quinta-feira, setembro 30, 2010

Ainda em Inglaterra, a contenda entre irmãos



Na luta fratricida pela liderança do Partido Trabalhista, recentemente caído do poder, Ed Miliband bateu com alguma surpresa o seu irmão mais velho (e mediático), David, que esteve à frente da política externa britânica no governo de Gordon Brown. Ed pertence à ala esquerda do partido, e ganhou a contenda com o apoio dos sindicatos, que ainda têm peso considerável no partido, se bem que algo esvaziado nos últimos quinze anos. Adivinha-se que seja a martelada final no New Labour, personificado em Tony Blair. Ainda assim, Miliband tenta descolar da imagem esquerdista com que está rotulado. É naturalíssimo que o faça. Provavelmente começou a interessar-se pela política no início da adolescência, quando o Labour sofreu uma das suas piores derrotas sob a liderança de Michael Foot, morto há apenas uns meses, e que foi o líder mais esquerdista do partido de que há memória. Depois dessa inclinação para a esquerda, Neil Kinnock começou a puxar os trabalhistas para o centro, até que o malogrado John Smith, Blair e Brown enveredaram definitivamente pelo Third Way, com o sucesso que se conhece. Ed tem a sombra do seu pai, o intelectual marxista Ralph Miliband, a toldar-lhe qualquer eventual aproximação aos eleitores mais centristas. Resta-lhe esperar que parte do eleitorado liberal se aborreça com a coligação com os conservadores e se vire para este new old Labour.

quarta-feira, setembro 29, 2010

A papafobia britânica

O Papa Bento XVI regressou a Roma da sua visita ao Reino Unido sem qualquer tentativa de prisão, atentado terrorista ou ataque isolado. Já não nada é mau.

Aproveitou-se um pouco de tudo para criticar a visita: os gastos com o acontecimento em si, a memória histórica, os casos de pedofilia recentemente encontrados, medo de proselitismo, etc. Os conhecidos militantes radicais ateístas Dawkins e Hitchens tentaram obter um mandato de captura de Bento XVI por "cometer crimes contra a humanidade" e não "ser um chefe de estado reconhecido", apesar de haver relações diplomáticas entre o Reino Unido e o Vaticano (ou não havia visita, tout court). Conseguiu-se, durante os dias em que o Sumo Pontífice permaneceu nas ilhas britânicas, organizar autênticas manifestações com toda uma coligação negativa anti-papista, reunindo associações ateístas e seculares, activistas dos "direitos da mulher", famílias de vítimas da pedofilia, nacionalistas ingleses e protestantes fanáticos, como o Reverendo Paisley, que em tempos dirigiu-se a João Paulo II no Parlamento Europeu, bradando que o Papa era o "Anticristo". O perfeito contraste com a visita papal de Maio a Portugal.
O Reino Unido tem os seus paradoxos. O puritanismo e a rigidez vitoriana são do mesmo país onde nasceram a pop e o punk. Em terras em que o parlamentarismo tem tantas raízes, ainda subsiste o espírito catolofóbico criado no século XVI por Henrique VIII. Sabia que os ingleses tinham um sentimento anti-católico, mas não ao nível do que se viu - ou do que se falou. Aos casos de pedofilia na Igreja Católica juntou-se a polémica dos gastos com as visitas, as "causas fracturantes", a beatificação de John Henry Newman, e todas as causas possíveis para justificar um poderoso sentimento anti-católico, tido como manifestação de liberdade contra as "trevas". Uma liberdade legada por um tiranete como Henrique VIII, que por razões políticas e libertinas, rompeu com a Igreja de Roma. Depois, os católicos foram perseguidos e afastados, com métodos tão cruéis como os da Inquisição, até praticamente ao século XIX, com algumas notórias excepções por razões políticas, como o casamento de Carlos II com Dona Catarina de Bragança. Ainda assim, membro da família real que por qualquer razão se aproximasse do catolicismo seria excluído da sucessão. Mas mesmo a partir de oitocentos, em que os seus direitos foram sendo progressivamente reconhecidos, nem assim deixaram de ser vistos como inferiores pelos britânicos. Os irlandeses desde Crommwell que foram tratados como gente de terceira. Oscar Wilde sofreu humilhações e o calabouço não somente pelas suas provocações e libertinagem, mas também por ser católico e irlandês.


