sexta-feira, abril 30, 2010

O catenaccio, esse grande definidor de resultados (seguido de "tristeza de final da UEFA)

Por muito que se critique o "autocarro" que José Mourinho colocou em frente à baliza em Barcelona, não havia outra maneira de chegar ultrapassar os culés, ainda por cima com um jogador a menos ainda na primeira parte e com uma arbitragem caseira. Só com um sólido muro de betão é que passaria, e conseguiu-o, à custa de muita concentração e alguma sorte. Estimo o feito, porque não simpatizo muito com o clube blaugrana nem com a prodigalidade de elogios que tanto lhe fazem, e ver o Nou Camp sem um pio no final tem bastante graça. E o Inter já não ia a uma destas finais desde os anos setenta, por isso é sempre bom ver emblemas novos. E não esquecer: em Barcelona podem residir o ataque mais poderoso e temeroso e o futebol actualmente mais atraente do planeta (embora o do Benfica se lhe compare), mas o Inter é que inventou o catenaccio, e sabe usá-lo sempre como mais ninguém. Mourinho apenas segue a tradição do clube, conforme atestam os mestres.


Assim, o Barcelona fica a ver a final da Champions na televisão e perde a oportunidade única de erguer a taça em pleno Santiago Bernabéu, casa dos seus rivais e inimigos de sempre. Uma desilusão em terras condais, e um alívio para os merengues.


Em compensação, e para mal do futebol, o Atlético de Madrid, com apenas duas vitórias este ano em competições europeias, vai à final da "Euroliga" com o Fulham. Para trás ficaram o Liverpool e o histórico Hamburgo, que falha também a hipótese de jogar o último jogo em casa, que palco escolhido para o confronto. Atlético de Madrid e Fulham...Que raio de final havia de estar destinada! E pensar que o Benfica podia perfeitamente estar lá. Resta-me desejar boa sorte a Simão Sabrosa.
A greve e a falsa colisão de direitos



O direito à greve é coisa que não me entra na cabeça. Falo em sentido amplo, bem entendido. Que um grupo de pessoas se manifeste por um direito que entende merecer ou contra uma situação presumivelmente injusta é coisa que percebo perfeitamente, mesmo que discorde. O que eu francamente não entendo é o direito à greve tal como está plasmado na actual Constituição. Dá-se mais direitos aos grevistas do que a quem quer trabalhar. E estes últimos podem fazê-lo por uma quantidade de razões, como a de precisar mesmo de trabalhar por atravessar uma situação económica grave, ou não concordar com os motivos da greve. Assim, a permissão constitucional a piquetes de greve é uma aberração completa, que só prejudica quem trabalha. Os "vermelhos" acabam por ter mais direitos que os "amarelos" por razões que deviam ser inversas.


E o mesmo se pode dizer de todos os que são torpedeados pelas greves na função pública. A simples proibição da CRP de não haver alternativas aos transportes públicos é não apenas uma vénia aos senhores que por qualquer razão resolveram parar as suas actividades, mas também uma quebra de compromissos para com os utentes. Um serviço público não é uma agência de empregos nem uma associação sindical: serve para desempenhar determinada tarefa considerada essencial para a fruição da população, para prosseguir uma finalidade considerada necessária, e que exige por isso determinadas atenções. Assim, se aos grevistas é permitido formar piquetes e não se pode assegurar serviços mínimos que permitam que as pessoas se desloquem para os seus locais de trabalho, quando muitas vezes não têm qualquer alternativa, o Estado penaliza quem nada tem que ver com as birras grevistas e ainda tem que aguentar por vezes com penalizações salariais. Por causa de uma pequena classe profissional, como os maquinistas da CP, centenas de milhares de pessoas vêem-se prejudicadas, quando muitas vezes não podem elas próprias "furar" o trabalho. Qual a sua legitimidade, pergunta-se? E já agora porquê a proibição a alternativas? O direito à greve da minoria sobrepõe-se ao direito ao trabalho, à remuneração e ao transporte da maioria? Não sei quais os fundamentos politico-ideológicos de tais preceitos constitucionais que ainda existam, mas bem podiam ser objecto de uma revisão constitucional futura, dada a sobreposição de direitos, que por isso mesmo, nem sequer colidem.

