quarta-feira, dezembro 16, 2009

Ágora, o filme


Passemos a um assunto que tem alguma coisa a ver com o post anterior, embora em diferentes dimensões. Fiquei curioso quando vi o trailer do filme Ágora. Primeiro, porque sendo homónimo a esta pequena tribuna, lhe poderia dar alguma publicidade (eis a minha faceta blogo-capitalista e protestante a exprimir-se); depois, por causa da época, do local, da estética, do grafismo, e pelo facto de ser protagonizado por Rachel Weiz.

 
Ágora passa-se no Séc. V D.C., em Alexandria, a metrópole egípcia fundado pelo Macedónio que lhe deu o nome, uma cidade marcada pelo cosmopolitismo, pela ciência, pela busca do conhecimento, corporizadas pela sua magnífica e desventurada biblioteca e até pela luz emanada do seu farol, uma das Maravilhas da Antiguidade - infelizmente a primeira é (ainda?) um pobre sucedâneo das originais, ao passo que o que resta do farol jaz nas águas circundantes, destruído por terramotos.

A personagem principal, Hepatia, uma mulher "emancipada", e filósofa helénica que gera paixões intensas, faz uma busca incansável atrás do conhecimento científico, gerando ódios e inimizades da maioria cristã, que domina agora o Império Romano e que acaba por vitimá-la. Alejandro Amenabar baseou-se neste acontecimento histórico para metaforizar a luta entre a ciência e a religião, ou se formos mais secos, entre o "obscurantismo" e as "luzes". Alguns críticos chamaram a atenção para esta inversão dos clássicos da Antiguidade, em que por norma os cristãos eram as "vitimazinhas"das perseguições. O realizador espanhol afirma que não quis fazer um filme anti-cristão. Ora eu até acho salutar que se mostre o fim da Antiguidade, a decadência do império do Ocidente, e a ascensão do cristianismo como religião dominante, com a supressão de muitos símbolos pagãos, por vezes de forma violenta e brutal. Fica-se a conhecer uma época e um local específico. De Hepátia só tinha ideia de uma personagem de Corto Maltese, uma alquimista veneziana, seguramente baseada na pedagoga do filme. Para mais, Alexandria é sempre uma cidade sedutora, quase tanto como a actriz que protagoniza a fita.

Só que também me deixa algum desconforto. Passa-se o tempo a ouvir dizer que a igreja ou mesmo o cristianismo são contrários à ciência, obscurantistas, "promovem a ignorância", etc. Normalmente tais considerações são um abuso próprio de quem se socorre de lugares-comuns e não faz ideia do que diz, revelando a ignorância que quer atribuir a outros. Se por vezes as igrejas travaram o avanço da ciência, não apenas por intolerância mas também por razões políticas, o conhecimento avançou também por causa delas. Os ensinamentos da Antiguidade resistiram à queda do Império do Ocidente nos mosteiros e demais comunidades monásticas.

 
Temo por isso que Ágora reforce ainda mais essa ideia tantas vezes falsa, e que religião e ciência são coisas antagónicas e incompatíveis. E os cristãos do Médio Oriente já não têm vida fácil, menos ainda se ficarem conotados com fanáticos. Ao menos sempre se fica a saber que o cristianismo no Egipto é já muito antigo, e que precedeu o Islão, apesar de ser hoje minoritário.

Fico a aguardar por um filme em que se mostre que os cristãos forma não só perseguidos pelos romanos, mas por outros povos e outras causas, incluindo aqueles que se reclamavam seguidores da ciência. Houve A Missão e pouco mais. Esperemos por Silence, o anunciado filme de Scorcese sobre os jesuítas no Japão e suas atribulações.


E desde já agradeço a Amenabar a publicidade eventual que o filme trouxer a este blogue.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Uma boa surpresa



D. Manuel Clemente ganhou o Prémio Pessoa 2009, atribuído pelo jornal Expresso. Uma boa surpresa, mas inteiramente merecida, por uma figura que há anos, discretamente, tem realizado um notável trabalho como teólogo e historiador, nomeadamente nas relações entre a Igreja e a sociedade. Ultimamente ganhou notoriedade como Bispo do Porto, tornou-se uma voz difundidas na sociedade (até em questões polémicas, como a ideia do referendo ao casamento homossexual) e é presença assídua em debates e discussões sobre temas tão diversos como religião, ciência, os problemas sociais do Grande Porto, etc. Uma óptima escolha para o próprio, evidentemente, mas também para o Porto, o país e a igreja portuguesa; é que talvez assim se compreenda finalmente a contribuição ética, social e cultural que esta tem dado a Portugal, e que tantas vezes é vilipendidada ou subvalorizada.
PS: ao que parece, ainda nem todos perceberam isso, e continuam a lançar postzinhos em forma de punhais, com o dissimulado mas perceptível pensamento de "como é que vão dar um prémio a um tipo da ICAR"?

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Primórdios de uma carreira
Um popularíssimo e divertido anúncio televisivo da Levis, aí de meados dos anos noventa, que deu a conhecer ao mundo a modelo portuguesa Ana Cristina Oliveira, a mesma que logo no início de Miami Vice, versão filme, dizia em boa voz a Colin Farrell de onde vinha. É sempre bom recordar.


quinta-feira, dezembro 03, 2009

Os minaretes helvéticos

O que pensar dos resultados do referendo na Suíça que proibiu a construção de minaretes? Por um lado, o meu temor do avanço do Islão e dos seus tenebrosos seguidores, aqueles que empunham bandeiras verdes e bramam "Allah Akbar" nas ruas das cidades europeias perante a passividade policial, regozija-se por ver enfim um sinal de Stop a uma cultura expansionista e agressiva.

Por outro lado, o necessário sentido de respeito pelas crenças dos outros e pela liberdade individual e de culto, e a minha própria consciência de cristão fazem-me recusar uma medida tão populista e exclusiva, que é além do mais um péssimo precedente. A questão aqui é civilizacional, já o sabemos, mas também me parece improvável que haja grandes clivagens culturais quando a comunidade muçulmana da Suíça é constituída por bósnios e turcos.
É também um bom exemplo de como a democracia directa, se levada ao extremo, como os suíços o fazem com consultas populares por tudo e por nada, pode levar a resultados duvidosos.

Fico apenas com uma certeza, definitivamente confirmada: os helvéticos são um povo estranho.

terça-feira, dezembro 01, 2009

1 de Dezembro




Que estes festejos se realizem uma vez mais, como todos os anos, em Elvas. E que continuem a festejar e a tocar o Hino da Restauração, pelos tempos fora.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Pró-governo por inerência


Entre os vários jornalistas ou responsáveis de órgãos de comunicação social visados por uma linha editorial subserviente do governo conta-se João Marcelino. O actual director do Diário de Notícias conta na sua experiência com passagens pela chefia dos jornais Record e Correio da Manhã e pela revista Sábado, sendo que os dois primeiros constituem duvidosos elementos num currículo aceitável. É justamente considerado um "homem de direita", como se pôde avaliar por numerosas opiniões na Sábado, e neste caso, talvez o mais saliente membro do que já se chama a "direita socrática", i.e., aqueles que sendo politicamente mais destros não cessam de elogiar ou de desculpar as políticas do Primeiro-Ministro.
 

Convém no entanto ressalvar um ponto: Marcelino é "socratista" por inerência, não por convicção. Sendo director do DN, não poderia ser outra coisa. Não há publicação mais afecta à "situação" do que o velho diário da Avenida da Liberdade. Foi constitucionalista-liberal até 1910, republicano jacobino até 1926, estado-novista até 1974 (reporta-se a esse perído a construção de raiz da sua sede, na avenida supracitada), esquerdista e comunista durante o PREC, como ficou bem à vista pelas acções de Saramago, e finalmente opinador favorável aos governos da ocasião. Basta lembrar, em tempos recentes, o apoio incondicional à invasão do Iraque em tempos de Durão Barroso, e à defesa quase confessa de Santana Lopes nos meses em que este governou, até na história da mudança de directores. Agora limita-se a confirmar o que se espera dele: que seja o mais ardente defensor do executivo em funções e o defenda até à medula. Num país em que raramente a comunicação social assume as suas preferências políticas, é bom saber que há uma veneranda publicação com a qual se pode contar sempre, adivinhando à partida a sua posição.

domingo, novembro 29, 2009

Cépticos às vezes, crédulos quando convém


A polémica estalou com o "Climategate", há já uns dias. Um pirata informático entrou nos ficheiros da Unidade de Estudos Climáticos da Universidade de East Anglia, em Norwich, Reino Unido, cujos cientistas influenciaram o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, e divulgou boa parte dos mails e documentos que lá constariam, que punham em causa a teoria (maioritariamente adoptada) da responsabilidade humana no Aquecimento Global e de afastamento deliberado de cientistas ou de estudos que a contrariam. A coisa foi espalhada por blogues cépticos ou anti-ambientalistas e correu mundo. Agora, ouvem-se expressões como "descobriu-se a fraude do aquecimento global", "o prego que faltava na mentira ambientalista", ou "provou-se que é uma fraude para os comunistas destruírem a economia mundial".



É certo que estas coisas merecem alguma reflexão e que todas as teorias devem ser estudadas. São questões cuja magnitude deveria afastar radicalismos e promover o debate sério. Já fui bastante mais adepto da teoria antopogénica do Aquecimento Global e da campanha de Al Gore. Todavia, pelo que leio, continua a ser a mais satisfatória. E se os cépticos (ou radicais anti-ambiente) falam em "fraudes", como é que acreditam logo nisto? sabe-se que o hacker que roubou os ficheiros é russo, ou seja, proveniente de um país que baseia em grande parte a sua economia e a sua força no petróleo ; o site ou blogue onde foram divulgados desapareceu depois de confirmar que as tinha divulgado, pelo que se torna mais complicado saber quem foram os autores. Os cientistas vítimas do "furto" já vieram dizer que as mensagens divulgadas estão descontextualizadas e portanto mentem. E os que exultam com a acção falam na "derrota dos que querem impor a Nova Ordem Mundial". Ora eu sou da opinião que as teorias de "novas ordens mundiais" são bem mais falíveis que as do Aquecimento Global por culpa do homem. Além disso, este caso é tudo menos inocente quando é tornado público em vésperas da Cimeira de Copenhaga. Muito conveniente, sobretudo se não há maneira de encontrar os alegres génios a pirataria informática russa.