O anti-catolicismo oficial que durava desde o início da igreja inglesa esbateu-se, mas existe. Quando o príncipe de Gales esteve presente nas cerimónias fúnebres de João Paulo II, ouviu críticas por causa da "submissão à igreja de Roma". Curiosamente, sendo o Reino Unido um estado oficialmente Anglicano, é também um dos que mais se afasta da prática religiosa. A igreja que a Rainha chefia tem enfraquecido, cedendo ao multiculturalismo reinante e a novas práticas e credos. Os ingleses conservam-na como uma tradição, mas a sua heterodoxia afasta-os. Talvez seja por irem em busca de algo mais que surgiram alguns interessantes grupos de católicos ingleses, como a tendência que tocou alguns escritores contemporâneos - Greene, Chesterton e Waugh, para destacar os mais conhecidos. Mas apesar disso, e de um crescente número de católicos, vê-se um anti-papismo que não há em mais país nenhum na Europa. Tradição enraizada, inimizades históricas, medo de que o Bispo de Roma seja um mentor do IRA ou de proselitismo? Ou a ideia de ver um Papa católico e alemão a ser recebido pela Rainha é duplamente dolorosa? Confesso que não sei qual será exactamente a raíz do problema, e que essa aversão mais histórica que social devia ser matéria de estudo mais aprofundado. O que sei é que Bento XVI falou mais contundentemente dos casos de pedofilia na Igreja, encontrou-se com as suas vítimas, homenageou os caídos na batalha na luta contra o nazismo (que provinha, não nos esqueçamos, do seu país) e beatificou John Henry Newman, e conseguiu voltar para Roma sem uma beliscadura. Convenhamos que para um Papa, alemão e que lutou na Segunda Guerra com o uniforme da Whermacht, é uma missão cumprida digna de Hércules.

sábado, setembro 25, 2010

Opostos que se atraem

Olho para as manifestações em França, contra o aumento da idade da reforma para os sessenta e dois anos, que levam atrás de si multidões em protesto. Ouvem-se acusações de "neoliberais", "fascismo", "atentados aos direitos inalienáveis" e ao "estado social", etc. Parece-me tudo um perfeito exagero, mas aquelas multidões socorrem-se de argumentos datados, ignorando a realidade, vituperando quem a contradiga. Em França, isto é perfeitamente comum. Então lembro-me de um movimento novo, do lado de lá do Atlântico, de ideias e lógica opostas. O Tea Party americano acusa Obama de ser "socialista" por causa do seu novo plano nacional de saúde, de ser um soviético encapotado (e para alguns, muçulmano), de querer subjugar a sociedade civil a um estado omnipresente, etc. Os sindicalistas franceses e os redneck americanos podem estar de lados diferentes da barricada e do oceano, mas na retórica, nas ideias fixas e no anti-pluralismo são assustadoramente parecidos.


Voltarei ao tema da França em breve.

sexta-feira, setembro 17, 2010

O fim do Arsenal em Braga?


Os resultados das equipas portuguesas nas competições europeias foram pouco surpreendentes: as equipas grandes e experientes venceram adversários inferiores, e a equipa mais "pequena" e inexperiente perdeu com uma equipa de nome sonante. Mas é curioso pensar que neste último caso o Sporting de Braga estreou-se na milionária Liga dos Campeões (coisa que há meia dúzia de anos seria impensável) em casa do clube ao qual roubou as cores e a camisola, o Arsenal de Londres. Durante muitos anos, os jogadores e os adeptos do Braga foram conhecidos como "arsenalistas" e tiveram mesmo, por breves tempos, uma equipa B chamada Arsenal de Braga. Agora, os gunners de Arsène Wenger fizeram-se pagar pela imitação e deram implacável meia dúzia de golos aos pobres bracarenses, que apesar do brilhante triunfo de Sevilha, mostraram ser ainda muito inexperientes nestas andanças europeias, revelando um medo cénico (também conhecido como "síndrome Tavares") fatal. Será que depois da goleada passaremos definitivamente a ouvir falar dos braguistas ou a expressão arsenalistas continuará a ser empregue, podendo sempre trazer negras recordações, a ser usadas pelos adversários em futuras discussões em que cada uma puxará da memória a derrota mais humilhante do outro?

quarta-feira, setembro 15, 2010

O aterro federativo
O outro caso da época, evidentemente, é o da novela da Selecção, que parece estar perto do fim, se bem que pouco feliz. Nunca fui adepto de Carlos Queiroz, e só desejava que ele tivesse ficado há dois anos em Manchester, a planear tranquilamente as tácticas de Sir Alex, sem se maçar em ir para o relvado. Mas já que o contrataram por quatro anos (supremo disparate), ficava-se com ele até ao término do contrato. O Mundial foi modestozinho, mas sempre passamos a fase de grupos, e cumpridos os mínimos, o técnico deveria permanecer. A história dos testes antidoping e das discussões de Queiroz na Covilhã são uma pretexto mal disfarçado para o pôr fora sem lhe pagar muito. Se servisse para alguma coisa, seria bom recordar que deve haver um mínimo de ética e que a Federação é que resolveu ir buscar o ex-seleccionador. A partida que lhe fizeram é demasiado indecente para passar sem mais. Como é óbvio, os chicos-espertos federativos estão-se a marimbar para tudo isso e querem é livrar-se do homem por qualquer meio, com a cumplicidade bem explícito do bonzo Laurentino. O que se segue é facilmente previsível: contrata-se novo técnico, dá-se uma indemnização - que remédio - a Queiroz e tenta-se apanhar os cacos dos primeiros jogos da equipa nacional para o Europeu de 2012. Só que todo este caso já

a causou mossa, como se viu no pontinho ganho em dois jogos, num vergonhoso empate caseiro com Chipre, que nos marcaram quatro golos. E parece-me que nem Paulo Bento, o mais que provável futuro seleccionador, possa vir a trazer qualquer tipo de tranquilidade à equipa.