E não esperem os senhores dos sindicatos de transportes públicos qualquer "solidariedade" para com a "sua luta". Quem não respeita os outros não pode pedir qualquer tipo de compreensão.

quarta-feira, abril 28, 2010

Mil


Mil é um número mágico. É sinónimo de grande quantidade, de conta difícil de se fazer. A palavra "milénio" provoca temores e ansiedades - é ver a quantidade de músicas, séries e filmes que a nossa cultura pop produziu na última década, baseada talvez na profecia " de mil passarás, a dois mil não chegarás". É um número difícil de atingir, uma passagem para um estádio superior, uma espécie de dobragem do Cabo das Tormentas.
Este é o post Mil de A Ágora. Mas foram precisos seis anos e tal para isso. É um atestado de experiência, mas também de alguma irregularidade. Tenho por isso algumas dúvidas de chegar aos dois mil posts.

segunda-feira, abril 26, 2010

Antes do título nacional, o europeu

Com a vitória do Braga na Figueira por expressivos 0-4, o título nacional de futebol volta a ser adiado. O Benfica pode conquistá-lo para a semana, no Porto, ou no fim de semana seguinte, frente ao Rio Ave. Entretanto, e para compensar, o Glorioso sagrou-se campeão europeu de futsal, ao vencer o Interviú por 3-2, após prolongamento, no Pavilhão Atlântico. Não sendo o êxtase, tratando-se de futsal, a taça UEFA é ainda assim uma conquista muito agradável e um bom tónico para os próximos dias, no futebol de relva.

sábado, abril 24, 2010

Memórias do futebol trasmontano

A propósito do inédito apuramento do Desportivo de Chaves para a final da Taça de Portugal, Francisco José Viegas recorda tempos idos do clube, quando ainda não jogava na 1ª divisão e os seus adversários eram invariavelmente clubes da mesma região. Também me lembro de ouvir falar de desafios entre o Vila Real e o Desportivo, no velhinho campo do Calvário, um recinto pelado no centro da cidade ainda hoje usado para os escalões de base. Se os jogos não corriam de feição ao "Bila", qualquer condutor que apanhasse a N2, a estrada para Chaves, nem que fosse para ir para a freguesia a seguir, era invariavelmente insultado pelos passantes.


Do Chaves não me recordo dos tempos anteriores à primeira divisão. Lembro-me de alguns históricos, como Paulo Alexandre, Manuel Correia, António Jesus, Karoglan, da trupe de espanhóis, como Toniño e Baston, e dos mais recentesRicardo Chaves João Alves, esse ex-next big thing do futebol português. E das claques "Força Azul-Grenat" e "Frente Flaviense", cujo nome ainda se pode ver graffitado nos viadutos do IP-4. Já não sou do tempo dos épicos confrontos entre equipas nortenhas, e fico mesmo surpreendido ao saber que o Régua usava camisolas em losangos (um padrão que podia fazer moda, ou então influência british dos produtores ingleses de vinho do Porto), mas acho que o fim dos campos de terra, esmagados pelos relvados, é motivo para um requiem.


Hoje, o Chaves está na Honra e em real perigo de voltar à segunda B. O Vila Real vegeta nos distritais, o Régua também, e o Riopele nem equipa tem, actualmente, ainda que a fábrica se mantenha. Raúl Águas, por sinal um bom técnico, já não treina. O que é certo é que nenhuma equipa trasmontana chegou onde o Chaves chegou. E que apesar de todas as antigas rivalidades, todas as pessoas da região, de todos os clubes, se devem regozijar por esta final (e quem sabe, com algo mais). Mesmo em Vila Real.


Imagem de um Chaves-Vila Real, dos anos sessenta. Tirado daqui, onde se pode ver uma descrição mais completa, e um testemunho da rivalidade referida em cima.

terça-feira, abril 20, 2010

Pare, Escute, Olhe




O cinema documental português está de boa saúde e recomenda-se. Depois de Ruínas chegou agora às salas Pare, Escute, Olhe, de Jorge Pelicano, que realizou anteriormente outra-longa metragem, Ainda Há Pastores, entre as serranias e as ovelhas da Serra da Estrela. Mas enquanto Ruínas era estático, este tem uma dinâmica muito própria. O filme, que ganhou o prémio de melhor documentário em longa metragem no DocLisboa de 2009, volta ao interior profundo, desta vez para revelar a morte lenta da Linha do Tua, desde o fecho do troço entre Mirandela e Bragança, em 1990, as atribulações e desesperos da população e as vacuidades do discurso político e das suas promessas.

