sábado, outubro 30, 2010

A guerra eleitoral brasileira - o homem da segurança

E que dizer dos candidatos provindos da polícia? O Coronel Gondim "viu mais bandidagem em dois meses na política do que em 33 anos de polícia militar". E deixa mensagens claras e directas ao eleitorado. Resta saber se a "vagabundagem" a que se refere não seria uma grossa fatia dos eleitores, suficiente para alterar uma votação.

A guerra eleitoral brasileira - Eneas Carneiro
Nas vésperas da segunda volta das presidenciais brasileiras, que vão escolher o novo chefe de estado e de executivo brasileiro (muito provavelmente Dilma roussef, por quem não nutro a menor simpatia, mas isso é outra história), relembro algumas figuras de campanhas anteriores. Nas eleições para os orgãos legislativos e estaduais deste ano muito se falou de Tiririca e da sua campanha ("pior do que tá não fica"), assim como a da "mulher-pêra", de candidatos evangélicos ou da eleição de Romário e Bebeto para o Congresso. Mas a comicidade ou excentricidade das guerras eleitorais brasileiras já vem de longe. Lemas fortes, ideias surpreendentes, dezenas de partidos com momes parecidos ou ideologias ambíguas, de tudo se encontra nas eleições de Vera-Cruz.
Um dos mais destacados era Eneas Carneiro, que aliava uma figura singular a um discurso erudito mas violento e supersónico. Baixo e magro, de enormes óculos de massa, careca e com uma enorme barba negra, Eneas ganhou imensa popularidade e lugares de destaque nas presidenciais, antes de se tornar deputado federal. Ameaçava os corruptos, prometia a bomba atómica para o Brasil e proclamava a suma importância do conhecimento. Era já uma personalidade conhecida em todo o Brasil, até à sua morte, em 2007, de um linfoma. O seu minúsculo partido, o PRONA, não resistiu ao seu desaparecimento e fundiu-se com outro movimento. Mas de Eneas ficaram os discursos inflamados e a sua frase-chave, que o tornou conhecido em todo o Brasil: Meu nome é Eneas!


Eneas Carneiro em 1989

...e a última campanha de Eneas

sexta-feira, outubro 29, 2010

Loucuras em livro
Depois de mais de um ano de cartas atrevidas e bem humoradas enviadas a todo o tipo de entidades (e respectivas respostas, das secas às delirantes), de boa-disposição e seguramente muitos nervos, Mário Dias, a.k.a. João Pinto Costa, vê agora as suas loucuras publicadas em livro. o Mail de um Louco passa ao papel, mas não deixa de estar online. E de todas as formas de humor, o nonsense é sempre um excelente antídoto contra os enfados e as micro-depressões quotidianas. Façam bom proveito.

quinta-feira, outubro 28, 2010

A queda final do Império Romano



Via Delito de Opinião cheguei a este texto pormenorizado, intenso e angustiante, recordando uma dos temas que mais me fascina e me assombra: a queda de Constantinopla às mãos dos Otomanos. Lá encontra-se a magnificência final das cerimónias da igreja oriental e dos Imperadores bizantinos, a defesa desesperada das muralhas pelos seus habitantes, a entrada cataclísmica dos turcos na cidade, perante a qual o Basileus Constantino XI Paleólogo e os seus últimos fieis se atiraram de armas na mão, para perecer juntamente com o império, e todos os massacres, violações, pilhagens e demais atrocidades perpetrados pelos invasores. Para que a leitura ficasse ainda mais completa, aconselharia um texto de Stephan Zweig, incluído numa obra do autor (qualquer coisa como "Momentos Decisivos da Humanidade"), editado recentemente, em que mostra a escassíssima ajuda dos cristãos do ocidente, as técnicas usadas pelos otomanos para ultrapassar a inexpugnável corrente de ferro que fechava o Bósforo e o patético, e autenticamente bizantino descuido que permitiu que os turcos aí entrassem: uma minúscula porta (a Kerkaporta) aberta entre as muralhas, por distracção dos defensores. Assim caiu Constantinopla, e acabou definitivamente o Império Romano, mil anos depois do do ocidente. Uma página negra da história da Europa, que, e por muito que isso desagrade ao senhor Erdogan, convém sempre relembrar.

segunda-feira, outubro 25, 2010

No Conselho de Segurança



Como nem tudo pode ser mau, Portugal conseguiu uma importante vitória externa, ao ser eleito para membro não-permanente do conselho de Segurança da ONU. Com adversários como a Alemanha e o Canadá, ambos membros do G8, a tarefa não era fácil, mas superaram-se as barreiras (e os canadianos). Para isso, tivemos de contar com os votos de países como a China e a Rússia, que por quaisquer razões, porventura estratégicas, preferiram ver Portugal como interlocutor temporário no Conselho de Segurança. Há que agradecer também à Espanha pelo apoio dado e por convencer os estados sul-americanos a votar em nós. Em contrapartida, estados houve da União Europeia que votaram no Canadá. Mais uma prova de que a solidariedade comunitária é mais um véu institucional que outra coisa qualquer.

