filme com pequenas recriações animadas e satirizantes do "Golo do Século", marcado no mesmo jogo contra a Inglaterra em 1986, em que sucessivamente Maradona finta e bate Thatcher, Reagan, Blair, Bush e a Rainha Isabel II, ao som de God Save the Queen - a dos Sex Pistols. Todos ao molho, desbaratados pelo talento do pequeno argentino.


Duas conclusões se tiram da singular ideologia de Maradona: uma é o sentimento de "latinidade", muito bolivariano e guevarista, em que supostamente a América do Sul e Central são uma só nação, desunida por fronteiras, e que transcende mesmo as ideologias opostas. A outra é a do sentimento contra tudo o que seja anglo-saxónico, talvez até mais contra os EUA do que o Reino Unido.

Há ainda o Maradona "homem de família" com mulher e filhos, e as suas queixas do tempo em que estava agarrado à cocaína. Mas é no jogador e no revolucionário que o filme se demora. É uma personagem complexa e irreverente, mas a que parece faltar inteligência para as suas escolhas e os seus actos, para não falar no discurso. Baseia-se no instinto e no coração, nunca no cérebro. Confunde frequentemente as coisas e nota-se em alguns assuntos um desconhecimento espantoso do que fala, aliado a uma espécie de dogmatismo messiânico ("o das barbas [Deus]não me deixou afundar e puxou-me"). Parece encarnar o "realismo mágico", de tão sul-americano que é, e note-se que curiosamente teve o apogeu da sua carreira no ano da morte de Jorge Luis Borges. Bola, família, truculência, latinidade, anti-anglo-saxonismo, fervor místico, um percurso errático com imensos vícios: eis Diego Armando Maradona.
Kusturica, naturalmente, quis fazer este filme atraído pela figura irreverente do génio da bola que despertou paixões e ódios como poucos, cocktail explosivo de bola e truculência revolucionária que bem podia vir da sua Sérvia. Podia igualmente ser uma personagem dos seus filmes, com personalidade tão balcânica. Sendo real, ficou-se por um documentário. Mas para além da familiaridade que viu em Maradona há ainda o carácter político e panfletário da obra: um nacionalista sérvio como é o realizador não podia deixar de aproveitar uma figura conhecida mundialmente que disparasse tão ferozmente contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, os mesmos que bombardearam Belgrado há dez anos e que acabaram com a Jugoslávia, dando a machadada final com a independência de facto do Kosovo. Assim, além de conhecer tal personagem bigger than life, usa-o como pregoeiro das suas próprias causas. As gargalhadas maquiavélicas e algo juvenis que dá amiúde quando entrevista Maradona, ao longo do filme, revelam bem a alegria que sente perante os torpedos verbais contra os ódios de estimação.
O documentário acaba por divertir medianamente, sobretudo nos passeios por entre as ruas de Nápoles e Belgrado, com algumas imagens de arquivo preciosas e recordações de jogadas de futebol realmente geniais. Enfastia nos discursos políticos e nas sequência familiares, a apelar à lágrimazinha. Mas a cena em que se vê o burlesco e a loucura que envolve Maradona é o casamento pela Igreja Maradoniana: perante uma cópia das orações cristãs adaptadas ao seu vocabulário próprio, um casal jura perante a "bíblia maradoniana" e uma bola de futebol que Maradona é o melhor jogador de sempre. Depois, para firmar o matrimónio, têm de marcar um golo com a mão, imitando o do seu ídolo em 1986. A cara do noivo gritando golo vale quase só por si o bilhete do filme e resume bem a personagem tão irreverente como patética que o inspira.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Heróis improváveis no Rio da Prata




É incrível como os mais improváveis peões surgem do desespero para salvar as figuras bigger than life, mesmo as grotescas. Na Quarta à noite jogava-se a passagem para o Mundial da África do Sul de duas míticas selecções de futebol. À carga emocional e histórica do jogo acrescia o facto de se tratar do mesmo cenário e dos mesmos actores da final do primeiro Mundial de futebol, em 1930: o estádio Centenário, em Montevideu, Uruguai contra Argentina. Nesses tempos longínquos os jogadores da camisola celeste bateram o enorme vizinho da margem sul do Rio da Prata, criando uma rivalidade entre irmãos que periodicamente se renova em partidas como esta.


Agora, no meio de futebol mal jogado, com lances muito duros (Maxi Pereira por mais do que uma vez ia lesionando Di Maria) e alguns jogadores inexplicavelmente a titulares, o resultado acabou por ser ditado pelo mal amado Bolatti, emprestado pelo Porto a um clube argentino, que deu a vitória e o apuramento ao seu país no templo desportivo uruguaio, a poucos minutos do fim. Menos do que o que faltava quando no anterior (e igualmente decisivo) jogo da Argentina contra o Peru, Martin Palermo, o veterano avançado que um dia falhou três penaltis no mesmo jogo, deu nos descontos a vitória aos das Pampas, aguentando-a na contenda definitivamente decidida em Montevideu.


Resta aos desiludidos Charruas uruguaios classificar-se no play-off. Maradona, esse, rebentando no seu anoraque qual boneco da Michelin azul-escuro, passou em meia hora da euforia saltitante à acusação ressentida. Só na América do Sul do "realismo mágico"é que a loucura e beleza do futebol alcança tais possibilidades literárias . Esperemos agora que o Uruguai se classifique e que a Argentina encontre a Inglaterra de Fabio Capello na África do Sul.

terça-feira, outubro 13, 2009

Algumas curiosidades das autárquicas

Em Oeiras ganhou Isaltino, condenado por casos graves. Em Braga triunfou, pela 10ª vez consecutiva, Mesquita Machado, responsável pela betonização da cidade e rosto máximo da promiscuidade câmara- construção civil - futebol - alguns sectores da igreja, além de presidente da assembleia geral da FPF. Em Felgueiras, Fátima perdeu com estrondo. No Marco de Canaveses, Avelino Ferreira Torres esteve longe de ganhar.
Os municípios "boçais", "rurais" e "atrasados" deram uma lição cívica aos concelhos "jovens", "cosmopolitas" e "dinâmicos".

 
Alguns antigos presidentes de câmara quiseram tentar a sua sorte nos municípios onde em tempos foram reis e senhores, além do supracitado Ferreira Torres, casos de José Raul dos Santos, em Ourique, e Acílio Gala, em Oliveira do Bairro. Não chegaram sequer perto de ganhar. Aplica-se aqui a máxima de não se dever voltar aos locais onde fomos felizes...

Quando nos seus discursos de vitória Rui Rio e António Costa mencionaram os adversários, logo a turba se lançou em assobios e pateadas. E isso foram apenas as partes que pudemos ver na televisão, porque é provável que pelo país fora se tenham verificado mais atitudes como estas. Alguém lhes podia explicar uma coisa muito simples chamada "respeito pelos vencidos"?

Entretanto, se os leitores precisarem de se rir um pouco, têm a preciosa ajuda da lista dos candidatos às câmaras dos distritos de Évora, Portalegre e Beja. Percebe-se porque é que os alentejanos são bem dispostos.

Tenho algumas saudades dos tempos em que as autárquicas eram em Dezembro: os resultados eram acompanhados ao calor do fogão a gás, vendo os munícipes a comemorar as vitórias ao frio, e as consequências discutidas na ceia de Natal. Agora, com este calor próprio de Verão, nem me parecem autárquicas como devem ser.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Balanço das autárquicas




Como já tenho dito, gosto particularmente de eleições autárquicas, pelo imenso micro-cosmos local que se torna visível nestas alturas, pelo Carnaval local em todas as campanhas, por se dar finalmente atenção ao "país real" e aos seus chefes políticos. As autárquicas são uma excelente forma de ir conhecendo o país, apesar de também darem azo a todos os lugares-comuns, que por vezes são de uma ignorância atroz.