O maior drama é pensar que os actuais elementos federativos (Madaíl, o inamovível Amândio de Carvalho, etc) vão permanecer no cargo. Isso mesmo afirmou Lourenço Pinto, presidente a Associação de Futebol do Porto, que assegurou que todas as associações distritais estão com Madaíl. conclusão: não haverá sequer espaço para candidaturas diferentes, e teremos que gramar com a tralha federativa toda, fazendo campanha pelo aviltante e parolo "mundial ibérico" e figas pela qualificação para a Polónia/Ucrânia, com o beneplácito do dispensável Laurentino Dias. Ah, não haver um "Apito Dourado" na Federação, com resultados palpáveis, para tapar esse autêntico aterro sanitário desportivo

sexta-feira, setembro 10, 2010

As trevas da Casa Pia
Ao fim de oito anos, tivemos finalmente a sentença do Processo Casa Pia. Tempo a mais, mas surtiu os seus efeitos, ainda que em primeira instância. Para além das vítimas, dos acusados e de todos os outros que de outra forma estavam ligados ao caso, o dia da sentença terá sido fantástico para donas de casa, transeuntes de Moscavide, e sobretudo para a comunicação social, no seu todo. Provavelmente, estes últimos só terão tido pena de não ser possível um exclusivo, a ser atribuído a quem pagasse mais. De qualquer forma, o que ficou destes dias, além de um resultado concreto, terá sido o imenso eco propagado pelas queixas dos condenados, em especial de Carlos Cruz, que não é à toa que é conhecido como o "Senhor Televisão". Dele e do seu advogado Ricardo Sá Fernandes ouviram-se queixas, lágrimas, recriminações, etc. Mas retive a expressão usada após a leitura da sentença: esta era, segundo Sá Fernandes, "o reino das trevas". Ora Carlos Cruz poderá dizer o que quiser em sua defesa, dentro de certos limites verbais, que foram claramente ultrapassados. Mas, inocente ou culpado, é bom não esquecer que o processo existiu porque ao longo dos anos inúmeras crianças sem família nem ninguém que as protegesse foram submetidas a sevícias e terrores que as marcaram para sempre. Foram as autênticas vítimas, e não houve televisões que se compadecessem da sua tortura permanente. Isso sim, é o autêntico reino das trevas. Finalmente encontraram quem as ouvisse.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Estão de volta



Com novidades na bagagem, duetos previstos e o espírito épico e romântico que já os caracterizava nas primeiras músicas, Os Golpes dão o segundo passo. E há concertos agendados para breve, no Porto e em Lisboa, depois de um sugestivo espectáculo de garagem nas caves do Técnico de Lisboa, no 10 de Junho, assim à laia de aperitivo. O autêntico pope roque transpirando portugalidade desce às cidades.

terça-feira, agosto 24, 2010

A conquista de Arzila e a "Invenção da Glória"
24 de Agosto é uma data fértil em acontecimentos. Uma delas foi a conquista de Arzila, em 1471, etapa relevante do plano expansionista de D. Afonso V por terras mouras. O Africano quis que o feito militar ficasse registado para a posteridade e encomendou às oficinas flamengas de Tournai (hoje na Valónia) um conjunto monumental de tapeçarias que retratassem os vários momentos da tomada da cidade.

Assim sucedeu, mas por razões misteriosas as tapeçarias foram parar ao Ducado de Infantado, que os cedeu posteriormente à Colegiada de Pastrana, onde se mantiveram durante séculos. A grande questão é que a "transferência" não se deu durante o reinado da dinastia dos Habsburgos, entre 1580 e 1640, mas sim na primeira metade do século XVI, e não consta que fosse qualquer oferenda de casamento a uma qualquer infanta castelhana. Até hoje, não se percebe como é que as tapeçarias foram parar à colegiada da pequena cidade perdida no meio de Castela.

Nelas se retratam o desembarque atribulado, o cerco a Arzila e a tomada da cidade. Em todas, o Africano é representado em destaque, com uma armadura reluzente, distinguindo-se também o Príncipe D. João. Numa quarta tapeçaria representa-se ainda a tomada pacífica de Tânger, cuja anterior tentativa de conquista anos antes redundara num fracasso e custara a liberdade a D. Fernando, o Infante Santo.

