terça-feira, fevereiro 23, 2010

Uma capela

Para completar o post anterior, deixo aqui duas imagens que demonstram bem a violência do temporal e das torrentes de lama que se abateram sobre a Madeira. Trata-se da capela de Nossa Senhora da Conceição, no lugar de Babosas, freguesia de Montes, nos arredores do Funchal. Ou melhor, tratava-se. Na fotografia de cima vê-se o pequeno templo que lá estava. O que restou agora é o que vemos na de baixo.












segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Catástrofe

A melhor forma de se perceber uma tragédia é ver as imagens dos seus efeitos. Estou sem televisão e ainda não percebi muito bem como ocorreu a catástrofe na Madeira, mas há fotografias que ajudam a perceber, como as enviadas pelos leitores do Público.


Provavelmente não se estaria à espera de uma tempestade tão arrasadora na ilha de clima ameno. Prova que a natureza nos prega partidas cruéis, mesmo que pensemos estar a salvo delas.

Não deixa de ser tristemente irónico que os oitenta milhões de Euros aprovados no Parlamento pelos partidos da oposição, que levaram de vencida o PS, terão afinal mito mais préstimo do que se poderia julgar à partida.

domingo, fevereiro 21, 2010

Martim Moniz

Há estações do metro de Lisboa com a sua piada (e outras francamente escuras e decadentes). Mas poucas terão a deliciosa ironia da do Martim Moniz: apresenta na decoração figuras de cruzados e bispos (em homenagem ao guerreiro entalado que deu o nome à praça), naquela que é precisamente a zona com mais muçulmanos por metro quadrado em Lisboa.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Um deserto?
Eis o possível futuro resultado do sorvedouro de recursos, gente e meios que é o litoral português, entre Braga e Setúbal, em especial a Grande Lisboa. Os aziagos áugures que profetizavam um deserto em Portugal podiam estar cobertos de razão. A visão da travessia de um deserto entre uma e outra pequena cidade é bem real, infelizmente. Impõe-se a pergunta costumeira e sem resposta: que fazer? Certo é que se um país condena uma parte do seu território a tornar-se um deserto, perde também a soberania correspondente.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Nova Yorke também pode ser pia
Tal como pensava, em Wathever Works, Larry David é um alter ego de Woody Allen, só que ainda mais neurótico que o realizador. Um misantropo desagradável, niilista e com complexos de toda a ordem (a começar pelos de superioridade), que só se amacia com uma mente simples.
No filme, uma família típica do Sul profundo, do Mississipi, chega em diferentes vagas e por razões diferentes (mas interligadas) a Nova York, e com o tempo e os contactos com os indígenas, esquece os seus hábitos conservadores, abandona a religião e adopta modos de vida pouco convencionais, que até aí lhe eram estranhos.
Tal metamorfose cria a impressão que a Big Apple é mesmo a "Babilónia" dos tempos modernos, a cidade "sem Deus", hedonista e niilista, segundo certos grupos evangélicos americanos. Isso e o dia de hoje recordaram-me a minha passagem pela cidade, há uns anos, também em Fevereiro. Era Quarta-Feira de Cinzas (felizmente passei o Carnaval sem sequer me lembrar da data), tal como agora. Visitando a St Patricks´s Cathedral, vi multidões de pessoas formando filas e mais filas para que os sacerdotes lhes colocassem na testa a marca das cinzas, em forma de cruz. Recebiam-nas e depois saíam, indo à sua vida. Havia de tudo, de todas as classes sociais, de todas as raças, de todas as idades. Havia executivos de gabardina e pasta, adolescentes vestidos à break-dancer, mulheres com ar de estar entre a escola dos filhos e o trabalho, velhos com todo o tempo do Mundo. No fundo, o que ali estava era uma pequena representação de Nova York: uma grande parte dos seus crentes, levados naquela manhã ao tempo pela sua Fé, tão multiplicadamente heterogénea e cosmopolita como a própria cidade.

domingo, fevereiro 14, 2010

Prematura e apressada

Quando vi nas bancas a notícia de que Paulo Rangel avançaria para a liderança do PSD fiquei sem saber o que pensar. Sendo certa a anunciada candidatura de José Pedro Aguiar Branco, a posição de Rangel não faz o menor sentido. É sabido que o líder do grupo parlamentar laranja não desistiu antecipadamente em favor do euro-deputado. Sendo os dois do mesmo grupo interno do partido, com ideias semelhantes (embora de estilos muito diferentes), conhecendo-se há muito, e tendo mesmo Rangel sido Secretário de Estado de Aguiar Branco quando este era Ministro da Justiça no breve governo de Santana Lopes, que razões haverá para este avanço?

Parece que Rangel ultrapassou o estigma de "novo turco" no PSD. A prestação como líder parlamentar e a exaltante vitória nas Europeias catapultaram-no para um lugar de destaque no partido e no panorama político nacional. Embalado pela popularidade ganha em tão pouco tempo, e provavelmente com algum deslumbre, Rangel resolveu avançar, ao contrário do que dissera há tempos, argumentando com a alteração de circunstâncias, que o terá levado a dar esse passo. A meu ver, um pouco maior do que a perna.

Parece-me, antes de mais, que esta candidatura à revelia de Aguiar Branco não faz justiça ao líder parlamentar do PSD. Sabemos como em política quem quer chegar ao topo tem por vezes de remover "obstáculos", mesmo com alguns empurrões ou golpezinhos. Ainda assim, não esperava esta atitude vinda de Rangel ao seu antigo Ministro. Para quem quer ser um exemplo ético para o país, não é um bom começo de caminhada. Depois, a razão supracitada de pertencer à mesma família política e ao mesmo círculo (onde também cabe Rui Rio, por exemplo) deixa adivinhar que dividirão os apoios dos que à partida votariam numa única candidatura. Pedro Passos Coelho deve achar todo este processo muito interessante.


Depois, claro, o facto de Rangel ser um militante recente joga contra ele e será com certeza usado pelos adversários. O bom desempenho como líder parlamentar (a que pode juntar o célebre discurso do 25 de Abril de 2007) deu-lhe também reconhecimento, mas Aguiar Branco também o é, tem cumprido o papel com descrição mas competência, e o facto de só avançar depois de resolvida a discussão do OE dá-lhe credibilidade. O efeito das Europeias e a mediatização daí decorrente deram alento a Rangel, mas o certo é que a derrota nas Legislativas desinchou um pouco o balão de entusiasmo.
Como o tenho como pessoa de visão, não acredito que avance completamente às cegas. Lembro-me de o ouvir referir o exemplo dos políticos franceses, como Miterrand, que iam aos vários actos eleitorais, coleccionando derrotas sobre derrotas, até por fim chegarem ao lugar pretendido. É possível que seja essa a ideia de Paulo Rangel: apresentar-se a sufrágio, não ganhar, mas ir reunindo experiência a apoios, até ver chegada a sua hora. Pode ser. Em todo o caso, corre o risco de se queimar e de perder aliados. E não deixo de pensar que há um certo deslumbramento com os acontecimentos recentes (o discurso desta semana no Parlamento Europeu, dramatizado e histriónico, é disso prova, e não terá caído bem entre os euro-deputados nacionais) que o levou a dar esta guinada para a cúpula laranja. É, por isso mesmo, é uma candidatura prematura, apressada e inoportuna, de quem se deveria constituir como reserva válida mas que resolveu meter a carne toda no assador. Passos Coelho tem assim o caminho mais aberto para a liderança do partido, e quem sabe, do país.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Invictus

Parece que Invictus não caiu no goto dos críticos de cinema, que o classificam como 2um bom filme", mas apenas uma obra menor de Eastwood, atribuindo-lhe por norma três estrelas. Eu dava-lhe quatro à vontade. Por causa dessas críticas , nem estava com grande vontade de o ver (o perigo que são as influências dos "entendidos" na Sétima Arte), mas lá cedi, aproveitando para regressar ao velho Nun´Álvares, em boa hora reaberto.

Além de todas as considerações históricas conhecidas sobre a transição do Apartheid para uma sociedade multi-racial, mostra-se o papel central de Nelson Mandela noutras vetentes que à partida poderiam parecer secundárias ou de nula importância, mas que pelo seu simbolismo e capacidade de exaltação, contribuíram para a conciliação sul-africana. Mandela percebeu que tinha nos Springbocks, a equipa de rugby da África do Sul (até então apenas apreciada pelos brancos, e hostilizada pelos negros), e no Mundial da modalidade que se disputaria em 1995, uma possibilidade real de unir o país através do apoio à sua equipa. Impediu assim que as instâncias desportivas extinguissem os bocks e deu-lhes todo o apoio, até atingirem o almejado (e à partida inimaginável) milagre: a vitória no Mundial, sobre os temíveis All Blacks da Nova Zelândia. Com isso, deu um passo de gigante na união do país. De súbito, os negros passaram a apoiar uma equipa que até aí era património" dos brancos, em especial dos afrikaners, e um símbolo do Apartheid.