Muito provavelmente Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres acabaram ontem as suas carreiras políticas, já que não conseguiram impedir as maiorias absolutas dos seus adversários do PSD. Absolvidos pelos tribunais, mas repelidos pelos eleitores nos seus antigos feudos, dificilmente obterão alguma relevância no futuro, se bem que regressos de fantasmas na política portuguesa não sejam assim tão raros. Já Narciso Miranda não irá certamente perder a oportunidade de chagar o mandato de Guilherme Pinto; o patético discurso de ontem, com a frase da noite - "esta candidatura ganhou perdendo as eleições" - mostra que ainda se julga o autêntico "Senhor de Matosinhos". Sempre entrou em guerrinhas com os sucessores, como aconteceu com Manuel Seabra, o que deu origem a um dos mais tristes episódios da política portuguesa, e os seus quase trinta anos de presidência (com muitos actos meritórios, reconheça-se) ganharam ares de culto de personalidade, com o epicentro nos inúmeros banhos de multidão na lota e no mercado.


Como sempre, houve surpresas. Para além de Felgueiras, não pude deixar de me espantar com as mudanças de cores de Beja, Barcelos, Trofa, ou outras menos visíveis, como Mesão Frio e Terras de Bouro, quase todas para o PS, o que alterou um pouco o mapa autárquico. Já Leiria era uma questão de tempo, e a perseverança de Raul Castro acabou por dar resultados. Em Faro, autarquia que muda a cada quatro anos, o triunfo de Macário Correia, por décimas, está longe de surpreender, até porque era uma aposta forte do PSD (embora tenham puxado a manta e perdido na retaguarda Tavira).


Nos grandes centros urbanos perdurou a estabilidade. Não houve uma câmara das mais importantes que tivesse mudados de mãos, e na maioria quem lá estava reforçou o seu mandato.

Mais uma vez se coloca a questão de quem terá ganho estas eleições, se o PS, se o PSD. Para mim, juntando tudo, houve um empate. Mas é mais gravoso para o PSD e para a liderança de Ferreira Leite, que depois das legislativas esperaria uma clara vitória, e que vê claramente as facas afiarem-se. Meneses, reforçado pela sua esmagadora vitória em Gaia (não esquecer que é o terceiro município do país), já o deu a entender.

 
A CDU mantém-se estável, mesmo com a perda significativa e simbólica de Beja, e noutro grau, da Marinha Grande. Aguentou parte do Alentejo e a importante "cintura industrial de Lisboa", nomeadamente Almada e Setúbal.


O CDS conseguiu estancar a hemorragia das locais, mas o que tinha era tão pouco que pior seria quase impossível. Partilha a vitória em muitos concelhos importantes com o PSD (embora só em poucos seja determinante) e quase tomou o seu antigo bastião de Mondim de Basto, palco do episódio mais trágico das autárquicas. E melhorou ainda o score na sua fiel Ponte de Lima ( aproveito para saudar o meu antigo colega de faculdade, Filipe Viana, na altura conhecido justamente pela alcunha de "Ponte de Lima", que teve de aguentar uma luta inglória). A nível local, porém, não consegue fazer a diferença; arrisca-se a tornar-se residual ou meramente a servir de muleta nalgumas coligações.

O Bloco de Esquerda nem isso. Tirando Salvaterra de Magos, e por causa de "Anita", vale pouco mais que zero. O recuo determinante em Lisboa e a incapacidade de Teixeira Lopes de chegar (mais uma vez) a vereador no Porto são os traços mais visíveis dessa semi-irrelevância. Esperemos que com isto Louçã se cale um pouco.

 
Depois, as grandes cidades. No Porto os resultados foram muito semelhantes aos de há quatro anos. Sem grandes ondas, e talvez moderando o seu tradicional sentido para a conflituosidade, Rio limitou-se a ver a desastrada campanha de Elisa Ferreira, que nos últimos dias parecia dar tudo por tudo para perder inequivocamente. Não tendo sido uma hecatombe, ficou um pouco abaixo do resultado de Francisco Assis há quatro anos. O Aleixo terá os dias contados, e ainda bem. Pior sorte terão os mercados do Bolhão e do Bom sucesso, e os jardins do Palácio de Cristal.

Em Lisboa houve algum suspense, mas apenas isso. António Costa manteve a câmara e alcançou maioria absoluta nas últimas horas da noite eleitoral. Tem agora mais espaço para "pôr a câmara em ordem". Espera-se que não abuse do poder que o povo da capital lhe entregou e que promova a facilidade no acesso à habitação no centro da cidade, a melhoria dos transportes públicos, que proteja os jardins e o património imobiliário, e que ouça atentamente o arquitecto Ribeiro Telles.

Quanto a Santana, aconteceu-lhe o inverso de 2001: à frente de uma coligação, perdeu a aposta. Na hora da derrota, pôs-se com tergiversações sobre transferências de votos e mais conversa fiada. Com este desaire (que deixou os seus apaniguados e respectivas catacumbas em forma caixa de comentários à beira de um ataque de nervos, invocando até Cunhal para carpir o "Menino-Guerreiro"), e duvidando-se que queira ser vereador sem pasta, pergunta-se por onde vai ele andar agora. Longe das responsabilidades políticas, espera-se, mas perto da ribalta.
Tomando em conta os ciclos normais deste tipo de eleições, diria que se está num ponto de viragem. O PS venceu folgadamente em 1989 e 1993, em 1997 ganhou à tangente, antes do desastre em 2001. O PSD ganhou claramente em 2001 e 2005, mas nestas já patinou. Seria previsível uma vitória socialista em 2013 se as regras do jogo não tivessem sido mudadas com a higiénica limitação de mandatos consecutivos. Assim, só Deus sabe o que vai acontecer saqui a quatro anos.

Vitória bipolarizada?

 
O PS teve mais votos, mais mandatos, subiu muito em relação a 2005 e ganhou em Lisboa com maioria absoluta.
O PSD conservou o maior número de câmaras e reforçou-se nalgumas das maiores concelhos do país, como Porto, Gaia, Sintra e Cascais.
Podem clamar ambos vitória sem perder o sentido do ridículo. Amanhã, quando se fizerem as análises sérias, outras conclusões se poderão tirar.
Para já, as minhas alegrias são pela negativa: alegrei-me com as derrotas de Fátima Felgueiras, Narciso Miranda e o fim da carreira política de Ferreira Torres. Quanto a Santana, que se fartou de "andar por aí" durante toda a noite, veremos por onde andará no futuro.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Uma desilusão, um exemplo e um equívoco



A maior desilusão destas autárquicas, mesmo antes dos votos, tem um nome: Elisa Ferreira. Começou com a bi-candidatura ao Parlamento Europeu e à CMP, com desculpas apressadas e convincentes. Houve depois um período de acalmia antes de cair numa espiral de disparates: a história da "gamela" de Bruxelas (onde revelou que se trabalha pouco), acusações sem sentido, uma lista para a câmara de notáveis da cultura que não se imagina a trabalhar a tempo inteiro na câmara, uma campanha gráfica confusa e populista, e agora vem com a futebolização das eleições. Elisa acha que Rio, com as suas desavenças com o FCP, colheu "o apoio de seis milhões de benfiquistas", e ainda que "quem se portou impecavelmente foram os portistas, que disseram que uma coisa é futebol, outra é política e até o elegeram". Não diz é porque raio é que o autarca quereria esse apoio dos benfiquistas. Somos assim tantos no Porto? Nunca me apercebi. Toda a minha vida devo ter tido ilusões de óptica, ou então não conheci as pessoas certas. Mais um tiro na água de quem se esperava mais. Nem o apoio de Pinto da Costa lhe vale.
Também no Porto, e para que conste, relembro as circunstâncias da primeira vitória de Rui Rio. Fernando Gomes, que gozava de grande popularidade na cidade (tanto que teve maiorias esmagadoras), resolveu experimentar o cargo de ministro da Administração Interna e renunciar à Câmara. As coisas não correram bem, e voltou algum tempo depois a concorrer à CMP. Para grande surpresa, perdeu as eleições. Além de algum desgaste do seu projecto, a sua ida para Lisboa e a ideia de que regressava meramente para ocupar um lugar onde se tinha acomodado não caiu bem entre os portuenses, que não o reconduziram ao lugar. Uma lição cívica e um sinal de inteligência dos eleitores
Santana Lopes foi eleito para a CML em 2001. Em 2004, como se sabe, rumou ao Governo; antes, porém, acautelou-se e suspendeu o mandato autárquico, sem renúncia. Derrotado em Fevereiro de 2005, não assumiu o lugar de deputado e voltou a ocupar o gabinete da presidência na autarquia, desapossando Carmona Rodrigues a contragosto deste. Impedido por Marques Mendes de se recandidatar, conseguiu apanhar a candidatura este ano, colocando Manuela Ferreira Leite perante um facto consumado. Como se nada se tivesse passado antes, nem nunca tivesse circulado entre cargos mais apetecíveis no momento, Santana quer voltar a presidir à CML. Mais do que o seu percurso errático e das dívidas que deixou pelo caminho (e sem esquecer os casos dos contentores de Alcântara e promessas incumpridas por António Costa), seria bom que os lisboetas se lembrassem disto e meditassem no salutar exemplo que os portuenses deram há alguns anos.
Um Nobel de futurologia


Longe de se ter dissipado, o Obamismo impregnou os salões de Oslo. O Nobel da Paz ganhou hoje um novo sentido e um significado diferente: premeia por antecipação e pelas expectativas criadas, com alguma futurologia à mistura, e já não por uma carreira com resultados e mérito, obedecendo à ideia original de Alfred Nobel. Por outras palavras: um risco elevadíssimo ditado pelas tendências do momento.