É certo que os canadianos desistiram antes da terceira ronda, mas apenas porque ficaram muito abaixo de Portugal na segunda rodada. Recorde-se que o Canadá, além de ser membro do G8, é o segundo maior país do Mundo em área e já tinha estado por seis vezes (todas a que se candidatou) no conselho de Segurança.

A importância desta eleição para Portugal é significativa. Para já, porque apesar de tudo mostra que nem tudo corre mal e dá uma pequena balão de oxigénio no amor-próprio. Depois, por causa do prestígio e da imagem externa do país, numa altura em que é acossado por agências de rating e periódicos financeiros. E por fim (esta é a razão porque escrevo agora, quase duas semanas depois do feito), porque pode influenciar a permanência do quartel-general regional da NATO em Portugal, a poucas semanas da cimeira, e cuja saída, perfeitamente plausível, seria prejudicial ao nosso país. É uma indiscutível vitória da diplomacia portuguesa, por muito que isso perturbe os adeptos do "quanto pior, melhor", mais fiéis a esquemas partidários do que ao Bem Comum do país. Agora veremos os frutos que se vão colher. E se Oeiras mantém a sua importância estratégica.

sexta-feira, outubro 22, 2010

O Oeste anda todo ligado
A polícia prendeu hoje no Bombarral um capo da Cosa Nostra siciliana, que estava fugido de Itália. Ao que parece, o indivíduo dedicava-se no nosso país ao mesmo tipo de actividades comuns às máfias, nomeadamente extorsão a empresas. Mas atente-se ao local da detenção: se puxarmos ligeiramente pela memória, damos conta de que há não muito tempo, um elemento da ETA foi preso em Óbidos, ali mesmo ao lado. Não digo que a localização dos dois criminosos não seja uma coincidência; mas pelo sim pelo não, se fosse o ministro Rui Pereira não estava preocupado apenas com a cimeira da NATO e aumentava a vigilância no Oeste: é que não é novidade nenhuma que máfias e organizações terroristas têm estreitas ligações (é ver o que diz Roberto Saviano) e os negócios de uns confundem-se, ou pelo menos favorecem com as actividades de outros. Espero que daqui a pouco tempo não venha a ser descoberto um covil das FARC nas redondezas.

quarta-feira, outubro 20, 2010

O Benfica do presenteAinda não me tinha debruçado aqui sobre o Benfica desta época. Poderá soar a alguma cobardia escrita, tendo em conta o início desastroso da equipa. Na verdade, já há tempos que pretendia falar sobre isso.

Tudo indica que a tempestade inicial já terá passado. Na baliza, o poste Roberto, que tantas piadinhas tem criado aos adversários, parece ter enfim alcançado a serenidade que lhe faltava. Tenho é dúvidas que vá justificar o pesado investimento financeiro nas suas luvas, com prejuízo para Quim. Eu não o teria feito, mas também não tenho estudos nem tarimba de treinador como Jorge Jesus. Fico a pensar que Eduardo poderia não ter rumado a Génova, até porque sempre seria mais um internacional português, mas é capítulo encerrado. quem sabe se daqui a uns tempos Roberto não será um cobiçado guarda-redes.

Na defesa, poucas mudanças subjectivas, mas a intranquilidade parece que se apoderou de David Luiz. Têm sido muitas as falhas ao "macarrão", logo agora que o convocaram para a Canarinha. Coentrão ficou com o elan do Mundial, a atacar e a defender, ao contrário de Maxi, e Luisão está sereno e autoritário. Bastante desiquilíbrio neste sector, como se vê.

Meio-campo: é óbvio que a saída de Ramires não ficou suficientemente compensada. Javi parece uns furos abaixo do ano passado, mas Airton está aí para compensar. Já Aimar está bem e recomenda-se, e quando não tem lesões é uma maravilha vê-lo jogar. Com Carlos Martins passa-se o mesmo, mas este, além das lesões, é constantemente prejudicado pelo geniozinho, que tanto dá para passes do outro mundo como para andar aos berros com os bandeirinhas. Mas o seu potente chuto está aí.