Faz-se uma cronologia desde os anos oitenta, em que o problema do fecho da linha se colocou, vê-se o habitual ardil das "suspensões nocturnas" sem aviso, ao ponto de se roubar as locomotivas. Passa-se em revista as promessas de desenvolvimento com barragens, os diálogos entre governantes e altos quadros de empresas públicas, discutindo betão, as contradições, a incúria e as tragédias ferroviárias, quando não as havia antes, os estratagemas para se diminuir o número de utentes do comboio, servindo assim de pretexto ao seu encerramento, a submissão dos representantes eleitos que se submetem aos interesses partidários em lugar de defender os locais.
Pelo meio, o testemunho de um rio, de uma paisagem única, a junção de um património humano e natural únicos, ameaçados pela albufeira de uma barragem que não dará nem empregos nem desenvolvimento à região. E vê-se um povo entre o conformismo e a revolta. Nas conversas de café (como no surreal Lucky Luck), nas viagens na automotora, ou nas reuniões com os seus representantes, o trasmontano está lá bem plasmado: rude, directo, frontal, com alguma comicidade à mistura. Personagem transversal ao filme é o Sr. Abílio, antigo funcionário da CP, que goza os dias de velhice à sombra do apeadeiro de Ribeirinha, testemunha do caminho de ferro, do rio e do que se passa pela linha fora, não se fazendo de rogado a dizer o que pensa, por gestos ou palavras.
Também a fotografia e os cenários naturais são magníficos, e há algumas cenas de antologia, como o discurso de Sócrates, falando no "desenvolvimento", quando atrás da sua imagem desfocada e rebaixada se vêm as escavadoras em movimento. contrapondo ao progresso do betão, usa-se mesmo a arma preferida dos seus apologistas: mostra-se o que se passa "lá fora", nos "países civilizados", em que o comboio é usado como meio de transporte e turístico, e faz-se a terrível comparação com o que se passa no Tua. O contraste é coisa para deixar todos os portugueses corados de vergonha.
As minhas expectativas antes de ver Pare, Escute, Olhe eram razoáveis, mas fiquei agradavelmente surpreendido com esta obra melancólica, séria e irónica, tudo ao mesmo tempo. Além de ser um autêntico serviço público e de mostrar mais uma vez a tendência dos portugueses para abandonarem o que é seu em detrimento do que é "novo". Ainda está em exibição. É bom que o apanhem. Mais difícil será apanhar um comboio da linha do Tua. Mas quem sabe...

domingo, abril 18, 2010

O Marechal




Passou há uma semana o centenário do nascimento de António de Spínola, o homem que recebeu o poder das mãos de Caetano a 25 de Abril de 1974. A sua curta carreira de chefe de estado tê-lo-à tornado mais famoso, mas não será só isso que ficará para a história. Spínola foi das últimas figuras românticas de Portugal, na sua figura de militar respeitado pelos mais próximos, de comandante militar idolatrado pelos soldados, suspeito aos olhos das cúpulas do Estado Novo, e visto como um inimigo e um alvo a abater pela deriva esquerdista do PREC. A sua vida daria um livro talvez mais empolgante do que a extensa biografia de Luís Nuno Rodrigues. Entrou ainda muito cedo para o Colégio Militar (de onde tomou a alcunha "Caco"), enveredou pela carreira das armas e chegou a ser observador da frente alemã no cerco de Leninegrado, em 1941, numa equipa de observadores integrada na Divisão Azul espanhola - se não me engano também teve funções semelhantes na Guerra Civil de Espanha. O espírito castrense devia ser algo de genético, já que a sua família paterna, da Madeira, provinha dos Spinolas de Génova, que dominaram aquela república marítima e da qual saíram notáveis vultos militares, como Ambrogio Spinola, general dos Tercios espanhóis que Velazquez imortalizou na Rendição de Breda.

Como se sabe, subiu na hierarquia militar, como oficial de cavalaria, comandou tropas em angola, durante a guerra colonial, e chegou a governador militar da Guiné. O respeito pelos militares e a popularidade que granjeou vêm daí, das suas ideias federalistas e dos seus discursos nas selvas, bem como da publicação de Portugal e o futuro, já em rota de colisão com as posições coloniais do governo de Marcelo Caetano. logo a seguir deu-se a 25 de Abril, a sua breve presidência, à frente da Junta de Salvação Nacional, e o afastamento, em ruptura com a deriva esquerdista do PREC. O que se seguiu, no exílio em Espanha e no Brasil, terá sido porventura a sua menos conseguida e popular fase, quando apoiou e chefiou o MDLP e algumas actividades bombistas, muito embora a sua ideia fosse democratizar o país. Regressou com o fim das convulsões, pela mão de Mário Soares, que o nomeou chanceler das antigas ordens militares portuguesas, adquirindo uma espécie da aura de figura tutelar, embora decorativa, do regime - recebeu por isso mesmo o bastão de Marechal.