É essa autêntica gesta que Eastwood nos conta, primeiro com algum comedimento, mas com uma última meia-hora, a do jogo, seus antecedentes e consequências, de ininterrupta emoção, de pura adrenalina cinéfila, que deveria figurar entre as mais excitantes do ano. A cena do avião é absolutamente fenomenal. Morgan Freeman, um dos que mais lutou para que este filme fosse feito, consegue finalmente dar corpo a Mandela, com uma interpretação comedida mas muito realista, sem rodriguinhos. Matt Damon está também muito bem no papel de François Pienaar, o capitão dos Bocks, na sua frustração inicial, nas suas dúvidas, e por fim na sua determinação. As nomeações para os Óscares foram justíssimas. Além da direcção de actores e de uma fita sem momentos mortos, Eastwood conseguiu ainda captar imagens reais do jogo, nomeadamente do público, adaptadas depois ao filme, naquele tom ligeiramente baço e desbotado, mas muito belo, que é já imagem de marca das suas obras. Também aqui esta não foge à regra das restantes.



E além do mais, o timing é muitíssimo bem escolhido. Dir-se-ia que o filme decidiu comemorar efemérides: está em exibição nos cinemas de todo o mundo precisamente hoje, quando passam vinte anos da libertação de Nelson Mandella (cujas imagens reais surgem logo no início). E, embora lançado em 2009, só se espalhou pelas salas em 2010, ano em que a África do Sul será também objecto de notícias do desporto, recebendo novamente um grande evento: o Mundial de futebol. Trará esta prova, tal como a de 1995, algo de novo aos sul-africanos?

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

João Pereira, o tradicionalista


Há quem nunca se esqueça da tradição. João Pereira é uma dessas pessoas. Em todos os jogos entre Benfica e Sporting, cumpre sem mácula a nobre tradição de conseguir sempre irritar os adeptos leoninos.

(Convenhamos que ganhar por 4-1 com Kardek e Éder Luís como dupla de ataque, e deixar no banco Saviola, Aimar Cardozo e Maxi Pereira, está apenas ao alcance de um grande equipa. Mas o Sporting está com a moral no fundo do poço).

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Ucrânia: nova aliada da Rússia?



Viktor Ianucovitch terá ganho as eleições presidenciais ucranianas, como se previa com a dose de prudência necessária. É o fim anunciado da Revolução Laranja, de fins de 2004. Então, o virtual ganhador das eleições deste fim de semana era apeado pelos ucranianos apoiantes de Viktor Iushenko, depois de provadas as fraudes que o deixaram à frente na segunda volta. Numa fractura Oeste-Este, ganhou o candidato pró-ocidental, e a sua apoiante, Iulia Timoshenko, que se tornaria Primeira-Ministra e figura tutelar e carismática da Ucrânia; do outro ficou Ianucovitch, apoiado pela parte russófona ucraniana, concentrada na bacia do Don, e evidentemente pelo Kremlin. Convém não esquecer que este enorme estado do Mar Negro já pertenceu em parte ao Império Otomano, que o seu extremo ocidental estava sob domínio dos Habsburgos, e que Kiev é um dos berços dos nação russa, que nunca se conformaram com a secessão da ex-segunda maior república soviética. Além de que a Rússia tem a sua frota do Mar Negro sediada em Sebastopol, um acordo de usufruto para manter aquela força naval na Crimeia, antiga região cedida à Ucrânia, mas fortemente pró-russa. Sempre atenta ao seu "raio de influência", Moscovo tentava levar os seus aliados internos ao poder e impedir a aproximação do país à UE e aos Estados Unidos, com o risco de o ver entrar na NATO. Pelo meio ficou o episódio mediático e grotesco da tentativa de envenenamento de Iuschenko (um método bem conhecido do KGB, como ilustrou o episódio Litvinenko), que lhe desfigurou em parte a cara mas não o impediu de se tornar presidente.


Passados cinco anos de instabilidade política, trocas de cadeiras governamentais e da ameaça russa (e concretização parcial) do corte de gás natural, a situação alterou-se completamente. Iuschenko teve um resultado humilhante na primeira volta das eleições - menos de seis por cento e o quinto lugar - e o seu opositor de 2004 ficou na calha para ganhar à segunda volta.


A sua opositora, que com ele trocou o cargo de chefe de governo e que entretanto se desentendeu com o Presidente, assumiu-se como política de primeira plano. A sua imagem de marca, de cara angelical e inconfundível trança de camponesa, já lhe deram o epíteto de "Joana D ´Arc". é uma mulher de baixa estatura mas de espírito firme e autoritário, e com tentações de culto de personalidade, como se pôde concluir com os panfletos que a mostravam de toda a forma e feitio (astronauta, camponesa, etc) e que estiveram recentemente à vista do público na exposição de cartazes políticos no novo Museu do Design, em Lisboa. Com a anunciada derrota, Timoshenko já dramatizou o discurso e ameaça recorrer aos tribunais. Mas ninguém acredita que o escrutínio de agora seja invalidado. Ianucovitch assumirá a presidência e Iulia será a provável líder da oposição. Os sinais da Revolução Laranja foram varridos (tal como os de outras "revoluções coloridas" de Leste), e a divisão entre apoiantes da Rússia e do Ocidente permanece. Com um aliado dos russos à frente dos destinos do país, ver-se-à para onde vai a Ucrânia. Apenas uma certeza: a NATO bem pode desistir dos seus intentos em angariar novos membros por aquelas bandas. E a Rússia bem pode ter reavido um aliado de peso.


Mais e melhores informações da situação ucraniana podem servistas no blogue de José Milhazes, Da Rússia.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Hergé e os judeus



Embora conheça todos os álbuns de Tintin (excepto o incompleto Alph Art, por essa mesma razão), uma das coisas que mais gostava de fazer era de lê-los a todos nas versões originais, isto é, a preto e branco, com aquele traço a carvão que ficou para sempre nesse magnífico Au pays des Soviets. Sei que pelo menos quatro deles são vendidos nessas versões, mas ignoro se houve mais edições. Abriu recentemente uma loja do herói belga em Lisboa, na Avenida de Roma, por isso talvez tenha sorte.


Nessas edições notam-se diferenças em relação aos coloridos, ou porque estão datados, ou por razões de conveniência, muitas vezes política. Como se sabe, Tintin nasceu como repórter do Petit Vintième, suplemento juvenil do jornal onde o seu criador trabalhava e que era dirigido pelo padre Wallez, um sacerdote ultratradicionalista com admiração por Mussolini e que iria apoiar o movimento Rexista de Leon Degrelle (de resto também ele amigo de Hergé, e segundo o próprio, inspiração física de Tintin). Por causa disso, muitas vezes o conotaram com posições pró-fascistas, anti-semitas e pró-nazis, tendo como base alguns dos livros originais.


Um dos casos é A Estrela Misteriosa, que data de 1941, época em que a Bélgica estava ocupada pela Alemanha nazi. No livro, com um cenário inicial apocalíptico, uma expedição europeia, em que participam Tintin e Haddock, vai em busca de um metal caído do espaço, e é constituída exclusivamente por cientistas de países do Eixo ou neutros (entre os quais um português). A expedição rival é americana, usa em vão todos os truques para chegar primeiro, e é financiada por um banqueiro judeu, com todos os traços inerentes.


Mais tarde, Hergé mudaria nomes e o carácter do financiador, mas também um interessante quadradinho que surge quase no início. Aí, dois judeus caricaturados falam um com o outro, perante a eminência da colisão da Terra com uma estrela, e um deles afirma que seria bom porque assim não teria de devolver o dinheiro que devia aos fornecedores.


Em tempos de ocupação, ficava sempre bem atribuir aos hebreus um carácter perverso e pecaminoso. É conhecida a extensa propaganda anti-semita feita pelos meios culturais do Reich, como o filme Jud Suss, à qual também a BD não escapou, coisa que seria ainda menos fácil numa publicação como o Vingtième Siécle. Mais tarde, na primeira versão de No País do Ouro Negro, concebido ainda durante a ocupação, Tintin é raptado por elementos do Irgun, o movimento terrorista que lutava contra o Mandato britânico da Palestina. Na versão moderna, os raptores são árabes.
Apesar das simpatias políticas de Hergé e do seu anti-comunismo, duvido que se possa considerar o autor como um pró-fascista ou sequer ou colaboracionista dos nazis. A negá-lo estão as obras anteriores à Guerra, em especial O Ceptro de Ottokar, em que se faz uma violenta sátira contra o Anchluss, e em que o repórter impede que o reino balcânico da Sildávia seja anexado pela Bordúria, um estado totalitário onde pontifica a Guarda de Aço (clara inspiração na Guarda de Ferro romena, de Codreanu), chefiada por Musstler - um anagrama de Hitler e Mussolini.
Mas já as referências pouco abonatórias aos judeus fazem pensar que haveria um certo sentimento se antipatia. Hergé, que pôs Tintin a defender os índios, os negros, os chineses e os ciganos, é bem menos condescendente nas suas primeiras obras face aos hebreus, e também aos americanos. Mais do que acompanhar uma moda de hostilidades de uma certa época, Hergé parece devotar também muito pouca simpatia pelo capitalismo e pelo grande mercado, representado exactamente por estes povos. É um sentimento muito europeu (do Centro e Sul), particularmente católico, de repulsa do capitalismo e da vida moderna, contrapondo a amizade, a coragem e a abnegação. Tintin é por excelência um herói do Velho Mundo, sem super-poderes nem armas, que apesar de se inscrever numa determinada era, nem por isso o público o considera datado. Tanto que os anunciados filmes de Steven Spielberg baseados no repórter aí vêm. Enorme ironia: será um judeu americano a fazer de Tintin um produto para as grandes massas no novo Mundo; tudo aquilo que Hergé criticava vai-se apropriar assim da sua maior criação. Desejá-lo-ia o autor? A adaptação ao cinema já era um plano do seu conhecimento, e a sua Fundação deu o aval. No fundo, o capitalismo americano reinante conseguiu atrair um dos seus adversários, sem o considerar um Cavalo de Tróia. E ao que parece, os judeus não se importaram muito com as primeiras versões.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Chico-espertismo alfacinhas suportados pelos dinheiros públicos