Por fim, o ataque, sector onde o Benfica é tradicionalmente forte e que tantas redes moveu na época passada. Cardoso está ausente (agora literalmente, com a lesão), abúlico, sem convicção; Kardec bem tenta agarrar a oportunidade, mas não é fácil para quem vem de lesão prolongada. Saviola continua a ser o rato atómico, só que tem tido pouca sorte a facturar. Nuno Gomes está lá para mostrar que há "gente da casa" no balneário, e Weldon espera ser tão útil como no último ano. Depois, os reforços: Jara não tem ido ao relvado, e pouco se percebeu do seu valor tirando alguma "raça". Depois, surge-nos um daqueles casos de incompetência corrigida à pressa: emprestaram o promissor Urreta, e quando perceberam que precisavam mesmo de alguém para o lugar do agora merengue Di Maria foram à pressa buscar Sálvio ao Atlético. Sem resultados práticos, até ao momento. Sobra Gaitan; ao contrário do que diz o preclaro arquitecto José António Saraiva, está longe de ser um jogador "banal", e mostra muita técnica e qualidade de passe. Precisa de aprender a jogar à europeia, de ganhar experiência, de rematar com outra calma, e então será de grande qualidade. Mas para isso precisa de tempo...

No campeonato, as coisas parece que estabilizaram. Na Liga dos Campeões, a derrota em Gelsenkirchen obriga a cuidados redobrados. O Benfica entra hoje em campo em Lyon, uma cidade neste momento a ferro e fogo, para defrontar o poderoso Olympique local, hepta-campeão francês nesta década. Empatar seria bom, ganhar magnífico, perder aborrecido, mas longe de ser letal, com os jogos que faltam. O que se quer é que se lembrem do jogo em Marselha do ano passada e que honrem a camisola. Já chega de resultados falhados.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Mineiros, analogias e lições
Já tanto se falou na operação de salvamentos dos mineiros da mina de S. José, no Chile, que pouco mais há a dizer (ou a mostrar). Depois de tantas notícias de desastres relacionados com minas, particularmente na China, é grato pensar que estes ao menos se salvaram, talvez porque todo o Mundo estivesse atento e um país inteiro se tivesse empenhado no seu resgate. A forma como tudo decorreu, e o tempo em que se conseguiu trazer os mineiros à superfície (os primeiros cálculos previam que isso só aconteceria pelo Natal) também é um bom indicador de que o Chile está realmente um país terceiro-mundista, muito embora haja sempre as habituais colagens "latino-americanas". Mas este caso, que pôs o planeta à frente dos ecrãs e que até já está a inspirar Hollywood para um filme - fala-se inclusive em Javier Barden para um dos papeis - recordou-me duas situações que datam de há dez anos: a tragédia do submarino Kursk, imobilizado no fundo dos mares depois de uma explosão, e em que pereceram asfixiados mais de cem marinheiros russos, que o seu país não conseguiu salvar (em parte também pela orgulhosa recusa em aceitar ajuda estrangeira); e, com um final mais feliz mas à custa de muito sangue, a crise em Timor-Leste após o referendo pela independência, quando as milícias pró-indonésias espalharam o terror e a morte, e que levantou uma onda de solidariedade em Portugal para com a antiga colónia. Terá sido a única vez em que António Guterres assumiu por inteiro os seus galões de estadista. Então como agora, viu-se um país unido por uma causa própria. Infelizmente, e ao contrário do que alguns optimistas ainda pensaram na altura, Portugal não mudou para melhor. Talvez o Chile ainda vá a tempos de aproveitar em benefício próprio esta união pelos seus mineiros.

terça-feira, outubro 12, 2010

Hoje, no Delito

Hoje sou o convidado do blogue Delito de Opinião. Respondendo ao seu amável convite, escrevi sobre a visita de Sophia Loren a Lamego, e da sua homenagem no festival de cinema Douro Film Harvest. No fundo, um texto sobre o encontro entre o cinema e uma das mais fantásticas regiões de Portugal.

Resta-me agradecer ao Delito de Opinião (e particularmente ao Pedro Correia), que já por si era um blogue diversificado, mas que consegue sê-lo ainda mais ao permitir que tantos "bloguista" lá escrevam livremente.

domingo, outubro 10, 2010

Um cinco de Outubro em Guimarães

A proclamação de lealdade a D. Duarte, em Guimarães, no dia em que se (deveria) comemora(r) o Tratado de Zamora, em em que as entidades oficiais, mais do que o povo, celebra o "5 de Outubro" de 1910, foi talvez o acto mais marcante dos movimentos monárquicos desde a homenagem às vítimas do Regicídio, em 2008.