Spínola ficará sempre como uma figura controversa, pelo seu papel como mentor do MDLP e da "Maioria Silenciosa", como presidente da Junta de Salvação Nacional e primeiro chefe de estado pós-25 de Abril, pela sua carreira militar e pelas suas ideias de fazer uma Commonwealth à portuguesa. Uns vêem-no como traidor ao Estado novo, outros ao 25 de Abril, outros como um lírico irrealista, outros ainda como um visionário e uma carismático líder. Com o passar dos anos, essas discussões tendem a esbater-se, e a figura de Spínola institucionalizou-se, tendo sido inaugurada, no dia em que faria cem anos, uma avenida em Lisboa com o seu nome (muito embora fosse mais um pretexto do centenário, porque a artéria já existia com esse nome há seis anos).

Da minha parte, e embora as suas actividades à altura do PREC fossem mais que discutíveis, tenho pena que as suas ideias para as colónias não fossem experimentadas, ou ao menos discutidas. Mas quando olho para a sua inconfundível figura não posso deixar de pensar que o posto/título de Marechal dificilmente seria melhor atribuído. Acima de tudo, e embora só nos anos oitenta tenha recebido a distinção (pela antiga condição de chefe de estado), Spínola, com o seu monóculo, o pingalim, o sobretudo militar e as luvas na mão, que tanto recordava os oficiais alemães da 1ª Guerra, era, efectivamente, O Marechal.
 

quarta-feira, abril 14, 2010

Os "termos errados" de Bava




O video já andava por aí há uns dias, mas não quis deixar também de mostrar a "portugalização dos conteúdos" de Zeinal Bava, o presidente executivo da Portugal Telecom, que está preocupado apenas com um termo errado. Se a aposta na portugalidade se exprime em semelhantes e constantes anglicismos, mais valia convidar Gordon Brown para presidir ao Instituto Camões, até porque ele arrisca-se a ficar desempregado brevemente.

segunda-feira, abril 12, 2010

Uma nação trágica

O desastre aéreo que vitimou Lev Kaczynski, a sua mulher, o estado-maior polaco, o presidente do Banco da Polónia e inúmeras figuras de relevo, entre as 98 que pereceram, é mais uma das muitas tragédias que ensombram aquele país. Desaparecida por várias vezes, retalhada pelos vizinhos, local de campos de extermínio e pogroms, planície esmagada pela invasão nazi e a contra-invasão soviética, a Polónia sempre sofreu os maiores horrores a que a humanidade se dedicou. A comitiva polaca ia homenagear as vítimas de Katyn, setenta anos após essa outra desgraça polaca, em que os soviéticos assassinaram a tiro mais de vinte mil oficiais e civis polacos. Um erro humano, alguma inadvertência e as condições climatéricas consumaram o desastre. Assim desapareceu boa parte da elite da Polónia, muito perto do local onde iam homenagear esses outras membros de outra elite, de outro tempo. Como disse o ex-presidente Knaswievski, Katyn e a sua envolvente são malditos para os polacos.


Não era admirador de Kaczynski, da sua política de caça às bruxas (em conjunto com o seu gêmeo Jaroslav), que persrguiu gente tão insuspeita como Bonislw Geremek, ele próprio desaparecido recentemente num desastre de viação, e até Walesa, e do seu eurocepticismo, olhando sempre para a Europa (sobretudo a Alemanha) e a Rússia como inimigos, embora a história a isso aconselhasse. Mas um fim assim, em tais circunstâncias e naquele lugar, não deixa de chocar pela coincidência. Como é óbvio, já surgiram as teorias de conspiração apontando para a Rússia. Não creio que os russos estivessem minimamente envolvidos nisto. Mas o contexto e os envolvidos ajudam. Os caçadores de teorias conspirativas devem esfregar as mãos de contentes. E a Polónia soma mais uma tragédia à sua história, da qual, mais do que qualquer outro país, sobejam tragédias humanas.