A ida do Red Bull Air Race para Lisboa provocou as convulsões esperadas, como tudo o que acontece neste género de coisas. Poderia ser uma mera iniciativa da Red Bull, em que Lisboa e Oeiras não se pudessem opor, e em que António Costa, muito solícito, tivesse avisado antes os seus homólogos de Porto e Gaia. A ser assim, não se poderia acusar as entidades locais ou o governo central de "roubarem" a corrida, mas tão somente a empresa austríaca de bebidas energéticas de a mudar de lugar. A indignação portuense deveria ser assim canalizada para a Red Bull, e não para os novos locatários da prova.


Simplesmente, os custos da operação são muito superiores aos que eram suportados pelas autarquias de Porto e Gaia. De 400 mil euros para 3,5 milhões vai qualquer coisa. O Turismo de Portugal dá uma ajuda, é certo, mas porque não se lembrou disso nos três anos anteriores? Esquecimento, ou os seus responsáveis não saem para fora dos gabinetes?

Toda a operação é de um provincianismo que mete dó. A polémica estourou em Dezembro, mas só agora é que se teve um conhecimento mais real dos números. Por muito que não aprecie a figura e as ideias de Santana Lopes, dou-lhe razão neste caso. A transferência da prova com apoios estatais e mais dinheiros das câmaras que a vão promover representam um acréscimo de gastos de dinheiros públicos. O tradicional chico-espertismo português travestido de fato de negócios e ar institucional: como não se atraem novos investimentos de fora, como deveria ser a regra, vai-se buscar a outras cidades do mesmo país. A isso chama-se incapacidade de atrair investimento estrangeiro e concorrência desleal, com o patrocínio do Estado.

E não era Lisboa que há bem pouco tempo tinha as contas em pantanas e um gigantesco buraco orçamental? António Costa diz que o primeiro meio-mandato era pôr a casa em ordem. Por muito boa gestão que tenha feito, é impossível pensar que as contas foram regularizadas em tão pouco tempo. Problemas supervinientes haverá, certamente, mais importantes e que necessitem de mais recursos. Veja-se a quantidade de casas devolutas na Capital, por vezes autênticas jóias desprezadas, creio mesmo que alguns Prémio Valmor. Mas prefere-se levar a Air Race para o Tejo com consequente aumento de custos a recuperar uma cidade desmazelada e ferida. Opções sem nexo, ou disparates que prejudicam uns sem melhorar a vida de outros, com o suporte do erário público.


Comigo não contam para a nova prova no Tejo. Até porque em estuário tão largo, a espectacularidade dos loopings dos aviões, uma prova de concentração mas um movimento belíssimo nas margens abruptas do Douro, perder-se-à seguramente no ar, com pequenos pontos longe da vista dos espectadores.

domingo, janeiro 31, 2010

Os livres pensadores do terrorismo


Gostava de saber porque se intitulam de "livres-pensadores" indivíduos que comemoram assassinatos de adversários como forma de espalhar ou "impor" as suas ideias. Alguém os prende? Alguém os impede de pensar? Ou sequer de defender a liquidação de quem não encaixa nos seus ideaizinhos, ainda que sejam indigentes? E quem pensa de forma diferente, não é livre?
Quando ao rótulo de "livre pensador" um apologista de pistoleiros e bombistas (que acha que o ministério de João Franco, sob o reinado de D. Carlos, era "totalitário") ainda acrescenta o de "historiador", então estamos perante uma mente que urgentemente devia procurar auxílio psiquiátrico. Também há no Conde Ferreira gente que se acha D. Sebastião ou D. Quixote.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Woody e Larry

Por esta altura da estação costuma aparecer nos cinemas o costumeiro filme de Woody Allen. Já me perguntava se haveria algum este ano, e em que cidade europeia, quando de súbito vi um cartaz de cinema respondendo à minha questão. Há realmente novo filme, chama-se Whatever Works, e estreia-se em Fevereiro. Ao que parece, o realizador resolveu voltar à sua Nova Yok. Mas o interessante é o protagonista do filme: trata-se nada mais nada menos do que Larry David, o conhecido argumentista de Seinfeld e da série dele próprio, Calma, Larry. Woody já lançou diversos alter egos nos seus filmes (embora não o faça há uns tempos), mas nenhum terá tantas características comuns como David: é igualmente judeu, novaiorquino, e um pouco neurótico. Um verdadeiro ser da mesma espécie, que trará algo de velho à filmografia do velho Allen, antes que este volte a cruzar o Atlântico para uma qualquer urbe do Velho Mundo.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Ideias para subverter modas passageiras
A moda dos vampiros juvenis e apaixonados, popularizada pela saga Twilight, chegou a Portugal. Por toda a parte se vêem cartazes anunciando uma nova série da TVI, de seu nome Destino Imortal, transpondo para Portugal esta mistura de vampiros com Morangos com Açúcar (por acaso, uma criação do mesmo canal). Mas olhando para os cartazes, surgem-nos uma ameaçadora Evelina Pereira, uma Catarina Wallenstein desbotada, tal como os correligionários ao lado, e uma Maria João Luís e um Rogério Samora pálidos mas com ar cândido, quase ingénuo. Ora com essas expressões podia-se criar qualquer coisa com mais nonsense, com mais humor. Há uns anos surgiu o Ninja das Caldas, uma produção nacional de baixo custo com conhecido sucesso. Levando por diante esse modelo, podia aparecer qualquer coisa como os Vampiros de Oliveira de Azeméis, o Drácula de Loulé, o Nosferatu de Espinho ou o Blade do Monte da Caparica. Se as televisões generalistas não pegarem nisto, algum cineasta amador há de o fazer.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Coisas que por vezes passam despercebidas


O mito do "apoio popular" do 5 de Outubro cai perante as evidências. A imagem propagandística e oficial da implantação da república, da autoria de Joshua Benoliel, mostra uma Praça do Município, em Lisboa, a abarrotar de gente, perante os semblantes solenes dos oradores. Mas a foto original autêntica revela o vazio da praça. Também a olissipógrafa Marina Tavares Dias a mostra e refere, no seu último álbum (uma espécie de best of da sua magnífica colecção Lisboa Desaparecida), que o público presente não ultrapassaria as cem pessoas. Mais ou menos o número dos curiosos que costumam assistir à cerimónia anual, no mesmo espaço.


Tendo em conta que o número de manifestantes que na noite de quatro para cinco de Outubro passado ergueu a bandeira azul e branca era de duzentos, fica-se a pensar que a República cairia com mais facilidade do estaríamos à espera...










quarta-feira, janeiro 20, 2010

Este blogue já tem idade para ir para à primária

A Ágora
Por João Pedro Pimenta. Blog de expressão portuense, benfiquista, monárquica, católica e politicamente indeterminada. Pelo menos até ver...

Esquecer-se de um aniversário importante é sinal de memória fraca e desleixo. Que diria uma mulher de quem o marido ou namorado se tivesse esquecido dos seus anos? Ou um filho de um pai? Não se sentiria bem, por certo. Pois deixei, uma vez mais, passar, o aniversário de A Ágora. No dia 16 de Janeiro, este blogue completou seis anos de actividade. É verdade, meia dúzia. Não posso deixar de dizer que é assinalável. Mas é estranho este esquecimento, quando em 2009 acabou por ser o ano mais produtivo. Ainda assim, não cheguei aos mil posts, consequências de um blogue escrito a duas mãos. Mas falta pouco. Será em 2010, seguramente. A única forma de ser perdoado por este lamentável lapso de memória é continuar a blogar .

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Ciganos, ursos dançantes e cisnes assados.