(Fotos recolhidas da Guimarães TV)

Fiquei um pouco temeroso à chegada ao Paço dos Duques de Bragança, porque quase só via turistas, até encontrar os primeiros traços do evento e perceber que estavam todos no pátio e salas daquele edifício construído pelo filho de D. João I e fundador da Casa que viria a reinar em Portugal. Não consegui quase ouvir as palavras de D. Duarte, com toda aquela gente, mas acompanhei a marcha que precedeu o momento mais solene. Nela seguia um pouco de tudo: pessoas mais vestidas a rigor, com os seus melhores trajes (alguns com o habitual "bigode retorcido" à finais de oitocentos), outros com um estilo mais fashion, outros ainda de t-shirt com as armas reais; a bandeira azul e branca do liberalismo e as da Restauração; anciãos, jovens, crianças, gente com ar mais institucional ou mais "activista": em suma, para ouvir as palavras do Duque de Bragança estavam pessoas de todo o tipo e de várias zonas do país.


Há já vários anos que não ia a Guimarães (coisa indesculpável para quem vive a apenas cinquenta quilómetros), mas tencionava lá ir antes de 2012, quando a Cidade-Berço for Capital Europeia da Cultura. Surgiu a oportunidade no melhor dia possível. E reconheça-se que é a urbe ideal para uma manifestação monárquica. Todo o enquadramento do centro histórico ajuda, com as suas apertadas ruelas de traço medieval, as casas brasonadas, o granito a espreitar sempre. Os nomes e decoração de alguns bares e restaurantes também ("El-Rei", "Cara e Coroa", etc). Mas a quantidade de bandeiras de D. Afonso Henriques em janelas e varandas espanta; nalguns casos, via-se a bandeira com a cruz de Santiago. As tabuletas com os nomes de alguns estabelecimentos comerciais pareciam estar ali de propósito, com inúmeras alusões aos reis, às armas, etc. E ao espanto inicial dos transeuntes que vinham à janela ver que marcha era aquela começaram a chegar as primeiras palmas e "vivas".

O cortejo continuou até ao largo da Oliveira, onde se ergue o Padrão do Salado, mandado construir por D. Afonso IV para recordar a vitória que lhe deu o cognome de O Bravo, e a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, obra do tempo de D. João I, em agradecimento à vitória de Aljubarrota. Mas naquele espaço, dos mais característicos da cidade, também existe, numa das esquinas o edifício dos antigos paços do concelho, e sob a suas arcadas, que dão para a Praça de Santiago, havia uma mini-exposição da república organizada pelo PCP local. Como os bolcheviques normalmente só apreciam "monarquias" do jaez da Coreia do Norte, uma meia dúzia de camaradas desatou aos berros, dando vivas à república ou contra as "provocações". A marcha acabou aí, com uma evocação à Senhora da Oliveira, e talvez tenha sido a altura ideal, por causa de algumas discussões que se levantaram entre os "provocadores" e os "provocados". Naquele momento, mais uma vez se revelava a tolerância tão democrática dos defensores de 1910, e mais ainda, dos vencidos de 1975. Uma tresloucada fazia exclamações vitoriosas sobre o Regicídio, e um indivíduo com ar de quem trabalha em duvidosas actividades nocturnas inquiria sobre a "legalidade" da manifestação; claro que quando lhe perguntaram onde estava a legalidade das alterações ocorridas em 1910, respondeu com tíbias referências ao "povo".


Acabada a marcha e as histerias que nem por isso a estragaram, andei um pouco por aquela cidade que tanto diz a Portugal. A região tem sido das mais afectadas pelo declínio da indústria portuguesa, há já largos anos, mas conserva a altivez das suas pedras e é prodigioso observar como está arranjada. Do Toural ao Castelo, passando pela alameda de S. Gualter, tudo está limpo e organizado, e por toda a parte se encontram plantas do centro histórico e informações sobre os monumentos relevantes. Antes de partir, ainda vi um traço da cerimónia protagonizada por D. Duarte: uma coroa de flores aos pés da estátua de D. Afonso Henriques. Para muitos vimaranenses, soube-o nesse dia, a nacionalidade nasceu com a batalha de S. Mamede, ali ao lado. Mas a verdade é que se não houvesse o reconhecimento por parte de Castela em Zamora, o país provavelmente não teria passado daí. Deve-o a esse tratado, firmado num longínquo 5 de Outubro.