domingo, abril 11, 2010

A ressaca de Liverpool


No percurso brilhante do Benfica esta época, a derrota em Liverpool acabou por ser atípica. Há meio ano que o SLB não perdia um jogo, em prova alguma. E mesmo assim, a dez minutos do fim estava a um golo de se classificar. A disposição dos defesas, em que apenas Luisão estava no seu lugar, a deficiente condição física de alguns jogadores, um guarda-redes inexperiente contribuíram para o resultado. Depois, um Liverpool com absoluta necessidade de ganhar e um Fernando Torres com espaço fizeram o resto. O segundo e terceiro golo são excelentes e rapidíssimas jogadas de contra-ataque, com trabalho estudado de equipa e passes de primeira. O Benfica, que até tinha começado bem, teve uma ou outra oportunidade desperdiçada e marcou com um livre directo superiormente executado por Cardozo. Depois veio o tal lance em que Júlio César sofreu um traumatismo craniano, e um Moreira ainda frio apanhou com o golpe final do espanhol do costume. Acabou aí o jogo e a eliminatória. O Benfica sofria um desaire justo mas demasiado pesado para o que se passou em campo. Arriscou e pagou por isso.



Claro que não é por essa razão que a boa carreira europeia, que teve o auge na vitória em Marselha, será esquecida. É pena, mas não mais do que isso, embora o número seja desagradável. É bom não esquecer que só à quarta tentativa é que Rafa Benitez conseguiu não perder com o Benfica. O confronto recordou algumas páginas dos anos oitenta, em que o clube da cidade dos Beatles era então a equipa mais forte da Europa, e se defrontou com o Benfica por várias vezes, sempre levando a melhor. Mas apesar da superioridade dos ingleses, nem por isso a equipa portuguesa ficou desprestigiada ou esquecida, como testemunhou há dias o mítico Ian Rush, fenomenal avançado e símbolo do Liverpool daqueles tempos. Há quatro anos, os Reds eram campeões europeus, mas dois golos fabulosos de Simão Sabrosa e Micolli fizeram estrondo perante o público da Kop. Agora, aconteceu o inverso da medalha. A prioridade era o campeonato, como Jorge Jesus se fartou de dizer, mas é sempre pena perder assim.


Fica o amargo de boca, a convicção de uma boa campanha europeia, e a confirmação de que Saviola faz mesmo imensa falta. Facto curioso: Cardozo, com dez golos, ainda pode acabar como o melhor marcador da Euroliga deste ano.

sexta-feira, abril 09, 2010

Ruínas




Há nas salas de cinema um ou outro filme que vale a pena ver. Mas o que diz mais à nossa memória colectiva é sem dúvida Ruínas, de Manuel Mozos, vencedor do último festival Doc Lisboa 8infelizmente só em exibição no cinema King, em Lisboa, e no Teatro do Campo Alegre, no Porto). Talvez ganhasse alguma coisa se identificasse os lugares por onde passa, mas mesmo assim é precioso. Do Cemitério do Prado do Repouso até ao enorme sanatório das Penhas da Saúde, passando por estalagens abandonadas, pelo Douro e pelo restaurante panorâmico do alto de Monsanto, são os restos, outrora prestigiados, de um país que abandona as suas memórias e o seu património e troca o velho, ainda que mais interessante, pelo novo. Uma fatalidade que desde sempre percorreu este país, na sua ânsia de querer parecer moderno e igual ao que vinha "lá de fora". É o Portugal esquecido e ultrapassado, mas com traços físicos que fica para trás, ultrapassado por novos elementos passageiros, que se transformarão um dia, também eles, em ruínas.

domingo, abril 04, 2010

Páscoa

"E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas. E acharam a pedra revolvida do sepulcro. E, entrando não acharam o corpo do Senhor Jesus. E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes. E, estando elas muito atemorizadas, e abaixando o rosto para o chão, eles lhes disseram: Porque buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite. E lembraram-se das suas palavras.