Obama pode muito bem deixar uma obra notável e um grande contributo para resolver sérias ameaças à paz, mas antes disso conviria que acabassem com a sua santificação em vida. Esta atribuição do Nobel da Paz está entre o patético, o idealista e o provocatório. E não contribui muito para credibilizar o comité decisório.

Prognósticos das autárquicas só no fim do jogo

 
As autárquicas são as piores eleições para fazer prognósticos. O seu carácter local e as situações particulares que a elas estão ligadas fazem com que inevitavelmente haja surpresas. Há sempre um dinossauro apeado da cadeira, uma sondagem que falha abruptamente, um terceiro que emerge. Podem ser boas ou más, consoante os gostos.
Em 2005 a melhor surpresa (para mim e para muitos) terá sido a derrota de Avelino Ferreira Torres em Amarante. Este ano, volta a tentar a sua sorte no Marco de Canaveses, que dominou durante mais de duas décadas. Duas sentenças opostas do Tribunal Constitucional permitiram a sua candidatura "independente", ameaçando a presidência de Manuel Moreira, quer teve certamente muitas dores de cabeça para colocar em ordem o estado calamitoso do concelho.
Não sei o que se passará em Lisboa. Por mim, Santana voltava para onde veio e continuaria a "andar por aí". No Porto, Rio está mais que confirmado; ajuda de Elisa Ferreira não falta. Mas não faltam autarquias em que pode haver surpresas. em princípio, Gaia e Sintra continuarão nas mãos de Meneses e Seara. Gondomar, Oeiras e Felgueiras também não devem expulsar os seus bem conhecidos "independentes" (muitos militantes partidários há nessas listas "independentes"), mas caso isso acontecesse, teria uma imensa piada. Matosinhos é um caso curioso, porque as sondagens, que ainda há pouco tempo davam a vitória a Narciso Miranda (que meteu na cabeça que a presidência Matosinhos era dele e de mais ninguém), mas agora são claramente mais favoráveis a Guilherme Pinto. Depois, há casos em que as candidaturas independentes baralham as apostas, como acontece em Coimbra ou Faro. Há capitais de distrito que pela saída dos seus autarcas não se sabe para que lado vão pender, como Viana e Setúbal. Saber-se-à se Mesquita Machado vai finalmente ser apeado por Ricardo Rio ou se ainda consegue cumprir o último mandato - está lá desde 1976. E se o CDS consegue estender-se para lá do seu bastião de Ponte de Lima, ou se o BE consegue mostrar alguma coisa fora dos círculos urbanos. O melhor mesmo é esperar para ver.

quinta-feira, outubro 08, 2009

E o Nobel da Literatura vai para uma alemã de origem romena que antes era romena de origem alemã

 


Tal como se esperava, a Academia de Estocolmo, sempre fiel às suas tradições, atribuiu o Nobel da Literatura deste ano a uma autora quase desconhecida, Herta Müller. Os especialistas na matéria, como sempre, apostavam nos consagrados Philip Roth, Vargas Llosa, Amos Oz, Milan Kundera, etc. Enganaram-se uma vez mais. Já era tempo de saberem que os suecos adoram trocar as voltas às apostas e nomear alguém de terceira linha. Mais vale não fazer prognósticos sobre os "consagrados", para ver se eles assim ganham algum ano - isso sim, seria surpreendente. Basta dar uma vista de olhos à lista dos galardoados dos últimos anos para perceber essa imensa evidência.

Observe-se agora: responsáveis da Academia disseram recentemente que o prémio "tem sido muito eurocêntrico". Entretanto, já é o terceiro autor de língua alemã a ganhá-lo nos últimos dez anos. É certo que os autores germanófonos deram não poucas contribuições à literatura europeia e mundial, mas tenho sérias dúvidas se actualmente serão superiores aos lusófonos - em maior número e distribuídos por mais países. Passa-se a vida a ouvir dizer que "como o Saramago ganhou em 98, dificilmente algum escritor lusófono ganhará nos próximos anos". E agora temos a senhora Herta Müller a juntar-se a Günter Grass (nada a opôr) e a uma Jelinek qualquer. Se há medíocres que escrevem em alemão a ganhar o Nobel, porque não um bom brasileiro ou um razoável português?

 
Ainda outra observação: Herta Müller nasceu em Timisoara, na região romena do Banato, mas mudou-se para a Alemanha, onde adquiriu a respectiva nacionalidade nos anos oitenta, daí dizerem que é alemã de origem romena. Na realidade, poder-se-ia dizer o inverso (como se deduz pelo nome e apelido), já que pertence ao grupo dos suabos, outrora maioritários, mas hoje uma minoria germânica do Banato. Um regresso às origens, como tantos outros naturais da mesma região e da Transilvânia (estava mesmo para escrever um post sobre isso, no seguimento de outro que deixei há dias). O assunto é particularmente focado em obras como Danúbio, do italiano Claudio Magris, que não por acaso também faz parte do distinto grupo dos eterno candidatos a ganhar o Nobel.
Campanha autárquica

Com as autárquicas à porta, sucedem-se os outdoors de toda a forma e tamanho. Houve tempos em que eram uma raridade, tempos esses em que imperava o cartaz colado à parede ou o mural artístico. Hoje pouco se cola. Subsistem os plásticos à volta dos postes, e até as freguesias optam pelo mais visível outdoor ou cartaz gigante. Podemos ver muitos deles aqui. Alguns são agradáveis do ponto de vista estético, sejam sóbrios ou imaginativos, mas há outros absolutamente de fugir (sobretudo na profusão de cores e palavras sobrepostas). Mas não se duvide que houve grandes progressos gráficos em relação às eleições de 2005, como se comprova. Pena é que haja menos razões para rir.

quarta-feira, outubro 07, 2009

A sapiência republicana do discípulo de Trotsky


Retido no fim de semana sem net, acompanhei ao de leve as comemorações da implantação da república, desta vez sem presidente. Parece todavia que as comemorações monárquicas tiveram mais impacto e maior adesão. Houve variadas formas de manifestações, à cabeça das quais o desfraldar da bandeira azul e branca na sede da Causa Real, ao Chiado. Desde Janeiro que não era ali hasteada (já tinha reparado nisso, e até pensei que tivessem mudado de instalações). Segundo as balbuciantes justificações da CML, um qualquer regulamento municipal proibia-o, embora até hoje, e durante sessenta anos, nunca tivesse havido a menor proibição por parte da edilidade lisboeta.

A ausência de Cavaco Silva dos habituais discursos em frente à câmara de Lisboa revela bem o diminuto interesse atribuído ao "5 de Outubro". A razão oficial foi a aproximação das eleições autárquicas. O quer só reforça a ideia da importância menor destas comemorações, para mais presididas pela presidente da AML: em 2001, em pleno dia de reflexão das presidenciais, Jorge Sampaio e todos os outros candidatos - à excepção de Ferreira do Amaral, por casmurrice - estiveram presentes na cerimónia de abertura do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura. Tendo em conta um e outro acto eleitoral e o impacto de cada um dos eventos, forçosamente se conclui que a relevância do "5 de Outubro" roça a nulidade.