sexta-feira, outubro 08, 2010

G revelado no Porto

Já tinha deixado aqui no blogue a música, mas entretanto surgiu o respectivo (e soberbo) videoclip do novo single dos Golpes, Vá Lá Senhora, onde têm a companhia de Rui Pregal da Cunha, o carismático vocalista e showman dos Heróis do Mar. Para apresentar as suas novas músicas, Os Golpes deram dois concertos, em Lisboa e no Porto, onde se distribuiu em exclusivo o seu novo "meio CD", intitulado muito simplesmente G, em edição limitada e capa em pele, com a supracitada Vá Lá Senhora logo no início.
Num Hard Club novo em folha, aconchegado no mais que centenário mercado Ferreira Borges, que domina o Infante e a Bolsa, a banda ofereceu um espectáculo que começou morno e acabou em êxtase. Também acabou alagado em suor, por causa da falta de refrigeração, mas nem isso impediu que fosse uma hora e tal extremamente bem conseguida, que teve o seu ponto alto quando Rui Pregal da Cunha (com um traje napoleónico!) entrou em palco, para entoar o novo single, e ainda, como brinde, a velhinha Paixão, dos Heróis do Mar. Como se pode imaginar, a sala ficou ainda mais ao rubro. E deu para perceber que Os Golpes já têm um pequeno culto atrás de si, e que a sua pose revivalista e as suas referências dos anos oitenta - uma delas, por sinal, estava ali em carne e osso - os vão continuar a caracterizar e acompanhar, na sua Marcha levada pela nova vaga de música pop cantada em português.

Ah, e o "meio cd" limitado a quem fosse aos concertos, com o nome gravado no couro, G, além de ser muito bonito a nível estético (o cd em si parece personalizado para aquele concerto, com uma ponte D. Luiz gravada), será com certeza um dia uma peça de colecção, extremamente difícil de encontrar. Espero conservá-lo, nesses tempos, para me recordar deste concerto dos Golpes numa noite chuvosa, no velhinho Ferreira Borges.


terça-feira, outubro 05, 2010

Descomemoremos

Vejo comemorações largas pelas praças do meu país. Há paradas, discursos oficiais, musicata, teatrada, desportos radicais, etc. Dizem eles que comemoram a "implantação da república". Mas comemoram o quê, exactamente? A tomada do poder violenta por parte de insurrectos, apoiados num partido que tinha 7% dos votos em eleições gerais. E o regime fundado por esse partido, que usurpou as cores à bandeira nacional, impondo as suas; que destruiu todo quanto era símbolo de Portugal (vá lá, deixaram as quinas); que diminuiu o universo de eleitores, permitiu o direito à greve mas voltou a proibi-lo quando começaram a ser demais, meteu os opositores na cadeia, reagiu ao tiro, partiu as redacções de jornais que lhe eram adversos e nunca cumpriu as suas promessas sociais. Como se não bastasse, perseguiu os católicos e enfiou o país num guerra sangrenta, para a qual não estava preparado, e que num só dia ceifou milhares de vidas nas lamacentas trincheiras da Flandres.


Isso, e muito mais, é o resultado do que se comemora hoje. Uma comemoração marcada pela propaganda massiva e pela falta de memória. A única coisa que se pode fazer hoje para atenuar é deixar à vista a verdadeira bandeira de Portugal.

domingo, outubro 03, 2010

Sobre os restos da festa outubrina, o Rei
Juan Carlos de Espanha prepara nova visita a Portugal, no dia 6. Não deixa de ter a sua piada pensar que depois do 5 de Outubro vem aí o Rei . Sempre é um bom prenúncio.