O paradoxo do caso é que aqueles que se dizem cépticos tornaram-se subitamente crédulos de fontes tão obscuras e suspeitas, aceitando mesmo a pirataria. Além de que se há interessados na teoria da culpa humana, não os há menos do lado dos que querem afastar esta teoria a toda a força. Ou tudo isto parecer-lhes-á completamente inocente?

sexta-feira, novembro 27, 2009

Polémicos ou aberrantes


Também no Delito de Opinião, aconselha-se a série "Arquitectura: os mal-amados", de João Carvalho, que nos mostra um conjunto de obras arquitectónicas polémicas ou de que quanse ninguém gosta. Da Casa da Música ao Palácio da Cultura de Varsóvia, passando por edifícios megalómanos que não funcionam na Coreia da Norte (um bom símbolo do país), há de tudo.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Ligações interessantes



No Delito de Opinião, a tomar em devida conta a série "Por estes rios acima", de Pedro Correia., para rever ou travar conhecimento com os cursos de água que nos atravessam. Uma viagem por Portugal através de algumas das suas maiores belezas naturais.

Os cartazes turísticos promovidos pelo SNI, no Blogue da Rua Onze. Pena que as artes gráficas não sejam hoje tão usadas para atrair visitantes.
Do pára-quedismo ao estádio
Já que se falou de guarda-redes alemães, o I de hoje tem uma soberba história sobre um agricultor de Bremen, que combatendo pelas forças alemãs na 2ª Guerra como pára-quedista, passou de prisioneiro dos ingleses a indiscutível guarda-redes do Manchester City, hoje na posse de uns árabes. Chama-se Bert (Berndt) Trautmann, ganhou o prémio de jogador do campeonato inglês do ano em 1956 e invoca os tempos do semi-profissionalismo no desporto.

terça-feira, novembro 17, 2009

Os alemães e a National Mannschaft


O funeral de Robert Enke deu-se há dias, com um velório em pleno estádio do Hannôver 96, uma sentida homenagem presenciada por dezenas de milhares de pessoas. Segundo li, tratou-se do funeral com maior assistência desde o de Konrad Adenauer, em 1967. Só esta revelação é assombrosa. Adenauer era o refundador da Alemanha, o homem que lhe devolveu o orgulho, a dignidade, e que a colocou de novo na cena internacional. Para além disso, foi um dos "pais" da CEE e um dos pacificadores da Europa.

Como se percebe então esta onda fúnebre à volta do malogrado ex-guarda-redes do Benfica? Primeiro, por causa das brutais circunstâncias da sua morte. Depois, porque um homem popular, novo, com mulher e uma filha recentemente adoptada, e que estava a ser bem sucedido profissionalmente, não conseguiu ultrapassar os seus problemas psiquiátricos. O facto de ser um futebolista bastante conhecido (precisamente o tipo de pessoas que ninguém imagina a cometer suicídio) também contribuiu para a onda de choque.



Sem estar muito a par do assunto, julgo que terá igualmente a ver com a importância que a Selecção Alemã tem para os teutões e para o seu amor-próprio. As suas façanhas estão desde o pós-guerra ligados directamente ao próprio percurso da Alemanha (leia-se sobretudo RFA). Não quer dizer que os altos e baixos correspondam sempre à sensibilidade do país, senão o 3-0 que os suplentes da nossa Selecção lhes aplicaram no Euro-2000 seriam um péssimo sinal para eles (muito embora os peritos em simbologia sempre pudessem ver naquela esclerosada equipa um vestígio do envelhecimento dos alemães).


Em 1954, uma laboriosa equipa alemã venceu na final do Mundial de futebol desse ano, na Suíça, os "invencíveis magiares", a super-favorita Hungria comandada por Ferenk Puskas e que até esse jogo tinha atropelado tudo o que tinha encontrado pela frente, RFA incluída. A dimensão épica desse triunfo, que ficou conhecido como "O Milagre de Berna", e que deu até origem a um filme, devolveu muito do orgulho e moral a um país destruído, e contribuiu simbolicamente e em boa parte para a ascensão económica e política na Europa dos anos cinquenta, mostrando que os alemães se podiam erguer das cinzas e alcançar os maiores feitos.

Em 1974, a Alemanha voltou a ser campeã, em casa. Pouco antes tinha havido o caso Günter Guillaume, assessor de Willy Brandt que se descobriu ser um espião da RDA. O escândalo levou à demissão do Chanceler, abalou a sua Ostpolitik e criou certa euforia na RDA. A vitória nos relvados alemães, sob o comando de Franz Beckenbauer, atenuou esse mau-estar político.


Em 1990, o ano da Reunificação, a Alemanha voltou a consagrar-se como campeã do Mundo, em Itália. Estava-se a poucos meses de 3 de Outubro, a data em que dois países voltaram a ser um só. Nessa altura, as duas selecções ainda não estavam unidas, e a da RDA (que nunca se aproximou do sucesso da sua vizinha ocidental, nem de outros países do Pacto de Varsóvia) dava os últimos passos. Mas como já se sabia de antemão o que ia acontecer dentro de meses, pode-se considerar este triunfo como sendo já de toda a Alemanha. Uma taça que coroou desportivamente a Reunificação e que acidentalmente se tornou um símbolo do novo país, espalhando a euforia naquele Verão de 1990.


Ou seja, em momentos decisivos dos últimos 50 anos, a Mannschaft obteve o máximo título mundial, levando o orgulho a um país que dele precisava. Provavelmente as circunstâncias das épocas também terão dado um novo alento e novas forças às equipas, mostrando assim a força de vontade germânica. A união entre a equipa nacional e os alemães em geral solidificou-se. As provas de carinho e as muitas bandeiras desfraldadas no mundial de 2006, também na pátria de Goethe, foram um sinal disso mesmo. A Selecção é um espelho das conquistas e da ultrapassagem de obstáculos que os alemães tiveram de enfrentar, e de certa maneira são uma fiel representação do país e dos seus sucessos. Daí esse pesar pela morte violenta e chocante de um dos seus jogadores, que pesou mais do que a de muitos estadistas e outras figuras públicas.


Isto é obviamente apenas uma opinião de sociólogo de café, que vale o que vale - provavelmente muito pouco. Mas achei interessante fazer as devidas observações e comparações para perceber a onda fúnebre por Enke, que não teve paralelo, por exemplo, com o que os húngaros sentiram por Miki Fehér. Daria azo a outra reflexão entre os magiares e o seu apreço pela bola, muito em baixo desde os anos sessenta. Mas isso seria outra discussão. Por ora, deixemos os alemães chorar Enke. A sua memória dar-lhes-à força para o próximo Mundial na África do Sul?

The Israel Sketchbook



No festival da BD da Amadora tive também oportunidade de conhecer uma obra tão interessante quanto recente, acabada de lançar. Ricardo Cabral, desenhador de BD, viajou por Israel em 2007, e montando base em Tel Aviv, partiu para o resto do país, percorrendo-o do Mar Morto a Eilat, passando por Jerusalém, o Neguev e Gaza (só ficou mesmo a faltar Haifa). Registou cada cidade ou cenário digno de nota, através de desenhos nos vários moleskines que levou consigo. Os mais impressivos são sem dúvida as do Mar Morto, pela alucinante paisagem de um vale de sal, água e rocha, e de Jerusalém, a Cidade Santa, sobretudo o friso onde se misturam soldados a cavaquear, turistas de mochilas e máquinas fotográficas a tiracolo, vendedores ambulantes árabes e frades de mais do que uma ordem. Todo esse trabalho ficou registado no álbum The Israel Sketchbook, obra de grafismo interessante e realista, num percurso que permite ir conhecendo o país do litoral para o interior, e das cidades para o deserto. Uma boa surpresa. O legado dos mestres da BD portuguesa está assegurado.

sexta-feira, novembro 13, 2009

A beleza dos setenta

Não apanhei susto nenhum, quando a vi, com violetas na mão em New York, I Love You, entre John Hurt e o filho de Indiana Jones, e direi mesmo mais, o tempo muda mas não desfigura (necessariamente). Com perto de setenta anos, Julie Christie é a prova de como uma mulher, mesmo sem grandes peelings, pode continuar a ser bonita. Ao contrário do que dizia Helène de Beauvoir, nem sempre a jeunesse é sinónimo de beauté.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Robert Enke


A notícia da morte de Enke é daquelas coisas que choca, pelas circunstâncias e pelo surpresa. à partida, um jogador de futebol que joga num campeonato de topo e numa das melhores Selecções do mundo e ainda é relativamente novo, tem poucas razões para querer deixar a vida. O mediatismo que acompanha os jogadores de futebol, os de topo, sobretudo, ainda aumentam a estupefacção.


Lembro-me de quando chegou ao Benfica, em 1999, proveniente do Borrusia Monchengladbach, que descera de divisão. Tinha 22 anos (fazia anos no mesmo dia que eu, outra das coisas que retive) e jogava normalmente na selecção alemã de esperanças. Era uma aposta do treinador Jupp Heinkes, uma das antigas glórias do clube alemão, e nessa altura, a da reforma do grande Michel Preud´Homme, estava destinado a ser o guarda-redes suplente de Gustavo Bossio, rotulado de craque. Mas com as fífias do argentino chegou depressa à titularidade, e nos dois anos que se seguiram, quase não a largou. Parecia discreto mas simpático. Aprendeu depressa a falar português ("está tudo bem, só falta vir namorrado", dizia numa entrevista, ainda sem saber distinguir o masculino do feminino), afeiçoou-se ao país e preparou Moreira (na altura júnior) para defender num futuro próximo a baliza benfiquista.


Anos penosos a nível desportivo, diga-se, coincidindo com o fim de mandato de Vale e Azevedo. Uma das coisas em que se repara é que Enke esteve quase sempre bem por onde passou, mas escolheu os seus clubes na altura errada. No Monchengladbach chegou à titularidade no ano em que o clube desceu. No Benfica, era o guarda-redes do fatídico sete-zero em Vigo, no qual terá sido o menos responsável, e nas piores épocas do clube, em que não se conseguiu sequer chegar às competições europeias. Assinou contrato com o Barcelona, em anos tormentosos do clube catalão, que desde Zubizarreta não mais conseguiu assegurar devidamente as suas balizas, e jogou um ou outro jogo para esquecer. emprestado ao Fenerbache de Istambul, no primeiro jogo sofreu uma goleada em casa e viu os adeptos turcos a atirarem-lhe petardos e a partirem-lhe o carro. Atarantado, recusou-se a continuar a conseguiu ser emprestado ao Tenerife, da segunda divisão espanhola. Por fim, o Hannover, mediano clube da Bundesliga, contratou-o, e lá conseguiu finalmente a estabilidade exibicional, tanto que o chamaram para a Selecção.