Mas as movimentações monárquicas fazem-se notar. Francisco Louçã passou a semana a disparar contra tudo e todos, depois do tão anunciado terceiro lugar do Bloco se converter numa miragem. O alvo era agora Paulo Portas, que ouviu tudo, desde a acusação de ser de "extrema-direita", até ter "destruído o país", e de "remar contra a maioria da população portuguesa no referendo à IVG". Muito interessante, vindo do "coordenador" de um movimento com laivos de extrema-esquerda, cujos componentes ajudaram à destruição da economia do país em 1975, e que tanto gostam de se anunciar como grupo de protesto, "contra-corrente", "ovelha negra", etc. Todas as dúvidas sobre a honestidade intelectual e o fanatismo ideológico do representante da Quarta Internacional em Portugal ficaram definitivamente dissipadas.


Mas como a querer afirmar isso de forma ainda mais acentuada, Louçã veio agora chamar aos monárquicos "um pequeno grupo de patuscos atrás de um milionário banqueiro que conduziu um dos maiores escândalos da criminalidade económica em Portugal," que "lá apareceu pelo Tejo a gritar as saudades da monarquia", porque são todos de "direita reaccionária" que "reclama o regresso ao passado, o regresso ao atraso, à monarquia e à diferença”. A coisa resvalou para o insultozinho piadético sem piada nenhuma, a guetização ideológica, o lugar-comum marxista e a pura calúnia. Onde é que as acções de Teixeira Pinto levaram à "criminalidade económica"? Tem Louçã provas do que diz ou é mais uma das suas atoardas justiceiristas, querendo-se mostrar como o homem probo (talvez um sub-gênero do envelhecido "Homem Novo") no meio do "pântano da corrupção"? E porque razão quiseram as cúpulas do BCP afastar Teixeira Pinto quando este tinha um processo de renovação do banco, não se recordará o deputado trotsquista?

Quanto à confinação dos monárquicos na "direita reaccionária", só mostra o sectarismo e mesmo a ignorância de quem desconhece(?) que há monárquicos de diversos quadrantes políticos, à esquerda e à direita, em todos os estratos sociais e em todas as instituições. Muitos mais do que na sua miscelânea de esquerda radical e tocadores de djambé que atrai pontualmente alguns descontentes com o PS. Para Louçã, todo aquele que não faça parte do seu círculo ideológico próximo é imediatamente rotulado de "direita", e se for monárquico, torna-se um "reaccionário" (só falta mesmo "fascista"). Acresce que só o poder moderador cabe ao Rei, que reina mas não governa, que a vassalagem já não existe, excepto nominalmente a nível de protectorados que nada têm a ver com a monarquia, e que qualquer súbdito de um reino ou principado europeu tem tanta ou mais liberdade e direitos que qualquer república. Sobre o regresso ao atraso, calculo que deva haver aí certa confusão entre a liberdade que a monarquia sempre trouxe, fosse em 1385, 1640 ou 1834 (perdoem-me os tradicionalistas), e o PREC, do qual deve sentir muitas saudades. Tudo coisas que Francisco Louçã deveria saber, com toda a importância que se atribui. Mas mesmo que lho provassem na cara, a sua desonestidade intelectual e o seu radicalismo, que o impede de compreender ideias alheias, tornariam qualquer argumentação sólida num imenso desperdício de tempo.

sábado, outubro 03, 2009

Dois anos de Estado Sentido

Parabéns também ao Estado Sentido, a que me orgulho de pertencer. Em dois anos tornou-se um blogue de referência (apesar de eu estar lá). Mérito sobretudo do Samuel, que lançou o barco e trouxe "remadores" de primeira qualidade. E que continua no bom caminho. Por um sentido de estado.
Os primeiro jogos olímpicos numa cidade lusófona



O Rio de Janeiro está de parabéns pela vitória na organização dos Jogos Olímpicos sobre concorrentes tão poderosas como Chicago (de Obama), Tóquio e Madrid. Com a realização do Mundial de Futebol de 2014 no Brasil, e depois com os jogos em 2016, o Brasil será o grande organizador de eventos desportivos da próxima década. Prevê-se uma tarefa árdua e muitas dores de cabeça aos brasileiros.


Nota importante: é a primeira cidade lusófona a organizar uns Jogos Olímpicos. A Cidade Maravilhosa, com a sua beleza natural, tem um importante desafio pela frente, com toda a criminalidade e problemas sociais de que sofre. Poucas cidades no Mundo conseguem agregar o inferno e o paraíso no seu espaço. Cabe aos cariocas fazer valer a parte paradisíaca e mostrar que o Brasil é mais do que uma potência regional. Nada melhor do que o cenário único e invejável do Rio.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Angela Merkel, take 2, agora com os Liberais




Com o cenário pós-eleitoral e as polémicas entre orgãos de soberania, pouca atenção se deu às legislativas na Alemanha, quase tão importantes para nós como as nossas próprias eleições. Angela Merkel reforçou a sua liderança, não tanto pelos ganhos eleitorais em relação a 2005, que foram escassos, mas pelo desaire do SPD e pela subida significativa dos Liberais, habituais fiéis da balança entre os dois grandes partidos. A Chanceler faz valer o seu carisma ao conseguir afastar um peso pesado concorrente do governo. Com o FDP terá maioria no Bundestag e haverá com certeza reformas na política interna (à frente dos Negócios Estrangeiros ficará, tal como acontece habitualmente nas coligações governamentais alemãs, o líder do partido mais pequeno, neste caso o liberal Guido Westerwelle), sobretudo económica e financeira, matérias que não são consensuais entre os dois novos parceiros.

Um pouco à semelhança com o que se passa cá, os dois partidos mais à esquerda também cresceram. Os Verdes e Die Linke (uma espécie de mistura de Bloco de Esquerda com PCP) subiram, retirando votos aos SPD, talvez porque alinhou mais ao centro. Acaba por ser o grande derrotado, em proveito de partidos mais esquerdistas e dos liberais, que lhes roubaram votos ao centro.


Um pentapartidarismo que se poderá assemelhar ao nosso, à primeira vista, mas com algumas diferenças fáceis de descobrir. O SPD corresponde ao "nosso" PS e a CDU/CSU ao CDS-PP; já o FDP será uma fracção do PSD, que também englobaria parte da CDU (a alemã); o Linke seria, como já se disse, a fusão entre o Bloco e o PCP; e os Verdes seriam formados pelo PEV e franjas do Bloco. Parece complicado, mas está lá quase tudo em partes dispersas.
O espectáculo da república


O discurso de acusações do PR ao partido do governo só teve o condão de aumentar a crispação na política portuguesa. Isto em pleno período inter-eleitoral.

Assiste-se por um lado a uma manifestação da obsessão securitária do "árbitro do regime", bem expressa anteriormente pela proibição de voos sobre a vivenda "Mariani II", e de desconfianças graves de quem devia ser isento. Do outro, sucedem-se as intrigas de quem pouca confiança inspira, com jornais de um lado da trincheira e do outro metidos ao barulho. Os apoiantes de cada uma das facções acusam-se mutuamente de "má-fé" e "maquiavelismo". Nunca, nem em tempos da coabitação Soares-Cavaco, o mau ambiente entre a presidência e o governo chegou a este patamar.


E ainda querem comemorar a "república" do 5 de Outubro, ou instalar a quarta república. Que ideia peregrina! Acabe-se mas é com a dita e reinstaure-se a Monarquia. Há muito que se prega, mas parece que só agora é que se começa a prestar a devida atenção. Será que isto só lá vai com o crescente apodrecimento do regime?

PS: Cavaco e Sócrates almoçam hoje juntos. Ao nível a que as coisas chegaram, é de temer que um deles aponte para cima e diga ao outro "olha ali a república a voar", e aproveitando-se da breve distracção e basbaque do interlocutor, abra uma das pedras dos anéis (ou o alfinete da gravata) e deite o conteúdo venenoso na sopa do outro. Pelo menos noutras repúblicas, como a Romana, era prática corrente.

quarta-feira, setembro 30, 2009

O regresso dos Green Day





Os Green Day passaram pelo Pavilhão Atlântico na Segunda-Feira. Trouxeram o seu carrossel punk/opera rock e deram um concerto que sem ser extraordinário teve bastantes momentos altos.
 