sábado, outubro 02, 2010

Os tempos mudam, o pop-rock também
Coimbra está uma rebaldaria inédita por causa do duplo concerto dos U2. É certo que os Rolling Stones também já por lá passaram (até inauguraram o estádio), mas era só uma noite. Desta vez, o quarteto de Dublin leva dezenas de milhares à Lusa Atenas, para ver o seu palco aracnídeo e o espectáculo megalómano. Nunca vi os U2, e ainda tive ideias de ir a um dos concertos, mas a loucura em seu redor (até com fanáticos a querer ir aos dois dias), a falta de paciência para estar horas para comprar um bilhete para daí a um ano e o elevado preço dos que restavam tirou-me quaisquer veleidades. Fico por isso à espera de futuras digressões, com esperança que depois de Vilar de Mouros, em 1982, e as tournées da Zoo TV, Pop, a de 2005 e esta, queiram regressar e haja mais bilhetes disponíveis.
Só que o cartaz de concertos de bandas pop-rock e afins em Portugal não se fica pelos U2. Não faltam espectáculos para todos os gostos nos tempos mais próximos. E se os U2 têm a mesma popularidade que há vinte anos, outros há que decresceram, embora o seu nome continue a arrastar multidões, casos do R.E.M., que mereciam mais, e dos Gun n´Roses. Como muitos se recordarão, os Guns foram a banda mais popular de início do anos noventa, e levaram milhares a Alvalade, em 1992, num concerto atribulado. Agora, Axel Rose e nova companhia regressam a Portugal , ao Pavilhão Atlântico, no dia 6. Se fosse há 15 anos, provavelmente precisariam de um dois estádios. Muita gente deve dar graças a Deus e ao passar dos tempos: é que se os concertos das duas bandas coincidissem na mesma semana em princípios dos anos noventa, teriam de fazer contas à vida e lá se ia metade do orçamento nos primeiros dias do mês.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Ainda em Inglaterra, a contenda entre irmãos



Na luta fratricida pela liderança do Partido Trabalhista, recentemente caído do poder, Ed Miliband bateu com alguma surpresa o seu irmão mais velho (e mediático), David, que esteve à frente da política externa britânica no governo de Gordon Brown. Ed pertence à ala esquerda do partido, e ganhou a contenda com o apoio dos sindicatos, que ainda têm peso considerável no partido, se bem que algo esvaziado nos últimos quinze anos. Adivinha-se que seja a martelada final no New Labour, personificado em Tony Blair. Ainda assim, Miliband tenta descolar da imagem esquerdista com que está rotulado. É naturalíssimo que o faça. Provavelmente começou a interessar-se pela política no início da adolescência, quando o Labour sofreu uma das suas piores derrotas sob a liderança de Michael Foot, morto há apenas uns meses, e que foi o líder mais esquerdista do partido de que há memória. Depois dessa inclinação para a esquerda, Neil Kinnock começou a puxar os trabalhistas para o centro, até que o malogrado John Smith, Blair e Brown enveredaram definitivamente pelo Third Way, com o sucesso que se conhece. Ed tem a sombra do seu pai, o intelectual marxista Ralph Miliband, a toldar-lhe qualquer eventual aproximação aos eleitores mais centristas. Resta-lhe esperar que parte do eleitorado liberal se aborreça com a coligação com os conservadores e se vire para este new old Labour.

quarta-feira, setembro 29, 2010

A papafobia britânica

O Papa Bento XVI regressou a Roma da sua visita ao Reino Unido sem qualquer tentativa de prisão, atentado terrorista ou ataque isolado. Já não nada é mau.

Aproveitou-se um pouco de tudo para criticar a visita: os gastos com o acontecimento em si, a memória histórica, os casos de pedofilia recentemente encontrados, medo de proselitismo, etc. Os conhecidos militantes radicais ateístas Dawkins e Hitchens tentaram obter um mandato de captura de Bento XVI por "cometer crimes contra a humanidade" e não "ser um chefe de estado reconhecido", apesar de haver relações diplomáticas entre o Reino Unido e o Vaticano (ou não havia visita, tout court). Conseguiu-se, durante os dias em que o Sumo Pontífice permaneceu nas ilhas britânicas, organizar autênticas manifestações com toda uma coligação negativa anti-papista, reunindo associações ateístas e seculares, activistas dos "direitos da mulher", famílias de vítimas da pedofilia, nacionalistas ingleses e protestantes fanáticos, como o Reverendo Paisley, que em tempos dirigiu-se a João Paulo II no Parlamento Europeu, bradando que o Papa era o "Anticristo". O perfeito contraste com a visita papal de Maio a Portugal.
O Reino Unido tem os seus paradoxos. O puritanismo e a rigidez vitoriana são do mesmo país onde nasceram a pop e o punk. Em terras em que o parlamentarismo tem tantas raízes, ainda subsiste o espírito catolofóbico criado no século XVI por Henrique VIII. Sabia que os ingleses tinham um sentimento anti-católico, mas não ao nível do que se viu - ou do que se falou. Aos casos de pedofilia na Igreja Católica juntou-se a polémica dos gastos com as visitas, as "causas fracturantes", a beatificação de John Henry Newman, e todas as causas possíveis para justificar um poderoso sentimento anti-católico, tido como manifestação de liberdade contra as "trevas". Uma liberdade legada por um tiranete como Henrique VIII, que por razões políticas e libertinas, rompeu com a Igreja de Roma. Depois, os católicos foram perseguidos e afastados, com métodos tão cruéis como os da Inquisição, até praticamente ao século XIX, com algumas notórias excepções por razões políticas, como o casamento de Carlos II com Dona Catarina de Bragança. Ainda assim, membro da família real que por qualquer razão se aproximasse do catolicismo seria excluído da sucessão. Mas mesmo a partir de oitocentos, em que os seus direitos foram sendo progressivamente reconhecidos, nem assim deixaram de ser vistos como inferiores pelos britânicos. Os irlandeses desde Crommwell que foram tratados como gente de terceira. Oscar Wilde sofreu humilhações e o calabouço não somente pelas suas provocações e libertinagem, mas também por ser católico e irlandês.