A vida de Enke mudou com essa permanente impossibilidade de se fixar, e com a morte da filha de dois anos. Ao que parece, terá começado a sofrer grandes depressões, e do medo de ser internado e de lhe tirarem a filha que com a sua mulher tinha adoptado há meses. Andou em tratamentos psiquiátricos, mas nem a possibilidade de ser o próximo titular da baliza da Mannschaft o terá feito melhorar. Pôs termo à vida de forma premeditada, ao que tudo indica, debaixo de um comboio na linha de Bremen para Hamburgo.


Na semana em que se festejavam vinte anos da queda do muro de Berlim, um natural da ex-RDA, da cidade universitária de Iena, encontrou razões para acabar. Tinha doze anos quando as manifestações começaram ali ao lado, em Leipzig. Não terá sido certamente a Ostalgie a culpada, mas será sempre difícil avaliar as razões do desespero de Robert. E fica-se ainda mais melancólico quando se sabe que, numa entrevista há um ano, tinha dito que gostaria de regressar a Portugal na fim da carreira. Afinal, quando nos lamentávamos das desgraças do Benfica, Enke terá aqui vivido os seus anos mais felizes. Um caso singular de como os azares profissionais por vezes são inversamente proporcionais à felicidade.

terça-feira, novembro 10, 2009

A diversidade da Nona Arte


Acabou no último fim de semana o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Lá me desloquei ao certame, tal como já tinha feito no ano passado, embora com o risco de me perder no meio daquelas fieiras de prédios todos iguais. O pretexto eram os cinquenta anos de Astérix; a razão era a minha velha mas controlada paixão por BD.


Sobre o herói gaulês esperava mais. Uma única sala com memorabilia, os álbuns todos da colecção, e um ou outro autógrafo de Uderzo, mais dois simpáticos sósias de Astérix e Obélix a cumprimentar as pessoas e a animar a miudagem era manifestamente pouco para a importância que os gauleses tiveram para a BD. Se a cultura francesa está em declínio, os "irredutíveis" são a excepção mais óbvia. Tornaram-se personagens conhecidas no mundo inteiro, os seus álbuns deram origem a filmes (animados e não só), o Parc Astérix rivaliza com a Eurodisney. Não admira que o general De Gaulle gostasse tanto do pequeno guerreiro.

Fui e sou um fã de Astérix desde miúdo, quando lia os álbuns que os meus pais compravam, em francês e português (aprendi em grande parte a ler em francês graças à banda desenhada). Os meus preferidos serão talvez o Astérix entre os Godos, Astérix entre os Bretões (o mais hilariante, influência do "british humour"?), A Zaragata, e Astérix Legionário. Todos absolutamente brilhantes, com aqueles anacronismos propositados, como os capacetes dos godos, a lembrar os pickelhaubes alemães da 1ª Guerra, os hábitos dos bretões, as vendettas dos corsos e o modo de falar dos belgas. Com a morte de Gosciny, Uderzo tomou o argumento em mãos. A série tornou-se mais desvairada mas perdeu a subtileza e o brilho anteriores.



Mas havia mais para além de Astérix no certame. De novos talentos a homenagens a Maurício de Sousa (da "Turma da Mónica"), havia de tudo. Gostei acima de tudo das recordações de outras edições anteriores e de outros mestres da BD portuguesa. Não faltavam exemplares do Mosquito e entrevistas gravadas a desenhadores como José Garcês e José Ruy.


Mas acima de tudo gostei de ver a memória de Eduardo Teixeira Coelho, um dos maiores autores de sempre da Nona Arte portuguesa, senhor de uma farta bigodaça que faria inveja a Dali e a Nietzsche e que ganharia com certeza o concurso da modalidade. Era açoriano, de Angra, mudou-se para Lisboa nos anos trinta, trabalhou como ilustrador, tornou-se conhecido no Mosquito e, mais tarde, no Mundo de Aventuras. Viveu em Espanha, em Inglaterra e em França (com o pseudónimo Martin Sièvre), até se mudar para Florença, onde morreu em 2005.



As suas obras eram acima de tudo de aventuras ou acontecimentos históricos, com um traço limpo e simples. O Caminho do Oriente, dos anos quarenta, com textos sem balões, é um dos melhores exemplos disso. A viagem de Vasco da Gama vista pelos olhos de um endiabrado grumete, Simão Infante, contada em banda desenhada a preto e branco. Tenho os seis álbuns da obra, oferecidos num Natal já muito longínquo, teria os meus nove, dez anos. Para se conhecer a obra de Eduardo Teixeira Coelho, é uma óptima iniciação. Reflecte bem o talento do autor em mergulhar o seu leitor num universo de aventuras de outros tempos, e numa dimensão histórica que de outra forma, excepto no cinema e em rara literatura, é quase impossível de recriar. Para além do inevitável escape, a capacidade didáctica e cultural da Nona Arte, num mundo tão tecnológico como o que vemos hoje, consegue sempre surpreender.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Vinte anos


O assunto do dia é inevitável: os vinte anos da queda (ou do seu início) do Muro da Vergonha, que dividiu Berlim durante perto de trinta anos e cercou o enclave da RFA, tanto na cidade como na região circundante. Em Novembro de 1989, a queda do Bloco de Leste, provocada pelo degelo das relações com o Ocidente, com a Glasnost e a Perestroika de Gorbatchov, e pela certeza de que os soviéticos já não enviariam os seus tanques para impedir certas "veleidades", era uma realidade em marcha.

Também na República Democrática Alemã os protestos, que começaram em Leipzig (curioso como as vagas que derrubaram os regimes comunistas começam muitas vezes em cidades secundárias), estavam em crescendo. Milhares de alemães fugiam para a Hungria, e daí para o ocidente. A Nove de Novembro, por causa de um"lapso", milhares de alemães de Leste que se concentravam na Alexanderplazt, mesmo no cento da cidade, entre o Palast der Republik e a altíssima antena de televisão, precipitaram-se para troço do muro, junto à Porta de Brandeburgo, onde as forças policiais, impotentes perante aquela multidão, depuseram as armas. Pela primeira vez, muitos alemães viam o outro lado do muro, e muitos outros reviam as imagens de há muitos anos. Ficaram na memória as imagens dos populares a subir o muro, de blocos deste a ser derrubados, da festa imensa entre a multidão.


Passei por lá em 1998. Na maior parte da sua extensão, o muro não existia. Havia alguns quilómetros dele, cobertos de graffitis, como recordação e vestígio histórico, assim como as guaritas de Checkpoint Charlie, mas tanto na cidade como nos arredores (já que a barreira existia também nos bosques circundantes) apenas restava o local. Ao lado da porta de Brandemburgo, dezenas de cruzes, uma por cada vítima morta pelos guardas, recorda aqueles que tentavam fugir desesperadamente daquele cenário cinzento guardado por torres de controle e arame farpado, por metralhadoras e pela omnipresente STASI. A última cruz é a que simboliza a morte do próprio muro.

Hoje vendem-se pedaços do muro como recordação histórica. Os vendedores ambulantes de peças e curiosidades da antiga RDA fazem negócio com a venda desses símbolos de Ostalgie, entre os quais se contam igualmente miniaturas dos Trabants. O muro pode ter desaparecido em grande parte, ou ser mero objecto de fotografias dos turistas, mas um grande risco vermelho, ao longo do seu antigo percurso, mostra-nos o seu traçado e lembra-nos que por ali passou uma das páginas mais sombrias da história da Europa do Séc. XX. Que começou a ruir, e com estrondo, em Novembro, há já vinte anos.

terça-feira, novembro 03, 2009

Benfica a rodos em 2009/10

Ainda pouco falei do Benfica 2009-2010, excepto na partida no Restelo, o único jogo, de resto, a que assisti nesta época. A derrota de Sábado passado, em Braga, a primeira da época, parece-me um bom pretexto para tratar do assunto.

Era um pouco céptico na exoneração de Quique Flores, tanto pela necessidade de estabilidade técnica como pelas indemnizações a pagar. Provavelmente estaroa influenciado pelas prestações do Benfica no início da época, e por simpatizar com o ar digno e cavalheiresco do espanhol; mas a verdade é que o Benfica não melhorou o seu futebol, pelo contrário, e Quique nunca se incomodou em demasia com os pontos perdidos em empates melancólicos. Veio Jesus.

As aquisições pareceram-me correctas, mesmo tendo em conta os custos de alguns jogadores (Javi e Ramires, por exemplo) em contraste com as escassíssimas verbas que entraram, e que obrigaram o recurso ao crédito. Sou muito céptico em relação a este gênero de engenharias financeiras, porque comportam um risco pesado. Claro que por vezes há que arriscar, mas no estado em que estão as finanças dos clubes, pede-se alguma cautela. Mas no plano desportivo as "peças" adquiridas foram as certas e integraram-se bem nas que já lá estavam.


Na baliza apenas lamento que Moreira tenha sido relegado para terceira opção, apesar de gostar muito de Quim. Júlio César parece-me bom "keeper", mas tenho dúvidas se será um fora-de-série.


Na defesa, manteve-se Luisão, a pedido de Jesus. David Luiz tornou-se um central de primeira água, e terá apenas de aprender a conter um pouco os ímpetos para que os clubes mais ricos da Europa o cobiçem. Sidney e Miguel vítor são uma linha de reserva segura. Nas laterais, Maxi Pereira, com a raça que já mostrou, segura a direita sem grande rivalidade de Luís Filipe (até Ruben Amorim é preferido para segunda escolha). À esquerda a coisa não é tão clara. Shaffer é rápido, centra que é uma maravilha, mas tem algumas fragilidades a defender. César Peixoto tem técnica, mas o mesmo problema, e não me parece que resolva muita coisa. Aliás, teria preferido que se mantivesse Jorge Ribeiro, formado na Luz e com melhor remate, e não se fosse buscar o companheiro de Diana Chaves. Opções...