Escrevi muito sobre impressões romenas nos últimos tempos, e das suas minorias germânicas e húngaras. Não me lembrei de falar sobre aquela que mais dores de cabeça tem trazido, a mais óbvia: os ciganos. Já todos terão visto ciganos romenos a pedir ou a tocar música na rua e nos transportes públicos (às vezes com um cãozinho ou um macaco para enternecer), ou em certos casos a vender revistas como o Borda d´Água ou a lavar vidros dos carros nos semáforos. Não são pessoas que se olhe sem franzir o sobrolho ou de forma paternalista, dado o seu aspecto muitas vezes hirsuto, os modos duvidosos, e a fama que sempre acompanhou este povo, tanto por preconceito como por razões mais válidas. O seu nomadismo e os seus ancestrais hábitos de comunidade fechada, que não se rege por leis externas dos estados onde se acolitam, tornam-nos visitas incómodas.

Mas na Roménia, ao contrário do que cá se pensa, são também uma minoria. Raramente são bem vistos e frequentemente são discriminados. Tal como noutros países, vivem à margem da sociedade. Acredita-se que sejam provenientes da Índia e que tenham vindo da Ásia com os guerreiros mongóis da Horda Dourada. Espalharam-se pela Europa toda no Século XV, mas permaneceram sobretudo no leste do continente. Até ao nascimento do moderno estado romeno, em meados do Século XIX, permaneceram num regime de servidão e semi-escravatura. Com o regime pró-eixo do Conducator Ion Antonescu, muitos foram deportados para a Bessarábia, e grande parte morreu em campos de concentração. Depois, Ceausescu deportou muitos deles para a inóspita planície de Barragan, onde seriam menos visíveis. Mesmo após 1989 a sua situação não mudou logo, se bem que os mais recentes relatórios da União Europeia testemunhem progressos no seu tratamento. Ainda assim, não se sabe correctamente o seu número: os dados oficiais romenos dizem 500 mil; mas a UE estima que sejam perto de dois milhões d ciganos. Claro que a sua Diáspora torna todas as estimativas muito mais complicadas. Também já ouvi dizer, a pessoas que conhecem melhor o país, que não passam de duzentos mil; outros afirmam que os viram por toda a parte, a começar pelo aeroporto. E o incómodo com esse povo continua, como testemunhou Madona, há pouco tempo, em Agosto, poucos dias antes da minha passagem, quando num concerto em Bucareste ouviu vaias do público ao referir-se à discriminação dos ciganos.

Sendo os mais pobres dentro da pobreza romena, espalharam-se pela Europa e causaram aí sérios embaraços ao governo romeno, que estava em negociações para a adesão à UE. Alguns primam pelo caricato:



Entre outros acontecimentos estranhos desse êxodo, alguns grupos de ciganos capturavam cisnes dos lagos de Viena para os assar e comer, à vista de todos. A coisa provocou pânico entre os negociadores romenos, mas, como se sabe, tudo acabou em bem e a Roménia aderiu à UE. Um dos efeitos imediatos, aliás, recaiu sobre uma ancestral e mítica prática cigana: a UE proibiu as exibições de ursos dançantes, treinados pelos seus donos, os ursari, que desde há séculos os levavam a dançar em feiras, circos, cerimónias religiosas e até políticas, da era do Império Bizantino (e também na Europa ocidental até certa altura). Agora, com os tempos modernos e os defensores dos "direitos dos animais", graças ao qual a Playmobil não lançou um boneco representando estes bichos, não mais se verão saltimbancos a exibir ursos a dançar nas feiras. Em compensação, as memórias burlescas mas deprimentes dos cisnes a assar no espeto nos parques vienenses são mais duradouras, e são ilustrativas de um povo que vive num enclave permanente, onde quer que esteja, e que é quase um conjunto de zombies por onde quer que passe.

sábado, janeiro 16, 2010

Haiti: sobre a miséria, o apocalipse


Só na noite de quarta-feira é que soube da catástrofe haitiana. E só no dia seguinte é que pude ver as suas proporções. Mais do que uma catástrofe humanitária, viu-se o colapso de um estado, já de si pouco seguro e corroído pela sua instabilidade, violência e estranhas tradições.

Os sismos não raras vezes desencadeiam cataclismos imensos, como aqueles que assistimos normalmente na Ásia nos últimos anos (China, Paquistão, Irão, Malásia, etc), e deixam marcas profundas. Por aqui, o Sul do país também para sempre ficou marcado pela terramoto de 1755, do qual nos lembramos em momentos em que a terra se lembra de mexer um pouco, como aconteceu em Dezembro último, com uns abanõezinhos que puseram imensa gente a aderir a grupos no Facebook com nomes como "eu sobrevivi ao sismo de Dezembro", como se uma grande peripécia se tratasse.

Neste caso, à magnitude dos estragos junta-se a visibilidade de um país e suas estruturas de governação literalmente por terra. As ruínas do palácio presidencial e da catedral ilustram isso na perfeição. O que não sucederia aos frágeis bairros de lata ou às casas alcandoradas nas colinas de Port-au-Prince.


O Haiti é uma das terras mais estranhas e miseráveis do globo. Dividindo a ilha da Hispaniola, a segunda maior das Caraíbas, com a vizinha República Dominicana, este estado montanhoso, onde a população é negra ou mulata e fala francês e crioulo é o país mais pobre das Américas. Quando há uns anos, na faculdade, tive de fazer algumas pesquisas para a cadeira de Direito Internacional Público sobre as acções de peacekeeping em 1994, na altura da eleição de Jean-Bertrand Aristide, vi imagens da miséria profunda daquele povo: os bidonvilles com lixeiras à mistura, onde sobressai a enorme Citée du Soleil, onde por vezes se queimam pneus com homens presos lá dentro, as pessoas a tomar banho nos esgotos, as gaivotas penduradas no Porto, antes de servirem de refeição, etc.


A metade francófona da Hispaniola tem um história trágica e violenta. Era a colónia francesa de Saint-Domingue, preciosa e fértil, movida pela força dos escravos trazidos de África, mas estes revoltaram-se em 1803, chefiados pela intrépido Toussaint Louverture. O líder negro conseguiu grandes feitos, mas acabou por ser preso pelos franceses, e morreria numa fortaleza do Jura. Mas a revolta triunfou e o Haiti proclamou a independência. Seguiu-se um século de auto-proclamados imperadores, como Dessalines, tiranetes vários, uma prolongada intervenção norte-americana, até à chegada, em 1957, de François Duvalier, o célebre Papa-Doc. Este impôs um sinistro regime, brutalizando e aterrorizando a população com a sua milícia pessoal, os sinistros Tonton Macoutes, e com práticas vodu, que a população segue, a par do cristianismo. Depois da sua morte, sucedeu-lhe o estouvado filho, Baby-Doc, até que uma revolução em 1986 o expulsou. Depois de anos de instabilidade, Aristide foi eleito presidente, prometendo uma nova era de prosperidade e justiça social, em que os paupérrimos negros teriam as mesmas oportunidades que a elite mulata, que vivia nos seus bairros desafogados nas colinas. Teve de fugir por causa de um golpe de estado, mas com a ajuda dos Estados Unidos voltou ao Haiti em 1994. Mas o seu governo nada resolveu, caracterizou-se por opressão e corrupção, e também Aristide acabou por deixar o cargo no seguimento de revoltas. René Préval seguiu-se na presidência, até agora. Com um pouco mais de estabilidade, mas na miséria de sempre.



É este país de mulatos remediados e negros miseráveis, montanhoso, pobre, com uma larga história de violência, imerso no vodu e no culto a figuras como o Baron Samedi, que está agora a atravessar o caos. Mais de cem mil mortos, mais de um milhão de desalojados (o epicentro deu-se na capital, Port-au-Prince), corpos amontoados, todas as estruturas estatais destruídas, falta de hospitais para os feridos, doenças, fome, e provavelmente, tumultos e pilhagens. O desespero, em suma. E neste país, que apenas nominalmente o é, podemos ver o inferno dos que não tinham quase nada e que mesmo isso perderam. Escombros, lama e ajuda humanitária, é tudo o que resta num território, que de facto, já não é um estado. Ou talvez seja apenas o estado pós-apocalíptico.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Sunday, silly sunday



Planear ficar em casa a trabalhar num dia de chuva e esquecer a chave numa curta saída até que os vizinhos que têm uma cópia cheguem é o cúmulo da distracção conjugado com a falta de oportunidade. No dia em que mais devia evitar sair, tive de andar a evitar poças de água e goteiras, com um frio glacial à mistura. Sempre deu para entrar num livraria e folhear uma volumosa biografia de Bruce Chatwin. A certa altura, saltou-me à vista uma passagem, sobre uma curta visita do escritor-viajante a Lisboa, em 1977, em trânsito do Brasil para Inglaterra: "Cidade triste, cartazes comunistas por todos os lados; um com metralhadoras portáteis, enxada e chave inglesa. Que curioso terem escolhido o emblema de Caim".
A referência é evidentemente ao PRP-BR (que ainda tem um site a navegar), esse partido-movimento armado que deu brado no PREC. Estranho é que em 1977, tal força oficialmente já não existisse: ou os cartazes estavam muito usados, ou Chatwin, na sua prosa com fantasia misturada, falava de murais de rua. Não impede que seja uma descrição deprimente e pouco abonatório de um período mais infeliz da vida portuguesa. E curiosa, a referência a Caim. Ficariam aborrecidos os PRPs com tal comparação? Ficariam contentes, dada a sua actividade violenta? Saberiam ao menos quem era o irmão de Abel? Certo é que a alusão do escritor era premonitória, já que alguns elementos do movimento transitariam mais tarde para as FP-25.
Resta acrescentar que escrevi esse trecho ilustrativo num Moleskine, um caderno também muito publicitado graças a Chatwin.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Inspirações no Danúbio