O anti-catolicismo oficial que durava desde o início da igreja inglesa esbateu-se, mas existe. Quando o príncipe de Gales esteve presente nas cerimónias fúnebres de João Paulo II, ouviu críticas por causa da "submissão à igreja de Roma". Curiosamente, sendo o Reino Unido um estado oficialmente Anglicano, é também um dos que mais se afasta da prática religiosa. A igreja que a Rainha chefia tem enfraquecido, cedendo ao multiculturalismo reinante e a novas práticas e credos. Os ingleses conservam-na como uma tradição, mas a sua heterodoxia afasta-os. Talvez seja por irem em busca de algo mais que surgiram alguns interessantes grupos de católicos ingleses, como a tendência que tocou alguns escritores contemporâneos - Greene, Chesterton e Waugh, para destacar os mais conhecidos. Mas apesar disso, e de um crescente número de católicos, vê-se um anti-papismo que não há em mais país nenhum na Europa. Tradição enraizada, inimizades históricas, medo de que o Bispo de Roma seja um mentor do IRA ou de proselitismo? Ou a ideia de ver um Papa católico e alemão a ser recebido pela Rainha é duplamente dolorosa? Confesso que não sei qual será exactamente a raíz do problema, e que essa aversão mais histórica que social devia ser matéria de estudo mais aprofundado. O que sei é que Bento XVI falou mais contundentemente dos casos de pedofilia na Igreja, encontrou-se com as suas vítimas, homenageou os caídos na batalha na luta contra o nazismo (que provinha, não nos esqueçamos, do seu país) e beatificou John Henry Newman, e conseguiu voltar para Roma sem uma beliscadura. Convenhamos que para um Papa, alemão e que lutou na Segunda Guerra com o uniforme da Whermacht, é uma missão cumprida digna de Hércules.

sábado, setembro 25, 2010

Opostos que se atraem

Olho para as manifestações em França, contra o aumento da idade da reforma para os sessenta e dois anos, que levam atrás de si multidões em protesto. Ouvem-se acusações de "neoliberais", "fascismo", "atentados aos direitos inalienáveis" e ao "estado social", etc. Parece-me tudo um perfeito exagero, mas aquelas multidões socorrem-se de argumentos datados, ignorando a realidade, vituperando quem a contradiga. Em França, isto é perfeitamente comum. Então lembro-me de um movimento novo, do lado de lá do Atlântico, de ideias e lógica opostas. O Tea Party americano acusa Obama de ser "socialista" por causa do seu novo plano nacional de saúde, de ser um soviético encapotado (e para alguns, muçulmano), de querer subjugar a sociedade civil a um estado omnipresente, etc. Os sindicalistas franceses e os redneck americanos podem estar de lados diferentes da barricada e do oceano, mas na retórica, nas ideias fixas e no anti-pluralismo são assustadoramente parecidos.


Voltarei ao tema da França em breve.

sexta-feira, setembro 17, 2010

O fim do Arsenal em Braga?


Os resultados das equipas portuguesas nas competições europeias foram pouco surpreendentes: as equipas grandes e experientes venceram adversários inferiores, e a equipa mais "pequena" e inexperiente perdeu com uma equipa de nome sonante. Mas é curioso pensar que neste último caso o Sporting de Braga estreou-se na milionária Liga dos Campeões (coisa que há meia dúzia de anos seria impensável) em casa do clube ao qual roubou as cores e a camisola, o Arsenal de Londres. Durante muitos anos, os jogadores e os adeptos do Braga foram conhecidos como "arsenalistas" e tiveram mesmo, por breves tempos, uma equipa B chamada Arsenal de Braga. Agora, os gunners de Arsène Wenger fizeram-se pagar pela imitação e deram implacável meia dúzia de golos aos pobres bracarenses, que apesar do brilhante triunfo de Sevilha, mostraram ser ainda muito inexperientes nestas andanças europeias, revelando um medo cénico (também conhecido como "síndrome Tavares") fatal. Será que depois da goleada passaremos definitivamente a ouvir falar dos braguistas ou a expressão arsenalistas continuará a ser empregue, podendo sempre trazer negras recordações, a ser usadas pelos adversários em futuras discussões em que cada uma puxará da memória a derrota mais humilhante do outro?