Depois, o meio campo. Quem pensasse que sairiam Katsouranis e logo depois Yebda imaginaria o desastre para aquela zona. Acontece que os grandes reforços estão aí: Ramires é um corredor incansável, entre a gazela e a carraça, sempre activo, sempre lutador, e ainda tem apetência para golos. Javi Garcia, uma incógnita com músculos à chegada, é essencial à frente da defesa, e além de ser forte e raçudo, tem inteligência táctica, que faz com que lance a bola em jogo e não a atire para a frente de qualquer maneira. Também estes ficarão pouco tempo na Luz. Ruben Amorim, a melhor surpresa da época passada, alterna entre o banco e o jogo, mas está lá sempre.

Aimar parece ter segurado os arames e mostra as qualidades que o tornaram num virtuoso. O único golo que marcou até agora é um portento, e os seus passes e cobranças de falta parecem telecomandados, tais as assistências para golo que têm proporcionado. Convém que simule um pouco menos, porque quando for realmente abalroado ninguém apitará a falta. Entretanto, Carlos Martins também parece de volta aos bons velhos tempos: quando joga, mostra o que vale e provoca sempre estragos. As lesões é que têm sido inclementes... Resta ainda Menezes, um brasileiro que mostrou alguma técnica, mas que ainda terá muito que palmilhar.



Por fim, o sector que mais tem dado nas vistas: o ataque. Oscar Cardozo revela-se cada vez mais um perigo na área, e não só com o pé direito. Saviola, o excelente atacante argentino, é o companheiro ideal, com a sua velocidade e técnica. Menos possante e explosivo que Suazo, compensa isso com outra hagilidade que o hondurenho que regressou ao Inter não possui. No banco, Nuno Gomes é um suplente de luxo, Weldon já mostrou serviço, revelando ser um jogador rápido, inteligente e com sentido de oportunidade. Mantorras tem como função galvanizar as massas, e se possível, marcar um golo, coisa que faz com poucos minutos em jogo. Keirrisson é o caso mais bicudo: com apenas vinte anos, já marcou imensos golos no Brasil, o que valeu a sua (caríssima) aquisição pelo Barcelona e posterior empréstimo, mas até agora não justificou minimamente o negócio.

A alimentar o ataque, nas alas, temos Di Maria, que parece querer mostrar o que dele se esperava. continua a pecar no remate, mas quando se deixa de indivualismos é dificílimo de apanhar. Fábio Coentrão regressou em boa hora, e é talvez a maior revelação: técnica, garra e cruzamentos perfeitos - já leva não sei quantas assistências - são a história deste jogador neste época. Não esperava tanta maturidade nem tanta qualidade, confesso. Do outro lado, e já que se voltou a emprestar Adu, Não se sabe o que dará Urreta este ano. Na época passada deixou muito boas indicações...


Como já disse, Katsouranis e Suazo foram bem substituídos. Quanto a Reyes, sem muito dinheiro para o pagar e sem propostas de outros clubes, restou-lhe voltar ao Atlético de Madrid, onde é suplente de uma equipa à deriva. Gostava do jogador, mas ficou aquém do que sabe e pode dar. E Di Maria ou Coentrão não lhe dariam grandes oportunidades de brilhar. Como o Benfica tem parte do seu passe, ver-se-à se no futuro o espanhol voltará para passear o seu Lamborghini nas ruelas de Alfama.

Mas a equipa parece substancialmente melhor do que em Maio, disso não haja dúvida. Saviola, Ramires e Javi foram os jockers que vieram fazer o complemento a David Luiz, Cardozo e Aimar - neste caso, é um reencontro entre os dois amigos argentinos, que em conjunto tão boa conta deram do recado quando jogavam juntos no seu país, e que refazem uma dupla de renome internacional. Jesus mostra que sabe da poda e do que precisa. O problema serão os abrandamentos de ritmo, os efeitos do esforço físico e uma certa dificuldade da equipa reagir quando se apanha a levar um golo, como já se viu esta época. Mas com talento a rodos e um melhor conhecimento por parte do seu técnico do campeonato português, o Benfica tem tudo para incomodar os adversários e suplantá-los.

PS: o triunfo no Goodison Park terá tirado as dúvidas aos mais cépticos, depois da pesada goleada imposta na Luz. No total, foram sete golos sem resposta a um dos grandes do futebol inglês. Não estarão no seu melhor momento, até por causa das ausências, mas os Toffees tinham alguns nomes de respeito, como Tim Howard, Fellaimi, Saha ou Jô. Mas o Benfica bateu-os inapelavelmente.

Fica uma nota, uma mera curiosidade, mas ainda assim honrosa: revela o clássico Times que o Benfica, com esta vitória, tornou-se a primeira (e até agora única) equipa a vencer nos estádios dos dois clubes de Liverpool; há três anos, a histórica eliminatória em Anfield Road, e agora isto, pelos mesmos números. Uma vez mais, o Benfica a impôr o respeito entre os bretões. Confirme-se. Contra jornais ingleses bicentenários não há argumentos.


A hora do adeus do "lobo"


Com a morte de António Sérgio silenciou-se uma voz inimitável da rádio. O seu tom, entre o grave e o cavernoso, como um mensageiro de desgraças, era um marco radiofónico. Entre os seus pares era o "Mestre". Comecei só a segui-lo com o programa A Hora do Lobo, na Comercial. Já na altura tinha uma carreira de respeito como radialista. Esteve na Renascença, criou o Rotações e o Som da Frente (chegou-se até a editar um disco com as canções mais marcantes que saíram desta rubrica), e passou também pela mítica XFM, essa "rádio para uma imensa minoria", de que era um dos elementos marcantes. Estava agora na Radar - de certa forma, uma das descendentes da XFM - com o programa Viriato 25. Uma referência da rádio em Portugal e da vanguarda musical, marcou uma certa época (anos oitenta e noventa) que para muitos talvez já esteja ultrapassada, mas que legou inúmeras pérolas. Soube também, nas notícias da sua morte, que era um fervorosa benfiquista. Bom seria que outros seguissem o seu caminho. A rádio pode já ser velhinha, mas continua a fazer falta. Não se imagina uma viagem de carro nocturna solitária sem ela e sem aqueles, que como Sérgio, a tornam mágica.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Sugestão de fim de semana


A quem estiver por estes dias em Lisboa e arredores: a exposição Encompassing the Globe - Portugal e o Mundo nos Séculos VVI e XVII, uma visão da arte portuguesa ou influenciada pelos portugueses em todos os lados do globo, vai estar aberta no Museu Nacional de Arte antiga até dia 1 de Novembro. É caso para aproveitar, porque já houve uma adenda no prazo. A recuperada Custódia de Belém e os Painéis de S. Vicente vão continuar por lá, para nossa satisfação, mas o resto sai de cena.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Os Quais



Além de escritor, dramaturgo, colunista da bola e blogger, Jacinto Lucas Pires é agora também músico, ou mais exactamente vocalista de Os Quais, banda que divide com Tomás Cunha Ferreira, e que lançou este ano Meio Disco, com o selo da AmorFúria. Vi no outro dia na FNAC do Chiado, em Lisboa, a sua performance e os seus gostos musicais (e a sua colecção de vinyl), e achei uma certa piada. Pop simultaneamente etérea e saltitante, mas despretensiosa. Os videoclips, que também os há, são simples nos meios, mas imaginativos e com talento q.b. Em até há "violência gratuita", "romance", e clérigos pelo meio. Saramago bem se podia aproveitar disso.



terça-feira, outubro 27, 2009

Abaixo o Mundial ibérico!

Está em marcha a "candidatura ibérica" ao Mundial de futebol de 2009. As federações espanhola e portuguesa já chegaram a acordo, sob o lema "dois povos, um objectivo", e nos próximos dias apresentam o logótipo.


Gostei muito do Euro 2004 e do ambiente do Mundial 2006. Falando do primeiro, lançaram-no com o pomposo e patético subtítulo não-oficial de "grande desígnio nacional". Vivemos em permanente festa durante quase um mês, o turismo e o comércio tiveram uma grande subida e ficamos com estádio amplos e modernos. Simplesmente, os recintos revelaram-se sobre-dimensionados, em especial os de Leiria e Aveiro (agora o do Bessa), a festa passou e o crescimento económico revelou-se pontual. Ficámos com um conjunto de elefantes brancos que endividaram as respectivas autarquias.


Sob pretexto de se aproveitarem os estádios, começou-se a falar de uma candidatura conjunta com Espanha ao mundial de 2018. E a coisa avançou mesmo. Só que agora vêm-nos dizer que afinal de contas a FIFA só aceita estádios com um mínimo de quarenta mil lugares. Resultado: só a Luz, Dragão e Alvalade é que preenchem o requisito de capacidade. O resto, que era o grande pretexto para o Mundial, fica de fora.


Se a palavra "candidatura ibérica" me deixa de pé atrás, a absoluta desnecessidade deste evento, por nada acrescentar ao país, deixa-me absolutamente do contra. Os benefícios irão quase todos por inteiro para os do costume, isto é, os grandes aglomerados urbanos de Lisboa e Porto. Espanha colherá os louros do Mundial e beneficiará de maior visibilidade, já que só havendo três estádios do lado português com certeza que só contarão para a abertura do evento ou uma meia final, e nunca os dois. A Portugal ficará reservado o lugar de parceiro pobre, com estádios a apodrecer por falta de uso (e mais uma mentira sobre o seu aproveitamento), com a benesse única de melhorar o seu turismo naquele ano.


A consequência máxima é uma maior dependência face à Espanha. Depois da económica, viria a desportiva e até a mediática. Daria a impressão de um estado ibérico único, sob a égide de Madrid. Seria bom relembrar que Portugal não só é um estado muito mais antigo que a Espanha e que quando esteve mais próximo de nada beneficiou, em especial depois do desastre de Alcácer-Quibir, sob os Filipes, em crescente caminho para se tornar uma mera província. Há sempre, como sabemos, os "iberistas" locais de ocasião, que nos atiram para cima com os dados económicos dos últimos trinta anos (até o facto de haver melhor futebol já ouvi!). Mas para além dos números de poucas décadas e outros elementos utilitaristas, não ouço grandes argumentos. Pergunto-me porque é que não se mudam para Espanha e adquirem a respectiva nacionalidade, deixando o grosso dos portugueses em paz. Claro que depois teriam de aguentar com os problemas dos vizinhos sem queixumes.