E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais."
Mateus 24, 1 a 9.

sexta-feira, abril 02, 2010

Novo rumo laranja
As eleições para a liderança do PSD foram há já uma semana. Como não trouxeram novidades substanciais, nem sequer referi o assunto, mas não resisto a deixar umas notas.
A vitória de Pedro Passos Coelho sentia-se à légua, mesmo que a sua dimensão possa espantar. Quem tem as "bases" como ele tinha não precisa de temer grandes percalços. Quando as principais distritais, zonas de forte implantação laranja, como Viseu, Leiria ou Vila Real, e régulos partidários como Fernando Ruas ou Marco António apoiam o mesmo candidato, é certo e sabido que será este o vencedor. Mesmo que a Madeira fique de fora. Aliás, as reprimendas de Passos Coelho a Jardim deram-lhe ainda mais apoio, enquanto que algumas atitudes de Paulo Rangel, a começar na facadinha a Aguiar Branco, não caíram bem no partido, tivesse ele o "baronato" que tivesse.
Impressionou-me apenas a baixíssima percentagem de votos de José Pedro Aguiar Branco. Os apoios de Rui Rio e Agostinho Branquinho não foram suficientes para descolar de uma votação residual. Poucos viam nele um líder carismático necessário para levar o partido ao poder. Quanto a Castanheira Barros, a sua candidatura não era para levar a sério.
Fico na dúvida se Rangel saiu reforçado, com aura de alternativa ou "futuro líder", ou se pelo contrário, não acabou chamuscado, desperdiçando o capital que ganhara com a vitória nas Europeias. Pode ser que tenha ganho pelo menos notoriedade, e a sua candidatura seja uma base para voos futuros. Mas antes de mais deve permanecer em Estrasburgo, crescer como político, corrigir erros e ganhar experiência. Não será de todo negativo para ele alguns anos na sombra. Rangel precisa de aprender a conter-se e a conter os seus discursos. Será um bom político se conservar as suas ideias e o deslumbramento inicial lhe passar.
E como será o PSD passoscoelhista? Não creio que o novo rumo liberal fosse a razão de tantos apoios internos. Dificilmente se pode ver o liberalismo, mesmo o de costumes, como uma ideologia popular em Portugal. Poderá refrescar o partido e levar-lhe novas caras, mas como alternativa de governo levanta algum cepticismo. Até porque se arrisca a confundir-se com o actual PS, e Passos Coelho com um Sócrates mais simpático. Como é óbvio, as ideias liberais irão esbater-se, quando a necessidade de ganhar votos vier ao de cima (lembram-se do choque fiscal de Durão Barroso?).
Gostava também de saber o que pensa Paulo Portas disso. À parte o caso dos submarinos, o líder do CDS-PP deve achar este rumo do PSD muito interessante. Dizia um jornal há meses que Portas estava à espera da vitória interna de Passos Coelho para "partir a espinha ao PSD". Exageros à parte, poderá ver uma oportunidade de roubar votos à direita, ao eleitorado mais conservador e desconfiado da liderança laranja. Não creio que os populares se tornem no maior partido de direita. Mas se o PSD roubar suficientes votos ao PS para o suplantar, precisará mais uma vez do CDS-PP para formar governo. E desta vez o partido de Portas terá mais peso do que no tempo de Barroso.

quarta-feira, março 31, 2010

O miserável caso Hulk

Fico espantado ao ver a indignação da redução da pena de Hulk de 3 meses para 3 jogos. Não pelas lacunas jurídicas que deram origem a toda esta confusão, mas sim pela martirizarão que quase fazem do jogador, e pelas culpas inteiramente atribuídas ao conselho Desportivo da Liga.

Ao contrário do que tem sido voz corrente, Ricardo Costa parece-me das poucas pessoas ligadas ao futebol que realmente pretende fazer um trabalho com isenção e cumprimento das regras. Caiu obviamente nalgum protagonismo de TV, mas tirando isso pouco lhe pode ser assacado.
O episódio Hulk é a prova disso mesmo. Perante uma lacuna normativa quanto ao estatuto dos stewards, o Conselho Disciplinar da Liga, por si presidido, usou as ferramentas jurídicas básicas para a colmatar, através do recurso à analogia. E em casos semelhantes, a decisão fora sempre a de considerar que o atingido era um interveniente ao jogo. Podia-se certamente ficar com dúvidas quanto às funções desempenhadas por estes elementos; o que não se poderia fazer nunca seria considerá-los como "público", ou seja, como sujeitos pagantes para ver o espectáculo. O CJ da Federação teve essa brilhante ideia, num acórdão em que confessou que "tinha dúvidas quanto a essa classificação" e em que considerou que "o CD da Liga teve legitimidade na decisão que tomou". Uma decisão atabalhoada e contrária a outras em casos análogos, o que provocou a demissão abrupta de Hermínio Loureiro da Presidência da Liga de Clubes.