A banda de Billy Joe (sempre com o seu ar de louco e os seus olhos esbugalhados) marcou-me, como a muito, na adolescência. Em meados dos anos noventa, o que estava a dar era o fulgurante Dookie e as suas músicas incandescentes de três minutos, como Basket Case e When I Come Around. Havia a concorrência dos histéricos Offspring para ver quem dominava o "teenager punk rock" californiano e conseguia mais discos de platina.
 
Os Green Day continuaram no mesma caminho, com alguns momentos marcantes, mas já em ligeiro declínio, até aos anos 2000, em que apareceram a fazer as primeiras partes de concertos de bandas que eram meras cópias pueris deles próprios, como os Blink 182, e ainda vendo os Offspring mantendo o sucesso. Já quase todos se tinham esquecido deles quando resolveram inverter o rumo e lançar o disco de opera-rock American Idiot. Como se sabe, um sucesso retumbante: regresso aos primeiros lugares das tabeças de vendas, boas críticas musicais e imensos Grammys e MTV Awards. Em suma, o regresso da glória dos tempos de Dookie, mas em versão crescida. Ao mesmo tempo, os Offspring definhavam entre a sua berraria e os Blink e restantes clonagens de punk para adolescentes sumiam de cena.


Este ano lançaram novo disco, 21st Century Breakdown, que tal como o anterior ainda traz consigo a crítica à guerra ao Iraque, aos efeitos da Administração Bush e a parte da sociedade americana (o espírito punk não desapareceu por completo). Vieram agora mostrá-lo ao vivo, em Portugal. Era uma daquelas bandas que me apetecia mesmo ver, e já não o esperava, mas chegou um bilhete salvador à última da hora. Assim, juntaram-se milhares de nostálgicos dos anos noventa, meia dúzia de tipos de crista, correntes e roupa negra esfarrapada julgando estar na Londres dos anos setenta, e uma legião de teenagers (um até chegou a ir tocar ao palco e nem se deu nada mal) com variadas t-shirts dos artistas, além dos fãs dedicados de camisa preta e gravata vermelha, à Billy Joel. Ficou na memória a expressão de louco nos ecrãs gigantes do vocalista, que até lançou camisolas com um canhão, a pirotecnia, o entusiasmo do público e o fim do concerto, com a belíssima Time of Your Life tocada a solo, sob um único foco de luz. Ficou apenas a faltar, entre uma ou outra, a velha When I Come Around, que tanto passava nas rádios em 1995. E talvez uns minutos a mais de espectáculo.








A grande ausente do concerto
O líder da direita


Não considero Paulo Portas um exemplo de sólido carácter nem merecedor de especial confiança. A sua carreira no Independente e no PP atestam-no. Os casos Moderna e da sua passagem pelo governo, os cumprimentos a Rumsfeld, as quezílias com Monteiro, e por fim a forma como voltou à liderança do partido, afastando Ribeiro e Castro, e depois disso o silêncio sobre a demissão de Nobre Guedes e outros problemas internos não contribuíram em nada para o tornar mais credível.

Mas há que lhe tirar o chapéu: o homem é um autêntico animal político, esteja onde estiver. Já no Independente o era, mesmo que fora da prática partidária. Consegue fazer pose de estado no Parlamento e nos ministérios, vai para os debates bem preparado e com os factos bem estudados (e o seu inseparável "oiça"), e anda por toda a parte, pelas ruas, pelas feiras, pelos mercados; cumprimenta, fala, toca pandeireta; tem experiência de campanha e de como se deve comportar perante a comunicação social; sabe, talvez por causa desses factores acumulados, que as campanhas mais eficazes são as do contacto directo, o "trabalho de formiga", e não as dos outdoors brilhantes ou carros de som, e por isso o CDS, dos cinco principais partidos, conseguiu ser de longe aquele que menos gastou; por fim, uma mensagem clara e fácil de perceber, populista na medida certa mas aquém da demagogia. O resultado está à vista.
Pensava que o partido iria crescer, mas nunca passar da casa dos 8%. Afinal, surpreendeu a maioria. Aproveitou o voto indeciso de direita do PSD, ultrapassou os dois dígitos, quase duplicou o grupo parlamentar e voltou a enganar as sondagens. Alcandorou-se assim no terceiro lugar, colocando sérios embaraços ao PS sem maioria, para previsível irritação de Francisco Louçã, cuja subida do Bloco, aquém dos 10% (por acaso achei que não ia chegar lá), tem um sabor agridoce. E voltou a ser o mais destacado líder da direita portuguesa, que ao contrário do que dizia o "coordenador" bloquista, não é assim tão estúpida.

terça-feira, setembro 29, 2009

O ideólogo perante a dura realidade



Já agora, como é que reagiu Pacheco Pereira aos resultados eleitorais? No Abrupto parece que nada se passou. Então e a sinistra "asfixia democrática", e os índices de situacionismo, desapareceram num ápice? Pelo que ouvi, o deputado eleito por Santarém terá aparecido ontem num programa televisivo falando de mais do mesmo. Espero que não tenha sugerido que os eleitores deram um tão mau resultado ao PSD por se sentirem com medo que o seu voto nas cabines de voto estivesse a ser vigiado. Depois de tanto atordoamento verbal, seria o cúmulo.
O preço da vingança interna


Há uma coisa que distinguiu PS e PSD (e em certa medida também o CDS) e que pode ter pesado em alguns votos: a união interna dos partidos, conseguindo as cúpulas reconciliar-se com os "rebeldes" e críticos e juntando-se em prol da luta eleitoral. Isso sucedeu no PS, onde depois de anos de contundência, de uma candidatura presidencial que humilhou o seu partido e até de comícios com o Bloco e de apoiar uma candidata independente trânsfuga do PS à câmara de Lisboa (Helena Roseta), além dos votos contra na AR a propostas socialistas, Manuel Alegre apareceu no fim, em Coimbra, a apelar ao voto em José Sócrates, depois de lhe ser proposta a renovação nas listas de deputados e da sua esperada recusa. Já Paulo Portas, depois dos triste episódios do seu regresso à liderança do partido, atribuiu ao ex-presidente e adversário interno Ribeiro e Castro um papel relevante, à frente das listas do CDS pelo Porto.



Um imenso contraste com a estratégia de Manuela Ferreira Leite, que por puro revanchismo afastou de supetão o grupo de Pedro Passos Coelho. Por muito menos do que tinha feito Alegre no PS, pagaram com a exclusão integral das listas a deputados, dando uma imagem no PSD de desunião, vingança privada e paz podre. Para além da estratégia falhada e da pobreza das ideias, as "facas longas" laranjas em nada terão contribuído para a imagem do partido e para a sua "política de verdade", como aliás se disse aquando da elaboração destas listas

Ninguém se admire agora por haver quem já esteja a levar os punhais ao amolador.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Síntese
Viajando de carro entre Porto e Lisboa, não pude assistir às reacções eleitorais, mas ouvi os resultados das legislativas até ao fim através da rádio. Já sabia da mais que previsível vitória do PS sem maioria absoluta e do inesperado terceiro lugar do CDS-PP. Fui acompanhando a emissão, os discursos, as reacções, os comentários dos opinion makers, etc. A vitória do PS por esses números não me espantou absolutamente nada, mas esperava que o PSD ficasse um pouco mais além do banho que levou em 2005 com Santana. Pelos vistos não conseguiu.
Na polarização que ontem tomou forma, só me espantei (eu e mais 80% da população, embora muitos já venham falar da "previsibilidade" desta resultado) com a ascensão do CDS-PP ao 3º lugar. Imaginava que o partido Portista fosse subir, mas que não chegasse sequer aos 9%. Afinal, aí estão os dois dígitos, mais deputados, alguns arrancados a ferros e uma situação inesperada para o governo. As corridas de Portas pelo país e o trabalho de formiga incessante, mais do que grandes comícios, deram bom resultado
Quase que apostei que o BE não chegava aos 10%, e não me enganei por uma unha negra. Quedou-se pelos 9,8 e duplicou o seu grupo parlamentar. Uma grande subida, sem dúvida, mas não tão grande como a chegaram a pintar. Não conseguiu tornar-se a terceira força partidária e dificilmente terá outra oportunidade para lá chegar. Mas Louçã parece não ter percebido isso, nem que o PS não precisa dele, com um discurso em que dava ideia que tinha ganho as eleições, o que lhe valeu algumas bicadas de Sócrates.
A CDU subiu em votos e conseguiu mais um mandato, além de ver o PS perder a sua maioria absoluta. à parte isso, é uma das derrotadas da noite, embora o desaire não seja profundo. ficou em quinto e certamente que acabou prejudicada pelos votos no Bloco. Mas ainda aposto que o vai ultrapassar em futuros actos eleitorais (para além das autárquicas).
Sobre os dois maiores partidos, simplesmente o óbvio: o PS ganhou, mesmo sem maioria absoluta e com menos 8% dos votos, e Sócrates aguenta-se. O PSD perdeu, quase não recuperou nada de 2005 e apenas se pode dar por contente com o fim da maioria absoluta. Mas o que fica claro é que a sua mensagem e imagem não passaram por demérito próprio.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Dos pequenos, rezará a história destas eleições?