Os algarvios já vieram reclamar, e com razão, que a ausência de uma estrutura como o Estádio do Algarve não faz sentido. Na sua bacoquice habitual, Gilberto Madaíl nada disse de nota. O projecto da sua vida parece ser entrar no Mundial mesmo como figura subalterna, mero talo de apoio a uma Espanha pujante. Pudesse eu decidir pela Federação, e só aceitaria o torneio a meias se entrassem cinco a sete estádios portugueses, nenhum deles dos clubes grandes, que já têm uso que chegue. Se a FIFA e a federação espanhola não aceitassem, passassem bem. De mentiras, projectos faraónicos de baixo uso, deslumbramentos perigosos e subserviência perante a vizinhança já estamos fartos. Nestas condições, só absolutamente contra este projecto de mundial ibérico de futebol, contrário aos interesses de Portugal, e espero que seja outra candidatura a ganhar.
Executivo
O novo governo tomou posse, quatro semanas após as legislativas. Estava outro dia a ver num café de esquina a goleada que o Benfica aplicou ao Everton, quando de súbito a composição do executivo correu em rodapé. Desviei o olhar das corridas de Di Maria e Saviola e atentei na lista. Alguns eram esperados, é certo, mesmo Rui Pereira, mas acho que ver Augusto Santos Silva na Defesa ninguém esperava - pelo menos deu para a generalidade dos blogues fazer a piadinha do "o malhador vai malhar com a soldadesca". Alberto Martins na Justiça? Se quando esteve na Reforma e Plano nada reformou, não se espere agora ver um tipo que transpira burocracia por todos os poros a fazer grande trabalho num sector que é tudo menos fácil. Temos Vieira da Silva na Economia (é sempre gratificante saltar das discussões com os sindicatos para os diálogos com os conselhos de administração) e um conjunto de figuras desconhecidas do grande público à frente de vários ministérios. Fala-se insistentemente da nova ministra da cultura, Gabriela Canavilhas, ao que parece mais pela sua allure do que pela sua carreira de pianista e de da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Entre pessoas conhecidas ouço também o nome da nova titular do Ministério do Ambiente, Dulce Pássaro, que a confirmar-se a confiança que Sócrates lhe deposita, não fará melhor trabalho do que o seu antecessor, o invisível Nunes Correia (e era tão necessário, sobretudo nas questões dos PIN ´s e das plataformas logísticas).
A mais mediática é sem dúvida Isabel Alçada, de quem já se adivinhava a nomeação para a Educação. Num ministério sob fogo, talvez o mais contestado da última legislatura, espera-se que a experiência no ensino e nos sindicatos leve a uma maior ponderação de decisões e algum apaziguamento com a classe dos professores, crispada com a inenarrável Lurdes Rodrigues. A autora da colecção Uma Aventura e Viagens no Tempo, referências de literatura juvenil de mais do que uma geração, entre as quais se inscreve o autor destas linhas, tal como Os Cinco eram para os nossos pais, terá de se munir de enorme bom senso; o seu marido Rui Vilar pode ser uma ajuda preciosa. Essencial será também que o grupo de Secretários de Estado respectivo seja substituído, com o indescritível Valter Lemos à cabeça. Talvez assim haja alguma paz no sector.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Convidados ingratos




Situada no alto de uma colina entre os rios Sousa e Cavalum, sobranceira à auto-estrada entre Porto e Vila Real, Penafiel é uma cidade que ganhou esse estatuto em 1770, para além do de sede de Diocese, ainda que por meia dúzia de anos - uma ideia do Marquês de Pombal para retirar poder ao bispado do Porto. É atravessada pela estrada nacional 15, que serve de avenida principal, e tem belas igrejas, como a Matriz, a Misericórdia, Carmo, Calvário, e a neo-bizantina Nossa Senhora da Piedade, num ponto elevado. Há ainda ruelas apertadas na malha urbana mais antiga, solares, praças graníticas, fontes, um pelourinho, casas do fim do Séc. XIX cobertas de azulejos e com varandas em ferro forjado, chalets, etc. O quartel militar activo até há poucos anos vem mencionado em Os Grãs-Capitães, de Jorge de Sena. Existem vários miradouros para a paisagem circundante, onde se destacam as vinhas da Aveleda. Mas o que salta mesmo à vista na cidade são as igrejas.


Coisas que em grande parte não existiriam, bem como estatuto da cidade, se as opiniões de Saramago sobre a Bíblia e sobre a religião em geral, proferidas pelo escritor, que era convidado numa sessão literária precisamente em Penafiel, tivessem tido aplicação prática. Isso e muito mais: provavelmente a civilização como a conhecemos. Mas tanto Saramago como os seus seguidores, que dizem coisas como "A Igreja Católica é a maior assassina da história", "só os ignorantes é que são crentes", e que falam da Inquisição, desaparecida há três séculos, como quem fala de receitas de culinária, nunca devem ter pensado muito bem no assunto. Ou então o grau de loucura e de fanatismo ainda é mais grave do que se pensa.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Outros vexames (para poupar o argentino)

Como técnico, Diego Maradona é realmente um desastre. Vá lá que classificou o seu país para o Mundial, mas por um triz. Mas pelo meio igualou o record da pior derrota de sempre da Argentina, de 6-1, e frente à mediana (para sermos generosos) Bolívia, num jogo em que Di Maria acabou por ser expulso por agressão a Ronald Garcia, o conhecido craque que se destacou no Alverca. A justificação para o desastre só podia ser "a altitude" de La Paz.

Mas sejamos justos com el Pibe: já houve outros resultados humilhantes para a equipa argentina. O mais conhecido talvez seja a goleada caseira por 5-0 que sofreram em plena Buenos Aires, nas eliminatórias para o Mundial 94, alegremente aplicada pela saudosa Colômbia de Valderrama, Rincon, Valência e Faustino Asprilla (o quarto golo é uma obra prima), essa equipa que dava antes de mais espectáculo e alegria. Recordem esse momento inolvidável.


quarta-feira, outubro 21, 2009

O Maradona de Kusturica



A propósito da Argentina e do seu treinador, tenho aqui a oportunidade de postar uma coisa pensada há já algum tempo.
Entre Fevereiro e Março passou discretamente pelas salas de cinema o filme de Maradona, do realizador/músico sérvio Emir Kusturica. O género estaria oficialmente dentro do documentário, mas na prática trata-se de um filme de propaganda, um pouco ao estilo de Michael Moore. Kusturica, nacionalista sérvio, activista anti-independência do Kosovo e realizador de filmes memoráveis (particularmente nos anos noventa), tem-se dedicado mais nos últimos tempos à sua carreira com os No Smoking Orchestra, com a qual tem visitado Portugal regularmente. Não deixou contudo de desenvolver um projecto antigo, o de homenagear o ídolo dos argentinos e napolitanos, vencedor quase a solo do Mundial de futebol 1986 e tristemente caído nas malhas da cocaína, Diego Maradona. Para isso, deslocou-se várias vezes à Argentina, onde o esperava um ex-craque com o volume de um tonel, assistiu a ritos da igreja maradoniana, levou-o a Belgrado e não cessou de focar a sua "mensagem revolucionária". Um dos pontos altos do filme é aliás um comício de Hugo Chavez, com el pibe ao lado, em que o presidente venezuelano brindou os assistentes com as suas habituais pantominices.

Na sua actual forma rubicunda, Maradona revela, como se esperava, um ego do tamanho do mundo. Considera-se um a espécie de self made player com ajuda divina. Diz tudo o que pensa de forma desbragada, mesmo que leve a contradições estranhas. Mostra o bairro onde cresceu, em La Boca, Buenos Aires, a ida para a Europa, Barcelona, primeiro (e a épica cena de pancadaria num jogo com o Athletic Bilbao), e Nápoles, depois. Na Campânia cometeu as maiores proezas, só igualadas pela conquista do Mundial de 1986 e a famosa "Mão de Deus" contra Inglaterra, cena repetida vezes sem conta no filme.

A meio da fita vem a sua declaração de amor a Cuba e a Fidel Castro. Utilizando um jargão muito comum na América Latina, El Pibe afirma que "graças a Fidel é que não falamos inglês", mostrando o quão gosta dos Estados Unidos. É uma teoria um pouco rebuscada, porque dificilmente se imagina como é que uma ilha das Caraíbas conseguiu tal proeza - não me lembro de nenhum muro impedindo a presença de norte-americanos - e mesmo em tempos pré-1959 a população falava espanhol. Há recriminações à ditadura militar dos anos setenta e oitenta, pois claro, mas a seguir diz que recusou-se a cumprimentar o Príncipe de Gales porque este teria "as mãos manchadas de sangue". Suponho que se estaria a referir à Guerra das Malvinas. Quem efectivamente esteve lá foi o Príncipe André, não Carlos, e quanto à guerra, nunca chegou a ser efectivamente declarada (pela Rainha), antes se tratou de uma resposta do governo britânico face à invasão argentina. Além de incriminar o príncipe sabe-se lá porquê, acaba por tomar o partido da junta ditatorial argentina, responsável pelo início das hostilidades e pela humilhante derrota que acabaria por ditar a sua queda. No fundo, a mesma posição de Fidel Castro, que numa posição contra-natura prestou o seu apoio àquele regime. Diga-se também que enquanto durou a sangrenta ditadura argentina, el Pibe jogou sempre pela equipa nacional. Transparece logo um violento sentimento anti-anglo-saxónico, confirmado ao longo do filme com pequenas recriações animadas e satirizantes do "Golo do Século", marcado no mesmo jogo contra a Inglaterra em 1986, em que sucessivamente Maradona finta e bate Thatcher, Reagan, Blair, Bush e a Rainha Isabel II, ao som de God Save the Queen - a dos Sex Pistols. Todos ao molho, desbaratados pelo talento do pequeno argentino.


Duas conclusões se tiram da singular ideologia de Maradona: uma é o sentimento de "latinidade", muito bolivariano e guevarista, em que supostamente a América do Sul e Central são uma só nação, desunida por fronteiras, e que transcende mesmo as ideologias opostas. A outra é a do sentimento contra tudo o que seja anglo-saxónico, talvez até mais contra os EUA do que o Reino Unido.