quarta-feira, setembro 15, 2010

O aterro federativo
O outro caso da época, evidentemente, é o da novela da Selecção, que parece estar perto do fim, se bem que pouco feliz. Nunca fui adepto de Carlos Queiroz, e só desejava que ele tivesse ficado há dois anos em Manchester, a planear tranquilamente as tácticas de Sir Alex, sem se maçar em ir para o relvado. Mas já que o contrataram por quatro anos (supremo disparate), ficava-se com ele até ao término do contrato. O Mundial foi modestozinho, mas sempre passamos a fase de grupos, e cumpridos os mínimos, o técnico deveria permanecer. A história dos testes antidoping e das discussões de Queiroz na Covilhã são uma pretexto mal disfarçado para o pôr fora sem lhe pagar muito. Se servisse para alguma coisa, seria bom recordar que deve haver um mínimo de ética e que a Federação é que resolveu ir buscar o ex-seleccionador. A partida que lhe fizeram é demasiado indecente para passar sem mais. Como é óbvio, os chicos-espertos federativos estão-se a marimbar para tudo isso e querem é livrar-se do homem por qualquer meio, com a cumplicidade bem explícito do bonzo Laurentino. O que se segue é facilmente previsível: contrata-se novo técnico, dá-se uma indemnização - que remédio - a Queiroz e tenta-se apanhar os cacos dos primeiros jogos da equipa nacional para o Europeu de 2012. Só que todo este caso já

a causou mossa, como se viu no pontinho ganho em dois jogos, num vergonhoso empate caseiro com Chipre, que nos marcaram quatro golos. E parece-me que nem Paulo Bento, o mais que provável futuro seleccionador, possa vir a trazer qualquer tipo de tranquilidade à equipa.


O maior drama é pensar que os actuais elementos federativos (Madaíl, o inamovível Amândio de Carvalho, etc) vão permanecer no cargo. Isso mesmo afirmou Lourenço Pinto, presidente a Associação de Futebol do Porto, que assegurou que todas as associações distritais estão com Madaíl. conclusão: não haverá sequer espaço para candidaturas diferentes, e teremos que gramar com a tralha federativa toda, fazendo campanha pelo aviltante e parolo "mundial ibérico" e figas pela qualificação para a Polónia/Ucrânia, com o beneplácito do dispensável Laurentino Dias. Ah, não haver um "Apito Dourado" na Federação, com resultados palpáveis, para tapar esse autêntico aterro sanitário desportivo

sexta-feira, setembro 10, 2010

As trevas da Casa Pia
Ao fim de oito anos, tivemos finalmente a sentença do Processo Casa Pia. Tempo a mais, mas surtiu os seus efeitos, ainda que em primeira instância. Para além das vítimas, dos acusados e de todos os outros que de outra forma estavam ligados ao caso, o dia da sentença terá sido fantástico para donas de casa, transeuntes de Moscavide, e sobretudo para a comunicação social, no seu todo. Provavelmente, estes últimos só terão tido pena de não ser possível um exclusivo, a ser atribuído a quem pagasse mais. De qualquer forma, o que ficou destes dias, além de um resultado concreto, terá sido o imenso eco propagado pelas queixas dos condenados, em especial de Carlos Cruz, que não é à toa que é conhecido como o "Senhor Televisão". Dele e do seu advogado Ricardo Sá Fernandes ouviram-se queixas, lágrimas, recriminações, etc. Mas retive a expressão usada após a leitura da sentença: esta era, segundo Sá Fernandes, "o reino das trevas". Ora Carlos Cruz poderá dizer o que quiser em sua defesa, dentro de certos limites verbais, que foram claramente ultrapassados. Mas, inocente ou culpado, é bom não esquecer que o processo existiu porque ao longo dos anos inúmeras crianças sem família nem ninguém que as protegesse foram submetidas a sevícias e terrores que as marcaram para sempre. Foram as autênticas vítimas, e não houve televisões que se compadecessem da sua tortura permanente. Isso sim, é o autêntico reino das trevas. Finalmente encontraram quem as ouvisse.