Revi o Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena, emissão que tento nunca perder mesmo que tenha de gravar. É verdade que é sempre igual, do edifício à narração de Eládio Clímaco, com os eternos japoneses a assistir, mas já se tornou um hábito de estimação de boas vindas ao novo ano. Quando a orquestra atacou o Danúbio Azul, a intemporal valsa de Johann Strauss (a que Kubrick emprestou uma memorável cena espacial), viram-se imagens do percurso do rio, desde o começo, a Floresta Negra, até ao seu termo, o Mar Negro, desdobrando-se na teia do delta. Só aí reparei no contraste entre as "cores" dos extremos do rio, e a da valsa que o imortalizou. Curiosa a razão porque terá invocado Strauss a cor azul, mas deve ser porque em Viena atinge por vezes uma coloração magnífica - quando não está cinzento. E provavelmente para dar um tom de encantamento à então capital do Império dos Habsburgos.


Danúbio é também o nome da opus magna do italiano Claudio Magris. Da(s) nascente(s) ao Delta, o professor de literatura alemã da Universidade de Trieste percorre todo o curso do rio e regiões circundantes, mesmo algumas mais afastadas, estudando a sua história, os seus povos, o seu espírito, entre a ocidental Alemanha e a margem leste da Europa, isto numa altura em que o Muro de Berlim ainda não tinha caído. É talvez o guia que melhor expõe a Mitteleuropa e a herança dos Habsburgos. O meu recente percurso na Roménia não levei guias, porque não os encontrei. Assim, socorri-me de Danúbio, tanto para ficar com uma ideia mais clara do país como para deixar as minhas impressões. O que aprendi da Transilvânia deve-se em muito a Magris.


Na parte referente à Roménia, falando do Banato, região cuja capital é Timisoara e que até há uns anos tinha uma colónia germânica apreciável, Magris referia-se a vários novos autores suabos de língua alemã. Entre eles, estava uma jovem escritora apenas conhecida localmente chamada Herta Muller. O italiano, que é todos os anos colocado como um dos grandes aspirantes a ganhar o prémio Nobel, dificilmente poderia imaginar na altura que aquela jovem e obscura romena de etnia alemã vivendo sob o regime de Ceausescu iria, mais de vinte anos depois, suplantá-lo na corrida para o prémio. É a lógica da atribuição do galardão a autores menos conhecidos, mas que têm a "sorte" de representar num determinado ano o povo certo ou de escrever no idioma indicado.





sábado, janeiro 02, 2010

Entrar em 2010 com preciosidades de 1928
Para começar bem o ano, um desenho animado histórico: Steamboat Willie, de 1928, o primeiro filme sonoro de Walt Disney, com um rato Mickey primordial e muito engraçado. Lembro-me de o ver na televisão (salvo erro num programa de Vasco Granja) quando era muito pequeno, aí com uns sete anos, e de nunca me ter esquecido de alguns acordes da música que é tocada mais para o fim, de seu nome Turkey in the Straw, como se vê pelas pautas devoradas pela cabra. Agora descobri-o e pude revê-lo e ouvir de novo as suas músicas inesquecíveis. E deixá-lo aqui em baixo, porque este tesourinho pioneiro do desenho animado sonoro deve ser dada a conhecer a todos. Divirtam-se e bom 2010.


quinta-feira, dezembro 31, 2009

Desejos

Para o novo ano? Paz, saúde, amor, trabalho, que o Benfica seja campeão, que as comemroações dos cem anos da república não consigam camuflar o que se passou em 1910 e anos seguintes e que este blogue continue activo.
Recordando a maior tragédia do Porto

Em 2009 comemorou-se um trágico acontecimento, que me passou na altura, talvez pela míngua de recordações: a tragédia da Ponte das Barcas, a maior desgraça que aconteceu à cidade do Porto, com a morte, no rio Douro, de centenas ou milhares de portuenses, que fugiam em pânico dos soldados de Soult, na 2ª Invasão Francesa, que entrar no país provindo de Trás-os-Montes, como sempre semeando a morte e a destruição.

A 29 de Março de 1809 entraram na cidade e desencadearam a tragédia. Seriam expulsos dias depois pelas tropas anglo-portuguesas, comandadas por Wellesley, que acabou por comer o almoço preparado para o general francês, que teve de fugir apressadamente. Mas a mortandade estava feita. A Ponte das Barcas, na altura queimada pelos franceses, foi reconstruída, e mais tarde substituída pela Ponte Pênsil e pela Ponte Luís I. Para relembrar esses eventos, o Público lançou quatro volumes de uma colecção intitulada "O Porto e as Invasões Francesas". No seu local da ponte serão erguidas duas obras em metal, de um lado e do outro do rio, da autoria de Souto Moura. Mas há já muito que as Alminhas da Ponte, um baixo-relevo do escultor Teixeira Lopes, são o memorial do desastre. Lá, nunca faltam velas acesas em memória dos muitos que pereceram no rio, há duzentos anos.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Imagens da Roménia - Bucareste


Para finalizar o périplo romeno, eis-nos em Bucareste, a capital da Valáquia, e com a aglutinação da Transilvânia e Moldávia, também capital nacional desde 1859. Segundo a tradição, deve o seu nome a um pastor de nome Bucur, que a teria fundado.


A cidade teve o seu período de esplendor na altura entre-guerras. Depois da destruição causada pelos zeppelins da Alemanha Imperial, ergueram-se sumptuosos edifícios art-deco e art-nouveau, bulevarduls e jardins, palácios e bairros, o que lhe deu o cognome de "Paris do Leste".

Como se sabe, grande parte desapareceu na época anterior a 1989. O regime da altura arrasou boa parte do centro da cidade para construir uma nova centralidade. Assim, o ex-libris de Bucareste passou a ser o enorme palácio erguido por Ceausescu, o segundo maior edifício do Mundo, depois do Pentágono, que domina a capital, com uma imensa avenida à sua frente, que na altura da abertura se pretendia que rivalizasse com os Champs Elysés.


O palácio, inicialmente chamado Casa Poporului, alberga as duas câmaras do parlamento, a presidência e o governo, e tem ainda auditórios, restaurantes, etc, e é visitável pelo público em geral. Ainda assim, não é totalmente aproveitado, por manifesta falta de entidades administrativas suficientes, dado o gigantismo da coisa. há inúmeros átrios, escadarias majestosas e um imensos salão de baile. Das suas varandas, os governantes pronunciavam os seus discursos, numa posição de domínio sobre a multidão reunida defronte. Nelas, Ceausescu assistiu atónito à revolta do seu povo, quando esperava ser aclamado. Nas caves e subterrâneos do palácio, quase com a mesma área dos andares à superfície, diz-se, tinham túneis de comunicação e respectivos transportes para o exterior, a distância considerável. Mas na altura em que mais podiam provar a sua utilidade, as hesitações e medos do ditador fizeram com que não se servisse deles.


A zona onde agora está o ciclópico edifício foi totalmente arrasada, entre bairros elegantes, igrejas, jardins e recintos desportivos, numa fúria demolidora que ficou conhecida como Ceauşima (Ceausescu + Hiroshima). Em casos pontuais, certas construções mais preciosas foram transladadas para outras partes da cidade, que ficou irreconhecível depois desta extensa terraplanagem.


Contudo, entre os edifícios megalómanos e o que restou da cidade pré-2ª Guerra, fervilha uma verdadeira capital europeia, em que o trânsito flui lentamente pelos bulevarduls e pelas largas praças que comunicam umas com as outras através de avenidas longuíssimas. O centro da cidade é dominado pelo Palácio do Parlamento, pelo eixo entre a praça Unirii e a da Universidade (com o grande volume do Hotel Intercontinental) e pelo que resta da zona histórica, que se desenvolve entre a rua Lipscani e a Calea Victoriei. A primeira é a histórica rua comercial da cidade, e deve esse nome aos comerciantes de Leipzig (Lipsia), que desciam o Danúbio para vender os seus produtos, e que dinamizavam uma boa porção do comércio local. Pela via fora espalhavam-se os diferentes artesãos, e a meio, perpendicular, o mercado Lipscani, com as suas portadas de ferro, converteu-se numa zona de galerias de arte, ou seja, depois da venda de legumes tornou-se o Soho ou a Miguel Bombarda de Bucareste. Na rua, agora esventrada para repavimentação, permanecem inúmeras lojas, um teatro de Revista, tal e qual como em Portugal, agências bancárias e um dos restaurantes mais bonitos da cidade, o Carne cu Biere (embora o encanto do estabelecimento seja inversamente proporcional ao profissionalismo de quem serve, mais ocupado a promover espectáculos de danças "latinas"). Numa das extremidades estão as ruínas do palácio mandado erguer por Vlad Tepes, no Século XV, e a seu lado a mais antiga igreja da capital, a Curtea Veche.