Há ainda o Maradona "homem de família" com mulher e filhos, e as suas queixas do tempo em que estava agarrado à cocaína. Mas é no jogador e no revolucionário que o filme se demora. É uma personagem complexa e irreverente, mas a que parece faltar inteligência para as suas escolhas e os seus actos, para não falar no discurso. Baseia-se no instinto e no coração, nunca no cérebro. Confunde frequentemente as coisas e nota-se em alguns assuntos um desconhecimento espantoso do que fala, aliado a uma espécie de dogmatismo messiânico ("o das barbas [Deus]não me deixou afundar e puxou-me"). Parece encarnar o "realismo mágico", de tão sul-americano que é, e note-se que curiosamente teve o apogeu da sua carreira no ano da morte de Jorge Luis Borges. Bola, família, truculência, latinidade, anti-anglo-saxonismo, fervor místico, um percurso errático com imensos vícios: eis Diego Armando Maradona.
Kusturica, naturalmente, quis fazer este filme atraído pela figura irreverente do génio da bola que despertou paixões e ódios como poucos, cocktail explosivo de bola e truculência revolucionária que bem podia vir da sua Sérvia. Podia igualmente ser uma personagem dos seus filmes, com personalidade tão balcânica. Sendo real, ficou-se por um documentário. Mas para além da familiaridade que viu em Maradona há ainda o carácter político e panfletário da obra: um nacionalista sérvio como é o realizador não podia deixar de aproveitar uma figura conhecida mundialmente que disparasse tão ferozmente contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, os mesmos que bombardearam Belgrado há dez anos e que acabaram com a Jugoslávia, dando a machadada final com a independência de facto do Kosovo. Assim, além de conhecer tal personagem bigger than life, usa-o como pregoeiro das suas próprias causas. As gargalhadas maquiavélicas e algo juvenis que dá amiúde quando entrevista Maradona, ao longo do filme, revelam bem a alegria que sente perante os torpedos verbais contra os ódios de estimação.
O documentário acaba por divertir medianamente, sobretudo nos passeios por entre as ruas de Nápoles e Belgrado, com algumas imagens de arquivo preciosas e recordações de jogadas de futebol realmente geniais. Enfastia nos discursos políticos e nas sequência familiares, a apelar à lágrimazinha. Mas a cena em que se vê o burlesco e a loucura que envolve Maradona é o casamento pela Igreja Maradoniana: perante uma cópia das orações cristãs adaptadas ao seu vocabulário próprio, um casal jura perante a "bíblia maradoniana" e uma bola de futebol que Maradona é o melhor jogador de sempre. Depois, para firmar o matrimónio, têm de marcar um golo com a mão, imitando o do seu ídolo em 1986. A cara do noivo gritando golo vale quase só por si o bilhete do filme e resume bem a personagem tão irreverente como patética que o inspira.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Heróis improváveis no Rio da Prata




É incrível como os mais improváveis peões surgem do desespero para salvar as figuras bigger than life, mesmo as grotescas. Na Quarta à noite jogava-se a passagem para o Mundial da África do Sul de duas míticas selecções de futebol. À carga emocional e histórica do jogo acrescia o facto de se tratar do mesmo cenário e dos mesmos actores da final do primeiro Mundial de futebol, em 1930: o estádio Centenário, em Montevideu, Uruguai contra Argentina. Nesses tempos longínquos os jogadores da camisola celeste bateram o enorme vizinho da margem sul do Rio da Prata, criando uma rivalidade entre irmãos que periodicamente se renova em partidas como esta.


Agora, no meio de futebol mal jogado, com lances muito duros (Maxi Pereira por mais do que uma vez ia lesionando Di Maria) e alguns jogadores inexplicavelmente a titulares, o resultado acabou por ser ditado pelo mal amado Bolatti, emprestado pelo Porto a um clube argentino, que deu a vitória e o apuramento ao seu país no templo desportivo uruguaio, a poucos minutos do fim. Menos do que o que faltava quando no anterior (e igualmente decisivo) jogo da Argentina contra o Peru, Martin Palermo, o veterano avançado que um dia falhou três penaltis no mesmo jogo, deu nos descontos a vitória aos das Pampas, aguentando-a na contenda definitivamente decidida em Montevideu.


Resta aos desiludidos Charruas uruguaios classificar-se no play-off. Maradona, esse, rebentando no seu anoraque qual boneco da Michelin azul-escuro, passou em meia hora da euforia saltitante à acusação ressentida. Só na América do Sul do "realismo mágico"é que a loucura e beleza do futebol alcança tais possibilidades literárias . Esperemos agora que o Uruguai se classifique e que a Argentina encontre a Inglaterra de Fabio Capello na África do Sul.

terça-feira, outubro 13, 2009

Algumas curiosidades das autárquicas

Em Oeiras ganhou Isaltino, condenado por casos graves. Em Braga triunfou, pela 10ª vez consecutiva, Mesquita Machado, responsável pela betonização da cidade e rosto máximo da promiscuidade câmara- construção civil - futebol - alguns sectores da igreja, além de presidente da assembleia geral da FPF. Em Felgueiras, Fátima perdeu com estrondo. No Marco de Canaveses, Avelino Ferreira Torres esteve longe de ganhar.
Os municípios "boçais", "rurais" e "atrasados" deram uma lição cívica aos concelhos "jovens", "cosmopolitas" e "dinâmicos".

 
Alguns antigos presidentes de câmara quiseram tentar a sua sorte nos municípios onde em tempos foram reis e senhores, além do supracitado Ferreira Torres, casos de José Raul dos Santos, em Ourique, e Acílio Gala, em Oliveira do Bairro. Não chegaram sequer perto de ganhar. Aplica-se aqui a máxima de não se dever voltar aos locais onde fomos felizes...

Quando nos seus discursos de vitória Rui Rio e António Costa mencionaram os adversários, logo a turba se lançou em assobios e pateadas. E isso foram apenas as partes que pudemos ver na televisão, porque é provável que pelo país fora se tenham verificado mais atitudes como estas. Alguém lhes podia explicar uma coisa muito simples chamada "respeito pelos vencidos"?

Entretanto, se os leitores precisarem de se rir um pouco, têm a preciosa ajuda da lista dos candidatos às câmaras dos distritos de Évora, Portalegre e Beja. Percebe-se porque é que os alentejanos são bem dispostos.

Tenho algumas saudades dos tempos em que as autárquicas eram em Dezembro: os resultados eram acompanhados ao calor do fogão a gás, vendo os munícipes a comemorar as vitórias ao frio, e as consequências discutidas na ceia de Natal. Agora, com este calor próprio de Verão, nem me parecem autárquicas como devem ser.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Balanço das autárquicas




Como já tenho dito, gosto particularmente de eleições autárquicas, pelo imenso micro-cosmos local que se torna visível nestas alturas, pelo Carnaval local em todas as campanhas, por se dar finalmente atenção ao "país real" e aos seus chefes políticos. As autárquicas são uma excelente forma de ir conhecendo o país, apesar de também darem azo a todos os lugares-comuns, que por vezes são de uma ignorância atroz.


Muito provavelmente Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres acabaram ontem as suas carreiras políticas, já que não conseguiram impedir as maiorias absolutas dos seus adversários do PSD. Absolvidos pelos tribunais, mas repelidos pelos eleitores nos seus antigos feudos, dificilmente obterão alguma relevância no futuro, se bem que regressos de fantasmas na política portuguesa não sejam assim tão raros. Já Narciso Miranda não irá certamente perder a oportunidade de chagar o mandato de Guilherme Pinto; o patético discurso de ontem, com a frase da noite - "esta candidatura ganhou perdendo as eleições" - mostra que ainda se julga o autêntico "Senhor de Matosinhos". Sempre entrou em guerrinhas com os sucessores, como aconteceu com Manuel Seabra, o que deu origem a um dos mais tristes episódios da política portuguesa, e os seus quase trinta anos de presidência (com muitos actos meritórios, reconheça-se) ganharam ares de culto de personalidade, com o epicentro nos inúmeros banhos de multidão na lota e no mercado.


Como sempre, houve surpresas. Para além de Felgueiras, não pude deixar de me espantar com as mudanças de cores de Beja, Barcelos, Trofa, ou outras menos visíveis, como Mesão Frio e Terras de Bouro, quase todas para o PS, o que alterou um pouco o mapa autárquico. Já Leiria era uma questão de tempo, e a perseverança de Raul Castro acabou por dar resultados. Em Faro, autarquia que muda a cada quatro anos, o triunfo de Macário Correia, por décimas, está longe de surpreender, até porque era uma aposta forte do PSD (embora tenham puxado a manta e perdido na retaguarda Tavira).


Nos grandes centros urbanos perdurou a estabilidade. Não houve uma câmara das mais importantes que tivesse mudados de mãos, e na maioria quem lá estava reforçou o seu mandato.

Mais uma vez se coloca a questão de quem terá ganho estas eleições, se o PS, se o PSD. Para mim, juntando tudo, houve um empate. Mas é mais gravoso para o PSD e para a liderança de Ferreira Leite, que depois das legislativas esperaria uma clara vitória, e que vê claramente as facas afiarem-se. Meneses, reforçado pela sua esmagadora vitória em Gaia (não esquecer que é o terceiro município do país), já o deu a entender.

 
A CDU mantém-se estável, mesmo com a perda significativa e simbólica de Beja, e noutro grau, da Marinha Grande. Aguentou parte do Alentejo e a importante "cintura industrial de Lisboa", nomeadamente Almada e Setúbal.


O CDS conseguiu estancar a hemorragia das locais, mas o que tinha era tão pouco que pior seria quase impossível. Partilha a vitória em muitos concelhos importantes com o PSD (embora só em poucos seja determinante) e quase tomou o seu antigo bastião de Mondim de Basto, palco do episódio mais trágico das autárquicas. E melhorou ainda o score na sua fiel Ponte de Lima ( aproveito para saudar o meu antigo colega de faculdade, Filipe Viana, na altura conhecido justamente pela alcunha de "Ponte de Lima", que teve de aguentar uma luta inglória). A nível local, porém, não consegue fazer a diferença; arrisca-se a tornar-se residual ou meramente a servir de muleta nalgumas coligações.

O Bloco de Esquerda nem isso. Tirando Salvaterra de Magos, e por causa de "Anita", vale pouco mais que zero. O recuo determinante em Lisboa e a incapacidade de Teixeira Lopes de chegar (mais uma vez) a vereador no Porto são os traços mais visíveis dessa semi-irrelevância. Esperemos que com isto Louçã se cale um pouco.

 
Depois, as grandes cidades. No Porto os resultados foram muito semelhantes aos de há quatro anos. Sem grandes ondas, e talvez moderando o seu tradicional sentido para a conflituosidade, Rio limitou-se a ver a desastrada campanha de Elisa Ferreira, que nos últimos dias parecia dar tudo por tudo para perder inequivocamente. Não tendo sido uma hecatombe, ficou um pouco abaixo do resultado de Francisco Assis há quatro anos. O Aleixo terá os dias contados, e ainda bem. Pior sorte terão os mercados do Bolhão e do Bom sucesso, e os jardins do Palácio de Cristal.