Ao contrário do que aconteceu nas Europeias, talvez porque as Legislativas "não se pode desperdiçar votos" e se apela ao "voto útil", os pequenos partidos têm sido muito escassas vezes objecto de notícias. Com algumas excepções, como um recente Prós-e-Contras, uma ou outra reportagem televisiva e alguns artigos como o do Público de hoje, impera quase um manto de silêncio sobre os que não têm representação parlamentar, para além daquela curioso argumento de que "o voto nesses partidos é um voto desperdiçado". Será curioso se algum deles chegar aos bancos do Parlamento, com tão pouca cobertura. Quem tiver boa memória lembrar-se-à certamente que o Bloco de Esquerda, logo na sua aparição em 1999, teve extensa atenção dos média (é verdade que também tinha algumas figuras conhecidas).

O MEP tem algumas possibilidades de lá chegar. O MMS já tenho dúvidas (aqueles anúncios de "enviar os políticos para a Conchichina" e da castração química dos pedófilos são do mais inquietante populismo que já vi), o resto, o PPM versão Câmara Pereira, o PNR "expulsem os emigrantes", o POUS da lírica Carmelinda, o MRPP desse excelente juslaboralista que é Garcia Pereira, permanecem iguais a si mesmos. Novidades são a Nova Democracia já não ser liderada por Manuel Monteiro (que no entanto corre por Braga), o MPT de Quartim Graça estar coligado com o Partido Humanista, e os nóveis Partido Trabalhista, chefiado por um senhor com ar de empreiteiro de Tondela, e o Partido pro Vida, que defende causas que considero nobres mas que gostaria muito de saber quais as ideias nas áreas da economia, assuntos externos, ambiente e obras públicas.


Dia 27, o dado de maior interesse entre estes pequenas agremiações será o de saber se o MEP consegue entrar no Parlamento. Pelos números das Europeias, isso seria possível, mas o "voto útil" pode tramá-los. Confesso que admiro o percurso de activista de Rui Marques, desde a missão do Lusitânia Expresso e da Fórum Estudante (uma revista de que era fã absoluto quando tinha 16, 17 anos, e de que guardo alguns números), até ao seu papel como Alto Comissário para a Emigração, passando pelo seu trabalho nas escolas de Timor e na participação do lançamento da revista Cais. Tenho uma certa curiosidade em ver como se comportaria na AR - e qual a sua visibilidade. A sua imagem humanista poderia sumir-se no meio das acusações entre "os Exmos Deputados", mas alguma coisa ficaria, por certo. Veremos se tem sorte no Domingo. Porque aos pequenos, como sempre, só sobrarão migalhas.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Uma imagem verdadeira da Roménia (agora a sério)


O meu post anterior era uma paródia suave a uma Roménia que cabe dentro daquilo que imaginação colectiva ocidental idealizou sobre os países balcânicos. Por falta de arte e engenho, e também de tempo, acabou por não ser uma coisa descabelada e alucinante, perceptível à primeira vista. Trata-se de um relato misturando factos reais, outros mais exagerados e algumas invenções.

O aeroporto não é assim tão rudimentar (e só levava bagagem de mão), não andei de táxi, pelo que a imagem dos taxistas é decalcada da caricatura portuguesa, não vi colunas armadas ou salteadores de estrada; as cidadelas estão apesar de tudo recuperadas e não há famílias ciganas lá a viver (aí, confesso, recordei-me das famílias africanas que se instalaram nos edifícios construídos nas cidades moçambicanas, como o Hotel Polana); os resorts não apontam quaisquer restrições étnicas. Não há muitos petroleiros mesmo à vista à beira-mar, como é óbvio, embora haja lanchas e jet-skis, e as únicas advertências quanto a indumentária respeitam a restaurantes que proíbem a entrada a gente em fato-de-banho (ainda por cima a maioria dos homens usa tangas). E já agora, o que escrevi sobre Bucareste é obviamente um exagero, embora não totalmente afastado da realidade (o problema dos cães era real mas está atenuado).
No entanto, e como diz António Teixeira no comentário a esse post, muitos dos que se referem a Portugal como "a cauda da Europa" poderiam ir dar uma volta à cintura de Bucareste, só para não se afastarem muito, ou à região da Moldávia (não ao país com o mesmo nome) para se tornarem mais benevolentes com o nosso país.


Quem tente ir de carro do aeroporto Optopeni, que serve a capital, a Constança, terá muitas dificuldades em chegar à auto-estrada, porque as indicações são nulas. Com algum azar, seguirá na direcção contrária, rumo a Oeste. Se se orientar, percorrerá a cintura de Bucareste em direcção à via pretendida, mas terá de ser paciente com as filas de pára-arranca por causa das obras; no tempo despendido, poderá admirar os inúmeros stands, barracões e estabelecimentos pré-fabricados de carácter comercial que se alinham junto à estrada, muitas vezes servidos de caminhos de terra. Pelo meio, na estrada e nas margens, passam cães de todo o tipo. Os indígenas é que nem sempre têm muita disposição para esperar e muitos ultrapassam celeremente as filas para se reenfiarem lá mais para a frente; o chico-espertismo português pede meças à forma de conduzir romena.


 
A auto-estrada que conduz à região do Mar Negro é boa, até porque atravessa a extensa planície da Valáquia, mas infelizmente ainda não está concluída, pelo que atravessado o Danúbio se tem de ir por estrada normal, com imenso trânsito à frente; na margem das estradas somam-se os tascos, restaurantes e bares, aguardando por locais ou camionistas.


Depois, a costa romena, pouco extensa. Constança, a capital natural dessa região, deve a sua importância ao facto de ser o grande porto do país (e o maior do Mar Negro), mas faz gala do passado grego e romano. a memória da cidade recorda Ovídio, o poeta exilado nestes lados. A referência da cidade é a praça com a sua estátua, atrás da qual há um museu de arqueologia e um conjunto de mosaicos romanos.

A Praça Ovídio


Mas a grande atracção de Constança é o soberbo casino, debruçado sobre o mar, a meio da corniche. Infelizmente está fechado; acredito que seja para remodelação, porque de outro modo não se entende como se desperdiça uma pérola semelhante, como casino propriamente dito ou como centro de recepções, festas ou celebrações. Não é difícil imaginar, na Belle Epoque, o rei Carol II, acompanhado pela sua Magda Lupescu, e dignitários romenos e convidados estrangeiros, nos salões e nas varandas debruçadas sobre o mar, antes dos ventos que sopravam na Europa e ameaçavam o país.


Além do casino e dos vestígios romanos, há ainda perto o farol genovês, uma mesquita e algumas igrejas dignas de nota e variados museus. Mas Constança, a antiga Tomis dos gregos, parece algo maltratada, apesar do seu estatuto de estância balnear e de aí afluir muita gente no Verão. Mas os tratos - pisos quebrados, cabos eléctricos pendentes por toda a parte, quais lianas, casas com valor arquitectónico abandonadas e quase a cair - não devem ser muito diferentes no resto do país.