Depois de séculos em Espanha, as quatro tapeçarias estão expostas do Museu Nacional de Arte antiga, em Lisboa. Impressionam pela sua monumentalidade e minúcia, retratando todos os passos dos acontecimentos da época. Os Painéis de São Vicente foram temporariamente retirados do seu lugar habitual e colocados mais à frente, para completar o conjunto. A exposição, intitulada "D. Afonso V e a Invenção da Glória", pode ser vista nas Janelas Verdes até 12 de Setembro. E garanto, vale imenso a pena ver aqueles lindíssimos e imponentes tecidos, comparáveis às célebres tapeçarias de Bayeux, que depois de tanto tempo encerrados num obscuro mosteiro espanhol, nos relatam com grande pormenor e arte esse período de conquistas que iniciou a época de ouro de Portugal

sábado, agosto 21, 2010

Cento e dez anos sem Eça

No meio da autêntica silly season, e com uma festa de centenário pelo meio (não, não era o da república), valham os blogues para nos recordar as grandes efemérides. Por acaso não tenho nenhum Eça à mão, mas estou a ver ali um Machado de Assis a espreitar por baixo do Ipsilon de ontem. Dadas as matérias e a contemporaneidade, tenho esperança que seja suficiente para afastar a vergonha.


segunda-feira, agosto 09, 2010

Um submarino vogando no Tejo


Os novos submarinos comprados ao consórcio alemão HDW podem ser de utilidade escassa ou duvidosa, podem ser caros e as suas contrapartidas um logro, podem ser excessivos para as funções a que se destinam, pode haver sucedâneos mais eficazes e mais económicos, mas uma coisa é certa: é (ao menos o primeiro chegar, o Tridente) um autêntico espectáculo visual, vê-lo perfilado navegando face ao Terreiro do Paço. Uma imagem de elegância, pompa naval e circunstância, como agora raramente se vê em Portugal. Os mil milhões de euros sempre deram para uma boa fotografia.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Saramago só depois
As homenagens artísticas tanto podem ser legítimas e compreensíveis como se podem revestir de um oportunismo com intenções várias, a começar pelas ideológicas. A recente proposta da
CDU de de dar o nome o nome de Saramago a uma rua do Porto encaixa-se nas duas. Já a sua recusa pela câmara tanto se pode justificar por ressabiamento político como por sensatez numa altura em que a morte do escritor é muito recente, e dá azo a qualquer aproveitamento ideológico e a análise sem a devida distância.
Não me aquece nem me arrefece que Saramago tenha uma artéria com o seu nome no município, desde que seja um novo arruamento e não uma rua central, como os seus camaradas fizeram por breves dias, quando em pleno PREC trocaram os nomes das Ruas Júlio Dinis e D. Manuel II por rua Catarina Eufémia e rua...José Estaline (toponímia que como é óbvio, não colou). Também acho que a desculpa da câmara para não dar esse nome, em "apenas aceitar nomes de cidadãos com ligação directa ao Porto para ruas da cidade", escudando-se numa mais que discutível e limitativa decisão da Comissão de Toponímia, é patética e apenas ridiculariza a cidade. A seguir esse critério,a rua de Camões teria de mudar de nome.
Mas se tomarmos em devida conta a decisão da comissão, conjugada com o súbito entusiasmo da CDU na atribuição de novos nomes de ruas, é caso para se perguntar porque é que ninguém propôs os nomes de Sophia de Mello Breyner e de Eugénio de Andrade? Não só tiveram uma ligação directa com o Porto como foram vultos literários ilustres. Curiosamente, os seus nomes não constam da toponímia portuense, ao passo que noutros concelhos, como Lisboa (mais precisamente o miradouro da Graça), ou Matosinhos, já lá estão. Assim, permita-se algum hiato de tempo após a morte de Saramago, dê-se-lhe a devida distância, e já agora, altere-se a bizarra decisão da Comissão de Toponímia. Entretanto, vamos imortalizar Sophia e Eugénio no Porto, como eles merecem. E depois, mas só depois, é que o nome do homem de Azinhaga poderá ser tido na devida conta.

sábado, julho 31, 2010

Confronto



O livro Confronto - História de uma Cooperativa Cultural, de Mário Brochado Coelho, foi lançado há dias, no Porto. É uma espécie de resenha histórica, cronológica e onomástica, com extensos dados, apesar de ser um livro relativamente pequeno, recordando uma cooperativa cultural de oposição ao Estado Novo. A Confronto surgiu nos anos sessenta, pela mão de sectores católicos oposicionistas, inspirada pelo Concílio do Vaticano II e pelo afastado Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, e durante a sua existência teve extensa actividade cultural e social, para além dos problemas inerentes a qualquer instituição que não estivesse nas boas graças do regime vigente, o que deu origem a várias atribulações e diversas mudanças de sede. Dela fizeram parte, além do autor do livro, pessoas como Francisco Sá Carneiro, Artur Santos Silva, coisa que já sabia, e outros que ignorava de todo em todo, como Jardim Gonçalves. Teve existência efémera - acabou antes do 25 de Abril - e posteriormente os seus membros dispersaram-se por várias formações partidárias saídas da Revolução, da UDP ao PSD. Todavia, sua memória e a sua história são dados importantes para se perceber melhor os circuitos da oposição ao regime fora da área de influência do PCP nos últimos tempos do salazarismo e na era marcelista.