Em Lisboa houve algum suspense, mas apenas isso. António Costa manteve a câmara e alcançou maioria absoluta nas últimas horas da noite eleitoral. Tem agora mais espaço para "pôr a câmara em ordem". Espera-se que não abuse do poder que o povo da capital lhe entregou e que promova a facilidade no acesso à habitação no centro da cidade, a melhoria dos transportes públicos, que proteja os jardins e o património imobiliário, e que ouça atentamente o arquitecto Ribeiro Telles.

Quanto a Santana, aconteceu-lhe o inverso de 2001: à frente de uma coligação, perdeu a aposta. Na hora da derrota, pôs-se com tergiversações sobre transferências de votos e mais conversa fiada. Com este desaire (que deixou os seus apaniguados e respectivas catacumbas em forma caixa de comentários à beira de um ataque de nervos, invocando até Cunhal para carpir o "Menino-Guerreiro"), e duvidando-se que queira ser vereador sem pasta, pergunta-se por onde vai ele andar agora. Longe das responsabilidades políticas, espera-se, mas perto da ribalta.
Tomando em conta os ciclos normais deste tipo de eleições, diria que se está num ponto de viragem. O PS venceu folgadamente em 1989 e 1993, em 1997 ganhou à tangente, antes do desastre em 2001. O PSD ganhou claramente em 2001 e 2005, mas nestas já patinou. Seria previsível uma vitória socialista em 2013 se as regras do jogo não tivessem sido mudadas com a higiénica limitação de mandatos consecutivos. Assim, só Deus sabe o que vai acontecer saqui a quatro anos.

Vitória bipolarizada?

 
O PS teve mais votos, mais mandatos, subiu muito em relação a 2005 e ganhou em Lisboa com maioria absoluta.
O PSD conservou o maior número de câmaras e reforçou-se nalgumas das maiores concelhos do país, como Porto, Gaia, Sintra e Cascais.
Podem clamar ambos vitória sem perder o sentido do ridículo. Amanhã, quando se fizerem as análises sérias, outras conclusões se poderão tirar.
Para já, as minhas alegrias são pela negativa: alegrei-me com as derrotas de Fátima Felgueiras, Narciso Miranda e o fim da carreira política de Ferreira Torres. Quanto a Santana, que se fartou de "andar por aí" durante toda a noite, veremos por onde andará no futuro.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Uma desilusão, um exemplo e um equívoco



A maior desilusão destas autárquicas, mesmo antes dos votos, tem um nome: Elisa Ferreira. Começou com a bi-candidatura ao Parlamento Europeu e à CMP, com desculpas apressadas e convincentes. Houve depois um período de acalmia antes de cair numa espiral de disparates: a história da "gamela" de Bruxelas (onde revelou que se trabalha pouco), acusações sem sentido, uma lista para a câmara de notáveis da cultura que não se imagina a trabalhar a tempo inteiro na câmara, uma campanha gráfica confusa e populista, e agora vem com a futebolização das eleições. Elisa acha que Rio, com as suas desavenças com o FCP, colheu "o apoio de seis milhões de benfiquistas", e ainda que "quem se portou impecavelmente foram os portistas, que disseram que uma coisa é futebol, outra é política e até o elegeram". Não diz é porque raio é que o autarca quereria esse apoio dos benfiquistas. Somos assim tantos no Porto? Nunca me apercebi. Toda a minha vida devo ter tido ilusões de óptica, ou então não conheci as pessoas certas. Mais um tiro na água de quem se esperava mais. Nem o apoio de Pinto da Costa lhe vale.
Também no Porto, e para que conste, relembro as circunstâncias da primeira vitória de Rui Rio. Fernando Gomes, que gozava de grande popularidade na cidade (tanto que teve maiorias esmagadoras), resolveu experimentar o cargo de ministro da Administração Interna e renunciar à Câmara. As coisas não correram bem, e voltou algum tempo depois a concorrer à CMP. Para grande surpresa, perdeu as eleições. Além de algum desgaste do seu projecto, a sua ida para Lisboa e a ideia de que regressava meramente para ocupar um lugar onde se tinha acomodado não caiu bem entre os portuenses, que não o reconduziram ao lugar. Uma lição cívica e um sinal de inteligência dos eleitores
Santana Lopes foi eleito para a CML em 2001. Em 2004, como se sabe, rumou ao Governo; antes, porém, acautelou-se e suspendeu o mandato autárquico, sem renúncia. Derrotado em Fevereiro de 2005, não assumiu o lugar de deputado e voltou a ocupar o gabinete da presidência na autarquia, desapossando Carmona Rodrigues a contragosto deste. Impedido por Marques Mendes de se recandidatar, conseguiu apanhar a candidatura este ano, colocando Manuela Ferreira Leite perante um facto consumado. Como se nada se tivesse passado antes, nem nunca tivesse circulado entre cargos mais apetecíveis no momento, Santana quer voltar a presidir à CML. Mais do que o seu percurso errático e das dívidas que deixou pelo caminho (e sem esquecer os casos dos contentores de Alcântara e promessas incumpridas por António Costa), seria bom que os lisboetas se lembrassem disto e meditassem no salutar exemplo que os portuenses deram há alguns anos.
Um Nobel de futurologia


Longe de se ter dissipado, o Obamismo impregnou os salões de Oslo. O Nobel da Paz ganhou hoje um novo sentido e um significado diferente: premeia por antecipação e pelas expectativas criadas, com alguma futurologia à mistura, e já não por uma carreira com resultados e mérito, obedecendo à ideia original de Alfred Nobel. Por outras palavras: um risco elevadíssimo ditado pelas tendências do momento.

Obama pode muito bem deixar uma obra notável e um grande contributo para resolver sérias ameaças à paz, mas antes disso conviria que acabassem com a sua santificação em vida. Esta atribuição do Nobel da Paz está entre o patético, o idealista e o provocatório. E não contribui muito para credibilizar o comité decisório.

Prognósticos das autárquicas só no fim do jogo

 
As autárquicas são as piores eleições para fazer prognósticos. O seu carácter local e as situações particulares que a elas estão ligadas fazem com que inevitavelmente haja surpresas. Há sempre um dinossauro apeado da cadeira, uma sondagem que falha abruptamente, um terceiro que emerge. Podem ser boas ou más, consoante os gostos.
Em 2005 a melhor surpresa (para mim e para muitos) terá sido a derrota de Avelino Ferreira Torres em Amarante. Este ano, volta a tentar a sua sorte no Marco de Canaveses, que dominou durante mais de duas décadas. Duas sentenças opostas do Tribunal Constitucional permitiram a sua candidatura "independente", ameaçando a presidência de Manuel Moreira, quer teve certamente muitas dores de cabeça para colocar em ordem o estado calamitoso do concelho.
Não sei o que se passará em Lisboa. Por mim, Santana voltava para onde veio e continuaria a "andar por aí". No Porto, Rio está mais que confirmado; ajuda de Elisa Ferreira não falta. Mas não faltam autarquias em que pode haver surpresas. em princípio, Gaia e Sintra continuarão nas mãos de Meneses e Seara. Gondomar, Oeiras e Felgueiras também não devem expulsar os seus bem conhecidos "independentes" (muitos militantes partidários há nessas listas "independentes"), mas caso isso acontecesse, teria uma imensa piada. Matosinhos é um caso curioso, porque as sondagens, que ainda há pouco tempo davam a vitória a Narciso Miranda (que meteu na cabeça que a presidência Matosinhos era dele e de mais ninguém), mas agora são claramente mais favoráveis a Guilherme Pinto. Depois, há casos em que as candidaturas independentes baralham as apostas, como acontece em Coimbra ou Faro. Há capitais de distrito que pela saída dos seus autarcas não se sabe para que lado vão pender, como Viana e Setúbal. Saber-se-à se Mesquita Machado vai finalmente ser apeado por Ricardo Rio ou se ainda consegue cumprir o último mandato - está lá desde 1976. E se o CDS consegue estender-se para lá do seu bastião de Ponte de Lima, ou se o BE consegue mostrar alguma coisa fora dos círculos urbanos. O melhor mesmo é esperar para ver.

quinta-feira, outubro 08, 2009

E o Nobel da Literatura vai para uma alemã de origem romena que antes era romena de origem alemã

 


Tal como se esperava, a Academia de Estocolmo, sempre fiel às suas tradições, atribuiu o Nobel da Literatura deste ano a uma autora quase desconhecida, Herta Müller. Os especialistas na matéria, como sempre, apostavam nos consagrados Philip Roth, Vargas Llosa, Amos Oz, Milan Kundera, etc. Enganaram-se uma vez mais. Já era tempo de saberem que os suecos adoram trocar as voltas às apostas e nomear alguém de terceira linha. Mais vale não fazer prognósticos sobre os "consagrados", para ver se eles assim ganham algum ano - isso sim, seria surpreendente. Basta dar uma vista de olhos à lista dos galardoados dos últimos anos para perceber essa imensa evidência.

Observe-se agora: responsáveis da Academia disseram recentemente que o prémio "tem sido muito eurocêntrico". Entretanto, já é o terceiro autor de língua alemã a ganhá-lo nos últimos dez anos. É certo que os autores germanófonos deram não poucas contribuições à literatura europeia e mundial, mas tenho sérias dúvidas se actualmente serão superiores aos lusófonos - em maior número e distribuídos por mais países. Passa-se a vida a ouvir dizer que "como o Saramago ganhou em 98, dificilmente algum escritor lusófono ganhará nos próximos anos". E agora temos a senhora Herta Müller a juntar-se a Günter Grass (nada a opôr) e a uma Jelinek qualquer. Se há medíocres que escrevem em alemão a ganhar o Nobel, porque não um bom brasileiro ou um razoável português?