A Calea Victorei é uma comprida rua com edifícios em estilo neoclássico, como o do Cercul Militar National, com alguns do período comunista lá enfiados. A meio, a praça da Revolução, antiga praça do Palácio, abre-se em frente ao Museu Nacional de Arte da Roménia, o antigo palácio real, habitado pelos reis até à extinção da monarquia, e à Biblioteca da Universidade. No centro fica um curioso monumento à Revolução de 1989, que teve um dos seus momentos mais quentes precisamente nesta praça. A estranha obra de arte, ou "Memorial do Renascimento", é comparada a uma batata no espeto, pelo que se pode considerar o correspondente ao monumento ao 25 de Abril, de João Cutileiro, que está no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa.
Mais atrás uma das razões porque Bucareste ficou conhecida como "Pequena Paris do Leste": a passagem Macca-Vilacrosse, uma rua em galeria coberta de vidro dourado, com a forma de ferradura, ocupada por cafés e bares, em especial egípcios, como se nota pela numerosa assistência fumando narguilé. A par desta mistura arquitectónica algo caótica, dos grandes parques e do comércio com todas as marcas internacionais, pode ser considerada uma imagem da nova Bucareste, menos carrancuda do que no antigo regime.

sábado, dezembro 26, 2009

Um Natal normal, pensando nos outros.


Um Natal normal, que é o que se deseja. Um Natal em família, com as iguarias próprias da época estendidas numa mesa festiva em toalha de linho, o frio inerente, a árvore e o presépio à vista. Mesmo se já não são os Natais de antigamente, em Vila Real. Ou quando nos lembramos daqueles que já cá não estão e que há não muito tempo estavam também à mesa. E há aqueles que por falta de condições materiais, por situações fortuitas indesejáveis, ou por acontecimentos recentes e dolorosos, não têm um Natal feliz. É exactamente desses que nos devemos recordar. Desses e do essencial, como no lembram aqui:


"José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, a cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de recensear-se com Maria, sua mulher, que se encontrava grávida. E quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoira, por não haver para eles lugar na hospedaria."

São Lucas, 2: 4-7

terça-feira, dezembro 22, 2009

A última revolução violenta



Há precisamente vinte anos dava-se a última revolução sangrenta da Europa. Foi o culminar da derrocada do Bloco de Leste nos últimos meses de 1989. Depois de todas as outras "democracias populares" ligadas ao Pacto de Varsóvia caírem, só restava a Roménia, paradoxalmente o mais independente regime do bloco face à URSS, e ao mesmo tempo o mais paranóico, megalómano e controlado. Décadas de projectos de expansão industrial com vista à autonomia energética e de obras faraónicas em contraponto com estrito rigor orçamental no que tocava aos bens essenciais, insufladas por um culto de personalidade a Ceausescu, levaram à explosão social e às primeiras revoltas em Timisoara, perto da Hungria, de onde sopravam os ventos de mudança.

As autoridades reagiram com toda a dureza possível, alvejando os manifestantes, o que multiplicou a revolta. A 21 de Dezembro, o ditador convocou um aparatoso comício de apoio na capital, em frente ao Palácio do Povo, o enorme edifício que congregava os vários poderes, símbolo máximo daquele regime totalitário que não hesitou em destruir o centro histórico de Bucareste. Às primeiras palavras que correram na imensa praça fronteira, recebeu aplausos dos apoiantes, sobretudo da Securitate, a polícia política. A pouco e pouco, os manifestantes começaram a entoar gritos de protesto entre a multidão, e como uma bola de neve os apupos aumentaram, até o povo gritar em uníssono "Timisoara" e "abaixo o tirano". impotente, Ceausescu retirou-se do local e ordenou que as forças de segurança ripostassem. As tropas pretorianas leais ao regime dispararam sobre a multidão, espalhando o caos no centro da capital, mas as forças regulares não se moveram. a reacção apenas gerou mais revolta por parte da população, à qual se começaram a juntar unidades militares.

Fechado no seu "bunker" Ceausescu não se decidia a fugir pelos inúmeros subterrâneos do palácio, quando a situação piorou para o seu lado, e incapaz de aceitar a queda iminente ou sequer de negociar, decidiu fugir de helicóptero com a sua mulher, Elena, e dois ou três fieis. A fuga. No dia 22, foi vista por todos e registada, mas ou por engano, ou por dificuldades mecânicas, o aparelho aterrou na cidade de Targoviste. Prisioneiro, o casal Ceausescu passou uma noite no calabouço, antes de enfrentar um julgamento militar sumário que acusou o ditador de tentativa de genocídio e de "roubar a alma da Roménia". Este ripostou com acusações aos traidores "fascistas e anti-nacionalistas". Lida a sentença de morte, um pelotão de fuzilamento levou para fora e metralhou Nicolae e Elena, que permaneceram juntos no fim, recordando Mussolini e Clara Pettaci. O fim dos Ceausescu foi proporcional ao regime de opressão, miséria e estalinismo que instituiu na Roménia. O anterior Conducator romeno, Ion Antonescu, líder de um governo aliado de Hitler, fora também ele fuzilado após a guerra. Agora, a mesma sorte cabia ao intitulado Conducator comunista, na manhã do dia de Natal de 1989. As imagens dos corpos dos Ceausescu correram mundo, e torjnar-se-iam o símbolo e a prova de toda a violência e fúria que por aqueles dias atravessaram o país.
Seguiu-se um governo nacional com figuras recicladas e vagamente opostas ao ex-ditador. A década de noventa seria conturbada e difícil e só recentemente o país obteve algumas melhorias sociais e económicas, o que lhe permitiu, com reservas, aderir à União Europeia em 2007. Quanto à herança de Ceausescu, basta ir ao centro de Bucareste para se avistar a sua marca mais visível.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Imagens da Roménia - Transilvânia 2

Decididamente a Transilvânia tem uma fama que não corresponde de todo à realidade. Em lugar da precipícios profundos e de gargantas escuras, com lobos de olhar flamejante a uivar, como consta em qualquer lenda vampírica, vêem-se campos de cereais, pequenas colinas e aldeias ao longo da estrada, com casas iguais e por vezes com uma igreja fortificada, herança dos saxões. É o caso de Saschiz (ou Keisd, em alemão), assim como muitas outras.

A Transilvânia era conhecida pelos saxões por Siebenburgen, ou as sete cidades fortificadas. Eram elas Bistritz (Bistrita), Kronstad (Brasov), Hermannstadt (Sibiu), Sächsisch Regen (Reghin), Mediasch (Medias), Mühlbach (Sebes) e Schässburg (Sighisoara), além das supracitadas aldeias.


Sighisoara (Castrum Sex, em latim, Schäßburg em alemão, Segesvár em Húngaro) é uma cidade mesmo no coração da Roménia. Está dividida entre a parte baixa e uma cidadela habitada de onde sobressaem as suas torres, em particular a do relógio, que faz lembrar o de Praga. A "Nuremberga romena" está classificada pela UNESCO como Património da Humanidade. Os seus torreões tardo-medievais protegendo as entradas da cidade, as suas muralhas, as passagens cobertas de madeira e os arcos justificam a distinção. Pelas suas ruas, infelizmente em grande parte com obras e sem pavimento, se nos abstivermos dos inúmeros turistas, podemos imaginar os artesãos e negociantes saxões que aqui habitaram durante séculos (as entradas das casas, com portadas e bancas de madeira, e alguns vendedores ambulantes e de recordações "medievais" também ajudam), ou os que passavam neste próspero centro de comércio, nas rotas entre o Mar Negro, Constantinopla e o Sacro-Império, ao qual veio a pertencer.
As corporações de artesãos dominavam a cidade e a sua economia, de tal forma que as várias torres que formam o seu skyline tinham o nome de cada uma delas: Torre dos Alfaiates, Torre dos Sapateiros, Torre dos Ferreiros, Torre dos Talhantes, etc. Construídas por volta do Séc. XV, chegaram a ser catorze e são o traço mais visível da arquitectura germânica da cidade.


Como não podia deixar de ser, o elemento marcante da cidade é a Torre do Relógio, que vigia a entrada na cidadela com os seus 64 metros. Uma construção possante e de onde, através do balcão a todo o seu diâmetro lá no alto, se vê todo o burgo, tanto a parte velha como a cidade baixa, mais recente, e as colinas que a circundam. Foi construída no Séc. XVI, mas nas várias camadas de reparações acabou por ficar sobretudo com elementos barrocos. Serviu como baluarte, arquivo e de centro do poder municipal. Hoje em dia é um museu de história militar, mas a principal atracção é o seu relógio, instalado nos anos 1600, e retocado ao longo dos séculos. Ao longo do dia, um conjunto de figurinhas alegóricas - anjos, Deuses do Olimpo, entre outros - vão anunciando as horas. O mecanismo pode ser admirado nas escadas que levam ao balcão que circunda a torre, e que liga os seus pisos.