terça-feira, julho 20, 2010

Mundial - notas, identidades e coincidências


Uma das coisas que dá certo gozo acompanhar nas competições futebolísticas para amantes de bizantinices como eu é acompanhar o despique político, histórico ou sociológico por trás de alguns jogos de futebol. O Mundial que agora acabou não constituiu excepção. Assim, revimos alguns clássicos inter (e extra) futebolísticos, como o Alemanha-Inglaterra, o Portugal-Espanha e até a final, com uma carga histórica completamente ignorada.
Uma das maiores rivalidades entre nações do mundo da bola é a que existe entre Inglaterra e Alemanha. A febre pelo desporto coincidiu com a adversidade política e bélica, quando o Reich rivalizava com o British Empire no número de fábricas. Como se sabe, deu em tremendas guerras entre as duas potências, com a subsequente vitória britânica. Ao triunfo nos teatros de guerra, os ingleses juntaram a supremacia nos relvados. Na maioria dos casos suplantavam os germânicos, cujo desporto favorito era mesmo a ginástica. Isso durou até ao Mundial de 1966, cuja final os bretões ganharam com o polémico golo de Geoffrey Hurst. A partir daí, nos confrontos entre as duas equipas, quase só deu Alemanha, que também teve muito maior sucesso em competições internacionais, arrebatando troféus, finais e terceiros lugares. Os ingleses, apesar de continuarem a pensar que têm uma relação única com a bola e jogadores superlativos, nunca vão muito longe, e quando estão perto do fim, apanham com o velho inimigo teutónico, que até nos penaltis os vencem. Comprovam-no o Mundial de 1990 e a desolação de Gascoigne, Stuart Pearce, Southgate, e até o "hino" dos Lightning Seeds, indiscutivelmente festivo mas com um toque agridoce de melancolia da derrota. Já Lineker resumia tudo numa das mais famosas máximas do mundo da bola: "o futebol são 11 contra 11, e no fim ganha a Alemanha". Notável excepção: o Alemanha-Inglaterra de 2001, para a qualificação do Mundial 2002, partida que os ingleses venceram por impressionantes 5-1 no Estádio Olímpico de Munique, e que se tornou um troféu que doravante puderam exibir nas discussões com os alemães.

A sobranceria inglesa reside portanto no pensamento enraizado da "pátria do futebol". Não por acaso os melhores resultados recentes da Selecção deveram-se a técnicos de fora, como o mal amado (?) Eriksson. Mas agora nem com Capello a coisa correu bem. Outro dos erros comuns dos ingleses é confiarem na qualidade individual dos seus jogadores, esquecendo que um Lampard e um Gerrard não jogam necessariamente bem juntos, ou que um Rooney também pode atravessar dias maus. Se o capitão Beckham e o poste Rio Ferdinand se lesionam, a coisa tende a dar para o torto. E tendo em conta que desde o quarentão Peter Shilton não arranjam um keeper de qualidade, apesar dos esforços de David Seaman, é com naturalidade que sofrem golos. Para seu azar, o velho inimigo germânico, despojado de estrelas, mostrou a sua máxima eficácia com jogos terrivelmente colectivos. Em mais um jogo que opôs as duas equipas, aquele golo anulado num momento em que a equipa de arbitragem sofria de alucinações momentâneas poderia ter mudado os números da goleada, mas não a vitória alemã. Os jogadas extremamente rápidas e combinadas dos alemães teriam abatido a Inglaterra em qualquer ocasião. Jogo físico, sem rodriguinhos, de uma simplicidade absurdamente eficaz: eis a Mannschaft quase tradicional, no seu máximo esplendor. E escrevo "quase" porque faltou um elemento tão próprio das selecções alemãs vencedoras: o líbero. Beckenbauer, Matthaus e Sammer, comandando as respectivas gerações, mostraram como esta posição indefinida era a peça essencial para o triunfo nas competições internacionais. O último terá sido Olaf Thon, uma peça menos preciosa na nobre linhagem germânica dos líberos. Desta vez, o capitão era um defesa lateral, Lham. Por isso a Alemanha, com todo o seu bloco colectivo, não chegou ao fim.