 
Ainda outra observação: Herta Müller nasceu em Timisoara, na região romena do Banato, mas mudou-se para a Alemanha, onde adquiriu a respectiva nacionalidade nos anos oitenta, daí dizerem que é alemã de origem romena. Na realidade, poder-se-ia dizer o inverso (como se deduz pelo nome e apelido), já que pertence ao grupo dos suabos, outrora maioritários, mas hoje uma minoria germânica do Banato. Um regresso às origens, como tantos outros naturais da mesma região e da Transilvânia (estava mesmo para escrever um post sobre isso, no seguimento de outro que deixei há dias). O assunto é particularmente focado em obras como Danúbio, do italiano Claudio Magris, que não por acaso também faz parte do distinto grupo dos eterno candidatos a ganhar o Nobel.
Campanha autárquica

Com as autárquicas à porta, sucedem-se os outdoors de toda a forma e tamanho. Houve tempos em que eram uma raridade, tempos esses em que imperava o cartaz colado à parede ou o mural artístico. Hoje pouco se cola. Subsistem os plásticos à volta dos postes, e até as freguesias optam pelo mais visível outdoor ou cartaz gigante. Podemos ver muitos deles aqui. Alguns são agradáveis do ponto de vista estético, sejam sóbrios ou imaginativos, mas há outros absolutamente de fugir (sobretudo na profusão de cores e palavras sobrepostas). Mas não se duvide que houve grandes progressos gráficos em relação às eleições de 2005, como se comprova. Pena é que haja menos razões para rir.

quarta-feira, outubro 07, 2009

A sapiência republicana do discípulo de Trotsky


Retido no fim de semana sem net, acompanhei ao de leve as comemorações da implantação da república, desta vez sem presidente. Parece todavia que as comemorações monárquicas tiveram mais impacto e maior adesão. Houve variadas formas de manifestações, à cabeça das quais o desfraldar da bandeira azul e branca na sede da Causa Real, ao Chiado. Desde Janeiro que não era ali hasteada (já tinha reparado nisso, e até pensei que tivessem mudado de instalações). Segundo as balbuciantes justificações da CML, um qualquer regulamento municipal proibia-o, embora até hoje, e durante sessenta anos, nunca tivesse havido a menor proibição por parte da edilidade lisboeta.

A ausência de Cavaco Silva dos habituais discursos em frente à câmara de Lisboa revela bem o diminuto interesse atribuído ao "5 de Outubro". A razão oficial foi a aproximação das eleições autárquicas. O quer só reforça a ideia da importância menor destas comemorações, para mais presididas pela presidente da AML: em 2001, em pleno dia de reflexão das presidenciais, Jorge Sampaio e todos os outros candidatos - à excepção de Ferreira do Amaral, por casmurrice - estiveram presentes na cerimónia de abertura do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura. Tendo em conta um e outro acto eleitoral e o impacto de cada um dos eventos, forçosamente se conclui que a relevância do "5 de Outubro" roça a nulidade.

Mas as movimentações monárquicas fazem-se notar. Francisco Louçã passou a semana a disparar contra tudo e todos, depois do tão anunciado terceiro lugar do Bloco se converter numa miragem. O alvo era agora Paulo Portas, que ouviu tudo, desde a acusação de ser de "extrema-direita", até ter "destruído o país", e de "remar contra a maioria da população portuguesa no referendo à IVG". Muito interessante, vindo do "coordenador" de um movimento com laivos de extrema-esquerda, cujos componentes ajudaram à destruição da economia do país em 1975, e que tanto gostam de se anunciar como grupo de protesto, "contra-corrente", "ovelha negra", etc. Todas as dúvidas sobre a honestidade intelectual e o fanatismo ideológico do representante da Quarta Internacional em Portugal ficaram definitivamente dissipadas.


Mas como a querer afirmar isso de forma ainda mais acentuada, Louçã veio agora chamar aos monárquicos "um pequeno grupo de patuscos atrás de um milionário banqueiro que conduziu um dos maiores escândalos da criminalidade económica em Portugal," que "lá apareceu pelo Tejo a gritar as saudades da monarquia", porque são todos de "direita reaccionária" que "reclama o regresso ao passado, o regresso ao atraso, à monarquia e à diferença”. A coisa resvalou para o insultozinho piadético sem piada nenhuma, a guetização ideológica, o lugar-comum marxista e a pura calúnia. Onde é que as acções de Teixeira Pinto levaram à "criminalidade económica"? Tem Louçã provas do que diz ou é mais uma das suas atoardas justiceiristas, querendo-se mostrar como o homem probo (talvez um sub-gênero do envelhecido "Homem Novo") no meio do "pântano da corrupção"? E porque razão quiseram as cúpulas do BCP afastar Teixeira Pinto quando este tinha um processo de renovação do banco, não se recordará o deputado trotsquista?

Quanto à confinação dos monárquicos na "direita reaccionária", só mostra o sectarismo e mesmo a ignorância de quem desconhece(?) que há monárquicos de diversos quadrantes políticos, à esquerda e à direita, em todos os estratos sociais e em todas as instituições. Muitos mais do que na sua miscelânea de esquerda radical e tocadores de djambé que atrai pontualmente alguns descontentes com o PS. Para Louçã, todo aquele que não faça parte do seu círculo ideológico próximo é imediatamente rotulado de "direita", e se for monárquico, torna-se um "reaccionário" (só falta mesmo "fascista"). Acresce que só o poder moderador cabe ao Rei, que reina mas não governa, que a vassalagem já não existe, excepto nominalmente a nível de protectorados que nada têm a ver com a monarquia, e que qualquer súbdito de um reino ou principado europeu tem tanta ou mais liberdade e direitos que qualquer república. Sobre o regresso ao atraso, calculo que deva haver aí certa confusão entre a liberdade que a monarquia sempre trouxe, fosse em 1385, 1640 ou 1834 (perdoem-me os tradicionalistas), e o PREC, do qual deve sentir muitas saudades. Tudo coisas que Francisco Louçã deveria saber, com toda a importância que se atribui. Mas mesmo que lho provassem na cara, a sua desonestidade intelectual e o seu radicalismo, que o impede de compreender ideias alheias, tornariam qualquer argumentação sólida num imenso desperdício de tempo.

sábado, outubro 03, 2009

Dois anos de Estado Sentido

Parabéns também ao Estado Sentido, a que me orgulho de pertencer. Em dois anos tornou-se um blogue de referência (apesar de eu estar lá). Mérito sobretudo do Samuel, que lançou o barco e trouxe "remadores" de primeira qualidade. E que continua no bom caminho. Por um sentido de estado.
Os primeiro jogos olímpicos numa cidade lusófona



O Rio de Janeiro está de parabéns pela vitória na organização dos Jogos Olímpicos sobre concorrentes tão poderosas como Chicago (de Obama), Tóquio e Madrid. Com a realização do Mundial de Futebol de 2014 no Brasil, e depois com os jogos em 2016, o Brasil será o grande organizador de eventos desportivos da próxima década. Prevê-se uma tarefa árdua e muitas dores de cabeça aos brasileiros.


Nota importante: é a primeira cidade lusófona a organizar uns Jogos Olímpicos. A Cidade Maravilhosa, com a sua beleza natural, tem um importante desafio pela frente, com toda a criminalidade e problemas sociais de que sofre. Poucas cidades no Mundo conseguem agregar o inferno e o paraíso no seu espaço. Cabe aos cariocas fazer valer a parte paradisíaca e mostrar que o Brasil é mais do que uma potência regional. Nada melhor do que o cenário único e invejável do Rio.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Angela Merkel, take 2, agora com os Liberais




Com o cenário pós-eleitoral e as polémicas entre orgãos de soberania, pouca atenção se deu às legislativas na Alemanha, quase tão importantes para nós como as nossas próprias eleições. Angela Merkel reforçou a sua liderança, não tanto pelos ganhos eleitorais em relação a 2005, que foram escassos, mas pelo desaire do SPD e pela subida significativa dos Liberais, habituais fiéis da balança entre os dois grandes partidos. A Chanceler faz valer o seu carisma ao conseguir afastar um peso pesado concorrente do governo. Com o FDP terá maioria no Bundestag e haverá com certeza reformas na política interna (à frente dos Negócios Estrangeiros ficará, tal como acontece habitualmente nas coligações governamentais alemãs, o líder do partido mais pequeno, neste caso o liberal Guido Westerwelle), sobretudo económica e financeira, matérias que não são consensuais entre os dois novos parceiros.

Um pouco à semelhança com o que se passa cá, os dois partidos mais à esquerda também cresceram. Os Verdes e Die Linke (uma espécie de mistura de Bloco de Esquerda com PCP) subiram, retirando votos aos SPD, talvez porque alinhou mais ao centro. Acaba por ser o grande derrotado, em proveito de partidos mais esquerdistas e dos liberais, que lhes roubaram votos ao centro.


Um pentapartidarismo que se poderá assemelhar ao nosso, à primeira vista, mas com algumas diferenças fáceis de descobrir. O SPD corresponde ao "nosso" PS e a CDU/CSU ao CDS-PP; já o FDP será uma fracção do PSD, que também englobaria parte da CDU (a alemã); o Linke seria, como já se disse, a fusão entre o Bloco e o PCP; e os Verdes seriam formados pelo PEV e franjas do Bloco. Parece complicado, mas está lá quase tudo em partes dispersas.
O espectáculo da república


O discurso de acusações do PR ao partido do governo só teve o condão de aumentar a crispação na política portuguesa. Isto em pleno período inter-eleitoral.

Assiste-se por um lado a uma manifestação da obsessão securitária do "árbitro do regime", bem expressa anteriormente pela proibição de voos sobre a vivenda "Mariani II", e de desconfianças graves de quem devia ser isento. Do outro, sucedem-se as intrigas de quem pouca confiança inspira, com jornais de um lado da trincheira e do outro metidos ao barulho. Os apoiantes de cada uma das facções acusam-se mutuamente de "má-fé" e "maquiavelismo". Nunca, nem em tempos da coabitação Soares-Cavaco, o mau ambiente entre a presidência e o governo chegou a este patamar.


E ainda querem comemorar a "república" do 5 de Outubro, ou instalar a quarta república. Que ideia peregrina! Acabe-se mas é com a dita e reinstaure-se a Monarquia. Há muito que se prega, mas parece que só agora é que se começa a prestar a devida atenção. Será que isto só lá vai com o crescente apodrecimento do regime?

PS: Cavaco e Sócrates almoçam hoje juntos. Ao nível a que as coisas chegaram, é de temer que um deles aponte para cima e diga ao outro "olha ali a república a voar", e aproveitando-se da breve distracção e basbaque do interlocutor, abra uma das pedras dos anéis (ou o alfinete da gravata) e deite o conteúdo venenoso na sopa do outro. Pelo menos noutras repúblicas, como a Romana, era prática corrente.