Para sul, a costa está povoada com aqueles resorts artificiais do tempo do regime comunista, com nomes de planetas (ou Deuses) como Saturn, Jupiter ou Neptun. Alguns blocos de apartamentos, restaurantes perto do mar e praias semi-concessionadas. Ao que julgo saber, noutros tempos, Cunhal passou férias nestas bandas. Uma das praias parece o Nordeste brasileiro, tal a afluência de gente, o comércio de bugigangas e os pronto a comer nos caminhos de terra que levam ao areal. Ainda mais para sul há estaleiros e uma base naval, até se atingir a fronteira com a Bulgária, para lá da qual se estendem campos de cultivo, que imediatamente recordam a antiga propaganda soviética da produção cerealífera.

A Norte de de Constança fica a mais selectiva zona de Mamaia, uma península estreita ladeada de hotéis e alamedas, com a praia logo atrás. Há um cuidado maior nesta zona. O comércio é florescente e há até uma portagem para se lá entrar. Lembra um pouco mais "a Europa civilizada".

Toda esta região do Mar Negro sofreu bastante a influência otomana. Por isso, nas aldeias e pequenas cidades que se encontram ao longo da estrada, como Babadag - o nome é claramente turco - vêem-se invariavelmente mesquitas, e gente de tez mais morena do que o comum dos romenos. Muitas casas são de madeira, e nalgumas aldeias têm todas poços à sua frente, com bermas fundas na estrada, que indiciam saneamento muito básico (ou inexistência do mesmo). Mulheres de idade com lenços coloridos à cabeça conversam nos umbrais das portas. E há três coisas com que se pode contar sempre: cães, carroças puxadas por burro ou cavalo e carros de modelo Dacia 1200.



Esses sinais estão igualmente presentes em Tulcea, a última cidade em terra firme antes do Delta do Danúbio, uma enorme região natural formada por canais braços de rio e lagunas, por onde se espalha o grande rio. Uma zona bastante procurada por turistas, tanto que a cidade, estendida numa curva do rio, vive muito dessa actividade, para além de alguma indústria e do porto e comércio fluvial. Há barcos, barquinhos e vapores que levam os visitantes pelo três braços do Delta, entre os pântanos e os bosques, e os ecossistemas naturais, até à fronteira da Ucrânia, quase ali ao lado, ou mesmo a Sulina, a pequena cidade costeira, onde é quase impossível chegar por terra e que marca o fim do grande rio. Pelo meio, as aldeias desse povo expatriado e quase anfíbio, pescadores de origem russa e de longas barbas que são os lipovenos, descendentes dos que em tempos fugiram por quererem conservar os ritos da velha Igreja Ortodoxa Russa.

Para Oeste da região do Delta fica a Moldávia romena. Em Braila, que tal como a sua vizinha Galati é uma cidade de gruas e fábricas, procura-se a ponte para se atravessar o Danúbio, sempre omnipresente com os seus vários canais. Não há: tem de se cruzar o rio no transbordador de ocasião e perde-se um tempo imprevisto. Passam barcaças carregadas de sucata e madeira. Tem de se atravessar Braila, com os seus prédios decrépitos, os seus rails metálicos e as suas avenidas mal empedradas. A paisagem que se deixa para trás recorda-nos inevitavelmente os filmes de Kusturica.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Uma breve e realista imagem da Roménia




Saída há vinte anos de uma longa tirania nacional-comunista (depois de antes e durante a guerra ficar sob alçada de governos autoritários e pró-fascistas), com uma grande instabilidade política nos anos que se seguiram e há dois na União Europeia, a Roménia é um país singular que tarda em desenvolver-se.




Começando pelo aeroporto, dir-se-ia antes um imenso aeródromo, onde a bagagem é despejada num monte no meio de uma sala e os seus proprietários têm de procurá-la em conjunto com os outros passageiros. À saída, quem quiser apanhar um táxi (geralmente um Dácia" com 30 anos) poderá fazê-lo; os preços são à partida baixos, mas é costume que os clientes tenham de dar a volta de quase 360º à cintura de Bucareste, quando não são levados a dar um passeio a Urcizeni ou terras semelhantes pelos façanhudos taxistas, que têm em regra no retrovisor um galhardete do Steaua ou do Dinamo e passam o tempo a reclamar contra os ciganos ou a dizer "Isto precisava era de um Antonescu/Ceausescu em cada esquina!" O nome do ditador varia consoante a idade dos taxistas.



Antes da capital, fale-se do resto do país. Para começar, vêem-se cães por toda a parte, muitos deles com três patas (dizem-nos contudo os indicadores de desenvolvimento que a percentagem de quadrúpedes propriamente ditos tem aumentado muito nos últimos tempos). As estradas são razoáveis nas regiões planas do sul, já que são alcatroadas e há apenas que prestar atenção aos buracos. Em zonas de curvas, apanhar uma carroça ou uma coluna do exército em manobras ou um rebanho de porcos pode ser motivo de demora. As aldeias são pitorescas, com as suas casas de telhados inclinados cobertos de colmo, as suas ruas de terra batida e as suas bermas e poços em frente a cada casa (o saneamento é algo básico); na região mais a leste cada uma tem a sua mesquita de tipo turco; não convém no entanto parar pela possibilidade de se ser alvo de ataque de salteadores armados de bacamarte ou de crianças ciganas lavando os vidros (também na cidade).


Os monumentos são grandiosos: as cidadelas da Transilvânia ostentam uma imponente e germânica silhueta entre a paisagem de colinas. no entanto, o visitante que se aproxime reparará nas ameias tombadas e nos telhados a precisar de reparações, para além das inúmeras famílias ciganas que as habitam. Fardos de palha acumulam-se nas praças interiores. Escapa a esta imagem o famosa Castelo de Bran (mais conhecido como "castelo do Drácula") já que recebeu avultados investimentos para receber os turistas. Nos campos em redor das cidades são mais notórios nas estradas os tractores e as carroças com fardos de palha.




Os resorts do Mar Negro, outrora reservados à elite do Partido, sofreram algumas melhorias. É vedada a entrada até um raio de cem metros das praias a ciganos, turcos, lipovenos e gente que ostente símbolos estrangeiros que não os americanos, da UE ou da NATO (ou pagando bem, russos). Quem tomar banho no mar - com a indumentária permitida - deverá tomar atenção às lanchas da polícia e ao óleo deixado pelos petroleiros que passam perto



Na capital, o trânsito flui demoradamente como qualquer grande cidade europeia, ou talvez mais, visto que 20% dos veículos é de tracção animal, e os restantes automóveis de gama média da marca Lada, na sua maioria anteriores a 1990 (cópias dos Renaults 12).




O tipo de pessoas que passa nas ruas não é muito diversificado: grande parte da população continua a vestir-se com trajes das zonas de origem, visto que dois terços dos habitantes de Bucareste são camponeses, muitos à trazidos quase à força; para deixar esses hábitos ancestrais, muitos usam uniforme militar (uma herança do antigo regime); reconhecem-se ainda skinheads, que por vezes funcionam como sucedâneos das forças policiais sempre que os problemas não tenha a ver com eles, e ciganos, vestidos como tal. A recente modernização do país e a entrada na UE mudou alguns estereótipos e já se vêm pessoas mais novas ostentando as camisolas dos clubes desportivos locais ou alguma roupa copiada aos ídolos O-Zone. Mais do que pessoas, há cães por toda a parte, muitos em matilha, pelo que andar em parques a partir do fim da tarde pode constituir uma aventura suicida. Anualmente há uma média de oitenta mortes na capital por ataques de cães, mas crê-se que o número será maior porque não se tem em conta quem vive na rua.


As compras fazem-se mais em mercados do que em lojas. Uma novidade recente são os DVDs, mas ainda não têm grande saída, já que os respectivos leitores são quase inexistentes, por isso a maior parte da população ainda recorre a cassetes VHS e Beta.