Claro que estas incoerências não interessam aos defensores do jogador, a começar pelos responsáveis portistas, que depois de considerarem que ele se tinha defendido "como qualquer pai de família", resolveram pedir a módica quantia de 17,5 milhões de Euros pela decisão da Liga. não percebo o fundamento, já que a própria FPF reitera a legitimidade da liga na sua decisão; haveria ainda umas quantas razões para considerar tal pedido um absurdo (como o de que Hulk não resolve todos os jogos só por si, longe disso, e que jogou nos 5-0 que o FCP sofreu em Londres), mas a maior de todas, a par da legitimidade da Liga, é esta: Hulk esteve suspenso desde o jogo em que andou a distribuir murros até à decisão final da punição porque no ano passado a Liga aprovou, em Assembleia Geral, a regra da suspensão provisória até à decisão por proposta do...FCPorto. Se se tratam dos mesmos responsáveis que agora querem aquela brutalidade, estamos conversados quanto ao seu valor.


Quer a maralha futeboleira, e em particular a que vê em Pinto da Costa um semi-Deus infalível, nada queria saber disso e ache muito bem um jogador da suas cores andar ao murro é coisa que não surpreende. O mesmo não se deveria dizer de outros que têm mais conhecimento da matéria. E no fim, como se adivinha, queima-se quem tem qualidade técnica e poderia mudar alguma coisa no seio do futebol, como Ricardo Costa, cujas ilusões iniciais de trazer ar fresco se terão certamente esfumado, e mantêm-se os palradores e incendiários de sempre, neste dirigismo miserável.

segunda-feira, março 29, 2010

Herculano
É inevitável, mas tenho de me repetir sobre a utilidade dos blogues, desta vez quanto à recordação da nossa memória colectiva, sobre personalidades da nossa História, das artes e letras, que as nossas entidades oficiais não se dignam a homenagear, tão ocupados que andam com os cem anos da república, essa enorme prioridade da vida portuguesa.


Há duzentos anos, nascia o soldado, poeta, romancista, historiador, investigador, agricultor e eremita Alexandre Herculano.
PS: a propósito dos comentários a este post, ficam aqui umas curiosidades sobre Herculano. Segundo os dados que juntei, deslocou-se a Lisboa não para ver D. Pedro II, mas para um mero negócio de azeite; esteve lá acamado, e recebeu tantos amigos que disse a sua famosa frase "isto dá vontade de morrer", não como azedume (uma versão criada por Bulhão Pato), mas como manifestação de alegria e apreço por poder ver tantos amigos à sua volta. - circunstância que até faria com que nem se importasse de morrer. Na realidade, o Imperador do Brasil é que o visitou em Vale de lobos, a crer em Eça n´"As Farpas" ("Uma Campanha Alegre"), que descreve a visita com a ironia do costume:
"Sua Majestade Imperial visitou o Sr. Alexandre Herculano. O facto em si é inteiramente incontestável. Todos sobre ele estão acordes, e a História tranquila.
No que, porém, as opiniões radicalmente divergem - é acerca do lugar em que se realizou a visita do Imperador brasileiro ao historiador português.
O Diário de Notícias diz que o Imperador foi à mansão do Sr. Herculano.
O Diário Popular, ao contrário, afirma que o Imperador foi ao retiro do homem eminente que...
O Sr. Silva Túlio, porém, declara que o Imperador foi ao Tugúrio de Herculano; (ainda que linhas depois se contradiz, confessando que o Imperador esteve realmente na Tebaida do ilustre historiador que...)
Uma correspondência para um jornal do Porto afiança que o Imperador foi ao aprisco do grande, etc.
Outra vem todavia que sustenta que o Imperador foi ao abrigo desse que...
Alguns jornais de Lisboa, por seu turno, ensinam que Sua Majestade foi ao albergue daquele que...
Outros, contudo, sustentam que Sua Majestade foi à solidão do eminente vulto que...
E um último mantém que o imperante foi ao exílio do venerando cidadão que...
Ora, no meio disto, uma coisa terrível se nos afigura: é que Sua Majestade se esqueceu de ir simplesmente a casa do Sr. Alexandre Herculano!"