Mas antes da queda frente à Espanha tiveram tempo de cilindrar a orgulhosa Argentina, depois da goleada à Inglaterra. Mais uma vez o jogo colectivo e mecânico não deu hipóteses às jogadas individuais da turma de Maradona, que para além do superlativo Messi tinha o melhor naipe de avançados da prova. Reeditou-se mais um clássico dos Mundiais (com o seu auge entre os anos oitenta e noventa, quando estas duas equipas dominavam o Mundo), depois dos penaltis de 2006.
Mas um clássico apesar de tudo morno se comparado com o que teria tido lugar caso por milagre de S. Jorge os ingleses tivessem eliminado a Alemanha. Entre argentinos e alemães nunca houve hostilidade mútua, fosse pela comunidade germânica no país das Pampas, pelas relações comerciais estabelecidas entre ambos os países, e pela formação militar de oficiais argentinos na Prússia antes da 1ª Guerra. E não era à toa que muitos refugiados nazis se acolheram na Argentina depois da 2ª Guerra, aproveitando as simpatias germanófilas dos seus líderes, entre os quais Juan Peron.
Já a inimizade entre argentinos e britânicos, como se sabe, incendiou-se depois da Guerra das Malvinas. O jogo da "mão de Deus" e o golo depois de não sei quantas fintas de Maradona tornou-se o ex-líbris dessa inimizade, normalmente ganha pelos sul-americanos, com excepção de 2002, em que os comandados de Beckham venceram de penalti Batistuta & Companhia, deixando ainda mais de rastos um país então em gravíssima crise económica e social, que olhava para os seus jogadores de futebol como portadores de uma redenção que não veio.
Caso se tivessem encontrado novamente, teríamos as provocações em catadupa do rubicundo Maradona a Beckham, no seu fato Savile Row versão urban-chic, sob a fleuma habitual de Capello, Terry a envolver-se com Tevez e Rooney com Demichelis, tensão entre os milhares de adeptos, expulsões em barda e golos de antologia. Em suma, um grande jogo. Pena que não tenha sido possível.

domingo, julho 11, 2010

Um moço de recados desprestigiante


 
Se há político que pelas suas atitudes mancha absolutamente a sua classe, tem um nome em Portugal: José Lello. Mancha que espalha, aliás, reiteradamente, como se nada fosse. Depois de dizer que Manuel Alegre tinha aproveitado voos pagos pelo seu partido para fazer acções de promoção dos seus livros nos Açores (coisa que era mentira), e de vir em socorro a Vital Moreira, quando este acusou o PSD de estar ligado às "roubalheiras do BPN", mandando pelo caminho recadinhos a Maria de Belém quando esta disse não se rever em tais declarações, vem agora com a sua última bojarda. Um projecto recente do Parlamento previa que os deputados viajassem em voos de classe económica em viagens de tempo inferior a três horas, excluindo o Presidente da AR. Todavia, Jaime Gama renunciou à regalia e colocou-se ao nível dos restantes deputados. Não se sabe vindo de onde, Lello surgiu dizendo que seria "desprestigiante"o Presidente da AR não viajar sempre em executiva.

Não sei o que leva a criatura a dizer tantos disparates. Será o porta-voz das coisas que a cúpula pensa e não pode dizer? Terá alguma propensão clínica para a asneira? Ou acumulará tantos ódios de estimação que não se contém e revela-os publicamente? Seja como for, cada vez que fala queima-se publicamente. Estranho que não perceba que a atitude de Gama revela sentido de estado e cai bem na opinião pública. Não sei como Lello se mantém no Parlamento, ou que valia trará actualmente ao PS, mas este ofício de moço dos recados estapafúrdios e trauliteiros (agora a visar o próprio Jaime Gama) não deve trazer muitos votos. Alguém lhe diga, com todas as letras, que desprestigiante é a sua figura quando se lembra de abrir a boca com um microfone à frente.

domingo, julho 04, 2010

O mítico Uruguai revive


E a Celeste ganhou mesmo. Com lesionados e expulsos à mistura, com um estádio todo a puxar pelos adversário, ultrapassou o Gana, depois de estar à beira da eliminação no último minuto do prolongamento. Os seus jogadores voltaram a exibir uma resistência sobre humana às adversidades, que já não mostravam há muito, mas que os levou aos grandes momentos da sua história futebolística.

Também em 1950, na final do Campeonato do Mundo, num Maracanã a abarrotar de gente (o jogo com mais espectadores de sempre), apoiando furiosamente o Brasil, ao qual bastava o empate para se sagrar pela primeira vez campeão mundial, os uruguaios pareciam meros convidados formais, condenados a ser parte de uma mera formalidade a que toda aquela multidão tinha vindo assistir. Mas não era isso que estava escrito, e, comandados pelo capitão Obdúlio Varela, resistindo a um ambiente adverso e a um golo de avanço do Brasil, entraram mesmo na baliza à guarda de Barbosa, pelo grande avançado da equipa Juan Alberto Schiaffino, primeiro, e depois por Ghiggia, que deu a estocada final. O Brasil não mais conseguiu marcar e perdeu a final num silêncio sepulcral, ao passo que os uruguaios, por quem ninguém dava nada, levaram com eles a Taça. Houve suicídios, lágrimas e culpas para muitos, a começar no guarda-redes. Desde então, s selecção brasileira deixou a camisola branca e adoptou o amarelo, com a qual ainda hoje se veste.