O símbolo de Bucareste é, como se sabe, o enorme Palácio do Povo. Construído por Ceausescu para reunir todos as grandes instituições administrativas do país, com as escadas de degraus à medida dos passos do Conducator e as famosas torneiras de ouro, abriga hoje não só as câmaras do Parlamento mas também a residência oficial do presidente e de todos os membros do governo - concubinas incluídas - e também dos ex-presidentes, e ainda salas para conferências, sedes de bancos e, nas caves, depósitos de armas e munições, não se dê o caso de haver outra revolução como em 1989. Tem também um imenso salão de baile onde Elena Basescu, filha do presidente e recentemente eleita deputada europeia, costuma dar as suas festas privadas.




A vida nocturna vive dos bares situados invariavelmente em caves, normalmente antigos abrigos subterrâneos, muitos dos quais proibidos a mulheres (outra situação que tem mudado com a entrada na UE), ciganos, turcos e húngaros. As bebidas normais costumam ser a cerveja artesanal feita na própria casa, cujo estranho sabor faz suspeitar dos seus componentes, vinho, aguardentes de castanha e licores variados de teor elevado de álcool. Os preços em Euros podem chegar até 1,50€ pelas bebidas mais caras, quase inacessíveis ao comum da população. Refira-se que a moeda romena, o Leu, vale cerca de 2,5 cêntimos, e que as notas de valor mais elevado chegam aos mil Lei.




Quase posta de parte no regime comunista, a religião voltou em força desde 1990. Da quase proibição passou-se para a quase obrigatoriedade, e os soldados que vão em missão juram pela pátria e pela Santa Igreja Ortodoxa Romena, com a protecção de São Constantino Brancoveanu. Também as cerimónias públicas têm sempre a benção da igreja.




O tempo no Verão é soalheiro, mas a indústria pesada e os poços de petróleo em constante laboração fazem com que uma permanente nuvem de poluição envolva as principais cidades, pelo que o sol raramente se vê em Bucareste. Um problema acrescido à frágil indústria turística romena, como tantos outros, mas cujos desenvolvimentos recentes dão motivos de esperança num futuro melhor.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Pólvora seca em véspera de eleições
António Preto e Helena Lopes da Costa não são propriamente pessoas devedoras de grande credibilidade. O facto de fazerem parte de qualquer lista eleitoral é matéria sobrenatural para lá da compreensão humana. Espanta-me que haja quem tenha a menor ideia de neles votar seja para o que for, excepto talvez os familiares e amigos. Por isso não me custa a crer que as jogadas internas de voto censitário no PSD de que são agora acusados sejam mesmo verdadeiras.
Sabe-se que apoiam Manuel Ferreira Leite e são candidatos às legislativas por Lisboa. No PSD diz-se "que o assunto já não é novo e que foi “ressuscitado” agora “por causa da campanha eleitoral”.
Por mais grave que seja - ainda que, sendo assunto interno de um partido, não se revista da mesma gravidade que teria caso envolvesse instituições e dinheiros públicos - parece haver aqui claras semelhanças com o que se passou antes das eleições de 2005. Na altura, é bom recordá-lo, surgiu o caso Freeport vindo do nada, através de uma denúncia anónima e amplamente publicitada por O Independente. O objectivo político de tramar Sócrates estava lá escarrapachado, o passa- palavra popular "isto apareceu agora para tramá-lo" começou a correr e por isso mesmo o tiro saiu pela culatra e o PS ganhou com a maioria que nos tem governado desde então.
Terá esta notícia sobre a compra de votos mais desenvolvimentos e impacto? Talvez Ferreira Leite, se se recordar de 2005, esperará que sim. Com toda a certeza a história iria apenas trazer mais votos ao PSD, com todo o aspecto de arranjo político que parece vir colado.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Assim vale a pena

Ir ao Restelo (estádio que não conhecia), convidado para ver o jogo, numa tarde soalheira e com uma maré vermelha no interior do recinto é sempre apelativo. Se dá para ver o Benfica a golear com os Jerónimos, o Tejo e os transatlânticos como cenário do fundo, melhor ainda. Tal como aconteceu ontem, em que uma equipa terrivelmente eficaz não deu hipóteses a um Belenenses de poucas ideias. Tudo isto num ambiente fantástico, com o público a cantar ininterruptamente com a marcha do marcador. E, repita-se, à tarde, como "antigamente". Únicos senãos: os acessos e as bilheteiras do estádio, a precisar de arranjos, e ter perdido o meu velho cachecol do Benfica; como estava com uma camisola do Steaua de Bucareste (azul e vermelha, portanto), ninguém saberia dizer qual dos clubes estava a apoiar. Pequenas misérias à parte, uma óptima tarde de futebol, antecedida de uns pasteis de Belém, e um "Benfica à Benfica". assim vale a pena.

(Imagem tirada daqui)

sexta-feira, setembro 11, 2009

As explicações de Carolina
Eis a explicação que se exigia; Carolina Patrocínio quebrou enfim o silêncio sobre a crucial questão das frutas sem caroço e da tarefa da empregada nesse contexto.E ficamos também a saber que Pedro Granger não precisa que ninguém lhe tire os caroços das cerejas. E também que Carolina é "uma jovem de convicções". Na alta política onde a "mandatária para a juventude" da campanha do PS se move, é essencial saber com quem podemos contar. Falta apenas desvendar se aquela história do "detesto perder, prefiro fazer batota" não é nada daquilo que se ficou a pensar.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Andie McDowell em Vila Real?



Abre hoje a primeira edição do Douro Film Harvest, espalhado em localidades como Vila Real, Lamego, Régua e Torre de Moncorvo. Para já, a pergunta que se impõe é: Andie McDowell irá mesmo à sessão em sua homenagem no Teatro de Vila Real? Só acredito vendo (embora infelizmente eu não possa lá ir). Caso não altere a sua agenda, será um sucesso imenso para o jovem acontecimento. Porque nós merecemos, como diria a própria num dos seus estafados anúncios a cremes hidratantes.

Já agora, Milos Forman também prometeu aparecer em Lamego, noutra sessão. E Kyle Eastwood, filho do grande Clint, irá tocar no Pinhão com a sua banda de jazz.

E depois do Douro Film, chega-nos o Douro Jazz. Não há dúvida, a região está finalmente a desenvolver o seu incrível potencial. Que assim continue. Mais vale tarde do que nunca.
Adenda: Sim, Andie McDowell veio mesmo à cerimónia de Vila Real, com ligeiro atraso e palavras de circunstância ("tenho muito a descobrir em Portugal"). Devo-lhe as minhas desculpas porque duvidei da sua vinda. Endereçá-las-ei pessoalmente na sua próxima estadia no nosso país.
A imobilidade das lideranças

Não ando muito a par da pré-campanha e acompanhei apenas em parte os debates entre os principais candidatos. Do caso "Fim do Jornal Nacional" fiquei com a ideia, tal como a maioria das pessoas, que se tratava de um favor desastrado sem aviso prévio a Sócrates e que o prejudicou mais do que ajudou (embora as lágrimas de Moura Guedes pouco efeito façam no meu coração empedernido).
Constato é outra coisa, óbvia mas inquietante para todos os que falam na "renovação do panorama político": os líderes partidários , com excepção de Manuel Ferreira Leite (que pese o facto de ser mulher, é tudo menos uma imagem de frescura e novidade na política), são os mesmíssimos de há 4 anos. Sócrates é o chefe de Governo que pretende manter-se no poder mesmo sabendo que a maioria absoluta já lá vai; Jerónimo, para a média de tempo que os SGs do PCP ocupam no lugar, até está há pouco tempo; Portas, na ânsia do poder, não soube fazer a travessia do deserto que se impunha e voltou a reger o Caldas; Louçã, esse, camuflado no cargo de "coordenador" do BE, para dar uma ideia de "libertarianismo" e "democracia popular" como se não houvesse hierarquias, é o eterno rosto do Bloco. Depois há quem porque é que cada vez menos os partidos atraem. Fácil de ver, não é?

quarta-feira, setembro 02, 2009

Chegada

Chegada a capital, depois de atravessar os Carpatos. Aldeias ao longo da estrada, com telhados inclinados e portoes de madeira, carrocas por toda a parte, caes pela estrada fora e cidades magnificas e multicolores, no meio de extensos vales rodeados de picos majestosos, eis a impressao com que fiquei da Transilvania. Ainda assim, estafado pelas muitas horas de carro. A ver vamos o que nos reserva a palna Val]aquia.