Se as torres são o ex-líbris marcante do burgo, assim como as passagens de madeira e as de pedra, em túnel, sê-lo-ão de forma mais "camuflada", a casa mais conhecida é sem dúvida a amarela, na praça central: ali nasceu Vlad Tepes, o Empalador. Se no Castelo de Bran se fantasiava e forçava a presença do príncipe da Ordem do Dragão, em Sighisoara não é necessário haver subterfúgios: é mesmo a terra natal do inspirador do Conde Drácula. Alvo das fotos dos turistas, a casa é hoje um restaurante, à qual justificadamente não falta clientela. Escusado será dizer que boa parte das recordações prendem-se com o ilustre mas sanguinário filho da terra.


Mais para Sul, chega-se a uma das maiores cidades da região. Sibiu, ou Hermannstadt, como os cartazes recordam por toda a parte, chegou a ser capital do principado da Transilvânia. A cidade velha, na sua parte baixa, está rodeada de muralhas e bastiões fortificados. Mesmo no centro fica a principal praça da cidade, a Piata Mare, dominada pela sua torre do conselho municipal. Quem aqui chegasse e não soubesse qual o país pensaria porventura tratar-se duma cidade alemã ou austríaca, tal o cuidado, o aprumo e a ordem daqueles edifícios construídos entre os sécs. XVI e XVIII, muitos deles barrocos. Uma volta pelos inúmeros restaurantes e excelentes esplanadas do centro revelaria que os preços são bem inferiores aos praticados naqueles países. A razão do cenário tão diferente do comum das cidades romenas, mesmo da Transilvânia, é simples: Sibiu foi Capital Europeia da Cultura em 2007 e recebeu avultados investimentos para a recuperação e conservação dos edifícios históricos. Ainda se vendem muitas recordações e objectos relacionados com a distinção.

A cidade é rica em igrejas, fortificações, casas e ruas medievais, que descem dos largos centrais para a parte mais baixa. Possui uma animada vida cultural e tem duas catedrais, a ortodoxa e a luterana. Apesar da primeira ser naturalmente mais frequentada, é a segunda, implantada num ponto mais central, que domina a cidade com a sua esguia torre gótica. É a herança dos saxões, que apesar de serem hoje em dia uma minoria de resistentes, continuam a marcar a vida de Hermannstadt.

De Sibiu já se avistam de novo os Cárpatos. Tomando a estrada que segue ao longo do Olt, entra-se num desfiladeiro de Turno Rossu, formado pelo vale deste rio, que corta a cordilheira e saí da Transilvânia. Antes, ainda se passa por uma ou outra aldeia, com casas de estilo saxão, como sempre, de telhados inclinados e largo portão de madeira ao lado, povoações compridas dispostas ao longo da estrada, e onde circulam mais carroças do que os omnipresentes Dacias.


sexta-feira, dezembro 18, 2009

Imagens da Roménia - Transilvânia

Em Setembro deixei interrompido um périplo pela Roménia. Retomo-o agora, um pouco tardiamente, a poucos dias dos vinte anos da Revolução romena de 1989.

Da Moldávia para a Transilvânia segue-se por uma planície sem fim à vista, de campos e rectas, até que se avistam os cumes dos Cárpatos. Atravessá-los, de noite, em estradas de curvas e contra-curvas, é tarefa de resistência. Quase não se vêem outros carros, não há iluminação, e a paisagem em redor, formada por montanhas imponentes e barragens lá em baixo, que se distinguem pelo brilho da água, mete respeito. Pela cabeça passam as lendas e histórias maléficas em que esta região é fértil...
Chegar ao fim da travessia e ao planalto onde começa a Transilvânia é por isso um alívio. Daí a pouco, vêem-se as luzes de Brasov. Depois dos Cárpatos, não deverá haver cidade mais acolhedora.

Como a maior parte das urbes nesta região, Brasov tem o seu nome romeno, alemão (Kronstad) e húngaro (Brassó). A Transilvânia é uma mescla destes três povos, mas durante centenas de anos foram os saxões que predominaram. Residem aqui desde o Séc. XII, quando os Reis magiares os trouxeram para que povoassem a região. Com o tempo, criaram raízes profundas, adquiriram privilégios, tornaram-se agricultores, artesãos, comerciantes. Esta burguesia próspera ergueu castelos e povoações, e mais tarde desenvolveu grande actividade cultural e literária. Foram maioritários em tempos. Hoje, depois das Guerras Mundiais e do regime comunista, são uma ínfima minoria.

A cidade estende-se pelo planalto, mas protege-se à sombra de um imponente massivo, onde o seu nome está inscrito de forma Hollywoodesca. Não faltam edifícios medievais, do renascimento ou classicistas. A par do edifício da municipalidade, a Casa Sfatului, a construção que domina a cidade é a Igreja Negra, ou Biserica Neagra, templo evangélico luterano de ar austero, com os seus 89 metros de altura, "a maior igreja gótica entre Viena e Istambul". Dentro está decorada com um conjunto de magníficos tapetes turcos, que recordam o domínio otomano nos séculos XVI e XVII, sobre um principado semi-autónomo da Transilvânia. O espaço fronteiro é pequeno para se admirar o templo, e para isso isso há que trepar a uma das elevações próximas, onde estão a Torre Branca e a Torre Negra, sentinelas que vigiam de perto o bastião fortificado que segue ao longo de um pequeno canal. Das torres colhe-se o melhor skyline da cidade velha.

A Torre Branca, uma das sentinelas da cidade

Na fachada lateral da igreja vê-se a estátua de Johann Honterus, um cartógrafo germânico de Brasov que introduziu e difundiu o protestantismo na Transilvânia. À sua frente, do outro lado da rua, a instituição que fundou, o liceu Honterus, ainda hoje a escola alemã da cidade, e uma das referências dos saxões que por aqui permaneceu. Lobriga-se a escadaria do liceu, com um busto do seu inspirador a meio, no patamar.

Estátua de honterus, ao lado da Igreja Negra, e o liceu alemão com o seu nome em frente.

No Verão, o evento mais mediático é o festival de música Cerbul Aur, ou Cervo de Ouro. Já dura há uns anos e realiza-se na praça Sfatului, no coração da cidade, à sombra da imponente edifício municipal. É uma espécie de festival internacional da canção ao ar livre, onde por vezes acorrem músicos mais conhecidos (Scorpions e Kylie Minogue, por exemplo).


Outra das atracções de Brasov é a Colina Tampa, uma formação montanhosa que domina a cidade, e cujo ponto mais elevado fica a quase mil metros de altitude. Um santuário natural, onde até por vezes os ursos perambulam. Um teleférico faz a ligação até lá acima, por sobre o arvoredo que cobre a colina. Dali se avista a cidade, e a região circundante, até aos Cárpatos. O mirante com melhor visibilidade é o que está ao lado das letras hollywoodescas de Brasov. As estruturas de apoio são escassas - pouco mais do que um bar - o que de certa forma impede que o local se torne uma feira turística.

Por trás da colina de Tampa seguem as estradas que conduzem a Poiana Brasov, provavelmente a melhor estância de inverno (e de ski) da Roménia, e que aos poucos vai ganhando reconhecimento internacional, atraindo inúmeros visitantes da Europa Central. No Verão tem uma cor verde invejável. Não faltam vários hotéis e demais estabelecimentos turísticos; há mesmo uma igreja, construída recentemente em madeira, no mesmo estilo das igrejas de Maramures, do mesmo material, e que recorda os templos evangélicos noruegueses. Não sei qual a origem desta arquitectura de madeira nem que relação haverá entre estas igrejas ortodoxas, bem diferentes das de pedra, e as nórdicas.

Mas a maior atracção da região de Brasov é sem dúvida o Castelo de Bran, mundialmente conhecido como "Castelo do Drácula". É uma estrutura impressionante mas longe de ser sinistra, construída pelos cavaleiros Teutónicos, estrategicamente localizada num vale junto à aldeia do mesmo nome. Não se percebe o porquê da ligação a Vlad Tepes, o "Empalador", que inspirou a Bram Stocker a personagem do morto-vivo vampírico. Tepes, um príncipe da Valáquia do Séc. XV, intrépido inimigo dos emergentes turcos, raramente passou por aqui. Terá ficado uns dias, quanto muito, para orientar este bastião defensivo. O Castelo serviu de morada à rainha Maria, viúva do Rei Fernando e mãe de Carol II, nos anos posteriores à 1ª Grande Guerra. Recentemente, os tribunais romenos devolveram a propriedade aos descendentes da família real, que dele tinha sido expropriada pelo regime comunista. De qualquer maneira, é a memória de Vlad Tepes que se lembra aqui. O castelo, profusamente decorado com mobiliário do Séc. XI e algumas relíquias mais antigas, e pintado de branco, atrai incontáveis turistas. À sua volta, uma autêntica feira de bancas e barracas de produtos relacionados com Drácula. Para quem não aprecie tal ambiente turístico e de comércio nómada talvez seja preferível conhecer a fortaleza de Rasnov, mais a Norte, entre Brasov e Bran, e facilmente identificável no alto da montanha...e pelas letras também hollywoodescas que a assinalam.