sábado, março 27, 2010

Uma enorme bandeira


Já tinha olhado várias vezes para o mastro do alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa, e pensado que ficaria imponente com a bandeira azul e branca hasteada, em vez de vazio ou com a verde-rubra colocada. Os elementos da Carbonara - Movimento Monárquico de Massas (o nome são dois trocadilhos deliciosamente irónicos e muito bem achados) tornou real esse meu pequeno sonho, e Lisboa acordou com a velha bandeira a dominá-la. Prontamente a tiraram, mas as imagens não mentem. Só tenho pena de não ter visto ao vivo, mas já não me posso queixar. Resta-me desejar que outras destas acções irreverentes e bem humoradas se repitam, por muito que os defensores dos demagogos e terroristas de 1919 insistam em classificar os seus autores de "meninos-bem". E a avaliar pela mensagem, não vão mesmo parar por aqui.
"Até 5 de Outubro, nenhum mastro, poste ou varanda estará seguro".



A crise tailandesa explicada ao pormenor
Na recente crise tailandesa, em que os apoiantes do "partido vermelho" desceram a Bangecoque, apenas ouvimos da maior parte dos órgãos de comunicação social nacionais algumas passagens apressadas e situações mal explicadas, como a dos litros de sangue lançados pelos "vermelhos" contra a sede do governo. Uma vez mais, o Miguel Castelo Branco, na Tailândia há mais de dois anos, deixou no seu precioso Combustões um extenso e elaborado testemunho da situação, para que a pudéssemos compreender com outra precisão. Mais uma exemplo cabal de que os blogues (e as redes sociais) se substituem com eficácia aos meios tradicionais quando estes não fazem o seu trabalho de campo. É por isso que recorrem cada vez mais a estes métodos, em tempo quase real ou com o maior número de informação e de ilustrações disponível.

terça-feira, março 23, 2010

O primeiro troféu da era Jorge Jesus


A Taça da Liga conquistada ontem pelo Benfica pode não ter grande importância por si mesma, mas representa a primeira conquista oficial do Benfica de Jorge Jesus e a confirmação de que esta equipa respira confiança, joga quase de olhos fechados e pode até alterar algumas peças que nada de substancial muda. Sem fazer um jogo de encher o olho, os jogadores vulgarizaram o adversário, trocaram a bola nas calmas, sem nunca se enervarem nem responderem às provocações alheias, e ainda se divertiram com um monumental peru do infeliz guardião do outro lado. Uma conquista justa, pela vitória final e pelo próprio percurso, que como se sabe, incluiu uma goleada em Alvalade, por gordos 1-4 (a que eu tive oportunidade de assistir in loco, ainda que no meio de um desesperado mar verde).


Ficou ainda plasmado o imenso contraste entre os vencedores e a equipa adversária, que ainda há pouco fazia discursos identitários inflamados mas que na hora da verdade se revelou um conjunto de caceteiros comandados por um delinquente, mais parecido com o zombie de Michael Jackson no Thriller, sempre com a permissividade de um árbitro já suspeito, ao passo que os simiescos adeptos (?) se entretinham a atrasar o jogo lançando cadeiras para o relvado.


Uma diferença que há pouco tempo não se imaginaria, mas que neste momento tem um significado muito grande. Tal e qual a Taça da Liga. Mas ainda falta muito para a época acabar.

segunda-feira, março 22, 2010

LX-90, uma carreira breve

 
Depois dos Heróis do Mar, Rui Pregal da Cunha e Paulo Pedro Gonçalves formaram em 1990 os LX-90, com uma música mais rock e blues, mais guitarras e menos teclados, e também menos comprometida com os anos oitenta do que a banda criada por Pedro Ayres de Magalhães que os lançou para a fama. Lançaram em 1992 o álbum Uma Revolução por Minuto, única edição da sua carreira antes de partirem em 1993 para Londres, onde se tornariam nos Kick Out of The Jams.

Ficaram como exemplo do seu breve percurso alguns singles, como este Road to Redemption, um "street movie genuíno proporcionado por uma cidade generosa", onde "da Estrela à Mouraria um grupo de lisboetas canta em inglês".

domingo, março 21, 2010

Porto Antigo
Nova entrada para a coluna das ligações. Em destaque, o Porto Antigo, um blogue que infelizmente só conheci agora mas que merece absolutamente ser divulgado, e que mostra as memórias e as histórias que fizeram o Porto. Entre muitas curiosidades, fiquei a saber que atrás do Museu Soares dos Reis há um antigo velódromo, e que houve um circuito de carros em Lordelo.