O Uruguai ainda disputou as meias finais quatro anos depois, na Suíça, caindo perante a fabulosa Hungria de Puskas. Muitos dos seus jogadores foram depois jogar para Itália e passaram mesmo a jogar pela selecção transalpina, numa altura em que isso era possível, dado que muitos eram filhos de imigrantes italianos. Com isso, a Celeste perdeu a sua força anterior, começou a falhar Mundiais, e só em 1970 voltaria a umas meias finais. Conseguiu-o de novo agora, numa campanha épica e de muito sofrimento. É pouco provável que consiga ir mais além, com uma moralizada Holanda pela frente, e sem alguns elementos importantes, mas se conseguiram vencer o Brasil no Rio de Janeiro, quem é que pode assegurar que os sucessores de Schiaffino & Companhia não voltam a surpreender?

sexta-feira, julho 02, 2010

Clássicos à vista


Entretanto, os jogos dos quartos prometem. Um Brasil-Holanda é sempre apetecível. Em confrontos anteriores, os canarinhos levaram sempre a melhor, mas com enorme dificuldade, em jogos memoráveis (ainda me lembro do de 1994, com Bebeto a inventar uma nova forma de comemorar um golo). Depois, a única equipa africana em prova tenta pela primeira vez chegar às meias finais, mas pela frente aparece uma equipa que em tempos idos sagrou-se campeã mundial por duas vezes. Aliás, agora que Portugal não está em prova, já sei quem vou apoiar.


A escolha é simples: prefiro sempre os clássicos, e este clássico, campeão e anfitrião do primeiro Mundial, em 1930, tem apenas três milhões de habitantes e mede forças com grandes potências. Caso não se supere, o sucedâneo nas minhas escolhas é o seu grande vizinho de baixo, que mede depois forças com os panzers, esses velhos inimigos de finais que até os eliminaram há 4 anos, em penaltys. Será pois o gênio dos rapazes de Maradona contra as arrancadas letais da Mannschaft.

O Adamastor espanhol



Não passámos à fase seguinte, afinal. O adversário também não ajudava. Provou-se que a Espanha é realmente forte, e não o produto de um Campeonato Europeu ganho por mera felicidade. Esta selecção espanhola congrega uma grupo de jogadores que estão no auge das suas capacidades, e quererá mostrar isso aos habituais candidatos ao título mundial.
 

Cair nos oitavos de final perante a Espanha, com apenas um golo sofrido, e depois de se temer o pior na fase de grupos está longe de ser vergonhoso. O que me dá pena nem é a derrota em si, mas a absoluta incapacidade e falta de audácia para tentar dar a volta ao resultado. Portugal não só não atacou depois do golo de Villa como ainda podia ter sofrido mais. Valeu-nos um par de centrais competentes e com experiência, um lateral esquerdo irreverente e um guarda-redes gigante. Fosse a equipa constituída por 11 Eduardos e a história teria acabado de outra maneira.


A primeira razão do desaire é a Espanha ser uma equipa superior. A segunda, quase tão importante, é que Portugal não tem um técnico à altura do evento. Isso já se sabia, mas a passagem aos oitavos camuflou um pouco. Carlos Queiroz não tem autoridade nem consegue fazer alterações necessárias a meio de um jogo, sobretudo quando perde. Ficou provado (espero que definitivamente) que não é de maneira nenhuma um bom treinador principal. Desde a sua passagem pelo Real Madrid que se percebeu isso. A propósito, o treinador de Espanha, Vicente del Bosque, uma velha raposa do futebol, antecedeu-o como técnico dos Merengues, na complicada altura em que os Galácticos queriam sobressair. Ganhou dois campeonatos de Espanha, duas Ligas dos Campeões, uma supertaça europeia e uma Taça Intercontinental. Queiroz deixou a equipa em quarto lugar. Diferença pequena, não é?


Depois tivemos um Cristiano Ronaldo entre o abúlico e o desamparado. Pouco se viu, tirando o "golo de mochila" contra a Coreia e algumas bolas na barra. Fica como o craque desilusão do certame, ao lado de Rooney.


Por fim, há a razão do fado lusitano, desta vez bem personificado. O jogo realizou-se na Cidade do Cabo. No primeiro, o tal contra os norte-coreanos, Madaíl e Queiroz deixaram uma coroa de flores na estátua de Bartolomeu Dias. Uma acção de louvar, rara nestes meios. Mas imediatamente começaram as frases fáceis, como "vamos voltar a ganhar na Boa Esperança e dobrar o Cabo das Tormentas". Se se lembrassem da história, talvez não tivessem invocado o nome do Cabo em vão. Sim, fomos os primeiros europeus a arribar à zona, e Bartolomeu Dias ultrapassou o mítico obstáculo, abrindo o caminho para as Índias. Mas nunca haveria de lá chegar. Acompanhou Vasco da Gama na sua viagem até certo ponto, e em 1500, na expedição de Pedro Álvares Cabral, depois do desvio pelo Brasil, seguiu para Oriente. Ao passar o cabo, as tempestades afundaram quatro navios, entre os quais o de Dias, que pereceu ao largo do Cabo que tinha ultrapassado em primeiro, e que legaria o seu nome à história. As Tormentas com que o tinha baptizado foram-lhe fatais.