Brasov: uma cidade interessantísima e cuidada, o que pode levar a algumas megalomanias publicitárias ou cinematográficas.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Falácias catalãs

Algumas localidades catalãs votaram, a título "experimental", a favor da independência da Catalunha. Nalgumas delas a percentagem da aprovação chegou aos 90%, muito embora a abstenção fosse de 70%.


Francamente não compreendo esta obsessão independentista dos catalães. Têm a sua língua e costumes próprios, não têm grandes problemas económicos, e na prática são um estado federal, até com estatuto de "nação". Foram histórica e brevemente um condado independente, praticamente um território feudal depois absorvido por Aragão. Desde a Transicion que constituíram a sua Generalitat, que desaparecera no Séc. XVIII, salvo um breve período na 2ª República. Revoltaram-se em 1640, ao mesmo tempo que Portugal, mas foram mal sucedidos. Tomaram o partido dos Habsburgos na Guerra de Sucessão de Espanha, mas perderam a causa e inúmeras regalias. Perderam igualmente a Guerra Civil. Tornaram-se anti-castelhanos primários e de certa forma chauvinistas, ao menosprezarem a língua castelhana na sua região. Várias forças nacionalistas e radicais, como a Esquerda Republicana Catalã, de Carod Rovira, que em tempos tentou fazer um acordo com a ETA, ajudam a extremar ainda mais esses sentimentos secessionistas.


O argumento que menos colhe é o do "centralismo de Madrid": qualquer pessoa que tenha uma ideia das cidades da região verifica que Barcelona é muito maior do que as urbes que se lhe seguem - tem mais de um milhão e meio de habitantes, além dos da área metropolitana, ao passo que o segundo maior burgo, Tarragona, não ultrapassa os 150 mil. Numa Catalunha independente, Barcelona seria muito mais centralista e eucaliptizaria o "estado". A não ser que se invocasse a história e que fosse Aragão a tornar-se independente, com a Catalunha como parte integrante a Barcelona como principal porto de mar. A capital, essa, seria Saragoça.
Tremeu

Já por duas ou três vezes me peguntaram se tinha sentido o tremor de terra, e eu, admirado, nem dei por nada.
Já era tempo de saber o que é a terra a vibrar. Desd já, posso dizer que é coisa que impõe respeito.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Ágora, o filme


Passemos a um assunto que tem alguma coisa a ver com o post anterior, embora em diferentes dimensões. Fiquei curioso quando vi o trailer do filme Ágora. Primeiro, porque sendo homónimo a esta pequena tribuna, lhe poderia dar alguma publicidade (eis a minha faceta blogo-capitalista e protestante a exprimir-se); depois, por causa da época, do local, da estética, do grafismo, e pelo facto de ser protagonizado por Rachel Weiz.

 
Ágora passa-se no Séc. V D.C., em Alexandria, a metrópole egípcia fundado pelo Macedónio que lhe deu o nome, uma cidade marcada pelo cosmopolitismo, pela ciência, pela busca do conhecimento, corporizadas pela sua magnífica e desventurada biblioteca e até pela luz emanada do seu farol, uma das Maravilhas da Antiguidade - infelizmente a primeira é (ainda?) um pobre sucedâneo das originais, ao passo que o que resta do farol jaz nas águas circundantes, destruído por terramotos.

A personagem principal, Hepatia, uma mulher "emancipada", e filósofa helénica que gera paixões intensas, faz uma busca incansável atrás do conhecimento científico, gerando ódios e inimizades da maioria cristã, que domina agora o Império Romano e que acaba por vitimá-la. Alejandro Amenabar baseou-se neste acontecimento histórico para metaforizar a luta entre a ciência e a religião, ou se formos mais secos, entre o "obscurantismo" e as "luzes". Alguns críticos chamaram a atenção para esta inversão dos clássicos da Antiguidade, em que por norma os cristãos eram as "vitimazinhas"das perseguições. O realizador espanhol afirma que não quis fazer um filme anti-cristão. Ora eu até acho salutar que se mostre o fim da Antiguidade, a decadência do império do Ocidente, e a ascensão do cristianismo como religião dominante, com a supressão de muitos símbolos pagãos, por vezes de forma violenta e brutal. Fica-se a conhecer uma época e um local específico. De Hepátia só tinha ideia de uma personagem de Corto Maltese, uma alquimista veneziana, seguramente baseada na pedagoga do filme. Para mais, Alexandria é sempre uma cidade sedutora, quase tanto como a actriz que protagoniza a fita.

Só que também me deixa algum desconforto. Passa-se o tempo a ouvir dizer que a igreja ou mesmo o cristianismo são contrários à ciência, obscurantistas, "promovem a ignorância", etc. Normalmente tais considerações são um abuso próprio de quem se socorre de lugares-comuns e não faz ideia do que diz, revelando a ignorância que quer atribuir a outros. Se por vezes as igrejas travaram o avanço da ciência, não apenas por intolerância mas também por razões políticas, o conhecimento avançou também por causa delas. Os ensinamentos da Antiguidade resistiram à queda do Império do Ocidente nos mosteiros e demais comunidades monásticas.

 
Temo por isso que Ágora reforce ainda mais essa ideia tantas vezes falsa, e que religião e ciência são coisas antagónicas e incompatíveis. E os cristãos do Médio Oriente já não têm vida fácil, menos ainda se ficarem conotados com fanáticos. Ao menos sempre se fica a saber que o cristianismo no Egipto é já muito antigo, e que precedeu o Islão, apesar de ser hoje minoritário.

Fico a aguardar por um filme em que se mostre que os cristãos forma não só perseguidos pelos romanos, mas por outros povos e outras causas, incluindo aqueles que se reclamavam seguidores da ciência. Houve A Missão e pouco mais. Esperemos por Silence, o anunciado filme de Scorcese sobre os jesuítas no Japão e suas atribulações.


E desde já agradeço a Amenabar a publicidade eventual que o filme trouxer a este blogue.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Uma boa surpresa



D. Manuel Clemente ganhou o Prémio Pessoa 2009, atribuído pelo jornal Expresso. Uma boa surpresa, mas inteiramente merecida, por uma figura que há anos, discretamente, tem realizado um notável trabalho como teólogo e historiador, nomeadamente nas relações entre a Igreja e a sociedade. Ultimamente ganhou notoriedade como Bispo do Porto, tornou-se uma voz difundidas na sociedade (até em questões polémicas, como a ideia do referendo ao casamento homossexual) e é presença assídua em debates e discussões sobre temas tão diversos como religião, ciência, os problemas sociais do Grande Porto, etc. Uma óptima escolha para o próprio, evidentemente, mas também para o Porto, o país e a igreja portuguesa; é que talvez assim se compreenda finalmente a contribuição ética, social e cultural que esta tem dado a Portugal, e que tantas vezes é vilipendidada ou subvalorizada.
PS: ao que parece, ainda nem todos perceberam isso, e continuam a lançar postzinhos em forma de punhais, com o dissimulado mas perceptível pensamento de "como é que vão dar um prémio a um tipo da ICAR"?

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Primórdios de uma carreira
Um popularíssimo e divertido anúncio televisivo da Levis, aí de meados dos anos noventa, que deu a conhecer ao mundo a modelo portuguesa Ana Cristina Oliveira, a mesma que logo no início de Miami Vice, versão filme, dizia em boa voz a Colin Farrell de onde vinha. É sempre bom recordar.


quinta-feira, dezembro 03, 2009

Os minaretes helvéticos

O que pensar dos resultados do referendo na Suíça que proibiu a construção de minaretes? Por um lado, o meu temor do avanço do Islão e dos seus tenebrosos seguidores, aqueles que empunham bandeiras verdes e bramam "Allah Akbar" nas ruas das cidades europeias perante a passividade policial, regozija-se por ver enfim um sinal de Stop a uma cultura expansionista e agressiva.

Por outro lado, o necessário sentido de respeito pelas crenças dos outros e pela liberdade individual e de culto, e a minha própria consciência de cristão fazem-me recusar uma medida tão populista e exclusiva, que é além do mais um péssimo precedente. A questão aqui é civilizacional, já o sabemos, mas também me parece improvável que haja grandes clivagens culturais quando a comunidade muçulmana da Suíça é constituída por bósnios e turcos.
É também um bom exemplo de como a democracia directa, se levada ao extremo, como os suíços o fazem com consultas populares por tudo e por nada, pode levar a resultados duvidosos.

Fico apenas com uma certeza, definitivamente confirmada: os helvéticos são um povo estranho.

terça-feira, dezembro 01, 2009

1 de Dezembro




Que estes festejos se realizem uma vez mais, como todos os anos, em Elvas. E que continuem a festejar e a tocar o Hino da Restauração, pelos tempos fora.