Também na nossa segunda passagem pelo Cabo, neste Mundial, acabamos por naufragar, e logo perante o velho adversário castelhano (bem guarnecido de catalães, é certo). A nossa carreira no Campeonato do Mundo teve um estranho paralelo com o destino de Bartolomeu Dias. Os Descobrimentos fazem parte da nossa História, mas o Adamastor pertence à nossa Mitologia, e agora apareceu com vestes castelhanas. Falta-nos é um Camões que reze esta nova e tímida gesta.

terça-feira, junho 29, 2010

Passemos à próxima fase
Passamos o grupo, e isso é que importava. Sem golos sofridos, sem perder contra o Brasil, com um bombardeamento intenso ao território de Kim Jong Il (que pena que não seja de metralha, com o "Querido Líder" à frente), a única dúvida a pesar na consciência é o que acontecerá aos pobres jogadores norte-coreanos.
Emergiram algumas revelações, como um super-sónico Coentrão (espero que não apareça nos próximos tempos algum clube a cobrir a sua cláusula de rescisão) e um super-seguro Eduardo.Queiroz ficou em boa parte reabilitado. O perigo é que se seguirmos em frente, ele pode muito bem continuar no seu posto. Se eu troco a vitória sobre a Espanha pela sua saída? Nunca na vida. Amanhã, o distintivo de campeão europeu em título do adversário é para esquecer; amanhã, só fica um representante da Península Ibérica, e tem de ser o do costa Oeste.

segunda-feira, junho 28, 2010

Notas do S. João 2010

Este ano voltei às folias sanjoaninas, depois de cinco anos de ausência da enorme festa popular. Entre os habituais martelos, os temíveis alhos-porros (um até me cravaram nos olhos!) e as estreantes vuvuzelas, que espero que tenha sido caso único, ficam algumas observações particulares:
- Na pista de helicóptero da Douro Azul, debruçados sobre o rio, entre música, inúmeros barcos e fogo de artifício, havia quem estendesse as suas canas, a pescar. É de pensar se naquelas circunstâncias haveria peixe nas redondezas. Mesmo a pesca amadora tem os seus fanáticos, que nem em plena noite de S. João pousam as canas.
- O coktail de martelos, vuvuzelas e gritaria no túnel da Ribeira é bastante mais ensurdecedor do que uma fila de camiões com música electrónica em altos berros no mesmo espaço. Pasmem, mas é verdade.
- Confirma-se que a ponte Luiz I abana quando é atravessada por multidões. Já me tinham contado que isso se sentia no tabuleiro superior, mas nunca pensei que o inferior oscilasse assim tanto. Quem já sentiu um sismo mediano (como o de Dezembro passado) poderá imaginar a sensação, com a diferença de que é por cima do rio. O tabuleiro inferior abana ao ritmo dos passos que nem um baloiço.
- Lembro-me, quando tinha 17 ou 18 anos, que já o sol se mostrava e havia ainda imensa gente nas praias da Foz. Este ano, no entanto, notei bastante menos pessoas dessa e de outras idades, embora o Molhe não estivesse propriamente vazio. Seria pela manhã encoberta, uma hora mais tardia do que pensava, ou estava simplesmente toldado pela nostalgia do S. João do passado?
Controleiros culturais
Nesta coisa da morte de personalidades ligadas à literatura há sempre episódios menos edificantes por razões extra-literárias. Se o artigo do Observatore Romano era infeliz, que dizer do que se passou com a proposta de voto de pesar pela morte de António Manuel Couto Viana, que antecedeu em poucos dias a de Saramago? O caso passou despercebido, mas Eduardo Pitta resume-o aqui: alguns deputados do PS apresentaram a proposta, mas retiraram-na depois da recusa e dos protestos do Bloco e do PCP com o pretexto de que tinha combatido na Guerra Civil Espanhola ao lado dos Nacionalistas (ou seja, quando era um adolescente). Não sei de onde vem essa desinformação; mesmo que fosse verdade, estou certo de tais partidos que aplaudiriam outrém que fosse veterano das fileiras republicanas (que também cometeram as suas atrocidades). O que é certo é que a mesma gente que se indignou com a ausência de Cavaco Silva no funeral de Saramago vem agora invocar razões políticas - e falsas - para recusar um mero voto de pesar a um vulto respeitável da poesia e do teatro. Um voto de pesar, note-se, não uma homenagem, ou dias de luto. Ficaram claros os argumentos culturais desta gente: se não pertencem à sua trincheira, devem ser esquecidos e ostracizados. É a velha tara marxista de que a arte será sempre um meio para atingir objectivos "sociais", nunca um fim em si. E ainda se atrevem a zurzir quem não se curvou perante Saramago. Mal estiveram igualmente os proponentes, que deviam ter insistido na votação. Mas bom será que este caso não caia no esquecimento, e que seja recordado o seu papel de controleiros culturais quando os excelentíssimos deputados bloquistas e comunistas invocarem qualquer "perseguição" a algum vulto do respectivo "sector intelectual".